segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Figurinha em Terracota


Este é um dos meus achados preferidos na feira-da-ladra. É uma figurinha em terracota, que não ultrapassa os 10 cm. Está quebrada na base e no topo, pois terá feito parte de um conjunto que estaria encastoado numa parede duma casa rural muito antiga, algures na península de Setúbal. Ter-se-ia partido quando a tentaram tirar da parede. Enfim, são as informações que me forneceu o vendedor acerca deste busto de homem barbudo, que obviamente poderão ser mentira.

Em todo o caso, a peça está extraordinariamente bem moldada. Faz-me lembrar aquelas representações que na pintura do renascimento se faziam dos indianos, dos assírios ou dos índios da amazónia. Aliás, toda esta peça me sugere o Renascimento.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Mais azulejos de padrão


Gosto tanto de azulejos que resolvi revestir a cozinha da casa de bonecas da minha filha Maria do Carmo com os bons e velhos azulejos portugueses. Arranjei umas boas imagens de azulejos de padrão na internet, inseri-os no word, depois fiz uma composição com bonitos lambris de padrão, recortei à medida, colei em cartolina, colei por cima aquele papel adesivo transparente para dar brilho azulejar e revesti as paredes da cozinha da Sô Dona Maria do Carmo. Acho que o resultado ficou espantoso

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Santos de roca ou imagens de vestir

Aqui estão alguns dos meus investimentos sentimentais mais pesados, dois santos de roca, que também se designam por imagens de vestir. O primeiro é uma santa não identificada, o segundo é um santo franciscano, pois tem uma tonsura e uma barba. Não me parece que seja o Santo António de Lisboa, que é normalmente representado imberbe. Apresenta um orifício nas mãos, talvez feito para suportar um Menino Jesus ou um livro, uma cruz ou outro atributo qualquer, pelo qual os fieis o identificariam.

A origem destas imagens não assenta na roca de fiar como o nome parece indicar. Embora, de facto, a forma inferior da primeira santa sugere de imediato uma roca de fiar.


O seu nome tem origem nas representações barrocas religiosas surgidas em Espanha, após o Concilio de Trento, em que se representava o nascimento de Cristo numa caverna rochosa ou a Paixão de Cristo no alto dum monte, isto é, uma rocha. Como toda a gente sabe, “Rocha” em espanhol é “roca”e daí a origem deste nome.

Em Espanha, em Portugal e depois no Brasil, essas representações evoluíram para procissões complicadas e opulentas, em cenários rochosos, em que se usavam imagens de madeira, ocas, muito leves, que poderiam ser facilmente transportáveis nos andores. Essas imagens poderiam ainda ser vestidas de maneira diferente consoante tratar-se de um cerimonial de Páscoa ou de Natal.


Apareceram assim as Santas de roca ou imagens de vestir, que passaram a envergar trajes luxuosos, jóias, coroas e resplendores. Alguns dos trajes eram confeccionados por grandes damas fidalgas, outros eram deixados em testamento às Santas. Na minha família existiam uns brincos muito valiosos e antigos que só eram usados pela santa Padroeira local, a Senhora da Azinheira, no dia da sua procissão (foto do lado esquerdo, cedida por Altino Rio). O resto do ano os brincos eram guardados numa vitrina na casa familiar.

Estas imagens eram muitas vezes articuladas, nos braços, nas mãos ou troco, precisamente para permitir que se adaptassem a esta função teatral dos actos religiosos.

Quem quiser saber um pouco mais sobre a história das imagens de vestir ou santas de roca, sugiro a consulta da página http://www.revistaohun.ufba.br/Microsoft_Word_-_Maria_Helena_Flexor_IMAGENS_DE_ROCA_E_DE_VESTIR_NA_BAHIA.pdf

As minhas imagens estão despidas. Faltam-lhes as sedas bordadas a prata, confeccionadas por Senhoras devotas e bem nascidas. Mas o facto de estarem nuas dá-lhes a áurea que os actores têm nos camarins antes de se vestirem. Ainda parecem pessoas comuns, mas estão prestes a transformarem-se. 

Mais sobre santas de  roca

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Azulejos pombalinos

Tenho a mania dos azulejos e este painel que está na minha casa é dos meus preferidos. A maioria dos azulejos que o compõem foi achada em plena Baixa Pombalina, na rua 1º de Dezembro, num contentor das obras. Aliás, os contentores de obras do bairros históricos de Lisboa são muito ricos em azulejos...

