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segunda-feira, 21 de março de 2011

Algumas memória da sala de jantar do Solar de Outeiro Seco a partir dos restos de um serviço de chá

No meio desta crise com que os cidadãos portugueses são injustamente castigados, talvez pareça fútil escrever sobre velharias ou evocar acontecimentos ocorridos há muito. Contudo evocar o passado ou escrever sobre património é defender valores, que os nossos dirigentes desprezam. Escrever sobre o passado ou velharias é a minha modesta forma de resistir à gestão por objectivos, à interoperacionalidade, ao estilo IKEA, ao pensamento estratégico e outras tolices que não tenho espaço nem tempo para enumerar


Por essas razões apresento os restos de um bonito serviço de chá com florinhas românticas e decorações pintadas a ouro, do século XIX, provavelmente datado entre 1852-1869, a julgar pela marca pintada a azul de mufla.


É da Vista Alegre naturalmente e pertence a um período particularmente feliz desta fábrica, caracterizado por decorações com grinaldas deliciosas e um uso contido dos dourados.



É uma herança da minha família paterna, proveniente do solar de Outeiro Seco, onde estaria certamente no móvel renascença da sala de Jantar.

Há um inventário feito pela minha avó Mimi dos bens contidos nos armários dessa sala. Mas, é uma simples enumeração, destinada a fazer as partilhas com os seus irmãos, depois da morte do seu pai. Pouca ou nenhuma informação dá sobre as peças e nem eu consigo identificar entre os 4 serviços de chá arrolados, todos eles com florinhas, qual deles será este, cujas imagens apresento. Percebe-se que já nenhum dos serviços estava completo e às minhas mãos chegaram alguns restos de dois serviços, entre os quais este.

Em suma, o extenso inventário é pouco informativo. Percebemos que houve muitos serviços de chá, café, jantar e de copos, que se foram partindo ao longo de 100 ou 150 anos. Paralelamente, iam-se também comprando novos, mas ficavam as peças dos anteriores e o recheio à época do inventário da minha avó era uma coisa heterogénea de várias épocas e feitios.


As duas janelas da sala de jantar são a segunda e a terceira a contar da esquerda
 Do inventário da minha avó ficamos a saber que existia na sala de jantar um enorme móvel estilo renascença, que era tão grande, que após as partilhas, umas das primas do meu pai tentou leva-lo para sua casa e não consegui de modo nenhum retira-lo de lá. Havia também um aparador, uma cristaleira, uma grande mesa de sala de jantar, onde comiam pelo menos 16 pessoas, muitas cadeiras e ainda mesas de apoio, numa das quais comiam os mais jovens. A mesa era abundante ao tempo dos meus bisavós. Serviam-se sempre dois pratos.

Entre as duas janelas da sala, existia um fogão de sala, mas pouco ou nada foi usado. Na realidade, o solar era sobretudo usado como casa de Verão. O Inverno era passado numa casa que a família Montalvão possuía em Chaves, na Madalena, mesmo junto à ponte romana.

Um dos pormenores curiosos que o meu pai se recorda desta sala, era uma espécie de roda, que serviria talvez para passar comida para o quarto existente ao lado, mas na época do meu pai já estava desactivada. Confesso que já me recordei se ela não serviria para passar os alimentos ao meu tio trisavô, o Miguel Montalvão, que enlouqueceu e vivia isolado no seu quarto, cheio de livros, com uma enorme barba e que se escondia debaixo da cama quando entrava alguma criada. Talvez essa roda servisse para alimentar o pobre louco sem o perturbar, mas não tenho provas. Também é verdade que a sala de jantar é uma divisão recente na história das casas portuguesas. Começou a aparecer no século XVIII e difundiu-se pelas casas mais ricas ao longo do século XIX e por consequência é também possível que a roda seja anterior à existência da sala de jantar. Portanto a função dessa roda permanece um mistério.


A sala de jantar é o número 26 e o quarto servido por uma roda era o número 24

Não há imagens da sala de jantar. Não há uma única fotografia dela, pois antigamente nunca se tiravam instantâneos no interior das casas. Nos anos 60, o meu pai filmou os salões nobres da casa, o museu, a biblioteca e a sala de visitas, mas não se lembrou da sala de jantar. Eu lembro-me vagamente dela, de estar talvez sentado na mesa dos miúdos, mas não me consigo recordar de nenhum pormenor do mobiliário, só talvez de uma sensação geral, que nem consigo descrever. Aliás, penso por vezes que confundo as minhas lembranças com as histórias que ouvi em pequeno do meu pai, acerca daquela sala.

Hoje o chão e o tecto do que foi a sala de jantar do Solar dos Montalvões ruíram e não há qualquer vestígio do gigantesco móvel renascença que por lá existiu. A memória que ficou dela é pouco mais do que estas palavras que aqui escrevi.
O que resta da Sala de Jantar...

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Pela primeira vez uma cronologia da construção do Solar dos Montalvões


No Arquivo Distrital de Braga foram encontrados documentos, que permitem pela primeira vez esclarecer alguma coisa da cronologia da construção das várias partes do Solar dos Montalvões em Outeiro Seco.

Até ao momento presente conheciamos apenas três datas relativas à construção do Solar.

