quarta-feira, 21 de abril de 2010

Um santo que parece um Deus Grego ou o Martírio de S. Lourenço por Baccio Bandinelli

Tenho em minha casa há muitos anos esta gravura representando o martírio de S. Lourenço. Foi impressa por um dos mestres gravadores mais conceituados nesta arte, Armand-Durand (1831-1905), que teve o seu atelier em Paris. Trabalhou sobretudo com obras dos grandes artistas dos séculos XV, XVI e XVII, que eram aqueles que ele mais admirava, realizando para esse efeito aturadas pesquisas nas colecções privadas e públicas.

Os irmãos Van Gog, Vicent e Theo tinham uma admiração enorme pela obra de Armand-Durand.

Armand-Durand notabilizou-se sobretudo pelas gravuras que executou da obra do pintor holandês Rembrandt. Como na época, as pranchas de cobre das gravuras originais do pintor holandês eram pouco conhecidas e não apareciam nos mercados de antiguidades, a partir de um estudo minucioso das gravuras e quadros existentes, o artista francês executou um caderno de pranchas de cobre absolutamente magnifico. As gravuras executadas a partir desse caderno de matrizes tornaram-se apreciadíssimas em toda a Europa. Nos anos 80 do século XX, esse caderno com pranchas de cobre que estava nas mãos da família Dominique Vincent foi alvo de uma disputa renhida entre o Museu do Louvre, a Bibliotéque Nationale de França e um marchand americano de arte. O americano venceu a disputa e levou para a casa as 348 pranchas de cobre.

Esta minha gravura terá sido pois imprensa na segunda metade do século XIX, em Paris por Armand-Durand, mas infelizmente não foi feita a partir de nenhum Rembrandt, porque senão, eu poderia vende-la e dar talvez uma entrada para um carro novo, que o meu já começa a dar sinais de cansaço. Terá sido executada para o mercado português e brasileiro da época, que devia justificar monetariamente a encomenda, pois como já sabemos, no século XIX as obras com temas piedosos eram altamente apreciadas nas lusas paragens, ainda que este S. Lourenço tenha um corpo capaz de tentar as mais devotas e os mais tementes a Deus...
O mestre gravador francês usou uma obra de Baccio Bandinelli (1493-1560) um pintor, escultor e desenhador do Renascimento italiano, que teve o azar de ser contemporâneo de Miguel Ângelo, e por essa razão foi sempre visto como um artista mediano, já que suas esculturas e pinturas sofriam sempre com comparação das obras primas saídas da mão do Buonarroti. Bartolommeo Bandinelli ou Baccio Bandinelli como ficou conhecido, era filho de um ourives florentino e trabalhou mais ou menos toda a vida sob mecenato dos Médicis. Dele os críticos diziam, que era um excelente desenhador, um óptimo escultor de obras em pequena escala, mas infelizmente só gostava de executar esculturas colossais, para as quais lhe faltava definitivamente o talento e a mestria de execução de Miguel Ângelo.

Este martírio de S. Lourenço que aqui vemos fazia parte de um projecto para um grande fresco, encomendado pelo Papa Clemente VII, para a capela de S. Lourenço em Florença e que nunca chegou a ser concretizado. Percebe-se assim porque é que o desenho é tão arquitectural, pois destinava-se a preencher o espaço de uma grande parede. Temos assim uma composição repleta de personagens num vasto espaço arquitectónico, mas que não negligencia a legibilidade da cena central, o martírio do santo na grelha. O fundo arquitectónico à antiga, elaborado com um forte eixo de simetria, com o efeito das aberturas e jogos dos planos, confere uma teatralidade dramática ao martírio de S. Lourenço.

O S. Lourenço encontra-se nu e apresenta um corpo de atleta, como só os gregos, romanos e artistas do renascimento italiano souberam desenhar ou talhar. Veja-se este admirável torso masculino de Baccio Bandinelli também do Louvre.

Como já escrevi anteriormente, esse fresco, não chegou ser executado, porque entretanto os Médicis, patronos da obra caíram em desgraça. Mas conservaram-se esboços e gravuras. Descobri um dos esboços na base de dados, Joconde, guardado no Museu do Louvre.

Baccio Bandinelli teve também tempo de dar um dos desenhos do projecto a um gravador célebre na altura, Marcantonio Raimondi (colaborador de outro génio do renascimento, Rafael) que executou esta gravura em 1526. O British Museu conserva um exemplar com esta data, que aqui reproduzo.

