terça-feira, 28 de agosto de 2012

Medalhões do Recolhimento da Mofreita em Vinhais ou como se se juntam algumas peças de um puzzle de uma história passada há muito



Há uns meses fui contactado pela Câmara Municipal de Vinhais, pedindo-me autorização para usarem cópia de uma fotografia antiga, provavelmente tirada entre os anos de 1861 e 1888, mostrando a minha bisavó no recolhimento da Mofreita. A imagem destinava-se a uma exposição sobre os 500 anos do segundo foral de Vinhais e acedi com todo o gosto.

Um medalhão usado pelas Oblatas. Propriedade do Roberto Afonso


Mais tarde, a mesma pessoa que me contactou da Câmara Municipal de Vinhais, o Roberto Afonso enviou-me por e-mail duas imagens de dois medalhões, que pertenceram ao Recolhimento das Oblatas do Menino Jesus da Mofreita. Quando tive ocasião de o conhecer pessoalmente, perguntei-lhe como é que ele sabia que os medalhões provinham da Mofreita e o Roberto Afonso respondeu-me chamando-me a atenção para três aspectos muito curiosos.

Outro medalhão usado pelas Oblatas, Um menino Jesus feito em cera e um trabalho semelhante aos registos ou verónicas. Propriedade do Roberto Afonso


1- Em primeiro lugar, ampliando a fotografia, que eu lhe enviei, observa-se que todas as recolhidas ostentam um medalhão oval ao peito.




2 - O Roberto Afonso forneceu-me ainda fotocópias da obra O recolhimento da Mofreita e o espírito das ordens religiosas. – Lisboa: Imprensa de Lucas Evangelista, 1892, O autor, Ferreira Deusdado, que visitou o Recolhimento no último quartel do século XIX, confirma que as oblatas traziam um hábito roxo, cordão verde, Menino Jesus pendente de n’uma relíquia


3- Ainda segundo o Roberto Afonso as pessoas mais velhas da Aldeia da Mofreita lembram-se ainda de ouvir os seus pais falar nas irmãs oblatas com os seus medalhões ao pescoço. Aliás, o medalhão mais antigo foi dado aos avós do Roberto Afonso por uma senhora idosa da aldeia, como sendo proveniente do Recolhimento e algo muito valioso, uma espécie de talismã. Ao que parece, quando um porco estava doente, aproximavam-lhe a dita relíquia e o suíno curava-se imediatamente.

O medalhão com o Agnus Dei em cera

É aliás muito curioso que as propriedades atribuídas pelas pessoas das aldeias vizinhas da Mofreita a estes medalhões com os meninos Jesus em cera sejam semelhante às das medalhas com os agnus dei (cordeiro de Deus), feitos com a cera derretida das velas das igrejas da cidade de Roma. A devoção aos medalhões com cordeiros místicos, feitas com a cera das igrejas da cidade eterna afastaria os espíritos maus, as tempestades, trovões, raios e granizos e ainda as pestilências e sabe-se lá que mais. A minha avó materna quando trovejava colocava um destes medalhões na varanda. Não sei se era este que aqui apresento ou outro qualquer, mas em 1887 a minha bisavó, Maria da Graça Pires, ainda estaria nas Oblatas.

O verso do mesmo medalhão. Em 1887 a minha bisavó, Maria da Graça (2-3-1854 a 11-10-1943) ainda estaria nas Oblatas. Este ou um destes medalhões era usado pela minha avó contra as trovoadas


Penso até que talvez estes meninos Jesus em cera fossem também feitos com restos das velas de Igrejas e por essa razão eram considerados também uma espécie de relíquias, pois é com este termo que a tradição popular e Ferreira Deusdado os referem.
 

