sábado, 24 de dezembro de 2011

Pia de água-benta atribuída a Viana ou votos de boas festas


Bem, nesta altura do ano, as caixas de correio electrónico estão atafulhadas de postais de boas festas, com pais natais a dançarem quizomba, pinheiros de natal a piscar com muita luzinha e muitas outras coisas do mesmo calibre. Para evitar essa poluição nas vossas caixas do correio e para desejar as boas festas aos seguidores deste blog, mostro-vos hoje a jóia da coroa das minhas faianças, uma pia de água-benta atribuída a Viana, provavelmente fabricada nas últimas décadas do século XVIII.

A cruz e os instrumentos da Paixão de Cristo

Demorei algum tempo a identificar esta pia de água-benta. Houve muitas fábricas de faiança na segunda metade do século XIX e no início do XIX a manufacturarem pias muito semelhantes a esta, como por exemplo Miragaia, no Porto.

Pia de água-benta miragaia do Museu Nacional de Soares dos Reis

Num catálogo de uma leiloeira, vi uma exactamente igual a minha, atribuída ao Rato, mas infelizmente perdi o rasto da publicação e não me lembro do número ou data. A Bica do Sapato e o Juncal também fizeram pias idênticas a esta.


Pia de água-benta da fábrica da Bica do Sapato. Museu Nacional de Arqueologia

Enfim, estas pias seriam peças que as fábricas faziam sair com grande êxito, nos finais do século XVIII, princípios do XIX, para satisfazer uma sociedade profundamente religiosa, que usava estes objectos em casa, colocando-os em pequenos oratórios ou maquinetas para as suas devoções domésticas. Aliás esta pia tanto foi usada, tirada e posta da parede, para ser enchida com água benta da Igreja, que acabou por cair e estilhaçar-se em dezenas de pedaços. Foi posteriormente toda colada usando um papel por detrás para dar solidez ao trabalho, mas que tapou a marca, se é que existiu alguma vez.
Um detalhe da decoração da minha pia

A decoração desta pia, é do tipo ruanesco, que foi um motivo usado por todas as fábricas de faiança desta época sem excepção. Portanto, não seria pela decoração que eu conseguiria identificar a minha peça.

Estampa 7 da Exposição de cerâmica das fábricas do distrito: duzentos anos de labor artístico. – Câmara Municipal de Viana do Castelo, 1970

Acabei por identifica-la por mero acaso, ao folhear o catálogo Exposição de cerâmica das fábricas do distrito: duzentos anos de labor artístico. – Câmara Municipal de Viana do Castelo, 1970. Na estampa sete, no conjunto de uma série de pias de água benta lá estava uma igualzinha á minha, atribuída a célebre Fábrica de Darque. A acreditar nesse livrinho, esta pia teria sido executada no 1º Período de laboração de Viana, 1774-1790/95, em que as peças apresentam uma grande influência da Louça de Ruão.



Desejo-vos boas festas, salpicando-vos com a água-benta desta pia da fábrica de Viana.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Uma arquitectura imaginária por Debrie



Esta obra de Debrie é sem dúvida uma das estampas do Manel que eu mais gosto. Em dimensões muito reduzidas, o gravador francês apresenta uma praça com uma arquitectura imaginária, desenhada com rigor e minúcia que até nos espanta.



Para não variar, esta gravura foi retirada de um livro, as Memórias para a História de Portugal que compreende o governo del rey D. João I, da autoria de José António da Silva, mais propriamente do tomo II, publicado em 1731. Além destes dados, o Manel que é um cusca, ainda conseguiu descobrir a página de onde foi retirada a estampa, a 531.



A referida página 531 abria o Capítulo CIV, Memórias em que se referem as fábricas sagradas e profanas, que foram fundação Del Rei.


Isto trocado em miúdos, quer dizer que nesta parte do livro descrevia-se os monumentos e as obras mandadas erguer pelo Rei D. João I, o que justifica a escolha de Debrie de um tema arquitectural, só que para melhor traduzir o assunto do capítulo, desenhou edifícios em construção com andaimes postos, operários em azafama, carroças e gente a transportar volumes.


