Mostrar mensagens com a etiqueta azulejos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta azulejos. Mostrar todas as mensagens

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Azulejos oitocentistas numa casa particular do Porto

 
Recebi uma série de imagens de azulejos de uma casa particular do Porto, enviados por uma seguidora deste blog. Esta senhora e o namorado, apaixonaram-se por uma casa antiga, compraram-na e ao contrário do que fazem a maioria das pessoas, mantiveram os velhos azulejos e salvaguardaram a alma da casa. E ainda para mais é a alma de uma casa do Porto, com azulejos típicos daquela cidade, que não se encontram em Lisboa, nem no Sul. São azulejos com o charme da pronúncia do Norte.



Estes azulejos são tão bonitos como intrigantes e receio não conseguir classificar ou atribuir-lhes um fabricante com segurança.


A cercadura.

A cercadura é já nossa conhecida, é muito comum nos prédios do Porto e costuma acompanhar azulejos atribuídos à Fábrica de Miragaia datados da primeira metade do século XIX (1822-1850). No entanto mais fábricas do Porto e Gaia fabricaram este motivo decorativo ao longo do século XIX.

Painel atribuído a Miragaia

Começando a laborar a partir de 1860, a Fábrica das Devesas, que  nas últimas décadas do séc. XIX foi o mais importante centro industrial português de revestimentos cerâmicos e elementos de ornamentação de fachadas, produziu também este padrão, conforme assinalou o nosso amigo Fábio Carvalho.  As Devesas exportavam para o Brasil, Espanha e colónias portuguesas.

Azulejos das Devesas de finais do XIX.
Portanto, os azulejos da cercadura poderão ter sido também executados nos últimos trinta ou quarenta anos do século XIX.

A Fábrica de Massarelos que laborou todo o século XIX e ainda pelo início do século XX também fabricou este padrão das roseiras, conforme me indicou o Flávio Teixeira.

A marca de Massarelos
O mesmo Flávio enviou-me ainda um outro azulejo do mesmo padrão marcado Fabrica de Gaia, que não sei a que unidade fabril se reporta, pois houve tantas em Gaia, mas suspeito que seja às Devesas.

 
A Maria Andrade encontrou também azulejos deste tipo, mas da Fábrica do Carvalhinho (1840-1980), marcados com as inicias FC.

Em suma, os azulejos da cercadura foram presumivelmente fabricados no Século XIX, no Porto ou em Gaia e poderão ter saídos dos fornos das seguintes fábrica: Miragaia, Devesas, Massarelos ou Carvalhinho. No entanto, fica aqui uma dúvida. As informações que disponho dizem respeito, quer a cercadura, quer ao padrão de enchimento. Não sei se por exemplo, Massarelos, as Devesas, Miragaia ou o Carvalhinho fabricaram os dois ou se uma fabricou só as cercaduras e outras o enchimento. É provável que tenham feito sempre os dois, mas a história está cheia de hipóteses, que pareciam prováveis e passados uns anos e tornaram-se perfeitos disparates.

Azulejo holandês com o motivo da roseira trepadeira, descoberto pelo Fábio Carvalho. Sgundo o catálogo do Museu Nacional do Azulejo da Holanda, foi fabricado entre 1875/1900

Ainda a título de curiosidade, a cercadura com a Roseira trepadora foi igualmente fabricada nos Países Baixos, conforme descobriu o Fábio Carvalho e pode ser que os nossos sejam então inspirados nos holandeses .

Os azulejos medem 13,5 x 13,5 cm
Quanto aos azulejos com a cesta e flores, nunca os vi nas fachadas dos prédios de Lisboa e presumo que sejam um fabrico oitocentista do Norte, do Porto ou Gaia. Não encontrei nada escrito sobre eles, mas consegui perceber que tomaram como inspiração a faiança do século XVIII da cidade francesa de Ruão, como se pode ver nesta imagem que encontrei no site de um antiquário francês. Por sua vez, Ruão inspirou-se num motivo comum da porcelana chinesa, o cesto de flores, o emblema de Lan Ts'aibo, dos "Oito Imortais", símbolo de longevidade (obrigado pela achega, Manel!).
Prato de faiança de Ruão, séc. XVIII. http://www.cperles.com
 
Por último, a nossa amiga do Porto, tentou informar-se junto da Câmara Municipal sobre estes azulejos e disseram-lhe que não era comum estes estarem colocados dentro de casa. Normalmente revestiam as fachadas dos prédios e portanto, algum anterior proprietário retirou-os do local de origem e colocou-os no corredor.


