sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Velharias do Luís faz dois anos


Em 30 de Setembro de 2009, iniciei este blog com a ideia de sistematizar conhecimentos de faiança, gravura e outras antiguidades, mas também porque precisava de qualquer projecto pessoal, que me distraísse da estagnação profissional em que me encontrava. Tinha muita experiência como webmaster, uma larguíssima prática de navegação em sites culturais e apetecia-me aplicar à minha maneira, esses conhecimentos, sem me submeter a directivas oficiais, ou ter que redigir textos em oficialês, língua obscura, usada na administração pública, que o Diário da República é o expoente máximo. Queria ter o meu site pessoal na Internet, sem artifícios gráficos, com uma imagem limpa e simples, que pusesse em evidência os textos e as imagens.


Comecei aos poucos, mas sem acreditar muito que alguém fosse ler os textos. Normalmente, os assuntos que me interessam não estão propriamente na moda, mas logo de início tive o Manuel a ler-me e a comentar-me, apesar de me ver pessoalmente quase todos os dias. Aliás, os dois comunicamos muito bem pela escrita. Depois, passado uma ou duas semanas, com surpresa tive o primeiro seguidor, depois um segundo, um terceiro e depois veio a Maria Isabel, a Maria Paula, a Maria Andrade, a Marília, a Idanhense, as seguidoras misteriosas, o C e o Joaquim, sem esquecer as gentes de Outeiro Seco, com as quais fiz coisas gírissimas. O Humberto descobriu documentos e fotografias inéditas do Solar dos Montalvões e com o Altino Rio participei com três textos do blog Velharias no livro Outeiro das Lembranças, publicado por sua iniciativa. Aliás, a par da faiança, porcelana e gravura e o mobiliário, as memórias familiares foram outras das “velharias” que fui tratando ao longo deste blog. Conhecer a história familiar é uma forma de conhecer quem somos e depois os objectos de porcelana, as estampas o mobiliário, trazem-nos lembranças de tios e avós, que nos deixaram há muito e levam-nos a pesquisar histórias com mais de 100 ou duzentos anos para percebermos melhor esses objectos.

Acompanhado da comitiva, o autor das Velharias visita oficialmente a bonita casa de um seguidor
Outro aspecto muito interessante destes dois anos foi o eco e o diálogo estabelecido com amigos brasileiros. Nomeio claro o Fábio, mas também os outros amigos, que me enviaram peças estupendas de faiança Miragaia e de Sto. António do Vale da Piedade, que estão no alto de casas antigas perdidas no Brasil. Também deste País, conheci gente com a qual partilhei conhecimentos de gravura.

Sei também que tenho seguidores silenciosos, gente que me lê e não comenta. Uns são antigos colegas de faculdade, ourtos primos e outros não conheço de todo.


O autor das Velharias sorri em agradecimento aos seguidores que tiveram pachorra para o ler
Enfim, parece que ganhei um Óscar por causa dos milhões de visitantes recebidos e tenho que agradecer à mãezinha e ao cabeleireiro, passando pelo produtor. Na verdade, não tenho milhões de visitantes e este blog tem um público reduzido, mas não queria deixar de expressar o meu reconhecimento à tertúlia virtual que ao longo destes dois anos me proporcionaram os meus seguidores e que tem sido um jogo de espírito muitíssimo estimulante.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Delicada e sem afectação: a pintura da Vista Alegre



Volto hoje a apresentar mais uma peça Vista Alegre com os motivos das florinhas, fabricado muito provavelmente durante o 4º período, 1870-1880, ou talvez ainda numa época mais antiga. Não está marcada com o tradicional VA. Apresenta apenas o número 18, pintado a doirado. Este suposto número com um ponto final levanta-me algumas dúvidas. Estes caracteres não serão as siglas VA esborratadas ou com o dourado esmorecido?

Número 18?

Mas é mais provável que seja o número da decoração ou uma marca do artista.


Mas apesar de não estar marcada com o típico VA, é óbvio que é Vista Alegre. Basta compara-la com outra cafeteira, que também tenho com a mesma forma e uma decoração semelhante, embora não tão requintada, mas que se apresenta marcada.

As duas cafeteiras: um bom exemplo da delicadeza, sem debilidade, nem afectação

Este motivo das florinhas desperta-me uma paixão tão grande há tanto tempo que procurei saber mais sobre ele e fui consultar a obra Vista Alegre: porcelanas. – Lisboa: INAPA, 1989. Encontrei um texto muito bem escrito, por uma senhora, Maria de Azevedo Coutinho, intitulado A pintura: imagem da Vista Alegre, que me ajudou a perceber melhor este estilo floral delicado.


