sexta-feira, 14 de maio de 2010

Um feroz cão de guarda

Recordam-se daqueles azulejos que apanhei recentemente do lixo?

Pois bem, o azulejo com feroz mastim já encontrou o seu lugar na parede e vê-se logo, mal se abre a porta lá de casa. Talvez assuste um ou outro rato que por lá insiste em aparecer, apesar de um aparelho que já lá coloquei, daqueles que emitem sons desagradáveis para os roedores. Antigamente, tinha que os envenenar com trigo roxo, o que era sempre desagradável. Nunca tive muito feitio para Bórgia.

Lá fiz um roço na parede e coloquei-o com cimento cola. Contudo, pouco depois de o encastoar na parede, um dos leitores deste blog, o Alberto, especialista em restauro informou-me de um método estupendo para inserir os azulejos na parede, que permite retira-los sem os partir, caso se mude de casa. O segredo é usar uma argamassa, que mistura 4 partes de areia fina com 2 partes de cal hidráulica. Segundo o Alberto, esta argamassa sai com água e por isso podemos sempre voltar a tirar os velhos azulejos da parede, sem danifica-los.

Segundo me disse o Alberto, esta argamassa era abundantemente usada pelos romanos, que, como toda a gente sabe eram um povo de construtores civis, que faziam obras práticas e sólidas, feitas para durarem uma eternidade. Se era usada pelos romanos, então é certamente um material de confiança.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O balcão alpendrado do Solar dos Montalvões

Há uns quatro anos ou cinco anos, quando voltei a visitar o Solar dos Montalvões, em Outeiro Seco, um dos sítios por onde tentamos entrar na casa foi por onde antigamente existia o jardim e um balcão alpendrado.
Penetrar no mato denso que ali se formou entretanto constituiu uma aventura. No entanto, fiquei quase comovido ao ver no meio dum silvedo uma hortênsia com uma grande flor azul, a lutar ainda pela vida. Fez-me recordar como foi aquele espaço há trinta anos atrás. Era formado por uma alameda, onde do lado da casa existiam hortênsias azuis e por um pequeno pátio, servido por uma bica, sempre com água a correr. Recordo-me bem da sensação frescura de lá meter a mão, pois claro, um garoto não resiste a brincar com água.

Segundo o meu pai, “todo o jardim era coberto por um dossel de videiras [bem visível na fotografia], que proporcionavam um espaço de sombra e frescura e ainda uma atmosfera de sombra verde. Havia encostado num dos muros do jardim, uma coluna de pedra trabalhada”. Ainda segundo o meu pai, esta coluna de pedra “deveria servir para uma das muitas obras que não foram completadas”.
Essa coluna foi hoje transferida para uma área, ajardinada junto à Igreja de Nossa senhora da Azinheira. Reproduzo aqui duas fotografias tiradas pelo nosso amigo Humberto.
Este jardim conduzia a uma escadaria em pedra, para onde se subia para um balcão alpendrado, mobilado com peças simples e rústicas. Uma delas, uma cadeira em tesoura ainda veio parar as minhas mãos, mas desfez-se em pedaços roída pelo caruncho, no tempo em que ainda vivia na Av. do Uruguai. As colunas do alpendre eram em granito e muito bonitas. Hoje, estão a partir-se pela pressão das raízes de uma hera.

Na primeira fotografia que aparece no post, encontram-se debaixo deste alpendre, a minha avô Mimi, o meu bisavô José Maria Ferreira Montalvão, uma menina, talvez a irmã do meu pai e ainda um fiel Piruças, de que a história não guardou registo. Nessa fotografia é Verão, conforme se pode ver pelas mangas curtas da minha avó e da menina. Com efeito, o jardim e este balcão eram zonas da casa muito frescas e procuradas por toda a família durante o Verão, que é uma estação muitíssimo quente em Outeiro Seco. Mesmo quando já só vivia uma velha criada perfeitamente só naquele velho casarão, na década de 70, continuavam-se a fazer reuniões familiares nestas duas áreas e é desse tempo que datam as minhas escassas memórias desta parte da casa.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A escadaria do patio interior do Solar dos Montalvões