É certo que os edifícios são absolutamente clássicos, quase romanos que nada tem a ver com o tempo em que D. João I viveu, os finais da Idade Média, mas também pouco importava, na época de Guillaume François Laurent De Brié não havia grandes preocupações com o rigor na representação de cada período histórico. O que era considerado bonito no Século XVIII era a beleza e a monumentalidade dos edifícios da antiga Roma, que os artistas de toda a Europa desenhavam quando iam em peregrinação artística à cidade eterna. Esses pintores e desenhadores divulgavam as suas vistas de Roma Antiga por toda a Europa em forma de gravuras. Essas estampas ficaram conhecidas pelo nome italiano de vedutas, ou em português vistas e são as antepassadas dos postais modernos. O mais célebre desses artistas foi Giovanni Battista Piranesi,1720-1778, mas ainda antes dele, no século XVII, houve outros que delinearam vistas de antigos templos de Roma, em ruínas e que já tinham tornado as vedutas populares na Europa, como Alessandro Specci

Pont triomphal erigé par un Empereur Romain. Piranesi. Biblioteca Nacional. Reconstituição fantasiosa da Antiga Roma

Mas Piranesi desenhou como poucos a beleza e a poesia dos monumentos romanos em ruínas, mas fez mais do que isso, deu-se também ao trabalho de os representar reconstruídos, algumas vezes de forma plausível e outras vezes dando largas à sua imaginação, produzindo assim reconstituições históricas fantasiosas da Antiga Roma, que são muito mais assombrosas e de melhor qualidade, que os filmes de época que Hollywood fez nos anos 40 ou 50.


Uma reconstituição mais ou menos fantasiosa da antiga Roma por Piranesi
Esta gravura do artista francês De Brie, que se radicou em Portugal durante o reinado de João V, evoca de facto Piranesi e as suas antiguidades romanas reconstituídas.
A minúcia da estampa de debrie

Quem quiser saber mais sobre o Piranesi pode consultar a obra Giovanni Battista Piranesi: invenções, caprichos, arquirtecturas. – lisboa: IPPAR, 1993

sábado, 17 de dezembro de 2011

Ecce Homo em terracota

A nossa amiga, a seguidora misteriosa, a propósito do Santo António em barro que aqui apresentei, enviou-me a imagem de uma cabeça de um cristo em Terracota, que me deixou emocionado. Pedi-lhe autorização para falar desta peça da sua colecção aqui no blog, embora não soubesse nada sobre escultura em barro ou sobre o significado iconográfico da obra, pois há tantas e tantas representações de Cristo. Enfim, mais de metade da arte cristã ao longo de uns bons 18 ou 20 séculos anda à volta da figura do nazareno.

Tentei ler alguma coisa sobre a escultura de barro em Portugal, mas pouco ou nada encontrei. Houve uma grande escola de barristas em Alcobaça nos séculos XVII e XVIII, que floresceu com o patrocínio do mosteiro. O barro abundava naquela região e era mais barato que a madeira, para não falar da pedra. Para além disso, era fácil de trabalhar. Mas pouco mais encontrei que isto. A cabeça deste Cristo continuava a olhar para mim, com o sorriso enigmático de escultura arcaica grega, sem me revelar nada de onde tinha sido feita ou o que representava.


Intrigava-me a coroa de espinhos, com umas perfurações que pareciam feitas por uma broca, muito usada na escultura durante toda a antiguidade, o trépano, até que uma colega de emprego me chamou a atenção, dizendo-me que esses furinhos originalmente deveriam ter encaixados espinhos em madeira, que confeririam à coroa um ar absolutamente real.

Mas em todo o caso, continuava sem material para escrever fosse o que fosse no blog, até que na passada segunda-feira, fiz a uma visita guiada à exposição de escultura espanhola no Museu Nacional de Arte Antiga, Cuerpos de Dolor, e quando o conservador se deteve a falar diante de um busto lindíssimo de um Cristo, fez-se luz no meu espírito.