- A informação de José Timóteo Montalvão Machado, no livro os Montalvões, de que o solar tinha sido construído pelo Capitão de Cavalos José Alvares Ferreira (morto em 1738) como o atesta até o facto de ter várias e extensas cavalariças, onde ele podia manter os seus cavalos. Acrescento eu que as cavalariças só existem nos corpos Nascente e Norte da casa.

- A data da verga da Porta da sala de trabalho, 1782, que se reportará certamente à construção da escada do pátio interior, mandada edificar no tempo de Antónia Maria Montalvão Morais

- A Data do sino da capela, 1790, também do tempo de Antónia Maria Montalvão Morais (1732-1809).

No referido Arquivo Distrital de Braga localizaram-se três documentos, que permitem avançar significativamente os nossos conhecimentos e colmatar as falhas:

1- A ESCRITURA e mais requerimentos para a fabrica de uma capela de Sao Salvador do Mundo, que quer erigir Miguel Alves Ferreira da freguesia de Sao Miguel de Outeiro. Processo iniciado em 1761 e terminado em 1762

2 - PROVISAO a favor de D. Antonia Maria de Montalvao Morais, viuva, da freguesia de Sao Miguel do Outeiro Seco, comarca de Chaves, para erigir uma capela no dito lugar e freguesia. 24-04-1784

3 PROVISAO de licenca para se benzer a capela do Salvador do Mundo, da freguesia de Sao Miguel do Outeiro Seco, a favor de D. Antonia Maria de Montalvao Morais, viuva, da dita freguesia. 29-04-1784

O primeiro documento é muito extenso, cheio de fórmulas legais tal como as nossas escrituras de hoje, mas traz-nos os seguintes dados novos:

- A Capela foi mandada edificar por Miguel Alves Ferreira e Antónia Maria Montalvão Morais depois de 1762. O Miguel Álvares Ferreira foi cavaleiro professo da Ordem de Cristo, capitão do regimento de infantaria da praça de Chaves e mais tarde director do Presídio do Porto.

- A Capela foi construída sob invocação de São Salvador do Mundo e não S. Rita como chegámos a pensar

- Foi mandada edificar em cumprimento de um voto feito pela mãe de Miguel Alves Ferreira, Maria Sobrinho, que deixou um terço dos seus bens vinculados à construção de uma capela, onde se rezasse perpetuamente uma missa, todos os anos, no dia 15 de Agosto, a Nossa Senhora da Assunção.

- Todo o processo gira à volta dos bens, uma relação de terrenos com os respectivos rendimentos, que o casal Miguel Alves Ferreira e Antónia Maria Montalvão Morais prova possuir e dá como garantia para construir e manter a capela.

- O processo prova-nos ainda que quando este casal decide erguer o templo, parte do solar já está construído, pois ao longo de toda a escritura lê-se várias vezes que pretendem fazer a capela junto às casas em que vivem.

Mais, o documento prova-nos que em 1762, o corpo nobre do solar da fachada poente já estava construído, pois quando o paróco Domingos Pinheiro dá o parecer sobre a pretensão deste casal de erguer uma capela, descreve com pormenor o local escolhido, dando-nos assim uma informação preciosa sobre as construção já existentes e que passo a transcrever:
as cazas do doanteconfinão e correm com duas ruas publicas ambas com cunaes, solio e frizio e cornija Huma pello norte, e outra que corre pello poente com estrada mais publica para o sul adonde tem hum arco bem feito e bastantemente alto, e no meyo remate huma pedra de armas das asendesias do doante e por este arco se entra para o patteo das cazas, e nesta parte que pega acima das ao patteo e he munto capaz, e corre para o Sul petende fazer a Cappella com porta para o poente

- O Documento fornece ainda a medidas exacta do templo, sendo a largura da Capella dezasseis palmos em disvão, e trinta, e dous de comprido.

Os segundos e terceiros documentos são basicamente requerimentos de 1784 feitos por Antónia Maria de Montalvão Morais, agora viúva (Miguel morreu em 1779) para benzer e consagrar a capela, a “qual se acha perfeitamente acabada”

Em suma, a construção da capela foi iniciada em 1762 e terminada em 1784.
Estes documentos permitem agora estabelecer uma cronologia provisória de construção do solar:

-Antes de 1738. O Capitão de Cavalos José Alvares Ferreira terá construído uma boa parte da casa“como o atesta o facto de ter várias e extensas cavalariças, onde ele podia manter os seus cavalos”. (José Timóteo Montalvão Machado) Acrescento eu que as cavalariças só existem nos corpos nascentes e Norte da casa.



-Antes de 1761 já está construída a fachada nobre a poente.




-1762 Início da construção da capela

-1782 Construção da escada do pátio interior (data da verga da porta da sala de trabalho virada para o pátio) mandada edificar no tempo de Antónia Maria Montalvão Morais ,



-1784 Terminada a construção da capela
-1790 É a data do sino da capela, também do tempo de Antónia Maria Montalvão Morais

-Depois de 1790 é construído corpo com 3 pisos, que existe entre a cozinha e a capela, já que o referido corpo aproveita a parede da capela.



