sexta-feira, 30 de julho de 2010

Concha em faiança


Nas exposições de faiança que visitei recentemente, fiquei sempre com o nariz colado às vitrines onde se expunham as terrinas com a concha do mesmo motivo, cobiçando-as quase ao ponto de embaciar o vidro.

As conchas das terrinas e das molheiras em louça são raras. São sempre as primeiras peças do conjunto a partirem-se. As criadas brutamontes, as donas-de-casa desastradas e as filhas desajeitadas destruiram raivosamente estas peças frágeis e muito poucas chegaram aos nossos dias.

Consegui apanhar esta na feira de Algés e não consegui resistir ao seu encanto. É de pequenas dimensões e julgo que será mais a concha de uma molheira. Naturalmente não está marcada. O tipo de decoração não me parece saído das fábricas portuguesas que produziram faiança com a técnica transfer way, ou seja, Sacavém e Massarelos. O mais certo é ser de origem inglesa. No entanto, nestas coisas, é sempre bom deixar uma margem para a dúvida, pois amanhã poderei vir a descobrir que é portuguesinha da costa. Seja lá o que ela for, inglesa, francesa ou portuguesa, a pequena concha é um encanto

Claro, a peça seria mais valiosa, se estivesse acompanhada da respectiva molheira, mas Hélas, só consegui a concha. Pode ser que um dia, através de um golpe de sorte, consiga comprar um conjunto completo por bom preço

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Rue de Rivoli, gravura pelos irmãos Rouargue


Na Feira de Algés apanhei esta bela gravura de Paris, onde reconheci de imediato a Rue Rivoli, apesar duma tira de papel que lhe tapava a legenda, posta para disfarçar uma mancha de humidade, conforme pude descobrir, quando em casa a desencaixilhei.

Sempre gostei de Paris e confesso-me um bocadinho francófilo. Não que seja deslumbrado pela França ou que tenha vergonha pertencer a um País pouco desenvolvido como o nosso. Nada disso! Aprecio a o espírito e o brilho da cultura francesa e encanta-me o urbanismo de Paris, cujo reflexo podemos encontrar por toda a Europa, de Lisboa a Bucareste. Cláudio Magris, na sua obra de viagens inesquecível, o Danúbio, descreve Paris como o arquétipo platónico, que todas as cidades do Leste europeu imitaram nos finais do século XIX e princípios do século XX. Referia com muita graça, que a medida que se caminha para o Oriente e a imagem do arquétipo parisiense se desvanece, os prédios tornam-se mais opulentos, as cariátides mais ornamentadas, e a decoração mais delirante. Tive ocasião de visitar Budapeste e há zonas da cidade como o Octógono e a Avenida Andrassy que são interpretações magiares de Paris. Também em Praga, a avenida mais chique e com prédios de decoração mais opulenta, datados do início do século XX é significativamente a Pariska.

Demorei alguns anos a aperceber-me da influência do urbanismo parisiense na Europa e creio que é por isso, que cada vez mais aprecio a cidade, nas poucas ocasiões em que tenho dinheiro para lá ir.

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Voltando a gravura, fiz algumas pesquisas na net e julgo que será datada entre 1830 e 1840 e talvez a fizesse parte duma colecção como a Histoire et Monuments de Paris, de que encontrei um exemplar da mesma temática à venda no site http://www.french-engravings.com/, representando uma fonte na Rue de Grenelles. Esta última foi impressa em 1836

Os irmãos Rouargue (Emile Rouargue: Paris, 1795 - Epone, 1865 ; Adolphe Rouargue: Paris, 1810 - morto depois 1870) foram gravadores parisienses muito populares, que se especializaram em álbuns de viagens, com vistas de monumentos, cidades e paisagens, de França, Europa e África

Descobri na net uma gravura destes mesmos irmãos sobre um circo em ruínas na Argélia, que recorda os desenhos de Piranesi e o fascínio que este tinha pelas ruínas clássicas.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Cobras e lagartos na Penha de França, em Lisboa

Passei pela Penha de França, numa breve peregrinação à cobra e ao lagarto que celebrizam esta freguesia de Lisboa. Passei primeiro por casa do meu amigo Manel, que mora numa andar com vista para a Igreja acima referida e talvez por isso, ou talvez porque o contagiei na minha mania coleccionadora de registos de santos, tem uma bela gravura do século XVIII, representando Nossa Senhora da Penha de França, no seu milagre mais célebre.