Alguns séculos mais tarde, no Século XIX, Amand-Durand que admirava incondicionalmente o renascimento, reimprimiu esta gravura de Baccio Bandinelli, que os críticos hoje em dia tendem a valorizar mais, sobretudo pelos seus méritos de desenhador, que bem podemos apreciar neste martírio de S. Lourenço

Legenda:


Marthyrio de S. Lourenço, Diácono
10 de Agosto de 258
Desenho de Baccio Bandinelli gravado por Marco António em 1526 pouco mais ou menos e dedicado ao Santo Padre Clemente VII. Ao Centro vê-se o perfeito Cornélio Secularis, rodeado de membros do Senado e dando ordem aos carrascos. Mais acima uma varanda cheia de Christãos pobres, a que o santo distyribuira os thesouros da Egreja e que o prefeito reclamava. S : Lourenço meio deitado nas grelhas ergue-se e confirma com o gesto estas Formosas palavras “ aquellas virgens, aquelles desvalidos, aquellas viúvas é que são os thesouros da Egreja” Trazem os carrascos materiaes combustíveis para atear a chama , um d’elles armado de um forcado forcejava para derrubar o Santo sobre o seu leito em brasa

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Jarro de medida de farmácia

Não, não ganhei o euro-milhões e desatei a comprar louça de farmácia dos séculos XVII e XVIII. Bem que gostaria, porque a faiança portuguesa desses dois séculos é deslumbrante, mas está irremediavelmente fora do alcance da maioria das bolsas.

Esta peça é uma réplica de excelente qualidade de um jarro de farmácia do século XVIII, (até está esbeiçado) que pertence às colecções do Museu da Farmácia. Segundo me informaram aqui no blog, é um trabalho da OFICINA MONTE SINAI, localizada no elevador da Bica 71 r/c, que desenvolve um importante trabalho de reprodução da faiança portuguesa do Sec. XVII e Sec. XVIII. Esta oficina costuma trabalhar para os Museus e Palácios do Ministério da Cultura, o Museu da Farmácia, o Museu da Presidência da Républica Patriarcado de Lisboa e ainda para o Instituto de Santo António em Roma etc. Comprei-a na feira-da-ladra aquele rapaz tatuado, muito simpático, de quem já falámos aqui.

O Jarro ostenta o escudo da ordem dos Carmelitas e não é por acaso. Com efeito, em Portugal e em quase toda a Europa, até aos finais do século XVIII as farmácias só existiam nos conventos e mosteiros. As grandes casas religiosas dispunham de grandes boticas, destinadas a fabricar remédios para os monges e freiras, mas também para a comunidade da região que os circundava. Em anexo à botica funcionava sempre um jardim ou horto botânico, pois os medicamentos da época eram invariavelmente feitos a partir de ervas, plantas, flores, sementes e etc. A química estava pouco desenvolvida.

Por esta razão, frequentemente a louça de farmácia, canudos, boiões, jarros e xaropeiras ostenta as insígnias das grandes ordens religiosas, tais como os carmelitas, dominicanos ou franciscanos.

Para quem aprecia a faiança portuguesa dos séculos XVII e XVIII, deve ir obrigatoriamente ao Museu da Farmácia, que fica ali na R. Marechal Saldanha 1, junto ao miradouro de Santa Catarina, em Lisboa. O horário é meio tonto. Abre aos dias de semana e nas tardes do último Domingo de cada mês, mas a visita é deslumbrante. A colecção de faiança portuguesa dos seiscentos e setecentos só terá talvez paralelo no Museu Nacional de Arte Antiga.

O museu dispõe também de uma colecção de canudos de farmácia do século XVIII em vidro, que são além de bonitos, raros, pois este material é muito mais frágil que a faiança.

