Mostrar mensagens com a etiqueta porcelana: Vista Alegre. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta porcelana: Vista Alegre. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Uma leiteira Vista Alegre do 3º quartel do Séc. XIX


Herdei esta encantadora leiteira da Vista Alegre minha avó Mimi. Ao fazer as partilhas com os meus irmãos, preferi ficar com uma série de peças da Vista Alegre, com estas decorações florais, muito singelas, todas mais ou menos da segunda metade do Século XIX. Ainda que muitas já estivessem com falhas, rachadas, ou sem as pegas das tampas, como esta leiteira, achei-as sempre tão bonitas, que quis ficar com elas e desde essa altura, fui comprando mais coisas da Vista Alegre, todas desta época, que na minha opinião, é a altura mais feliz de toda a produção da fábrica de Ílhavo.

Esta leiteira apresenta 8 cm de diâmetro na base e cerca de 10, 5 cm de altura está marcada V.A. a azul mufla. Segundo o catálogo Exposição Vista Alegre: porcelana portuguesa: testemunho da história. Lisboa: estar Editora, 1998, esta marca foi usada entre 1852-1869. Portanto, tem quase 150 anos e sobreviveu a muitas criadas desastradas, crianças irrequietas, senhoras com tremeliques nas mãos e a muitas mudanças de casa, pelo menos quatro ou cinco delas já no meu tempo. Saiu do Solar de Outeiro Seco, foi para casa da minha avó em Chaves, daqui para a minha casa de Benfica, depois do meu divórcio para casa dos meus pais e finalmente aqui para a Pena, onde espero que não haja nenhum terramoto a sacudir a minha casa, até eu ter tempo de me reformar e ir viver para a província.
Leiteira VA. Imagem cedida por Bernardo Travessas
Sempre me interroguei como seria esta peça se estivesse completa, até ao momento em que o Bernardo Travessas, um seguidor deste blog, me enviou muito simpaticamente a imagem de uma leiteira com um formato igualzinho e sobretudo com a pega da tampa intacta. Embora a decoração seja diferente, mas igualmente elegante, podemos visualizar através desta peça do Bernardo Travessas, qual era o aspecto original da leiteira que herdei da minha avó Mimi.

Serviço de chá e café do Museu dos Biscainhos
Depois deste acontecimento, houve mais uma coincidência feliz, outra seguidora deste blog, a Alexandra Rodão, descobriu no http://www.matriznet.dgpc.pt/ as restantes peças que compunham o serviço desta leiteira. Pertencem ao Museu dos Biscainhos e tem o nº de inventário 859 MB.

 
 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Açucareiro da Vista Alegre do último quartel do Século XIX.




Não há nada como ver belas antiguidades para esquecer o governo, o FMI e a Troika e outra gente, que não convidamos de todo para nossa casa, mas que insistem em aparecer inoportunamente, à hora do jantar, através da Televisão, aquele electrodoméstico, que faz barulho lá ao fundo da sala.

Açucareiro da Vista Alegre do último quartel do Século XIX.


Por isso conversei com o meu amigo Manel, que concordou em deixar-me fotografar um açucareiro seu, em porcelana da Vista Alegre e mostra-lo aqui para levantar os espíritos, com a simples visão de bom exemplar de um dos períodos mais felizes da produção da Vista Alegre, a segunda metade do Século XIX. Segundo o Dicionário de marcas de Faiança e porcelana portuguesas de Filomena Simas e Sónia Isidro e o catálogo da exposição Vista Alegre: porcelana portuguesa: testemunho da história. Lisboa: Estar Editora, 1998 a marquinha apresentada será talvez do último quartel do Século XIX




É um açucareiro decorado com muita sobriedade e sem qualquer afectação, com um formato, que a vista Alegre usou bastante no Século XIX. Embora com uma decoração floral, tenho um bule com esta forma. Mas, foi vítima dos tremeliques de alguma tia velha ou de uma criada trapalhona e perdeu a pega da tampa. Se um dia me decidir restaura-lo, já sei que modelo de pega devo mandar reproduzir.


