sábado, 31 de maio de 2014

Travessa de carne assada inglesa do início do Século XIX


Para quem gosta de coisas antigas e não tem muito dinheiro, a faiança inglesa do séc. XIX é uma boa opção para fazer uma colecção ou pura simplesmente para decorar com charme uma sala ou uma cozinha com dois ou três pratos antigos.

A louça inglesa do século XIX atingiu altíssimos níveis de qualidade, as suas paisagens são sempre sedutoras e nas feiras de velharias vão-se encontrando bons exemplares a preços razoáveis.

O meu amigo Manel foi comprando aqui e acolá muita louça inglesa e a peça que vos apresento hoje é das minhas preferidas. É uma travessa de grandes dimensões, 42 x 34 cm , mas com um formato muito particular, tem sulcos ao longo da superfície, que depois conduzem a uma concavidade maior. Servia para servir carne assada. Pelos sulcos escorria o molho, que ia ter à concavidade, onde com uma colher era fácil recolher o molho para os respectivos pratos. por cá, Miragaia também fabricou este tipo de travessas, mas curiosamente designaram-nas por Peixeiras, pois eram usadas para servir peixe. Segundo a Maria Andrade, esta readaptação portuguesa dos meat dish, explica-se talvez pelo maior hábito de comer peixe que sempre existiu em Portugal, sobretudo no litoral, ao contrário dos nossos aliados ingleses que sempre comeram mais carne.

A travessa não tem qualquer carimbo ou monograma, pois os fabricantes nem sempre marcavam todas as peças de um serviço, mas como os ingleses e americanos tem centenas de bons sites sobre faiança antiga, rapidamente descobrimos muitas outras peças com esta decoração, marcadas como HAMILTON/STOKE. A decoração é conhecida entre os antiquários e coleccionadores pelo nome de Fisherman with Nets, cuja tradução livre será pescadores lançando as redes. Em todo o caso, segundo indicação do MAFLS há notícia de este motivo ilustrado na travessa ter também surgido em peças com a marca, impressa, Tams & Co. (The Dictionary of Blue & White Pottery, 1780-1880, vol. I, p.138

Não encontrámos muitas informações na net sobre este fabricante. Descobrimos que a fábrica pertencia a um tal Robert Hamilton, nascido em 1779 e activo entre 1811-26. Este Senhor era genro do industrial de cerâmica Thomas Wolfe, que por sua vez tinha sido sócio de Josiah Spode, outro patrão da indústria cerâmica e a sua fábrica estava sediada em Stoke-on-Trent, no Staffordshire. Portanto o Senhor Robert Hamilton tinha a sua fábrica no principal centro cerâmico de Inglaterra, estava relacionado familiarmente com outros industriais do ramo e ao seu lado existiam fábricas de louça, que hoje quase são lendárias no meio dos antiquários e coleccionadores, como Spode ou Minton.
Faiança Hamilton. Um típico padrão decorativo da época. Paisagem campestre, com vaquinhas, um rio e um castelo em ruínas ao fundo

Este enquadramento serve para demonstrar que a produção de Robert Hamilton é muito representativa da louça inglesa das duas primeiras décadas do Século XX. 

Neste período, o estilo da faiança de Spode servia de modelo para muitos fabricantes ingleses. Spode tinha popularizado o transfer way na loiça azul, técnica que consiste em usar uma gravura numa placa de cobre, que era estampada num tecido, que depois era aplicado na loiça ainda em forma de biscoito. Este processo permitia decorar a loiça com complicados e refinados desenhos retirados de gravuras. E de facto nessa época Spode inspirou muitas fábricas de faiança inglesa, que produziam mais ou menos todas, tipos decorativos da mesma natureza.
Spode. Ruínas italianas, outro motivo decorativo típico da faiança inglesa.

Em primeiro lugar os motivos chineses, do qual o mais célebre é o padrão do salgueiro ou Willow pattern, seguiam-se depois um infinito número de ruínas em Itália, as paisagens campestres inglesas, como por exemplo as decorações com vaquinhas, que Sacavém veio a imitar mais tarde e ainda os motivos indianos, inspirados nas gravuras Thomas Daniell. Portanto, Herculaneum não foi de todo a única a inspirar-se nas estampas com paisagens indianas e também chinesas de Thomas Daniell.