Só tenho a agradecer ao Roberto Afonso, Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Vinhais, a relação que estabeleceu entre a fotografia de grupo das oblatas onde está a minha bisavó e estes medalhões. Certamente a minha bisavó usou um destes objectos. Fiquei também impressionado com a curiosidade do Roberto pelo passado e o seu gosto por juntar as peças deste puzzle que é a memória dos nossos antepassados.



segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Lá, onde o Norte da Europa se anuncia


Estou de férias no Norte e não me apetece falar de faianças, mobílias antigas, porcelanas ou outras velharias. Fiz como centenas de milhares de portugueses nesta altura do ano, regressei à terra.

Uma natureza excepcional, onde se anuncia já o Norte da Europa

Nós, os Portugueses, vivemos todos ao monte na faixa litoral que vai de Braga a Setúbal, passando pelo Porto, Coimbra e Lisboa, em apartamentos novos, sem graça nenhuma, situados nuns bairros cinzentões dos anos 70, 80 e 90. Mas, há cerca de 50 anos que as universidades, as fábricas e os serviços, os empregos e as oportunidades estão na faixa litoral e os nossos avós, pais ou mesmo nós, abandonámos o interior, os campos e as casas de pedra.



O interior está cheio de casas degradadas, solares arruinados, terrenos incultos e até nalgumas regiões do País há aldeias abandonadas. Eu até tenho a teoria pessimista, que daqui a vinte anos, com o envelhecimento da população, uma percentagem significativa de aldeias portuguesas desaparecerão pura e simplesmente do mapa.

A casa familiar, construída segundo a moda da Casa Portuguesa de Raul Lino

Todas estas considerações pessimistas, vem a propósito do reencontro com a terra de origem e com a velha casa familiar, onde já ninguém vive e sobretudo com uma natureza excepcional, onde se anuncia já o Norte da Europa.


Não me preocupo muito com a minha morte, nem o que farão do meu cadáver e nem vou maçar os meus descendentes com exigências despropositadas no testamento, mas confesso que depois de morrer, tenho o desejo romântico de ver espalhadas as minhas cinzas pelas montanhas de Vinhais.




As fotografias são da minha sobrinha Isabel

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O brasão dos Montalvões: uma nova interpretação

O brasão dos Montalvões no Largo da Madalena em Chaves.

Hoje, vou arriscar-me a escrever sobre uma área da qual nada entendo, a heráldica, mas há dois anos descobri um brasão em Chaves, no Largo da Madalena, com as armas dos Montalvões, de que nunca tinha visto nada sobre ele escrito e que me deixou muito intrigado. Fotografei o brasão e quando cheguei a lisboa perguntei ao meu pai se o conhecia. Este disse-me que aquela casa era propriedade de um dos ramos da família, os Montalvões Machado e era por isso que ali estava a pedra. Não consegui descobrir mais nada e arquivei a imagem à espera, que caísse do céu alguma informação sobre esta pedra de armas.


Há umas semanas, recebi na biblioteca onde trabalho uma série de publicações escritas por um senhor, que foi um conceituado especialista em Heráldica e genealogia, J. G. Calvão Borges. Numa das obras deste investigador, descendente também de uma família transmontana, descobri a pedra de armas do Largo da Madalena reproduzida e uma interpretação muito diferente do significado do brasão dos Montalvões, do que daquela que até agora tem sido feita.


Assim, no Tombo Heráldico do Noroeste transmontano- Lisboa: livraria Bizantina, 2000, Calvão Borges dá as seguintes informações:

A)A pedra de armas do Largo da Madalena será coisa recente do século XX, mais propriamente de 1950, e quem a mandou fazer tomou por base, um brasão antigo, aquele, que está hoje na casa do meu primo, do ramo Montalvão Santos Silva. Ver post de Fevereiro de 2011

 
B) Com excepção dos Ferreira, as famílias representadas nas quatro partes em que se divide o escudo não são as mesmas, com que os autores tradicionalmente interpretam o chamado brasão dos Montalvões, isto é, nomeadamente o Cor. Afonso Dornelas e José Timóteo Montalvão Machado. Ver post de Maio de 2010.




