quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Cenas Venezianas: faianças da Wood and Brownfield, da misteriosa marca C. & J. Shaw e ainda de Sacavém

 
Quem gosta e aprecia faiança inglesa do século XIX sabe que é um tema muito bem estudado e que uma simples pesquisa pela marca, no Google, permite datar e identificar rapidamente o prato ou a travessa, que temos lá em casa. Todavia, a passagem de 150 ou 200 anos depois da produção dessas loiças inglesas apagou inevitavelmente alguns registos, fazendo desaparecer alguns aspectos da história dessas cerâmicas. Nesses casos, não há internet, que nos valha e se quiséssemos eventualmente recuperar a história de alguns fabricantes, como a misteriosa firma inglesa C. & J. Shaw, teríamos que fazer uma investigação em arquivos, anuários industriais ou velhos catálogos de fábrica. Como me falta a disponibilidade para fazer investigações mais sérias terei que me valer das marcas existentes, associar algumas ideias e fazer suposições. 
Pormenor da travessa. Uma vista italiana imaginada.

Toda esta história começou quando eu e o Manel comprámos na feira de Estremoz, um prato coberto e uma travessa de um enorme serviço de jantar de faiança inglesa, de meados do século XIX, que estava à venda na Feira de Estremoz. Todo o serviço era muito bonito e as várias peças representavam uma paisagem italiana, com algumas variantes entre si, misturando ruínas romanas, lagos românticos e gôndolas venezianas, mas no fundo sem reproduzir nenhuma vista real em concreto. Enfim, a decoração deste serviço mostra uma Itália imaginada e romântica, destinada a deleitar uma burguesia, que lia nos jornais ilustrados as maravilhas de Roma, Veneza ou Florença, mas não tinha dinheiro para viajar até lá.

Contudo, ao contrário do que eu e o Manel achávamos natural, as marcas das peças que comprámos, não eram as mesmas.
O prato coberto, ao qual lhe falta a tampa.

O meu prato coberto apresenta a marca H. Cutler-Castle-Hill-Works, Sheffield, acerca do qual fiz algumas pesquisas na net e descobri senhor H. Cutler era um fabricante de cutelaria, isto é, produzia facas de cozinha, talheres, canivetes e ferramentas. Aliás, à semelhança da nossa Guimarães, a localidade de Sheffield era célebre pelas suas fábricas de cutelaria. Em suma, este H. Cutler não parece ter sido um produtor de cerâmica.
A marca do prato coberto

Já a travessa do Manel, apresenta a marca W. & B., facilmente atribuível à fábrica inglesa Wood and Brownfield, uma firma que inicia a sua actividade em 1837 e termina em 1900, com algumas alterações de nome pelo meio.

 
A travessa e a sua marca W. & B.

No sábado seguinte, o Manel voltou à Feira e constatou que as restantes peças do serviço, que ficaram na banca do vendedor ostentavam no reverso a marca W. B ou C. & J. Shaw. Este C. & J. Shaw é um nome do qual se sabe muito pouco, na internet não há informações pertinentes sobre ele, mas aparecem aqui em Portugal muitas peças com a sua marca muito característica, que inclui além das referidas iniciais, o mote latino, Vincit Veritas, quer dizer, mais ou menos, a verdade vencerá, ou pela verdade vencerás.

Portanto, no mesmo serviço encontravam-se três marcas diferentes: H. Cutler-Castle-Hill-Works, Sheffield; W. B e C. & J. Shaw, o que constituía verdadeiro quebra-cabeças.

Porém, lembrei-me que há uns tempos, a Margarida Elias, do blog memórias e imagens, tinha-me enviado uma imagem de um prato coberto inglês com uma marca incisa, ilegível e que ela me pediu ajuda para identificar. Na altura, não consegui ler a marca, mas fiquei com a coisa pendente numa pasta da minha cabeça, que se intitula assuntos que o só tempo resolverá. E com efeito, abri novamente o e-mail, vi que o prato coberto era igualzinho ao meu e percebi que a marca que lá estava deveria ser certamente, Brownfield.

Portanto, era plausível que o meu prato coberto poderia ser sido fabricado pela Wood and Brownfield e vendido com a marca estampada, H. Cutler-Castle-Hill-Works, Sheffield, talvez fruto de uma encomenda especial daquele fabricante de cutelaria, destinado aos seus clientes, qualquer coisa do género, na compra de um faqueiro, oferecemos um valioso serviço de jantar, mas, talvez isto, seja apenas uma suposição minha, decerto mirabolante.
A travessa da terrina

Quanto ao misterioso C. & J. Shaw, continuava sem saber porque é as suas marcas apareciam em algumas peças neste serviço de cenas ditas venezianas. Lembrei-me então que o meu amigo Manel, tem uma cozinha pejada de loiças inglesas, onde não cabe nem mais um simples pires de café, e que tinha algumas peças com esta decoração pretensamente veneziana. Pedi-lhe então o favor de ver as marcas dessas peças e fotografa-las e quando o Manel me envia as fotos de uma terrina com presentoir, descubro com espanto, que no verso da travessa estão duas marcas em simultâneo o W. & B e o C. & J. Shaw.
As marcas da terrina: W. & B e  C. & J. Shaw.
Portanto, estas marcas provam que este C. & J. Shaw esteve associado de alguma forma à Wood and Brownfield. Recordei-me que o autor do blog Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém, já tinha notado com estranheza que todos os manuais ingleses, referem Wood & Brownfield como única produtora do motivo Grecian Statue, que mais tarde foi copiado por Sacavém no popular motivo cavalinho e ignoram completamente C. & J. Shaw, que também produziu aquela decoração, cujos exemplares aparecem muito em Portugal. 