Pessoalmente, não me parece que os azulejos tenham sido deslocados. Se assim fosse estariam colocados às três pancadas e eles estão muito bem dispostos, adequadamente rodeados pelo lambril da roseira. É verdade que no século XIX, ao contrário do que se passou nas centúrias anteriores, os azulejos revestiram sobretudo as fachadas. Mas não só. Também os átrios das escadas, os halls e os próprios corredores, espaços de transição entre o público e o privado merecem decoração azulejar. A minha irmã viveu numa casa do início do século XX, cujo corredor estava revestido com azulejos em relevo e precisamente de uma Fábrica do Norte.


Não consegui descobrir mais nada sobre os azulejos desta casa do Porto. Talvez se um dia um dos azulejos cair a nossa amiga consiga descobrir a marca do fabricante. Até lá desejo-lhe a ela e ao seu namorado, que gozem do ambiente oitocentista da sua casa e encham-na com móveis vitorianos, quadros e muitas faianças do Norte.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Colocação de mais azulejos em casa do Manel


Estas férias o Manel e eu decidimos lançarmo-nos na empreitada de colocar mais um painel de azulejos na sua casa. A ideia era fazer um cenário para o canapé estilo D. Maria, que recebi de herança do solar de Outeiro Seco.


O Manuel começou por montar o painel no chão, que já tinha sido previamente numerado, pois este motivo com os enrolamentos nem sempre é simples de se acertar, além de que alguns do azulejos não são exactamente do mesmo padrão.

Alguns dos azulejos não são exactamente do mesmo padrão
Depois houve a preocupação de acertar os azulejos marmoreados com a cercadura dos enrolados, o que também não foi simples, pois os marmoreados estavam alguns deles partidos e outros tinham sido cortados no passado, para caberem em algum canto.

Muitos dos azulejos marmoreados não apresentam as mesmas dimensões. Uns partiram-se e outros foram em tempos cortados para serem afeiçoados a algum canto
Aliás, cada um destes azulejos tem uma história própria, que o Manel e eu conseguimos contar para cada um deles. Alguns azulejos da cercadura foram achados na minha rua, nos mesmos sacos em que encontrei o Dragão. Uns poucos dos marmoreados encontrei-os em contentores das obras ao longo da rua dos Remédios, em Alfama, e também aqui na Baixa, e todos os outros foram comprados pacientemente pelo Manel, ao longo de mais de dois anos.

O roço já aberto. Antes de colocação, molha-se a parede e os azulejos 

Mas voltando à colocação, de seguida o Manel desenhou na parede a superfície onde o painel iria encaixar. Estendemos um grande saco preto no chão e então veio a melhor parte para mim, com o martelo e o escopro começamos a partir o reboco e pude dar largas ao meu instinto destruidor de skin head, abafado por anos de silêncio, passados em bibliotecas e arquivos.


Feito o roço e limpos os escombros, começou a colocação. O Manel fez a massa e como é mais habilidoso tratou da colocação os azulejos. Eu fazia de trolha, assistente dele, molhando os azulejos antes de lhos dar. Depois dos trabalhos concluídos, já a noite tinha caído, houve que lavar os instrumentos todos lá fora com um frio de rachar.

Os azulejos após a lavagem com água
Deixamos secar tudo e no dia seguinte, lavei os azulejos para retirar os restos de massa e o brilho de toda a tradição da azulejaria portuguesa apareceu de imediato. Quando colocámos o canapé, este ganhou um cenário perfeitamente palaciano, o que só evidencia a capacidade, que um material muito barato, pintado de uma forma rápida e apressada tem de transformar um espaço.

A cercadura será talvez da primeira metade do séc. XVIII
 
No canto esquerdo do painel alguns azulejos são diferentes, provavelmente ainda do séc. XVII

sábado, 20 de outubro de 2012

Azulejos: um toque de ambiente do séc. XVIII



O meu amigo Manel partilha comigo o mesmo gosto pela boa azulejaria portuguesa e foi comprando aos poucos, aqui e ali, restos de paneis, muitos azulejos de padrão e frisos. Um ou outro azulejo marmoreado dei-lhos eu próprio, fruto das minhas pesquisas nos contentores de entulho das obras, no centro de Lisboa. Como sabem, a maioria das pessoas quando remodelam os apartamentos ou prédios antigos, pedem aos mestres de obra para deitar fora os azulejos antigos. Julgo que pensarão que se mantiverem a azulejaria pombalina, os potenciais compradores ou locatários acharão que os prédios não estão suficientemente renovados e por conseguinte desistirão de comprar ou alugar aquela casa. Para muita gente o que é antigo cheira a mofo, ou melhor, a morte.


