segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Vénus pré-histórica


Numas das minhas últimas idas à feira-da-Ladra perdi a cabeça e comprei esta pequena Vénus pré-histórica. Embora tenha uma predilecção dominante pelos dourados, pelos damascos escarlates e pelo barroco, também me encanto por peças rústicas, populares ou muito primitivas e esta peça, estava lá no chão a chamar por mim e não fui capaz de lhe resistir. Não faço a menor ideia onde o vendedor a foi desencantar e até é bom nem fazer muitas conjecturas sobre a sua proveniência…

Estas esculturas são muitas vezes designadas por Vénus de Willendorf, que é a obra de arte mais famosa deste género e que se acha guardada num museu em Viena. É curioso observar que a minha peça tem mais ou menos as mesmas características da Vénus de Willendorf, cerca de 11 cm, material calcário, um grande ventre, grandes seios, rosto mal esboçado e braços quase imperceptíveis. Claro, a peça de Viena, tem uns cabelos muito bem esculpidos e no geral é uma obra de melhor qualidade, não fosse ela uma das esculturas mais famosas de toda a pré-história.

Foi muito complicado descobrir um bom sítio para a pendurar em minha casa, pois é um tipo de peça que carece de uma luz especial. Estas esculturas pré-históricas valem talvez muito mais pelo significado que ocultam em si mesmas, do que propriamente pela forma em que se apresentam, pois mais não são do que calhaus afeiçoados pela mão humana. Para valorizar este significado mágico, é necessário darmos-lhes uma luz dramática, que lhe empreste de novo a áurea sagrada de um ídolo poderoso, iluminado pela luz de uma fogueira, no interior de uma cabana rústica numa noite de Inverno, algures no Paleolítico Superior.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Maria do Espírito Santo Montalvão Cunha (29-12-1907 a 1-02-2000)


No inventário sentimental dos meus bens e memórias, que faço neste blog, faltava escrever sobre a minha avó paterna, Maria do Espírito Santo Montalvão Cunha, ou Mimi, como os netos e quase todos os familiares a conheciam. É uma das pessoas a quem devo o respeito pelo passado, o bichinho da história e um certo gosto eclesiástico na forma de arranjar e decorar as casas.

A Mimi era uma senhora com valor. Era colaboradora frequente de vários títulos da imprensa regional, como o Anuário de Chaves, o Boletim dos Amigos de Bragança, o Jornal de Chaves e até mesmo de jornais como uma tiragem nacional, como era o Comércio do Porto. Publicou um livro de contos, o Panorama da Verdade. - Bragança, 1981, proferiu várias conferências e em Bragança, onde viveu muitos anos, fazia parte do círculo do Abade Baçal, o enorme vulto da história e da arqueologia transmontana. Ganhou também um prémio literário, o segundo lugar de uns jogos florais promovidos pela Câmara Municipal de Chaves, com um trabalho acerca do seu avô, o Liberal Sampaio.

A minha opinião da obra literária dela foi durante muitos anos condicionada pela fraca opinião, que a minha mãe tinha dela. Julgava-a uma pretensiosa e uma mulher superficial, o que não deixava de ser verdade. Com efeito, hoje em dia, os seus textos, embora muito bem escritos parecem-nos um bocadinho ocos, com pouca mensagem. Mas, a minha avó viveu numa época, o Estado Novo, em que não se encorajavam grandes conteúdos, nem opiniões vincadas. O estilo da época era floreado, cheio de adjectivos e enalteciam-se as virtudes campestres, as várzeas, as moças sorridentes que entoavam cantares enquanto vindimavam em vales ubérrimos. Contudo, e apesar de uma certa falta de conteúdo, é de admirar uma mulher que nos anos 40 e cinquenta do século XX, vivendo em meios pequenos, se tenha dedicado à escrita e à colaboração em jornais.
Espelho estilo D. João V, herdado da minha avó

A Mimi e o seu marido, o meu avô Silvino, eram pessoas com gosto pela cultura, que se evidenciava por exemplo no mobiliário que mandavam fazer em Braga, aos Mouras. Hoje, vendo aquelas peças de mobília, percebemos que tinham um bom conhecimento dos estilos portugueses, adquirido em visitas a museus, que tinham por hábito frequentar. Os dois fizeram também o catálogo da extensa livraria do Solar de Outeiro Seco. Essa biblioteca foi vendida a um alfarrabista e foi dispersa por mil sítios diferentes, mas o meu pai (benza-o Deus por isso) conserva o catálogo, e que ainda um dia, o hei-de digitalizar e coloca-lo na net.