O museu dispõe também de antigas farmácias do século XIX e inícios do XX com o mobiliário e recheios completos, cujos donos se quiseram desfazer delas. Apresenta ainda duma secção internacional com uma colecção de vidros romanos linda de morrer, faianças francesas e italianas dos séculos XVII e XVIII e ainda um conjunto requintado de canudos franceses em porcelana do século XIX. Enfim, quem quiser educar o gosto e regalar os olhos, visite o Museu de Farmácia

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A capela do Solar dos Montalvões em Outeiro Seco ou uma imensa tristeza

O Humberto Ferreira ofereceu-se amavelmente para me enviar imagens actuais do solar de Outeiro Seco. Confesso-vos que não fiquei muito interessado. Quando lá estive com o Manel há cerca de 4 anos, fez-se uma extensa e sistemática reportagem fotográfica e não me apetecia ver mais imagens, que mostrassem, que a casa ainda se arruinou mais, que as últimas chuvas fizeram mais rombos nos telhados e que o dia em que tudo desabará como um castelo de cartas está cada vez mais próximo.
Contudo, o Humberto insistiu e enviou-me mais imagens, e fez bem, porque algumas delas são extraordinárias, sobretudo as da capela, que é o corpo do edifício com melhor tratamento arquitectónico. Apesar da ruína, da sujidade, das brechas e do vandalismo a extraordinária beleza da capela sobrevive ainda e mostra uma dignidade, que talvez pareça ainda desafiar o tempo, se nós não soubéssemos como os homens são capazes de destruir rapidamente, aquilo que levou séculos a erguer e a construir.
À entrada da capela temos a inscrição latina SALVATOR MUNDI DEUS MISERE NOBIS, depois temos o interior, onde no alto do altar, sobrevive uma talha dourada luxuosa, impressionante mesmo, que o Humberto fez o favor de fotografar.




A Capela dispunha também de um coro, que dava acesso à sala do Museu e era daí que a família assistiria aos ofícios divinos. Claro, a estrutura em madeira do coro, já caiu.



Para além da história da Maria do Espírito Santo, minha trisavó, já contada neste blog no post de 22 de Janeiro, que se encontra lá sepultada, sabemos muito pouco ou quase nada sobre esta parte do edifício. Como os arquivos da casa desapareceram não conhecemos o nome do arquitecto a quem encomendaram a obra e certamente, dada a qualidade deste corpo imaginamos que não foi a um jeitoso qualquer. A minha a avó Mimi (Maria Montalvão Cunha) fez um inventário mais ou menos pormenorizado de quase todos os bens da casa, do qual tenho uma cópia. Contudo, não escreveu uma linha sobre a capela e é estranho pois era uma mulher culta, habituada a ver museus e sabia certamente apreciar o valor de uma imagem barroca do século XVIII e aos nossos olhos parece natural, que tivesse descrito no inventário o recheio deste templo particular da família. O meu pai tem a teoria de que a minha avó se impressionava de lá entrar, sabendo que os ossos da sua própria avó se encontravam por depositados. Eu não creio. Julgo que a minha avó Mimi, católica convicta como era nunca lhe passou pela cabeça que o conteúdo da capela pudesse vir a ser um dia dividido ou pilhado. Para ela, o recheio da capela seria indivisível, parte integrante daquele espaço sagrado, que para ela ficaria certamente aberto ao culto da população. Julgo que a Mimi não conseguiria conceber que uma igreja fosse dessacralizada.


Enfim, também há hipótese mais prosaica de a minha avó não ter tido tempo de terminar o inventário. Quantas vezes deixamos trabalhos que nos são são tão caros por fazer.

Também tenho uma pequena guerra como o meu pai, que um dia hei-de vencer, de que uma boa parte dos casamentos dos montalvões eram lá feitos. Há uma fotografia que anda perdida, que mostra a minha avó Mimi no dia do seu casamento com o Silvino, com a Maria Natália ainda menina, a saírem da capela de Outeiro Seco.

O nosso seguidor, Humberto, transmitiu-me a este propósito que os mais velhos em Outeiro Seco ainda contam que chegaram a ser rezadas missas na Capela do Solar pelo Padre Liberal e que as mesmas eram muito concorridas, talvez não só pelos dons de oratória mas, porque no final da missa distribuíam uma maçã a cada criança.

Mas, enfim nada sabemos dos Santos que se encontravam na capela. O Humberto Ferreira adiantou-me que por lá existiria certamente uma Santa Rita, aliás o nome da rua para qual dá e o nomes de algumas das minhas antepassadas. Segunda a mesma fonte, a população conhece-a como capela de Sta. Rita. Outro natural de Outeiro seco, o Joaquim Ferrador falou que um das imagens era a de São Salvador, o que faz sentido com a inscrição latina que ornamenta a entrada da capela.

Há uns anos, telefonaram ao meu pai da Câmara Municipal de Chaves perguntando se o meu pai sabia o nome dos santos que ornamentavam o interior da capela. Será que estão na posse do município flaviense?