Agradeço ao meu amigo Humberto a localização dos documentos no Arquivo Distrital de Braga, que com a sua persistência, conseguiria encontrar o paradeiro do célebre túmulo de Alexandre o Magno, se alguém houvesse por bem pedir-lho

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A cozinha do Solar de Outeiro Seco

Já pouco me lembro da cozinha do Solar de Outeiro Seco. Parecia-me enorme e escura. Nas poucas férias que lá fomos, à noite o meu irmão e eu costumávamos brincar junto ao fogo, retirando gravetos queimados na ponta, que fingíamos fumar. Éramos sempre repreendidos por estarmos tão junto do fogo, pois diziam-nos que íamos fazer xixi na cama. Ainda hoje me pergunto se haverá algum fundo de verdade dessa advertência.


Em todo o caso não experimentei a vivência da cozinha no tempo em que servia uma grande família e uma casa agrícola com muitos trabalhadores. Para esse efeito sirvo-me da memória do meu pai, que cuidadosamente anotou tudo o que se lembrava desta divisão. Eu preferiria que ele tivesse sido mais minucioso no Museu, mas as recordações de juventude e infância dele foram certamente mais saborosas na cozinha, onde durante todo o período das férias do Natal, a família e empregados se reuniam, em volta da enorme chaminé, onde ardia um toro de carvalho, para rezar uma “coroa ou para jogar ao rapa a pinhões.


O meu pai descreve detalhadamente e com enorme prazer a cozinha enegrecida pelo fumo, onde nos tectos havia um céu de enchidos típicos da região, alheiras, sangueiras, chouriços de pão, salpicões, linguiças, palaios, morcelas, bem como ainda o os presuntos e os untos.

A cozinha tinha uma parte lajeada, onde se situava uma gigantesca chaminé e ainda um fogão a lenha, que a última vez que visitei o solar encontrava-se no meio das silvas do o pátio interior.

Nesta fotografia, tirada cerca de 1990 (depois da casa vendida) da parte lajeada da cozinha, observa-se a pia de pedra das lavagens e no chão uma espécie de conduta em pedra, que servia para vazar líquidos para a loja dos porcos, que se situava no compartimento inferior.

Aqui, nesta foto também de 1990, além da chaminé e do escano, o banco cumprido posto em frente ao lume, vê-se um outro alçapão, que servia para vazar entulho para a loja dos porcos, imediatamente abaixo da cozinha

Na parte sobrada da cozinha, estava colocada uma enorme mesa onde os empregados e os trabalhadores nos dias das colheitas comiam. Estas refeições decerto barulhentas devem ter desperto a curiosidade do meu pai, porque descreve a alimentação que lhe era servida nas fontes, os grandes pratos de faiança ou barro de onde todos comiam, com enorme pormenor e satisfação. Terá muitas vezes petiscado aqueles pratos fartos e simples.

O horário e os nomes das refeições dos empregados e trabalhadores rurais não tinham nada a ver os actuais. Às 7.30 era o mata-bicho, às 10 horas o almoço, pelo meio-dia o jantar, pelas cinco horas, a merenda, às 8 a ceia e pelas 10.30 a sobreceia.


Ao fundo vêem-se ainda os quartinhos das criadas e por lá dormiram a Flambó, a Laurinda, a Maria, a Lucinda e ainda muitas outras Marias, ao longo de duzentos anos, mas que o tempo apagou irreversivelmente os nomes e a memória das suas humildes existências


Hoje a cozinha está assim e repare-se, apesar da desolação, na majestade das traves que sustentam o chão. Sao certamente peças feitas com um único tronco de uma árvore centenária

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Liberal Sampaio: 29/10/1935 - 29/10/2010: 75 anos depois da sua morte


Sou péssimo para recordar aniversários. Deixo passar em branco os anos de toda a gente. Talvez seja por não gostar de falar ao telefone, por ser anti-social ou por ter medo de ser rejeitado, enfim, por qualquer dessas razões que o Freud tão bem explica, mas que num blog de velharias não interessam para nada. Mas, hoje decorrem 75 anos da morte do meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio e o meu amigo Humberto, que se recorda de aniversários, fez um post sobre o meu trisavô, que sugiro a visita. Já lá deixei o meu comentário.

Deixo-vos com uma fotografia do antigo quarto dele em Outeiro Seco, com os tais tectos em masseira, muito típicos da arquitectura solarenga portuguesa.
Ao meu trisavô, o Lili, como era conhecido pelos netos, dedico-lhe uma frase em latim, que é mais bela e pungente inscrição funerária que conheço e que ele como estudioso de epigrafia latina certamente gostaria, Siti Tibi Terra Leuis (que a terra te seja leve)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Na pista de Miguel Álvares Ferreira Montalvão: o bacharel louco


Num dos meus anteriores posts, em que contei os amores da minha trisavô, Maria do Espírito Santo, com um padre, José Rodrigues Liberal Sampaio, mencionei ao de leve, um dos seus irmãos, o Miguel José Álvares Ferreira Montalvão, que é uma personalidade estranha e de que se hoje sabe muito pouco.

Nasceu a 1 de Março de 1838, em Sto. Estevão, aldeia próxima de Chaves, onde os pais residiam na altura. Só mais tarde a família mudou-se para o solar Outeiro Seco. Terá crescido num ambiente onde a instrução tinha alguma importância, o que era raro na fidalguia portuguesa da época, com efeito, o seu pai João Ferreira Montalvão fez estudar todos os seus filhos homens. O Miguel fez Direito, o António Vicente o Curso de Estado-Maior e Engenharia Militar e Civil e um terceiro filho, ilegítimo, também João, foi feito Sacerdote.

