Já vos contei muitas vezes sobre o meu hábito de
espiolhar todos os contentores das obras da Baixa Lisboeta, que são muitas vezes ricos em azulejos pombalinos, pois as pessoas parecem acha-los muito feios e na primeira remodelação do apartamento ou prédio, aproveitam para mandar retira-los e pôr tudo no lixo.
No fim-de-semana passado, estava precisamente a esgravatar despudoradamente um contentor das obras na baixa, quando vislumbrei que tinha companhia no meu trabalho de prospecção. Era um homem dos seus trinta e tal anos, com ar de quem já conheceu melhores dias e que me abordou de imediato a perguntar o que procurava eu ali. Respondi-lhe que procurava azulejos antigos e então o senhor
propôs-me ali sem rodeios, que lhe comprasse uma grande quantidade de azulejos antigos, que tinha em casa.
Em
circunstâncias normais, recusaria imediatamente a proposta, pois quem vive no centro, em bairros populares, onde o clima de miséria do País já é muito evidente, torna-se duro e desconfiado, mas houve qualquer coisa naquele homem já quase sem dentes, que me inspirou confiança. Certamente foram os olhos. Os olhos determinam sempre as nossas escolhas.
Acompanhei-o então até á sua casa ali na Mouraria e fomos conversando pelo caminho. Percebi que estava doente, com uma hérnia, sobrevivia de uns biscates na construção civil e depois de se ter divorciado, vivia por caridade numa arrecadação da Câmara. Andava pelos contentores das obras à cata de ferro, azulejos, mobiliário e tudo o mais que pudesse vender.

Lá subimos e subimos calçadas e
escadinhas da velha Mouraria e depois de entrarmos na arrecadação onde ele vivia, mostrou-me a um canto uns sessenta e tais azulejos Viúva Lamego (casa fundada em 1849 no Largo do Intendente Pina Manique) , do século XIX, de um padrão, que foi muito popular para revestir cozinhas, casas de banho, como também as próprias fachadas dos
edifícios. Vendeu-mos por um preço estupendo, menos de um euro cada um e descemos os dois carregados de
quilos de azulejos para o Martim Moniz, onde levantei dinheiro no Multibanco para lhe pagar.
Despedimo-nos e trocámos telemóveis para futuros contactos. Gostei dele. Havia ali uma honestidade firme que a pobreza não tinha corrompido

Quanto à compra, segundo a obra
Azulejos de fachada em Lisboa/ A. J. Barros Veloso, Isabel Almasque- Lisboa: CML, 1989, este padrão de azulejos era conhecido entre os operários da Viúva Lamego pelo curioso nome de,
bicha da praça e foi fabricado em mais duas variantes, para além desta que já apresento. Também foi produzido em amarelo e só forma um padrão completo com 4 azulejos.


Segundo a mesma fonte, este padrão foi estudado por uma Senhora Brasileira,
Dora Alcântara, que julgo que foi professora do nosso amigo Fábio. Esta
estudiosa dos azulejos portugueses das casas de S. Luís do Maranhão concluiu que este motivo foi uma adaptação de um azulejo holandês, conhecido por
Viersterren (quatro estrelas). Reproduzo aqui a página de um catálogo holandês do séc. XIX, de J. Van Hulst, de Harlingen, trazido à luz por Dora Alcântara e que o Fábio Carvalho teve a gentileza de me enviar por e-mail, onde aparece no canto superior esquerdo, a versão holandesa do padrão.
