quinta-feira, 1 de abril de 2010

Nossa Senhora da Piedade da Mercenana


Conhecedor dos meus gostos por estas temáticas religiosas, o Manel ofereceu-me há uns tempos este registo encantador, que representa a Nossa Senhora da Piedade da Merceana. A julgar pela decoração, que emoldura o registo, de gosto neo-clássico, a obra foi impressa nos finais do século XVIII. O impressor tinha oficina na Rua Nova do Almada, nº 77, em Lisboa (ainda hoje um local tradicional de livreiros em Lisboa, basta pensarmos, na Ferin, na antiga Livraria Luso-Espanhola, espaço agora ocupado pela Almedina).

Este registo estranho, representa a Nossa Senhora da Piedade no alto duma árvore e em baixo, um boi e um pastor ou lavrador em atitude de oração. Representa uma lenda formada talvez no século XII, em que um boi, chamado Marciano, todas as vezes que ia a pastar, abandonava a manada. O lavrador ou pastor um dia seguiu-o e descobriu que ele se recolhia junto a um carvalho, em adoração a Nossa Senhora da Piedade. O culto cresceu, o próprio boi deu o nome à aldeia - a Merceana - onde se construiu uma ermida, que passou a atrair círios de romeiros vindos até de Lisboa, pelas festas do Espírito Santo. A Ermida deu lugar a uma sumptuosa igreja por ordem da Rainha D. Leonor, em 1520. No século XVII, a igreja voltou a sofrer obras, nomeadamente uma balaustrada magnífica, com madeira exótica do Brasil, para proteger os crentes duma estranha cerimónia, que nesse tempo decorria, a bênção dos bois dentro da igreja. O templo continuou a ser objecto de mais beneficiações pelo século XVIII fora, mas o que me interessa mais nesta história toda do boi, da Senhora da Piedade no alto dum carvalho é o paganismo latente e escancarado, que o Catolicismo romano, lá teve que integrar e aceitar.

Segundo Moisés do Espírito Santo, no seu livro revolucionário, fascinante e talvez delirante, Origens orientais da religião popular portuguesa. Lisboa: Assírio e Alvim, 1988, esta história corresponde mais ou menos a um padrão, que se aplica a muitos cultos populares marianos portugueses.

Em, primeiro lugar estas Senhoras aparecem sempre fora das povoações em terrenos ermos, descampados, grutas, rochas e em troncos de árvores, tais como carvalhos, sobreiros, azinheiras e zambujeiros. Nunca em árvores cultivadas de frutos comestíveis. O conceito de sagrado é o de separado dos locais do homem e do quotidiano. Estas Senhoras corresponderão a antigas divindades locais, veneradas ao ar livre e que não querem ter nada a ver com a igreja matriz, onde se pratica um cristianismo mais oficial. Mais, quando alguém as tenta levar para a matriz, as senhoras fogem misteriosamente e refugiam-se na gruta, ou no tronco oco de onde apareceram e só ficam satisfeitas, quando se lhes levantam um templo, ali, no local mágico onde são adoradas há milénios.

Por outro lado, segundo interpretação do mesmo autor, as senhoras da Piedade são a mesma coisa que as Senhoras do Pranto e correspondem a um culto e ritual antiquíssimos, da religião ancestral dos povos da orla do Mediterrâneo. Nessa Religião, havia um Deus masculino, Thamuze, relacionado com a água e os rios, que morria todos os anos, em Junho e cuja morte era assinalada por grandes manifestações de tristeza. Do programa desse ritual faziam parte os prantos proferidos pelas mulheres. Thamuze tinha um mãe, a deusa Ishtar, que todos os anos chorava o seu filho morto (ou marido) nos braços. Da realização desta cerimónia dependeria o êxito da colheita do ano seguinte. Deste culto, derivam os célebres círios, que são deslocações de aldeias a certos santuários, para a obtenção de favores agrícolas. O cristianismo teria adaptado um culto antiquíssimo e rebaptizado os protagonistas.

Por outro lado a cerimónia de bênção dos touros dentro da igreja é provavelmente uma reminiscência de um desses rituais antiquissimos de sacrifícios de bois, que encontramos menção em todo o mundo antigo da orla do mediterrâneo.

