sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Uma chávena de chá de Santo António de Vale da Piedade

a minha chávena

Recentemente assisti a uma comunicação no Congresso Internacional de Faiança Portuguesa, realizada no Museu Nacional de Arte Antiga, em 2013, proferida por uma arqueóloga, Laura Cristina Peixoto de Sousa, sobre as escavações feitas nos antigos terrenos da fábrica de Santo António de Vale da Piedade, em Gaia. Embora, fosse uma palestra breve, pelo texto e pelas imagens dos objectos desenterrados apercebi-me logo que aquele trabalho ia mudar muita coisa no conhecimento da faiança portuguesa do século XIX, em particular nas produções de Gaia e do Porto. 

Foto retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista / Laura Cristina Peixoto de Sousa

De facto dos milhares de objectos exumados pela equipa de arqueólogos de que fez parte Laura Cristina Peixoto de Sousa, abundavam peças de cantão popular, decorações tipo País, muita louça colorida, que tradicionalmente se atribuiu a Fervença ou Bandeira e ainda azulejos e mais azulejos, que ainda hoje se vêem nos prédios do Porto e que se diz serem Massarelos ou Miragaia. As próprias instalações da fábrica não se situavam naquele prédio bonito, que está hoje em ruínas, mas sim numa série de construções nas suas traseiras e que foram demolidas nos finais dos anos 40. O prédio bonito cheio de azulejos, que o Gastão Brito e Silva, já mostrou no ruinarte serviu como escritório ou casa de habitação dos patrões ou proprietários da fábrica.
Foto retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista / Laura Cristina Peixoto de Sousa

No entanto, apesar dos apontamentos que tirei furiosamente na comunicação, as actas do congresso nunca mais eram publicada e eu a ferver, sabendo que alguns dos cacos mostrados nas fotografias eram iguais a peças que eu conhecia. Fui estando atento, fazendo pesquisas na net, até que descobri, que existia on line uma tese de mestrado em arqueologia de Laura Cristina Peixoto de Sousa, intitulada A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista

A referida tese continha de uma forma desenvolvida os relatórios e fotos dos trabalhos arqueológicos. Para resumir a coisa, entre 2007 e 2010 fizeram-se trabalhos arqueológicos, numa das zonas da fábrica, um antigo tanque para preparação da argila, que terá sido atulhado mais ou menos entre 1846-1848, pelos funcionários da fábrica com cacos, louça inutilizada e toda uma série de desperdícios. Segundo um contrato encontrado no Arquivo Distrital do Porto este tanque provocava infiltrações de água, nuns armazéns do proprietário do terreno, Joaquim Augusto Kopke e o arrendatário da fábrica, João de Araújo Lima, comprometia-se a destruir o referido tanque. O documento data de 1846 e portanto é natural, que em 1848, já as obras de atulhamento do referido tanque já estivessem concluídas. Tudo isto serve para dizer que todos os cacos exumados são anteriores a 1848.
Foto retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista / Laura Cristina Peixoto de Sousa
Um dos caquinhos, que foi trazido à luz pelas escavações é o fragmento de uma chávena, com uma decoração vegetalista com urna, que é igualzinha a uma que já apresentei aqui no blog. O Museu Nacional de Soares dos Reis tem um pires igual, que estava até agora estava atribuído a Viana. 

Foto retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista / Laura Cristina Peixoto de Sousa
Portanto a minha chávena que eu suspeitava vagamente que fosse de Gaia ou Porto pode ser atribuída com segurança a Santo António de Vale da Piedade e a produção deste modelo terá começado ainda antes de 1848.
A minha chávena

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Umas alminhas do Purgatório numa rua de Castelo Branco

 
Já ninguém reza um Padre-Nosso ou um Avé-Maria pelas alminhas que estão no Purgatório. Talvez as alminhas já tenham saído todas do Purgatório direitas ao céu, ou consumiram-se de vez no fogo eterno, ou ainda mais seguramente, porque nos dias de hoje somos indiferentes ao destino dos que morreram e amávamos, bem como á nossa própria sorte depois da morte. Já não rezamos pelos que morreram e o nosso próprio final é apenas um nada. Ainda recentemente, o meu pai voltou arrepiado da cerimónia fúnebre de um camarada de armas, que pediu para não ter qualquer ritual religioso na sua morte.

