segunda-feira, 30 de setembro de 2013

4 anos de velharias do Luís!


O blog velharias do Luís cumpre hoje quatro anos de actividade. Comecei no dia 30 de Setembro de 2009 e desde esse dia para cá fotografei e escrevi sobre as peças e sobre todos os cantos do meu apartamento de assoalhada e meia, num total de 385 posts. Isto tem sido quase as Mil e uma noites das velharias. 

Escrever sobre as velharias da minha casa poderá parecer uma coisa clautrofóbica, sem interesse para mais ninguém, senão para o próprio. Talvez assim o seja, mas pesquisar e identificar cada uma das peças que atafulham o espaço onde vivo, foi uma espécie de viagem que empreendi da minha casa para o mundo. Os conhecimentos que fui sistematizando sobre faiança, porcelana, gravura, escultura, partilhei-os com a comunidade global através da Internet e sei que lancei no espaço virtual conteúdos fiáveis sobre essas áreas, que permitem às pessoas, que pesquisam no google, identificarem os pequenos tesouros que herdaram ou compraram.
 
 

Ao longo destes quatros anos fui escrevendo não só acerca de faiança, azulejaria, porcelana e gravura, mas também sobre memórias familiares. Aliás, muitas das peças aqui tratadas, estão fortemente associadas com recordações antigas de acontecimentos de há quarenta, cem ou cento e cinquenta anos, as mais recentes minhas e as mais antigas cuidadosamente compiladas pelo meu pai, a partir da sua própria memória, ou do que ouviu contar.


Aliás, o aqui faço é a continuação do trabalho paterno de reconstituição de um passado familiar que tem por cenário as terras transmontanas de Chaves, Outeiro Seco e Vinhais. O Blog é assim quase como um caderno onde vou anotando memórias, conversas com o meu pai, colando fotografias antigas e registando informações sobre o passado, que tão depressa deixamos esquecer. 

Como partilho este caderno com gente de todo o País e do outro lado do Atlântico, surgiram à sua volta leitores, que colaboram com ideias, que se tornaram amigos e que me deram confiança e oportunidade para publicar, aparecer até na televisão e mais do que isso, fizeram-me encontrar a coragem para dar uma volta radical na minha vida e mudar para um emprego estimulante, numa das instituições culturais com mais prestígio em Portugal.

Embora, sumariamente vestido, o autor do blog agradece com todas as mesuras aos seus amigos reais e virtuais, que por aqui passam regularmente.
Agradeço-vos a todos por isso, oferecendo-vos em troca uma amizade virtual, esse novo e estranho sentimento, criado pela Internet, que aproxima homens e mulheres, que vivem longe uns dos outros, muitas vezes sem se conhecerem, mas que partilham interesses comuns e desenvolvem uma tertúlia virtual, que evoca vagamente aquelas relações epistolares dos séculos XVII, XVIII e XIX

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Vistas ópticas e zogroscópios

Vue de la Nouvelle Décoration de la Foire Saint-Germain
Já aqui tinha mostrado esta estampa francesa, do século XVIII, uma vue d'óptique de la foire de St. Germain, mas como descobri mais algumas informações sobre ela, resolvi voltar ao assunto, correndo talvez o risco de aborrecer os seguidores habituais do Blog com esta repetição. Mas, também é verdade que passamos toda uma existência dedicados aos mesmos temas, como se ao longo da vida estivéssemos sempre a escrever o mesmo romance ou a pintar os mesmos cinco ou seis quadros.

A legenda ao contrário intrigou-me
Na altura que apresentei esta estampa, interroguei-me sobre o significado de a legenda da estampa se encontrar invertida e não consegui chegar a nenhuma conclusão definitiva. Contudo um comentário de um leitor anónimo escrito em inglês chamou-me a atenção para o facto, de que estas estampas designadas por pelo termo francês vues d’optique eram destinadas a serem visualizadas numas caixas ópticas, que davam uma sensação de perspectiva e profundidade a quem espreitava para dentro delas.



Uma Caixa Óptica do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. Reparem que no Tabuleiro de baixo está a estampa.
Fiquei intrigado e fui tentar saber mais alguma coisa sobre estas vues d’optique e encontrei várias informações na Internet, bem como no site do Museu da Universidade da Ciência da Universidade de Coimbra, que possui nas suas colecções umas destas caixas, com o n. º de inventário. 483. Segundo a página web deste museu, estas vistas ópticas eram um tipo particular de gravuras coloridas, produzidas em séries pelos mais importantes editores europeus, que alcançaram enorme sucesso especialmente a partir dos anos trinta-quarenta do século dezoito, perdurando até meados do século dezanove. A finalidade destas gravuras, muito frequentemente representando vistas panorâmicas de cidades, era a de serem observadas com instrumentos especiais, as caixas ópticas, instrumento dotado de um espelho inclinado e uma lente convexa, através da qual a imagem é observada, o que tornava a observação mais cómoda. O efeito da lente é realçar a percepção que o observador tem da profundidade da cena observada.
Outro modelo de zogroscópio. Aqui percebe-se muito bem como funcionava. A estampa era colocada horizontalmente, um espelho reflectia a sua imagem e as pessoas viam a imagem do espelho através de uma lente convexa, o que criava a ilusão de profundidade. Como as estampas eram vistas através de um espelho, as legendas das vues d'optiques eram impressas da direita para a esquerda

