terça-feira, 4 de maio de 2010

Arqueologia dos contentores das obras ou azulejos antigos gratuitos


Mantenho o hábito de me dedicar à arqueologia nos contentores das obras do centro da cidade de Lisboa e os resultados são surpreendentes. Só numa semana, arranjei uns oito azulejos.

Encontrei a primeira fornada perto da minha rua, naqueles sacos de serapilheira branca, que os homens usam para colocar os restos de demolições, nos bairros com ruas estreitas. Farejei-os, comecei a escavar, escavar e arranjei uns seis. Penas que sejam quase todos desirmanados.

O Manel acha que quando isto voltar a acontecer, eu devia chama-lo para ele vir com a sua carrinha e transportarmos os sacos todos para vê-los um a um e retirar todos os azulejos. O pior é que moramos os dois em terceiros andares sem elevador. Em todo o caso é tentador tal é a estupidez das pessoas que fazem obras nestas casas da velha Lisboa, que deitam tudo fora. Muitos dos azulejos que aqui apanhei estão numerados no verso o que nos indica que terão feito parte de um painel. Os restos do friso com uma ramagem parecem-me da primeira metade do XVIII. No centro terá havido uma composição qualquer, da qual sobreviveu a cabeça deste cão com um ar feroz.

O segundo achado decorreu numa ruela qualquer que sai das escadinhas do Duque. Apesar de estar todo pintado de branco, vislumbrei-o logo. Estranhei ser de um tamanho muito pequeno e pensei que fosse talvez um azulejo do século XIX, daqueles que costumam ornamentar os prédios daquele bairro. Contudo era muito espesso para ser uma peça já industrial do século XIX. Cheguei a casa e raspei-o da tinta, que o cobria e descobri maravilhado um azulejo de padrão azul, verde e amarelo do século XVII.

Não sei muito bem o que vou fazer deles. A maioria são desirmanados, mas o cachorro vai ser embutido na parede e tenho que expor obrigatoriamente o do século XVII, mas não sei como. Só gosto dos azulejos encastoados nas paredes. O problema vai ser se um dia eu mudar de casa. Vou ter que mandar picar tudo

Os restantes ficarão aguardar no meu arquivo de azulejos achados na rua, que já vai nuns trinta exemplares

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O sino da capela do Solar dos Montalvões continua a tocar



As investigações arqueológicas e policiais do Humberto Ferreira conduziram a mais uma descoberta dos restos da capela de Sta Rita, do Solar dos Montalvões, em Outeiro Seco, no Concelho de Chaves. Com efeito, o Humberto redescobriu o sino da capela do Solar, instalado na torre sineira dum pequeno templo na mesma aldeia, a capela de Nossa Senhora do Rosário. Talvez o meu pai me tivesse falado do paradeiro do sino, há uns anos, mas na altura não liguei.
O Humberto descobriu que o referido sino pertenceu ao solar, ao conversar com os cuidadores da capela da Capela de Nossa Senhora do Rosário, a Sra. D. Cidália e o seu marido Sr. José Serra. Logo após a venda do Solar, no início dos anos 80, o sino foi retirado e foi parar aos depósitos do Museu da Região Flaviense, mas 1990, por acção de um presidente da Junta de Freguesia, o Sr. Eliseu, regressou a Outeiro Seco, onde ganhou de novo a função para a qual foi talhado, badalar momentos importantes da comunidade.
Uma vez que está colocado num sítio tão alto, o Humberto experimentou dificuldades em tirar fotografias a todo o sino. Teve que fazer duas tentativas e só na segunda, mediante o auxílio de uma escada de 6 metros e de muitas pessoas, que por ali andavam, conseguiu fotografar todos os lados do sino. Apresenta as seguintes inscrições IOZEE, MARIA e uma data 1790.
No lado oposto do sino, está representada uma cruz formada por estrelas em relevo encimada pelo cristograma IHS. Estas três siglas por sua vez tem uma pequena cruz inclusa