Mas não queria maçar ninguém com considerações morais, queria era mostrar-vos, o novo painel de azulejos que o Manel e eu colocámos na sua casa do Alentejo.

 


O Manel escolheu um painel de 8 azulejos, combinados com um friso marmoreado, disposto junto ao chão como era hábito do século XVIII. Decidimos colocar o painel ao nível do rodapé, como também era costume no passado e conferir mais veracidade ao cenário pretendido.


Com um escopro e um martelo, encarreguei-me de quebrar o estuque, dando largas à minha faceta de Rambo destruidor e pus os tijolos à vista. O chão foi protegido com um grande plástico preto.  

 

Depois veio o Manel, que fez a massa, molhou a parede e os azulejos e fixou-os à parede. Deixámos secar e no dia seguinte limpámos e o resultado foi fantástico. Uma dúzia de apenas de azulejos foram o suficiente para dar um toque de ambiente do século XVIII à sala.


sábado, 1 de setembro de 2012

Azulejos: o mastim que afinal é um dragão



Já há quase dois anos achei uma série de azulejos, nos restos do entulho de uma obra, ali na calçada do Garcia, em Lisboa. Entre as coisas que encontrei, estava um azulejo magnífico, certamente o resto de um painel maior e que eu interpretei como se fosse a cabeça de um cão.



Esse azulejo que encastoei na parede, afinal não é um feroz mastim, como eu sempre pensei, mas sim, um ferocíssimo dragão e quem o descobriu foi um dos seguidores deste blog, o Pedro Freitas.



Com efeito, o Pedro descobriu num antiquário em Lisboa, o d’Orey & Cardoso, que esta cabeça era o corpo de um dragão e fazia parte de uma albarrada, que o referido antiquário tem completa. No centro dessa albarrada existiria um vaso com flores, que estava ladeado por dois dragões, cujas caudas se enroscavam no rabo de duas figuras femininas fantásticas, talvez esfinges ou quimeras, enfim seres híbridos parte mulheres, partes aves e outra parte sabe-se-lá-de-quê.
O meu dragão faria parte de uma Albarrada como esta do antiquário d’Orey & Cardoso. Uma albarrada é um painel de azulejos constituído pela representação de um vaso de flores, normalmente com uma figura de cada lado, dispostas simetricamente, representando pássaros, meninos, ou golfinhos ou figuras fantásticas.

Agradeço muito esta informação ao Pedro Freitas e fiquei a pensar que nisto das antiguidades não podemos ter certezas, mas se é inseguro vivermos na dúvida, ao mesmo tempo é fascinante a constante descoberta de coisas novas e eu fiquei muito contente de ter um afinal dragão a guardar a minha casa.


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Azulejos "bicha da praça": o final de uma história


Num post escrito há mais de um ano contei como conheci um homem na Baixa, que tal como eu se encontrava a esgravatar um contentor das obras. Enquanto eu mexia no lixo pela excentricidade de procurar azulejos antigos, o senhor fazia-o por necessidade, pois sofria de uma hérnia, estava desempregado da construção civil e sobrevivia da venda de ferragachos que ali apanhava. Metemos conversa, acompanhei-o até casa e vendeu-me uma quantidade enorme de azulejos do chamado motivo Bicha da Praça, provavelmente do século XIX.
Fachada de casa revestida com azulejos bicha da praça. Fronteira

Segundo a obra Azulejos de fachada em Lisboa/ A. J. Barros Veloso, Isabel Almasque- Lisboa: CML, 1989, este padrão de azulejos foi fabricado pela Viúva Lamego e a sua aplicação generalizou-se em cozinhas, átrios de escadas, fachadas de prédios por todo o Portugal, mas também no Brasil. O nosso amigo brasileiro, o lusófilo Fábio Carvalho enviou-me há bem pouco tempo imagens da cúpula de uma Torre Sineira no Rio de Janeiro, toda revestida com este padrão.

Os azulejos que comprei aquele senhor deserdado da sorte, foram para o Manel que me reembolsou do dinheiro e gostou tanto deles que foi comprando mais bicha da praça em feiras de velharias e sites de leilões, com o objectivo de os colocar na sua casa alentejana.

Nesta Páscoa, aproveitamos as férias para finalmente colocar os azulejos e foi uma bela empreitada pois ao todo o painel a colocar contava com 162 azulejos. 

