
Este singelo e ingénuo S. Sebastião foi comprado na feira-ladra, num episódio que já contei aqui, a uma rapariga da chamada esquerda elegante, que achava os santinhos umas coisas tão atrozmente feias que me vendeu uma meia dúzia deles por um preço tão barato que é até é feio contar.

O pequeno registo, que não tem o nome e o local do impressor, deverá datar de finais do Século XVIII ou talvez inícios do XIX, pois apresenta uma moldura já ao gosto clássico, característico do reinado de D. Maria I. A representação do S. Sebastião da gravura é muito ingénua, mas obedece perfeitamente ao modelo iconográfico mais divulgado para este Santo. Vestido com uma túnica sumária, S. Sebastião está amarrado a uma árvore e tem o corpo perfurado por setas.
A formação do culto a este santo extremamente popular na cristandade é feito de histórias muito curiosas, que vale a pena aqui explorar um pouco.
Por volta do início do Século IV ou talvez finais do Século III, Sebastião nasceu na antiga Gália, na região de Narbonne e terá ido para Milão, onde se fez Cristão. Tornou-se oficial do exército pretoriano e caiu nas boas graças de Diocleciano, o imperador romano, que ficou na história como o responsável pela mais sanguinária perseguição aos cristãos de toda a história desta religião. Acontece que o nosso Sebastião desobedecia ao Imperador e incentivava os prisioneiros cristãos a conservarem a sua fé e ainda convertia mais uns quantos pelo caminho.
O inevitável aconteceu, Diocleciano descobriu tudo e ordenou aos seus soldados que o executassem, trespassando-o com flechas. Segundo a lenda, os arqueiros que o estimavam muito, evitaram atingir-lhe e o coração, de modo que Sebastião sobreviveu e foi recolhido e tratado por uma mulher, S. Irene, conforme se pode ver neste quadro de Georges La Tour, que está no Louvre.

Sebastião era obstinado e estava imbuído de uma fé nova, que hoje nos parece estranha e inútil, mas que no século IV, movia os melhores cidadãos romanos a actos heróicos e dirigiu-se a Diocleciano recriminando-o pela crueldade usada contra os Cristãos. Claro, O Imperador mandou-o executar a golpes de bastão, como podemos ver em baixo, na obra anónima do Museu Nacional de Arte Antiga e desta vez o pobre santo não sobreviveu ao martírio e o seu corpo foi atirado à cloaca máxima.

A devoção ao Santo foi crescendo e como aconteceu muitas vezes no Cristianismo, associou-se e sobrepôs-se a um culto pagão já existente, neste caso o de Apolo, o Deus arqueiro e da Medicina, invocado contra a peste. Por outro lado, as pessoas associavam as flechas à peste negra e se o S. Sebastião tinha sobrevivido às setas, então a sua invocação poderia proteger as pessoas daquela terrível doença. E Assim, a principal função de S. Sebastião, sobretudo depois das grandes crises de peste bubónica, que vitimaram um terço dos europeus no Século XIV, será a de santo protector contra aquela epidemia, o que explica a enorme popularidade da sua devoção por toda a Europa.

S. Sebastião por Sebastiano del Piombo, Século XVI, Museu do Louvre
Na arte, a representação de S. Sebastião foi evoluindo, até chegar aos dias de hoje. Nos primeiros tempos do cristianismo, o Santo era representando como um homem maduro, mas a partir do Século XIV, ou seja depois das grandes epidemias da peste, impõe-se a iconografia actual, do santo amarrado, sumariamente vestido e crivado de flechas, Esta imagem vai evoluindo pela renascença e pelo Barroco no sentido de S. Sebastião ser representando como um homem com um corpo jovem e cada vez mais belo. No fundo, os artistas do renascimento e do barroco encontram no tema de S. Sebastião a oportunidade de representar um nu masculino em todo o seu esplendor, à maneira da antiguidade clássica, que a temática da crucificação não lhes permitia fazer de todo. Aparecem então esculturas de S. Sebastião que são magníficos nus, ou óleos verdadeiramente sensuais como este do século XVII, de Annibal Carraches do musée de Soissons, em França.

De tal forma o tema do belo jovem quase se nu, se tornou popular entre os grandes escultores e pintores europeus, que modernamente S. Sebastião se tornou um ícone da cultura gay. Se nos abstrairmos da conotação religiosa de santo protector contra a peste, o que vemos é um jovem quase nu, contraindo-se lascivamente da dor e prazer provocada pela penetração das setas, imagem esta, que a cultura gay obviamente se apropriou, se vê na obra dos artistas franceses Pierre et Giles, os reis da arte kitch ou o fotografo Aleksandar Tomovic.

Enfim, comecei com a ingenuidade e acabei na perversão.