Ecce Homo de Pedro de Mena. Museo Nacional de Escultura, Valhadolid

Esta cabeça era certamente o fragmento de uma representação de Cristo, que ficou conhecida pela expressão latina Ecce homo e que em Porugal é vulgarmente denominada Senhor da Cana Verde. Segundo o Evangelho de S. João Ecce homo foram as palavras pronunciadas por Pôncio Pilatos, quando apresentou Jesus de Nazaré, flagelado, atado e com a coroa de espinhos perante a multidão hostil, para que esta tomasse a decisão final de o condenar ou não. Portanto, o tema Ecce homo representa sempre o Cristo em sofrimento. No entanto esta escultura da nossa amiga, mostra um Jesus, com um meio sorriso, talvez indulgente, como que estando a pensar, perdoai-lhe, pai.



Não sou católico, mas o valor moral do perdão que o Cristianismo introduziu na cultura ocidental sempre me pareceu altamente meritório. Desculpem-me as considerações morais, pois não são de e todo o objectivo deste blog, mas por vezes a arte sugestiona-nos tanto, que nos conduz a reflexões sobre a ética e a moral.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Os portos de mar segundo Claude Joseph Vernet

A entrada do Porto do Quebec segundo Vernet

O Manel comprou esta gravura muito barata na feira de Estremoz, que representa a entrada do porto do Quebec, a célebre cidade do Canadá, onde se fala orgulhosamente o francês, apesar de dois séculos de dominação britânica. É certamente uma gravura do século XVIII e conforme se pode ler na legenda foi feita a partir de um quadro de Claude Joseph Vernet (1714-178) pintor, desenhador e gravador Francês.


Não consegui descortinar se foi próprio Vernet quem a gravou, já que ele exerceu também essa profissão, ou se foi o filho ou neto que mantiveram a mesma profissão do pai. O site oficial das dos Arquivos e Biliotecas do Governo do Canadá assinala esta estampa, e data-a de 1792, relacionando-a com o filho de Vernet, Antoine Charles Horace Vernet, que terá mandado executar a estampa a partir da obra do pai. Mas o registo não apresenta nenhuma imagem e não é claro na atribuição da obra.

Vue d'un port. museu do Louvre

Claude Joseph Vernet adorava pintar portos de mar e paisagens marítimas ao entardecer, à noite, ou em manhãs cobertas de neblina. O céu e todos os efeitos de luz e cor ocupavam sempre dois terços dos seus quadros. Havia sempre também personagens pitorescas aqui e ali.

La nuit ou le clair de la lune. Museu do Louvre

A gravura do Manel apresenta todas as características da obra de Claude Joseph Vernet. É uma paisagem marítima, captada em um dia enublado, com o céu em destaque e umas personagens pitorescas no cais. Julgo que uma delas é um turco, que ali está para dar a ideia do cosmopolitismo do porto.

O céu enublado típico de Vernet na gravura do Manel
O turco

Claude Joseph Vernet notabilizou-se sobretudo por ter executado uma encomenda de 24 telas dos principais portos de França para o Rei de França, Luís XV. Só se realizaram 15 telas que encontram-se no Louvre e no Museu da Marinha em França, mas a partir delas foram feitas muitas gravuras, que são hoje muito disputadas pelos coleccionadores. Algumas delas estiveram expostas na Gulbenkian, na mostra sobre artes decorativas francesas, O gosto à grega.


O Porto de Bordéus.

A encomenda real para pintar os principais portos de França foi feita pela pessoa de Abel-François Poisson de Vandières, o irmão da amante oficial de Luís XV, a célebre Madame de Pompadour. Nesta altura, esse homem já tinha uma influência enorme na corte francesa, conseguida através da sua irmã, a Maitresse en titre do monarca. Tal como Madame de Pompadour, Abel-François tinha um apurado sentido estético e é juntamente com a irmã um dos responsáveis pela definição do chamado estilo Luís XV.


O Marquês de Marigny, irmão de Madame de Pompadour. Aqui acompanhado pela mulher. Museu do Louvre

O nosso Claude Joseph Vernet, que casou com uma senhora inglesa, era muito apreciado pelo público britânico, que sempre gostou de paisagens marítimas enevoadas e também tem a ver com o nosso País. Com efeito, pintou em parceria com Louis-Michel van Loo, um retrato do marquês de Pombal, que é uma das imagens mais conhecidas de toda história de Portugal e se encontra no Museu da Cidade. Julgo que o Vernet terá pintado o porto e o Michel van Loo o retrato.

