sexta-feira, 25 de junho de 2010

Férias

Estarei de férias esta semana que vem. Irei para a praia. Deixo-vos com esta bela marinha do pintor João Vaz, que se encontra na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, aqui em Lisboa. Sempre gostei de marinhas e lamento não ter dinheiro para poder comprar uma boa tela representando o mar. Gosto muito desta em particular porque me recorda o litoral Oeste, mais exactamente a praia da Légua, a Norte da Nazaré, onde fui muitas vezes com o meu filho Henrique. Neste quadro parece estar gravado um tempo onde tinha o meu filho mais perto de mim.

Um dia perdeu um boneco que adorava nesta praia, um Tarzan de plástico comprado na loja dos 300. Depois de procurar inutilmente o brinquedo, ficou muito desgostoso, quando o forcei a a abandonar as buscas e vestirmo-nos para ir para a casa.


Passados dois dias voltámos a praia e a primeira coisa que o Henrique descobre na areia é o Tarzan. Ficou tão feliz. Este quadro lembra-me a sua alegria.

terça-feira, 22 de junho de 2010

José Maria Ferreira Montalvão: rascunho de memórias por um bisneto que não o conheceu


Quando o meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão (19-05-1878/24-5-1965) morreu tinha eu acabado de dar os primeiros passos e não guardo nenhuma recordação dele. Durante muitos anos, achei que me lembrava do meu bisavô, uma figura patriarcal de barbas brancas, junto a um automóvel muito antigo. Hoje, sei que esse senhor velhinho era uma figura que eu compunha na minha imaginação, para ilustrar as centenas de histórias que me contaram acerca dele durante a infância.

O meu pai adorava o seu avô. Foi criado com ele até aos seis anos no Solar de Outeiro Seco e depois passou todas as suas férias da meninice e juventude naquela grande casa. As grandes casas rurais, com extensas propriedades são ideais para proporcionar a felicidade às crianças e o meu pai guardou daqueles tempos e do avô memórias impressionantes, que transmitiu aos filhos, vezes sem conta, e nós nunca nos importávamos de ouvi-las, ainda que já as fossemos conhecendo de cor.

Guardei assim um retrato mais ou menos idealizado do meu bisavô paterno traçado pelo meu pai, a que se somava a ideia romântica de o imaginar como o último habitante do solar, o derradeiro representante de um regime agrícola e social do antigo regime. Aliás, o meu bisavô tinha consciência disso e dizia-se muitas vezes ao seu neto, o meu pai, que era o último dos Montalvões.

O meu bisavô era filho de uma relação ilegítima entre uma Senhora Fidalga, a Maria do Espírito Santo (2-5-1856/18-3-1902) e de um pregador muito conhecido na época, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio. Foi pois concebido com amor e certamente com paixão, o que talvez lhe tenha imprimido no seu carácter um certo gosto pelas coisas boas da vida, que possivelmente lhe faltaria, se fosse fruto de um casamento legal e conveniente, mas infeliz.
Relativamente à sua infância, Montalvão Machado (1888-1968) no seu livro 5 contos …em moeda corrente. . - Porto: Livraria Progredior, 1961, que narra com muitos devaneios literários (o que por vezes nos leva a duvidar da autenticidade das suas informações) os amores de Maria do Espírito Santo e Liberal Sampaio, adianta que o filho dos dois foi educado discretamente fora do Solar e só passado alguns anos, de forma igualmente discreta começou aos poucos a viver com a sua mãe. Na época, estas coisas eram frequentes e a bastardia era coisa corriqueira. Por exemplo, os dois maiores vultos da literatura portuguesa do Século XIX, Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz eram filhos ilegítimos. Como já expliquei noutros posts, a bastardia só se tornou uma ignomínia no século XX, durante o salazarismo, em que os costumes se apertaram.

Pelo retrato feliz que o meu pai traça do seu avô, não me parece que tenha sido um homem muito afectado pelo facto ser filho ilegítimo.

Na sua infância terá tido alguma doença grave, a que sobreviveu, pois a sua mãe fez uma promessa à Senhora da Azinheira e até aos quinze anos saiu vestido de anjinho na procissão, o que deve ter sido uma chatice para ele, apesar de aqueles tempos serem de profunda e inquestionável fé.