Assim, segundo Calvão Borges e começando do fim, na quarta parte do escudo, a família que sé vê representada são os Pinheiros, em vez de ser os Velhos.
Os Pinheiros em vez dos Velhos


A terceira parte simboliza os Sobrinhos em vez dos Ximenes e Pessanhas. Acrescento eu agora, esta interpretação faz mais sentido, pois a mulher de um dos grandes construtores do solar de Outeiro seco, o Capitão José Álvares Ferreira, era uma Senhora chamada Maria Sobrinho. Houve pois ligações com estreitas entre Montalvões e Sobrinhos.
Os Sobrinhos

Quanto à segunda parte, não há novidades. Temos as características riscas dos ferreira.

Os Ferreiras

Mas no primeiro quartel, onde se vê o Leão e as flores de Lis, símbolos que os Montalvões, atribuem a si há praticamente duzentos anos, a família que ali estará representada serão provavelmente os Alves ou Alvos ou mesmo Álvares!
O Leão com as flores de lis que tomos tomaram por Montalvão, talvez seja dos Alvois, Alves ou Álvares

Sei que se alguns os meus parentes Montalvões ficarão chocados, mas J. G. Calvão Borges fundamenta a sua opinião em documentos de arquivo, como adiante passarei a discriminar, embora eu continue com dúvidas.



Como toda a gente sabe, uso dos brasões estava reservado à nobreza e era hereditário. Os burgueses, os plebeus, os judeus ou os mulatos estavam proibidos de usar este distintivo. O direito à pedra de armas estava regulado por Lei e era concedido pelo rei. Havia registos, documentos escritos que faziam prova que tal indivíduo ou família tal tinha o direito de mandar colocar um brasão à porta de casa. Em Portugal, no século XVIII, esses assuntos eram tratados no Cartório da Nobreza.
 

No séc. XVIII, houve um senhor, certamente descendente da família Montalvão, que pediu uma certidão neste cartório da nobreza. Do Cartório responderam-lhe em 1785, que os arquivos arderam no Terramoto de 1755, mas que a partir de uma cópia desses livros, emitiam a presente a certidão dizendo que as armas concedidas foram o brasão dos ditos alvos, ferreiras, sobrinhos e pinheiros. O nome Alvos tem um borrãozinho, o que poderá ser Alves, ou até mesmo Álvares, já que Alves pode ser a abreviatura de Álvares.

Os Alvos no Armorial Lusitano : genealogia e heráldica


Eu fiquei muito surpreendido e apesar de não perceber nada de Heráldica fui consultar O Armorial Lusitano : genealogia e heráldica / Afonso Eduardo Martins Zuquete. Lisboa : Editorial Enciclopédia, 1961 procurando outras opiniões, mas o leão que sempre tomei pelos Montalvões também aqui aparece referenciado como sendo da família dos Alvos, o que é um bocadinho desconcertante, porque estes Alvos são uma família, que já vem da segunda dinastia, com muito pergaminhos, aos contrário dos Montalvões que eram uns fidalgotes rurais.

Enfim, fiquei sem saber o que pensar, mas J. G. Calvão Borges afirma que estes erros são comuns na histórica e na heráldica e que em resultado de um qualquer equivoco muitas famílias tomam por seus, símbolos heráldicos de outras linhagens. Como Calvão Borges explica, alguns desses enganos já tem 200 ou 300 anos, o que faz com que as famílias usem de pleno direito esses símbolos, quanto mais não por via da posse que o costume confere.

Enfim, tentarei apurar mais sobre este Leão dos Montalvões, que afinal não é bem dos Montalvões

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Mais algumas fotografias do Solar dos Montalvões: a fachada Sul