As letras IHS são aquilo que de forma erudita se designa por cristograma, isto é um monograma ou uma combinação de letras que formam uma abreviatura do nome de Cristo. IHS é mais comum desses cristogramas e tem origem nas três primeiras letras do nome grego de Jesus, iota-eta-sigma, ou ΙΗΣ. A letra grega iota é representada pelo carácter latino I e a eta por um H. A letra grega sigma devido a uma questão de parecença é representada por um S. Como no passado, mais precisamente até ao século XVII, o J e o I não se distinguiam bem no alfabeto latino, este Cristograma pode também aparecer sob variante JHS.
Por vezes IHS também é interpretado como as iniciais da expressão latina Iesus Hominum Salvator (jesus Salvador dos homens) ou ainda de outra expressão célebre In Hoc Signo, que Cristo teria dito a Constantino na batalha de Mílvio (por este Signo vencerás) e que mais tarde reaparecerá no milagre de Ourique.
A julgar pela data, 1790, o sino terá sido encomendado para o solar no tempo de Antónia Maria de Montalvão Morais (1732-1809)(n.20 do livro Os Montalvões), que na altura já se encontrava viúva do seu marido, Miguel Alvares Ferreira, falecido em 1779, ou talvez ainda por algum dos seus filhos mais velhos.
Os sinos tinham funções muito importantes nas comunidades rurais. Assinalavam momentos importantes da comunidades, as mortes, baptizados, casamentos e festas religiosas ou situações de emergência, em que se tocava a rebate. Existiam vários fabricantes de sinos em Portugal e eram normalmente encomendas solenes e imagino que onerosas. Por exemplo em França, um sino tinha sempre uma Madrinha e um Padrinho. Na Rússia há inúmeras lendas que envolvem a fundição de enormes sinos. Dizia-se que para a liga resultar era necessário atirar uma virgem para dentro do cadinho, onde se fundiam os metais. Outras vezes era o próprio mestre sineiro quem se sacrificava, atirando-se para o caldeirão a ferver. O sino é um objecto que desperta sempre as imaginações.

O sino estaria colocado na fachada sul da capela, apoiado numa estrutura que já ruiu. Ando a procura de uma fotografia antiga onde se veja a localização original do sino.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Mais um tesouro reencontrado: o retábulo da capela do Solar dos Montalvões, em Outeiro Seco

Esta tem sido sem dúvida uma semana feliz. O Humberto Ferreira procedeu a uma verdadeira investigação arqueológica e policial por Outeiro Seco e Chaves e aos poucos foi juntando informações, que ouviu aqui e ali e localizou mais uma importante peça, que estava originalmente na capela de Sta. Rita do Solar de Outeiro Seco.

Ao conversar com os cuidadores da Capela de Nossa Senhora do Rosário, um pequeno templo na mesma povoação, a Sra. Dª Cidália e o seu marido o Sr. José Serra, foi informado por este último, que o retábulo, a parte frontal do altar mor, se encontrava actualmente na Casa de Cultura Popular de Outeiro Seco. O Humberto telefonou de imediato à senhora Presidente da Casa da Cultura, Antonieta Melo, marcou uma entrevista, deslocou-se à dita instituição e explicou-lhe mais ou menos o que procurava, uma peça de grande tamanho. A senhora respondeu-lhe só se for isto, apontando para o alto de um muro, a uma altura de 3 metros.

Segundo as palavras sentidas do Humberto, que transcrevo de seguida Ao olhar para cima, senti como um vazio no estômago, reconheci as cores do Altar de Santa Rita, os mesmos tons de azul e de vermelho, é uma peça linda. Nunca pensei que pudesse sentir esse tipo de coisas em adulto.

Estava encontrado o retábulo do altar da capela do Solar dos Montalvões!

Na fotografia imediatamente abaixo destas linhas, assinalo com uma seta a localização original do retábulo na capela de Sta. Rita, para que os leitores possam ter uma pálida ideia da magnificência do conjunto original. No centro do altar é perceptível a mancha que ocupava o Cristo, o Senhor dos Aflitos, que se encontra hoje no Museu de Arte Sacra de Chaves

