
Aqui estão alguns dos meus investimentos sentimentais mais pesados, dois santos de roca, que também se designam por imagens de vestir. O primeiro é uma santa não identificada, o segundo é um santo franciscano, pois tem uma tonsura e uma barba. Não me parece que seja o Santo António de Lisboa, que é normalmente representado imberbe. Apresenta um orifício nas mãos, talvez feito para suportar um Menino Jesus ou um livro, uma cruz ou outro atributo qualquer, pelo qual os fieis o identificariam.
A origem destas imagens não assenta na roca de fiar como o nome parece indicar. Embora, de facto, a forma inferior da primeira santa sugere de imediato uma roca de fiar.
O seu nome tem origem nas representações barrocas religiosas surgidas em Espanha, após o Concilio de Trento, em que se representava o nascimento de Cristo numa caverna rochosa ou a Paixão de Cristo no alto dum monte, isto é, uma rocha. Como toda a gente sabe, “Rocha” em espanhol é “roca”e daí a origem deste nome.
Em Espanha, em Portugal e depois no Brasil, essas representações evoluíram para procissões complicadas e opulentas, em cenários rochosos, em que se usavam imagens de madeira, ocas, muito leves, que poderiam ser facilmente transportáveis nos andores. Essas imagens poderiam ainda ser vestidas de maneira diferente consoante tratar-se de um cerimonial de Páscoa ou de Natal.
Apareceram assim as Santas de roca ou imagens de vestir, que passaram a envergar trajes luxuosos, jóias, coroas e resplendores. Alguns dos trajes eram confeccionados por grandes damas fidalgas, outros eram deixados em testamento às Santas. Na minha família existiam uns brincos muito valiosos e antigos que só eram usados pela santa Padroeira local, a Senhora da Azinheira, no dia da sua procissão (foto do lado esquerdo, cedida por Altino Rio). O resto do ano os brincos eram guardados numa vitrina na casa familiar.
Estas imagens eram muitas vezes articuladas, nos braços, nas mãos ou troco, precisamente para permitir que se adaptassem a esta função teatral dos actos religiosos.