O Miguel terminou Direito, em Coimbra, em Junho de 1864, com 26 anos. De regresso a casa, foi administrador do Conselho de Chaves e Juiz de Direito Substituto (segundo o periódico Aurora de Chaves, 11 de Setembro de 1890) e portanto, tudo indicava que iria ser um senhor respeitável, com um grande bigode artisticamente enrolado e uma figura de destaque na vida pública flaviense.

Contudo, este homem era muito diferente dos restantes, conforme ficamos a saber pelas notícias da sua morte, ocorrida a 8 de Setembro de 1890, aos 52 anos, que encheram os jornais flavienses, nomeadamente o Comércio de Chaves e Aurora do Tâmega. Todos eles se lhes referem como o infeliz bacharel em Direito, que há muitos anos estava doido e se encerrava num quarto, passando o tempo a ler todos os livros que podia obter .

Outro Jornal, o Comércio de Chaves, de 10 de Setembro de 1890, refere que o infeliz vivia encerrado num quarto, não consentia que lhe cortassem o cabelo e a barba e quando alguma criada entrava no quarto para fazer a limpeza o desventurado metia-se debaixo da cama.



O acontecimento impressionou não só os jornais da época, como os habitantes da aldeia. Ainda, hoje, passados 110 anos, segundo o nosso amigo Humberto, correm ainda entre os mais velhos histórias do bacharel louco. Nestes relatos da aldeia dizia-se que o Miguel teria endoidecido por causa de amores contrariados por uma prima. Eu até já pensei nele como o construtor do mirante, que dava acesso aos terceiros do solar, que segundo a tradição teria sido construído por um antepassado dos Montalvões para avistar a sua amada, numa povoação vizinha. No entanto, a tradição familiar refere que o Miguel Montalvão não morava no solar, mas numa casa vizinha, com uma fachada austera de pedra, mas uns interiores muito bonitos com tectos de masseira.




Casa de Miguel Montalvão

Por estas sumárias notícias dos jornais flavienses, podemos inferir que o Miguel Montalvão era um homem culto, com grandes hábitos de leitura e podemos sem dúvida atribuir-lhe a uma parte da formação da grande biblioteca do Solar de Outeiro Seco, que posteriormente o Liberal Sampaio, amante da sua irmã, terá completado e enriquecido. Também podemos adiantar que o facto de ser um grande leitor não o terá ajudado a integrar-se na sociedade de um vila, em que 80 % da população era analfabeta e a restante fracamente instruída. E este número não é uma estatística referente à então vila de Chaves, mas ao País inteiro, em 1900.

Fascinado por este indivíduo, de que sabia tão pouco fui à procura de mais elementos e tentei contactar os descendentes dos parentes mais próximos, do Miguel Álvares e da Maria do Espírito e concentrei-me num terceiro irmão, que ao contrário deles fez uma vida mais convencional, o António Vicente Ferreira Montalvão (18-12-1840/19-09-1919).

Fiz umas pesquisas aqui e acolá e acabei conseguir contactar uma bisneta do General António Vicente de Montalvão, uma Senhora distinta e simpática que me abriu as portas da sua casa familiar no Porto. Infelizmente não tinha muitos elementos, pois as famílias, preocupadas com os obstáculos da vida quotidiana acabam por deixar partir os mais velhos sem os interrogar acerca dos acontecimentos mais remotos ou pedir-lhes, que antes de morrerem identifiquem fotografias antigas. Apesar disso e de não ter conseguido obter uma fotografia do Miguel Montalvão, levantei mais um pouco do véu, que cobre estas histórias ocorridas há mais de 100 anos.



A minha prima autorizou-me a fotografar um retrato a óleo representando o seu bisavô em uniforme de gala e onde descobri os mesmos olhos claros da irmã, a Maria do Espírito Santo.

A minha parente também me adiantou, que o General António Vicente ter-se-á afastado da irmã, após o seu envolvimento desta com o padre José Rodrigues Liberal Sampaio, que foi na altura um escândalo muito grande em Chaves. Segundo a minha prima, o António Vicente Ferreira Montalvão terá inclusive prescindindo da herança que lhe cabia no Solar de Outeiro Seco, preferindo provavelmente ficar com outras propriedades da família na região de Chaves, para se manter afastado da relação socialmente condenável, que a irmã mantinha com o padre. A minha prima também desconhecia a existência do irmão louco do seu bisavô, figura que seria também pouco recomendável para os padrões da boa sociedade dos finais do século XIX.

Ao contrário dos irmãos, este António Vicente Ferreira Montalvão teve uma vida convencional. Seguiu a carreira militar, tomando a cavalaria como arma, como era já tradição na família desde pelo menos o seu trisavô, o Capitão de Cavalos, Álvares Ferreira, e fez um belo percurso profissional. Fui nomeado Chefe do Estado-maior da Arma de Artilharia, Grande Oficial da Real Ordem Militar de S. Bento de Aviz, Comandante da Escola do Exército, Vogal do Supremo Conselho de Defesa Nacional e chegou a general de Divisão. Casou também muito bem, com Mariana Mercês Bravo Borges, uma menina da boa sociedade Lisboeta e virtuose de piano. Quando se reformou, regressou a Chaves, mas já os irmãos haviam morrido há muito, o Miguel em 1890 e a Maria do Espírito Santo em 1902.

