quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Chávena Vista Alegre da segunda metade século XIX


Herdei esta chávena de chá da minha avó. Terá vindo do Solar de Outeiro Seco e em tempos fez parte de um serviço completo, que se partiu ou foi disperso. Vamos lá nós saber porque é que esta terá sobrevivido às lavagens das criadas desastradas ou a partilhas entre irmãs e irmãos desavindos.
A sua decoração é simples, feita com uns ramos nus onde só aparecem umas folhinhas aqui e acolá. Dir-se-iam ramos de um Ácer com os rebentos a nascer, mas não sei o suficiente de botânica, para me pronunciar sobre a espécie em causa. Em todo o caso representa os ramos de uma árvore ou arbusto de folha caduca, no início da Primavera. Essa forma de representar um momento da natureza dá-lhe um ar oriental, quase japonês.

Pela marca pintada a dourado, (embora na fotografia não pareça pois houve qualquer fenómeno inusitado que alterou as cores. Grrr...), a chávena parece-me ser do período entre 1870-1880, mas poderá ser mais tardia. Nesta época, a Europa estava a descobrir a arte japonesa. Tinham sido apresentadas as primeiras exposições de arte do Japão e os artistas europeus estavam a assimilar as impressões causadas pela sofisticada simplicidade das gravuras e estampas daquele país.

Nunca encontrei nos antiquários ou feiras de velharias este motivo. Apenas no http://www.avaluart.com/ vi um bule com um motivo vagamente semelhante com marca datada entre 1881-1921.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Senhor dos Passos

Não há só ninfas a velar pela minha existência. Na mansarda onde vivo há toda uma corte de santos, virgens e Cristos, que me protegem contra as más sortes contemporâneas, como o aumento do IVA, a EMEL, o Pacto de Estabilidade e Crescimento, a Reforma da Administração Pública e outras coisas fantásticas feitas a pensar no bem-estar do cidadão. Já tentei contar os cristos na minha casa. Creio que andavam à volta de vinte e tal, mas, entretanto terão entrado outros.

Há quem ache os Cristos macabros e se pensarmos bem, tem uma certa razão, porque um homem, ensanguentado, atravessado por pregos numa cruz é uma imagem terrível de se ver. Há uns anos trabalhei na organização de uma grande exposição retrospectiva de arte portuguesa no Japão e os nipónicos recusaram-se categoricamente a receber Cristos sofredores, descidas da cruz, martírios e outras coisas terríveis com que o Catolicismo romano se compraz. Só aceitaram e ao engano, um menino Jesus, gorduchinho, rodeado de flores, pintado pela Josefa de Óbidos.

Mas, embora não tenha fé, fui educado no gosto eclesiástico dos dourados, da arte sacra, dos azulejos e tenho uma paixão por estes cristos sofredores, com que vou enchendo a minha casa, aqui e acolá. Qualquer soleira da porta ou espaço disponível serve para pôr mais um.
Este Senhor dos Passos, sem cabeleira, sem cruz e com um manto de seda desbotada, que já foi roxa, faz as minhas delícias. Nos finais do Século XVIII ou mais seguramente em príncipios do XIX, uma senhora devota costurou-lhe o manto e executou o bordado a fio de ouro com todo o amor. Depois colocou-o num oratório ou numa maquineta e por um período de mais de 150 anos foi objecto de orações fervorosas. Mas, os tempos mudaram, as senhoras devotas morreram todas e o Cristo foi esquecido num sítio qualquer, deixado ao sol, que lhe desbotou as vestes e entregue à rataria e ao caruncho, que acabaram por lhe destruir a cruz, até acabar no chão da Feira-da-Ladra, onde eu o descobri e lhe proporcionei uma reforma aceitável à sua longa vida milagreira.

O Senhor dos Passos é uma invocação de Jesus Cristo, que faz referência ao trajecto percorrido por Este desde sua condenação à morte no Pretório até o seu sepultamento, após a crucificação no Calvário.

A história desta devoção remonta à Idade Média, quando os cruzados visitavam os locais sagrados de Jerusalém por onde andou Jesus a caminho do martírio e quiseram depois reproduzir espiritualmente este caminho, nas suas terras de origem, sob forma de dramas sacros e procissões, ciclos de meditação, ou estabelecendo capelas especiais nas Igrejas.