Faiança Hamilton. O Canton River inspirou-se nas estampas de Thomas Daniell, que este fez após a sua viagem à Índia e à China

Nas duas primeiras décadas do Séc. XIX, também segundo o modelo de Spode, a decoração tendia a ser muito preenchida e os azuis eram mais escuros. Este foi um período de crescimento exponencial da indústria cerâmica inglesa. Devido as guerras napoleónicas, as manufacturas francesas e alemãs estiveram impossibilitadas de exportar. Os ingleses aproveitaram esta fraqueza da indústria continental e invadiram livremente o mercado americano e quando finalmente a guerra acabou, conquistaram também os mercados europeus com os seus produtos baratos e boa qualidade.
Faiança inglesa destinada ao mercado americano, com paisagens e monumentos dos EUA. Foi produzida pela Ridgway e representa a biblioteca de Filadélfia. Foto de Z & K Antiques

Os ingleses chegaram a produzir loiça especialmente destinada ao mercado norte-americano, normalmente com tons azuis mais escuros e representando vistas e paisagens de monumentos e cidades americanas. Aliás eu e o Manel chegamos a nos interrogar se a decoração desta travessa não representaria uma paisagem americana, o edifício que se vê ao fundo com uma arquitectura palladiana poderia talvez ser Monticello, a casa de Thomas Jefferson, mas é um palpite arriscado e sem grande fundamento. Em todo o caso, não é seguramente uma paisagem inglesa, pois na velha Albion não existem palmeiras.

Monticello. A casa de Thomas Jefferson, na Vírgina
Enfim, não conseguimos apurar que vista esta travessa representa, ou se será mesmo paisagem real. Em todo o caso, é uma peça que representa a qualidade o charme da faiança inglesa do século XIX.

Alguma bibliografia:

An introduction to English pottery / by Giselda Lewis. - London: Art and Technics, 1950

Ligações:
http://www.blueandwhite.com/museum.asp

http://www.thepotteries.org/location/districts/stoke3.htm

 http://collections.vam.ac.uk/item/O78051/plate-hamilton-robert/

sábado, 17 de maio de 2014

Mascarão

 
Sinto sempre um atracção por tudo o que é pequeno, estanho e insólito. Talvez esta atracção pelo pormenor se explique minha profissão, de bibliotecário, que vive de minúcias, ou porque vivi sempre em casas pequenas ou ainda porque possivelmente mantive o gosto que as crianças sentem pelos carrinhos, as casas e os bonecos, isto é, as miniaturas da realidade. Por isso quando vi no chão de uma feira de velharias este objecto estranho, insólito, mas pequeno, fiquei fascinado e senti que aquilo fazia parte do ambiente da minha casa. Contudo pediram-me um preço relativamente alto e deixei-o por lá, mas a fiquei sonhar com ele. Voltei à feira passado um mês e encontrei de novo esta figura, quimérica, assustadora a olhar para mim, mas desta vez regateie um bom bocado e conseguia-a por um bom preço.

Não sabia bem o que era, mas suspeitei que fosse um ornamento de uma fonte. A cavidade semicilíndrica do fundo serviria para se adaptar ao cano da água. A oxidação da liga metálica na qual ela foi feita também me levou a acreditar nessa hipótese. Aliás, poucos dias depois de ter comprado esta peça encontrei à venda, no e-bay, em França uma figuras destas, cortada em semicírculo na parte inferior e que era precisamente um ornamento de fonte.

Rare & Ancien mascaron de fontaine en fonte datant du XIX éme siecle . legere oxydation - patine - reste salissures - usures - usure d'usage .Dimensions (env ) 17,7 cm de Hauteur - 17,3 cm de large - 5,5 cm de diametre d'espace au niveau de la bouche pour le robinet
Mas quis saber mais e fiz algumas pesquisas no google por Mascarão, termo pelo qual na arte são conhecidas estas máscaras, grotescas deformações de rostos humanos com elementos animais e vegetais à mistura e encontrei esta definição na wikipedia francesa, da qual fiz uma adaptação livre, :


Em arquitectura, um mascarão é um ornamento representando geralmente uma figura humana, por vezes assustadora cuja função original era afastar os maus espíritos, impedindo-os de entrar nas casas. Estes ornamentos eram colocados nas pedras de fecho dos arcos das janelas ou das portas e ainda sobre os lintéis. Alguns mascarões eram a aplicados sobre as fontes e das suas bocas jorrava água.

Esta ideia de que os mascarões afastariam os maus espíritos começou na Grécia antiga, onde já eram usados nos edifícios, mas também na cerâmica e em outros objectos do quotidiano e este costume teve origem no mito de Perseu e Medusa.