Segundo a Sra. Presidente da Casa da Cultura, Antonieta Melo, quando tomou posse, o retábulo estava num canto misturado com o lixo e decidiu então emoldura-lo e coloca-lo na parede para o melhor proteger. Segundo a referida Senhora a peça teria sido tirada do Solar, logo após a sua venda, para poupa-la a eventuais vandalismos. Como já repararam não sou um homem muito dado aos adjectivos. Creio que até sou muito económico no seu uso, mas para agradecer ao Humberto Ferreira, ao José Serra e à Antonieta Melo sinto que precisava de usar adjectivos fortes e qualitativos, mas como me soam sempre a falso, limito-me a um simples e português, bem hajam!!
Fotos do Retábulo são do Humberto Ferreira e a do altar mor é do Manel

terça-feira, 27 de abril de 2010

A descoberta de um tesouro perdido da Capela do Solar dos Montalvões


Para os que acompanham este blog há pouco tempo, convém explicar que venho descrevendo uma velha casa solarenga que pertenceu à minha família paterna, os Montalvões e que se situa na aldeia de Outeiro Seco, perto de Chaves. A casa foi vendida nos anos 80 à Câmara Municipal de Chaves e hoje é uma ruína de partir o coração. Usando as memórias compiladas pelo meu pai, fonte incontornável do blog, tenho vindo aqui a costurar uma espécie de pequenos artigos, que pretendem reviver destinos passados do Solar e das pessoas, que por lá viveram.

Uma das coisas de que se tinha completamente perdido o traço era o recheio da capela particular da casa, isto é os, os santos e as alfaias religiosas. A minha avó Mimi que fez um inventário mais ou menos sistemático dos bens da casa, omitiu pura e simplesmente o recheio da capela. Chegámos a pensar que tudo teria sido pilhado e vandalizado. Numa troca de comentários com o Humberto Ferreira, um natural de Outeiro Seco, referi que o meu pai há muito tinha recebido um telefonema da Câmara municipal de Chaves pedindo-lhe se tinha uma relação dos santos existentes na capela. O nosso seguidor Humberto foi iluminado por uma espécie de clarão e no momento a seguir estava a telefonar a um rapaz de Outeiro Seco, que trabalha no Museu da Região Flaviense, mandou mails, fez mais telefonemas, escreveu uma carta registada à Câmara de Chaves e em três tempos já estava armado de uma máquina fotográfica nos depósitos e nas salas do Museu, acompanhando com o Carlos Félix ( o tal rapaz filho da terra). Em menos de uma semana, o Humberto descobriu o paradeiro dos Santos da Capela, fotografou-os a todos e fez-me chegar as imagens à minha caixa do correio!!!!!

Fiquei sem palavras de alegria, pensando que afinal nem tudo corre mal neste Portugal amargurado pela crise e a achar que o Humberto e o Carlos Félix foram como aquela equipa de arqueólogos britânicos, que trouxeram à luz do dia, em 1922, o túmulo de faraó egípcio Tutancâmon.

Nos anos 80, quando o Solar foi comprado o recheio da capela encontrar-se-ia lá na íntegra. Nessa época, o Carlos Félix, sugeriu ao presidente da autarquia de então, o Eng. Branco Teixeira, que era melhor recolher as imagens num depósito da Câmara antes que fossem roubadas, e é talvez graças a ele, que hoje podemos admirar duas estupendas imagens no Museu de Arte Sacra, um Cristo Senhor dos Aflitos e um Salvador do Mundo provenientes do Solar. As restantes encontram-se em nos depósitos do Museu da Região Flaviense, longe dos olhares do público, mas apesar de tudo a salvo da vilanagem.

Passarei então uma breve descrição das obras:

1- Encerrado numa maquineta que não proveio do Solar, o Cristo Senhor dos Aflitos é uma peça em marfim muito bonita, que julgo ser de produção oriental, certamente fabricada na Índia, para ser vendida na Europa. A Cruz parece talvez pau santo, mas o Manuel que é entendido em madeiras o dirá.

2- Também no Museu de Arte Sacra está o Cristo Salvador do Mundo. Transporta uma esfera que representa o mundo e o sacrifício feito na cruz para salvar a humanidade. Será certamente do século XVIII.
Depois no depósitos do Museu da Região Flaviense encontram ainda as seguintes peças:

- Uma Nossa Senhora da Conceição assente na característica meia-lua, que é muito ingénua, muito popular, um verdadeiro encanto. A senhora é coroada, pois D. João IV nas aflições da luta contra os espanhóis durante a Restauração ofereceu-lhe a Coroa de Portugal em troca da sua ajuda na guerra. É desde esse tempo padroeira de Portugal
- Uma Nossa Senhora. que está tomada como Senhora da Lapa, mas que eu julgo ser a Senhora da Assunção ou mais exactamente da Glória. O tema representa a morte de Nossa Senhora, a entrada da sua alma e do seu corpo no seu céu, em gloriosa Assunção. Tem por isso na base os anjos que servem para a transportar para o céu e a coroa de glória. As senhoras da Glória e da Assunção tem significados e representações idênticas, só que as primeiras costumam ter também o menino Jesus na mão, igualmente coroado. O Carlos Félix chamou a atenção para o facto de a escultura estar fixa numa tábua com quatro furos, pelo que é muito provável, que tenha sido armado o andor e saído em procissão. Também segundo o referido Senhor, era esta imagem que estava no centro Altar-mor da Capela de Santa Rita, quando foram recolhe-las nos anos 80
- Uma santa que está dada como Santa Ana e que eu julgo ser Sta. Teresa de Ávila. Normalmente Santa Ana é representada juntamente com a Virgem, muitas vezes ensinando-a a ler e muitas vezes ainda com o menino Jesus, formando um trio. Esta imagem deve ser Sta Teresa de Ávila, pois está vestida de Carmelita, em atitude de êxtase, enverga um livro, pois é a primeira doutora da Igreja e na outra mão deve ter tido uma pena, alusão aos seus dotes de escritora mística.
Compare-se esta imagem com a do Museu de Abade Baçal e veja-se se não representam a mesma Santa, embora a do Museu Brigantino tenha um traje mais esplendoroso
- Um Sta. Rosa. Parece-me a Sta Rosa de Lima. Embora originária do Peru, a devoção a esta Santa era muito popular em Portugal. Apresenta a coroa de espinhos característica desta figura. Contudo a Santa Rosa de Lima era dominicana e o traje desta imagem parece-me de uma franciscana, o que me leva a crer que poderá ser a Santa Rosa de Viterbo. Em todo o caso, esta imagem teve qualquer atributo nas mãos, que se perdeu entretanto e que poderia ajudar a identificar melhor qual das Santas Rosas se trata. Ler mais sobre este assunto.
- Uma Santa Rita de Cássia, o orago da capela. Advogada das causas impossíveis e dos terramotos a sua devoção em Portugal foi muito popular, sobretudo depois do grande sismo de 1755. A iconografia é muito típica conforme se pode ver pelo registo pertencente à Casa Sarmento , que apresento em seguida
- Por último, a minha imagem preferida, um Santo António de Lisboa lindo de morrer, segurando um menino Jesus igualmente encantador. Não tenho palavras para descrever esta imagem. As fotografias falam por si. Os historiadores de arte referem muitas vezes que uma característica fundamental da arte sacra portuguesa é uma certa familiaridade e esta imagem dá-lhes razão. Apetece beijar o menino e o Santo é apenas um irmão mais velho, que os pais encarregaram de tomar conta de Jesus enquanto sairam para trabalhar. O Humberto fez mais descobertas surpreendentes, mas essas ficam para um próximo capítulo. Em todo o caso, em nome dos membros da família Montalvão que ainda se importam com a casa, quero-lhe agradecer a ele, ao Carlos Félix e à Câmara Municipal de Chaves a redescoberta dos Santos do Solar. O Meu pai tinha razão, as pessoas de Outeiro Seco são uma gente especial.




Para saber mais sobre a capela ver post de 14 de Abril

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O leque da Mimi

A minha avô paterna Maria Montalvão Cunha gostava do passado. Estimava as coisas antigas. Já aqui terei escrito muitas vezes que gostar de história, conservar objectos dos antepassados é uma forma de fugir ao presente e uma atitude romântica e certamente essa classificação servia à minha avô Mimi como uma luva. Talvez por se refugiar nesse mundo dela, da literatura e da história, fosse uma pessoa egoísta, mas que me interessa a mim julgar os que já deixaram este mundo?

Gostava dela e na sua casa pequena, impecavelmente mobilada e desconfortável, onde tudo tinha uma função decorativa e nunca prática, aprendi a gostar dos objectos antigos, a perceber que eles podiam transportar histórias antigas de gente que já morreu, de épocas desaparecidas e que isso era divertido, tal como uma série histórica produzida pela BBC e que antigamente a televisão pública passava em horário nobre.