A reconstituição do trajecto de Cristo é conhecida pelas Estações ou Passos da Via Sacra, mas falarei neles com mais pormenor noutra altura, já que são tão importantes na história da arte, pois há um sem número de esculturas, gravuras e pinturas alusivas ao tema, que para nós os descrentes, já se tornam difíceis de interpretar.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Capela do Solar dos Montalvões: Sta. Rosa de Viterbo ou de Lima


No meu post de Abril sobre os santos que pertenceram à capela de Sta. Rita, do Solar dos Montalvões, em Outeiro Seco, tive sérias dúvidas sobre a identificação da Sta. Rosa, pois há duas Santas Rosas, uma de Viterbo e outra de Lima e a iconografia das duas anda à volta do mesmo, uma virgem em êxtase com traje de monja e uma coroa de rosas ou de espinhos

Esta semana, ao desfolhar o belo livro de Sónia Talhe Azambuja, A linguagem simbólica da natureza: a fauna e a flora na pintura seiscentista portuguesa. Lisboa: Veja, 2009, para o qual tive o gosto de prestar uma pequena colaboração na pesquisa de imagens, consegui finalmente encontrar a solução para o mistério das Santas Rosas.

Para os mais ateus ou menos informados sobre iconografia cristã, volto a repetir que existem duas santas Rosas. Uma Santa Rosa de Viterbo, italiana, que viveu entre 1233-1252 e que é património da Ordem terceira de S. Francisco e uma Santa Rosa de Lima, originária do Peru (1586 - 1617), que foi uma mística da Ordem Terceira Dominicana, canonizada pelo 1671.

A primeira é tradicionalmente representada com uma franciscana, com o característico cordão à volta da cintura, conforme se pode ver no quadro do pintor espanhol Murillo.


A segunda, a Sta Rosa de Lima, apresenta-se como uma dominicana, com o traje a preto e branco, característico daquela ordem. A pintura seiscentista de Bento Coelho, os Desposórios Místicos de Santa Rosa de Lima, que está na igreja de S. Nicolau de Santarém e aparece reproduzida no livro de Sónia Talhe Azambuja é um bom exemplo da iconografia típica desta Santa.

A principal diferença entre as santas é o traje religioso, pois tudo o resto é facilmente confundível
Portanto, agora posso concluir com segurança que a Santa Rosa que se encontrava na capela de Sta Rita, no Solar dos Montalvões, em Outeiro Seco, é efectivamente uma Santa Rosa de Viterbo, pois apresenta o típico traje dos religiosos fransciscanos, de cor acastanhada e com o cinto de corda com os nós.

As fotografias da Santa Rosa de Viterbo, da capela de S. Rita são do Humberto

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Vasos de Faiança Miragaia no Brasil



Um dos aspectos mais positivos deste blog tem sido o reencontro não só com as minhas raízes familiares, mas também como uma parte da História, menos conhecida.

Através deste espaço conheci pessoas da aldeia de onde a família do meu pai é originária, Outeiro Seco e com a qual eu já tinha perdido todo e qualquer contacto. Desse reencontro recuperam-se memórias perdidas sobre o Solar dos Montalvões e até saiu um livro.

De um ponto de vista histórico, o blog permitiu-me descobrir parte de um passado comum, que partilhamos com os brasileiros, que tem aderido aderido espontaneamente a este blog, interessando-se pela faiança, pelos azulejos ou pela arte sacra e me enviam e-mails com fotografias de obras semelhantes ou da mesma tipologia, que encontram no Brasil.

Recentemente e muito próposito do meu post Luso Tropicalismo em faiança e azulejos , recebi um simpático e-mail de um seguidor brasileiro, o Luís Pavão, com fotografias de vasos de faiança de fabrico português, colocados no topo de um velha casa apalaçada, existente numa cidade do Estado de S. Paulo.

Emocionei-me quando abri o e-mail e vi as fotografias dos vasos da prestigiada Fábrica de Miragaia, do Porto, pintados com o motivo decorativo País (1822-1850), pelo qual eu tenho uma verdadeira paixão e que infelizmente nunca consegui encontrar no mercado de velharias, um prato ou pires que fosse dessa decoração (por um preço aceitável, claro está)

Achei muita graça a estas fotografias, pois na recente exposição que se fez em 2008, no Porto, no Soares dos Reis, intitulada Fábrica de Louça de Miragaia, vi dois vasos muito semelhantes a este, propriedade da Confraria do Santíssimo Sacramento de Miragaia, datados entre 1830 e 1850 e que também apresentam a característica marca de Miragaia desta época, em letras góticas.