Em 1885, vai para Coimbra estudar e essa primeira viagem deve ter sido memorável para um miudinho de 7 anos. Terá ido a cavalo ou de Mula até à Régua, onde tomou por sua vez o caminho-de-ferro até ao Porto e depois finalmente até Coimbra. Informo-vos que a linha de comboio só chegou a Chaves em 1921!

Em Coimbra, ficará com o padre José Rodrigues Liberal Sampaio, que se encontrava também naquela cidade a fazer estudos universitários. Parece-nos pois o que Liberal Sampaio não se escusava às funções de pai.

No ano de 1897, o José Maria Ferreira Montalvão iniciou o curso de Direito na Universidade de Coimbra e terminou-o a 8-7-1902. Do seu curso fizeram parte nomes conhecidos como João Ulrich, Augusto de Castro, João Lúcio, Pires de Lima, João de Deus Ramos. Seria interessante consultar os espólios destes Senhores para encontrar fotografias de grupo de licenciatura, bem como cartas escritas pelo meu avô.
Pouco meses antes de terminar o curso, a 18 de Março morreu a sua Mãe, a Maria do Espírito Santo. Este acontecimento teve uma importância grave na vida destas pessoas que descrevo, pois três dias depois, o José Rodrigues Liberal Sampaio reconheceu publicamente na Conservatória seu o filho. Este facto permaneceu ignorado pela família até há bem pouco tempo. Foi a paciência do meu pai que o trouxe a luz do nosso conhecimento.
Em 1903 casa com 25 anos com uma senhora filha da melhor burguesia flaviense, a minha bisavô, Ana da Conceição Morais Alves, a irmã da tia Marica, de quem já falei aqui e deste matrimónio resultarão sete filhos, entre os quais se encontra a minha avô paterna, Maria do Espírito Santo, ou a Mimi.


O meu avô irá desenvolver a sua carreira na região de Chaves como magistrado, primeiro em Boticas e depois em Valpaços, mas segundo o meu pai, nunca sentiu grande gosto na profissão. Preferia de longe a administração da sua grande casa rural de Outeiro Seco. Creio que era um homem que se identificava com o campo e os formalismos jurídicos dos tribunais e a papelada oficial deviam aborrece-lo. Preferia certamente ver as árvores crescerem, acompanhar aqueles rituais rurais que se repetem eternamente como as sementeiras, as vindimas, ou as colheitas e falar com os camponeses, perguntar-lhe pelos filhos e falar na colheita da batata deste ano e como foi o ano passado e antigamente é que era.


No campo, o meu bisavô adorava também o prazer de caçar. Há imensas fotografia dele e da família em trajes de caçadores e com a bicharada que apanhavam. Era também um belíssimo garfo e comeu e bebeu bem até aos últimos anos da sua vida e morreu tarde com 87 anos. A mesa e os seus prazeres eram qualquer coisa de sagrado para ele. Dizia muitas vezes que quando estava sentado à mesa, não se levantava, nem que viesse o Rei (enfim, o meu bisavô era monárquico, embora não tivesse desenvolvido actividade política como o pai), Também, a sua mulher, a minha bisavô Aninhas era uma cozinheira esplêndida, que adorava ver os outros bem alimentados, apesar de ter passado anos numa dieta terrível e rigorosa, prescrita pelo médico por causa dum problema qualquer de saúde.



A impressão geral que se fica deste homem é que gostava da vida, dos prazeres da existência rural, da caça e da boa mesa.