Esta Medusa era uma senhora de convívio pouco recomendável, cujo olhar era capaz de petrificar quem a fixasse. Perseu foi encarregado de a matar e armou-se com uma espada e um escudo com um espelho, para evitar o mortífero olhar. Depois de ter decapitado a criatura, cujo cabelo era formado por serpentes, ofereceu a cabeça à deusa Atena, com a qual ornamentou o seu escudo, a égide, conseguindo com isso poder um divino acrescido. Houve como que uma transferência de poderes de Medusa para Atena. O que era um poder maléfico tornou-se num poder benigno de protecção.
Perseu e Medusa por Benvenuto Cellini. 1545. Florença
Entre outras coisas este belo mito explica no fundo a função da máscara. Quem coloca uma máscara, ainda que no Carnaval ganha a características da personalidade representada. Da mesma forma, um feiticeiro africano que enverga uma máscara adquire os poderes da divindade que ela representa.

Com a cristianização do mundo antigo toda esta história da Medusa, de Perseu e das máscaras foi morrendo e sendo esquecida e os pensamentos viram-se para Cristo, para a Virgem e para as relíquias dos mártires.

No renascimento, os escultores, pintores e arquitectos italianos redescobriram a Antiguidade e voltaram a usar nas artes estas máscaras, inspirando-se nas ruínas dos templos e casas antigas, que encontravam por toda a parte na sua pátria e esta voga foi-se difundido por toda a Europa. Aliás o termo mascarão entrou nas línguas europeias por via do italiano, mascherone, que designa um ornamento em forma de máscara que decora uma fachada.

Fontaine dans la cour intérieure de l'Hôtel Cail, rue de Lisbonne, paris. Pierre-Émile Charrier (1865). Foto Wikipedia

Claro, no Renascimento e nos séculos seguintes, os mascarões já tinham perdido praticamente o sentido mágico de protecção, que tinham tido na Grécia ou na Roma antiga e estas figuras, usadas no barroco ou no século XIX na decoração do mobiliário, na arquitectura ou nas fontes, passaram a ter um valor meramente decorativo. No entanto, dada a importância da água na vida humana, talvez muita gente ainda tivesse a superstição, de que colocando estas máscaras nas fontes estariam a proteger um bem tão essencial de ser envenenado ou contaminado pelos maus espíritos.

Este Mascarão está agora na parede da minha sala reformado das suas funções de protector das águas, mas cada vez que olho para ele lembro-me do belo mito de Perseu e Medusa que ele ainda evoca vagamente.
O Mascarão pertencente à Ana Silva, Era uma das pegas de uma daquelas banheiras antigas com os pés em garras e as costas sobrelevadas.
Em suma, estava mais ou menos convencido, que este mascarão tinha sido arrancado de uma fonte, quando uma seguidora deste blog, a Ana Silva, comentou que tinha exactamente uma peça igual, proveniente de uma banheira antiga, daquelas com os pés em garras e costas sobrelevadas. A banheira não tinha tubagem e estes mascarões serviriam de pegas para a transportar de uma divisão para a outra. A Ana ainda se lembra de ver pega colocada nessa banheira, decorada com uma pintura floral de cores vivas, que deve ter sido lindíssima a julgar pelo tom nostálgico da descrição que dela me fez. A banheira estava no primeiro andar de uma casa senhorial, provavelmente dos finais do séc. XVIII, inícios do século XIX, junto ao castelo de Almada. Essa velha casa familiar entretanto ruiu e hoje, no seu lugar está um desses prédios modernos, com que adoramos estragar as nossas cidades.

Não andei muito longe da verdade ao relacionar esta peça com a água, mas foi a Ana Silva que me permitiu desvendar o significado desta peça misteriosa e encontrar a história que ela conta. Certamente o meu mascarão estava também numa casa antiga, cujo recheio foi disperso e nesse momento desapareceram para sempre as histórias e cenas familiares de gente, que viveu há muito tempo.


terça-feira, 13 de maio de 2014

O Rei David tocando harpa

Há uns anos encontrei esta pequena estampa representando o Rei David tocando harpa. Comprei-a de imediato, pois David é uma daquelas personagens históricas com quais sempre simpatizei.  Enfim, para quem não tenha feito a catequese, David viveu mais ou menos por volta do século X antes de Cristo e era um simples pastor que ajudou na luta contra os filisteus e conseguiu derrotar o gigante Golias com o auxílio de uma simples funda. Foi o primeiro soberano de um verdadeiro estado de Israel, ao unificar os reinos de Judá e Israel e foi também esta figura bíblica, que teve uma existência histórica, quem transformou Jerusalém pela primeira vez na capital de um estado judaico. Terá sido também um homem culto, um tocador de harpa e um poeta, já que muitos dos salmos bíblicos lhe são atribuídos.