No referido catálogo, mencionam-se também as encomendas de azulejos que a Fábrica Miragaia recebia do Brasil, bem como de peças de mobiliário de jardim. Aliás, o fundador da fábrica Miragaia (1775), João Rocha, tinha começado por fazer fortuna na Bahia e é pois muito natural que a família tenha mantido sempre contactos com o Brasil, que facilitaram posteriormente a exportação de faiança.

Agora, através do Luís Pavão, descubro também vasos de Miragaia, no alto duma casa, construída na longínqua Ubatuba, em 1846, pelo Manoel Baltazar da Cunha Fortes, um comerciante português que fez também fortuna com o Café.





Os elementos que o Luís Pavão me enviou são também muito oportunos, porque no post que fiz sobre a azulejaria de fachada, cuja moda começou no Brasil e depois se difundiu em Portugal, ao longo de todo o século XIX, esqueci-me de mencionar, que paralelamente aos azulejos de revestimento, as fábricas forneciam aos seus clientes complementos de decoração arquitectónica em faiança, tais como balaustradas, vasos, urnas, pinhas e ainda estatuetas com alegorias à indústria, às artes e ao comércio. Esses elementos decorativos, que iam muito bem com o revestimento azulejar eram colocados no topo dos edifícios, como neste belo sobrado de Ubatuba, ou também em cada esquina de um portão e deixavam os proprietários cheios de vaidade, a acharem que viviam numa espécie de Palácio de Versalhes.


Já agora, Ubatuba, é uma terra do estado de S. Paulo (ver mapa), que teve um enorme crescimento económico no século XIX, graças a abertura dos portos brasileiros, em 1808 e chegou a rivalizar em importância com S. Paulo. Durante este século, encheu-se de casas ricas apalaçadas e de um teatro

Pela minha parte, que nunca tinha ouvido falar em Ubatuba, passei a simpatizar com esta cidadezinha e a sentir que tenho qualquer coisa em comum com as suas velhas casas e os seus habitantes.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A pequena história de dois azulejos do Século XVII


Como já contei aqui neste blog, há cerca de uns 3 meses encontrei um azulejo seiscentista num contentor das obras, ali numa ruela que sai das escadinhas do Duque. Fiquei muito contente com o achado, porque os azulejos do século XVII são raros. Como toda a gente sabe, houve o terramoto em 1755 e muita coisa foi destruída ou desapareceu debaixo de terra para sempre. Na verdade, o que aparece mais nos contentores das obras ou nos mercados de velharias são os azulejos de padrão pombalinos, usados em larga escala na reconstrução de Lisboa.

Pouco tempo depois, fui à Feira-da-ladra e descobri no chão um azulejo do século XVII, que me pareceu igualzinho ao meu. Compreio-o sem hesitar, apesar de não trazer o desenho da peça que tinha em casa. Quem quer completar um painel sabe que tem que andar com o desenho ou desenhos do azulejo na carteira para comprar igual, pois há muitas variantes do mesmo padrão e se confiamos na memória arriscamo-nos a comprar uma coisa qualquer, que é parecida, mas não é a mesma coisa. O meu amigo Manel tem uma folhinha desdobrável com todos os padrões de azulejos, que está coleccionar, desenhados e pintados com uma enorme perfeição, a uma escala muito reduzida. Mas, voltando ao assunto, arrisquei, comprei-o na mesma e tive sorte porque o azulejo era exactamente do mesmo padrão que eu já tinha em casa.

Depois, aproveitei não ter os filhos em casa, esburaquei a parede com um martelo e um escopro e encastoei-os a um canto. Desta vez usei gesso, para ser mais fácil, tira-los quando mudar de casa, que há de acontecer, quando a crise do País passar e voltarem a chegar milhões e milhões de Bruxelas…

O resultado ficou engraçado. Gosto sempre de criar a ilusão que os azulejos estiveram ali desde sempre, escondidos pelo reboco e que um dia foram descobertos e agora vêm outra vez a luz do dia, apesar de serem apenas pequenos fragmentos do que foi outrora um grande painel.




O passado fim-de-semana estive em Grandôla e no interior do que julgo ser a igreja matriz descobri um painel praticamente igual ao meu. Há só uma pequena diferença. Num dos cantos os azulejos da minha casa têm um medalhão, enquanto que os da Igreja de Grândola apresentam uma flor.
Infelizmente, os azulejos da Igreja estavam colocados arbitrariamente e sem formar uma composição. Fiquei com a ideia que foram ali metidos sem grande cuidado para tapar um buraco existente na restante composição azulejar, também do século XVII.


