quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A cozinha do Solar de Outeiro Seco

Já pouco me lembro da cozinha do Solar de Outeiro Seco. Parecia-me enorme e escura. Nas poucas férias que lá fomos, à noite o meu irmão e eu costumávamos brincar junto ao fogo, retirando gravetos queimados na ponta, que fingíamos fumar. Éramos sempre repreendidos por estarmos tão junto do fogo, pois diziam-nos que íamos fazer xixi na cama. Ainda hoje me pergunto se haverá algum fundo de verdade dessa advertência.


Em todo o caso não experimentei a vivência da cozinha no tempo em que servia uma grande família e uma casa agrícola com muitos trabalhadores. Para esse efeito sirvo-me da memória do meu pai, que cuidadosamente anotou tudo o que se lembrava desta divisão. Eu preferiria que ele tivesse sido mais minucioso no Museu, mas as recordações de juventude e infância dele foram certamente mais saborosas na cozinha, onde durante todo o período das férias do Natal, a família e empregados se reuniam, em volta da enorme chaminé, onde ardia um toro de carvalho, para rezar uma “coroa ou para jogar ao rapa a pinhões.


O meu pai descreve detalhadamente e com enorme prazer a cozinha enegrecida pelo fumo, onde nos tectos havia um céu de enchidos típicos da região, alheiras, sangueiras, chouriços de pão, salpicões, linguiças, palaios, morcelas, bem como ainda o os presuntos e os untos.

A cozinha tinha uma parte lajeada, onde se situava uma gigantesca chaminé e ainda um fogão a lenha, que a última vez que visitei o solar encontrava-se no meio das silvas do o pátio interior.

Nesta fotografia, tirada cerca de 1990 (depois da casa vendida) da parte lajeada da cozinha, observa-se a pia de pedra das lavagens e no chão uma espécie de conduta em pedra, que servia para vazar líquidos para a loja dos porcos, que se situava no compartimento inferior.

Aqui, nesta foto também de 1990, além da chaminé e do escano, o banco cumprido posto em frente ao lume, vê-se um outro alçapão, que servia para vazar entulho para a loja dos porcos, imediatamente abaixo da cozinha

Na parte sobrada da cozinha, estava colocada uma enorme mesa onde os empregados e os trabalhadores nos dias das colheitas comiam. Estas refeições decerto barulhentas devem ter desperto a curiosidade do meu pai, porque descreve a alimentação que lhe era servida nas fontes, os grandes pratos de faiança ou barro de onde todos comiam, com enorme pormenor e satisfação. Terá muitas vezes petiscado aqueles pratos fartos e simples.

O horário e os nomes das refeições dos empregados e trabalhadores rurais não tinham nada a ver os actuais. Às 7.30 era o mata-bicho, às 10 horas o almoço, pelo meio-dia o jantar, pelas cinco horas, a merenda, às 8 a ceia e pelas 10.30 a sobreceia.


Ao fundo vêem-se ainda os quartinhos das criadas e por lá dormiram a Flambó, a Laurinda, a Maria, a Lucinda e ainda muitas outras Marias, ao longo de duzentos anos, mas que o tempo apagou irreversivelmente os nomes e a memória das suas humildes existências


Hoje a cozinha está assim e repare-se, apesar da desolação, na majestade das traves que sustentam o chão. Sao certamente peças feitas com um único tronco de uma árvore centenária

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Prato Davenport com decoração “Blue Feather Edge”


Herdei este meu prato de sopa da minha avó Mimi. Provavelmente veio de Outeiro Seco e terá feito parte de um serviço grande, daqueles que eram colocados em mesas onde comiam famílias com 15 ou 16 pessoas. Como toda gente sabe, as irmandades eram grandes e além da família nuclear vivia sempre na casa uma afilhada, um Avô e uma ou duas tias solteironas. Era este o cenário em Outeiro Seco e em quase todas as casas abastadas de Portugal ao longo do século XIX e na primeira metade do século XX. Dessas refeições animadas, com dois pratos, um de carne e outro de peixe e servidas por criadagem, restou apenas este prato, como se fosse ele próprio um símbolo do empobrecimento da família e da minha própria pelintrice.