Enfim, não sei se esta minha interpretação corresponderá a uma verdade histórica, mas a imagem mostra-nos uma religião tão ancestral, que é fácil deixarmo-nos levar pelo entusiasmo e encaixar-lhes hierogamias, deuses antigos e cerimónias pagãs estranhas.

Mina do solar dos Montalvões: Outeiro Seco

Talvez a uns 50 metros da fachada Norte do solar dos Montalvões situa-se a Mina. Apesar das ervas daninhas e das silvas que a invadem e escondem, ainda é possível apreciar a obra de cantaria bem talhada, que a imagem dá uma pálida ideia (na altura não tinha Câmara digital e só tirei um instantâneo). A mina era grande, cabia lá um homem dentro e trazia água de bastante longe, do fundo do pinhal da propriedade. Estava construída com uma das técnicas que os romanos usavam nos seus aquedutos, isto é, desde o seu local de captação no Pinhal até à mina, tinha sempre a mesma suave inclinação, numa medida tal que permitia que o necessário líquido corresse continuamente, sem formar poças de água estagnada, mas sem ser depressa demais, com uma força capaz de destruir as paredes.




A Mina que estava dentro da propriedade (Imagem gentilmente cedida por Humberto Ferreira)

Não nos deixavam muito ir brincar para a zona da mina. Diziam que havia partes do terreno, susceptíveis de cederem ao nosso peso. Não sei se seria essa razão. O meu pai falou-me de um tipo de granito mais fraco naqueles terrenos, mas eu interrogo-me se a Mina teria orifícios de respiração como os aquedutos romanos, quando corriam enterrados. Nós eramos apenas autorizados a brincar no pátio grande a Sul, onde havia sempre galinhas, patos e perus enormes. O meu irmão e eu adorávamos enxotar todas aquelas aves, que corriam em alvoroço à nossa frente.

Perto da saída da Mina existia um cano que se bifurcava. Um ia dar à pequena fonte do pátio interior e o outro a uma bica, que estava no jardim, junto ao alçado nascente do solar.



A mina que dava para o caminho público (imagens cedidas por Humberto Ferreira)


A mina confinava a Poente com um muro, que separava a propriedade do caminho público. Do outro lado do muro, existia também um cano, onde a população se abastecia de água. Eram sempre as raparigas que iam buscar água à fonte em grandes cântaros, que punham à cabeça, desafiando as leis da Física. Esta actividade era aliás um dos poucos momentos de liberdade das jovens, aproveitado para namoricos, de tal forma, que nos séculos XVIII e XIX se chegou a usar como eufemismo para a perca da virgindade, a expressão "partir a cantarinha". Todos nos recordamos da velha cantiga infantil, as pombinhas da catrina, que diz minha mãe mandou-me à fonte e eu parti a cantarinha, ó minha mãe não me bata que eu ainda sou pequenina..."


Reparem neste quadro O cântaro quebrado de Jean-Baptiste Greuze (1725-1805), que está no Museu do Louvre, que mostra a jovem com o cântaro quebrado, o ventre proeminente, que tenta esconder sem grande sucesso e um ar triste, de que quem fez asneira da grossa.


Mas voltando à Mina, depois de servir a fonte pública, o remanescente da água, passava por debaixo do caminho público e iá irrigar uma outra propriedade da família, a poente da casa, onde havia sempre hortas.

terça-feira, 30 de março de 2010

Pequenos anjos


Recordo-me que em miúdo, antes de atingir os seis anos, passei uma temporada em casa dos meus avós paternos, o Silvino e a Maria do Espírito Santo. Embora não tivessem sido uns pais carinhosos para os seus filhos, fizeram-me gostar daquela temporada, da qual guardo algumas das recordações mais antigas que tenho. A minha avó Mimi acordava-me sempre de manhã, para eu ver o “solinho” e servia-me papa maizena ao pequeno-almoço, coisa que eu ainda hoje adoro.