Como toda a gente sabe as manufacturas de porcelana europeia surgiram no século XVIII, inteiramente dependentes do patrocínio de casas reais e produziam peças luxuosas, pintadas com o maior requinte por artistas conceituados da época. Os exemplos mais paradigmáticos são Meissen, dependente do Duque do Saxe e Sêvres da Casa Real francesa.


Depois da Revolução francesa e das guerras que se lhe seguiram, o patrocínio real acabou, as encomendas sumptuosas também diminuíram e apareceram fábricas privadas que produziram peças mais baratas e em maior número para satisfazer a procura da burguesia abastada. A nossa Vista Alegre surge precisamente neste período e neste contexto, muito embora em Portugal, nunca tivesse existido no século XVIII uma fábrica de porcelana real, pois como através da nossa rede comercial marítima tínhamos um acesso privilegiado à porcelana da China, a melhor do mundo, nunca sentimos necessidade de a fabricar.


As novas fábricas europeias de porcelana do século XIX com orçamentos mais reduzidos tentaram reproduzir os faustos do século anterior, mas sobretudo através das formas e a grande pintura ficou confinada a pequenas reservas.


Em Portugal, no século XIX, a Vista Alegre não dispõe de tecnologia para moldes arrevesados, nem de dinheiro para contratar grandes pintores. O gosto dos proprietários da fábrica e do público português são também limitados. Por isso a sua produção é caracterizada por formas mais simples e por uma pintura que revela igualmente grande simplicidade.



Esta simplicidade e lirismo tem também a ver com o ambiente familiar e quase campestre da escola de pintura que se foi desenvolvendo na Fábrica. Longe do Porto, Coimbra ou de Lisboa, a serenidade que se vivia em Ílhavo influenciou a estética das suas obras. Criou-se ali uma escola e uma tradição de pintura, que não era muito eficaz nas cenas mitológicas ou temas rocaille à moda de Fragonard, mas ganhou uma grande mestria nos motivos florais. Esta escola, afastada dos centros urbanos é algo conservadora. Mantem-se sempre nas mãos da mesma família, os Pinto Bastos, que se orgulham da qualidade da pintura na Fábrica e acarinham sempre esta arte

Não gosto de concluir nada, porque a vida nunca é linear e nem os desenlaces são perfeitos, mas posso adiantar que uma certa limitação de meios jogou a favor da Vista Alegre, que produziu na época desta cafeteira peças de uma notável delicadeza, mas sem afectação.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Bule da Vista Alegre: 1870-1880


Não tenho espaço em casa. Todos os centímetros estão tomados com móveis, registos, gravuras, cruzes, faianças e imagens, mas como diria um coleccionador francês, uma boa peça encontra sempre o seu lugar na nossa casa e talvez levado por essa máxima, ou talvez porque sou tolo, comprei por um preço bastante em conta este bule da Vista Alegre, datado entre 1870-1880, década que se costuma designar pelo 4º período de produção. Nestes anos, na Fábrica da Vista Alegre, encontrava-se o artista Joaquim José de Oliveira, aluno de Fortier e Rousseau, que manteve o esplêndido nível de pintura dos seus mestres.

A marca datada entre 1870-1880

Além da decoração floral muito delicada, o que chama mais atenção neste bule, são as grandes dimensões. É uma peça para servir chá a muita gente!!


O formato é já bem nosso conhecido. A Fábrica de Ílhavo usou formato de bule polilobado durante décadas a fio, com decorações variadas ou simplesmente todo branco.
O Açucareiro que eu pensava pertencer ao mesmo serviço

Quando comprei este bule, julgava que era do mesmo serviço de um açucareiro, mais ou menos também deste período, que já mostrei aqui. Mas não. A Vista Alegre fez imensas variantes deste motivo floral. A olho nu, já contei umas seis variantes deste motivo das florzinhas.
Detalhe do bule com  as características florinhas.
Já aqui o escrevi e não me canso de o repetir. Mas este tipo de decoração é a meu ver, das mais felizes da fábrica. Nela, os pintores respeitam a brancura da porcelana, a pincelada é suave e as flores extremamente delicadas.

