segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Mais uma Vénus pré-histórica

Tenho uma certa paixão pela escultura rude, ingénua e com força e há uns tempos encantei-me na feira-da-ladra por uma outra Vénus pré-histórica e trouxe-a para minha casa para admira-la e ama-la.

É difícil datar peças como esta comprada no mercado de velharias, até porque está fora de um contexto arqueológico, que, se hipoteticamente fosse conhecido, permitiria data-la através da camada estratigrafica e dos utensílios circundantes. Mas quando se compram peças arqueológicas no mercado de velharias, é mesmo assim. Ganha o nosso impulso de coleccionador e perde-se a informação histórica.




Em todo o caso esta estatueta filia-se na tradição das chamadas Vénus pré-históricas, da qual a chamada Vénus de Willendorf é a peça mais emblemática.
Em termos abstractos, estas figurinhas formam um losango, com duas extremidades afiladas que se vão alargando em direcção ao corpo. Abdómen, ancas, seios e nádegas e vulva são deliberadamente exagerados em detrimento da cabeça, braços e pés nestas Vénus do Paleolítico Superior, produzidas por mãos humanas entre 30.000 a 10.000 anos antes de Cristo.




Mas, comparativamente à minha outra Vénus, esta apresenta algumas diferenças. Está numa posição sedente, o que a aproxima mais de uma Vénus do Neolítico, o período em que o homem descobre a Agricultura. A peça que encontrei mais próxima desta foi a chamada Cíbele de Çatal Huyuk, uma deusa mãe sentada, que os especialistas dizem estar em trabalhos de parto (No Período romano as mulheres ainda davam à luz em cadeiras de parto). Durante o Neolítico este culto à Deusa Mãe propaga-se por todo as terras da orla Mediterrâneo e os historiadores afirmam que este culto feminino é uma associação que os homens daquele período fizeram entre a mulher e a terra. Era da capacidade reprodutora de uma e de outra que dependia a existência humana.

O Neolítico apareceu em Portugal através dos rios do sul por volta de 5.000 a 4.000 antes de Cristo e é provável que a minha Deusa-Mãe date pouco depois dessa época.
Experimentei algumas dificuldades em fotografar a minha Vénus sentada. Pensei num fundo preto ou azul para realçar as formas voluptuosas mas o resultado foi desastroso. O branco das paredes como cenário também não lhe evidenciava as formas. Até pensei coloca-la numa pedra, quando percebi, ao deixa-la ao acaso numa almofada de tecido vistoso, que esta minha Vénus era afinal como todas as mulheres de seios e nádegas opulentas da história da arte e pedia um fundo de veludo vermelho, de tecidos opulento para fazer brilhar as suas formas voluptuosas. Afinal a figurinha Neolítica não está tão longe da nudez descarada da Maja desnuda de Goya ou das mulheres pintadas no meio do luxo opulento dos lupanares de Paris, que Toulouse-Lautrec pintou no século XIX.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Açucareiro da Vista Alegre do Século XIX, pintado à mão


Quando com os meus irmãos fizemos partilhas das coisas da minha avó paterna, calharam-me umas quantas porcelanas do Século XIX, com florinhas pintadas à mão. Entre essas peças, encontrava-se uma tampa solta de uma cafeteira, com uma pintura muito delicada, que apesar de órfã sempre fez as minhas delícias.

Agora, pelo meu aniversário, recebi um açucareiro espantoso, do século XIX, com um motivo em todo semelhante à pobre tampa órfã. Há apenas uma ligeira variante na flor azul.
A minha peça não tem marca, mas é obviamente Vista Alegre. Encontrei no catálogo II Leilão da Vista Alegre, realizado no Porto, em 1998 e editado pela Estar Editora, um Açucareiro muito semelhante na decoração e com um formato exactamente igual, datado entre 1870-1880. Aliás, este formato gomado foi usado durante décadas pela Vista Alegre, pintado com decorações distintas e por vezes vendido todo em branco, sem nenhuma pintura decorativa.