O seu lado mais cómico era sem dúvida o da condução. Gostava de automóveis e no entanto era uma negação para o volante. O seu primeiro carro, um Darracq, modelo de 1901, comprado em segunda mão, (a fotografia apresenta o modelo original, que se conservou nas mãos da família) foi o primeiro veículo a ser visto em Chaves e deve ter sido um acontecimento tal, que catapultou num minuto os flavienses para a modernidade de Paris, a cidade da Luz. Depois teve um Opel, enorme, de 1931, com qual matou inúmeros coelhos, galinhas gatos e cães e tenho ideia de até ter ouvido falar dum burro! Contudo, indemnizava sempre escrupulosamente os proprietários dos bichos. Mesmo assim, não viajava sozinho e costumava levar o meu pai ou um dos criados para lhe servir de co-piloto. Tentou tirar também a carta várias vezes, mas parece que a coisa era de tal ordem, que os examinadores não hesitavam em reprova-lo, mesmo correndo no risco de desagradar a um dos maiores proprietários do Distrito de Vila Real. Conta-se que num dos exames, o júri mandou-o fazer uma marcha-atrás. O meu avô respondeu-lhe que não havia necessidade nenhuma de fazer marcha-atrás, que ele era muito rico para gastar dinheiro em gasolina e podia muito bem ir dar a volta toda aquela praça lá ao fundo, para voltar para trás.





O meu avô não herdou o gosto pela cultura do seu pai, o Liberal Sampaio. Não terá aproveitado como deve ser a esplêndida biblioteca, pejada de edições valiosas e interessantes da casa. Alias, só a sua filha, a minha avô Mimi, herdou a inclinação para as coisas mais espirituais do Padre Rodrigues Liberal Sampaio, um homem cheio de erudição.
O José Maria Ferreira Montalvão era também aquilo que nós hoje chamaríamos um bota-de-elástico, avesso a modernices e ao progresso tecnológico. Nunca instalou electricidade, nem água canalizada, nem mandou construir uma casa-de-banho no Solar de Outeiro Seco. Quando era preciso arranjar alguma coisa na casa, mandava sempre fazer um remendo ou arranjar uma solução provisória. Também nunca quis investir na indústria da telha, que ia crescendo nos arredores de Chaves e preferia cuidar dos seus campos, repetindo rituais herdados dos seus antepassados.

Este é o retrato que consegui traçar a partir das memórias e dos registos compilados pelo meu pai. Por vezes, experimentei dúvidas sobre a sua inteira veracidade, pois a admiração que o meu pai tem pela memória do avô pode-se facilmente definir-se por incondicional. Contudo, nos últimos tempos, o Humberto Ferreira, tem-me escrito, transmitindo-me as opiniões e as histórias que correm ainda em Outeiro Seco sobre o meu bisavô, passados 45 anos sobre a sua morte e que confirmam uma certa imagem de grandeza de carácter, transmitida pelo meu pai. As pessoas da aldeia falam com respeito do “Montalvão Velho”, que sabia ser justo e caritativo. Transcrevo aqui alguns testemunhos recolhidos ao acaso, nas muitas informações que o Humberto fez o favor de me enviar

Naqueles tempos a fome sentava à mesa de muitos dos nossos antepassados (da aldeia), havia muitas dificuldades e como eles dizem, ao chegar ao meio do ano já não tinham o que comer.

Então o Dr. Montalvão vendia centeio ou emprestava-o para que as famílias pudessem cozer o seu pão. Também fazia o mesmo em relação às batatas.

Também contam que pela época do Natal, o Dr. Montalvão mandava distribuir uma esmola pelas famílias pobres da aldeia que constava de um quartilho de azeite e um pão (e por vezes, também batatas). Quem estava incumbido de executar a tarefa de distribuir essas esmolas era o Sr. Lépido Ferrador.”

Ainda sobre esta esmola do Natal, diz-se que estando já muito doente no Hospital, pedia insistentemente para sair, porque os pobres precisavam da esmola dele.


Como conclusão, podemos arriscar que a sua morte, em 1965, com 87 anos, é mais do que falecimento de um homem com uma existência feliz, marca também o fim de uma grande casa agrícola, cujo modo de produção e vivência vinha praticamente da Idade Média. O seu desaparecimento significou a partilha da grande propriedade e a venda do solar, que entrou numa triste e imparável ruína.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Pequena e venerável jarra em chumbo

Esta pequena jarrinha em chumbo foi a minha última compra. Não sei de que período é. Se é da Renascença, de Roma, do Século XVII ou XVIII ou talvez seja apenas uma boa cópia?

Ainda que esta peça seja eventualmente uma réplica, os 20 euros(!) que paguei por ela justificam plenamente a compra.