Tive-o muito anos guardado num armário sem saber que destino lhe dar. Depois, um dia o Manel voltou da Feira-da-ladra e disse-me que tinha visto uma série deles à venda, marcados Davenport. Corri para o meu prato (ou vá lá, andei um pouco mais depressa), virei-o mas não consegui lá ler Davenport. Via uma âncora e lia port no final. Fiz como a pobre Maria Paula e a sua bela terrina com concha, escureci a marca com cinza, mas em vão, não consegui ler mais nada. Desisti de a identificar e pendurei-a na cozinha, a vigiar os meus cozinhados.

Só há uma semana, quando em casa do Manel, andei a ver a colecção de louça inglesa e tirei uma travessa da parede, Davenport, com o símbolo da âncora, percebi que o meu só podia ser daquela célebre fábrica inglesa, que laborou em Longport, na região de Staffordshire entre 1785 e 1887.


Travessa Davenport no http://www.aspireauctions.com/



Fui ao google, claro, fiz umas pesquisas aqui e acolá e descobri imediatamente uma travessa do mesmo motivo, que o meu prato num site americano de antiguidades, o http://www.aspireauctions.com/, com uma marca também semelhante à minha.



O Manel encontrou no site http://www.thepotteries.org/mark/d/davenport.html uma marca idêntica a esta, que permitiu-me datar o prato entre 1810-1825.
Julgo também que esta faiança é dum tipo, que os ingleses designaram por Pearlware, uma mistura especial que tentava imitar a porcelana, mas eu confesso que tenho dificuldade em entender estes processos quimícos e portanto abstenho-me de os explicar aqui.

Como nota, é curioso observar que a loiça inglesa do século XIX é valorizadíssima nos sites americanos de antiguidades e vendida a preços elevados, enquanto que em Portugal, até se consegue compra-la por valores aceitáveis.

Travessa com motivo semelhante da Adams


Também conclui que este motivo Blue Feather Edge, que em português dá qualquer coisa estranha, como extremidades azuis de plumas, ou borda de plumas azuis, foi fabricado por mais casas inglesas, como por exemplo a Adams. O motivo também é conhecido por Shell-edged e foi imitado por fábricas portugueses conforme referencia o Itinerário da faiança do Porto e Gaia / Museu Nacional de Soares dos Reis . – Lisboa: IPM; 2001

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Liberal Sampaio: 29/10/1935 - 29/10/2010: 75 anos depois da sua morte


Sou péssimo para recordar aniversários. Deixo passar em branco os anos de toda a gente. Talvez seja por não gostar de falar ao telefone, por ser anti-social ou por ter medo de ser rejeitado, enfim, por qualquer dessas razões que o Freud tão bem explica, mas que num blog de velharias não interessam para nada. Mas, hoje decorrem 75 anos da morte do meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio e o meu amigo Humberto, que se recorda de aniversários, fez um post sobre o meu trisavô, que sugiro a visita. Já lá deixei o meu comentário.

Deixo-vos com uma fotografia do antigo quarto dele em Outeiro Seco, com os tais tectos em masseira, muito típicos da arquitectura solarenga portuguesa.
Ao meu trisavô, o Lili, como era conhecido pelos netos, dedico-lhe uma frase em latim, que é mais bela e pungente inscrição funerária que conheço e que ele como estudioso de epigrafia latina certamente gostaria, Siti Tibi Terra Leuis (que a terra te seja leve)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Azulejos Miragaia na R. Miguel Bombarda do Porto


Nunca me canso de desfolhar o catálogo da exposição Fábrica de Louça de Miragaia, editado pelo IMC, em 2008. Um dos aspectos mais interessantes de todo este projecto de estudo da antiga companhia de faiança portuense (1775-1850), foi a realização de uma sondagem arqueológica no local da antiga fábrica, em Miragaia.