No álbum de fotografias do meu pai, descobri mais uma fotografia do pátio interior do Solar dos Montalvões em Outeiro Seco, datada da década de 30. Mostra o meu bisavô José Maria Ferreira Montalvão, o meu avô paterno Silvino da Cunha e a criança será a irmã do meu pai, Maria Helena que ainda está viva. Mas, talvez o melhor da fotografia, seja o pormenor com que se pode ver a voluta final da escadaria.
Na porta do topo da escadaria, está uma data, 1782, que conforme eu referi no post 23 de Outubro de 2009 deve referir-se à data de construção da escadaria. Tal como o sino, esta obra terá sido feita no tempo Antónia Maria de Montalvão Morais (1732-1809)(n.20 do livro Os Montalvões), que na altura já se encontrava viúva do seu marido, Miguel Alvares Ferreira, falecido em 1779, ou talvez ainda por algum dos seus filhos mais velhos.

Segundo J. T. Montalvão afirma na sua obra, Os Montalvões, terá sido o sogro desta Senhora, o Capitão José Alvares Ferreira o principal construtor da casa, ou conforme interpreto eu, foi o responsável pela fachada nobre do edifício, que dá para o lado sul. O único brazão da casa, que se encontra nessa fachada é dos Álvares Ferreira. Os Montalvões aparecem nesta casa por via do casamento em 1746 desta Senhora, Antónia Maria de Montalvão Morais com Miguel Alvares Ferreira, filho do tal capitão de cavalos, José Alvares Ferreira. A Antónia Maria morava ali numa povoação ao lado, Vila de Frade, os dois pertenciam mais ou menos ao mesmo meio, fidalguia rural e o casamento entre os dois deve ter sido combinado espontaneamente entre os pais. A pequena Antónia Maria casou com 14 anos, acto que hoje seria considerado pura pedofilia, mas na época era comum casarem as raparigas um ou dois anos depois da primeira menstruação.

Todos os descendentes deste matrimónio, inclusive eu, deviam chamar-se Álvares Ferreira, em vez de Montalvão, mas na época, em que aquele casal viveu e gerou os seus filhos, pelo menos na zona de Chaves, transmitia-se o nome à espanhola, isto é, o nome ou nomes do pai eram colocados logo a seguir ao nome próprio. Mais tarde, julgo eu, que já no início do Século XIX, passaram a usar a regra portuguesa, em que o último nome é o principal e os meus antepassados passaram aos filhos Montalvão, o nome feminino, que já estava tão a jeito colocado no final, em vez de Álvares Ferreira.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Dia da Mãe


Há pouco tempo foi o dia da Mãe. Nem me lembro da data, pois estão sempre a muda-la consoante as estratégias das grandes superfícies, para nos coagirem a gastar mais dinheiro. Não fui visitar a minha Mãe. Há pessoas que morrem rapidamente, outras demoram muito tempo a partir e a minha Mãe é dessas que começou há muito a desapegar-se da vida, em virtude de uma doença prolongada. Já não sabe o que é o dia da mãe.

Coloco aqui uma fotografia da sua juventude, em Vinhais, daquelas imagens do esplendor da juventude com as quais gostamos de ser recordados para sempre, se é que “sempre” é possível, pois raramente sabemos muito mais sobre os nossos antepassados para além dos avós. Depois disso, o esquecimento leva tudo. As velhas cartas são rasgadas, deixa-se de saber quem são as pessoas representadas nas fotografias e num ápice apaga-se a memória de toda uma vida complexa. Ficam apenas os registos da conservatória. Fulano ou fulana de tal nasceu, casou, teve filhos e morreu.

