
No meu post de 1 de Outubro de 2009, escrevi sobre o chamado padrão do salgueiro, o Willow pattern e de como este foi adaptado de forma muito livre e popular em Portugal por vários fabricantes, dando origem a uma loiça que incorrectamente se designa por Miragaia e que deverá antes designar-se por cantão popular. Referi também que a maioria dessa loiça não se apresenta marcada, mas pelas diferenças que apresentam entre si pressentimos que saíram de oficinas diferentes e que até ao momento presente só tinha encontrado peças marcadas da Fábrica Lusitânia, aqui de Lisboa.

Retomo hoje o assunto, onde ficou. A Lusitânia ficava ali ao Campo Pequeno, no local onde hoje está o edifício da Caixa Geral de Depósitos. Ainda me lembro, nos meados dos anos 80, uns dias antes da demolição, de ir com a minha ex-mulher fotografar a fábrica para um trabalho, que ela estava a fazer na faculdade e de termos ficado fascinados com a fachada, que dava para a Biblioteca das Galveias, integralmente revista a azulejos. O edifício funcionava como uma espécie de montra das produções da fábrica ou um tipo de catálogo de azulejos. Demoliram essa fachada magnífica para fazer aquele horror da Caixa Geral de Depósitos, cujo estilo só me recorda o palácio, que aquele homem monstruoso, o Ceauşescu, mandou erguer em Bucareste. Da antiga fábrica só ficou a chaminé, que ainda se vê no meio do horror faraónico da Caixa Geral de Depósitos.

Consegui encontrar estas imagens no site do Arquivo fotográfico de Lisboa, cuja visita recomendo http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/. Infelizmente, as fotografias são só a preto e branco e não dão uma justa ideia do dinamismo, que todos aqueles azulejos coloridos davam à fachada.

Apresento aqui uma molheira com este padrão de cantão popular, fabricada pela Lusitania. Está marcada e pertence ao meu amigo Manel, que fez o favor de ceder estas 3 fotografias
Sobre a Lusitânia ver mais no Post 18-03-10
Sobre a Lusitânia ver mais no Post 18-03-10Mais recentemente, descobri que a Fábrica do Cavaco no Porto também fabricou este cantão popular e que há peças marcadas. Na obra a Cerâmica em Vila Nova de Gaia. - Vila Nova de Gaia: fundação Manuel Leão, 1999 da autoria de Manuel Leão são mencionadas duas peças da Fábrica do Cavaco (1862-1920) com este motivo do cantão popular, um bule zoomórfico (pág. 242), com marca, propriedade dos Museus Municipais do Porto e um prato (pág. 244), da colecção Adosinda Anes, que fazia parte de um serviço feito no final do período de laboração. Não reproduzo imagens do livro, porque custa 44 euros e não me está a apetecer gastar tanto dinheiro....
Finalmente, apresento mais uma peça cantão popular, também adquirida na feira-da-ladra e cuja decoração foge bastante ao esquema habitual e que julgo tratar-se também duma fábrica ou oficina distinta. Aqui o processo de abstracção feito nacionalmente ao padrão do salgueiro ou Willow pattern é levado ainda mais longe. Por exemplo, as figurinhas que correm na ponte são transformadas pura e simplesmente em cruzes. A água é representada por um conjunto de riscos paralelos. Os artistas cubistas do princípio do século XX gostariam certamente deste prato.

Imagem reproduzida do Roteiro das reservas: Museu de Cerâmica de Sacavém



A biblioteca encontrava-se no corpo nobre do solar (sala nº 41), tinha uma bela vista sobre a rua principal e o pinhal. Estava revestida a estantes, que não eram nada de especial, nem sequer tinham vitrinas, mas o efeito das velhas encadernações a carneira dos livros conferia à sala uma solenidade espantosa. No centro existia, a secretaria que se vê na foto, e no filme vê-se ainda uma livreira e uma meridienne, que convidava ao repouso e à leitura (em Português conhecemos estas cadeiras pelo termo francês chaise longue, muito embora em França sejam designadas por meridiennes). Havia também uma grafonola e uns binóculos.
O atlas, foto extraída de filme dos finais dos 60
O mirante, visto do pátio interior. Foto extraída de filme realizado nos finais dos 60
É também um milagre da história da humanidade que a mesquita tenha sobrevivido quase intacta num país onde o catolicismo foi sempre tomado com tanta paixão e exagero. Só existe no meio do templo, uma igreja cristã, levantada nos séculos XVI e XVII, barroca até loucura mais insana, que destoa daquela serenidade muçulmana. O resultado é de tal forma chocante, que conta-se que o imperador Carlos V, um monarca de ortodoxia fora de qualquer suspeita, exclamou quando viu a obra “hábeis destruído lo que existia en ninguna parte para construir algo que se puede hallar en qualquier lugar”