O Marquês de Pombal.  Pintura de Vernet feita em parceria com Louis-Michel van Loo

Começámos no Quebec e acabámos em Lisboa.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Azeitoneira da John Meir & Son


Embora goste de faiança inglesa, tenho pouca coisa. O espaço que disponho em casa é diminuto e tento-me mais pelas estampas religiosas do século XVIII que cabem em qualquer soleira de porta ou pela faiança portuguesa.



Mas por vezes, lá me deixo tentar por uma destas faianças da velha Albion, com os motivos em transfer way muito perfeitos. Foi o caso desta azeitoneira, que a comprei porque era baratinha, satisfez-me o desenho de consumo e arranjei-lhe sítio facilmente numa das minhas paredes superlotadas.
A perfeição da faiança inglesa

Segundo o site http://www.thepotteries.org/ esta pequena peça da John Meir & Son, foi fabricada provavelmente entre 1837 e 97.


O motivo decorativo chama-se Balmoral, o nome do castelo onde a família real britânica passa o Verão, desde os tempos da Rainha Victória. As famílias pequeno-burguesas da Inglaterra deveriam sentir que estavam a emprestar um toque de realeza ao seu jantar, quando serviam esta travessinha com alguma entrada, que certamente não eram azeitonas. Enfim, toda a gente sabe que a azeitona não faz parte da alimentação tradicional dos súbitos de sua Majestade Britânica. Azeitoneira foi o nome que demos em Portugal, a este tipo de travessinha.


Azeitoneira de Sacavém, 1856-1861
Aliás é muito curioso, que Sacavém fabricou uma azeitoneira com um formato em todo semelhante à que aqui é mostrada e que aparece reproduzida no livrinho Roteiro das Reservas. – Loures: Câmara Municipal, 2000, com o número de inventário 7. Essa azeitoneira de Sacavém é das mais antigas produções daquela fábrica (1856-1861) e é também mais umas das provas de como Sacavém seguiu muito de perto os modelos ingleses, logo desde o seu início.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A pequena Adelaide (1894-1969)


Olho vezes repetidas para esta fotografia da minha avó. Tenho sempre a impressão que se trata de uma fotografia da minha mãe, vestida com trajes do início do século. Há semelhanças muito evidentes entre as duas. O mesmo cabelo claro, o mesmo queixo e a mesma expressão.

A minha avó teria nesta fotografia uns 10 anos. Era uma menina. A mesma idade que a minha filha Maria do Carmo tem agora e com a qual também se assemelha.

A minha avó morreu em 1969 e eu mal me recordo dela. A minha mãe, que está agora num lenta caminhada para a morte, chama muitas vezes pela mãe, que é esta menina da fotografia. A Carminho nem faz a menor ideia de quem foi esta avô Adelaide e já não se recorda da minha mãe como uma personalidade activa.

É a inevitável marcha do tempo. Ao fim de três gerações, avó, mãe, filho, a memória dos antepassados desaparece. Talvez seja por isso, que escrevo este blog, para tentar fixar as memórias familiares e travar o tempo, ainda que inutilmente.

Mas esta menina tão bonita, com um vestido janota e um grande laçarote, morta há muito tempo, continua ainda a exercer o seu fascínio. Foi certamente um dia especial na sua vida, pois tirar o retrato era uma coisa rara, naquele tempo, ainda para mais no Emílio Biel, o fotógrafo da Casa Real!


Julgo que se terá deslocado ao Porto, para fazer esta fotografia, pois o Emílio Biel não faria certamente as feiras no interior do País como os outros fotógrafos, tirando os retratos dos lavradores abastados. O Emílio Biel era dono de um atelier no Palácio do Conde do Bolhão, na Rua Formosa e era um fotógrafo de primeira categoria. Tinha vindo da Alemanha para Portugal em 1860, na comitiva do Rei D. Fernando e foi um tipo todo empreendedor, que se dedicou a tipografia, introduziu a luz eléctrica e o telefone no Porto e tinha o estúdio fotográfico mais célebre de todo o Norte de Portugal.