Se os habitantes de Outeiro Seco quiserem conversar com os seus pais e os mais idosos da aldeia, perguntando-lhes que santos dispunha a capela, agradeço e compilarei aqui essas informações.





A imensa tristeza


Créditos: A primeira foto é do meu amigo Manel, a do Padre Liberal Sampaio é dos arquivos da família e as restantes foram gentilmente cedidas pelo Humberto Ferreira

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Mais algumas informações sobre a Mina do solar dos Montalvões em Outeiro Seco


Os blogs são de facto comunidades muito interessantes que permitem trocar ideias e conhecer pessoas, que de outra forma nunca cruzariam os nossos caminhos. O tema do Solar dos Montalvões de Outeiro Seco, que numa perspectiva que pode até ser válida, só interessaria a mim e aos meus familiares mais próximos, para alimentarmos a vaidade de descendermos da velha fidalguia transmontana, tem afinal despertado atenção nos seguidores deste blog, bem como nas pessoas de Outeiro seco, que tem respondido de uma forma positiva, nomeadamente, o Altino Rio e o Humberto Ferreira.

Este último, enviou-me muitas fotografias e um grande texto explicativo, que ainda estou a trabalhar e a estudar, pois como não me criei em Outeiro Seco, tenho sempre que fazer muitas perguntas, antes de perceber tudo o que se passa.

Segundo o Humberto Ferreira, antes de se chegar a Mina de pedra bem talhada, que descrevi no post de 1 de abril, http://velhariasdoluis.blogspot.com/2010/04/mina-do-solar-dos-montalvoes-outeiro.html, existiam mais duas minas entre esta e o Pinhal (a nascente), e que faziam obviamente parte do mesmo sistema.



A primeira Mina (imagem cedida por Humberto Ferreira)


Existia uma primeira, mais a norte, que na época, era também muito bonita, que segundo as palavras do Humberto Ferreira: Tinha uns degraus em granito, ao chegar ao fundo podíamos ver uma plataforma e um arco perfeito também em pedra muito picada (lisinha) e olhando para o interior via-se que havia também "lages" em pedra no chão dos lados e o túnel continuava todo em pedra com a mesma perfeição que tinha à entrada. Outra coisa que nunca esquecerei é que a água era, como dizem por estes lados, clarinha como um cristal.

O estado dessa Mina é o que vemos hoje na fotografia. Lamentável.

O Túnel continuava para baixo e antes de chegar à mina mais bonita, tinha também outra saída, que segundo o pai do Humberto, também tinha as pedras bem talhadas. Ainda se podem ver algumas lajes desta minna, nesta fotografia cedida por Humberto Ferreira


Finalmente a água chegava então à Mina principal descrita no post http://velhariasdoluis.blogspot.com/2010/04/mina-do-solar-dos-montalvoes-outeiro.html

Acerca destas minas corriam lendas e histórias entre a população de Outeiro seco. Numa das histórias, uns rapazes entraram na mina e encontraram uma arca com vários tesouros. Também se dizia que existia uma passagem secreta para o Solar dos Montalvões. Não sabemos se é verdade, mas é certo que houve muita prata e ouro, que as pessoas mais abastadas esconderam durante as invasões francesas, sobretudo durante a Segunda Invasão, que entrou em Portugal por Chaves (o meu pai lembra-se de ouvir falar a sua avó, que sua trisavó tinha enterrado a prataria). A tal passagem secreta para o Solar dos Montalvões talvez seja uma confusão com o quarto secreto existente no Solar ou com os canos que saiam da rede da mina e abasteciam o pátio interior e o jardim da fachada Nascente. Em todo o caso, minas e subterrâneos combinam muito bem com lendas.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Cantão popular


Volto ao tema do cantão popular para mostrar mais uma variante, que demonstra a minha teoria, de que houve vários centros de fábricos, em cidades distintas e em períodos diferentes a produzirem esse motivo decorativo, derivado do padrão do salgueiro, como já se viu em anteriores posts e que é erradamente conhecido por Miragaia.

Por exemplo, esta jarra de flores que herdei da minha avô Mimi mostra um tipo individualizado de padrão do salgueiro, em que o palácio do mandarim é muito abstracto, parecendo uma composição, feita a partir de várias meias luas. O chorão assemelha-se a um para-quedas. Tenho também uma malga, essa mais recente, adquirida na feira-da-Ladra, mas que apresenta o mesmo palácio do mandarim, formado por várias meias luas e o chorão em forma de para-quedas.