BARBIERI Giovanni Francesco. Musée du Louvre département des Arts graphiques. Joconde
Para a humanidade, David tornou-se um símbolo de que os mais fracos podem vencer os mais fortes. Claro, é também uma figura absolutamente emblemática para o povo judeu, que lutou no gueto de Varsóvia quase sem armas contra os nazis, sobreviveu ao Holocausto e depois de 1948, contra vizinhos poderosos, fundou um estado moderno, com capital em Jerusalém. Mas David é também o paradigma do soberano culto e ilustrado, que todos nós ambicionamos ter por governante, embora raramente o consigamos.

Daniele DA VOLTERRA.  David tuant Goliath. Musée national du château de Fontainebleau. Foto Joconde

Depois do acto desta compra feita por motivos afectivos veio a pergunta sacramental, de que livro foi retirada esta estampa?

Como a gravura não tem data, nome do desenhador, gravador ou impressor não tinha grandes hipóteses de descobrir de onde veio. A única pista de que disponha, era que no verso, impresso em latim, existia no rodapé a abreviatura PSALM. Como sou bibliotecário e já tratei vários fundos de livros dos séculos XVI, XVII e XVIII tinha uma vaga ideia de já ter visto algures esta representação em livros religiosos. Sabia que não deveria ter sido numa Bíblia, o que à partida até seria mais lógico, mas, como toda a gente sabe, ao contrário dos protestantes, a maioria dos católicos nunca foram muito dados ler a Bíblia, a qual sempre preteriram em favor das vidas dos santos, livros piedosos e de orações.

Tinha a ideia que a teria visto num daqueles livros de oração ou liturgia, mas são tantos! Existem os missais, os saltérios, os livros de orações, os ofícios divinos, os breviários, os flos sanctorum  e sabe-se lá que mais e depois a minha cultura religiosa é meramente superficial.

Resolvi então fazer a pesquisa pelo início e procurar no google por Bíblia / Salmos, as categorias onde uma estampa deste teor se poderia encaixar. Descobri que na Igreja Católica, os 150 salmos formam o núcleo da oração quotidiana, a chamada Liturgia das Horas, também conhecida por Ofício Divino. Consiste basicamente na oração quotidiana em diversos momentos do dia, através de Salmos e cânticos, da leitura de passagens bíblicas e da elevação de preces a Deus. O livro onde se contem estes textos necessários para o Ofício Divino designa-se por Breviário. O Breviarium Romanum é uma reunião num único documento de vários livros distintos para a celebração do ofício Divino: o Saltério (para os salmos), o Antifonário (para as antífonas), o Hinário (para os hinos), o Leccionário (para as leituras).

De todos estes livros, achei que a iconografia desta estampa se encaixava num Breviário ou no Saltério. Faltava agora verificar se essa intuição correspondia à verdade. Fiz umas quantas pesquisas na Biblioteca Nacional, mas não encontrei breviários digitalizados do século XVIII, período em que presumo, que esta estampa tenha sido impressa. 

Breviarium romanum, ex Decr. Sacrosancti Conc. Trid. Restitutum; S. Pii V. Pontif. Maximi jussu editum; Clementis VIII. et Urbani VIII auctoritate recognitum.... - Olisipone : ex Typographia Regia, 1800. MNAA
Depois, lembrei-me que na biblioteca onde trabalho há uns quantos breviários dos finais do séc. XVIII, inícios do XX. Fiz uma pausa no serviço e em vez de comer um kit-kat fui espreita-los e de facto encontrei um breviário romano, editado em Lisboa, na Tipografia Régia, em 1800, com uma estampa com algumas semelhanças com à minha, antecedendo o capítulo Psalterium

Breviarium romanum, ex Decr. Sacrosancti Conc. Trid. Restitutum; S. Pii V. Pontif. Maximi jussu editum; Clementis VIII. et Urbani VIII auctoritate recognitum.... - Olisipone : ex Typographia Regia, 1800. MNAA

Em suma, confirmei a minha impressão que esta estampa com o rei David ilustrava um livro de ofício divino, mais exactamente um Breviário romano, da qual ela foi certamente retirada.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Verão nos azulejos de Lisboa


Os azulejos de Lisboa são sempre surpreendentes. Se andarmos com os olhos abertos, descobrimos pequenas surpresas como estes dois prédios duma rua qualquer, ali perto da Imprensa Nacional. Os azulejos em si não são nada especial. Se os visse no chão da Feira-da-Ladra nem olhava para eles. São simples azulejos amarelos e azuis a formar um xadrez. O único luxo são as cercaduras a rodear as cantarias, que dão o enquadramento arquitectónico. 