E no entanto, não é preciso recuar muito tempo para que os assuntos da alma, fossem objecto de uma grande preocupação dos que sabiam que iam morrer para breve, bem dos que cá ficavam.


Ainda há pouco tempo li o testamento da minha trisavó, Maria do Espírito Santo, Ferreira Montalvão, morta em 1902 e que era uma mulher muito rica. No entanto, mais de dois terços do seu testamento referem-se à parte espiritual. Discrimina cuidadosamente as missas que quer que rezem por ela, uma missa de corpo presente, outro ofício no meio do ano e outro ainda no final e ainda vinte trintários de missas por sua alma, mais dez trintários de missas por alma das suas obrigações, mais dez missas ao asilo da sua guarda, mais dez ao S. Miguel, patrono da povoação de Outeiro Seco, sendo estas rezadas no altar do mesmo santo. Dispõe ainda de uma quantidade de trigo ou dinheiro para distribuir aos pobres da aldeia e aos respectivos criados.

Um trintário era uma série de 30 mis­sas celebradas em dias seguidos por alma dum defunto, na espe­ran­ça da sua libertação do Purgatório

Da leitura deste testamento há uma preocupação com o destino da sua alma, que a nós, que o lemos em 2015, quase que nos parece medieval, e naturalmente, que este testamento, obrigava os seus descendentes a executa-lo. A salvação da alma do morto, ficava pois também a cargo dos executores do testamento.
Tudo isto veio a propósito de um registo de azulejos, com as alminhas do Purgatório, que descobri numa das ruas antigas do Centro de Castelo Branco, que hoje parecem estar mais ou menos esquecidas de todos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A minha primeira obra de Rubens com cerca de meio palmo

 
Coleccionar estampas de santinhos e outras beatices torna-se um vício cada vez maior, sobretudo porque se conseguem comprar obras com dois ou três séculos de existência por preços muito tentadores.


Recentemente adquiri esta estampa, com cerca de meio palmo, representando uma Santa Bárbara. O traço é algo requintado, sem aquele ar ingénuo das nossas estampas e desde logo me pareceu que não fosse portuguesa, impressão que confirmei, quando vi a assinatura no canto inferior esquerdo, C. Galle. 


Fiz algumas pesquisas na net e descobri que Galle é o nome de uma dinastia de impressores e gravadores flamengos, de Antuérpia, activos entre os séculos XVI e XVII, de que já aqui falei anteriormente. A assinatura C. Galle poderá reportar-se a 3 membros desta família, Cornelius Galle I, o antigo 1576–1650 e Cornelis Galle II, o novo(1615–1678) e ainda um terceiro Cornelius nascido em 1642 e nem sempre é fácil distinguir as obras uns dos outros, até porque esta gente trabalhava em oficinas familiares, em que o mesmo trabalho era certamente repartido por avô, pai, filhos e irmãos. Em todo o caso, segundo várias pesquisas que fiz no Rijksmuseum as assinaturas C. Galle iguais às da minha estampa parecem mais corresponder mais aos trabalhos tipográficos de Cornelis Galle II, o novo(1615–1678) ou do terceiro (nascido em 1642). 
S. João Baptista. Rijksmuseum. Assinado por C. Galle
Procurei algumas informações sobre este Cornelis ou Cornelis Gale e li na wikipedia que este impressor notabilizou-se sobretudo pelas suas estampas feitas a partir de Desenhos de Pieter Paul Rubens e Anton Van Dyck. Lembrei-me então da hipótese de este pequeno registo ser uma estampa feita a partir de um desenho ou de uma pintura de um daqueles artistas e fiz então varias pesquisas combinadas por “Rubens + Cornelius Galle” e Anton Van Dyck + Cornelius Galle" e andei por uns quantos sites, nomeadamente pela biblioteca digital hispânica, que tem uma grande colecção de estampas digitalizadas, até que fui ter à Europeana, o grande repositório digital dos museus, bibliotecas e arquivos europeus e descobri que no Teylers Museum, em Harlem na Holanda, possui nas suas colecções uma estampa, idêntica à minha só que de maiores dimensões, assinada por C. Galle e cujo desenho é atribuído a Rubens. A estampa do Museu holandês tem 30 por 21 cm e a minha como só tem 9 por 6,5 cm e apresenta um desenho menos perfeito, mas a matriz não há dúvida que é a mesma.
S. Barbara a partir de desenho de Rubens e gravada Cornelis I Galle (1576-1650). Teylers Museum
Está datada entre 1596 e 1650 e na ficha de inventário deste Museu a assinatura é identificada como sendo do Cornelius Galle I, o antigo, que viveu entre 1576–1650,  embora estranhamente tivesse sido o Cornelius II (1615–1678) quem se tenha notabilizado por produzir estampas a partir de obras de Rubens. Enfim, seja lá de que Cornelius for, novo ou velho a minha gravurazinha será de meados do século XVII, impressa certamente em Antuérpia e feita a partir de um desenho de Rubens.