Durante dois ou três dias fiz figura de pedinte a vasculhar o contentor. O Manel andou a ajudar-me e os meus filhos, quando eu passava pelo contentor já me puxavam pela mão, com vergonha. Levei ainda mais que uma vintena de azulejos para casa.

Todos eles estavam pintados dum castanho cor de caca e alguns deles estavam partidos. Fui levando tudo para a minha casa. Depois, com o auxílio de um escopro e de um martelo retirei-lhes a argamassa. Paralelamente, com uma faca, raspei-lhes a tinta castanha toda e começaram a surgir os vibrantes azuis e brancos dos azulejos. Pu-los de molho em água, raspei-os uns contra os outros, para tirar o resto da argamassa e tirar os restinhos de tinta.

Claro, a minha cozinha minúscula ficou um nojo e a roupa para engomar e os restantes trabalhos domésticos foram-se acumulando, mas o resultado foi fantástico. Consegui compor quase um painel de azulejos com este motivo de flores e ainda fiquei com uns 3 ou 4 azulejos marmoreados, uns 8 do motivo da trepadeira e um azulejo solto da fábrica do Rato.

Ficou a faltar-me um canto e uns dois azulejos do lado direito da flor. Fiz um desenho deles e numas quantas idas à feira-da-ladra consegui terminar a montagem do puzzle. Creio que não terei gasto mais do que 15 ou 20 euros. Nesta feira há uns 4 ou 5 vendedores que se especializaram em azulejos. Finalmente, pedi ao Senhor que me costuma fazer obras em casa para encastra-los na parede e ficaram lindos.
Pelo sítio onde os encontrei, a Baixa Pombalina, pela espessura, pela superfície irregular, e pelo vidrado cheio de bolinhas sei que são da segunda metade do século XVIII. São aquilo que vulgarmente se chama azulejos de padrão e que foram usados em larga escala na reconstrução pombalina. Encontrei um padrão igual no Museu Nacional do azulejo, datado entre 1755 e 1780, inv 791

É pena que haja pouca coisa sobre esta azulejaria mais industrial do período pombalino, pois os manuais de arte dedicam-se quase exclusivamente aos grandes painéis historiados. O site do Museu Nacional do Azulejo também não esclarece muito sobre quem quer saber um pouco mais sobre azulejaria de padrão.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Piano Baby


Enquanto pesquisava na Internet por figurinhas de biscuit e à conta de ver centenas de imagens, acabei por me interessar por descobrir o fabricante de outro menino no mesmo material, que tenho lá por casa, dado pela minha Mãe e que tinha sido da minha avó Mimi. Sempre o achei uma peça deliciosa, o menino a comer o chocolate ou mel do pote, com um ar de quem aproveitou a ausência dos pais para fazer um disparate dos grandes. Na minha infância, meti na cabeça que aquele bonequinho representava uma traquinice que o meu pai tinha feito em criança. Ao que parece, um dia, o meu pai foi deixado sozinho no bacio e quando a criada voltou encontrou-o a pintar-se e a pintar tudo à volta com cocó.



Enfim, chegado à idade adulta, continuei a apreciar a delicadeza da manufactura do bonequinho e convenci-me que era uma peça francesa.

Acabei por descobrir umas quantas peças muito semelhantes na Internet. Trata-se afinal de um Piano baby, uns bonequinhos que costumavam ser colocados em cima dos pianos e que estiveram muito na moda nos finais do século XIX, princípios do XX. Enfim, correspondiam ao gosto arrebicado e superornamentado da época e faziam parte do cenário das aulas de piano de meninas prendadas. Os alemães eram os fabricantes mais famosos deste tipo de bibelots feitos em biscuit e houve um deles que se notabilizou pela perfeição do modelado e pintura das peças, o Heubach.
Um típico par de piano babies da Heubach

Para além destas figurinhas para pôr em cima dos pianos, Heubach (1840 1925) notabilizou-se no fabrico de bonecas para meninas, cujas faces tinham expressões muito vivas, como as de tristeza ou de beicinho

Mais tarde os pianos babies alemães começaram a ser copiados um bocado por toda a parte, mas claro sem grande qualidade. Os japoneses começaram a faze-los depois da segunda guerra mundial e há uns tempos encontrei numa casa de velharias um destes bonecos, com a marca da Fábrica de Louça de Sacavém

Os verdadeiros pianos babies da Heubach, bem como as suas bonecas são hoje objecto de uma verdadeira caça pelos coleccionistas. Houve até um aficcionado que descobriu há pouco numa feira de velharias alguns moldes da antiga fábrica Heubach e começou a produzir réplicas.