Ainda não foi desta que consegui discernir ao que precipitou a loucura do Miguel Ferreira Montalvão, mas algumas figuras e cenários do drama começam a ganhar contornos aqui e ali.
As fotografias da casa de Miguel Montalvão e do treslasdo da certidão de nascimento devem-se ao nosso amigo Humberto

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Solar dos Montalvões: alçados, plantas e legendas












Recentemente recebi alguns pedidos de apoio de estudantes de arquitectura do Porto, pedindo elementos sobre o Solar dos Montalvões, para elaborarem um projecto de recuperação. Ainda que se vá tratar de mero exercício académico, como membro da família Montalvão fico muito feliz por saber que alguém fará um projecto de reabilitação e por isso disponibilizo todas as plantas e alçados do edifício, juntamente com as legendas, que revelam a forma como a casa era utilizada. Julgo que esta informação poderá ser também útil às gentes de Outeiro Seco e Chaves, pois o solar há muito que deixou de ser da família e faz parte integrante do património histórico do Concelho, ainda que esteja votado ao mais triste e desolado abandono.

Chamo também à atenção para o facto de que a distribuição das divisões corresponde à utilização que a família Montalvão deu à casa durante Século XX. Nos séculos XVII, XVIII e XIX as funções das divisões eram necessariamente diferentes, que aquelas apresentadas aqui. Por exemplo sabemos que o uso de uma divisão reservada à sala de jantar é um hábito que data dos finais do século XVIII e só se generalizou ao longo do século XIX. Também sabemos que em muitas casas portuguesas persistiu até muito tarde a sala do estrado, uma divisão com uma plataforma em madeira onde as mulheres se sentavam no chão, à maneira oriental.

Os dados que forneço são para usar à vontade, mas peço que refiram que as plantas e os alçados são da autoria do Arquitecto Manuel Sousa Cardoso (excepto a última), a compilação dos dados é de José Manuel Montalvão Cunha, todos disponíveis em http://velhariasdoluis.blogspot.com/ , o blog de Luís Montalvão.

01 - LOJA - Destinada inicialmente a cavalos. Havia baias em pedra e aros de ferro para prender os mesmos. 02 - LOJA - Havia 3 tulhas para cereais. Urna grande, para centeio. Duas mais pequenas, para trigo.
03 – CAPELA
04 - ADEGA
05 - BICA
06 - LOJA - Pequena loja que servia para criar coelhos.
07 - LOJA - Loja inicialmente para acolher cavalos. Era agora preparada para armazenar batata. 08 - ADEGA
08a- LOJA - Destinada a guardar baratas ou galinhas.
09 - LOJA - Destinada a guardar galinhas e patos.
10 - PÁTIO PEQUENO
11 - LOJA - Em destinada a porcos. No meio, havia uma enorme pia de granito, que servia para os porcos comerem, a comida que era deitada do andar de cima, por um alçapão aberto no chão da cozinha.
12 - LOJA - Destinada aos porcos. Tinha também uma pia de granito por baixo de outro alçapão.
13 - LOJA
14 - ADEGA
15 - LOJA - Para esta loja, davam as 2 retretes do andar superior. O chão, estava cheio de palha, que era substituída regularmente.
17 - BICA
18 - JARDIM
19 - BALCÃO
20/21 - CASAS DE BANHO
22 - CORREDOR
23 - QUARTO DA MIMI -
24 - QUARTO DOS AVÓS - Para entrar neste quarto, tinha de se subir um degrau. Na parede que dava para a sala de jantar, havia uma «roda», que talvez tivesse servido para passar comida da sala de jantar para este quarto. Nessa época estava desactivada.
25 - SALA POLlVALENTE
26 - SALA DE JANTAR -
27 - TRÊS DEGRAUS - Para passar à cozinha, tinha de subir-se três degraus.
28 - COZINHA - Era o maior compartimento da casa, dividido em duas partes. Uma parte, com o chão lajeado a granito, a outra parte com o chão a madeira. A parte lajeada tinha a grande lareira, ladeada por dois escanos.
29 - 30 - QUARTOS - Eram quartos das empregadas
31 - ARRUMAÇÃO - Era utilizado como quarto das empregadas e servia ao mesmo tempo de arrecadação. Antes de um grande incêndio, tinha um outro andar que ardeu completamente, nunca mais sendo reconstruído.
32 -CORREDOR - Fazia a ligação com a parte nobre da casa
33 - QUARTO DO LILI
34 - ARMÁRIO NA PAREDE - Mesmo em frente á porta do quarto do Lili,
Este armário, tinha uma característica especial. Dava acesso a um quarto secreto, que pelo menos por uma vez salvou o Liberal Sampaio da prisão.
35 - VARANDA - Esta varanda, tinha vários escanos e bancos encostados à parede. Era também aqui que o feijão era seco ao sol e descascado.
36 - QUARTO -
37 - QUARTO DAS ARMAS
38 - QUARTO PEQUENO -
39 - QUARTO –
40 - QUARTO - com escadas que davam acesso ao andar superior.
41 - BIBLIOTECA
42 - SALA DE VlSITAS. Tinha um grande fogão de sala
43 - SALA D0 MUSEU - Era aqui, que estava previsto ser a entrada principal do Solar, pois, seria ligada ao pátio pequeno por escadaria, nunca terminada. No topo da sala, uma porta com dois degraus, ligava ao coro da capela. Era deste local , que os habitantes do solar assistiam aos Ofícios de Domingo.
44 - MIRANTE - Este acrescento, construído em madeira, foi mandado fazer por um dos Montalvões, para mais facilmente poder avistar os sinais feitos pela sua amada, moradora num solar vizinho
45 - SALA –
46 - SALA
47 - SALA –