Cadeirão estilo finais do século XVII


Era também uma pintora com algum talento, embora só se tenha dedicado a esse passatempo na juventude. Lembro-me de a ouvir dizer que tinha aprendido a pintar no colégio de freiras, em Vila do Conde, onde foi educada. Na minha casa há um floreiro pintado por ela, datado de 1923, com um certo ar japonês.

Hoje, tenho um sentimento, que é frequente experimentar com as pessoas, que já morreram. Lamento não lhe ter feito centenas de perguntas sobre a antiga casa de Outeiro Seco, sobre o meu trisavô, sobre memórias antigas e sobre todo um passado, cuja memória já se perdeu definitivamente com a sua morte.

Quadro pintado pela Mimi

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Os motivos de grinaldas de flores da Vista Alegre


Herdei da minha avó paterna um bule, uma leiteira, uma terrina e umas chávenas de chá da Vista Alegre, decorados com este motivo das florinhas e salpicados com dourados. Num inventário que a minha avó fez dos bens que estavam na sala de jantar casa de Outeiro Seco, localizei várias peças, que correspondem às características destas peças e por esse motivo tenho-lhes uma estima ainda maior.

Encontrei sempre tanto encanto neste motivo das florinhas, que quando vejo alguma peça em bom preço, compro-a logo. Num dia de muita chuva, em que os feirantes já tinham debandado todos, achei no chão da Feira-da-Ladra um chávena solta com o motivo das florinhas, que veio fazer conjunto com um pires desirmanado, que tinha em casa.


As mais peças mais antigas tem marcas do início da segunda metade do século XIX e a mais moderna, uma chávena tem uma marca da década de 20. A Vista Alegre foi usando este padrão com florinhas com pequenas variantes aqui e ali, durante um período de mais de cinquenta anos, aplicados em várias formas diferentes. No livro Porcelanas e Vidros. – Lisboa: FRESS, 1999, Mary Lobo Antunes diz a propósito de uma porcelanas semelhante da colecção da Fundação, inv 1347, lembra as peças de Gustave Fortier um pintor francês contratado pela vista Alegre neste período.
Pena é que a página da Internet Vista Alegre seja tão fraquinha e pouco revele da belíssima colecção do Museu da Fábrica. No núcleo do século XIX, abundam peças com grinaldas, florinhas como estas e de muitas outras variedades, todas elas com um charme irresistível. Vale a pena ir a Ílhavo visitar este Museu só para ver as peças oitocentistas.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Apliques do Marché aux Puces



Comprei dois belos apliques no Marché aux Puces, em Paris. O primeiro, em forma de facho, é em bronze e está marcado com as iniciais Y. C (creio que se referem a um tipo de casquilho usado em França, que a peça tinha de origem). O segundo embora seja apenas em latão, tem uma carranca na base que lhe dá uma graça doida. Gosto também imenso das tulipas em forma de flor desabrochada destas duas peças. Julgo que ambas são do século XIX.



Sempre tinha ouvido falar no Marche aux Puces em Paris. Fazia parte do imaginário tradicional, que alimentei ao longo de anos e anos sobre aquela cidade. Idealizava uma espécie de feira-da-ladra com gente a vender umas coisinhas velhas espalhadas pelo chão e frequentada por uns franceses com ar de artista, mas pobretanas.

Há cerca de 3 anos, tive a oportunidade de regressar a Paris e marquei o Marché aux Puces como ponto obrigatório do programa turístico. As dimensões e qualidade da feira foram uma verdadeira surpresa. Com efeito, é o maior mercado de antiguidades e velharias do mundo. São pavilhões e pavilhões e ainda mais pavilhões carregados de toda a sorte de peças de outros tempos. Encontra-se por lá o grande mobiliário francês de época, os Luís XV, Os Luís XVI o Império, a Restauração, que de facto tem uma qualidade excepcional. Percebemos de imediato, porque é que durante séculos a Europa inteira copiou os móveis franceses. Podem-se também comprar painéis de madeira trabalhada, as célebres “boiseries” ou ainda comprar parquets do século XVIII, para revestir e cobrir salas inteiras. Claro, os preços são proibitivos, mas vale a pena entrar, admirar e tocar para educarmos o gosto com o trabalho dos melhores artistas Europeus.