Por último, uma das seguidoras deste blog, a Maria Andrade, informou-me que o Museu Alberto Sampaio de Guimarães tem nas suas colecções um azulejo igual, inv a174 e não resisti colocar aqui a imagem.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Luso-tropicalismo em faiança e azulejos


O hábito de começar a revestir as fachadas das casas de habitação com azulejos só começou em Portugal nas primeiras décadas do século XIX. Até então o uso do azulejo, com uma ou outra excepção (o caso das alminhas) estava reservado aos interiores das casas e das igrejas. Por vezes a azulejaria saia das casas, invadia os jardins e colocavam-se painéis nos bancos, nas fontes e por aí fora. Mas em todo o caso o uso de azulejos estava resevado a espaços privados.

Quem começou o hábito de revestir as fachadas dos prédios com azulejaria foram os nossos irmãos brasileiros, nas cidades do nordeste. Os ricos proprietários de casas em cidades como S. Luís do Maranhão encomendavam azulejos brancos ou escassamente decorados em Portugal, para as cozinhas, mas acabaram por decidir coloca-los nas fachadas, que lhes protegia as casas dos calores e humidades. A moda acabou por pegar e rapidamente os brasileiros ricos estavam a encomendar em Portugal azulejos de padrão, mas desta vez com decorações mais complicadas e com mais cor para decorar o exterior das casas.

Depois aconteceu um fenómeno que é habitual na longa relação que há entre Portugal e o Brasil. Os Portugueses que tinham feito fortuna nas terras de Vera Cruz regressaram à pátria e mandaram construir casas à brasileira, isto é, com azulejos nas fachadas e lançaram a moda em Portugal. Rapidamente, ao longo do século XIX, as fachadas dos prédios portugueses encheram-se de azulejos e grandes empresas de cerâmica prosperaram para satisfazer as encomendas, que esta moda gerou. Sacavém, Viúva Lamego, Lusitânia, Fábrica da Roseira, Massarelos, Devesas, Miragaia, Carvalhinho e Caldas foram algumas das fábricas que prosperam na época com a produção de azulejos de revestimento de fachadas. A moda só acabou nos anos 20 do Século XX, quando uma postura municipal em Lisboa, publicada por pressão dos bombeiros, proibiu o uso de azulejos nas fachadas, por questões segurança.

Todo este relambório acerca da história da azulejaria de fachada foi desencadeada por este prédio em ruínas, que vi em Alcácer do Sal. O Ananás de faiança que cresce no alto da urna e os azulejos com um padrão de ananases conferem a este prédio um delicioso sabor tropical, que me levam a imaginar que tenha sido encomendado por algum emigrante que regressou rico das terras do Brasil. A urna com um ananás só me recorda um daqueles turbantes delirantes, que a Maria do Carmo Miranda ou melhor a Carmen Miranda usava nos tempos em que fazia furor nos States, a cantar o South American Way.



Creio que as fotografias que vos apresento são um exemplo paradigmático da história do azulejo de fachadas em Portugal no século XIX

Para quem quiser saber mais, recomendo a obra de Maria Isabel Alves Planas Almasqué e A.J. Barros Veloso, Azulejos de fachada em Lisboa - Edição da Câmara Municipal de Lisboa, com o patrocínio do Banco Totta. Lisboa, 1988

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Uma ninfa a velar por um homem solitário


No tecto da minha casa, uma ninfa vela pelo quarto que me serve de sala de estar, impedindo certamente que as águas da chuva se infiltem nesta divisão amansardada ou talvez apenas esta figura mitológica me esteja proteger a mim. No entanto, nunca se sabe, porque as ninfas sempre gostaram de brincar e enganar os homens, especialmente os solitários.

Em todo o caso, esta Ninfa que um dia comprei na Feira-da-Ladra não é uma peça autêntica. Trata-se de uma excelente réplica de uma estatueta romana encontrada no Cerro da Vila, uma antiga povoação romana secundária, perto de onde é hoje aquele sítio, onde os portugueses adoram passar os seus Verões no meio do calor e de multidões e multidões e mais multidões, isto é, Vila Moura.