Surgidas no século XVII, nos gabinetes de curiosidades, as caixas ópticas, por vezes conhecidas também pelo nome de zogroscópio, tornaram-se vulgares nas feiras do Século XVIII e segunda metade do XIX e eram uns aparelhos muito populares. Homens e mulheres de todas as condições sociais e idades, em troca de duas ou três moedas, podiam espreitar para dentro de uma máquina maravilhosa e verem em perspectiva aspectos das principais cidades e monumentos do mundo.

Vue d'optique de Rome
Numa época, em que poucos eram os privilegiados, que podia viajar para lá dos limites da sua aldeia ou cidade natal, estas caixas ópticas ofereciam a um preço económico a possibilidade de ver o mundo. Aliás estas estampas, primeiramente impressas em Paris e Londres, tornaram-se tão populares, que são quase o equivalente do passado aos postais ilustrados contemporâneos.


 O zogrocóspio. Uma atracção popular nas feiras. O espelho e as estampas estão disfarçados dentro de uma caixa, para criar o efeito de caixa mágica.
 
Posteriormente, na segunda metade do Século XIX, as caixas de óptica foram substituídos pelas lanternas mágicas e pela própria fotografia e as “vues d’optique” e os zogrocóspios caíram no esquecimento de todos.
 
A vue d'optique encontrou o seu lugar de reforma na claraboia da minha casa
 

sábado, 21 de setembro de 2013

Um pai do céu algarvio e os lararia romanos


Recentemente, depois de ter lido o meu post sobre os pais do céu algarvios e os seus nichos, um senhor espanhol, seguidor deste blog, enviou-me um Cristo muito ingénuo, comprado numa feira de velharias do Algarve, que me encantou e de imediato lhe pedi autorização para partilha-lho convosco. Este Cristo, de tão tosco, que é, que quase parece uma escultura românica, serviu-me também para voltar a reflectir sobre a curiosa colocação nas casas algarvias dos altares onde se punham estes cristos.

Um típico nicho nas casas algarvias onde se colocavam os Pais do Céu
Foi o Zé Júlio, que me deu a conhecer os nichos onde estas esculturas eram colocadas nas casas populares algarvias. Os dois interrogámo-nos muitas vezes acerca das razões da localização destes pequenos altares, logo na primeira divisão pela qual se entrava na casa. Normalmente nas casas portuguesas, pelo menos nas nobres, o oratório é sempre situado na divisão mais privada, o mais longe possível da porta da rua. Por estas razões, o Zé Júlio e eu chegamos a aventar a hipótese, de que colocar o altar à vista de quem passava na rua e espreitava pela porta entreaberta, seria a forma de populações cristianizadas tardiamente e à força, afirmarem a sua ortodoxia. 
Estes oratórios podem-se ver da rua
Hoje já não penso assim. Creio que estes nichos onde se colocavam os pais do céu são antes a sobrevivência dos lararia romanos. O lararium era um pequeno altar sagrado da antiga casa romana onde se realizavam oferendas e orações aos deuses guardiães do lar (os lares) e onde também se fazia o culto dos antepassados. Nestas casas, o lararium situava-se normalmente no átrio, o primeiro pátio interior, que era a zona mais pública da habitação romana, onde se recebiam as visitas e os clientes, isto é, as pessoas dependentes do senhor romano. Havia depois um segundo pátio, o Peristilo, um espaço privado, que era exclusivamente reservado à vida familiar. 
Lararium em Herculano. Foto Wikipedia
Estes pequenos nichos algarvios, colocados logo à entrada de casa, contrariando a tendência portuguesa de situar o oratório na divisão mais reservada da habitação, serão talvez uma reminiscência do lararium romano. Aliás as imagens dos lararia de Herculano e Pompeia são obviamente semelhantes aos nichos dos pais do céu.
Lararium em Pompeia. Foto Wikipedia
Resta-me agradecer ao Jesus ter-me permitido mostrar este cristo. Natural de Cádiz, o Jesus é um homem que vive rodeado de cristos e santos e que ao contrário de mim, é crente, pois segundo me escreveu, começa a ter a idade em que é mais fácil creer que descreer, uma frase bonita, revelando uma sensibilidade que me é cara.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Um Atlante numa rua alentejana

Em Sousel, no Distrito de Portalegre, numa daquelas ruas antigas da povoação, descobri a fachada de uma casa, decorada com uma figurinha muito ingénua, que parece suportar uma coluna.