Não sei exactamente se a fotografia, foi o principal pretexto para a viagem da Adelaide maria ao Porto, ou se veio acompanhar o pai nalguma viagem para tratar de assuntos oficiais.

Mas essa viagem de Vinhais para o Porto, terá ocorrido por volta de 1904 ou 1905 e terá sido feita de carruagem, ou mesmo a cavalo, pois o comboio só chegava até à Régua. Ficou talvez alojada nalgum daqueles pequenos hotéis, com elevador, que estavam a ser construídos no Porto e a menina deve ter sentido um misto de medo e excitação ao entrar pela primeira vez no ascensor. Aliás, conta-se na família, que o pai dela, uns anos antes, quando foi ao Porto e foi conduzido ao elevador pelo criado, se recusou a entrar, dizendo que não queria ficar com aquele quarto tão pequeno e sem janela.


Depois da excitação da viagem a cavalo, do hotel com elevador e da visita à grande cidade do Porto foi tirar esta fotografia ao Emílio Biel, com as suas melhores roupas e a imagem desse dia especial, em que nos fixa com os seus olhos azuis límpidos ficou imobilizada no pedaço de cartão duro, que aqui reproduzo.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Parfum Pompeia par L. T Piver, Paris



Depois do post anterior, uma incursão pela figura de Domingos de Gusmão e da forma como dominou o diabo pelo poder da oração, apeteceu-me hoje um pouco de frivolidade e mostrar-vos esta embalagem francesa, que serviu para acondicionar o frasco de perfume Pompeia, uma fragância lançada em 1907 e que esteve muito na moda, no início do século XX.



Foi-me dada pela minha avó Mimi e não tem valor nenhum. É um pedaço de papelão com uma decoração vagamente inspirada nas pinturas murais da cidade romana de Pompeia, que apelava ao público feminino, dizendo-lhes que se comprassem aquele perfume, sentir-se-iam uma espécie de Messalinas, capazes de seduzir gladiadores musculosos nas ruas da Roma antiga.



A caixinha está muito mal tratada. Julgo eu que por uma ex-mulher-a-dias particularmente destrutiva, que a minha ex-mulher e eu tivemos há uns anos. Só não a desfez completamente em pedaços, porque a fechei numa gaveta qualquer.



Mas, apesar de não ter valor, gosto dela e da história que traz consigo. Esta fragância na época foi muito inovadora, pois foi das primeiras a conter uma substância química o Salicilato de amilo, que dava ao perfume, segundo a publicidade da época, o aroma de um trevo no calor de Agosto.



Foi fabricado pela mais antiga casa de perfumes de França, L.T. Piver, fundada em 1774, que conseguiu rapidamente tornar-se fornecedora oficial da corte de Luís XVI, sobreviver à Revolução francesa, ter como clientes os membros da Família Bonaparte e ainda figuras míticas da sociedade francesa do século XIX, como a grande Sarah Bernardt.

Sarah Bernardt por Leon Goupil, musée des beaux-arts de Dijon
 
A empresa ainda existe hoje, tem um site na internet http://www.piver.com/ e mais ainda continua a produzir o perfume Pompeia, embora, pelo que fui lendo aqui e ali, em blogues e fóruns é considerado em França, assim uma coisa antiquada, como para nós é a pasta medicinal Couto ou o sabonete das Taipas.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O diabo, a candeia e o santo


Já há mais há muito mais que dez anos que tenho esta gravura. Sempre a achei encantadora, não só por causa da qualidade do desenho, mas pelo insólito do tema, pois nela podem-se ver dois diabos, um na janela e outro sentado na mesa, que certamente se preparam para fazer alguma ao pobre santo, que está no seu scriptorium a comentar algum livro piedoso ou a copiar algum autor clássico, latino ou grego. Realmente é raro aparecerem representações do diabo e achei que tinha que ter estes dois diabinhos a espreitar numa parede qualquer da minha sala, para contrabalançar os santos, cristos e virgens que sempre povoaram as minhas casas.