Cerro da Vila: foto de http://arqueo.org/


Entre os séculos II e III da nossa era o Cerro da Vila era muito diferente. Um braço de mar entrava pela terra dentro, criando um porto natural, onde prosperava uma pequena povoação, que vivia da pesca, do comércio e da agricultura. Há vestígios da produção de garum, a célebre pasta de peixe que romanos adoravam e que punham em todos os alimentos, mesmo nos doces, bem como de murex, o molúsculo que era usado na tinturaria, para fabricar tecidos na célebre cor púrpura.



O murex: http://arqueo.org/


Existiam algumas casas mais ricas e e esta estatueta deve ter sido achada numa delas ou talvez nalguma fonte pública. Provavelmente fez parte de um ninfeu. Na época romana, um ninfeu era uma fonte pública monumental, ornamentada de esculturas e jogos de água, mas também existiam em casas privadas de gente rica. Nessas moradias, estas fontes situavam-se a um canto dum pátio interior, na parte mais privada da casa e deveriam criar um ambiente muito agradável e fresco, com o barulho da água a correr.

Ninfeu privado em Herculano


As ninfas eram criaturas mitológicas subalternas, associadas às fontes, aos bosques e às montanhas.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O velho forno de pão do Solar dos Montalvões


Não sei se ainda existirá, mas o forno de pão ficava logo à entrada, do lado esquerdo, quando se entrava no pátio grande do Solar. Ao lado do forno existia uma enorme bancada em pedra, que em miúdo julgava ser um banco, mas que hoje sei que servia como mesa de apoio, para quem estava a cozer o pão.

Voltei a lembrar-me da sua existência há uns tempos, quando andei a ver fotografias do Solar, datadas mais ou menos de 1990, em casa do meu pai e fiquei muito supreendido porque reparei num pormenor, que em miúdo nunca me tinha chamado à atenção. Existia uma cruz moldada no topo, o que, segundo me explicou o meu pai era uma característica típica dos fornos ali da zona.

Para nós, que compramos pão no supermercado, este alimento não tem qualquer valor transcendental. É qualquer coisa que se tira do congelador e se põe no micro-ondas. Contudo no passado, na vida desta aldeia e das outras todas em Portugal, os actos mais prosaicos como cozer o pão ou mesmo come-lo estavam revestidos de um lado sagrado. Li agora há bem pouco tempo no livro “Outeiro das lembranças”, uma série de ladainhas que as mulheres diziam, enquanto amassavam faziam o pão. Deus te acrescente, em louvor da Virgem Maria, um pai nosso e uma Avé Maria, era por exemplo uma várias rezas que se faziam e que mostra bem o lado sagrado do acto de fazer pão, principal fonte de alimento e sobrevivência de uma parte da humanidade, desde a descoberta da agricultura, nos tempos do Neolítico. Mesmo à mesa, o pão tinha uma conotação religiosa com a última ceia e a Eucaristia. Nunca se fazia uma refeição sem pão, nem nunca se colocava este de pernas para o ar, pois todos sentiam que ali estava qualquer coisa de sagrado que não se podia desrespeitar.

Fazia pois todo o sentido colocar também uma cruz no topo do forno. Hoje já estranhamos estas cruzes, pois vivemos alheios ao Plano Divino ou talvez Este se tenha desinteressado do nosso mundo.

Tentei procurar informações sobre estes fornos naquele livro em 3 volumes a Arquitectura Tradicional Portuguesa, mas não encontrei qualquer referência, que me ajudasse a saber a sua origem, como eram feitos ou como funcionavam. Encontrei foi a descrição de grandes casas semelhantes ao solar de Outeiro Seco, em que todas as dependências relacionadas com as actividades agrícolas (espigueiro, lagar, alfaias agrícolas, fornos de pão, habitação de caseiros) estavam encerradas num pátio. Os autores justificam essa opção de construtiva com a segurança. De facto, que melhor solução do que fechar gado, milho, lagar, galinhas entre 4 paredes num País que nem sempre foi seguro e numa região onde até há bem pouco tempo os lobos não eram animais em vias de extinção.