No final do ano passado estive em Mérida, onde há uma pequena loja maravilhosa, em que o proprietário, um senhor francês se dedica a fazer e a vender réplicas de antigos bronzes, cerâmicas e vidros romanos numa qualidade fantástica. O único problema da loja são os preços. A réplica de uma pequena estatueta em bronze custa 200 euros, um frasquinho de vidro oxidado vale 600 euros e uma lucerna de terracota é vendida por 60 euros. É verdade que as patinas que o artificie lhes dá são completamente credíveis. Por exemplo, as estatuetas em bronze são enterradas durante dois anos para ganharem verdete. Convido-vos a visitar o site desta oficina http://www.bronceromano.com/ e ficarão encantados, sobretudo com as esculturas de bronze. Mas, não dá para comprar lá nada, a não ser que se seja milionário.

Por essas razões, esta minha peça foi quase dada e os pormenores são deliciosos. O gargalo com a forma de uma ave é muito elegante e curioso. A pega é também delicada e todo o conjunto respira requinte. Parece-me ser um recipiente para guardar unguentos e por isso talvez fosse propriedade de uma Senhora. Ali guardaria um creme ou uma tinta para pintar os olhos.

Ficou arrumado numa estante de acrílico, ao lado dumas réplicas duns vidros romanos comprados em Barcelona, com os quais casou muito bem

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Pequeno oratório neogótico com Cristo


Sendo um homem sem fé, não sei exactamente porque encho a casa com Cristos. Talvez, por pertencer aquela geração dos anos 80, de que a cantora Madonna se tornou um símbolo, ao vestir-se de preto, como as velhas das aldeias sicilianas ou portuguesas e se enfeitou com crucifixos nas roupas, nas orelhas, nos cabelos e no peito. Creio no entanto que com os Cristos e a arte sacra a espalharem-se de forma invasiva pelo meu apartamento, procuro rodear-me dum ambiente diferente, que me transporta a casas de vilas e aldeias portuguesas do passado ou aquele ambiente barroco e carregado das nossas igrejas. Decorei a minha casa de uma forma completamente alheia à moda e ninguém ali encontrará qualquer coisa dos ambientes minimalistas, que imperam na decoração contemporânea. Uma casa é um refúgio e na minha procuro esquecer, que há um tempo lá fora em Portugal que é profundamente agressivo para o cidadão.
Enfim, hoje deu-me para isto. Mas o meu objectivo é falar deste pequeno oratório, em forma de capela gótica, que comprei por pouco dinheiro, numa casa de velharias ali para o Bairro das Colónias. Deve ser uma coisa do século XX, talvez dos anos 20, 30 ou até mesmo 40 ou 50. Esteve muito tempo pendurado na minha casa só com uma estampa religiosa. Depois, o meu amigo Manel, teve a gentileza de oferecer-me mais um Cristo, com a medida certa do oratório, pois apercebeu-se que na minha casa ainda não existiam imagens do Nazareno em número suficiente. O oratório foi depois forrado com os restos de um tecido de Damasco que o Manel me deu e o resultado ficou bastante convincente.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Tentando fazer as pedras falar sem êxito: o brasão dos Montalvões


Como referi anteriormente, o verdadeiro brasão dos Montalvões esteve em tempos numa casa em Vila Meã, aldeia do Concelho de Chaves e depois, andou por ali perto, em Outeiro Seco. A certa altura houve partilhas e nos anos 40 a pedra de armas encontrava-se no jardim duma vivenda na linha do Estoril, em casa de Maria Alda Montalvão Santos Silva (nº 327). Esta história é contada por José Timóteo Montalvão Machado nas obras os Montalvões e o Capitão de Vila Frade e é repetida por Firmino Aires no artigo O Solar dos Montalvões, publicado pela revista Outeiro Seco, da Casa de cultura de Outeiro Seco, Novembro de 1990.