O trabalho foi executado em 2004 por técnicos da Câmara Municipal do Porto e os resultados revelaram fragmentos de azulejos, certamente desperdícios de peças inutilizadas, mas suficientemente claros, para se neles reconhecer um dos padrões mais vulgar dos prédios do Porto. Isto foi uma coisa extraordinária, porque identificou-se com toda a certeza um padrão de azulejos fabricado por Miragaia. Até esse momento, embora se soubesse que Miragaia tivesse fabricado azulejos e até exportado para o Brasil, não se conhecia nenhuma peça marcada, nem se tinha a certeza acerca de nenhum padrão, que era tradição atribuir-lhe.

O padrão de azulejos em causa é muito bonito, apresenta os azuis incomparáveis com que aquela fábrica se tornou conhecida e ainda um friso encantador, que representa uma roseira trepadora.

Ora no fim-de-semana passado fui à “Imbicta” e como de costume o Manel e eu vagueamos pelas ruas, encantados, a descobrir cantarias em granito, prédios fin-de-siècle cheios de dignidade, janelas com caixilharia fantástica e claro azulejos, que são tão diferentes dos lisboetas.
No meio da Miguel Bombarda, que é aquela rua onde estão todas as galerias de arte do Porto, descobri um padrão exactamente igual ao Miragaia, refrenciado no catálogo da exposição, só que em cores diferentes.

Não só o azulejo base é igual, como a própria cercadura com a roseira trepadeira. Julgo que se poderá atribuir com alguma segurança este padrão a Miragaia.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Na pista de Miguel Álvares Ferreira Montalvão: o bacharel louco


Num dos meus anteriores posts, em que contei os amores da minha trisavô, Maria do Espírito Santo, com um padre, José Rodrigues Liberal Sampaio, mencionei ao de leve, um dos seus irmãos, o Miguel José Álvares Ferreira Montalvão, que é uma personalidade estranha e de que se hoje sabe muito pouco.

Nasceu a 1 de Março de 1838, em Sto. Estevão, aldeia próxima de Chaves, onde os pais residiam na altura. Só mais tarde a família mudou-se para o solar Outeiro Seco. Terá crescido num ambiente onde a instrução tinha alguma importância, o que era raro na fidalguia portuguesa da época, com efeito, o seu pai João Ferreira Montalvão fez estudar todos os seus filhos homens. O Miguel fez Direito, o António Vicente o Curso de Estado-Maior e Engenharia Militar e Civil e um terceiro filho, ilegítimo, também João, foi feito Sacerdote.

O Miguel terminou Direito, em Coimbra, em Junho de 1864, com 26 anos. De regresso a casa, foi administrador do Conselho de Chaves e Juiz de Direito Substituto (segundo o periódico Aurora de Chaves, 11 de Setembro de 1890) e portanto, tudo indicava que iria ser um senhor respeitável, com um grande bigode artisticamente enrolado e uma figura de destaque na vida pública flaviense.

Contudo, este homem era muito diferente dos restantes, conforme ficamos a saber pelas notícias da sua morte, ocorrida a 8 de Setembro de 1890, aos 52 anos, que encheram os jornais flavienses, nomeadamente o Comércio de Chaves e Aurora do Tâmega. Todos eles se lhes referem como o infeliz bacharel em Direito, que há muitos anos estava doido e se encerrava num quarto, passando o tempo a ler todos os livros que podia obter .

Outro Jornal, o Comércio de Chaves, de 10 de Setembro de 1890, refere que o infeliz vivia encerrado num quarto, não consentia que lhe cortassem o cabelo e a barba e quando alguma criada entrava no quarto para fazer a limpeza o desventurado metia-se debaixo da cama.



O acontecimento impressionou não só os jornais da época, como os habitantes da aldeia. Ainda, hoje, passados 110 anos, segundo o nosso amigo Humberto, correm ainda entre os mais velhos histórias do bacharel louco. Nestes relatos da aldeia dizia-se que o Miguel teria endoidecido por causa de amores contrariados por uma prima. Eu até já pensei nele como o construtor do mirante, que dava acesso aos terceiros do solar, que segundo a tradição teria sido construído por um antepassado dos Montalvões para avistar a sua amada, numa povoação vizinha. No entanto, a tradição familiar refere que o Miguel Montalvão não morava no solar, mas numa casa vizinha, com uma fachada austera de pedra, mas uns interiores muito bonitos com tectos de masseira.