O meu amigo Manel, a quem eu contagiei com a incurável doença do coleccionismo do cantão popular, tem uma sopeira (segundo o glossário proposto pelo Itinerário da faiança do Porto e Gaia, as terrinas são ovais e as sopeiras redondas, embora as duas sirvam o mesmo efeito) também com o motivo do palácio feito a partir de meias luas e a árvore em forma de para-quedas. Contudo, a peça foge ao padrão habitual dos azuis e brancos e apresenta um verde acinzentado. (já sei que todos os seguidores do blog vão dizer que é não é verde, mas outra cor qualquer, mas não tinha ninguém perto de mim para perguntar)








Por último, o meu amigo Manel é também dono de outra sopeira, com o mesmo motivo do palácio do mandarim feito a partir de meias luas, mas que apresenta uma inusitada variante, uma palmeira ou uma flor gigantesca, furando assim completamente os esquemas tradicionais de representação dos derivados do padrão do Salgueiro.


Claro, nenhuma delas tem marca. Quem fabricou estas peças em que o palácio do Mandarim é uma estranha composição feita de meias luas? Coimbra, Aveiro ou Porto? Aceitam-se apostas e palpites



Nossa Senhora da Piedade da Mercenana


Conhecedor dos meus gostos por estas temáticas religiosas, o Manel ofereceu-me há uns tempos este registo encantador, que representa a Nossa Senhora da Piedade da Merceana. A julgar pela decoração, que emoldura o registo, de gosto neo-clássico, a obra foi impressa nos finais do século XVIII. O impressor tinha oficina na Rua Nova do Almada, nº 77, em Lisboa (ainda hoje um local tradicional de livreiros em Lisboa, basta pensarmos, na Ferin, na antiga Livraria Luso-Espanhola, espaço agora ocupado pela Almedina).

Este registo estranho, representa a Nossa Senhora da Piedade no alto duma árvore e em baixo, um boi e um pastor ou lavrador em atitude de oração. Representa uma lenda formada talvez no século XII, em que um boi, chamado Marciano, todas as vezes que ia a pastar, abandonava a manada. O lavrador ou pastor um dia seguiu-o e descobriu que ele se recolhia junto a um carvalho, em adoração a Nossa Senhora da Piedade. O culto cresceu, o próprio boi deu o nome à aldeia - a Merceana - onde se construiu uma ermida, que passou a atrair círios de romeiros vindos até de Lisboa, pelas festas do Espírito Santo. A Ermida deu lugar a uma sumptuosa igreja por ordem da Rainha D. Leonor, em 1520. No século XVII, a igreja voltou a sofrer obras, nomeadamente uma balaustrada magnífica, com madeira exótica do Brasil, para proteger os crentes duma estranha cerimónia, que nesse tempo decorria, a bênção dos bois dentro da igreja. O templo continuou a ser objecto de mais beneficiações pelo século XVIII fora, mas o que me interessa mais nesta história toda do boi, da Senhora da Piedade no alto dum carvalho é o paganismo latente e escancarado, que o Catolicismo romano, lá teve que integrar e aceitar.

Segundo Moisés do Espírito Santo, no seu livro revolucionário, fascinante e talvez delirante, Origens orientais da religião popular portuguesa. Lisboa: Assírio e Alvim, 1988, esta história corresponde mais ou menos a um padrão, que se aplica a muitos cultos populares marianos portugueses.

Em, primeiro lugar estas Senhoras aparecem sempre fora das povoações em terrenos ermos, descampados, grutas, rochas e em troncos de árvores, tais como carvalhos, sobreiros, azinheiras e zambujeiros. Nunca em árvores cultivadas de frutos comestíveis. O conceito de sagrado é o de separado dos locais do homem e do quotidiano. Estas Senhoras corresponderão a antigas divindades locais, veneradas ao ar livre e que não querem ter nada a ver com a igreja matriz, onde se pratica um cristianismo mais oficial. Mais, quando alguém as tenta levar para a matriz, as senhoras fogem misteriosamente e refugiam-se na gruta, ou no tronco oco de onde apareceram e só ficam satisfeitas, quando se lhes levantam um templo, ali, no local mágico onde são adoradas há milénios.