Primeiro houve que fazer medições, para definir a área onde havia que tirar o reboco. Como os azulejos não chegavam para revestir tudo e deixaram-se espaços vazios atrás dos dois fogões.

Depois foi agarrar nos martelos e nos escopros e partir todo o reboco, até chegar à ossatura da casa. O Manel e eu demorámos uma tarde inteira neste trabalho e no final, a cozinha dele parecia a Bósnia-Herzegovina em plena guerra, com poeira a esvoaçar, fragmentos de cal e areão por todo o lado. Embora nesta altura, o nosso Manel, que tem a mania das limpezas já estivesse à beira de um ataque de nervos, a jurar que ia enterrar os restantes azulejos, que comprou, não deixamos de observar com alguma surpresa os vários sistemas construtivos da casa.
Xisto, argamassa e tijolo burro
A parede que coincide com a fachada foi feita com uma mistura de xisto, argamassa e tijolo burro, a da chaminé com um tijolo burro finhinho e a terceira parede a fechar o U com um Tijolo burro mais grosso.
O tijolo burro
No dia seguinte, começamos a colocação dos azulejos, primeiro, junto ao chão, uma fiada de azulejos marmoreados e só depois o do padrão propriamente dito, como era tradicional na azulejaria portuguesa.


Foi um trabalho complicado de acertar os desenhos do bicha da praça, pois descobrimos que tinhamos três tamanhos ligeiramente diferentes de azulejo, provavelmente correspondendo a distintas épocas de fabrico, pois presumo que Viúva Lamego terá produzido este motivo décadas a fio. Até a pasta é diferente de uns para os outros.

O trabalho lá foi evoluindo e no dia seguinte concluímos o trabalho de colocação. Usámos massa de retocar paredes para colar os azulejos, embora o mais recomendável seja a cal hidráulica misturada com areia.


Depois de tudo bem seco, foi necessário limpar com uma esponjinha molhada para retirar o excesso de massa e ainda arrumar e limpar toda a cozinha. Foi uma trabalheira, mas a cozinha do Manel, com a azulejaria bicha da praça e decorada com o cantão popular ganhou a beleza das antigas casas portuguesas.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Torre sineira com azulejos em Fronteira

Nem sei como começar este post. Talvez escrevendo, que muitas terras portuguesas tem um património arquitectónico interessante e que estão cheias de pormenores surpreendentes aqui e ali e que esse conjunto de singularidades formam um todo muito próprio, que nos agrada e nem sabemos dize-lo porquê. É o tal je ne sais quoi de que falam os franceses, mas que reside precisamente em detalhes, como o revestimento azulejar desta torre sineira em Fronteira. Os azulejos são do mais simples que há, azuis e brancos, formando um xadrez e apesar de ser uma combinação que qualquer criança é capaz de montar formam um todo cheio de ritmo e brilho.  


Eu adoraria ter em casa azulejos destes. Por vezes quase que desejo que rebente um cano na casa de banho, para mandar partir os azulejos todos e colocar esta combinação, azul, branco, azul, branco, azul. Mas, enfim, é melhor não ter pensamentos destes, pois o cano rebenta mesmo e eu não tenho dinheiro para pagar ao homem. Mas continuo a sonhar com esta combinação infinita de azuis e brancos.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Azulejos do séc. XVIII: fragmentos de um floreiro


Este mundo das coisas em segunda mão, das velharias, dos cacos e fragmentos antigos disto e daquilo é um jogo fascinante, em que aos poucos, com um bocadinho de pesquisa aqui e acolá, vamos juntando as peças, formando um todo e reconstituindo uma pequena história.


Foi o quer me aconteceu com os restos de um painel azulejar representando vasos floridos, que comprei ao preço da chamada uva mijona a uns ucranianos na Feira-da-Ladra. Na verdade só um deles era ucraniano, o outro era português, mas, o Manel e eu arranjámos-lhe esta espécie de alcunha e assim ficaram por muito tempo. Imagino que devem ter trabalhado na construção civil e depois acharam que poderiam fazer um dinheiro extra, vendendo na feira a tralha resultante das remodelações de apartamentos e da demolição de prédios antigos.

Fiquei desde logo encantando com estes 4 azulejos, que constituíram no passado dois floreiros diferentes e quando os coloquei na parede, imaginei sempre como seriam completos.