A minha primeira pergunta é porque é que houve um brasão dos Ferreira Montalvão em Vila Meã, se a família parece ter vivido quase sempre em Vila Frade e depois também em Outeiro Seco. Consultei o site http://www.montalvao.xpg.com.br/, uma coisa estupenda feita por uns primos do Brasil, que digitalizaram integralmente livro dos Montalvões e fiz uma pesquisa por Vila Meã, para tentar perceber que antepassados viveram na casa dessa aldeia e o resultado foi decepcionante.

O único parente que lá residiu seguramente foi um tal António Vicente Ferreira Montalvão(1776-1838). Com o nº 31 da árvore genealógica da família, este senhor era o filho benjamim daquele celebre matrimónio entre o Capitão de Cavalos Álvares Ferreira, proprietário de Outeiro Seco e a Antónia Maria Maria de Montalvão Morais. Como o era o mais novo foi destinado a padre e a certa altura da sua vida passou a residir em Vila Meã, propriedade legada pelo seu pai, o referido capitão de cavalos. Terá vivido nesta povoação, naquilo que hoje se designa na aldeia por “casa dos padres”. Ao que parece Vila Meã foi um curato e paróquia no princípio do século XVIII e seria aqui que residiu António Vicente Ferreira Montalvão, até 1838, data em que faleceu.

Mas porque motivo um cura mandou por pedras de armas na sua casa?
Era muito frequente os bispos e altos dignatários da Igreja encomendarem pedras de armas para os seus palácios. Mas um simples padre, ainda que de uma família fidalga, parece-me um exagero.

Segundo o mesmo livro, os Montalvões, nos anos 40, a propriedade de Vila Meã estava nas mãos duns sobrinhos, os Montalvões Machados (n° 400 e 402). Portanto, presumo que o António Vicente, quando faleceu sem filhos deixou os seus bens ao filho do irmão João Manuel (28), que tinha exactamente o seu nome, António Vicente (nº 395), o que nos leva a crer que deveria ser seu afilhado. Este seu sobrinho tornou-se conhecido por Capitão Vila Frade (1809-1894) e era um tipo curiosíssimo, já que não deixava matar animais de qualquer espécie nas suas terras e ele era riquíssimo proprietário. Teve também carreira política considerável, que se desenrolou em parte durante as lutas liberais, mas segundo o que nos apercebemos terá vivido em Vila Frade e foi sepultado em Outeiro Seco, na Igreja da Senhora da Azinheira. Este Capitão Vila Frade é o antepassado dos Montalvões Machados, que toda gente conhece da televisão e dos jornais, por causa do político e advogado do Porto com esse apelido, que faleceu no passado dia 11 de Maio

A casa de Vila Meã ainda está de pé e o nosso Humberto foi fotografa-la. Apesar de alguns pormenores abastardados, como as cantarias pintadas de branco e uma marquise nojenta, aqui censurada, a casa conserva aquela dignidade intemporal das boas construções de granito, com grandes blocos bem emparelhados e ainda um relógio de sol, que fará as delícias do meu amigo Manel. Segundo informações que o Humberto recolheu na aldeia, entre as pessoas mais velhas, a casa seria maior do que é na actualidade. Estender-se-ia para onde hoje se vê um feio anexo em cimento.

No entanto, as sólidas pedras de granito, não respondem à pergunta Porque saiu o Brasão da casa de Vila Meã?
Em 1948, quando o livro os Montalvões é publicado, o brasão está no jardim da casa duma Senhora, Maria Alda Montalvão Santos Silva (nº 327). Esta senhora não é descendente do capitão de Vila Frade. É neta duma irmã do Padre António Vicente Ferreira Montalvão (1776-1838), a Rita Maria Ferreira Montalvão (nº 176). Portanto, a Sr. Dª Maria Alda não fazia parte do ramo familiar proprietário da casa de Vila Meã.
Talvez o capitão de Vila Frade tenha mandado retirar a pedra de armas e a tenha cedido aos seus parentes em Outeiro Seco e por lá sido posta no parede, apeada novamente e desprezada no chão, até que alguém, com mais gosto pelo passado, a tivesse mandado transportar para a sua casa