Casa de Miguel Montalvão

Por estas sumárias notícias dos jornais flavienses, podemos inferir que o Miguel Montalvão era um homem culto, com grandes hábitos de leitura e podemos sem dúvida atribuir-lhe a uma parte da formação da grande biblioteca do Solar de Outeiro Seco, que posteriormente o Liberal Sampaio, amante da sua irmã, terá completado e enriquecido. Também podemos adiantar que o facto de ser um grande leitor não o terá ajudado a integrar-se na sociedade de um vila, em que 80 % da população era analfabeta e a restante fracamente instruída. E este número não é uma estatística referente à então vila de Chaves, mas ao País inteiro, em 1900.

Fascinado por este indivíduo, de que sabia tão pouco fui à procura de mais elementos e tentei contactar os descendentes dos parentes mais próximos, do Miguel Álvares e da Maria do Espírito e concentrei-me num terceiro irmão, que ao contrário deles fez uma vida mais convencional, o António Vicente Ferreira Montalvão (18-12-1840/19-09-1919).

Fiz umas pesquisas aqui e acolá e acabei conseguir contactar uma bisneta do General António Vicente de Montalvão, uma Senhora distinta e simpática que me abriu as portas da sua casa familiar no Porto. Infelizmente não tinha muitos elementos, pois as famílias, preocupadas com os obstáculos da vida quotidiana acabam por deixar partir os mais velhos sem os interrogar acerca dos acontecimentos mais remotos ou pedir-lhes, que antes de morrerem identifiquem fotografias antigas. Apesar disso e de não ter conseguido obter uma fotografia do Miguel Montalvão, levantei mais um pouco do véu, que cobre estas histórias ocorridas há mais de 100 anos.



A minha prima autorizou-me a fotografar um retrato a óleo representando o seu bisavô em uniforme de gala e onde descobri os mesmos olhos claros da irmã, a Maria do Espírito Santo.

A minha parente também me adiantou, que o General António Vicente ter-se-á afastado da irmã, após o seu envolvimento desta com o padre José Rodrigues Liberal Sampaio, que foi na altura um escândalo muito grande em Chaves. Segundo a minha prima, o António Vicente Ferreira Montalvão terá inclusive prescindindo da herança que lhe cabia no Solar de Outeiro Seco, preferindo provavelmente ficar com outras propriedades da família na região de Chaves, para se manter afastado da relação socialmente condenável, que a irmã mantinha com o padre. A minha prima também desconhecia a existência do irmão louco do seu bisavô, figura que seria também pouco recomendável para os padrões da boa sociedade dos finais do século XIX.

Ao contrário dos irmãos, este António Vicente Ferreira Montalvão teve uma vida convencional. Seguiu a carreira militar, tomando a cavalaria como arma, como era já tradição na família desde pelo menos o seu trisavô, o Capitão de Cavalos, Álvares Ferreira, e fez um belo percurso profissional. Fui nomeado Chefe do Estado-maior da Arma de Artilharia, Grande Oficial da Real Ordem Militar de S. Bento de Aviz, Comandante da Escola do Exército, Vogal do Supremo Conselho de Defesa Nacional e chegou a general de Divisão. Casou também muito bem, com Mariana Mercês Bravo Borges, uma menina da boa sociedade Lisboeta e virtuose de piano. Quando se reformou, regressou a Chaves, mas já os irmãos haviam morrido há muito, o Miguel em 1890 e a Maria do Espírito Santo em 1902.