Devo ter passado por lá algum tempo, pois frequentei o Jardim-escola João de Deus naquela cidade. E claro, tenho ideia que era o meu avô Silvino quem andava comigo pela cidade de um lado para o outro de mão dada. Num dia, vimos uma procissão desfilar na cidade, creio eu que pela rua de Sto. António e reconheci no meio do cortejo um coleguinha meu do jardim-escola vestido de anjinho. Achei tudo aquilo tão bonito, que fiquei cheio de pena de não ter também umas asinhas e uma fatiota toda branca de anjo.

As crianças gostam de vestir fatos de anjinho e nesse aspecto o ritual católico é muito eficaz, porque atrai com o seu cerimonial crianças que nem sequer receberam uma educação religiosa. Há cerca de uns 15 anos, a minha sobrinha Isabel, que na altura não era baptizada, não sabia sequer distinguir o Santo António do Cristo, quis desfilar na procissão de Vinhais vestida de anjo. A minha mãe e a minha tia Maria Adelaide, com a sua paciência toda, restauraram um fatinho de anjo antigo, que tinha pertencido à minha mãe, uma coisa em seda verde dourado, com um corte segundo a moda dos primeiros anos da década de 30 e umas asinhas em penas, e lá foi a Isabel toda orgulhosa e feliz pela vila fora, acompanhando a procissão, vestida com o seu fatinho fora de moda e de outros tempos, sem reparar sequer nos olhares de estranheza das outras meninas, que essas sim, tinham umas roupas de anjo contemporâneas.

Os pequenos anjos

Há uma fotografia terrível da minha mãe vestida com esse fato de anjo, tirada em meados dos anos 30, por ocasião do falecimento de uma menina, que desconheço quem foi. Tenho uma vaga ideia da minha mãe me contar, que a obrigarem a ela e a outras meninas da mesma idade da morta a figurarem nesta espécie de encenação fúnebre junto do caixão, para tirarem a fotografia. A minha mãe é a última criança do lado direito, (é igual à minha filha Carminho), com uma tiara e está com um ar assustado e infeliz. A menina mais alta de olhos muito claros é a minha Tia Chica, a sua irmã mais velha, que está também com ar díficil de descrever

Esta fotografia, por mais macabra que pareça, fascina-me. Recorda-me o melhor filme que para mim, Felini alguma vez realizou, os Julieta dos Espíritos. Neste filme Julieta é atormentada muitas vezes por um sonho, em que se vê na infância, numa representação teatral do colégio de freiras, em que faz de mártir cristã, toda vestida de branco e que está preste a ser grelhada viva numas chamas de papelão. Este sonho atormenta-a várias vezes ao longo do filme. Na cena final, Julieta já mulher adulta sonha novamente com a macabra representação religiosa, mas descobre uma pequena porta escondida no quarto, entra, descobre a menina amarrada na grelha, prestes a ser queimada e corta-lhe as cordas dos pulsos e dos pés e liberta-a a menina foge em liberdade.

Pudesse eu fazer o mesmo nesta fotografia, entrar nela e deixar fugir a minha mãe e a minha tia e dar-lhe mais umas horas de uma infância, que já perderam irremediavelmente.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Algumas recordações a propósito de uma chávena de café da Vista Alegre

Esta pequena chávena de café de porcelana casca de ovo estava em casa dos meus avós paternos em Chaves. Nas férias, quando regressávamos de Vinhais, para Lisboa, costumávamos sempre almoçar em casa deles, em Chaves, e no final da refeição o meu pai tomava sempre café por ela. Sempre gostou de tomar café forte, em chávenas de porcelana pequenas e esta, da Vista Alegre, produzida entre 1880-1921, estava-lhe sempre reservada. Sempre que a olho, regressa-me à memória a essa viagem da infância, que começava em Vinhais, de manhã e ao fim de cerca de duas horas numa estrada inacreditável, com centenas e centenas de curvas, vencíamos os 60 km que nos separavam de Chaves e lá saiamos do carro com os rabos moídos de tanta curva.


A casa dos meus avós em Chaves era um pequeno Museu. Tinham os dois muito bom gosto, muito bons móveis, sóbrios, mas aquilo era um desconforto de casa. A sala só era aberta nessas ocasiões especiais e tudo o que lá estava dentro tinha apenas uma função decorativa. Nenhuma cadeira ou sofá era feita a pensar no conforto.