Neste blog tenho sempre perseguido a memória. Deve ser talvez uma forma de esquecer que a morte existe e está próxima.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Chávenas inglesas do século XIX de Staffordshire

Tenho estas duas chávenas antigas, que nem sequer tem o pires. Uma delas tem a asa partida. Mas, encontro-lhes tanta graça. A bordadura é feita em folhas de parras e o fundo decorado com cachos de uvas e parras. A paisagem com um lago, cisnes, uma fonte e um palácio ao fundo era um motivo muito típico da faiança inglesa do século XIX. Já encontrei não sei quantas peças parecidas com decorações semelhantes nos sites de antiguidades americanos e ingleses, que dispõem de vastas colecções de faiança inglesa, mas nunca vi nenhuma igual a estas chávenas. Não estão marcadas. Só apresentam um 12, que deve representar o número do padrão ou o diâmetro da peça. Esta loiça com paisagens ou países como ficaram conhecidas em Portugal reflectia o gosto pelas viagens que os ingleses tinham, pois foram os primeiros europeus a fazerem turismo (o célebre grand tour) e alguns destes pratos eram como que postais ilustrados de cidades italianas, paisagens no Reno ou vistas do Bósforo. No entanto, creio que esta paisagem das minhas chávenas é imaginada, não corresponde à nenhuma realidade, mas antes ao conceito que se estipulava na altura do que era bonita paisagem, isto é qualquer coisa romântica com um lago, ruínas, palácios, cisnes e pares enamorados numa gôndola ou em contemplação, junto à margem.

Julgo que são de fabrico inglês, provavelmente da região de Staffordshire, onde estava concentrada a maioria das indústrias de faiança britânicas, que invadiram com os seus produtos a Europa e o mundo logo a partir do início do século XIX. Mas foram tantas as fábricas que laboraram nesta zona e nesta época, que a minha constatação equivale a dizer que a agulha que eu procuro está arrumada no palheiro.


A região inglesa de Staffordshire



No entanto, também já me lembrei que poderiam ser um fabrico antigo de Sacavém, já que esta fábrica com os seus patrões ingleses seguiu tão de perto as modas da velha Albion

terça-feira, 4 de maio de 2010

Arqueologia dos contentores das obras ou azulejos antigos gratuitos


Mantenho o hábito de me dedicar à arqueologia nos contentores das obras do centro da cidade de Lisboa e os resultados são surpreendentes. Só numa semana, arranjei uns oito azulejos.

Encontrei a primeira fornada perto da minha rua, naqueles sacos de serapilheira branca, que os homens usam para colocar os restos de demolições, nos bairros com ruas estreitas. Farejei-os, comecei a escavar, escavar e arranjei uns seis. Penas que sejam quase todos desirmanados.

O Manel acha que quando isto voltar a acontecer, eu devia chama-lo para ele vir com a sua carrinha e transportarmos os sacos todos para vê-los um a um e retirar todos os azulejos. O pior é que moramos os dois em terceiros andares sem elevador. Em todo o caso é tentador tal é a estupidez das pessoas que fazem obras nestas casas da velha Lisboa, que deitam tudo fora. Muitos dos azulejos que aqui apanhei estão numerados no verso o que nos indica que terão feito parte de um painel. Os restos do friso com uma ramagem parecem-me da primeira metade do XVIII. No centro terá havido uma composição qualquer, da qual sobreviveu a cabeça deste cão com um ar feroz.

O segundo achado decorreu numa ruela qualquer que sai das escadinhas do Duque. Apesar de estar todo pintado de branco, vislumbrei-o logo. Estranhei ser de um tamanho muito pequeno e pensei que fosse talvez um azulejo do século XIX, daqueles que costumam ornamentar os prédios daquele bairro. Contudo era muito espesso para ser uma peça já industrial do século XIX. Cheguei a casa e raspei-o da tinta, que o cobria e descobri maravilhado um azulejo de padrão azul, verde e amarelo do século XVII.