Para escrever este post usei as informações contidas no catálogo Exposição Vista Alegre: porcelana portuguesa: testemunho de história. Lisboa: Estar Editora, 1998

Outra vista do bule

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Ainda a sempre noiva: a Infanta Isabel Luisa Josefa


Quando se encontra a ponta de um novelo, todo o fio vem atrás rapidamente e foi o que me aconteceu com a estampa aqui representada, sobre a qual escrevi em 7 de Setembro. Depois de ter descoberto que se tratava da Infanta Infanta Isabel Luisa Josefa, consegui identificar os seus autores, obter informações sobre a vida e a obra destes, bem como decifrar a iconografia da gravura.

Mas já depois de ter escrito o post, ao desfolhar a obra A ilustração do livro: Séculos XV a XIX, de Ernesto Soares, publicada em Lisboa, pela Excelcior encontro novamente o retrato da infeliz infanta, que morreu encalhada, como dizem os nossos irmãos brasileiros. Fui ler o respectivo texto e fiquei a saber que esta estampa foi parte integrante de um livro, a Alma instruída, do Padre Manuel Fernandes. De facto, desde há muitos anos que fui tendo sempre a suspeita, que a estampa poderia ter sido o frontispício de um livro. Aliás, julgo que a maioria das gravuras antigas que andam por aí a serem vendidas, fizeram um dia parte de livros.

Depois desta descoberta, fui passear para o site da Biblioteca Nacional e localizei a dita alma instruída, publicada em 3 volumes entre 1688-1699, em Lisboa, na oficina de Miguel Deslandes. A obra foi dedicada à Infanta e os três tomos apresentam frontispícios com a princesa da Beira no meio de figuras alegóricas. A minha estampa foi a que saiu no volume II, publicado em 1690, conforme se pode perceber pelo excerto do registo bibliográfico:

Tomo segundo, que contem a Doutrina do Symbolo dos Apostolos, & Artigos da Fé, até os Mandamentos da Lei. - 1690. - [1] f. grav., [19, 1 br.], 1025 p. - Antes da p. de tít., f. grav. calc. com a Infanta sentada num trono, rodeada pelas figuras da Fé, Esperança e Caridade, e nos degraus do trono dois anjos segurando o respectivo escudo, assin. "Hal... delen", "H. Trudon Effigiem pinx", "G. Edelince Effigies Sculp parisiis..."


Segundo a Grande enciclopédia portuguesa e brasileira, este Padre Manuel Fernandes (1614-1693) era um Jesuíta, autor de manuais de teologia moral e chegou a confessor de D. Pedro II, o que explica porque razão dedicou a esta obra à filha primogénita do Rei.


Agora o meu objectivo é encontrar imagem dos outros frontispícios gémeos do meu, que também representam a Infanta. Infelizmente a Biblioteca Nacional ainda não digitalizou o livro e terei ir procurando aqui e ali, mas se os encontrar imagens mostro-as aqui.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Prato em faiança imitando o mármore



Visitei há pouco tempo a casa de um amigo transmontano, que é um edifício com carácter, história e cheio de coisas interessantes. Uma das muitas peças que me chamaram a atenção foi este belo prato, com uma pintura a sugerir mármore e que obviamente não está marcado. Recordou-me uma mísula apresentada pela Maria Andrade em 4 de Junho deste ano, bem como um galheteiro, mostrado no mesmo post, pertencente à primeira seguidora misteriosa, que vai alimentando generosamente estes blogs com os seus tesouros de cerâmica. A Maria Andrade suspeitava que a sua mísula fosse do século XVIII e o movimento barroco da peça sugeria que sim e talvez fosse até fabrico do Rato.
Painel de azulejos pombalinos imitando o mármore

Não afirmo que este prato seja Rato, ou do Século XVIII, mas tal como a mísula da Maria Andrade ou o galheteiro da Seguidora Misteriosa, corresponde a uma moda muito comum de imitação do mármore, presente nas artes decorativas portuguesas, nomeadamente na talha, no azulejo, no estuques e nas faianças e até mesmo no papel.

Papel marmoreado do Séc. XVIII
Julgo que ainda em hoje em dia esta pintura de fingimento de mármore é ensinada na fundação Ricardo Espírito Santo Silva.