Volto hoje ao velho Solar de Outeiro Seco, não à ruína que existe hoje, mas a um edifício, que conheci na infância, ainda coberto com telhado, paredes em pé, mobilado, com o museu de curiosidades e a grande biblioteca. Essas escassas recordações que tenho da casa, confundem-se com as memórias do meu pai e com as imagens das antigas fotografias, de modo que há coisas, que já não consigo precisar, se são as minhas próprias lembranças, ou se estas estarão já há muito misturadas com imagens construídas a partir das sensações provocadas pelas fotografias. A Yourcenar dizia qualquer coisa como isto: a memória humana não é um arquivo onde os acontecimentos jazem ordenadamente. A nossa memória afasta ou aproxima os factos, em outros casos os enriquece ou empobrece, outras vezes fá-los desaparecer e outras ainda, fá-los reviver a toda a hora.
Estas considerações foram despertadas por umas quantas fotografias antigas, da fachada Sul do Solar de Outeiro Seco, que seleccionei de um dos álbuns do meu pai para vos mostrar hoje. Foram tiradas na década de 1950, ainda não tinha eu nascido e dão grande destaque à escadaria que dava acesso à cozinha. Estas escadas em pedra foram durante décadas o lugar preferido da família para fotografias de conjunto. Há imensas, eu próprio julgo que apareço ainda pequenino numa ou outra.


De facto, as escadarias são boas para retratos de grupos grandes. As pessoas são dispostas ao longo de 10 ou 15 degraus e toda a gente aparece nas fotografias, mesmo as mais baixinhas. Por essa razão e por ser um sito ensolarado este é o lado mais documentado da casa. Infelizmente, a escadaria do pátio interior e do alpendre do lado nascente raramente foram fotografadas. Também não há imagens do interior da casa, à excepção dos salões nobres do lado poente, filmados pelo meu pai em meados dos anos 60. Não há qualquer fotografia da sala de jantar, com o seu louceiro Renascença. Era tão grande, que quando a casa foi vendida ninguém o conseguiu tirar de lá. Deve ter-se despedaçado quando o soalho ruiu. Dos quartos com os tectos em maceira só tenho uma fotografia de há 5 ou 6 anos, onde se vê a cobertura de um dos quartos. A outra já caiu.

A escadaria de acesso à cozinha está indicada com uma seta


Palco de uma série numerosa de retratos familiares, esta escadaria toda em cantaria muito bem emparelhada e com um alpendre proporcionava o acesso à cozinha, o que me causa uma certa perplexidade. Para que quê fazer uma coisa tão boa e tão nobre no acesso a um sítio onde circulava a criadagem?

 
O belo trabalho de cantaria de uma escada de acesso..à cozinha...

Talvez este corpo sul da casa não fosse todo ele destinado a cozinha, como era quando o conheci nos anos, 50, 70 e 80 do século XX. Possivelmente, só a área lajeada seria a cozinha e o resto do espaço estaria compartimentado em tabiques e destinado a quartos e por conseguinte esta escadaria seria uma entrada nobre da casa. É difícil ter certezas numa casa construída ao longo de dois séculos, que foi sendo acrescentada à medida que a família aumentava o seu número ou a sua fortuna, sem haver um plano e muito menos um programa estético.


As fotografias de grupo mostram dois aspectos da vida da família. A caça e Natal.

Partida para a caça. Setembro de 1951

A caça é aquela actividade estranha e até repugnante, para nós que vivemos na cidade, onde condenamos moralmente a morte dos animais selvagens, embora comamos diariamente carne de porco, galinha e vaca. Aqui em Outeiro Seco, a caça era uma sobrevivência dos velhos hábitos senhoriais e existia até uma sala só para guardar as espingardas. Nem sei o que fizeram as essas espingardas todas.

O Natal de 1952
O Natal era quando todos se reuniam no velho casarão. Para todas as famílias esta quadra é sempre uma coisa especial, mas talvez passa-la numa casa solarenga fosse uma coisa excepcional, tão excepcional que uns vinte e cinco anos mais tarde, já os meus bisavôs mortos e casa votada ao abandono, a minha avó Mimi escreveu um conto, em que fantasiando, conta que depois de uma espécie de milagre, a família voltou reunir-se à volta da mesa de Natal, em Outeiro Seco. O conto chama-se A casa deserta e foi publicado no livro o Panorama da verdade, mas objectivamente este milagre nunca ocorreu e depois da morte do meu bisavô em 1965, nunca mais as toalhas de linho bordadas saíram das arcas, nem a família voltou a fazer a consoada no Solar. As casas morrem como as pessoas.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Jarra em faiança do Norte ou acerca do pouco que ainda sei sobre faiança