Nossa Senhora da Penha é uma devoção importada de Espanha, da região de Salamanca, mas cujo culto em Portugal só teve verdadeiro significado depois da construção da igreja da Penha de França, aqui em Lisboa. O Templo foi erguido em resultado da promessa dum escultor, António Simões, um dos poucos sobreviventes da batalha de Alcácer Quibir, que segundo ele se deveu ao aparecimento dum lagarto, que o salvou duma cobra.

Vemos neste Registo o António Simões, que parece dormir e Nossa Senhora da Penha de França, vestida ricamente, e executando o milagre e por último, o lagarto, que mais parece atacar o homem do que tendo intenção de o salvar. A Serpente da lenda não é representada.
Logo mais abaixo, ali na rua Heliodoro Salgado, uma porta da rua de um bonito prédio do início do século XX, apresenta a serpente em falta na gravura do Manel. Não sei se esse animal terá a ver com a história do milagre da Penha de França ou com a profissão do proprietário do prédio, um médico ou um farmacêutico. A serpente é um dos símbolos da medicina e farmácia, por causa do antigo deus romano Mercúrio, cujo atributo era uma espécie de bastão com duas serpentes entrelaçadas.

Seja lá o que for o seu significado, a porta é lindíssima e ainda bem que os seus proprietários nunca a mandaram substituir por uma dessas coisas de alumínio. A porta é também um cumprimento à Maria Gabela, uma das seguidoras deste blog, que também aprecia portas antigas e os segredos que elas deixam entrever

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A contemplação da decadência


Hoje, sem grande assunto para escrever sobre seja o que for, resolvi apresentar duas fotografias do solar de Outeiro seco, que mostram o mesmo lado da casa, a primeira é uma fotografia de grupo com toda a família, no tempo em que esta a habitava e a segunda (http://chaves.blogs.sapo.pt/) é tirada nos dias de hoje, com a casa abandonada, esventrada e a escadaria em ruínas, com as cantarias que a compunham pilhadas e desaparecidas.


Por vezes interrogo-me porque escrevo tanto sobre Outeiro Seco, uma casa que conheci numa infância remota ou numas visitas fugazes na adolescência. Sem dúvida terá a ver com o prazer que sempre experimentei em ouvir as histórias do passado, contadas vezes sem conta pelo meu pai. As imagens e as histórias que o passado faz despertar em nós são uma saborosa fuga a realidade, uma forma de romantismo. Aliás não é por acaso que o movimento romântico do século XIX é o grande impulsionador dos estudos históricos por toda a Europa.



Piranesi, Arco de Tito, 1756-57



Por outro lado, por muito que nos doa ver velhas casas fidalgas abandonadas por todo o País, em risco de ruir, não há dúvida que há um certo prazer na contemplação da ruína e da decadência. No Século XVIII o artista italiano Giovanni Battista Piranesi (1720-1178) celebrizou-se por toda a Europa com as suas gravuras de templos romanos derrocados, mausoléus pilhados, esculturas partidas e todo um mundo antigo abandonado e invadido por vegetação. As suas veduttas ou vistas, que eram uma espécie de postais ilustrados da época sobre Roma e a Itália, popularizam-se pela Europa fora, de mal maneira, que se tornou moda nos jardins das grandes casas aristocráticas, construir falsas ruínas e enche-las de hera, para que os seus proprietários pudessem imaginar que contemplavam os vestígios grandiosos duma vila romana ou de uma abadia medieval, saqueada pelos vikings ou cavaleiros muçulmanos. Com o movimento romântico, no século XIX, a ruína tornou-se praticamente um ideal de beleza. Por exemplo, nesse período, em Portugal, optou-se por não reconstruir o Convento do Carmo, em Lisboa, deixando o corpo das naves da igreja a céu aberto e criando, assim, um idílico cenário de ruína, ao gosto do estetas oitocentistas e que ainda hoje encanta os visitantes.


Piranesi, vista do Túmulo na Via Ápia


Talvez o gosto pela ruína seja um sentimento semelhante ao que os poetas experimentam quando se abandonam à tristeza nos seus sonetos.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Mais azulejos do Século XVIII

Este pequeno painel de azulejos foi comprado numa fase em que andava mais ou descontrolado com a azulejaria. Na feira-da-ladra já evitava aproximar-me de alguns vendedores com medo de cometer disparates. que saíssem muito caros ao bolso. Hoje, com a crise, estou mais poupado e ando mais pelos contentores das obras, aproveitando restos das demolições. Um dia destes despeço-me e vou viver a apanhar azulejos e madeiras antigas e vende-los no chão da feira-da-ladra. Enfim, já estou a dispersar-me como a Maria Isabel e é melhor voltar aos azulejos.


