
Num dia de passeio, vindo do Sul, antes de chegar a Ílhavo, comprei num antiquário à beira da estrada esta travessa cheia de gatos, com um encanto rústico, que me fez abrir os cordões à bolsa e leva-la para a casa, onde continuo a namora-la na parede.
A travessinha é uma imitação ingénua da célebre decoração designada por tipo “País”, fabricada por Miragaia entre 1822 e 1850 (ver foto em baixo). Esta decoração representa uma paisagem com edifícios sendo o central coberto por uma cúpula. O conjunto está envolto em arvoredo. Os pratos e travessas têm sempre uma aba preenchida por uma cercadura de flores. A maioria desta loiça é azul e esta cor tornou-se de tal maneira sinónima da produção de Miragaia, que lhe são atribuídas todas as peças com outro tipo de paisagens estampilhadas a azul. No excelente catálogo a “Fábrica de Louça de Miragaia. – Lisboa: IMC, 2008”, Margarida Rebelo Correia caracteriza e explica muito bem esta decoração, bem como a sua origem.

Prato Miragaia, decoração
País do Museu Nacional de Soares dos Reis, inv. 1118 Cer
Contudo, o Tipo País que celebrizou a produção de Miragaia é por sua vez uma imitação de uma decoração feita com muito sucesso por uma fábrica inglesa, localizada perto Liverpool e que laborou entre 1793/4 e 1841, a
Herculaneum Pottery. Neste período, o Reino Unido inundou o mercado europeu com bonitas faianças representando paisagens e vistas de monumentos, executadas a partir de gravuras, que se tornaram extremamente populares. Explica-se assim o nome dado a esta decoração, o “país”, porque nela eram representadas vistas de diferentes países.

Prato da Herculaneum Pottery, motivo View in fort Madura, ca 1815
As três fotografias destas peças de faiança recordam-me a alegoria da caverna de Platão. Temos o arquétipo, que é o prato inglês, depois uma sombra desse arquétipo, o prato de Miragaia e finalmente uma sombra da sombra, a minha pobre travessinha. Na alegoria de Platão, as sombras são qualquer coisa que perdeu a qualidade do original. Na faiança, temos antes recriações. As cópias reinventam o motivo e transformam-no em qualquer coisa de novo.

Pormenor de terrina da Herculaneum Pottery, que pertence ao meu amigo Manel (Grrr!! que inveja!!!)
Aspecto geral da terrina da Herculaneum Pottery, do meu amigo Manel
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A google books disponibiliza parte dum catálogo sobre a fábrica The Herculaneum pottery: Liverpool's forgotten glory/Por Peter Hyland. – Liverpoop University Press, 2005, http://books.google.pt/books?id=LUqlbFnUaeYC&printsec=frontcover#v=onepage&q=&f=false