O a forma do meu bule é da mesma família que o açucareiro do Manel


Espero que o açucareiro, os damascos e os bons tecidos que lhe sevem de fundo, tenham introduzido uma nota de bom gosto nestes dias de chumbo, que se abateram sobre nós
O açucareiro cuja imagem o Manuel concordou partilhar

domingo, 22 de julho de 2012

Bacia da Vista Alegre do Século XIX


Eu sei que não estão na moda este tipo de peças vitorianas, com florinhas delicadas. Actualmente as pessoas preferem ir ao IKEA comprar tudo novo, detestam os móveis de estilo, que associam talvez a uma vida reprimida, que os avós ou os pais se sujeitaram. Julgo que em todas as gerações há a ilusão de que é possível ser-se inovador, rodeando-se apenas de coisas novas. Pessoalmente, acredito mais que as novas ideias são mais fruto da cultura, da reflexão do que dos mobiliário novinho em folha saído do IKEA ou duma dessas casas de Design do Bairro de Santos.


Mas hoje estou moralista, coisa que detesto. Prefiro falar mais uma vez no gosto e na simplicidade da porcelana que a Vista Alegre produziu no Século XIX. Esta grande bacia que o Manel comprou na Feira de Estremoz por um bom preço é um bom exemplo deste gosto delicado da Vista Alegre.



Apresenta a decoração que os coleccionadores designam familiarmente pelas Silvinhas e a marca, embora desvanecida, parece-me a que foi usada entre 1852-1869. Esta  bacia formaria conjunto com um jarro e destinava-se a ser colocada num lavatório, como o que é apresentado na apresentado na fotografia, ou então num móvel com um tampo em mármore. Servia para as pessoas lavarem a cara e as mãos logo pela manhã e fazia parte dos objectos obrigatórios de um quarto no século XIX ou ainda do início do século XX, numa época em que não havia casas-de-banho ou água canalizada.


domingo, 5 de fevereiro de 2012

O chá da Mimi: o discreto bom gosto da Vista Alegre


Há peças que nos marcaram desde a infância e este serviço da Vista Alegre, decorado em tons de beije e ouro velho, que se encontrava na casa da minha avó Mimi, tornou-se para mim uma espécie de arquétipo do que é o bom gosto e a discrição. Os meus pais têm um serviço de chá semelhante, mas mais recente e durante alguns anos fui oferecendo à minha sobrinha Maria peças de um conjunto de jantar com uma decoração parecida. Depois da casa da minha avó ser desmanchada fiquei com o serviço de chá e não me canso de admirar a sua distinção sóbria. Aliás é curioso, que o Manel também se deixou encantar por ele e comprou numa casa de velharias um serviço de café igual a este só que em tons de azul celeste.



A marca das peças é aquela que a Vista Alegre usou entre 1922-1947 e posso talvez presumir que a minha avó Mimi o tenha comprado logo a seguir ao seu casamento nos anos 20.


Aliás comprou o conjunto todo, jantar, café e chá, mas os meus irmãos e eu repartimo-lo e agora cada um de nós tem a sua parte, o que pena tê-lo desmembrado, mas a vida é mesmo assim. Gosto tanto dele, que até já comprei duas peças do Serviço de Jantar na feira da Ladra, um prato coberto e uma travessa, mas não é fácil encontra-lo.



Resolvi partilha-lho hoje convosco, apesar de não ter nenhum bolo para acompanhar, como nos concorridos chás das terças-feiras, dados pela nossa Maria Andrade.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A Vista Alegre e o Vieux Paris

A última aquisição que quase me fez esquecer o roubo dos subsídios de férias e Natal

A semana passada comprei mais uma peça do serviço daquela cafeteira, com florinhas, que mostrei aqui recentemente. É uma chávena de chá e portanto a cafeteira será afinal uma leiteira. Foi muito barata, pois está partida e colada, mas fiquei muito feliz na mesma e até me esqueci por uns momentos dos subsídios de Natal e Férias, que me roubaram.



Depois ao longo desta semana andei a vaguear pelos sites franceses, a entrar nas páginas dos antiquários, dos brocanteurs (casas de velharias) e nas enchéres (os leilões). Estive a fazer umas pesquisas sobre Porcelana de Paris, pois suspeito que uma outra cafeteira que comprei há uns tempos será uma peça Vieux Paris e queria confirmar com provas essa suspeitas.