Também no mesmo Catálogo, encontrei duas saboneteiras com uma decoração exactamente igual à minha e também datadas entre 1870-1880.
Sempre que vejo estes livros das leiloeiras, interrogo-me porque é que nunca apareceu um catálogo raisonné de toda a produção de louça da Vista Alegre, Todos os coleccionadores e antiquários agradeceriam uma publicação que reproduzisse sistematicamente toda a produção de loiça da Vista Alegre, desde o seu início, em 1824 até ao momento presente e escusava de contemplar a sumptuária, que essa está mais do que publicada e é normalmente de gosto duvidoso. Os serviços de chá, café, e jantar são aqueles que se encontram mais no mercado ou que as pessoas mais têm em casa e são precisamente aqueles sobre os quais há menos informação bibliográfica

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Clarabóias de Chaves


Durante a minha infância passei muitas férias em Chaves. Ficava no apartamento de casa da minha avó Mimi e era um aborrecimento. A minha avó era daquelas pessoas que tinha uma casa cheia de coisas boas, mas hostil a crianças e a qualquer ideia de conforto. A sala estava fechada e só servia para as visitas, o quarto era de aparato e o escritório espartano, e nós os miúdos ficávamos assim como que feras enjauladas sem ter nenhum sítio para onde ir. A varanda das traseiras era um dos poucos refúgios onde podíamos fazer porcarias, como cuspir ou atirar molas da roupa aos gatos, que se passeavam cá em baixo nos quintais. Eu como sempre fui observador ficava também muito tempo a olhar as traseiras das casas da rua de Sto. António e sentia-me fascinado com as clarabóias, que se encontravam no alto dos telhados. Faziam um conjunto engraçadíssimo de pequenos castelos em vidro. Na altura não sabia que serviam para iluminar as escadas comuns dos prédios. Imaginava antes que eram umas janelas especiais, em forma de pequenos palácios a iluminar os quartos por cima e experimentava sempre um grande desejo de ser outro menino, que vivesse numa dessas casas antigas, onde poderia olhar o céu através daquelas caixas de vidro maravilhosas.

As imagens destas clarabóias ficaram de tal maneira gravadas nos meus olhos que para mim tornaram-se o ex-libris de Chaves. Claro, sei que a ponte romana de Trajano é o maior e mais bem conservado monumento romano em Portugal, mas quando me recordo de Chaves e da infância são as clarabóias das velhas casas flavienses que vejo e me emocionam.

Não sei exactamente de que época serão. A julgar pelos prédios que coroam, julgo terem sido construídas no século XIX. Muitas vezes são enfeitadas com cata-ventos e sei que existem em outras cidades do Norte do País.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

No Outeiro das lembranças



No final do mês de Setembro este blog irá completar um ano e está na altura de reflectir um bocadinho e fazer um balanço curto.

Agora está muito na moda escrever sobre objectivos, gestão por objectivos e avaliação de resultados e outras larachas. Obviamente que pouparei os poucos seguidores deste blog a um discurso dessa índole, que se tornou uma moda de mau gosto na administração pública e no governo, para esconder a profunda inépcia em que vivemos.

Em todo o caso, este blog fez um ano. Escrevi 115 posts sobre velharias e memórias familiares, tenho 33 seguidores e uma média mensal de cerca de 1550 visitantes. Não é mau para quem se propôs escrever sobre assuntos velhos e antigos, que hoje não interessam a ninguém.

Alguns dos seguidores foram-se tornando numa espécie de amigos virtuais como a Isabel, a Marília, a Maria Gabela e o Fábio. Outros foram deixando aqui e ali comentários estimulantes, que me fizeram perceber que o que escrevia até tinha interesse e valia a pena continuar a transmitir os conhecimentos de antiguidades e história, que fui acumulando ao longo de uma existência de quase cinquenta anos. O Manel é um amigo de velha data e funcionou sempre neste blog como um importante suporte intelectual

Percebi também neste blog que há uma apetência enorme pela faiança antiga portuguesa e que estranhamente há muito poucos sites com conteúdos pertinentes capazes de satisfazerem esse interesse dos coleccionadores amadores. Julgo que uma das razões do relativo sucesso deste blog é ter colocado conteúdos on-line sobre faiança portuguesa.

Através deste blog retomei os contactos com a aldeia de onde a minha família paterna é originária, Outeiro Seco, no vale de Chaves e os resultados desse reencontro com a terra primordial tem sido surpreendentemente positivos.