Para os que sabem menos de religião Católica, esta Santa Bárbara viveu no Século III, em Nicomédia, na Ásia Menor e a sua história é muito semelhante a outras virgens mártires destes primeiros séculos do cristianismo. Em traços gerais, a jovem Bárbara era cristã e o pai pagão, quis casa-la contra à sua vontade. A coisa correu mal e o Dióscoro, o pai resolveu encerra-la numa torre com duas janelas, mas a jovem Bárbara para mostrar a sua crença inabalável na Santíssima Trindade, mandou abrir uma terceira janela. Como Bárbara teimava não abjurar da sua fé, o pai denunciou-a ao Perfeito Martiniano e a jovem foi vítima de um terrível suplício. Quando finalmente a pobre Bárbara morreu decapitada, caiu um trovão dos céus e que fulminou o seu pai Dióscoro.
Esta estampa apresenta os elementos típicos que permitiam a qualquer crente, mesmo que fosse analfabeto, identificar rapidamente a Santa que aqui estava representada. É uma jovem, segura a palma, que significava que foi martirizada, a torre com três janelas, onde foi encerrada e o cálice, que significa a sua conversão ao catolicismo.

Em suma, uma estampa, feita em meados do século XVII, em Antuérpia, a partir de uma obra do Rubens, apesar de não ultrapassar 9 por 6,5 cm, valeu bem a meia dúzia de euros que dei por ela.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Um espelho mágico achado no lixo

Os espelhos são sempre objectos fascinantes. Na decoração, por maiores que sejam, os espelhos vez de encher ou sobrecarregar um espaço, multiplicam-no. Fazem mais do que isso, recriam uma área da casa dando-nos ângulos ou visões que não existem na realidade. Os espelhos são como que uma porta para outro mundo.

Talvez por essa razão, os espelhos apareçam tão frequentemente nas fotografias deste blog, pois há cinco anos que ando a fotografar a minha casa e os espelhos servem como cenários sempre novos para as peças, que fotografo ou para recriar qualquer recanto da minha casa, que já mostrei anteriormente e que através do efeito mágico do espelho, surge modificado.
Por estas razões, quando vi este este espelho velho num contentor das obras, não lhe pude resistir e trouxe-o para casa. Terá pertencido a uma das muitas velhinhas que moram aqui no centro da cidade e que quando morrem, todo o recheio das suas casas é atirado para lixo, desde o mobiliário, às fotografias antigas, passando pelas panelas. Este espelho fazia parte de uma das aquelas antigas cómodas, com um tampo em mármore, no tempo em que as casas-de-banho ainda não estavam generalizadas nas casas mais remediadas e a a higiene diária fazia-se no quarto com o recurso a um jarro e uma bacia. Nestes bairros populares do centro histórico de Lisboa, as casa-de-banho são coisas novas, construídas nos últimos vinte ou trinta anos, normalmente numa parte da cozinha. No passado existia uma pia polivalente na cozinha ou varanda que servia literalmente para tudo.
O espelho que achei no lixo faria parte de um móvel deste tipo.
Este espelho estava em muito mau estado, tratei-o contra o caruncho, pincelando-o com cuprinol e depois revesti-o com película aderente e assim ficou durante duas semanas, como se estivesse numa câmara de expurgo. Depois passou pelas mãos mágicas do Manel, que o restaurou e lhe acrescentou um pináculo no sítio onde existiria um frontão. No final, foi a prenda de Natal para a minha filha Carminho. Talvez ela possa nele descobrir outros mundos sem sair do seu quarto.

O pináculo foi posto pelo Manuel em lugar do antigo frontão que se perdeu.