A seta aponta o grande pátio dedicado as actividades agrícolas na fachada Sul da casa

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Nossa Senhora da Glória do Rio de Janeiro


A propósito do meu anterior post sobre santas de Roca, um seguidor Brasileiro deste blog, o Victor, enviou-me uma fotografias de uma santa de roca, de grandes dimensões (1,10 m) que comprou há muitos anos e que gosta de designar por Nossa Senhora da Glória. Claro, o Victor tem bem presente que quando se compra uma Santa de Roca despida é praticamente impossível atribuir-lhe uma classificação, mas como sempre gostou da Igreja de Nossa Senhora da Glória, uma das mais antigas do Rio e a imagem tinha um menino, afectivamente passou a nomea-la por Senhora da Glória e comprou-lhe vestes, uma cabeleira e ainda uma coroa e um ceptro, que são atributos característicos desta imagem mariana. Um dia, estando mais abonado, mandou restaurar a imagem e descobriu que o Menino Jesus era um acrescento, pois tinha uma coloração diferente, mais rosada que a Mãe, além de que o seu tamanho era um pouco desproporcionado em relação à Virgem. Como a Yourcenar dizia no Tempo, esse grande escultor, a obra de arte continua a ser alterada e recriada após a sua saída da oficina do artista, por acção do homem ou da natureza.

O assunto das Senhora da Glória chamou-logo a atenção, pois sempre achei que uma das imagens que se encontra na capela do solar dos Montalvões, agora em depósito no Museu Regional Flaviense, é uma Nossa Senhora da Glória, em vez de uma Senhora da Lapa, como é tida no referido Museu.

Fui procurar mais informações sobre esta devoção mariana e e descobri que é tão popular no Brasil como em Portugal

A devoção carioca a Nossa Senhora da Glória surgiu no início do século XVII, alguns anos depois a fundação da cidade do Rio de Janeiro, quando no ano de 1608, um certo Ayres colocou uma pequena imagem da Virgem numa gruta natural existente no morro do Leripe, Nos finais do XVII, levantou-se nesse local uma ermida, que foi refeita nos inícios do século XVIII tendo a sua construção sido terminada definitivamente em de 1739.

Contudo, a devoção a Nossa Senhora da Glória cresceu em popularidade e prestígio após chegada da família real ao Rio de Janeiro, em 1808. D. Carlota Joaquina tornou-se particularmente devota desta Senhora e em 1818, mandou restaurar o pequemo templo setecentista. Segundo uma descrição romântica da época, citada por Marsilio Cassoti, em Carlota Joaquina: o pecado espanhol, “ficava a Igreja poética e deliciosamente fora da cidade, no terraço de um morro altaneiro e verdejante, em redor do qual se tinha fixado, muita gente nobre e rica, principalmente ingleses…Permitia a plataforma em panorama sobre a Baía da Guanabara”




Não só Carlota Joaquina era devota da Senhora da Glória, como toda a família Bragança o veio a ser posteriormente. O templo tornou-se num dos lugares preferidos de oração de D. Leopoldina de Áustria, mulher de D. Pedro (o futuro D. Pedro I do Brasil, IV de Portugal), a sua filha promogénita foi baptizada com o nome de Maria da Glória naquela mesma igreja (a menina será mais mais tarde a Rainha d. Maria II de Portugal) e a partir de então todos os Bragança, nascidos no Brasil, foram consagrados na Igreja.
O templo continua a existir e parece que tem azulejaria portuguesa de grande qualidade.


D. Maria da Glória, quando era uma bonita menina, antes de os sucessivos partos lhe terem desfigurado o corpo

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Mais alguns dados sobre o cantão popular


Ofereceram-me dois pratos de cantão popular. O primeiro foi a Marília, no seguimento de um negocio que fizemos e o segundo, a Maria Isabel. Quer um quer outro tem em comum uma característica rara neste motivo decorativo, estão marcados no verso!!!

Recapitulando um pouco, o cantão popular é uma adaptação livre e ingénua da louça inglesa do willow pattern e foi fabricado em Portugal por várias oficinas, a maioria anónimas, desde o início do século XIX (como o exemplar mostrado em primeiro lugar) até quase aos anos 60 ou 70 do século XX.

Como tenho vindo aqui a mostrar há imensas variantes do motivo, que também é executado em pastas diferentes.

De certeza absoluta sabemos que o cantão popular foi fabricado pela Lusitânia. Presumimos que esta fábrica produzisse este motivo na sua unidade de Coimbra (comprada em 1929), já que a casa-mãe de Lisboa parecia estar mais dedicada aos azulejos e aos materiais de construção civil.