Painel azulejar do catálogo da Aqueduto, 21 de Março de 2007

Depois, há de um mês, ao desfolhar o catálogo da Leiloeira Aqueduto, de Março de 2007, passo os olhos por um painel de azulejos pombalino e sinto qualquer coisa familiar neles. Quando o observei melhor, descobri que os dois azulejos centrais são iguais ao meu. Tenho a parte central da taça, mas falta-me o pé e as asas e depois tenho início do ramo, mas falta a explosão de flores que dali jorra.

Os azulejos que possuo marcados a preto

O Painel que esteve à venda na Aqueduto, só tinha um floreiro grande, mas este motivo poderia ser repetido vezes sem conta, conforme se pode ver na pequena montagem que fiz, uma modesta demonstração das variadíssimas combinações diferentes possíveis de fazer entre os vários padrões de azulejos.

Pequena montagem feita a partir do painel da leiloeira Aqueduto, para dar uma ideia do conjunto do qual os meus 4 azulejos terão feito parte.

Fiquei muito contente com a descoberta e agora todas as noites, para esquecer a crise miserável em que nos encontramos, antes de deitar olho para os meus azulejos e consolo-me com a visão de um painel completo e perfeito, do qual um dia eles fizeram parte

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Azulejos na Rua do Benformoso

A Rua do Benformoso é um sítio complicado. Mete um certo receio a quem vem de fora. Começa no Martim Moniz e termina no Largo do Intendente, zona de prostituição muito miserável.  Há uns anos, numa noite qualquer, o Manel e eu andávamos a vaguear ao acaso pelo centro da cidade e quando nos aproximámos do Benformoso, alguém nos avisou para não irmos mais além. Julgo eu que até se nos dirigiu em inglês, pensando que eramos turistas,

No entanto durante o dia não é assim tão assustador. Costumava fazer essa rua para ir do Martim Moniz até ao Largo do Intendente, onde era o meu Centro de Saúde. Naquela Rua da Mouraria, sentimo-nos estrangeiros, porque ali ninguém fala português. Todas as lojas e casas estão ocupadas por chineses, indianos, nepaleses, senegaleses e gentes do Bangladesh. Até há uma mesquita no primeiro andar de uma daquelas casinhas. No fundo, o Islão voltou a ocupar um espaço que lhe pertenceu durante muito tempo.

Aquelas pessoas que por ali circulam e trabalham causam-nos estranheza. Vêem-se muitas mulheres inteiramente veladas como nos países muçulmanos mais conservadores e e aqueles panejamentos todos até são elegantes.
O mais antigo prédio de rendimento de Lisboa

Mas além das pessoas, os edifícios de arquitectura popular Lisboeta são muito interessantes. Há nessa rua uma casa anterior ao terramoto, que se julga ser o mais antigo prédio de rendimentos de Lisboa

Um padrão incomum

E depois há a azulejaria absolutamente fantástica e invulgar. Descobri um prédio revestido com padrão de xadrez muito incomum. Nunca tinha visto nada assim.



Mais adiante outro prédio com um padrão esponjado e um friso, com uma espécie de gregas, também muito original.


São prédios aparentemente modestos, mas bons exemplos de azulejaria do século XIX e tem a graça de estarem num conjunto urbano ainda coerente.

Vale a pena ir à Rua do Benformoso ver as mulheres veladas da Ásia e os azulejos portugueses. A mistura nem fica mal.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Azulejos cosméticos


As casas antigas são como as velhas damas, precisam de muito pó-de-arroz para tapar as rugas e as outras marcas do tempo. As estruturas dos prédios antigos lisboetas são muitas vezes em madeira, ainda segundo o esquema da gaiola pombalina e como esse material encolhe ou estica, consoante a humidade ou o calor, as paredes abrem rachas todos os anos, que é preciso corrigir aplicando massa tapa-fendas, tal como fazem as velhas senhoras às suas rugas. E depois, para o aparecimento de todas estas rachas concorrem factores como a sucessão de obras mal feitas nestas casas antigas, que as fragilizam para sempre e ainda os pequenos sismos, que volta meia volta, sacodem os habitantes destas casinhas



Os azulejos antigos são uma alternativa à massa tapa-fendas e um óptimo cosmético para as casas antigas e por isso há que tê-los sempre à mão. Nesta parede do quarto dos meus filhos existia uma racha particularmente persistente, que há uns três ou quatro anos tapava e que reaparecia sempre. Com um fragmento de um painel historiado do século XVIII, comprado por tuta-e-meia na Feira da Ladra, tapei a malvada racha e dei a ilusão, que quando fiz obras em casa, apareceu debaixo do estuque um vestígio de um painel antigo de azulejaria.

O azulejo é realmente um material versátil capaz de criar ilusões dentro e fora das casas.