Ainda não foi desta que consegui discernir ao que precipitou a loucura do Miguel Ferreira Montalvão, mas algumas figuras e cenários do drama começam a ganhar contornos aqui e ali.
As fotografias da casa de Miguel Montalvão e do treslasdo da certidão de nascimento devem-se ao nosso amigo Humberto

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Imaculada Conceição e um dragão simpático

Um dos aspectos mais gratificantes deste blog é o movimento de pessoas que vão aparecendo, enviando imagens de peças suas, umas pedindo ajuda para identifica-las, outras enviando fotografias pelo mero gosto de partilhar informações e interesses comuns. Há uns tempos, o António entrou em contacto comigo, pedindo-me informações sobre quem lhe poderia restaurar uma Imaculada Conceição em madeira. Recomendei-lhe que entrasse em contacto com o antigo Instituto José de Figueiredo, que está agora integrado no Instituto dos Museus e da Conservação, pois a partir de lá, podiam-no reencaminhar para profissionais credenciados.

O trabalho acabou por ser realizado no próprio Instituto dos Museus e da Conservação e no final, o António mandou-me um e-mail com as fotografias da Imaculada Conceição toda restauradinha e muito simpaticamente autorizou-me a reproduzi-la no blog.
Para perceber o que é esta imagem, convém explicar que ela representa a Imaculada Conceição, um dos dogmas mais estranhos da Igreja Católica, para a nossa sensibilidade contemporânea e descrente. Em termos muito simplistas, o dogma da Imaculada quer dizer que não só Maria concebeu Jesus sem pecado, como ela própria foi concebida sem pecado. Este “arranjo” sobre a pureza de Maria tem a ver com a Divindade de Cristo. Ora, se Cristo tivesse nascido no ventre de uma campónia qualquer da Judeia, então Jesus seria um mero profeta, menos divino e provavelmente não estaria ao nível do Deus Pai e do Espírito Santo. Portanto, os teólogos católicos, que apesar de tudo, gostavam de arranjos racionais à moda da filosofia grega, compuseram a coisa de forma a Maria ser inteiramente imaculada e divinizaram-na também. Este assunto, juntamente com a Santíssima Trindade provocou discussões tremendas entre os cristãos do Oriente e do Ocidente. Ao longo da Idade Média, muitos concílios de altos dignitários eclesiásticos acabaram em cenas de pugilato e o irremediável acabou por acontecer, a separação entre as igrejas do Oriente e do Ocidente e numerosos conflitos políticos e militares surgirão desse cisma. Mais tarde, a Santíssima Trindade e o dogma da Imaculada Conceição de Maria dividirão novamente católicos e protestantes, que se defrontarão em lutas fratricidas, em França e na Alemanha, nos século XVI e XVII. As guerras civis na Irlanda do Norte e na ex-Jugoslávia, terminadas há bem pouco tempo foram os últimos conflitos entre Cristãos divididos por causa de dogmas deste calibre.

Voltando à Imaculada Conceição esta devoção foi extremamente popular em Espanha, Portugal e Itália. Terá sido graças a sua intercessão, que em 1571 espanhóis, italianos e austríacos venceram os turcos na batalha naval do Lepanto, que travou de vez o avanço do Islão no Mediterrâneo. Em 1646, o nosso D. João IV, perfeitamente em pânico com a perspectiva de defrontar a Espanha, uma das maiores potências militares da época, fez aclamar nas cortes a Imaculada Conceição Rainha de Portugal e desde essa altura, os reis portugueses nunca mais foram coroados. Durante a cerimónia de entronização do novo rei português, a Coroa permanecia numa almofada ao lado.
Em termos iconográficos, esta é a imagem da Virgem Maria, antes do nascimento de Cristo, representada como a nova Eva, aquela que resgatará os pecados da anterior Eva do antigo Testamento, esmagando o mal, aqui representado pelo Dragão. A serpente é mais vulgar na iconografia da Imaculada Conceição para representação do mal, mas em Portugal, preferiu-se muitas vezes usar o dragão, correspondendo a uma visão do Apocalipse: Depois, apareceu um grande sinal Céu: Uma mulher revestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e una coroa de duas estrelas sobre a cabeça, Eslava grávida, com dores de parto, e gritava com ânsias de dar ti luz. Apareceu então outro sinal no Céu: Um grande dragão vermelho com sete cabeças, dez chifres, e, sobre as cabeças sete diademas, A sua cauda varreu a terça parte das estrelas e lançou-as sobre a terra: deteve-se diante da mulher que estava para dar à luz. Preparando-se para lhe devorar filho logo que ele nascesse, Ela deu à luz um Filho, um Varão, que há-de reger todas as nações com ceptro de ferro; e o Filho foi arrebatado para junto de Deus e do Seu trono.