Estes simples azulejos transformaram um edifício banal, num conjunto vibrante de cor, que nos faz duvidar daquele velho chavão, que afirma que somos um povo triste. Este prédio talvez simbolize a alegria e o despertar dos sentidos que a aproximação do Verão nos faz sentir, pelos menos a nós, os que vivemos nas zonas velhas e podemos ver o Tejo todos os dias.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Ainda o covilhete de faiança Miragaia


Bem, ultimamente ando a repetir as mesmas peças no blog, mas estou a sempre a descobrir mais dados novos sobre elas e por isso volto por vezes ao mesmo assunto.
Faiança portuguesa. roteiro: Museu Nacional de Arte Antiga. Lisboa. IMP, 2005
Em primeiro lugar, descobri que além do Museu Nacional de Soares dos Reis, o Museu Nacional de Arte Antiga também possui um destes covilhetes da série País de Miragaia. Contudo, apesar das dimensões serem iguais, no exemplar do Museu das Janelas Verdes o fabricante colocou o desenho assente na base do triângulo. Pelo contrário, no meu covilhete e do Manel, o desenho do casario assenta na ponta do triângulo. A marca do covilhete do Museu Nacional de Arte Antiga é também diferente. Por extenso, está escrito Miragaia Porto.

Covilhete Davenport

Embora na decoração Miragaia copiado livremente View in the Fort Madura da
Herculaneum Pottery, nas formas parece ter colhido inspiração nos covilhetes de outras fábricas inglesas, como este covilhete que o MAFLS teve a bondade de me enviar imagens.

View in the Fort Madura da
Herculaneum Pottery

Já aqui se escreveu várias vezes que este motivo decorativo país de Miragaia  é uma adaptação livre de uma loiça inglesa, fabricada pela Herculaneum Pottery de Liverpool, mais particularmente do padrão View in the Fort Madura, que terá sido fabricado mais ou menos entre 1810 e 1820.

View in the Fort, Madura. British Library

Conforme, a Maria Andrade já tinha explicado no seu blogue, a partir de uma leitura que fez do José de Queiroz, esta View in the Fort Madura foi inspirada numa gravura do pintor paisagista inglês, Thomas Daniell, (1749-1840), que assistido pelo seu sobrinho, William Daniell, entre 1786 e 1793, esteve na Índia, onde executou uma série de desenhos de paisagens e monumentos indianos, que publicou quando regressou a Inglaterra, entre 1795-1808, num álbum em 6 volumes, intitulado Oriental Scenery.

Frontispício de um dos volumes da Oriental Scenery. British Library
Portanto, o forte Madura não é uma mera invenção romântica. Existiu e existe ainda na Índia. Na verdade Madura é Madurai, que foi capital da dinastia Nayaka, uma família que governou parte do Sul da Índia, a chamada região dos Tamil, durante os séculos  XVI e XVII.

Pavilhão em pedra construído por Tirumala Nayak

O conjunto arquitectónico representado na loiça de Miragaia e na Herculaneum Pottery também é verdadeiro. Trata-se de um pavilhão em pedra construído por Tirumala Nayak, o mais famoso dos soberanos Madurai, no lado leste do forte e era usado durante festivais religiosos. Esta estampa em particular exerceu uma grande atracção na Europa e o pavilhão foi não só copiado pelos fabricantes ingleses de faiança, como também pelos franceses, que o reproduziram em pápeis de parede. Todas estas informações colhi-as na British Library, onde esta estampa se encontra digitalizada.

Claro, como a Maria Andrade muito bem referiu no seu blog, os ceramistas ingleses, não fizeram uma cópia exacta. Aproveitaram o pavilhão, mas usaram elementos daqui e dacolá de outra estampas da Oriental Scenery, de Thomas Daniell, talvez por exemplo, tenham colhido inspiração nesta vista sobre rochas esculpidas em  Mavalipuram.

Sculptured Rocks, At Mavalipuram, On The Coast Of Coromandel. British Library

Em suma, este motivo decorativo País tem origem numa gravura, fenómeno frequente em arte e ao qual a faiança não escapou e reproduziu muitas vezes estampas representando, paisagens, monumentos, castelos e cidades de diferentes países. Estas estampas com vistas circularam por toda a Europa no século XVIII e XIX. Os ingleses que foram pioneiros no turismo eram especialistas na sua produção. Mas também em França, se imprimiam as vues d'óptique com vistas de países, que eram depois passadas numas caixas ópticas, de que já aqui falei, os zogroscópios. Em Itália, no século XVIII, estiveram também na moda as veduttas, nas quais se notabilizou Piranesi. Portanto, quando se fala em País, está-se a falar em paisagens, em vistas.