No verso do meu piano baby encontra-se uma marca, que tanto poderá ser um “H” ou “I”


Acabei por escrever para um site americano de venda de antiguidades, o Ruby Lane, e que tem uma secção que dá apoio à identificação de peças o What’s this?, pedindo uma opinião sobre o fabricante do meu boneco

Transcrevo aqui a resposta
Dear Luís,
Unfortunately, this is not a recognizable or documented mark and more than likely it was applied by either a previous owner or is an internal manufacturing reference. Although the letter "H" could conceivably indicate HEUBACK BROS., a very famous and accomplished manufacturer of Porcelain Dolls, Dolls Heads, Porcelain Figurines and other related Ceramics, located in Germany since the 1860s (closed in 1994), we have a hard time ascertaining that this would be the correct attribution for this "mark".
Yet, this is definitely old, probably dating to ca 1900 - 1920s, and obviously made by a very skilled Modeller or company, and in fact very much to the same high standards as Heubach. The style is also very German in origin.
It is possible that this was part of a Set and perhaps another larger piece may have an actual maker's mark. But, and in conclusion, based on what is shown in the photos, we can only be certain as to its country of origin and its age, but allow for the possibility that it may indeed be a Heubach piece.
Thanks and regards,

 
Fiquei muito contente com esta resposta, que confirmava o resultado das minhas buscas, tratava-se de uma peça alemã, datada entre 1900-1920, com um acabamento requintado e provavelmente da Heubach.

 
Há uns tempos, descobri em casa do meu pai um inventário manuscrito feito pela minha avó Mimi dos bens que existiam em casa da sua mãe, realizado logo a seguir à morte da desta última, a minha bisavó Aninhas. Pedi uma cópia ao meu pai e andei entretido a lê-lo, tentando identificar peças que me calharam em herança, a reconstituir de memória as coisas que ainda me lembro de ver naquela casa ou a imaginar como seriam as restantes. No referido livrinho encontrei referência ao meu menino com o pote de mel e logo ao lado, outra referência a um menino com uma grinalda. Seria o par da minha peça, conforme sugeriram os peritos da RubyLane? Estaria marcado Heubach? E quem herdou o menino da grinalda?

Mais um mistério que ficará por resolver

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Paliteiro



Este menino que tenta tirar um grilo ou uma barata do braço deu-me algum trabalho a identifica-lo. Estava todo feito em pedaços e foi o meu amigo Manel, que percebeu a ordem pela qual se deveriam juntar as várias peças depois colou-o. Confesso que passei horas na Internet a fazer pesquisas sobre esta pecinha encantadora em biscuit. Descobri exactamente o que era quando coscuvilhava a secção de arte da Livraria Bulhosa nas Amoreiras. Ao folhear um catálogo de um leilão da Vista Alegre, descobri um menino muito semelhante ao meu, produzido por aquela fábrica na primeira metade do século XX. As costas que faltam ao meu boneco estão cheias de buraquinhos e descobri que afinal o menino é um paliteiro!


Comprei depois o livro Paliteiros: Vista Alegre, de Jorge Manuel Ferreira e na pág. 103 aparece uma reprodução deste modelo, acompanhada de um ficha de arquivo da Fábrica, com um desenho de J. Cazaux, de Agosto de 1922. Há uns tempos fui visitar o Museu da Vista Alegre em Ílhavo e lá estava uma peça semelhante à minha. Acabei por escrever um e-mail ao referido Museu e tiveram a gentileza de me enviar umas imagens das costas do boneco.


Contudo, apesar das semelhanças continuei a achar a minha peça mais perfeita. A pasta em que é feito o meu menino não tem o brilho algo estridente da peça que está no Museu da Vista Alegre.