Por outro lado, segundo interpretação do mesmo autor, as senhoras da Piedade são a mesma coisa que as Senhoras do Pranto e correspondem a um culto e ritual antiquíssimos, da religião ancestral dos povos da orla do Mediterrâneo. Nessa Religião, havia um Deus masculino, Thamuze, relacionado com a água e os rios, que morria todos os anos, em Junho e cuja morte era assinalada por grandes manifestações de tristeza. Do programa desse ritual faziam parte os prantos proferidos pelas mulheres. Thamuze tinha um mãe, a deusa Ishtar, que todos os anos chorava o seu filho morto (ou marido) nos braços. Da realização desta cerimónia dependeria o êxito da colheita do ano seguinte. Deste culto, derivam os célebres círios, que são deslocações de aldeias a certos santuários, para a obtenção de favores agrícolas. O cristianismo teria adaptado um culto antiquíssimo e rebaptizado os protagonistas.

Por outro lado a cerimónia de bênção dos touros dentro da igreja é provavelmente uma reminiscência de um desses rituais antiquissimos de sacrifícios de bois, que encontramos menção em todo o mundo antigo da orla do mediterrâneo.

Enfim, não sei se esta minha interpretação corresponderá a uma verdade histórica, mas a imagem mostra-nos uma religião tão ancestral, que é fácil deixarmo-nos levar pelo entusiasmo e encaixar-lhes hierogamias, deuses antigos e cerimónias pagãs estranhas.

Mina do solar dos Montalvões: Outeiro Seco

Talvez a uns 50 metros da fachada Norte do solar dos Montalvões situa-se a Mina. Apesar das ervas daninhas e das silvas que a invadem e escondem, ainda é possível apreciar a obra de cantaria bem talhada, que a imagem dá uma pálida ideia (na altura não tinha Câmara digital e só tirei um instantâneo). A mina era grande, cabia lá um homem dentro e trazia água de bastante longe, do fundo do pinhal da propriedade. Estava construída com uma das técnicas que os romanos usavam nos seus aquedutos, isto é, desde o seu local de captação no Pinhal até à mina, tinha sempre a mesma suave inclinação, numa medida tal que permitia que o necessário líquido corresse continuamente, sem formar poças de água estagnada, mas sem ser depressa demais, com uma força capaz de destruir as paredes.




A Mina que estava dentro da propriedade (Imagem gentilmente cedida por Humberto Ferreira)

Não nos deixavam muito ir brincar para a zona da mina. Diziam que havia partes do terreno, susceptíveis de cederem ao nosso peso. Não sei se seria essa razão. O meu pai falou-me de um tipo de granito mais fraco naqueles terrenos, mas eu interrogo-me se a Mina teria orifícios de respiração como os aquedutos romanos, quando corriam enterrados. Nós eramos apenas autorizados a brincar no pátio grande a Sul, onde havia sempre galinhas, patos e perus enormes. O meu irmão e eu adorávamos enxotar todas aquelas aves, que corriam em alvoroço à nossa frente.

Perto da saída da Mina existia um cano que se bifurcava. Um ia dar à pequena fonte do pátio interior e o outro a uma bica, que estava no jardim, junto ao alçado nascente do solar.



A mina que dava para o caminho público (imagens cedidas por Humberto Ferreira)


A mina confinava a Poente com um muro, que separava a propriedade do caminho público. Do outro lado do muro, existia também um cano, onde a população se abastecia de água. Eram sempre as raparigas que iam buscar água à fonte em grandes cântaros, que punham à cabeça, desafiando as leis da Física. Esta actividade era aliás um dos poucos momentos de liberdade das jovens, aproveitado para namoricos, de tal forma, que nos séculos XVIII e XIX se chegou a usar como eufemismo para a perca da virgindade, a expressão "partir a cantarinha". Todos nos recordamos da velha cantiga infantil, as pombinhas da catrina, que diz minha mãe mandou-me à fonte e eu parti a cantarinha, ó minha mãe não me bata que eu ainda sou pequenina..."


Reparem neste quadro O cântaro quebrado de Jean-Baptiste Greuze (1725-1805), que está no Museu do Louvre, que mostra a jovem com o cântaro quebrado, o ventre proeminente, que tenta esconder sem grande sucesso e um ar triste, de que quem fez asneira da grossa.


Mas voltando à Mina, depois de servir a fonte pública, o remanescente da água, passava por debaixo do caminho público e iá irrigar uma outra propriedade da família, a poente da casa, onde havia sempre hortas.