A moldura, em estilo D. Maria, comprada por três patacos na feira-da-Ladra. Os dourados velhos vão bem com os diabos que espreitam da estampa a minha casa

Embora a representação me intrigasse, na época, não me preocupei muito em saber muito sobre esta estampa. Sabia que seria certamente do século XVII, até por causa do tipo de letra patente nas legendas, que teria sido arrancada de um livro, mas limitava-me a gostar dela e era tudo.
O diabo entrando pela janela

Quando comecei a escrever o blog, achei que esta estampa era um tema estupendo, mas esbarrava com o significado do tema, que me era incompreensível. Um dia, quando à propósito da identificação de uma outra imagem religiosa, andei a estudar um pouco os trajes característicos de cada uma das ordens religiosas, percebi que este santo era um dominicano, pois trajava o hábito preto e branco, característico destes frades, traje esse que ficou associado para sempre à imagem da Inquisição. Enfim, como toda a gente sabe, o Santo Ofício foi exercido pelos dominicanos.

O hábito preto e branco dos Dominicanos

No entanto, tinha agora a dúvida, sobre qual dos santos dominicanos estava ali representado. Seria S. Tomás de Aquino? A imagem do santo estudioso no scriptorium medieval, representada na minha estampa estava de acordo com o perfil deste Santo medieval, que foi um intelectual de gabarito, num tempo de ignorância, em que muito pouca gente sabia ler e escrever. Conta-se que S. Tomás de Aquino espantava quem de perto convivia com ele, pois lia em silêncio, ao contrário dos outros monges, que liam soletrando em voz alta, como as crianças que andam escola primária.


Fiz uma série de pesquisas sobre a iconografia e a vida de S. Tomás de Aquino, mas na vida dele, dedicada ao estudo, à teologia e à filosofia não houve lugar para milagres estapafúrdios. Passei então à hipótese de se tratar de s. Domingos de Gusmão (1170-1221), o fundador da ordem Dominicana, que se desfez em cuidados para combater a heresia albigense em França. Andei a ler aqui e acolá, nas enciclopédias e no site oficial da ordem e não encontrei referência nenhuma a qualquer milagre que envolvesse o santo e em luta com diabo em forma de símio.


Mas, fiz tantas pesquisas no Google, pelos termos, Diabo, S. Domingos, candeia, escritos em português, inglês e francês, que lá consegui chegar à chave do mistério.


O diabo segurando a candeia

Trata.se de facto de uma representação de um milagre de S. Domingos de Gusmão, ao qual lhe apareceu o diabo a meio da noite em forma de macaco e o santo com o poder da oração, vergou o referido demónio, obrigando-o a segurar-lhe a candeia, para o alumiar enquanto trabalhava. Há um óleo de Pietro della Vecchia, datado de cerca de 1630, no Indianapolis Museum of Art, exactamente com este tema.


O Diabo segurando na candeia de s. Domingos de Gusmão. Pietro della Vecchia, ca.1630, no Indianapolis Museum of Art,

Este insólito milagre de S. Domingos de Gusmão não faz parte da biografia oficial do Santo. Representa antes uma das muitas lendas medievais que se contavam em torno dos santos e que durante a Contra-reforma, no século XVI, foram mais ou menos limpas dos relatos hagiográficos (hagio quer dizer santo), pois eram demasiado fantasiosas e impregnadas de um paganismo ancestral e a Igreja Católica, nessa época, queria surgir com uma imagem mais séria e racional, depois dos ataques feitos pelos protestantes ao paganismo mal disfarçado do culto dos santos. Ainda pensei que este milagre de S. Domingos tivesse sido retirado da célebre Lenda Dourada, de Jacopo de Varazze, uma compilação de narrativas hagiográficas da Idade Média, mas o nosso seguidor do blog http://mfls.blogs.sapo.pt/, consultou a obra e já me informou que não. Talvez esta iconografia tenha sido inspirada noutro relato medieval, mas essa pesquisa ficará para outra altura.