Sei que não devia ter comprado esta peça. É um bibelot kitch, do tempo em que as famílias burguesas enchiam as casas de naperons. Naperons nos canapés, nas poltronas, nas cómodas, nas mesinhas de apoio e nos pianos, enfim naperons por todo o lado, pois as senhoras virtuosas tinham que manter as mãos ocupadas e faziam então naperons às dezenas para desviarem o espírito de pensamentos impróprios. O gosto das casas deste início do século XX era carregado, as salas de jantar tinham móveis em estilo neo-renascença, os os salões de estar cadeiras e canapés estofadas com capitonneés e os bibelots competiam com os naperons por toda a parte.
Mas, apesar desta conotação com um certo gosto duvidoso burguês, eu gostei desta menina em biscuit, navegando numa gondola. Achei-a uma peça tão perfeita, tão delicada e o preço era quase dado. Apesar de não ter qualquer marca, será provavelmente alemã. Pelo menos os sites de venda on-line americanos, como por exemplo o http://www.rubylane.com, costumam atribuir a este tipo de figurinhas um fabrico alemão e uma data de produção algures no início do século XX.
Quando olho para esta menina navegando na sua Gondola fantasiosa, só me recordo de um show de travesti que vi há muito anos, em que um calmeirão vestido com um fato de banho de menina ao estilo dos anos 20 e enfiado numa bóia em forma de barco, cantava o velho êxito de Celly Campello, A lenda da conchinha. Talvez seja por causa desta recordação, que não resisti a comprar esta figurinha em biscuit. Por vezes, o nosso coleccionismo é guiado por estranhos impulsos.
A lenda da conchinha
Nas dobrinhas de uma concha
E a conchinha cor de rosa
Meu segredinho sabia
Nela eu guardava os beijos e
O calor do nosso amor
A conchinha caiu n'água
Mergulhei para buscar
Mas o amor que estava dentro
Escapuliu, ficou no mar
E dois peixinhos que passavam
Então levaram nosso amor
E agora o mar
Tem mais peixinhos a nadar.