Embora seja sempre difícil datar azulejos, pois o mesmo motivo, se tivesse êxito junto da clientela seria fabricado por muitos anos, julgo que este pequeno painel será datado da primeira metade do século XVIII, portanto é anterior ao período pombalino, em que a produção de azulejos cresce exponencialmente, para fazer face à procura dos reconstrutores de Lisboa. Encontrei duas quadras no Museu Nacional do Azulejo, idênticas ao meu painel, uma com o inventário 5734 (foto superior) e outra com o inventário 5039 (imagem inferior) e que estão datadas como sendo dos primeiros vinte e cinco anos do século XVIII.


Parte do catálogo do Museu Nacional do Azulejo está acessível no site das colecções nacionais, em http://www.matriznet.ipmuseus.pt/ , que apesar das limitações de pesquisa, dá sempre muito jeito para irmos identificando as peças.

Deste meu pequeno painel, encanta-me o facto de a cor dominante ser o azul-escuro e os desenhos serem a branco. É como se fosse uma imagem em negativo do habitual esquema do desenho a azul sobre fundo branco.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

As alminhas do Purgatório em azulejos

Há uns bons 4 ou 5 anos passei por Óbidos, que é sempre aquela terra que nos faz esquecer que o património arquitectónico é mal tratado em Portugal e vi umas alminhas do século XVIII lindas, numa daquelas casas antigas. O Manuel fotografou-a e fiquei com a imagem em arquivo (foto superior), pensando sempre que um dia conseguiria comprar por um bom preço na feira-da-ladra um azulejo ou painel de azulejos das alminhas, num daqueles golpes de sorte, que acontecem 10 em 10 anos. Mas, como dizem os franceses, Hélas!, pois essas oportunidades raramente surgem e lá fiquei eu a sonhar com alminhas para a minha casa.

Depois, um dia a caminho da Feira-da-ladra, na Rua de S. Vicente descobri, que uma antiga farmácia, que eu conhecia do tempo em ali morei, era agora uma oficina de cerâmica especializada em réplicas de faiança e azulejos antigos, mas também recriações contemporâneas destas duas artes, que em Portugal foram absolutamente fervilhantes. A dona da oficina, a Cristina Pina é uma simpatia e as visitas à loja dela tornaram-se motivo para amena cavaqueira sobre azulejaria e faiança. A Cristina descreve os processos químicos com que restaura, ao mesmo tempo que nos mostra como se invertem os mesmos processos para dar um ar envelhecido às peças. Numa dessas conversas descobrimos que adorávamos as alminhas do Purgatório e então ofereci-me para lhe dar a minha fotografia para ela executar uma réplica, um dia que tivesse tempo.

Foi passando o tempo e fui-me também interessando pelo significado das alminhas do Purgatório e do que queriam dizer as siglas que as acompanhavam: PNAM.

As alminhas existem espalhadas por quase todo o País e encontram-se normalmente em encruzilhadas e às saídas das terras. Representam umas alminhas no meio das chamas e são acompanhadas pelas siglas PNAM.

Segundo uma certa ideia não confirmada, o culto das alminhas terá tido origem em rituais pagãos, nomeadamente nos deuses das encruzilhadas, os Lares Compitales dos romanos, que se acreditava protegerem os viajantes.

No entanto, o dogma que dá origem a este culto, de que existia um purgatório onde ficavam a arder as almas pecadoras, mas não o suficiente para irem direitas para o inferno, só foi definido na Contra-Reforma, em particular depois do Concílio de Trento, em 1563. Mas o que é mais curioso neste culto é que se acreditava, que pela oração dos fieis se podia alterar este estado de coisas e fazer transitar as almas do Purgatório para o céu.

Não há afinal uma relação directa entre os Lares Compitales dos romanos e as Alminhas do Purgatório. Uns são deuses que protegem os caminhos e os viajantes, outros são objectos de culto em que os vivos intercedem pelos mortos através da oração. As Alminhas serviam para as pessoas se lembrarem que esta vida é um caminho e como tal, quando passavam junto destas, paravam para orar pelos que no purgatório esperam que o arcanjo São Miguel os leve para o céu, conforme se pode ler nas inscrições características:

- Ó vós que ides passando / Lembrai-vos de nós que estamos penando / P.N.A.M.;
- Pelas almas do Purgatório / Padre Nosso / Avé Maria;
- Nós penamos e vós zombareis / Mas lembrai-vos que em breve como nós sereis.