Este boneco é um atlante e apesar do seu ar tão popular é um tema recorrente da arquitectura clássica. Segundo a wikipedia portuguesa Atlante é um tipo de coluna antropomorfa onde, no lugar do fuste, se apresenta a forma esculpida de um homem

A imagem de um homem a fazer de coluna a suportar uma parte de um edifício tem origem na figura mitológica de Atlas. 
Atlas ou Atlante era um Deus grego, mas dos mais antigos, isto é, um Titã. Estes deuses antigos, os titãs que precederam aquelas figuras, que tão bem conhecemos, como Afrodite, Atena ou Apolo, envolveram-se numa batalha terrível com os Deuses mais novos chefiados por Zeus e foram derrotados e castigados. Atlas foi condenado por Zeus a carregar o firmamento.

A imagem do antigo deus a carregar o mundo, foi usada pela arquitectura clássica desde os tempos da antiga Grécia até às primeiras décadas do Século XX. A representação dos atlantes nas fachadas dos edifícios foi a forma que os arquitectos do passado encontraram para transformar os tristes e cinzentões pilares de suporte, em qualquer coisa mais interessante e apelativo aos olhos de quem passava na rua.
O atlante no seu trabalho de suportar o firmamento encontra-se no canto inferior esquerdo da casa

Este Atlante alentejano continua ser apelativo a quem passa na rua, mas já não sustenta peso nenhum. A sua função é meramente decorativa. Julgo que a única coisa que o Atlante tem que suportar estoicamente são os fios da electricidade, com que a EDP desfigurou esta casinha e aliás uma boa parte dos edifícios históricos de Norte a Sul do País.
Aliás, um quarteirão mais à frente voltei a encontrar uma decoração da mesma família, desta vez uma espada e uma vieira de Santiago na fachada de uma casinha antiga, também atravessadas criminosamente pelos fios da EDP. Sou de opinião que uma firma como a EDP, que movimenta milhões (a julgar pelas facturas com valores exorbitantes que recebemos em casa), bem poderia começar a ter uma atitude mais responsável perante o património.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Um anjinho misterioso na casa do Manel


Há já uns anos, na Feira-da-Ladra, o Manel comprou um fragmento de um anjinho. Enfim, não sabíamos bem se era bem um anjinho, pois faltavam-lhe as asas. Seria antes um cupido ou um simples menino, um putti com lhes chamam os italianos. Nós, os portugueses, que nos habituamos a tanto anjo barroco na talha das nossas igrejas, temos sempre tendência a chamar anjinhos a estas figuras representando meninos. 

Mas este fragmento de menino intrigou-nos. Um objecto partido parece sempre mais antigo do que aquilo que realmente é e este putti parecia romanticamente desenterrado de uma escavação arqueológica qualquer. O Manel é que reparou que este objecto parecia ser uma liga com antimónio, estanho e chumbo, normalmente usada no Século XIX e inícios do XX para fazer imitações baratas do bronze. Portanto, o menino não era coisa muito antiga. Em todo o caso, não conseguimos descobrir de onde ele veio, que função teve, ou de que objecto fazia parte.

Mas como não lhe faltava o charme de um achado arqueológico, resolvemo-lo pendurar insolitamente na ponta de um candeeiro por um fio de pesca transparente, e este fragmento de qualquer coisa não identificada transformou-se numa espécie de cupido, girando no centro da cozinha do Manel, apontando para umas faianças inglesas ora virando as costas a um conjunto de pratos ratinhos.


Só muito mais tarde, consegui descobrir a função original deste bonequinho, quando trouxe para casa um velho candeeiro a petróleo e descobri, que o menino, que segurava a lâmpada era a mesma figura que o Manel tinha comprado havia dois anos. Em suma, o anjinho do Manel era nada menos nada mais que o fragmento da base de um velho candeeiro a petróleo. 

Colocámos as duas peças lado a lado e percebemos que um é o negativo do outro. Portanto estas peças deveriam ser fabricadas aos pares e seriam possivelmente colocadas em duas mesinhas de cabeceira ou fariam um conjunto de dois em cima de um fogão de sala, com um espelho ao fundo.

Não consegui descobrir muitas informações sobre o possível fabricante deste candeeiro a petróleo, feito numa liga pobre, muito em voga nos finais do século XIX, inícios do XX, que pretendia imitar os bronzes franceses, mas em todo o caso vi uma ou outra peça semelhante à venda no e-bay e presumo por isso que não seja português.

Mediante um olhar mais atento do objecto, consegui perceber que este menino, segurando a lâmpada mais não é do que uma reminiscência dos antigos anjos candelários, que enfeitavam o interior das igrejas barrocas.

E assim, se resolveu a origem do misterioso anjinho do Manel.