Peanha marmoreada de imagem de S. Bernardo da colecção do Palácio Nacional de Mafra.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A sala do Museu do Solar de Outeiro Seco: cadeira estilo Hepplewhite

A cadeira estilo Hepplewhite do meu amigo Nortenho

Como já aqui escrevi, já tenho uma memória esbatida do interior do Solar. Recordo-me bem da impressão causada pelo sol, que invadia as salas todas, da imensa biblioteca com livros de dois, três e quatro séculos, das peles de animais exóticos que decoravam as paredes, dos pedaços de mosaico romano na vitrina do museu, bem como de dúzias de instrumentos em pedra e metal dos tempos pré-históricos. Claro, também me lembro da fonte em alabastro com os passarinhos, que neste momento está em minha casa, mas esse é o género de objectos, que encanta qualquer criança. Ainda hoje muitas crianças adultas se encantam com a peça quando a vêem na minha casa. Mas a memória é uma caixa de capacidade limitada e por muito que eu queira extrair mais informações sobre a casa não consigo.


A fonte de alabastro, peça italiana do séc. XIX

Talvez por isso faça este exercício do blog, que é uma forma partilhada com os meus seguidores de descobrir, trazer do esquecimento mais pormenores sobre o solar. Creio que ambiciono um dia fazer uma espécie de site na internet, que levante de novo as paredes do Solar Outeiro Seco e volte a abrir as salas cheias de sol, que por vezes ainda aparecem nos meus sonhos, embora cada vez mais raramente.

A sala do museu, onde do lado direito, assinalada coum um traço se vê a cadeira Hepplewhite

Na última, vez que apresentei uma fotografia da sala do museu, a propósito do post sobre o canapé, um dos meus seguidores nortenhos imediatamente reparou numa outra cadeira, que a objectiva fixou e enviou-me uma imagem de peça idêntica da sua colecção, feita em pau-santo. Foi muito curioso, porque há uns tempos o meu amigo Humberto tinha-me enviado uma imagem da cadeira autêntica, a que está na fotografia antiga e que neste momento é propriedade de uma familiar minha. Na época pensei escrever sobre ela, mas faltou-me a história e pois gosto sempre tecer uma pequena narrativa à volta dos objectos. Agora com as duas fotografias achei que tinha chegado a altura de escrever sobre esta cadeira, que mobilou outrora a sala do Museu de Outeiro Seco.

A cadeira que estava do Solar dos Montalvões. Fotografia de Humberto Ferreira

A cadeira do meu seguidor nortenho e a cadeira do Solar, que são quase idênticas, foram feitas segundo o estilo Hepplewhite.

Outro detalhe da cadeira em pau santo do nosso amigo do Norte


Conforme se pode ler na Wikipédia, este estilo tem origem num senhor chamado George Hepplewhite, um marceneiro inglês, que viveu entre 1727 e 1786, contemporâneo de outros dois nomes míticos do mobiliário inglês, Thomas Sheraton e Thomas Chippendale. No entanto o Senhor Hepplewhite no seu tempo não foi famoso, nem se conhecem realmente peças assinadas por ele. Só após a sua morte, quando a mulher Alice tomou conta do negócio e fez publicar um livro com 300 desenhos de modelos concebidos pelo marido, The Cabinet Maker and Upholsterers Guide, é que obteve reconhecimento público. Mais o livro tornou-se uma bíblia para todos os marceneiros ingleses, influenciou de forma indelével o mobiliário inglês e norte-americano da primeira metade do século XIX e por cá o estilo D. Maria acusa inspiração neste estilo. Aliás, é provável que as duas cadeiras em causa sejam datadas da primeira metade deste século.



The Cabinet Maker and Upholsterers Guide

Em suma, apesar de Senhor Hepplewhite ter desenvolvido a sua actividade no século XVIII, a sua influência começa depois da sua morte e acentua-se ao longo do XIX. Aliás, os modelos do seu livro nunca deixaram de ser copiados e ainda hoje as casas da chamada mobília de estilo fazem cadeiras Hepplewhite.



The Cabinet Maker and Upholsterers Guide
Hepplewhite é um estilo esbelto, caracterizado pelo espaldar em forma de escudo e pernas rectas, que se tornou ao longo de dois séculos uma referência clássica do mobiliário ocidental.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Nossa Senhora da Luz: Verónicas e Registos de Santos


Como já sabem os seguidores deste blog, tenho uma paixão por registos de Santos. Além das razões estéticas e emocionais para esta colecção, os registos são um meio barato de se ter em casa peças originais do século XVIII. Com efeito, já cheguei a comprar gravurazinhas destas a um euro e ainda fiz um favor à vendedora em liberta-la daqueles horrores piedosos.

Mas não é para falar de mim, que apresento hoje esta imagem da Senhora da Luz, dos últimos anos do Século XVIII, executada já ao gosto neoclássico. Andei a ler com mais atenção os Subsídios para a história da gravura, de Luís Chaves e descobri algumas coisas muito interessantes, que gostaria de partilhar com os leitores do blog.