A maldita crise, que aflige toda a gente em Portugal, ou pelo menos, aqueles que não estão ligados à administração de empresas públicas e ao governo, tem também as suas vantagens e uma delas é baixa do preço das velharias, sobretudo das faianças. Hoje, compram-se peças a 10 ou 15 euros, que no passado se conseguiam a 30 ou 50 e depois de muito regateio. Foi o caso desta jarrinha de altar, que comprei muito barata na Feira de Estremoz. O facto de estar mal restaurada também ajudou a descer-lhe o preço.


Alguém com pouco jeito e gosto andou a esconder as esbeiçadelas da jarrinha com uma espécie de massa e devia ter ficado quieto. Por vezes temos que aceitar as feridas de uma faiança, como se fizessem parte da história da peça.

Também não sei nada sobre o seu fabrico. Talvez, por intuição me incline para que seja produto de uma Fábrica do Porto ou Gaia, dos finais do XIX ou inícios do século XX. A pintura já é de estampilha, o vidrado é baço não tem nem de perto nem de longe a qualidade da jarra, mostrada no passado dia 27 de Janeiro , que será talvez de Sto. António Vale da Piedade, feita à volta de 1830 ou 1850.

Jarra possívelmente de Sto. António da Piedade
Eventualmente a jarrinha estampilhada poderá ser de Coimbra. No Leilão do António Capucho, Parte III, Palácio do Correio Velho, 2003 aparecem dois pratos com uma decoração com ares de família a esta jarra. O primeiro está dado como se fosse de Gaia e o segundo como de Coimbra ou Gaia. A Maria Andrade postou também uma terrina, cuja tampa, revela um padrão ainda mais semelhante ao meu, que o destes pratos.
Leilão de antónio Capucho. O primeiro está dado como se fosse de Gaia e o segundo como de Coimbra ou Gaia.
Tenho dificuldades em ter certezas na faiança portuguesa, que raramente está marcada. Há quinze dias, durante uma vista à Casa-Museu José Régio, que tem entre outras coisas uma belíssima colecção de loiça portuguesa, o Manel e eu fizemos uma visita acompanhada pela Conservadora e claro demoramo-nos sempre na faiança e os três acabámos por confessar a nossa dificuldade em identificar algumas produções cerâmicas. A este propósito, a Conservadora contou-nos que o grande especialista português em cerâmica, o Rafael Salinas Calado molhava o dedo, punha-o na faiança, depois na boca e dizia de imediato se era de Coimbra, Porto ou Lisboa.
o tardoz da jarrinha

Não sei se é verdade ou lenda. Penso que talvez pela acidez ou alcalinidade perceptível no sabor, o Rafael Salinas Calado conseguisse avaliar rapidamente a sua proveniência, claro com a ajuda também de longos anos de experiência de manuseamento de cerâmicas e obviamente de muito estudo.


Também já ouvi contar que o António Capucho identificava o fabrico das peças pelo peso e sei que a Ivete Ferreira pesa sempre os Ratinhos, faiança na qual se especializou. Eu próprio já me apercebi que diferenças de peso podem indicar períodos distintos de produção de uma fábrica. Tenho uma travessa de Sacavém Cavalinho 1870/80 muitíssimo mais pesada do que uma outra, da mesma fábrica, com as mesmas dimensões, mas feita umas décadas mais tarde.