Depois de um comentário feito aqui me ter chamado a atenção para um site sobre porcelana, http://www.avaluart.com/, é que consegui resolver o mistério desta diferença entre o meu boneco e o do Museu. No Avaluar estava outro menino paliteiro, muito semelhante ao meu, mas deitado e em biscuit, datado entre entre 1881-1921. Fez-se luz na minha cabeça, a Vista Alegre fabricou o mesmo modelo em biscuit e em porcelana.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Faiança de Miragaia ou dita de Miragaia

Nesta imagem, está uma das minhas peças preferidas, a terrina de faiança, dita de “Miragaia”. Estas louças identificadas nos mercados de velharias por “Miragaia” são um caso bem curioso da faiança portuguesa.
Enfim, conseguimos perceber a origem do motivo, que é a célebre loiça inglesa do Willow pattern (o padrão do Salgueiro, desenhado por thomas Minton em 1790). Basicamente, este motivo, é a narração da história de um amor contrariado passado na China, que tal como Romeu e Julieta, termina mal. No site http://www.thepotteries.org/patterns/willow.html há uma boa descrição que conta o significado preciso de cada uma das partes da decoração. Este padrão terá se inspirado nos motivos chineses de Cantão.



Contudo, os fabricantes portugueses dos "miragaias", libertaram-se das amarras do padrão original do salgueiro e interpretaram-no livremente, com pinceladas rápidas, num resultado cheio de energia e com um gosto muito popular. Na dita loiça de Miragaia, as motivos que constituem o padrão do salgueiro são simplificados e esvaziados do seu significado original. Por exemplo, em vez de dois edifícios, passa a haver apenas um, ou ainda desaparecem as figuras humanas que representavam os apaixonados da lenda (Ver imagem em baixo). Já vi uma travessinha desta faiança em que a casa chinesa mais parece um prédio pombalino... No fundo há um processo de abstracção muito grande, só que em vez de ser levado a cabo por pintores modernistas em Paris, é feito por artífices populares em Coimbra ou no Porto.


Não há quase nada escrito sobre esta faiança. Percebemos que houve vários fabricantes ao longo de um período de tempo muito grande (inícios do século XIX até a segunda metade do século XX), que produziram este motivo com muitas variantes entre si. Contudo, as peças nunca têm marcas. Só uma vez apanhei uma marcada da Fábrica Lusitânia, que estava sediada em Lisboa.



No Itinerário da faiança portuguesa do Museu Nacional Soares dos Reis, p. 160 chamam a este motivo, o Cantão Popular ou o Cantão de Miragaia, por esta fábrica se ter destacado na sua produção. Mais tarde seriam as oficinas de Coimbra a darem-lhe continuidade pelo que chegou até nós popularizado como Cantão de Coimbra. Contudo, nesta recente exposição que se fez em 2008, no Porto, no Soares dos Reis, intitulada Fábrica de Louça de Miragaia, refere-se que nunca se encontrou nenhuma loiça com o motivo do salgueiro, com as marcas características da Fábrica Miragaia. No catálogo da exposição adianta-se que essa fábrica tornou-se famosa por fazer um tipo de motivo com uma paisagem em azul, conhecida por "País" (foto de cima) e que daí em diante toda a louça em azul com paisagens passou a ser conhecida por Miragaia.


Mo Museu Abade de Baçal em Bragança vi umas quantas peças deste nosso motivo dito de Miragaia ou de cantão popular e estão atribuídas ao um centro de fabrico em Coimbra (foto de cima). Creio que foi a Dra. Margarida Rebelo Correia do Museu Nacional Soares dos Reis que esteve recentemente em Bragança a reclassificar as peças de faiança. A da imagem acima pertencente ao museu brigantino é algo semelhante a uma das minhas peças (foto inferior). Em todo o caso, em que critérios se basearam para atribuir estas peças a Coimbra?



Enfim o mistério não se resolve.

Tenho imensas peças desta faiança dita de Miragaia. Comecei com duas peças herdadas da minha avó, e depois fui comprando mais e mais e agora tenho pratos, travessas e travessinhas, uma terrina, jarro, uma jarra, uma saladeira e sei lá que mais. Passei até a mania a a um amigo meu, companheiro destas andanças da Feira-da-Ladra, que neste momento já tem mais “miragaias” do que eu.