O registo é normalmente uma estampa, que regista o pagamento de uma promessa ou o cumprimento de um dever religioso. Isto quer dizer que as pessoas, quando se deslocavam a uma romaria, compravam na igreja ou catedral uma gravurazinha destas para registar a sua presença no Santuário ou então adquiriam estas imagens, como bilhete para ganharem a indulgência registada na estampa.


Quanto apresentei um dos posts sobre registos de Santos, a Maria Andrade observou que eu usava o termo registo, quer para a estampa propriamente dita, quer para o registo emoldurado em papelão ou encaixilhado a vidro e decorado com pedacinhos de tecido, contas e restos de passamanaria. A nossa amiga tinha ideia que registo era um termo aplicado apenas à segunda situação.

A leitura da obra Subsídios para a história da gravura forneceu-me uma adequada resposta à pergunta da Maria Andrade pois de facto os dois objectos são identificados por nomes diferentes, conforme explicarei de seguida:

1 - A estampa com o santo designa-se por registo;


Sta. Ursula: exemplo de um registo


2 - As gravuras dos santos resguardadas em caixilhos de madeira ou papelão, com ou sem vidro e muito enfeitadas com lantejoulas e contas designam-se por Verónicas (p. 116 de Subsídios Para a História da Gravura, ed. 1927)
Exemplo de uma Verónica

  
Creio que esta palavra tão bonita a sugerir flores terá talvez tido origem nas pinturas com o rosto de Cristo, que as pessoas emolduravam preciosamente. Infelizmente, hoje o termo desapareceu e usa-se registo indiferenciadamente para designar estes dois objectos.


Quanto à minha gravura da Senhora da Luz, certamente reporta-se à Imagem em veneração na Igreja de Carnide e terá sido impressa na Rua do Passeio Público, nº 2. O Passeio Público como toda a gente sabe era o jardim público de Lisboa, criado no tempo do Marquês de Pombal, na actual praça dos Restauradores e início da Av. da Liberdade e foi praticamente destruído nos finais do XIX. Junto a este jardim, no nº 2, situava-se a casa de Francisco Manuel, que foi durante muitos anos uma próspera fornecedora de estampas religiosas a toda a Lisboa e arredores, pelo menos a julgar pelo elevado número de registinhos que se encontram com aquela morada.

domingo, 11 de setembro de 2011

Uma fotografia do pós-guerra

Gosto de ver fotografias antigas de famílias. Cada uma delas fixou para sempre um tempo da história, ainda que o seu objectivo fosse mostrar prosaicamente um vestido novo, um momento de coquetterie, assinalar um aniversário ou um passeio.

Esta fotografia da minha mãe Teresa e da sua irmã Francisca foi tirada ao fundo da vila transmontana de Vinhais, em direcção a Bragança. A estrada ainda era de macadame e do lado direito não existia qualquer espécie de construção, nem o Tribunal, nem as vivendas cinquentonas, que depois ocuparam o local. Não há carros e elas posaram demoradamente no meio da estrada para a câmara. Ao fundo vê-se a casa da Cavaquinha, uma senhora que era tão forreta que apanhava as lagartas das culturas à mão e mais ao fundo ainda outra casa, que pertencia à uma amiga da minha mãe a Maria Efigénia.

Poderemos datar a fotografia entre 1945 ou 1946. As modas ainda acusam as tendências do período da guerra.


Os sapatos são ainda com solas muito grossas. Durante a Segunda Guerra mundial o couro escasseou e os sapatos passaram a ser fabricados em materiais como cortiça, borracha reutilizada de pneus e madeira. Consequentemente desapareceram os escarpins finos e elegantes e as plataformas tornaram-se numa moda irremediável para todas, como se pode ver nesta imagem de Paris, durante o período da ocupação (1940-1944).

Os sapatos em Paris durante a ocupação

As saias são também relativamente curtas, pois durante este conflito mundial houve racionamento de tecido por toda a Europa, inclusive num país neutro como Portugal e as mulheres não tiveram outra solução senão procurarem estar elegantes com menos pano. A minha mãe e a irmã seguem também outra moda surgida em Paris durante a ocupação. As saias travadas desaparecem quase por completo, pois as mulheres precisavam de alguma folga nas pernas para andarem de bicicleta, uma vez que os carros particulares quase que desapareceram das cidades europeias durante este período.