A imagem não apresenta o crescente lunar, elemento típico da iconografia da Imaculada.

Pessoalmente fiquei encantado com o dragão da imagem, que antes do restauro nem se via. Parece um dragão brincalhão, daqueles que aparecem nos filmes da Walt Disney, o que só vem reforçar uma ideia que já foi várias vezes abordada neste blog. Até ao século XIX, a arte portuguesa, mesmo quando representa temas que se prestam ao soturno e ao terrível, raramente é macabra. Apresenta sempre um ar intimista, familiar e até jocoso, como este dragãozinho de brincar.
Ao contrário de mim, o António está fascinado com o movimento das vestes, que parecem sopradas por um vento barroco e cheio de caprichos.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Machado neolítico ou uma peça sobrevivente do Antigo Museu do Solar de Outeiro Seco



Não me recordo se tinha prometido à Maria Isabel escrever sobre instrumentos do Neolítico ou se sido a nossa seguidora a pedir-me para falar nestas pedras polidas. Em todo o caso, como sei que a Maria Isabel gosta de pedras, este post é-lhe dedicado, um pouco à maneira, daquele célebre programa de rádio em que se telefonava a pedir discos.

O que vemos aqui nestas fotografias é pois um machado neolítico, um instrumento produzido, mais ou menos à volta de seis ou quatro mil anos antes de Cristo, na região de Chaves.

Neolítico quer dizer, nova pedra, isto é, o período em que há uma nova técnica de trabalhar a pedra, o polimento, em oposição ao período anterior, o Paleolítico (Pedra Antiga), em que a pedra era lascada.

De facto, neste machado podemos observar um perfeitíssimo trabalho de polimento característico do Neolítico, em que os artificies conseguiram um gume, que apesar de não ser usado há seis mil anos, continua afiado. Nota-se também uma pequena depressão de lado, que correspondia ao local onde era fixo o cabo. Machados Neolíticos no Museu Carlos Reis, em Torres Novas

Para os menos entendidos de história, o Neolítico caracteriza-se pela descoberta da agricultura e da pastorícia. O Homem deixa de ser apenas caçador e recolector e passa a produtor. No fundo, o ser humano descobre como se processa sexualidade dos animais e a reprodução das plantas e passa a intervir, manipular e a alterar esses processos.

A sala do museu do Solar de Outeiro Seco. Na Chaminé observam-se dúzias de pequenos artefactos pré-históricos em pedra

Este machado, que sobreviveu seis mil anos às agressões do tempo, tem uma história recente curiosa. Fez parte do chamado museu do Solar de Outeiro Seco. José Rodrigues Liberal Sampaio, o meu trisavô recolhia, sem grande critério e um pouco por toda a parte peças arqueológicas. Tinha o espírito coleccionista da época, que consistia em recolher peças dum passado remoto, sem assinalar a sua proveniência, ou localização na jazida. Enfim, fazia o que podia numa época em que os seus conterrâneos ignoravam completamente o valor da pré-história. E é curioso, porque se tornou conhecido na região por esse seu estranho amor a pedras e moedas velhas. Já apanhei umas quantas cartas dirigidas a ele, em que um lhe promete enviar uma moeda do tempo de D. Miguel ou uma outra, como esta que reproduzo parcialmente, que lhe envia pelo Manel, “essa pedrinha, por me lembrar, que lhe darão algum apreço para o Museu”. Exemplificativa do coleccionismo do meu trisavô, esta carta foi escrita em 13 de Abril de 1924, por uma tal Senhora Custódia Florinda Fidalgo.



Depois disso, o machado foi-me dado pela minha avó Mimi e usei-o muito, na juventude, quando dei aulas no secundário, para exemplificar aos miúdos o Neolítico. Depois do meu divórcio, ficou em casa da minha ex-mulher, mas fui busca-lo há uns dias. Sentia-lhe a falta.