ANEXOS
48 - CASA DO LAGAR
( a ) Loja onde eram engordados porcos
(b ) loja onde estava o lagar. Este era construído em granito da região, com grandes lajes maciças. A trave de madeira da prensa, dividia-o em duas partes iguais.
49 - PORTA DE ENTRADA LATERAL -Fazia a ligação do pátio grande com rua principal da aldeia.
49a- PORTA DE ENTRADA - Fazia a ligação do pátio grande com a rua principal da aldeia. Dava passagem a carros de bois carregados. Era protegida por um telheiro de 2 águas.
50 - TELHEIRO - Protegia um grande forno de cozer o pão. Este era feito de barro branco e tinha uma cruz gravada por cima da boca. Havia sempre muita lenha a secar.
51 - CASA DOS CASEIROS - LOJA - Tinha um grande forno de cozer o pão. Servia também para guardar madeira serrada e rachas de pinho para os fogões de ferro.
52 - CASA DOS CASEIROS - LOJA - Era a segunda loja dos coelhos.
53 - CASA DOS CASEIROS - LOJA - Esta loja era aproveitada para engordar porcos.
54 - CASA DOS CASEIROS - ESCADA DE PEDRA - Dava acesso ao primeiro andar.
55 - CASA DOS CASEIROS - ESPIGUEIROS - As paredes eram feitas de ripas de madeira. Depois da colheita do milho, ficavam cheios de espigas a secar.
56 - CASA DOS CASEIROS - SALA - Sala bastante ampla, com lareira para cozinhar e com duas janelas para a rua principal da aldeia. Esta sala, comunicava com dois quartos, cada um uma janela que dava para o pátio grande. Estes aposentos, eram ocupados pelos criados de lavoura.
57 - MIRANTE
58 - GARAGEM - Esta garagem ficava do outro lado da rua principal da Aldeia, em frente da CASA DOS CASEIROS.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O velho forno de pão do Solar dos Montalvões


Não sei se ainda existirá, mas o forno de pão ficava logo à entrada, do lado esquerdo, quando se entrava no pátio grande do Solar. Ao lado do forno existia uma enorme bancada em pedra, que em miúdo julgava ser um banco, mas que hoje sei que servia como mesa de apoio, para quem estava a cozer o pão.

Voltei a lembrar-me da sua existência há uns tempos, quando andei a ver fotografias do Solar, datadas mais ou menos de 1990, em casa do meu pai e fiquei muito supreendido porque reparei num pormenor, que em miúdo nunca me tinha chamado à atenção. Existia uma cruz moldada no topo, o que, segundo me explicou o meu pai era uma característica típica dos fornos ali da zona.

Para nós, que compramos pão no supermercado, este alimento não tem qualquer valor transcendental. É qualquer coisa que se tira do congelador e se põe no micro-ondas. Contudo no passado, na vida desta aldeia e das outras todas em Portugal, os actos mais prosaicos como cozer o pão ou mesmo come-lo estavam revestidos de um lado sagrado. Li agora há bem pouco tempo no livro “Outeiro das lembranças”, uma série de ladainhas que as mulheres diziam, enquanto amassavam faziam o pão. Deus te acrescente, em louvor da Virgem Maria, um pai nosso e uma Avé Maria, era por exemplo uma várias rezas que se faziam e que mostra bem o lado sagrado do acto de fazer pão, principal fonte de alimento e sobrevivência de uma parte da humanidade, desde a descoberta da agricultura, nos tempos do Neolítico. Mesmo à mesa, o pão tinha uma conotação religiosa com a última ceia e a Eucaristia. Nunca se fazia uma refeição sem pão, nem nunca se colocava este de pernas para o ar, pois todos sentiam que ali estava qualquer coisa de sagrado que não se podia desrespeitar.

Fazia pois todo o sentido colocar também uma cruz no topo do forno. Hoje já estranhamos estas cruzes, pois vivemos alheios ao Plano Divino ou talvez Este se tenha desinteressado do nosso mundo.

Tentei procurar informações sobre estes fornos naquele livro em 3 volumes a Arquitectura Tradicional Portuguesa, mas não encontrei qualquer referência, que me ajudasse a saber a sua origem, como eram feitos ou como funcionavam. Encontrei foi a descrição de grandes casas semelhantes ao solar de Outeiro Seco, em que todas as dependências relacionadas com as actividades agrícolas (espigueiro, lagar, alfaias agrícolas, fornos de pão, habitação de caseiros) estavam encerradas num pátio. Os autores justificam essa opção de construtiva com a segurança. De facto, que melhor solução do que fechar gado, milho, lagar, galinhas entre 4 paredes num País que nem sempre foi seguro e numa região onde até há bem pouco tempo os lobos não eram animais em vias de extinção.