No entanto, nesse dia serviam-nos sempre um bom almoço. Recordo-me ainda de tantos pormenores, do serviço de copos (hoje, dividido com os meus irmãos), ad sineta para chamar a criada, do faqueiro de prata, do grande relógio da sala e de todos aqueles pormenores, que criavam um ambiente a cheirar móveis bem encerados, que me custa descrever com clareza, pois falta-me o talento literário de Proust para descrever interiores.

O meu avô Silvino morreu quando eu tinha cerca de 9 anos. Conheci-o mal. Recordo-me de andar de mão dada com ele nas ruas de Chaves e que me levava a passear ao jardim da Madalena. Ainda hoje, quando regresso aquele jardinzinho romântico de província comovo-me sempre um bocadinho a pensar nele. Era um homem de rotinas, fazia todos os dias a mesma coisa, atravessava a rua nos mesmos sítios. Creio que herdei essa característica dele.
Os meus Avós Maria do Espírito Santo e Silvino

Ela, a minha avó Mimi, de quem já falei aqui conheci-a melhor, quando já tinha a idade da razão e pude assim aproveitar o seu convívio e não há dúvida que influenciou o meu gosto pela história e pelo passado.

Depois do almoço eram mais horas e horas de viagens por estradas nacionais, com curvas e ainda mais curvas e creio que íamos jantar a Coimbra. Deveríamos chegar a Lisboa lá pela meia-noite. Enfim, era a rede de estadas portuguesas nos primeiros anos da década de 70.

Bem, hoje dispersei-me muito. Estive como a Isabel que vai, volta, parte e regressa de todas as direcções e que tem andado ausente e temos sentido a sua falta. Na verdade a intenção deste post era chamar-vos a atenção, para que um dos comentadores deste blog, abriu também um blog, inteiramente dedicado ao coleccionismo de tudo o que é relacionado com o café o http://cafemuseu.blogspot.com/

quarta-feira, 24 de março de 2010

S. João Nepomuceno por Debrie, 1746


Sei que os santos não são do agrado de todos, mas, a carne é fraca e não consigo resistir à forma teatral como as composições dos registos de santos são montadas. É o meu ancestral gosto barroco português, que está no subconsciente e que vem ao cima cada vez que vejo um registo do século XVIII

Esta gravura de S. João Nepomuceno, tem a assinatura Guillaume François Laurent de Brié, ou se preferirem, de Guilherme Francisco Lourenço Debrie, como ficou conhecido em Portugal este gravador francês. Está datada do ano de 1746 e apresenta a seguinte legenda S. Joam Nepomuceno Martir / fidelíssimo Protector da honra dos/ seus devotos.
Creio que esta gravura foi também retalhada de um livro, mas no site da Biblioteca Nacional, pesquisando por Debrie, não consegui identificar de que obra faria parte. Provavelmente de alguma vida do santo ou de um sermão de um pregador célebre, inspirado no exemplo de S. João Nepomuceno. Muitas vezes os bibliotecários, que tratam o livro antigo (espécies anteriores a 1800) dão apenas entrada pelos autores principais e omitem os impressores e os gravadores. Quando tratei livro antigo cometi o erro de não fazer entradas de catálogo para os gravadores e hoje arrependo-me disso. Enfim, como diria o meu velho professor de civilizações pré-clássicas, a experiência quando se a têm, já não serve para nada.
Relativamente ao S. João Nepomuceno, esta ilustre personagem nasceu cerca de 1340, na antiga Boémia, hoje República Checa e em 1393 foi atirado da ponte Carlos ao rio Vtava, morrendo afogado na corrente fortíssima do rio que divide em dois a cidade de Praga. Segundo a lenda, João Nepomuceno recusou-se a quebrar o segredo da confissão da Rainha da Boémia e foi por isso mandado atirar ao rio pelo Rei Wenceslau.

João Nepomuceno é assim representado nesta gravura com a palma, que todos os que sofreram o martírio arvoram, com um halo de 5 estrelas, que comemora as estrelas sobre o rio Vtava na noite do seu assassinato. Na parte inferior da estampa, vê-se a cena que o João Nepomuceno é atirado ao rio, assistido por uma multidão.