No meio dessas navegações todas, consegui confirmar outra suspeita que também já há muito que alimentava. A Vista Alegre na sua fase inicial seguiu muito de perto os modelos da porcelana de Paris. Uns amigos franceses, que se interessam também por velharias e loiças já me tinham alertado para a semelhança entre os formatos e as decorações florais da Vista Alegre e as produções do chamado Vieux Paris
O serviço de chá Vieux Paris

E de facto num site de antiguidades o http://www.proantic.com   descobri um serviço de chá decorado com umas florinhas muito idênticas às minhas peças da Vista Alegre. Há apenas aqui e ali umas diferenças, como as asas das chávenas, pois as francesas fazem um caracol mais acentuado no topo. Mas num primeiro olhar, é quase difícil dizer o que português e o que é francês.



A chávena Vieux Paris

A chávena VA

Para quem não saiba, a chamada Porcelana de Paris ou Vieux Paris, não corresponde a única marca específica. É uma designação genérica que cobre a produção de uma série de fabricantes e decoradores de porcelana estabelecidos em Paris, entre os finais do XVIII e a primeira metade do século XIX. Essas casas tanto podiam fabricar a porcelana como comprar peças em branco, normalmente em Limoges e pinta-las depois.

A Vista Alegre inspirou-se muito directamente nos motivos florais e nas formas do Vieux Paris, o que não era nada de espantar, pois a cidade da luz era o centro europeu de todas as modas, que eram copiadas sem complexos de Lisboa a St. Petersburgo.
o número da chávena

Também a Vista Alegre parece ter herdado uma das características da produção do Vieux Paris, o sistema de numeração, que cada artificie tinha para marcar as suas peças. Afirmo isto baseado na observação que fiz das 3 peças que tenho, deste serviço, a chávena, o pires e a cafeteira. A chávena apresenta no reverso o número 7, o pires o nº 8 e a cafeteira o 18. Estes números não se podem reportar à decoração, pois ela é sempre a mesma. Ao molde e ao tempo de cozedura também não, porque andei a espiolhar o verso das chávenas, que deixei na loja e os números eram todos diferentes. Portanto só resta a possibilidade de estes números serem uma espécie de assinatura, que os artificies deixavam nas suas obras, como forma de controlarem o número de peças produzidas e de os seus superiores puderem identificar pelo número, quais eram os trabalhadores virtuosos e quais eram os mais trapalhões.



o número da cafeteira

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Delicada e sem afectação: a pintura da Vista Alegre



Volto hoje a apresentar mais uma peça Vista Alegre com os motivos das florinhas, fabricado muito provavelmente durante o 4º período, 1870-1880, ou talvez ainda numa época mais antiga. Não está marcada com o tradicional VA. Apresenta apenas o número 18, pintado a doirado. Este suposto número com um ponto final levanta-me algumas dúvidas. Estes caracteres não serão as siglas VA esborratadas ou com o dourado esmorecido?

Número 18?

Mas é mais provável que seja o número da decoração ou uma marca do artista.


Mas apesar de não estar marcada com o típico VA, é óbvio que é Vista Alegre. Basta compara-la com outra cafeteira, que também tenho com a mesma forma e uma decoração semelhante, embora não tão requintada, mas que se apresenta marcada.

As duas cafeteiras: um bom exemplo da delicadeza, sem debilidade, nem afectação

Este motivo das florinhas desperta-me uma paixão tão grande há tanto tempo que procurei saber mais sobre ele e fui consultar a obra Vista Alegre: porcelanas. – Lisboa: INAPA, 1989. Encontrei um texto muito bem escrito, por uma senhora, Maria de Azevedo Coutinho, intitulado A pintura: imagem da Vista Alegre, que me ajudou a perceber melhor este estilo floral delicado.


Como toda a gente sabe as manufacturas de porcelana europeia surgiram no século XVIII, inteiramente dependentes do patrocínio de casas reais e produziam peças luxuosas, pintadas com o maior requinte por artistas conceituados da época. Os exemplos mais paradigmáticos são Meissen, dependente do Duque do Saxe e Sêvres da Casa Real francesa.