Durante a ocupação as saias tornaram-se menos justas para permitir ás mulheres usarem as bicicletas


Os ombros dos vestidos são marcados, sem dúvida influência dos uniformes militares.


Paris durante a Ocupação: os chapéus feitos de nada

As duas irmãs só não apresentam os fantásticos chapéus parisienses do período da ocupação, feitos de nada, que desafiavam a lei da gravidade. Nesta altura, as parisienses punham nos chapéus tudo aquilo que não podiam aproveitar para a roupa, como restos de tecido, de lã, aparas de madeira envernizadas ou bocadinhos de passamanaria e os resultados eram fabulosos.


Paris durante a Ocupação: os chapéus feitos de nada

Mas obviamente, Vinhais não era Paris, a minha mãe e a minha tia não andavam de bicicleta, saiam de casa apenas para ir à Missa e fazer visitas e certamente iriam acompanhadas por algum chaperon, como um irmão, uma criada velha ou uma tia. Viviam numa vila perdida no extremo Norte de Portugal, num período em que os costumes eram apertados para as jovens. Claro, deveriam consultar avidamente os figurinos, o nome antigo que se dava às revistas de moda, publicações que apesar da devastação da Europa, nunca deixaram completamente de circular.

O new look de Dior em 1947
Pouco tempo depois de ser feita esta fotografia, no ano de 1947, quando o racionamento está a acabar, Christian Dior lança o new look, caracterizado por saias até á barriga da perna, com muita, muita roda, de tal forma que os homens e mulheres conscienciosos se indignaram com o enorme desperdício de tecido. Portanto, 1947 é um ano que serve para datar as fotografias antigas. Os vestidos femininos são antes ou depois de 1947

Os meus seguidores amantes da faiança, da gravura ou mobiliário que me desculpem por esta incursão à moda, mas as fotografia antigas levam os nossos pensamentos em todas as direcções e eu gosto de fazer a chamada petite histoire

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A sempre noiva: estampa feita dos finais do séc. XVII


Há mais de 15 ou 16 anos que tenho esta gravura comigo e estive sempre convencido que representava a Rainha D. Maria I (1734 -1816). Era evidente que se tratava de uma soberana e portuguesa, como se podia ver pelo escudo e como no século XVIII só houve uma mulher a ocupar o trono em Portugal, só poderia tratar-se de D. Maria. Assim durante todo este tempo vivi convicto que tinha uma estampa original dos finais do XVIII, em casa representando a rainha D. Maria I.

A lisonja

Mais recentemente, achei que esta estampa merecia um post e procurei informar-me sobre ela. Contudo, por muitas pesquisas que fizesse os resultados eram sempre nulos, A única coisa que adiantei foi sobre o brasão, na parte inferior da gravura, que se apresenta em forma de losango, com o lado esquerdo preenchido com as armas de Portugal e o lado direito vazio. Esta forma de brasão é designada por lisonja e é apanágio das mulheres. Como as senhoras não iam a guerra, os seus brasões não eram em forma de escudos. Usavam então estas lisonjas, que quando tinham a metade esquerda em branco, significava que ainda não eram casadas. Quando arranjassem um marido, as insígnias heráldicas dele ocupariam o lado esquerdo.

Persuadi-me então que se tratava de um retrato de D. Maria I, ainda solteira, talvez ainda como princesa herdeira do trono.

E continuei neste convencimento, até que segunda-feira, descobri na secretaria de um dos colegas de trabalho, um livrinho intitulado Princesas e infantas de Portugal: 1640-1736/ Ana Cristina Duarte Pereira. – Lisboa: Colibri, 2008 e qual não foi o meu espanto quando encontrei a imagem da minha gravura na capa. Abri logo para ler a ficha técnica e descobri que estampa representava a afinal Isabel Luisa Josefa, Princesa da Beira!

Isabel Luisa Josefa por Dupra

Esta senhora, cujo nome para a maioria dos portugueses não diz nada era a filha única de Pedro II e de D. Maria Francisca de Sabóia, que protagonizaram um dos episódios mais rocambolescos da história portuguesa. Depois da Restauração da Independência em 1640, a coroa portuguesa procurou estabelecer a paz com os países inimigos da Espanha, que continuavam a atacar as nossas caravelas e colónias, e para esse efeito nada melhor do que resolver os conflitos com casamentos. A filha de João IV, Catarina foi despachada para o rei de Inglaterra e por consequência os navios corsários ingleses deixaram em paz os nossos navios e o primogénito, Afonso VI casado com uma princesa da corte de Luís XIV, Francisca de Sabóia, conseguindo assim o apoio da França contra a Espanha.