Não sei muito bem o que vou fazer deles. A maioria são desirmanados, mas o cachorro vai ser embutido na parede e tenho que expor obrigatoriamente o do século XVII, mas não sei como. Só gosto dos azulejos encastoados nas paredes. O problema vai ser se um dia eu mudar de casa. Vou ter que mandar picar tudo

Os restantes ficarão aguardar no meu arquivo de azulejos achados na rua, que já vai nuns trinta exemplares

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O sino da capela do Solar dos Montalvões continua a tocar



As investigações arqueológicas e policiais do Humberto Ferreira conduziram a mais uma descoberta dos restos da capela de Sta Rita, do Solar dos Montalvões, em Outeiro Seco, no Concelho de Chaves. Com efeito, o Humberto redescobriu o sino da capela do Solar, instalado na torre sineira dum pequeno templo na mesma aldeia, a capela de Nossa Senhora do Rosário. Talvez o meu pai me tivesse falado do paradeiro do sino, há uns anos, mas na altura não liguei.
O Humberto descobriu que o referido sino pertenceu ao solar, ao conversar com os cuidadores da capela da Capela de Nossa Senhora do Rosário, a Sra. D. Cidália e o seu marido Sr. José Serra. Logo após a venda do Solar, no início dos anos 80, o sino foi retirado e foi parar aos depósitos do Museu da Região Flaviense, mas 1990, por acção de um presidente da Junta de Freguesia, o Sr. Eliseu, regressou a Outeiro Seco, onde ganhou de novo a função para a qual foi talhado, badalar momentos importantes da comunidade.
Uma vez que está colocado num sítio tão alto, o Humberto experimentou dificuldades em tirar fotografias a todo o sino. Teve que fazer duas tentativas e só na segunda, mediante o auxílio de uma escada de 6 metros e de muitas pessoas, que por ali andavam, conseguiu fotografar todos os lados do sino. Apresenta as seguintes inscrições IOZEE, MARIA e uma data 1790.
No lado oposto do sino, está representada uma cruz formada por estrelas em relevo encimada pelo cristograma IHS. Estas três siglas por sua vez tem uma pequena cruz inclusa

As letras IHS são aquilo que de forma erudita se designa por cristograma, isto é um monograma ou uma combinação de letras que formam uma abreviatura do nome de Cristo. IHS é mais comum desses cristogramas e tem origem nas três primeiras letras do nome grego de Jesus, iota-eta-sigma, ou ΙΗΣ. A letra grega iota é representada pelo carácter latino I e a eta por um H. A letra grega sigma devido a uma questão de parecença é representada por um S. Como no passado, mais precisamente até ao século XVII, o J e o I não se distinguiam bem no alfabeto latino, este Cristograma pode também aparecer sob variante JHS.
Por vezes IHS também é interpretado como as iniciais da expressão latina Iesus Hominum Salvator (jesus Salvador dos homens) ou ainda de outra expressão célebre In Hoc Signo, que Cristo teria dito a Constantino na batalha de Mílvio (por este Signo vencerás) e que mais tarde reaparecerá no milagre de Ourique.
A julgar pela data, 1790, o sino terá sido encomendado para o solar no tempo de Antónia Maria de Montalvão Morais (1732-1809)(n.20 do livro Os Montalvões), que na altura já se encontrava viúva do seu marido, Miguel Alvares Ferreira, falecido em 1779, ou talvez ainda por algum dos seus filhos mais velhos.
Os sinos tinham funções muito importantes nas comunidades rurais. Assinalavam momentos importantes da comunidades, as mortes, baptizados, casamentos e festas religiosas ou situações de emergência, em que se tocava a rebate. Existiam vários fabricantes de sinos em Portugal e eram normalmente encomendas solenes e imagino que onerosas. Por exemplo em França, um sino tinha sempre uma Madrinha e um Padrinho. Na Rússia há inúmeras lendas que envolvem a fundição de enormes sinos. Dizia-se que para a liga resultar era necessário atirar uma virgem para dentro do cadinho, onde se fundiam os metais. Outras vezes era o próprio mestre sineiro quem se sacrificava, atirando-se para o caldeirão a ferver. O sino é um objecto que desperta sempre as imaginações.

O sino estaria colocado na fachada sul da capela, apoiado numa estrutura que já ruiu. Ando a procura de uma fotografia antiga onde se veja a localização original do sino.