A seta aponta o grande pátio dedicado as actividades agrícolas na fachada Sul da casa

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

No Outeiro das lembranças



No final do mês de Setembro este blog irá completar um ano e está na altura de reflectir um bocadinho e fazer um balanço curto.

Agora está muito na moda escrever sobre objectivos, gestão por objectivos e avaliação de resultados e outras larachas. Obviamente que pouparei os poucos seguidores deste blog a um discurso dessa índole, que se tornou uma moda de mau gosto na administração pública e no governo, para esconder a profunda inépcia em que vivemos.

Em todo o caso, este blog fez um ano. Escrevi 115 posts sobre velharias e memórias familiares, tenho 33 seguidores e uma média mensal de cerca de 1550 visitantes. Não é mau para quem se propôs escrever sobre assuntos velhos e antigos, que hoje não interessam a ninguém.

Alguns dos seguidores foram-se tornando numa espécie de amigos virtuais como a Isabel, a Marília, a Maria Gabela e o Fábio. Outros foram deixando aqui e ali comentários estimulantes, que me fizeram perceber que o que escrevia até tinha interesse e valia a pena continuar a transmitir os conhecimentos de antiguidades e história, que fui acumulando ao longo de uma existência de quase cinquenta anos. O Manel é um amigo de velha data e funcionou sempre neste blog como um importante suporte intelectual

Percebi também neste blog que há uma apetência enorme pela faiança antiga portuguesa e que estranhamente há muito poucos sites com conteúdos pertinentes capazes de satisfazerem esse interesse dos coleccionadores amadores. Julgo que uma das razões do relativo sucesso deste blog é ter colocado conteúdos on-line sobre faiança portuguesa.

Através deste blog retomei os contactos com a aldeia de onde a minha família paterna é originária, Outeiro Seco, no vale de Chaves e os resultados desse reencontro com a terra primordial tem sido surpreendentemente positivos.

Recentemente, em Outeiro Seco, o Altino Rio fez publicar uma recolha de memórias locais, intitulada “No Outeiro das lembranças” para as quais tive o prazer de colaborar com 3 textos, que os seguidores do blog já conhecem:

José Maria Ferreira Montalvão: rascunho de memórias por um bisneto que não o conheceu

Velhas histórias do Solar dos Montalvões: as visitas de Madame Carmona

Ainda o Solar dos Montalvões: os amores de um padre e de uma fidalga
A obra foi lançada com pompa e circunstância, no passado dia 20 de Agosto, na Igreja de Nossa Senhora da Azinheira, ao lado do local onde está sepultada a minha avô. Os lucros da venda do livro revertem para uma associação de apoio à terceira idade e se houver interessados na sua compra (Apesar de ter capa dura, um bonito design e imensas fotografias só custa 15 euros!) escrevam para o e-mail outeiro_seco@sapo.pt. Em baixo poderão ver uma fotografia da cerimónia de lançamento, tirada pelo Humberto, Na mesa está o Presidente da Câmara de Chaves, o Altino discursando e eu estou sentado na assistência, de óculos e gravata fininha.

Também relativamente à família Montalvão e a Outeiro Seco houve a colaboração com o Humberto Ferreira, que permitiu localizar nos museus do município de Chaves as imagens que se encontravam na capela de Sta. Rita do Solar dos Montalvões e que a família julgava perdidas. O Humberto descobriu também fotografias espantosas da mesma capela antes da sua destruição, localizou parte do seu altar-mor na Casa de Cultura e ainda o sino numa das capelas da aldeia.
Creio que este reencontro com Outeiro Seco justificou já a existência deste blog.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Fonte em alabastro com pássaros proveniente do solar de Outeiro Seco

Há bem pouco tempo, o meu pai dividiu entre os irmãos algumas coisas, que ainda restavam quer do Solar de Outeiro Seco, quer da casa da minha avô paterna em Chaves. Fiquei com este centro de mesa em alabastro, decorado com folhas de parra e pássaros e que em miúdo sempre me fascinou, quando visitava o solar. Esse fascínio não tinha a ver com razões artísticas, mas simplesmente porque eu queria era mexer e brincar com os passarinhos daquela fonte. Há uns tempos, tinha voltado a pensar nessa fonte, quando a redescobri num filme, que o meu pai fez do interior do Solar de Outeiro Seco, em meados dos 60, quando este ainda estava mobilado. Curiosamente, nesse filme a fonte encontrava-se cima duma mesa bufete, que me pertence actualmente.
Talvez porque estou com um gosto cada vez mais barroco, ou porque desejava devolver ao meu bufete o centro de mesa que o acompanhou durante décadas, ou pura simplesmente porque desejava finalmente poder tocar e acariciar nos passarinhos sem ninguém a repreender-me, escolhi-a e trouxe-a para a minha casa.

Pu-la debaixo do duche, lavei-a com uma esponjinha e detergente, colei as peças que faltavam aos passarinhos e encaixei-os nos respectivos pratos. Limpa, a peça apareceu magnífica, com aquele brilho translúcido tão típico do alabastro.

No entanto fiquei muito triste porque faltavam duas aves. Como sabia que o meu pai, tinha tirado as pombas de alabastro do armazém, guardando-as num armário na sua casa, telefonei-lhe para verificar se não teriam lá ficado duas delas esquecidas. Como o meu pai me deu uma resposta negativa, preparava-me para voltar para o armazém e revirar os caixotes de papeis velhos, cadeiras partidas, esquentadores descaroçados e brinquedos antigos, até encontrar os preciosos passarinhos, quando resolvi consultar o inventário feito pela minha avô dos bens do Solar de Outeiro Seco.