A Sra. D. Maria Alda Montalvão Santos Silva (nº 327) nasceu em 1877 e já terá falecido há muito. Será que os descendentes conservaram o brasão? Será que um dia, algum deles fará uma pesquisa na Internet e venha ter a este blog e nos esclareça mais? Sei lá, o Google faz milagres ou talvez S. Rita, advogada dos impossíveis, padroeira da capela do Solar dos Montalvões, nos ajude a encontrar respostas a estas dúvidas.
Todas as fotos são do Humberto Ferreira, excepto a do relógio de sol, gentilmente roubada em http://chaves.blogs.sapo.pt/

Para ver os desenvolvimentos posteriores deste assunto, clique aqui

terça-feira, 15 de junho de 2010

S. Francisco de Assis, os estigmas de Cristo e alguns desvios para outros assuntos

Embora tenha uma preferência mórbida pelos mártires cristãos do Baixo Império Romano, também aprecio os outros Santos e Santinhos, que não mereceram a palma de mártir, como este S. Francisco de Assis, cujo registo, aqui encontrou um passe-partout muito bonito, em seda, com uns raminhos bordados, que deve datar no início do século XX. Estes passe-partouts em tecidos ricos e bordados minuciosos destinavam-se normalmente a fotografias e eram executados por damas prendadas e certamente virtuosas. Na casa da família da minha mãe há um destes exemplares, com um trabalho precioso, em que as pétalas das flores são metades de casulos do bicho-da-seda.

Aqui alterei-lhe a função original e passou a servir de moldura a uma estampa de S. Francisco de Assis do século XVIII..
S. Francisco aparece aqui representado numa das iconografias mais estranhas, que conheço, a estigmatização. Representa uma visão que S. Francisco de Assis teve no Monte Alverno, em Itália. Nesse dia de 14 de Setembro de 1224, Francisco viu a figura de um homem com seis asas, semelhante a um serafim, que estava pregado numa cruz e à medida que o contemplava, exprimentava uma imensa felicidade e simultaneamente alguma tristeza. Depois, sentiu abrirem-se no seu corpo as feridas do próprio Cristo crucificado. S. Francisco foi o primeiro cristão a ser estigmatizado, isto é, a receber as 5 chagas de Cristo.

Para a nossa sensibilidade moderna, fenómenos como este parecem estranhos e bizarros. Mas na Idade Média, milhares de pessoas entregaram-se a experiências místicas extremas para encontrar Deus. Renunciaram a todos os prazeres e à família, fizeram retiros, votos de silêncio, martirizaram a carne, passaram a fome, sofreram doenças e talvez no final do delírio tenham mesmo acreditado ver Deus, Cristos e os Apóstolos. Os visionários com mais sucesso obtiveram o reconhecimento da sociedade, fundaram ordens religiosas poderosas, mosteiros cheios de obras de arte, escolas e influenciaram o curso da história. Mas enfim, estou a desviar-me do assunto. A partir noutras direcções como a nossa Isabel costuma fazer, embora agora esteja de férias. Voltando a nossa estampa, ela foi impressa por um tal Santos, um impressor do Porto, que segundo o Roteiro da colecção do Museu Nacional de Soares dos Reis. - Lisboa: IPM, 2001, p. 88 foi “um dos mais produtivos gravadores portuenses, com vasta obra de carácter local em numerosos registos para imagens e igrejas do Porto”

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Prato de Sacavém -motivo Alcobaça

Por um preço muito em conta comprei este prato raso de faiança, da Fábrica de Sacavém. Tenho sempre dificuldade em resistir à faiança azul. Fico com olhos fixos, como que hipnotizado nos azuis.

A decoração, intitulada Alcobaça, tem muita graça e de facto evoca aquela terra portuguesa com as suas frutas em flor e as suas célebres chitas. Até digitalizei esta imagem, de uma colcha deste tecido, do século XIX, mostrado no catálogo da exposição Lenços & chitas de Alcobaça. Lisboa: GRI; 2001, que foi levada a várias cidades brasileiras, pelo Gabinete das Relações Internacionais do Ministério da Cultura, para que possam ver e avaliar como o motivo desta faiança tem tanto a ver com as chitas alcobacences.



O prato evoca também Manuel Vieira Natividade que promoveu o reatamento da tradição cisterciense do cultivo de flores e frutos da região de Alcobaça.