Também sabíamos seguramente que a Fábrica do Cavaco do Porto (1862-1920) produziu cantão popular

Na obra a Cerâmica em Vila Nova de Gaia. - Vila Nova de Gaia: fundação Manuel Leão, 1999 da autoria de Manuel Leão são mencionadas duas peças da Fábrica do Cavaco (1862-1920) com este motivo do cantão popular, um bule zoomórfico (pág. 242), com marca, propriedade dos Museus Municipais do Porto e um prato (pág. 244), da colecção Adosinda Anes, que fazia parte de um serviço feito no final do período de laboração.


A Isabel Maria deu-me agora um prato desta fábrica com marca e mais vi vez uma nova variante no motivo. Enquanto que na maioria da loiça de cantão popular o o fundo do tema é branco, aqui no exemplar da Fábrica do Cavaco, o fundo é azul claro, semelhante ao da loiça de Alcobaça da fábrica da família Bernarda.



Finalmente, o prato que a Marília teve a amabilidade de me dar, está marcado Loiças da Pinheira, Aveiro e com as iniciais PL. O Manuel sempre me tinha dito que o Cantão popular também tinha sido produzido em Aveiro, mas eu na faiança popular, sou como o outro e só vendo para crer. A marca tem um ar recente e o prato também. Num site de uma professora da região de Aveiro, li que as "Faianças da Pinheira" só se instalaram em Aradas (peryo de Aveiro nos anos 50, 60. Contudo o Dicionário de marcas de faiança/ Filomena Simas, Sónia Isidro. – Lisboa: Estar Editora, 1996 apresenta na pág. 90 uma marca desta fábrica datada do século XIX. Fiquei com a ideia que as Louças da Pinheira já existiam em Aveiro há muito, antes de se instalarem em Aradas.

Em suma, agora temos a certeza absoluta que a Lusitânia(Coimbra?), o Cavaco (Gaia) e as Louças da Pinheira (Aveiro) fabricaram cantão popular. Certamente haverá mais fábricas

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Sta Ana ensinando a Virgem, em Espuma do Mar


Há pouco tempo arranjei esta pequena obra com uma moldura oval contendo uma Sta. Ana ensinando a Virgem a ler, ou a Sant'Ana Mestra, como é vulgarmente conhecida esta representação. É um trabalho estremamente precioso executado em cerca de seis cm de diâmetro e foi por isso difícil de fotografar. Apresento uma imagem desta obra de arte na minha casa para que possais ter uma ideia das suas dimensões mínimas.
O Manel que tem uma peça algo semelhante já me tinha dado umas pistas sobre a sua origem, contando-me, que a vendedora lhe tinha afirmado que o material, de que era feito o seu interior provinha da Turquia, duma zona conhecida por Pamukkale, hoje classificada património mundial da UNESCO e onde há umas nascentes termais calcárias, que produzem depois umas pedras que parecem algodão. Aliás Pamuk em Turco quer dizer algodão e fazendo um desvio ao assunto, como faria a nossa Maria Isabel, aproveito para recomendar a leitura de Orhan Pamuk, um escritor turco, que eu por vezes copio um bocadinho nos meus escritos, embora sem conseguir.

Não encontrando nada na internet sobre escultura religiosa feita em pedras de Pamukkale, fui pesquisar no http://www.rubylane.com/, e de facto, no catálogo do melhor site de antiguidades on-line, lá apareceram duas obras em tudo semelhantes à minha. Segundo este site, estas esculturinhas em miniatura eram feitas em França, entre 1850-1900, em vários conventos e casas religiosas daquele País e eram vendidas como objectos de devoção ou souvenirs de locais de peregrinação.






Também encontrei uma Notre-Dame du Chêne no site http://www.etsy.com/ com as mesmas características.


Estas esculturas delicadas eram executadas num material que ficou conhecido por Espuma do Mar (os ingleses usam a palavra alemã Meerschaum. Os franceses designam-na por écume de mer), que foi também muito utilizado no fabrico de cachimbos. A Espuma do Mar é um mineral branco e mole, que por vezes se encontra a flutuar no Mar Negro, e é daí que lhe advem o nome. A Espuma do Mar é opaca, de cor branca acinzentada ou creme e pode ser trabalhada só com uma unha. Presta-se pois a trabalhos de grande precisão. A maior parte deste mineral é sobretudo extraído na Turquia, em Eskişehir e perto de Ancara. O nome científico deste mineral é o Hidrogenosilicato de magnésio.

Portanto, a vendedora da peça do Manel, não andou muito longe da verdade, embora a peça não seja a tal pedra de Pamukkale, mas sim Espuma de Mar