Ora acontece que Afonso VI era um incapaz e a Maria Francisca uma mulher ambiciosa, educada na corte sofisticada de Luís XIV, cujos costumes não primavam pelo rigor e não tardou em envolver-se com o cunhado, D. Pedro e a intrigar abertamente contra o 1 º ministro, o Conde Castelo Melhor. Juntamente com o cunhado, acabaram por levar os seus projectos a bom porto, o rei foi interditado, o casamento anulado e os dois, conseguiram-se finalmente tornar reis de Portugal, após a morte de Afonso VI.

O casal só teve esta filha, que, ao que consta foi muito bem-educada. Falava francês, italiano e espanhol, sabia latim e dedicava-se ao estudo da história. Além destes predicados era bonita, pelo menos a julgar pelos retratos. Sendo filha única era a herdeira do trono português e portanto usava o título de princesa da Beira. O seu pai tentou arranjar-lhe vezes sem conta marido por toda a Europa, mas os projectos abortaram sempre e a pobre rapariga ficou maliciosamente conhecida pela sempre noiva. Acabou por morrer cedo, com 21 anos, em 1690, sem nunca casar e sem poder usar os seus predicados culturais e físicos. O trono será ocupado, pelo seu meio meio-irmão, o futuro D, João V, nascido do segundo casamento do pai.


Quanto à estampa, sabendo já quem representava, descobri facilmente uma igual na Biblioteca Nacional. O exemplar deles não tem os dados de impressão tapados pelo passe partout como o meu e contem assim a seguinte legenda:

Halé delin. ; H. Trudon Effigiem pinx ; G. Edelinck... sculp., Parisiis


A gravura foi impressa em Paris, entre 1690 e 1705, data baseada no período de actividade do gravador, que foi um tal Gérard Edelinck, (1649-1707). Flamengo estabelecido em Paris, este gravador alcançou um enorme prestígio em França. Foi nomeado por Colbert professor na manufactura de Gobelins e admitido na Academia em 1677. Realizou gravuras de retratos das mais conhecidas pessoas em França no tempo de Luís XIV, como Descartes, Colbert, Lebrun, Rigaud, Champaigne, Santeuil, Nicolas Feuillet e do próprio Rei e ainda da sua amante preferida na época, Louise de La Vallière.

Louise de La Vallière, a maîtresse-en-titre de Luís XIV


Fiz mais umas pesquisas e descobri a mesma gravura no British Museu e mais informações sobre os artistas que executaram o desenho. O pintor Claude Guy Hallé executou o desenho da composição geral e Jerome Trudon o retrato da princesa propriamente dita a partir de um quadro anteriormente pintado por si. Claude Guy Hallé (1652-1736) pertencia uma dinastia de pintores e foi um artista conhecido no seu tempo. Algumas das suas obras serviram de cartão para tapeçarias de Gobelins.


Réparation faite au roi par le doge de Gênes por Hallé. Obra que serviu para cartão de uma tapeçaria

Trudon foi um pintor que caiu completamente no esquecimento.

A alegoria da Igreja
A descrição do British Museum forneceu-me também a chave dos elementos iconográficos da estampa. Ao centro vemos a Princesa da Beira, rodeadas de três figuras femininas, que representam as três virtudes teologais, a Fé (com o cálice), a Caridade (chama) e a Esperança (a âncora). A figura do alto, envergando a coroa de S. Pedro, representa a Igreja.

A Fé

A Caridade
A esperança


Talvez esta estampa tenha sido encomendada por D. Pedro II, em Paris, a um dos melhores gravadores da época, Gérard Edelinck, como forma de propagandear pelas cortes europeias, a beleza e as virtudes da princesa católica, que se queria casar a todo custo, e por essa razão julgo que a data da sua execução seja anterior à morte da Princesa, em 1690.

Mais sobre esta estampa

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Canapé estilo D. Maria do Solar de Outeiro Seco


Este canapé fazia parte do recheio do Solar dos Montalvões em Outeiro Seco. Ao contrário de uma ou outra peça de mobília ou de artes decorativas, que ainda me recordo nos seus sítios originais em Outeiro Seco, desta já não tinha qualquer ideia. Também a última vez que visitei o solar teria uns 16 ou 17 anos e nessa idade não tinha o olho treinado para as belas antiguidades e muito menos a consciência, que era a última vez que estava a ver a casa com o seu recheio original e que tudo aquilo iria ser dividido, disperso ou abandonado ao caruncho.

