Os irmãos Van Gog, Vicent e Theo tinham uma admiração enorme pela obra de Armand-Durand.
Armand-Durand notabilizou-se sobretudo pelas gravuras que executou da obra do pintor holandês Rembrandt. Como na época, as pranchas de cobre das gravuras originais do pintor holandês eram pouco conhecidas e não apareciam nos mercados de antiguidades, a partir de um estudo minucioso das gravuras e quadros existentes, o artista francês executou um caderno de pranchas de cobre absolutamente magnifico. As gravuras executadas a partir desse caderno de matrizes tornaram-se apreciadíssimas em toda a Europa. Nos anos 80 do século XX, esse caderno com pranchas de cobre que estava nas mãos da família Dominique Vincent foi alvo de uma disputa renhida entre o Museu do Louvre, a Bibliotéque Nationale de França e um marchand americano de arte. O americano venceu a disputa e levou para a casa as 348 pranchas de cobre.
Esta minha gravura terá sido pois imprensa na segunda metade do século XIX, em Paris por Armand-Durand, mas infelizmente não foi feita a partir de nenhum Rembrandt, porque senão, eu poderia vende-la e dar talvez uma entrada para um carro novo, que o meu já começa a dar sinais de cansaço. Terá sido executada para o mercado português e brasileiro da época, que devia justificar monetariamente a encomenda, pois como já sabemos, no século XIX as obras com temas piedosos eram altamente apreciadas nas lusas paragens, ainda que este S. Lourenço tenha um corpo capaz de tentar as mais devotas e os mais tementes a Deus...
O mestre gravador francês usou uma obra de Baccio Bandinelli (1493-1560) um pintor, escultor e desenhador do Renascimento italiano, que teve o azar de ser contemporâneo de Miguel Ângelo, e por essa razão foi sempre visto como um artista mediano, já que suas esculturas e pinturas sofriam sempre com comparação das obras primas saídas da mão do Buonarroti. Bartolommeo Bandinelli ou Baccio Bandinelli como ficou conhecido, era filho de um ourives florentino e trabalhou mais ou menos toda a vida sob mecenato dos Médicis. Dele os críticos diziam, que era um excelente desenhador, um óptimo escultor de obras em pequena escala, mas infelizmente só gostava de executar esculturas colossais, para as quais lhe faltava definitivamente o talento e a mestria de execução de Miguel Ângelo.
Este martírio de S. Lourenço que aqui vemos fazia parte de um projecto para um grande fresco, encomendado pelo Papa Clemente VII, para a capela de S. Lourenço em Florença e que nunca chegou a ser concretizado. Percebe-se assim porque é que o desenho é tão arquitectural, pois destinava-se a preencher o espaço de uma grande parede. Temos assim uma composição repleta de personagens num vasto espaço arquitectónico, mas que não negligencia a legibilidade da cena central, o martírio do santo na grelha. O fundo arquitectónico à antiga, elaborado com um forte eixo de simetria, com o efeito das aberturas e jogos dos planos, confere uma teatralidade dramática ao martírio de S. Lourenço.
O S. Lourenço encontra-se nu e apresenta um corpo de atleta, como só os gregos, romanos e artistas do renascimento italiano souberam desenhar ou talhar. Veja-se este admirável torso masculino de Baccio Bandinelli também do Louvre.



Legenda:
Marthyrio de S. Lourenço, Diácono
10 de Agosto de 258
Desenho de Baccio Bandinelli gravado por Marco António em 1526 pouco mais ou menos e dedicado ao Santo Padre Clemente VII. Ao Centro vê-se o perfeito Cornélio Secularis, rodeado de membros do Senado e dando ordem aos carrascos. Mais acima uma varanda cheia de Christãos pobres, a que o santo distyribuira os thesouros da Egreja e que o prefeito reclamava. S : Lourenço meio deitado nas grelhas ergue-se e confirma com o gesto estas Formosas palavras “ aquellas virgens, aquelles desvalidos, aquellas viúvas é que são os thesouros da Egreja” Trazem os carrascos materiaes combustíveis para atear a chama , um d’elles armado de um forcado forcejava para derrubar o Santo sobre o seu leito em brasa