Recentemente, em Outeiro Seco, o Altino Rio fez publicar uma recolha de memórias locais, intitulada “No Outeiro das lembranças” para as quais tive o prazer de colaborar com 3 textos, que os seguidores do blog já conhecem:

José Maria Ferreira Montalvão: rascunho de memórias por um bisneto que não o conheceu

Velhas histórias do Solar dos Montalvões: as visitas de Madame Carmona

Ainda o Solar dos Montalvões: os amores de um padre e de uma fidalga
A obra foi lançada com pompa e circunstância, no passado dia 20 de Agosto, na Igreja de Nossa Senhora da Azinheira, ao lado do local onde está sepultada a minha avô. Os lucros da venda do livro revertem para uma associação de apoio à terceira idade e se houver interessados na sua compra (Apesar de ter capa dura, um bonito design e imensas fotografias só custa 15 euros!) escrevam para o e-mail outeiro_seco@sapo.pt. Em baixo poderão ver uma fotografia da cerimónia de lançamento, tirada pelo Humberto, Na mesa está o Presidente da Câmara de Chaves, o Altino discursando e eu estou sentado na assistência, de óculos e gravata fininha.

Também relativamente à família Montalvão e a Outeiro Seco houve a colaboração com o Humberto Ferreira, que permitiu localizar nos museus do município de Chaves as imagens que se encontravam na capela de Sta. Rita do Solar dos Montalvões e que a família julgava perdidas. O Humberto descobriu também fotografias espantosas da mesma capela antes da sua destruição, localizou parte do seu altar-mor na Casa de Cultura e ainda o sino numa das capelas da aldeia.
Creio que este reencontro com Outeiro Seco justificou já a existência deste blog.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Férias


Vou de férias para o campo. Deixo-vos durante 15 dias com o “Milho ao Sol" do eterno Malhoa, um pintor que sabia retratar a luz intensa de Portugal.

Abraços
LuísY

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Painéis de Azulejos no Vimieiro

Nunca nos deixa de surpreender a versatilidade de soluções decorativas que o azulejo permitiu ao longo dos tempos no nosso País, nem a criatividade dos mestres que os colocavam nas paredes. Na igreja matriz do Vimieiro, uma terra alentejana entre Arraiolos e Estremoz, encontrei na fachada da Igreja matriz esta disposição original de azulejos em forma de cruz.


Normalmente estes azulejos seiscentistas de padronagem dita de “maçaroca são colocados em forma de painel, como podemos ver neste exemplar da Santa Casa da Misericórdia de Santarém (Imagem superior), mas aqui, no Vimieiro, algum iluminado, talvez o padre ou o mestre-de-obras, teve a ideia de optar por uma disposição em forma de cruz, provavelmente para aproveitar algumas sobras, que não chegavam para uma composição clássica e o resultado é bonito e surpreendente.


Umas ruelas mais abaixo, na mesma vila do Vimieiro, encontrei um painel de alminhas do purgatório do século XVIII, composto por quatro azulejos. É menos ingénuo que aquele outro apresentado no meu post de 16 de Julho de 2010 e que estava numa casa de Óbidos. O desenho é mais elaborado, repare-se por exemplo nas sombras dos braços que dão a ideia de volume. Mas, quer um painel quer outro encarnam bem toda a graça da azulejaria portuguesa do século XVIII.

Ver mais alminhas em http://velhariasdoluis.blogspot.com/2010/10/painel-quinhentista-de-azulejos-e.html

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Cães e gatos em Arraiolos


Embora eu seja um homem com mãe e pai transmontanos e sinta sempre uma nostalgia daqueles horizontes montanhosos, tenho que reconhecer que é no Alentejo e nos Açores que o património arquitectónico tradicional está mais bem conservado. Não só as cidades mantêm os centros históricos cuidados, como também as próprias aldeias preservam melhor o casario antigo. As pessoas parecem estar mais atentas em conservar pequenos pormenores das casas, que emprestam uma graça especial à arquitectura.

Andei pelo Alentejo há cerca de 15 dias e descobri dois pormenores encantadores, que resolvi partilhar com os seguidores deste blog, bem como os outros, que me lêem, mas não tem pachorra para comentar.

Numa ruela antiga do centro de Arraiolos, encontrei esta porta com um puxador muito curioso, em forma de um bicho, talvez um cão ou um gato. Normalmente, os cães estão mais associados à função de guarda das casas e é natural que seja esse o bicho aqui representado.

No entanto há sempre quem prefira os gatos aos cães e há gente excêntrica, que gosta de emprestar um toque pessoal a tudo aquilo que está sua volta e poderá ter escolhido um felino para batente da porta.

Pessoalmente também escolheria um gato, mas independentemente do que for, a maçaneta é realmente muito bonita.
Ao lado de Arraiolos, numa aldeiazinha simpática reparei noutro pormenor curioso. No alto de uma chaminé estavam dois cães de barro a guardar uma casa. Nunca tinha visto uma coisa assim, mas tem muita graça.