Para além destes pavilhões de estadão, existem outros onde se podem comprar a preços um pouco menos caros as cópias feitas no século XIX dos estilos Luís XIII, XIV, XV ou XVI ou ainda comprar os móveis românticos e Napoleão III. Depois há dúzias de alfarrabistas, livrarias, casas com relógios antigos, lustres, bibelots, loiças de Sêvres, enfim, é um mundo onde o dourado predomina e ofusca os olhos dos transeuntes.

A frequência também é curiosa. Encontram-me muitos americanos da classe alta, com bom aspecto, daqueles que montam um interior Luís XVI completo e da época num apartamento de Manhattan ou numa vila em Los Angeles.

Enfim, o Manel e eu passámos lá horas, almoçamos por lá e saímos por volta das quatro da tarde, porque os pés já não aguentavam mais, mas cheios de pena, porque foi nessa altura que descobrimos a parte barata do mercado das pulgas, mais semelhante à nossa Feira-da-ladra.



Ainda foi complicado passar com estes dois apliques no Aeroporto. A menina da Segurança detectou-os no radar, houve ainda um certo frú-fru e lá tive que explicar, que não eram armas perigosas e que eram velharias compradas nas Puces. Tive sorte, e mandaram-me passar pois quase ao mesmo tempo, os seguranças detectaram uma pistola de alarme na bagagem duma portuguesa, a típica concierge de Paris, que armou um escarcéu dos diabos, bradando contra a polícia e as autoridades do aeroporto, que já da última vez lhe tinha apreendido um conjunto de facas de cozinha, que ela ia levar para a filha, na aldeia

http://www.les-puces.com/

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Viçoso e Moratalla: mais uma casa que acabou

A Viçoso, Moratalla era uma daquelas lojas especializadas que antigamente proliferavam pela Baixa Lisboeta, vindas do tempo em que naquela parte da cidade se encontrava tudo e se podia encomendar coisas ao gosto do cliente. Se queríamos mandar fazer uns sapatos duma cor especial, comprar um galão mais requintado, um tecido melhor, um colchão com uma medida excêntrica, uma cera diferente íamos à Baixa, pois ali vendiam-se coisas mais originais e de melhor qualidade de toda a cidade. Hoje pegamos no carro, vamos para a via rápida, ao hipermercado…

A Viçoso e Moratalla era uma casa de gravadores, que entre carimbos, condecorações e medalhas fazia aqueles cantos em metal, as rosetas, para colocar nas molduras e que são tão difíceis de achar. Faziam coisas absolutamente maravilhosas e o mostruário era tão bonito que tornava difícil a escolha. Qualquer moldura banal ficava logo com um ar estupendo com um daqueles cantinhos trabalhados.

Descobri aquela casa na Rua de S. Julião, 72, um dia, quando voltava da Feira-da-ladra e logo senti-me como um daqueles índios do tempo dos Descobrimentos, que ficavam fascinados a olhar para a quinquilharias, que os colonizadores lhes ofereciam. Voltei logo lá na segunda-feira e depois disso, eu e o meu amigo Manuel tornamo-nos uns clientes fiéis da Viçoso e Moratalla, creio mesmo que os únicos, pois a casa acabou de falir.

Enfim, percebo porque fechou. O horário era tonto e nunca se apanhava aquilo aberto às horas, que se pode fazer compras, não dispunham de pagamento por Multibanco, a empregada era uma sostra e cheirava a urina de cão naquele vão de escadas.

E no entanto que possibilidades tinha aquela loja. Estava toda revestida com estantes e gavetinhas, que se fossem decapadas da tinta castanha cor de caca, revelariam provavelmente um lindíssimo pinho velho. Se o funcionamento tivesse sido modernizado, certamente que a turistada toda que enxameia pelas ruas da Baixa perderia a cabeça com as ferragens deliciosas daquela lojinha vinda de outros tempos.