Depois da Revolução francesa e das guerras que se lhe seguiram, o patrocínio real acabou, as encomendas sumptuosas também diminuíram e apareceram fábricas privadas que produziram peças mais baratas e em maior número para satisfazer a procura da burguesia abastada. A nossa Vista Alegre surge precisamente neste período e neste contexto, muito embora em Portugal, nunca tivesse existido no século XVIII uma fábrica de porcelana real, pois como através da nossa rede comercial marítima tínhamos um acesso privilegiado à porcelana da China, a melhor do mundo, nunca sentimos necessidade de a fabricar.


As novas fábricas europeias de porcelana do século XIX com orçamentos mais reduzidos tentaram reproduzir os faustos do século anterior, mas sobretudo através das formas e a grande pintura ficou confinada a pequenas reservas.


Em Portugal, no século XIX, a Vista Alegre não dispõe de tecnologia para moldes arrevesados, nem de dinheiro para contratar grandes pintores. O gosto dos proprietários da fábrica e do público português são também limitados. Por isso a sua produção é caracterizada por formas mais simples e por uma pintura que revela igualmente grande simplicidade.



Esta simplicidade e lirismo tem também a ver com o ambiente familiar e quase campestre da escola de pintura que se foi desenvolvendo na Fábrica. Longe do Porto, Coimbra ou de Lisboa, a serenidade que se vivia em Ílhavo influenciou a estética das suas obras. Criou-se ali uma escola e uma tradição de pintura, que não era muito eficaz nas cenas mitológicas ou temas rocaille à moda de Fragonard, mas ganhou uma grande mestria nos motivos florais. Esta escola, afastada dos centros urbanos é algo conservadora. Mantem-se sempre nas mãos da mesma família, os Pinto Bastos, que se orgulham da qualidade da pintura na Fábrica e acarinham sempre esta arte

Não gosto de concluir nada, porque a vida nunca é linear e nem os desenlaces são perfeitos, mas posso adiantar que uma certa limitação de meios jogou a favor da Vista Alegre, que produziu na época desta cafeteira peças de uma notável delicadeza, mas sem afectação.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Bule da Vista Alegre: 1870-1880


Não tenho espaço em casa. Todos os centímetros estão tomados com móveis, registos, gravuras, cruzes, faianças e imagens, mas como diria um coleccionador francês, uma boa peça encontra sempre o seu lugar na nossa casa e talvez levado por essa máxima, ou talvez porque sou tolo, comprei por um preço bastante em conta este bule da Vista Alegre, datado entre 1870-1880, década que se costuma designar pelo 4º período de produção. Nestes anos, na Fábrica da Vista Alegre, encontrava-se o artista Joaquim José de Oliveira, aluno de Fortier e Rousseau, que manteve o esplêndido nível de pintura dos seus mestres.

A marca datada entre 1870-1880

Além da decoração floral muito delicada, o que chama mais atenção neste bule, são as grandes dimensões. É uma peça para servir chá a muita gente!!


O formato é já bem nosso conhecido. A Fábrica de Ílhavo usou formato de bule polilobado durante décadas a fio, com decorações variadas ou simplesmente todo branco.
O Açucareiro que eu pensava pertencer ao mesmo serviço

Quando comprei este bule, julgava que era do mesmo serviço de um açucareiro, mais ou menos também deste período, que já mostrei aqui. Mas não. A Vista Alegre fez imensas variantes deste motivo floral. A olho nu, já contei umas seis variantes deste motivo das florzinhas.
Detalhe do bule com  as características florinhas.
Já aqui o escrevi e não me canso de o repetir. Mas este tipo de decoração é a meu ver, das mais felizes da fábrica. Nela, os pintores respeitam a brancura da porcelana, a pincelada é suave e as flores extremamente delicadas.

Para escrever este post usei as informações contidas no catálogo Exposição Vista Alegre: porcelana portuguesa: testemunho de história. Lisboa: Estar Editora, 1998

Outra vista do bule

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Chávena de chá provavelmente da Vista Alegre ou a segunda-feira da chávena sem José Sócrates

Desculpem-me a alusão política, mas não resisti a expressar a minha alegria e para comemorar decidi fazer uma segunda-feira da chávena, um dia especial, dedicado a coisas bonitas, antigas e sensatas, em oposição ao pensamento estratégico, à gestão por objectivos e a as outras larachas, que caracterizaram a derrocada do País durante o consulado socratista.


