
Durante a minha infância ouvi muito falar da tia Marica. Sempre que se comentava que alguém recebia bem em casa, o meu pai recordava-se da Tia Marica, da forma como se comia na sua casa e sobretudo duma sobremesa, que Senhora servia, uma espécie de ovos estrelados doces, que faziam o encanto das crianças.
O meu pai contava muitas vezes o gosto que a senhora tinha por máquinas e maquinetas novas de cozinha, que comprava no melhor estabelecimento comercial de Chaves, os Mochos.
Já muito mais tarde, quando o meu pai se reformou e se começou a dedicar ao passado familiar, descobriu com horror, que nem sabia o nome próprio da tia que fazia a sua sobremesa preferida. Com a sua paciência toda, pôs-se em marcha, pesquisou, perguntou e leu e aos poucos a história da Tia Marica foi reaparecendo e ganhando vida.
A casa da Tia Marica no Lg. da Madalena em Chaves
A Tia Marica era a Maria da Conceição Alves (10.8-1876 a 12-07-1956), irmã mais velha da minha bisavó paterna, Ana da Conceição Alves (28-5-1881 a 24-12-1974). O pai delas era um comerciante abastado, que foi um dos directores do banco de Chaves e terá dado uma educação esmerada às filhas para fazerem bons casamentos na região. Aprenderam música e julgo que teriam algum talento. Vemo-las aqui nesta fotografia de conjunto, muito jovens. A Tia Marica segura um violino, um instrumento complicado, que não é qualquer iniciado que o toca e a minha bisavô Aninhas ao centro, de pé, tem uma espécie de bandolim nas mãos. Este grupo musical amador a que pertenciam, deveria animar os saraus das boas famílias flavienses e as meninas seriam certamente consideradas um bom partido.

A minha irmã herdou um rolo revestido a veludo vermelho muito bonito, que servia para a minha bisavô Aninhas transportar as pautas de música.

Segundo a lenda familiar, que o meu pai conta, a Marica ter-se-á apaixonado por um rapaz pobre, o que enfim, estragava completamente os planos da família. O moço terá então partido para a África, onde depois de muita labuta, juntou um bom pé de meia e voltou a Chaves para pedir a mão da sua apaixonada. Pediu para ser recebido pelos pais da jovem, confessou os seus sentimentos arrebatados e pediu-lhes a mão da filha. A Marica foi então chamada à presença dos pais e provavelmente temerosa de futuros castigos, respondeu ao pai:
- Deve haver alguma confusão, pois não conheço este senhor de lado nenhum.
Perante a resposta da sua amada, cuja imagem tinha servido para suportar o exílio em terras angolanas, o jovem retorquiu
- Pois se a Senhora diz que não me conhece, eu também não a conheço. Confesso que me enganei.
Com o coração destroçado, o rapazito abandonou Chaves, partiu novamente para África e quando voltou era o célebre dignitário da Igreja, Monsenhor Alves da Cunha. A pobre tia Marica ficou para tia, assistindo ao casamento da irmã, a minha bisavó, que essa sim, satisfez os planos dos pais e fez um belo casamento com um fidalgo, proprietário de muitas terras, o meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão
Depois de algumas pesquisas na Internet sobre o Monsenhor Alves da Cunha, percebi que foi um homem que deixou imensas lendas por todos os sítios onde passava. Ainda hoje, em Luanda, volvidos 63 anos da sua morte e depois de os portugueses terem abandonado à cidade, continuam a correr entre a população histórias mais menos fantásticas acerca dele. Talvez esta lenda da paixão pela Marica seja mais um testemunho, que ficou da vida de um homem excepcional.
O Monsenhor Manuel Alves da Cunha nasceu em Chaves a 8 de Junho de 1872 e era seis anos mais velho que a Marica. Sabemos que fez o Bacharelato em Teologia na Universidade de Coimbra em 1894 e presumivelmente a paixão pela Marica terá decorrido antes da sua ida para a Universidade, por volta de 1890 ou 1891. Não há qualquer referência a jornadas para o Ultramar nesse período, o que me leva a supor que a viagem a África para ganhar fortuna é apenas uma lenda, e que, na realidade o que fez foi deslocar-se até Coimbra, para conseguir um diploma. Em 1897, com 25 anos regressou a Chaves ainda como leigo para desempenhar as funções de professor primário e deve ter sido por volta desses anos, agora já com uma posição social mais aceitável, que se dirigiu a casa dos pais da Tia Marica a pedir-lhe a mão.
Então, talvez em consequência do desgosto amoroso provocado pela falta de coragem da pobre Marica, o Monsenhor Alves da Cunha ordena-se sacerdote em 22-9-1900 e em 1901 parte para Angola onde fará carreira até ao final da sua vida, em 1947. Em Luanda desenvolveu uma actividade notável não só na diocese, mas sobretudo como vereador municipal. Foi responsável pela construção do matadouro da cidade, criou estruturas para a municipalização das águas, fossas cépticas, equilibrou as finanças e criou códigos, regulamentos, posturas e emolumentos. Intelectualmente foi também um homem prolixo. Escreveu muito nos jornais e publicou ensaios sobre história de Angola.

A sua obra mais relevante talvez tenha sido na educação, com a criação do Liceu Salvador Correia de Luanda em 1919, do qual foi seu primeiro reitor.
Lutou também contra a escravatura encapotada, que ainda existia em Angola nesse tempo e talvez tenha sido o somatório de todas essas boas acções que fez com estátua dele em Luanda, tenha sido dos poucas construídas durante o domínio português, que não foram apeadas em 1975. Mais, os Angolanos até mantiveram uma rua com o seu nome.
Durante este período, a tia Marica também não esteve parada. Fundou e dirigiu o patronato de S. José em Vilar de Nantes, que acolhia raparigas pobres, instituição que ainda hoje existe e cujo funcionamento é assegurado pelas Servas Franciscanas Reparadoras
O Monsenhor Alves da Cunha voltou a metrópole duas vezes, em 1926 para colaborar no estatuto missionário, e em 1941 quando é posto na “prateleira” por um período de 2 anos. É provável que num desses período se tenha deslocado a sua terra natal, Chaves, e proferido uma missa com os seus trajes eclesiásticos de Monsenhor, à qual assistiu a Marica, agora uma Senhora madura e devota, e talvez durante a comunhão ele se tenha sentido angustiado por ser tão velho e por a ver tão acabada e tenha experimentado um sentimento, algo semelhante ao que Jacques Brel demonstrava quanto cantava "Ay Marieke Marieke je t'aimais tant"