Maria de Montalvão Cunha


Um dos objectos que recebi dela é este leque pelo qual tenho uma paixoneta. Adoro a figura central, uma espécie de gnomo montado num gafanhoto. Tenho a ideia que será talvez a ilustração de algum conto infantil dos irmãos Grimm, de Perrault ou talvez de uma fábula de Ésopo ou La Fontaine. Aliás toda a decoração do leque é muito suave e alegre, própria para uma menina prestes a entrar na adolescência. Não sei de quem a minha avó o recebeu. Se da mãe dela, a Ana Alves ou se da Maria do Espírito Santo Montalvão, sua avô paterna, a senhora que se envolveu em amores com o Padre Rodrigues Liberal Sampaio. A decoração suave evoca a primeira metade do século XIX, mas não tenho a certeza da sua época

Mas, independentemente de conhecer a sua proveniência exacta, contemplar este leque na minha sala é uma boa maneira de me lembrar da Mimi

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Velhas histórias do Solar dos Montalvões: as visitas de Madame Carmona

Volto hoje ao solar de Outeiro Seco, ao tempo em que era uma grande casa rural, em que as paredes estavam caiadas e era habitada por uma família numerosa. Nos anos 30 e 40 a família Montalvão tinha-se tomado de grandes amizades com Madame Carmona, a mulher do Presidente da República de então, António Óscar de Fragoso Carmona (1928-1949). Não sei exactamente como começou a esta relação de amizade, mas houve imensas oportunidades para travarem conhecimento. Maria do Carmo Ferreira da Silva Fragoso Carmona era natural de Chaves (1879 - 1956) e já primeira-dama, mantinha o hábito de ir para as termas de Vidago, fazer a sua cura anual de águas. Portanto, proporcionaram-se certamente ocasiões para algum dos Montalvões e a Madame Carmona tomarem-se de amizades.

Esta relação tornou-se uma coisa forte e viram-se repetidas vezes. O Presidente Carmona visitou o solar várias vezes e só quando o mais alto dignitário da nação lá entrou, a família, tradicionalmente monárquica, mandou retirar a bandeira azul e branca, que continuava hasteada na casa, apesar da república ter sido em 1910 e coloca-la no Museu. A bandeira monárquica ficou em exposição no museu até a altura em que a casa foi vendida. Que será feito dessa bandeira?

Todos os anos ou quase todos os anos, a Madame Carmona alojava-se no Palace de Vidago para fazer os seus banhos termais e a família embandeirava em arco para fazer uma visita de cortesia à augusta senhora. O marido, o Carmona, acompanhava-a, mas creio que ficava menos tempo. Nesse período, o meu bisavó, José Maria Ferreira Montalvão, que nunca tirou a carta de condução na vida, colocava a família engalanada nas suas melhores roupas dentro do grande Opel Modelo B18 de 1931, pegava no volante e lá iam eles estrada fora em direcção a Vidago, buzinando, matando galinhas, cães e gatos e às vezes até burros.



OPEL. modelo B18- 1.8 (1931) em todo idêntico ao do meu bisavô, excepto a matrícula, que era MN-20-08 e a cor que era azul escuro. Imagem retirada de http://www.doidosporclassicos.com/


Ao que parece a sua fama de mau condutor era de tal ordem, que quando chegava ali largo do arrabalde em Chaves, o sinaleiro mandava parar o trânsito todo para o meu bisavô passar no seu potente Opel de 6 cilindros em linha (Segundo consta, no Natal, o meu bisavô presenteava sempre os polícias de Chaves com umas garrafinhas de vinho fino, para lhe perdoarem as muitas azelhices). Depois, seguiam para Vidago e lá faziam a visita à Madame Carmona.

Vemos aqui esta fotografia de grupo tirada em 1940 frente ao Palace de Vidago. Madame Carmona é facilmente reconhecida pela estola de raposa e o ar majestático. O senhor e a senhora de óculos, bem com a senhora de casaco de malha são da entourage da Madame Carmona e os restantes são os meus bisavós, os meus tios avós e a minha avô Mimi.
Madame Carmona em Outeiro Seco, no jardim da fachada Nascente do Solar dos Montalvões