Não sei se quem concebeu a decoração deste prato na Fábrica Louça de Sacavém tinha em mente a obra Manuel Vieira Natividade e as Chitas de Alcobaça. Talvez o desenhador tenha copiado algum prato inglês, que a todos fez lembrar Alcobaça e escolheu-se então muito acertadamente esta designação para o motivo.
A decoração Alcobaça foi também fabricada em rosa e em verde/castanho.

O prato está marcado, conforme se pode ver pelas imagens nas linhas de baixo. Segundo o Dicionário de marcas de faiança/ Filomena Simas, Sónia Isidro. – Lisboa: Estar Editora, 1996 esta marca data de 1905.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O mirante à sombra do Plátano: Solar dos Montalvões

No muro do lado Sul da propriedade do Solar de Outeiro Seco, situava-se um mirante, uma estrutura em pedra, que aproveitava o próprio muro, com dois bancos de pedra de cada lado. Estava protegido pela sombra de um enorme plátano e era um sítio muito fresco nos verões tórridos de Outeiro Seco. Os meus irmãos e eu e por vezes também a minha prima Ana Paula, costumávamos brincar ali. Gostavámos daquele pequeno espaço feito à medida do nosso tamanho e dava-nos a ideia de estar numa espécie de casinha ou num pequeno castelo. Julgo que o meu irmão mais velho pendurava-se a partir dali nos galhos do plátano. Lembro-me bem de lá estarmos lá a brincar, entregues aos cuidados de uma moça de Outeiro Seco, a Maria Antónia. Penso que a função dela era tomar conta da minha bisavó Aninhas, que já estava muito velhinha, mas, naquele período ocupava-se da criançada e nós adorávamo-la. Era uma rapariga muito bonita, com umas roupas modernas do início dos anos 70, e tinha jeito e paciência para miúdos. Ainda hoje associo o nome Maria Antónia a pessoas giras e simpáticas. Penso que a Maria Antónia estudou, tornou-se professora e a jovenzinha de mini-saia deve ser muito provavelmente avô e talvez já se tenha conseguido reformar, se o Sócrates não lhe tramou a vida. O mirante visto por dentro (foto do início dos 90)

Mas a função principal deste Mirante, que dava para a praça onde se situava o cruzeiro em granito da povoação, era assistir às procissões com vista privilegiada.
(foto do Cruzeiro, cedida pelo Humberto)


Julgo que naquele ponto certo passariam todas as procissões e cortejos reais da aldeia e há pelo menos duas fotos de épocas distintas da família inteira no mirante, enfeitado com colchas ricas. A primeira foto será do final dos finais dos 40, princípios de 50 (antes de 1956, pois ainda aparece a Tia Marica) e a segunda, certamente foi tirada nos primeiros anos dos anos 60, pouco tempo antes da morte do meu bisavô. Consigo identificar os meus tios avós na primeira fotografia, mas nunca os conheci assim. As recordações que deles tenho são as das caras, que aparecem na segunda fotografia. É assim que eu me lembro deles, vivos, cheios de energia e com muita simpatia. No geral, os Montalvões eram uma gente muito sociável, adoravam conviver. Saí mais ao lado Cunha da família, mais bicho-do-mato.
Certamente a algumas destas procissões juntar-se-iam imagens da capela de Sta. Rita, nomeadamente a Nossa Senhora da Glória e o S. Salvador. Muitas das procissões são sobrevivências mais menos disfarçadas de antigos cultos pagãos e um dos rituais que se repete de procissão para procissão em Portugal é uma imagem principal, que vai buscar uma série de outras imagens a capelas vizinhas, para formarem um cortejo. Segundo o Moisés Espírito Santo são resquícios das velhas hierogamias, isto é, de casamentos sagrados entre deuses, aqui representados pelos Santos ou Santas, de cuja realização, estava dependente a chuva, o sol e a realização de boas colheitas.



Mas na época destas fotografias, os meus tios que assistiam divertidos à procissão não sabiam o que eram hierogamias, estavam contentes porque era Verão, dia de festa e acreditavam sinceramente na existência de Deus e na boa intercessão dos santos