No entanto, com alguma paciência, visionei umas quantas vezes o filme,que o meu pai fez nos meados nos anos sessenta do interior do solar e consegui descobri-lo na chamada sala do museu, aquela divisão onde o meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio reuniu o seu gabinete de curiosidades. No inventário sumário da casa que a minha avô Mimi fez da casa, mais atento às artes decorativas, do que ao mobiliário, menciona nesta sala a existência de três sofás, com os respectivos conjuntos de cadeiras, sendo que os dois primeiros são do estilo D. Maria. Provavelmente, um deles será o exemplar da fotografia que apresento. A avó usou o termo canapé como sinónimo de sofá.

Do lado esquerdo podemos ver o canapé na sua localização original, no solar de Outeiro Seco

Depois da partilha do recheio pelos herdeiros e da venda da casa, este canapé, calhou a minha avó Mimi, que o colocou no escritório da casa, em Chaves. Nessa época, nós os jovens, éramos constantemente admoestados, sobre a forma como nos devíamos ali sentar. De facto, estas peças de mobiliário são pouco confortáveis, frágeis e não foram desenhadas para as pessoas se estiraçarem-se nelas a ver televisão, com um balde de pipocas à frente. Estes canapés destinavam-se às salas de visitas, onde as senhoras, os cavalheiros e as criancinhas se sentavam muito direitas e compostas. As visitas eram um momento formal das classes mais abastadas. Havia até cerimonial próprio. As pessoas retribuíam as visitas, que faziam umas às outras e deixavam sempre um pequeno cartão e existia até um movelzinho próprio, que segurava uma bandeja em prata, porcelana ou faiança, para deixar os cartões de visita. Creio que se chamavam bilheteiras. Envergavam-se as melhores toilettes para esta actividade social e as senhoras nunca tiravam o chapéu. Enfim, este aparte, serviu só para explicar aos mais novos, o motivo porque estas peças de  mobiliário são tão pouco confortáveis, pois correspondiam serviam uma actividade social muito formal.


A minha avó passou os últimos dez anos da vida dela num lar, completamente incapacitada mentalmente e o canapé ficou encerrado, na sua casa, às escuras, ganhando caruncho. Depois da sua morte, os filhos fizeram as partilhas e o meu pai ficou com o canapé. Colocou-o na sala de jantar. Porém, como era muito grande e atravancava a sala, despachou-o para um armazém e lá ficou outra vez por mais uma década, à mercê da humidade, do pó e do bicho da madeira.

Subitamente no Verão passado, o meu pai resolveu desfazer-se do armazém e dividir o seu conteúdo pelos filhos. Fiquei com a fonte em alabastro e este enorme canapé de quatro lugares, para o qual não tinha de todo lugar em casa. O Manel veio em meu auxílio, ofereceu-se para guarda-lo e lá foi ele para Pombal aterrar em mais uma arrecadação. Este Verão, o canapé viajou mais uma vez vez e rumou para o Sul, para casa do Alentejo do Manel. Aqui teve mais sorte, pois o Manel gostou dele e resolveu restaura-lo. Quando o Manel gosta muito de uma peça oferece-se para recupera-la.

O resultado do restauro foi este, que vemos na fotografia. A madeira de nogueira reapareceu debaixo da sujidade com um brilho muito bonito, mas manteve a patina do tempo. A estrutura foi consolidada e algumas partes muito atacadas pelo caruncho foram até refeitas. A palhinha foi limpa e passada com goma laca para ganhar algum lustro, mas sem brilho excessivo. Enfim, o Manel fez um trabalho que respeitou a antiguidade e a história da peça.


O trabalho em marcheteria. Os embutidos serão talvez em raiz de nogueira ou freixo

Embora este tipo de peças seja vulgarmente designado pelo estilo D. Maria (1777-1816), a sua execução já foi certamente posterior ao seu reinado.

Cadeira inglesa estilo Regency

Terá sido executado à volta de 1815-1830, ou talvez um pouco mais tarde, pois os braços e mesmo o espaldar já acusam os estilos da Restauração em França (período após a queda de Napoleão, 1815, em que os Bourbons regressaram ao trono de França) ou do estilo Regency, em Inglaterra. Mas o trabalho de marchetaria no espaldar, o uso da palhinha, a madeira clara, as linhas simples e suaves são ainda ao gosto do chamado estilo D. Maria.