Madame Carmona retribuía sempre a visita e ia frequentemente ao solar, conforme se pode ver nesta fotografia, tirada no jardim que existia a Nascente da casa, numa álea cheia de hortênsias azuis. Sentada numa cadeira de tesoura está a minha bisavô Aninhas. À esquerda, encontra-se a Tia Marica de quem já falei aqui, depois a sua dama de companhia, no centro Madame Carmona, que segura nos ombros da minha bisavó e finalmente o meu tio Luís, que era um grande janota. Estas visitas eram importantes para a terra, e a banda deslocava-se especialmente à casa e tocava uma fanfarra qualquer. No Solar, a Madame Carmona recebia muita gente aldeia e do Concelho, que lhe pedia isto e aquilo, favores de diversa ordem. Uma pedia-lhe para livrar o filho da tropa, o outro um emprego nos correios e aquele outro uma transferência na administração pública. Havia um Imediato da Casa da Presidência, que ia anotando tudo num carnet. Segundo consta, Madame Carmona, que nunca esquecia as suas origens flavienses, sempre que possível, dava andamento aos pedidos dos seus conterrâneos. Os meus tios avós arranjaram todos emprego nessa Época...

Enfim, todos nós sabemos que em Portugal, a coisa sempre funcionou com um conhecimento aqui, uma palavrinha certa acolá e pronto, os processos andam, a coisa resolve-se e palavras para quê.

Normalmente, quando a Madame Carmona vinha a Chaves organizavam-se grandes idas a Espanha para fazer compras. Na altura, as fronteiras estavam fechadíssimas e comprar um pacote de café, azeite ou bolachas podiam representar sarilhos gravíssimos com a Guarda fiscal. Mas, quando a enorme comitiva de Madame Carmona voltava de Verin, em Espanha, com os carros carregados de compras, de vestidos, comida, carrinhos de bebé nos tejadilhos, a Guarda fechava os olhos e lá passava uma caravana de 10 ou 15 automóveis.

Em Lisboa, os meu tios eram, também convidados frequentes da cidadela de Cascais.

Ao que parece Madame Carmona teria tido uma origem humilde e a sua relação inicial com Óscar Fragoso Carmona está envolta num certo mistério. Só legalizaram o casamento em 1914, depois de já terem três filhos. Dizia-se que era pouco instruída e que cometia numerosas gaffes, das quais resultaram muitas anedotas. Numa dessas piadas, que foram populares na altura, conta-se que alguém chamou à atenção a Madame Carmona para evitar dizer constantemente a Gente fez, a gente foi inaugurar um fontanário, a gente fomos convidados e que em lugar de a gente, era mais correcto dizer nós, como por exemplo, nós fomos, nós vimos uma ópera, etc. A Madame Carmona acatou sensatamente o conselho e um belo dia, em que ela e o marido numa qualquer visita oficial foram surpreendidos por uma enorme manifestação espontânea, daquelas que o Estado novo gostava muito de organizar, teria exclamado Olha, tanta nós!!!

Enfim, não sei se corresponderá à verdade. Até porque muitas das anedotas que correram sobre a Madame Carmona, voltaram-se a contar exactamente iguais acerca da Gertrudes Tomás e de outras primeiras-damas.

Mas, os flavienses devem-lhe muito e olhando para as suas fotografias não podemos deixar de pressentir uma personalidade forte, uma mulher imponente que não andava ali a ver passar comboios.

Um santo que parece um Deus Grego ou o Martírio de S. Lourenço por Baccio Bandinelli

Tenho em minha casa há muitos anos esta gravura representando o martírio de S. Lourenço. Foi impressa por um dos mestres gravadores mais conceituados nesta arte, Armand-Durand (1831-1905), que teve o seu atelier em Paris. Trabalhou sobretudo com obras dos grandes artistas dos séculos XV, XVI e XVII, que eram aqueles que ele mais admirava, realizando para esse efeito aturadas pesquisas nas colecções privadas e públicas.

Os irmãos Van Gog, Vicent e Theo tinham uma admiração enorme pela obra de Armand-Durand.

Armand-Durand notabilizou-se sobretudo pelas gravuras que executou da obra do pintor holandês Rembrandt. Como na época, as pranchas de cobre das gravuras originais do pintor holandês eram pouco conhecidas e não apareciam nos mercados de antiguidades, a partir de um estudo minucioso das gravuras e quadros existentes, o artista francês executou um caderno de pranchas de cobre absolutamente magnifico. As gravuras executadas a partir desse caderno de matrizes tornaram-se apreciadíssimas em toda a Europa. Nos anos 80 do século XX, esse caderno com pranchas de cobre que estava nas mãos da família Dominique Vincent foi alvo de uma disputa renhida entre o Museu do Louvre, a Bibliotéque Nationale de França e um marchand americano de arte. O americano venceu a disputa e levou para a casa as 348 pranchas de cobre.