Na página referente à Sala de visitas lá encontrei a referência à mesa de Pau Preto, nome que no Norte dão ao Pau Santo e ao centro de mesa em alabastro e para meu grande alívio, descobri que nos anos 60 já só tinha sete pombas. Portanto, há muitos, mas muitos anos, uma criada abrutalhada ou um menino travesso tinham derrubado o centro de mesa e partido duas das aves.
Relativamente à forma como esta peça entrou na família não tenho qualquer informação. Talvez tenha sido uma prenda valiosa de casamento, comprada no Porto ou em Lisboa ou talvez alguém da família tenha feito o chamado grand tour e tenha trazido esta peça vistosa do estrangeiro. Na verdade, estes ornamentos em alabastro foram executados em Itália entre 1860 e 1910, na província da Toscânia, nas cidades de Castellina, Pisa, Florença e Livorno. Esculpidas à mão, estas peças foram criadas e produzidas por artificies italianos e destinavam-se sobretudo aos turistas, que as compravam como souvenirs típicos da Toscânia e levavam-nas para as suas casas em Londres, Paris ou Nova Iorque, onde eram colocadas em cima das chaminés, mesas de sala de jantar e gabinetes de curiosidades (1). Correspondiam ao gosto muito típico da segunda metade do século XIX, princípios do século XX, em que se queriam interiores opulentos e super ornamentados à moda de um estilo, que em Inglaterra se designou por Victoriano e em França por Napoleão III ou Segundo Império.

A decoração das parras e pombas é inspirada nos sarcofágos dos primeiros tempos do Cristianismo. As pombas, bicando os cachos de uvas, simbolisam os fieis alimentando-se do vinho eucarístico. Os vestigíos arqueológicos abundavam em Itália e certamente serviram de inspiração aos artistas toscanos para a decoração destas peças.

Ainda hoje na região de Pisa, em Volterra, continua-se a explorar minas de Alabastro e Florença permanece o principal centro de comercialização de produtos artísticos feitos neste material.
Encontrei peças muito semelhantes a estas em sites de antiguidades americanos (os melhores do mundo, pois aquela gente coloca tudo on line), os chamados bird baths, bem como no blog duma senhora americana, Delores Arabian, que fez reportagem fotográfica duma feira de antiguidades no Texas e num dos stands fotografou uma mesa cheia de alabastros, saídos certamente da mesma oficina que o meu centro de mesa

(1) Alyce Hand Benham em http://www.pressofatlanticcity.com/life/article_fbc843c6-8106-50f7-bcca-9866a9d445ad.html

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A contemplação da decadência


Hoje, sem grande assunto para escrever sobre seja o que for, resolvi apresentar duas fotografias do solar de Outeiro seco, que mostram o mesmo lado da casa, a primeira é uma fotografia de grupo com toda a família, no tempo em que esta a habitava e a segunda (http://chaves.blogs.sapo.pt/) é tirada nos dias de hoje, com a casa abandonada, esventrada e a escadaria em ruínas, com as cantarias que a compunham pilhadas e desaparecidas.


Por vezes interrogo-me porque escrevo tanto sobre Outeiro Seco, uma casa que conheci numa infância remota ou numas visitas fugazes na adolescência. Sem dúvida terá a ver com o prazer que sempre experimentei em ouvir as histórias do passado, contadas vezes sem conta pelo meu pai. As imagens e as histórias que o passado faz despertar em nós são uma saborosa fuga a realidade, uma forma de romantismo. Aliás não é por acaso que o movimento romântico do século XIX é o grande impulsionador dos estudos históricos por toda a Europa.



Piranesi, Arco de Tito, 1756-57



Por outro lado, por muito que nos doa ver velhas casas fidalgas abandonadas por todo o País, em risco de ruir, não há dúvida que há um certo prazer na contemplação da ruína e da decadência. No Século XVIII o artista italiano Giovanni Battista Piranesi (1720-1178) celebrizou-se por toda a Europa com as suas gravuras de templos romanos derrocados, mausoléus pilhados, esculturas partidas e todo um mundo antigo abandonado e invadido por vegetação. As suas veduttas ou vistas, que eram uma espécie de postais ilustrados da época sobre Roma e a Itália, popularizam-se pela Europa fora, de mal maneira, que se tornou moda nos jardins das grandes casas aristocráticas, construir falsas ruínas e enche-las de hera, para que os seus proprietários pudessem imaginar que contemplavam os vestígios grandiosos duma vila romana ou de uma abadia medieval, saqueada pelos vikings ou cavaleiros muçulmanos. Com o movimento romântico, no século XIX, a ruína tornou-se praticamente um ideal de beleza. Por exemplo, nesse período, em Portugal, optou-se por não reconstruir o Convento do Carmo, em Lisboa, deixando o corpo das naves da igreja a céu aberto e criando, assim, um idílico cenário de ruína, ao gosto do estetas oitocentistas e que ainda hoje encanta os visitantes.


Piranesi, vista do Túmulo na Via Ápia


Talvez o gosto pela ruína seja um sentimento semelhante ao que os poetas experimentam quando se abandonam à tristeza nos seus sonetos.