Com o recurso dos conhecimentos da língua inglesa do Manel, escrevi então ao Steve Birks, que é o responsável pelo site http://www.thepotteries.org, uma bíblia na internet para a identificação de marcas de faiança inglesa, pedindo-lhe ajuda para tentar montar as peças deste puzzle. O Steve Birks foi muito gentil e respondeu-me muito rapidamente, confirmando-me que mesmo em Inglaterra, se sabe muito pouco deste C.& J. Shaw, embora seja referido muito sumariamente na Encyclopaedia of British Pottery and Porcelain Marks. Em todo o caso, fez uma entrada no seu site para C. & J. Shaw, ilustrada com imagens tiradas deste blog e fazendo o ponto da situação, o que certamente irá ajudar outros interessados neste assunto em prosseguir as suas pesquisas.
Um pormenor do prato coberto

Em todo o caso fica claro, que há inequivocamente uma associação entre C. & J. Shaw e o Wood and Brownfield, agora qual a sua natureza, se institucional ou meramente comercial, isso é que não se sabe. Há talvez duas hipóteses:

- A C. & J. Shaw poderia ser uma marca com a qual Wood and Brownfield comercializava as suas peças nalguns mercados estrangeiros, como Portugal ou os Estados Unidos, que são os países onde aparecem mais estas louças;

- A C. & J. Shaw poderia ser uma firma britânica, talvez sedeada em Portugal, que se dedicasse a importar louça inglesa e quem sabe se também cutelaria. No século XIX, o que não faltam são exemplos de famílias inglesas estabelecidas em Portugal e nas ilhas atlânticas, que se dedicam ao negócio dos vinhos, do chá e da laranja e também da faiança, como foi o caso de Sacavém. Inclino-me mais para esta hipótese, de o C. & J. Shaw ser um importador, pois a Maria Andrade, apresentou há uns anos um prato, que ostenta no verso também duas marcas distintas, a primeira do C. & J. Shaw e segunda do Hope & Carter. Sendo assim, C. & J. Shaw teria acordos estabelecidos com mais de uma firma britânica para distribuir louça para Portugal.

Talvez a resposta a estas perguntas se encontre nos arquivos portugueses das alfândegas ou nos registos da propriedade industrial ou em anúncios de velhos almanaques e revistas.


Uma variante da Venetian Scenery da Wood and Brownfield, usada nos pratos de sopa. Foto de http://www.blueandwhite.com/
Aliás, esta ligação a Portugal, parece estar sempre presente em todo este puzzle que aqui descrevi, pois umas décadas mais tarde, a Fábrica de Loiça de Sacavém produzirá também uma louça, com uma decoração veneziana, inspirada directamente nestas Venetian Scenery do C. & J. Shaw e da Wood and Brownfield.


Sacavém produziu também um motivo inspirado na Venetian Scenery da Wood and Brownfield.
Alguns links úteis:

http://www.thepotteries.org/allpotters/902a.htm

http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/c.+%26+j.+shaw

http://artelivrosevelharias.blogspot.pt/2010/10/prato-ingles-com-motivo-braganza.html

http://printedbritishpotteryandporcelain.com/who-made-it/brownfield-sons-maker


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Faiança portuguesa ou o Mestre das Folhagens


Hoje apresento aqui dois grandes pratos de faiança portuguesa, certamente do século XIX e dos quais não sei nada, além de que são bonitos. Não apresentam qualquer marca e também encontrei nada que se lhe assemelhasse nos catálogos de faiança, que tenho lá em casa, de modo a ter uma pista para identificar o seu fabricante ou local de produção. Aliás, estes dois pratos, que pertencem ao meu amigo Manel, são quase paradigmáticos do conhecimento que se tem de uma boa parte da faiança portuguesa do século XIX, quer dizer, há peças fantásticas e muito criativas, mas como não estão marcadas, pouco ou nada se sabe delas e limitamo-nos quase sempre a escrever meia dúzia de impressões, que podem perfeitamente estar completamente erradas, e, é precisamente isso que irei fazer neste post.

Pela boa qualidade da faiança ou talvez por mera intuição, eu diria que estes enormes pratos foram fabricados algures em Gaia ou no Porto.

A decoração com motivos vegetais distribui-se assimetricamente pelas orlas dos pratos. É uma pintura de uma grande simplicidade, com os elementos estilizados de uma elegância despojada, quase japonesa, o que me faz pensar se não serão peças já posteriores a cerca de 1870-1880, quando a moda do japonismo aparece na cerâmica europeia. Contudo, mais a Sul, em Coimbra as oficinas de faiança produziam os modestos pratos ratinhos, que apresentam igualmente decorações assimétricas e por vezes despojadas, mas duvido que esses mestres coimbrões soubessem sequer o que era o Japão. Na prática, fico na dúvida se estes dois pratos são uma visão da natureza profundamente popular, que se encontra na também louça ratinha, ou se são uma interpretação popular de uma moda mais cosmopolita e erudita, como foi o japonismo na arte europeia nos últimos 20 ou 30 anos do século XIX.


Igualmente baseado numa intuição, julgo que estes dois pratos saíram da mesma fábrica e talvez até das mãos do mesmo artífice. Apetece-me fazer como os historiadores da pintura primitiva europeia, que criaram designações poéticas para oficinas de pintores, cujos nomes não conseguiam identificar, como por exemplo os Maîtres à l'œillet ou o Mestre do Retábulo do Paraíso. O artesão que decorou estes dois pratos merecia bem ficar na história da cerâmica como o mestre das folhagens.

Em todo o caso, seja lá qual foi a inspiração que moveu as mãos deste mestre das folhagens, o trabalho que deixou nestes pratos evidencia bem a enorme criatividade da faiança portuguesa do século XIX.