Se repararem bem o pires não é idêntico à Chávena

Mas deixemos o consulado de má memória do outro e passemos ao assunto da Vista Alegre.

Tudo isto começou com um conjunto da Vista Alegre, que a Maria Andrade apresentou e que apesar de não estarem marcadas, a nossa amiga acreditava serem da fábrica de Ílhavo. Na altura dei-lhe razão e referi-lhe um conjunto muito próximo que tinha visto no Museu Nacional de Arte Antiga.


Depois, a semana, passada andei por Estremoz e apesar da crise fiz estragos e parecia atacado de uma febre qualquer de compras. Além do Cristo e mais uma coisa aqui e acolá, comprei esta chávena que acredito ser da também da Vista Alegre, embora não apresente a marca característica VA. O pires não é do conjunto da chávena, mas por cinco euros não podia pedir mais. A peça apresenta três marcas incisas no verso, cujo significado me escapa.
a marca do pires

A cercadura floral que decora a chávena é interrompida, por um monograma composto por três letras góticas, formando as iniciais LAH. Julgo que se referem ao nome do encomendador, que eu imagino ter sido um hotel, ou um rico burguês e que quis o serviço de chá com um monograma pessoal.


O monograma com as letras góticas LAH

O formato da asa é aquilo que a Maria Andrade designa por London Shape e provavelmente foi uma moda bastante difundida por todos os fabricantes europeus de porcelana


A Chávena apresentada em Fevereiro de 2010

Esta chávena assemelha-se muito a um exemplar que apresentei no blog em 22 de Fevereiro de 2010, também sem qualquer marca e a um ao um conjunto de chá que o Museu Nacional de Arte Antiga expõe na vitrina dedicada à Vista Alegre.
O serviço do Museu Nacional de Arte antiga

O Museu datou as peças entre 1852-69 e atribui-as inequivocamente à Vista Alegre, o que me permite a mim, acreditar que a chávena agora apresentada e a que mostrei anteriormente são também seguramente da Vista Alegre e serão talvez datadas do terceiro quartel do século XIX. A cronologia é que me oferece mais reservas, pois a Vista Alegre usou, como já sabemos todos, as mesmas decorações e os mesmos formatos durante décadas consecutivas.


O exemplar do Museu Nacional de Arte Antiga

quarta-feira, 23 de março de 2011

Pequeno bule oferecido por uma amiga que não tem netas

Talvez por não ter netas, ou mais certamente porque tem uma natureza generosa, a irmã do Manel deu à minha filha um conjunto de pequenas loiças, restos de antigos serviços de bonecas. Entre as várias peças, estava este pequeno bule, com uma marca usada pela Vista Alegre entre 1881 e 1921, que me pareceu absolutamente delicioso pelas suas dimensões reduzidas.


Na verdade, é uma versão que penso ser destinada às crianças, de um modelo que a Vista Alegre produziu durante dezenas de anos a fio, todos brancos como este, ou pintados com variadíssimas decorações. É mais uma peça que mostra o conservadorismo da produção da Vista Alegre.


No VII Leilão da Vista Alegre. Lisboa: Estar Editora, 1998 encontrei um bule idêntico a este, mas ainda com a tampa original e que à época se vendia por 10 a 15 contos!!! Enfim, estávamos em pleno período das vacas gordas, cheios de orgulho da Expo 98 e as antiguidades tinham preços inflacionados. Hoje, por cinco euros bem regateados, vendiam a peça. Mas, não é o preço que nos motiva a conservar estas peças, é a graça e o interesse artístico.


Quanto à minha filha, Carminho, retirei-lhe esta peça da caixinha onde guardou as outras louças. Mas quando crescer o bule ficará para ela.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Algumas memória da sala de jantar do Solar de Outeiro Seco a partir dos restos de um serviço de chá

No meio desta crise com que os cidadãos portugueses são injustamente castigados, talvez pareça fútil escrever sobre velharias ou evocar acontecimentos ocorridos há muito. Contudo evocar o passado ou escrever sobre património é defender valores, que os nossos dirigentes desprezam. Escrever sobre o passado ou velharias é a minha modesta forma de resistir à gestão por objectivos, à interoperacionalidade, ao estilo IKEA, ao pensamento estratégico e outras tolices que não tenho espaço nem tempo para enumerar


Por essas razões apresento os restos de um bonito serviço de chá com florinhas românticas e decorações pintadas a ouro, do século XIX, provavelmente datado entre 1852-1869, a julgar pela marca pintada a azul de mufla.