A relação entre os culto aos deuses Compitales e as alminhas talvez seja precisamente a ideia de caminho e de viagem. O primeiro culto protegia uma viagem mais prosaica de um ponto até o outro da terra e o segundo culto era relativo a um caminho no além.


O culto das Alminhas aparece muitas vezes associado a S. Miguel arcanjo (imagem superior da colecção da Sociedade Martins Sarmento), o anjo do arrependimento e da justiça, representado muitas vezes com uma balança, onde se vêem alminhas a serem pesadas. O grande especialista em iconografia cristã, Louis Reaud afirma que esta forma de representar S. Miguel foi introduzida na arte pelos cristãos egípcios, que mais não fizeram, do que reproduzir a imagem do Deus Anúbis. Acreditava-se que S. Miguel podia resgatar e transportar as almas do Purgatório.



S. Miguel Arcanjo com a balança para pesar as almas. Museu de Alberto Sampaio, Guimarães


Finalmente, Nossa Senhora do Carmo, com o seu escapulário é outro culto associado às alminhas, conforme se pode ver no painel do Museu Nacional do Azulejo, inv 6111 . Recorria-se à Virgem que podia interceder pelas almas penadas, sobretudo se envergasse o escapulário, que se julgava ter virtudes especialíssimas. Por exemplo, os membros das confrarias carmelitas acreditavam que se envergassem o escapulário na hora da morte seriam resgatados do Purgatório por Nossa Senhora do Carmo, logo após o seu falecimento.

Em suma, rezando um Padre-nosso, Ave-maria (PNAM) cada vez que se via um destes painéis de azulejos resolvia-se o problema das alminhas penantes.

Há cerca de duas ou três semanas, depois de uma longa espera, o Manel passou pela oficina da Cristina Pina a S.Vicente e a minha réplica do azulejo de Óbidos estava pronta. A cópia está tão bem feita, que o azulejo apresenta a superfície ondulada e bolhas estaladas como os antigos vidrados. As alminhas já encontraram lugar na parede da minha sala e todos os dias me recordam que somos meros passageiros em trânsito num mundo abandonado por Deus.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

As pedras de Bezoar

A primeira vez que vi uma pedra de bezoar, tinha eu uns 19 anos e foi na XVIIª Exposição de Arte Ciência e Cultura, no Museu Nacional de Arte Antiga. Fiquei completamente fascinado com aqueles objectos estranhos, umas espécies de seixos de rio irregulares e brutais, envoltos na mais delicada filigrana de ouro, num contraste, que parecia obra do mais moderno e irreverente joalheiro parisiense ou Nova-iorquino. Depois, aproximei-me mais do expositor, li a respectiva legenda e percebi que aquilo não era propriamente uma pedra, mas antes uma espécie de cálculo ou concreção, encontrada no intestino, principalmente dos ruminantes. Enfim, uma coisa mais ou menos semelhante à pedra dos rins.

Os bezoares tem origem na Índia e acreditava-se que eram poderosos antídotos contra venenos e melancolias. Por essa razão, apresentam normalmente uma argola no topo, que servia para suspende-los por uma corrente e mergulha-los no líquido suspeito de conter veneno. Eram sobretudo característicos de Goa e tiveram uma aceitação enorme na Europa, onde foram trazidos pelos portugueses no tempo dos Descobrimentos. As realezas europeias não passavam sem estas espécies de amuletos Por exemplo, a nossa D. Catarina, mulher do D. João III ofereceu um Bezoar ao seu querido irmão, o imperador Carlos V. A D. Catarina de Bragança, aquela que casou com o rei inglês Carlos II, após a sua morte, deixou entre numerosos bens vários bezoares.

Os bezoares por vezes eram desfeitos, misturados com outras substâncias e usados também como medicamentos. Os jesuítas de Goa especializaram-se no seu fabrico. Voltei encontrar os bezoares na exposição Exótica, apresentada no Museu Calouste Gulbenkian, entre 17 de Outubro de 2001 e 6 de Janeiro de 2002 e achei-os tão sedutores como da primeira vez. Depois, outra vez no Museu Nacional de Arte Antiga pude-me aproximar deles na exposição Encompassing the Globe. A maioria deles estão em Viena, no Kunsthistoriches Museum (as peças fotografadas são desse Museu) e estou sempre à espera que regressem a Lisboa e pode ser que um dia qualquer, no futuro, eu possa acariciar um com a mão e sentir a poderosa força que emana deles.