S. João Nepomuceno é considerado popularmente, protector da honra dos devotos, advogado contra as calúnias e também protector de pontes e viadutos. Por exemplo, na antiga ponte sobre a ribeira de Alcântara, que existia onde é hoje o largo de Alcântara, em Lisboa, estava colocada uma estátua deste santo.

Esta é a parte da lenda. Na realidade o checo Jan Z Pomuk era um alto membro do clero da boémia, que parece que vivia de forma opulenta, chegando a emprestar dinheiro. Foi nomeado vigário geral pelo novo arcebispo de Praga, Jan Jenstejn e os dois, que representavam uma facção muito próxima do Papa de Roma, envolveram-se num conflito institucional com o Rei Wenceslau, partidário do Papa de Avinhão, a propósito da nomeação de um abade para a riquíssima abadia de Kladruby, cujos extensos territórios eram cruciais para o Rei. O epílogo da história foi o seguinte, Wenceslau aborreceu-se com a nomeação de um abade da confiança dos outros dois e lançou o santo pela ponte fora, mas pelos vistos, fez mal pois o Jan Z Pomuk, que não era boa rés, foi aos poucos e poucos tornado um mártir e um santo pelo clero checo, que consegui canoniza-lo em 1729, em Roma, num processo, que custou mais de 180.000 coroas. O seu culto tornou-se numa arma poderosa da contra reforma e do catolicismo contra o protestantismo, que ameaçava de perto o país. Há até quem diga que a Igreja assimilou a esta personagem o culto popular, que ainda existia em Praga por Jan Huss, o herege que morreu queimado em 1415, de forma a lançarem água benta aos restos dessa heresia, que persistia na Boémia.


A Ponte de Carlos, em Praga, a velha capital

terça-feira, 23 de março de 2010

D. João I de Portugal: gravura de Debrie de 1742


Na sala de estar do Solar de Outeiro Seco existia uma colecção de gravuras dos reis de Portugal. Tentei localiza-las no filme que o meu pai realizou no interior do Solar nos anos sessenta, mas em vão. Os meus irmãos e eu recebemos algumas e julgo que foram gravuras retalhadas de diferentes livros de história de Portugal, para servirem de decoração às paredes.

Herdei duas delas, sendo que uma é de muito bom traço. Trata-se de uma representação do nosso rei D. João I, o célebre Mestre de Aviz, que obviamente não vou explicar quem foi.

A gravura fazia parte da obra Joannes Portugalliae reges aduiuum expressi / Colamo P. Emmanuele Monteyro. - . Ulissipone : Typis Francisci da Sylva, 1742. - 240, [8] p. : il., grav. ; In-fol(34 cm), que como o nome indica continha os retratos dos joões todos que nos governaram como monarcas As seis estampas deste livro são de muito bom traço e foram assinadas por Guilherme Francisco Lourenço Debrie, ou melhor por, Guillaume François Laurent de Brié. Pouco ou nada encontrei sobre este senhor talvez francês ou flamengo, que veio para Portugal em 1731 . José Zephryno de Menezes Brum, na obra Estampas gravadas por Guilherme Debrie. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1908 refere que Debrie foi discípulo na Holanda do francês Bernard Picart (1673-1733)e que desenhou para muitos livreiros, o que é verdade, pois só eu em minha casa tenho pelo menos 3 gravuras dele.

Este retrato de D. João I apresenta um pormenor curioso na peanha, uma representação alegórica em que se vê Hércules, junto de um troféu de armas, à sua esquerda está um dragão lutando com outro animal, um leão e à direita estão 3 homens agrilhoados. Julgo que esta alegoria é uma alusão aos trabalhos hercúleos contra os castelhanos e os partidários de D. Beatriz, que o mestre de Aviz teve de enfrentar, para manter a independência do pequeno reino de Portugal.