Enfim, é uma pena

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Registos de Santos II

Este martírio de Santa Felicidade é um dos meus registos preferidos. A cercadura barroca, com o anjinho a oferecer a palma de mártir e as vestes esvoaçantes das personagens, são elementos que emprestam a esta pequena gravura um movimento barroco delicioso.

Santa Felicidade foi uma das muitas mártires cristãs do século III. Esta jovem escrava cartaginesa foi feita prisioneira juntamente com a sua Senhora, uma tal Perpétua. A Felicidade estava grávida e deu à luz antes de ser morta e a infeliz Perpétua levava um filho pequeno. Enfim, foram as duas martirizadas no ano de 202 e o seu dia comemora-se a 7 de Março.





Martírio de Santa Catarina de Alexandria, MNAA



Nas minhas deambulações pelo inventário das colecções dos museus nacionais -o matriz (http://www.matriznet.imc-ip.pt) - descobri outros dois martírios, o de Santa Catarina de Alexandria e o de S. Sebastião, representados exactamente da mesma forma, que a minha pobre Santa Felicidade. À esquerda está ajoelhado o santo ou santa, prestes a ser decepado e à direita está o carrasco a brandir a espada. Fiquei com a ideia de que os pintores, desenhadores e gravadores da época tinham matrizes para representar as cenas religiosas, que eram usadas de pintura para pintura ou até mesmo de pintor para pintor. Consoante o santo a representar, alteravam os atributos, um ou outro pormenor aqui e ali e o quadro ou a gravura estavam prontos para serem entregues ao cliente.



Martírio de S. Sebastião, MNAA

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Relógio Waterbury

Relógio Waterbury
Este velho relógio estava pendurado na cozinha da casa de Chaves dos meus avós paternos. Embora na altura, estes objectos não fizessem propriamente parte dos meus interesses, era impossível não reparar nele, por causa do baralho das suas badaladas. Sendo já eu da geração em que os relógios de parede e de sala tinham deixado de se usar há muito, o barulho destes mecanismos era qualquer coisa de intimidante para um miúdo com a minha idade. Existia este relógio na cozinha, e um outro, na sala de visitas, muito grande, de madeira escurecida, que eu imaginava sempre que tivesse um cadáver lá dentro. Também é verdade que o meu irmão e eu dormíamos num quarto contíguo à cozinha, onde existia uma fotografia de um bebé, irmão do meu pai, dentro do seu caixão, rodeado de flores, de modo que era fácil ficar sugestionado para os terrores nocturnos, que tinham como música de fundo as badaladas dos relógios.

Creio que este relógio de cozinha era da família do meu avô paterno, portanto veio da casa dos Cunhas.

O relógio foi fabricado pela firma americana Waterbury e por dentro, gravado no mecanismo, tem a seguinte inscrição Waterbury Clock co / pat’d sept 22 / 1874/ 6 ½ in. Portanto será um exemplar dos finais do século XIX.

Na segunda metade do século XIX e princípios do XX os americanos dominaram o mercado mundial dos relógios e invadiram a Europa com os seus produtos baratos, encontrando apenas uma concorrência significativa da parte dos fabricantes alemães. Contudo, a produção de luxo continuou em mãos francesas.

Esta Waterbury nasceu no Connecticut, em 1857 e a partir de 1890, em virtude da sua associação com uma firma de venda por correspondência, a R. H. Ingersoll & Brother, tornou-se o maior fabricante americano, posição que mantive até às vésperas da Primeira Guerra.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a firma foi comprada por um grupo norueguês, construiriam uma nova fábrica, que tomou o nome de United States Time Corporation, rapidamente abreviado para Timex. Em suma, este meu relógio é um antepassado dos modernos e populares Timex.
Há uns tempos, debaixo da supervisão do meu amigo Manel, que tem um fetiche por relógios, o bicho foi todo desmontado e com uma palha de aço muito fininha limpei a madeira da sujidade de muitos anos de pó e de ceras acumuladas e a maquineta ficou esta maravilha que se vê