Talvez haja uma chave, ou várias chaves para identificar o segredo da identificação destas faianças, mas eu não as conheço. Limito-me a andar à volta, tentando somar o que te tiro daqui e dacolá, mas sem certezas.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Isabel de Aragão ou a Rainha Santa

 

Prometo que não vou contar o milagre das rosas a propósito deste bonito registo do século XVIII, retratando Isabel de Aragão, ou a Rainha Santa como é vulgarmente conhecida por todos. Aliás, um dos atractivos desta estampa, que não ultrapassa os 12 cm é que é um tipo de imagem relativamente rara da mulher do Rei D. Dinis (1261-1325). Normalmente, D. Isabel é representada como Rainha, coroada, uma auréola de santa e as rosas no regaço. Essa é a imagem que está espalhada por todas as igrejas de Portugal, o modelo de estátuas públicas e das ilustrações dos livros da instrução primária, que gravámos na nossa memória.
Sta. Isabel de Portugal por Zurbarán. Museu do Prado, em Madrid. A obra esteve muito anos identificada como representando Sta. Cacilda
Confesso que não gosto da maioria dessas imagens. Devo associa-las às reguadas e aos estalos da escola primária e outros mimos pedagógicos do ensino de outrora. A única Rainha Santa que me enche as medidas é a do pintor espanhol, Francisco Zurbarán, que se encontra no Museu do Prado, em Madrid. Mas isso é porque Zurbarán é um mestre na pintura de tecidos, de texturas e trajes. Sempre que desfolho um álbum de arte deste pintor, sinto-me a assistir a um desfile de moda de um desses criadores imortais, o Balenciaga, o Dior ou o Christian Lacroix. Olho para os vestidos sumptuosos das mártires e santas que Zurbarán pintou e não consigo pensar nem um pouco em religião e no entanto julgo que o pintor espanhol até era bastante crente.


Aliás, segundo li aqui e acolá, este milagre das rosas é uma coisa um bocadinho recorrente. Santa Cassilda (morta em 1050), transformou pão em rosas, a tia da nossa rainha Santa, Isabel da Hungria (1207-1231) igualmente fez um milagre das rosas e finalmente Sta. Rosa de Viterbo (1233-1252) também repetiu o feito. A história é sempre a mesma. Estavam a distribuir pão aos mais carenciados, são surpreendidas pelo rei, que é pai, marido ou irmão (que anda a ver se corta nas despesas) e oportunamente o pão, transforma-se em rosas. Enfim, o pão, um alimento tão básico, transformar-se em rosas, que são quase um sinónimo das coisas belas e acessórias da vida, não deixa de ser uma ideia poética.

Santa Isabel com o traje de Clarissa dando esmola a um aleijado

Mas voltando à estampa do início, que é do meu amigo Manel. Aqui Santa Isabel aparece despojada da sua indumentária real. Está vestida austeramente com um traje de clarissa, porque depois da morte do marido, D. Dinis, recolheu-se a um convento da Ordem de Santa Clara, dedicando-se em exclusivo às obras de caridade e à vida espiritual. Contudo, apesar deste acto de abnegação da vida mundana, Isabel não tomou votos, o que lhe permitiu manter a sua fortuna, para gastar em obras de caridade e por isso a vemos, na imagem superior, a dar uma esmola a um aleijado, sem pedir autorização a ninguém. 
A coroa e o ceptro que Isabel deixou para trás

Para os crentes que vissem esta estampa, a renúncia de Isabel ao mundo era clara, porque atrás da sua figura estão representados as coisas que abandonou, uma coroa e um ceptro. Mas, apesar de tudo, conforme o autor do registo queria transmitir, Isabel continuava a ser uma figura de grande respeito e no canto inferior da imagem encontra-se por isso seu escudo pessoal, ou melhor a lisonja, com as armas de Portugal e as riscas do Reino de Aragão.
As armas de Portugal e Aragão

O registo apresenta uma cercadura muito delicada e uma inscrição onde indica a casa onde se vendia a estampa, isto é, José António Ramalho, que ficava ali perto da Patriarcal. Os Subsídios para a história da gravura, de Luís Chaves referenciam este senhor, mas não nos adiantam nada sobre ele.


Deixo-vos por agora com o perfume das rosas de Cacilda, Isabel da Hungria, Rosa de Viterbo e Isabel de Portugal.