Esta minha gravura terá sido pois imprensa na segunda metade do século XIX, em Paris por Armand-Durand, mas infelizmente não foi feita a partir de nenhum Rembrandt, porque senão, eu poderia vende-la e dar talvez uma entrada para um carro novo, que o meu já começa a dar sinais de cansaço. Terá sido executada para o mercado português e brasileiro da época, que devia justificar monetariamente a encomenda, pois como já sabemos, no século XIX as obras com temas piedosos eram altamente apreciadas nas lusas paragens, ainda que este S. Lourenço tenha um corpo capaz de tentar as mais devotas e os mais tementes a Deus...
O mestre gravador francês usou uma obra de Baccio Bandinelli (1493-1560) um pintor, escultor e desenhador do Renascimento italiano, que teve o azar de ser contemporâneo de Miguel Ângelo, e por essa razão foi sempre visto como um artista mediano, já que suas esculturas e pinturas sofriam sempre com comparação das obras primas saídas da mão do Buonarroti. Bartolommeo Bandinelli ou Baccio Bandinelli como ficou conhecido, era filho de um ourives florentino e trabalhou mais ou menos toda a vida sob mecenato dos Médicis. Dele os críticos diziam, que era um excelente desenhador, um óptimo escultor de obras em pequena escala, mas infelizmente só gostava de executar esculturas colossais, para as quais lhe faltava definitivamente o talento e a mestria de execução de Miguel Ângelo.

Este martírio de S. Lourenço que aqui vemos fazia parte de um projecto para um grande fresco, encomendado pelo Papa Clemente VII, para a capela de S. Lourenço em Florença e que nunca chegou a ser concretizado. Percebe-se assim porque é que o desenho é tão arquitectural, pois destinava-se a preencher o espaço de uma grande parede. Temos assim uma composição repleta de personagens num vasto espaço arquitectónico, mas que não negligencia a legibilidade da cena central, o martírio do santo na grelha. O fundo arquitectónico à antiga, elaborado com um forte eixo de simetria, com o efeito das aberturas e jogos dos planos, confere uma teatralidade dramática ao martírio de S. Lourenço.

O S. Lourenço encontra-se nu e apresenta um corpo de atleta, como só os gregos, romanos e artistas do renascimento italiano souberam desenhar ou talhar. Veja-se este admirável torso masculino de Baccio Bandinelli também do Louvre.

Como já escrevi anteriormente, esse fresco, não chegou ser executado, porque entretanto os Médicis, patronos da obra caíram em desgraça. Mas conservaram-se esboços e gravuras. Descobri um dos esboços na base de dados, Joconde, guardado no Museu do Louvre.

Baccio Bandinelli teve também tempo de dar um dos desenhos do projecto a um gravador célebre na altura, Marcantonio Raimondi (colaborador de outro génio do renascimento, Rafael) que executou esta gravura em 1526. O British Museu conserva um exemplar com esta data, que aqui reproduzo.

Alguns séculos mais tarde, no Século XIX, Amand-Durand que admirava incondicionalmente o renascimento, reimprimiu esta gravura de Baccio Bandinelli, que os críticos hoje em dia tendem a valorizar mais, sobretudo pelos seus méritos de desenhador, que bem podemos apreciar neste martírio de S. Lourenço

Legenda:


Marthyrio de S. Lourenço, Diácono
10 de Agosto de 258
Desenho de Baccio Bandinelli gravado por Marco António em 1526 pouco mais ou menos e dedicado ao Santo Padre Clemente VII. Ao Centro vê-se o perfeito Cornélio Secularis, rodeado de membros do Senado e dando ordem aos carrascos. Mais acima uma varanda cheia de Christãos pobres, a que o santo distyribuira os thesouros da Egreja e que o prefeito reclamava. S : Lourenço meio deitado nas grelhas ergue-se e confirma com o gesto estas Formosas palavras “ aquellas virgens, aquelles desvalidos, aquellas viúvas é que são os thesouros da Egreja” Trazem os carrascos materiaes combustíveis para atear a chama , um d’elles armado de um forcado forcejava para derrubar o Santo sobre o seu leito em brasa