É da Vista Alegre naturalmente e pertence a um período particularmente feliz desta fábrica, caracterizado por decorações com grinaldas deliciosas e um uso contido dos dourados.



É uma herança da minha família paterna, proveniente do solar de Outeiro Seco, onde estaria certamente no móvel renascença da sala de Jantar.

Há um inventário feito pela minha avó Mimi dos bens contidos nos armários dessa sala. Mas, é uma simples enumeração, destinada a fazer as partilhas com os seus irmãos, depois da morte do seu pai. Pouca ou nenhuma informação dá sobre as peças e nem eu consigo identificar entre os 4 serviços de chá arrolados, todos eles com florinhas, qual deles será este, cujas imagens apresento. Percebe-se que já nenhum dos serviços estava completo e às minhas mãos chegaram alguns restos de dois serviços, entre os quais este.

Em suma, o extenso inventário é pouco informativo. Percebemos que houve muitos serviços de chá, café, jantar e de copos, que se foram partindo ao longo de 100 ou 150 anos. Paralelamente, iam-se também comprando novos, mas ficavam as peças dos anteriores e o recheio à época do inventário da minha avó era uma coisa heterogénea de várias épocas e feitios.


As duas janelas da sala de jantar são a segunda e a terceira a contar da esquerda
 Do inventário da minha avó ficamos a saber que existia na sala de jantar um enorme móvel estilo renascença, que era tão grande, que após as partilhas, umas das primas do meu pai tentou leva-lo para sua casa e não consegui de modo nenhum retira-lo de lá. Havia também um aparador, uma cristaleira, uma grande mesa de sala de jantar, onde comiam pelo menos 16 pessoas, muitas cadeiras e ainda mesas de apoio, numa das quais comiam os mais jovens. A mesa era abundante ao tempo dos meus bisavós. Serviam-se sempre dois pratos.

Entre as duas janelas da sala, existia um fogão de sala, mas pouco ou nada foi usado. Na realidade, o solar era sobretudo usado como casa de Verão. O Inverno era passado numa casa que a família Montalvão possuía em Chaves, na Madalena, mesmo junto à ponte romana.

Um dos pormenores curiosos que o meu pai se recorda desta sala, era uma espécie de roda, que serviria talvez para passar comida para o quarto existente ao lado, mas na época do meu pai já estava desactivada. Confesso que já me recordei se ela não serviria para passar os alimentos ao meu tio trisavô, o Miguel Montalvão, que enlouqueceu e vivia isolado no seu quarto, cheio de livros, com uma enorme barba e que se escondia debaixo da cama quando entrava alguma criada. Talvez essa roda servisse para alimentar o pobre louco sem o perturbar, mas não tenho provas. Também é verdade que a sala de jantar é uma divisão recente na história das casas portuguesas. Começou a aparecer no século XVIII e difundiu-se pelas casas mais ricas ao longo do século XIX e por consequência é também possível que a roda seja anterior à existência da sala de jantar. Portanto a função dessa roda permanece um mistério.


A sala de jantar é o número 26 e o quarto servido por uma roda era o número 24

Não há imagens da sala de jantar. Não há uma única fotografia dela, pois antigamente nunca se tiravam instantâneos no interior das casas. Nos anos 60, o meu pai filmou os salões nobres da casa, o museu, a biblioteca e a sala de visitas, mas não se lembrou da sala de jantar. Eu lembro-me vagamente dela, de estar talvez sentado na mesa dos miúdos, mas não me consigo recordar de nenhum pormenor do mobiliário, só talvez de uma sensação geral, que nem consigo descrever. Aliás, penso por vezes que confundo as minhas lembranças com as histórias que ouvi em pequeno do meu pai, acerca daquela sala.

Hoje o chão e o tecto do que foi a sala de jantar do Solar dos Montalvões ruíram e não há qualquer vestígio do gigantesco móvel renascença que por lá existiu. A memória que ficou dela é pouco mais do que estas palavras que aqui escrevi.
O que resta da Sala de Jantar...