A obra Joannes Portugalliae reges aduiuum expressi (Referida por Inocêncio VII, p. 97), que algum antepassado meu de temperamento bibliofágo se entreteve a retalhar com uma faquinha afiada, foi reeditada em português com o título Elogios dos Reys de Portugal do nome de João em 1749, julgo eu que também com gravuras do Debrie

quinta-feira, 18 de março de 2010

Ainda a Fábrica de cerâmica Lusitânia e o cantão popular


Há pouco tempo, o António, um dos seguidores deste blog, enviou-me um simpático e-mail com uma fotografia duma peça de cantão popular, colocando a hipótese de se tratar de um fabrico da Lusitânia da unidade de Lisboa ou Coimbra.
Fiquei com a pulga atrás da orelha, pois não conhecia o facto de a Lusitânia ter uma unidade em Coimbra. Na Internet, tinha encontrado escasas informações sobre a Lusitânia. No entanto, descobri um livrinho da editora Apenas, a Fábrica de Cerâmica Lusitânia, de Isabel Cameira que tratei de comprar e fiquei muito satisfeito com a sua leitura, pois traça em linhas gerais a história desta casa.

A Fábrica foi fundada por um Senhor Francês Sylvan Bessière em 1890, perto do Matadouro em Picoas, dedicando-se ao fabrico de telha Marselha, tijolos, talhas para água, manilhas e vasos. Portanto, sobretudo materiais de construção. Por volta de 1900, transferiu as instalações para o Campo Pequeno, ao lado do Palácio das Galveias, pelas seguintes razões: os terrenos eram ricos em barro, a propriedade confinava com a zona das chamadas avenidas novas, que estava em plena expansão urbana e sobretudo, segundo uma tradição oral, o Sr. Sylvan Bessière teve uma encomenda monumental de tijolos para a construção da praça de touros do Campo Pequeno.

Gradualmente a fábrica Lusitânia foi crescendo em tamanho e sempre concentrada na produção de telhas e tijolos.

Em 1919, o Senhor Sylvan Bessière morre, a fábrica perde o carácter familiar e transforma-se na Companhia da Fábrica de Cerâmica Lusitânia. Em 1927 fazem-se grandes obras na fábrica e começa-se a erguer o bonito edifício que vemos na primeira imagem, segundo projecto do Eng. Luís Ernesto Roqueira. Neste prédio, que eu ainda me lembro de ver em pé, passarão a funcionar a partir de 1929 os balcões de vendas, os escritórios da direcção, a contabilidade, salas de exposição de azulejos e finalmente na mansarda, o laboratório de química e engenharia, os ateliers de pintura industrial e pintura artística. O célebre artista cerâmico Jorge Colaço desenvolverá neste último piso o seu trabalho.

A crise de 1929 não atrapalhou nada as finanças da empresa, bem pelo contrário, entrou numa fase de enorme expansão e comprou fábricas falidas por todo o país. Adquiriram a fábrica da estação velha em Coimbra, na qual investiram muito dinheiro, a célebre fábrica de Massarelos no Porto (em 1936, segundo o Itinerário de Faiança do Porto e de Gaia) ainda pólos fabris em Setúbal, Montijo e Vila Franca de Xira.

A ideia que fiquei da leitura das páginas deste livro foi que a Fábrica da Lusitânia de Lisboa sempre se dedicou mais aos produtos para construção civil e azulejaria. Talvez se tenha dedicado mais à produção de louça doméstica quando comprou a fábrica da estação velha em Coimbra, cidade onde já haveria há muito tradição de fabricar o cantão popular. Talvez, nessa altura, os patrões da Lusitânia tivessem dado ordem para retomar o fabrico de um motivo decorativo, o cantão popular, que há se fazia em Coimbra. (No Itinerário da faiança portuguesa do Museu Nacional Soares dos Reis, p. 160 designam também o cantão popular por Cantão de Coimbra.)





Molheira Lusitânia do Manel



Claro, não tenho provas do que afirmo. Sei que a molheira marcada Lusitânia do meu amigo Manel é possivelmente posterior a 1929, mas já tenho dúvidas acerca da bonita travessinha do António ser Lusitãnia. Mais, tenho uma terrina, uma travessa e um prato de cantão popular, sem marcas, que são nitidamente de meados do século XIX, muito anos antes da Lusitânia existir. Houve certamente mais fábricas pelo país fora e mais antigas a fazer este motivo.







Terrina e travessa de cantão popular da segunda metade do XIX
Aproveitando os comentários oportunos dos seguidores , acrescento uma das marcas que a Lusitânia passou a usar em Coimbra a LUFAPO, bem como a marca usada por Massarelos, depois de comprada pelos novos patrões de Lisboa