quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Verre à la façon de Venise

Dei com este copo magnifico nas Feira-da-Ladra há uns anos e como não tinha dinheiro para ele, piquei o meu amigo Manel para o comprar, coisa que ele não se fez muito rogado, pois gosta muitíssimo de vidros e esta peça, mesmo sem sabermos o que era, apresentava desde logo uma qualidade excepcional.
O Manel regateou e voltou a regatear, comprou e guardou o seu precioso copo e um dia por mero acaso, ao folhear a Enciclopédia de antiguidades, da Editorial Estampa, 2006, p.92-93 descubro três peças com uma tipologia muito semelhante ao copo do Manel e das quais reproduzo aqui em baixo uma das imagens. Telefonei-lhe imediatamente e descobrimos desta forma, que este é provavelmente um copo à la façon de Venise, embora seja difícil dizer exactamente de que período ou centro de fabrico.
Para perceber exactamente o que um vidro à la façon de Venise, designação francesa por que ficou conhecido este trabalho, é preciso recuar um pouco no tempo, ao século V, o período das invasões dos bárbaros, que puseram fim ao Império Romano do Ocidente. Com a queda de Roma, desapareceu do Ocidente Europeu à arte de trabalhar o vidro, que os romanos tanto tinham aperfeiçoado, com a introdução da técnica do sopro.

No Século XIII a arte do vidro reaparece na Europa Ocidental, em Veneza, mediante a instalação naquela cidade de mestres vidreiros vindos de Constantinopla, que ensinaram aos venezianos as técnica mais simples, como as mais complicadas usadas na Ásia para colorir, dourar e esmaltar. Nos finais do Século XIII, para evitar os constantes incêndios, provocados pelos fornos das oficinas, os doges circunscreveram a produção de vidro à ilha vizinha de Murano e mantiveram nesse pequeno espaço os mestres vidraceiros debaixo de um controlo muito apertado. Com efeito, desde essa época o vidro veneziano ganhou uma enorme reputação por toda a Europa. Todos os grandes fidalgos, príncipes e ricos burgueses cobiçavam aquelas peças preciosas que só os Venezianos sabiam fabricar e cujo segredo mantinham com todos os cuidados. As autoridades venezianas proibiram a saída da laguna de materiais ou ferramentas relativas à arte do vidro e todo o mestre vidreiro, que abandonasse Murano era automaticamente considerado como traidor e sujeito à pena de morte se fosse apanhado

Copo à la façon de Venise do musée de Dijon

O prestígio do Vidro veneziano não parou de crescer e no renascimento desenvolveu-se a técnica da filigrana de vidro, que podemos observar neste copo. Contudo no século XVII, os monarcas e príncipes Europeus, à custa de muito ouro, subornaram os mestres de Murano e trouxeram-nos para os seus países, nomeadamente para França, Flandres, Países Baixos, Estados Alemães, Boémia e Inglaterra onde passaram a produzir vidro à maneira de Veneza, com este trabalho precioso de filigrana, moda que se prolongou pelo Século XVIII fora.

Copos à la façon de Venise no musée Curtius, Bélgica

É complicado datar e localizar exactamente o centro de fabrico este copo em particular. Vi dois copos muito semelhantes a estes à venda no Marche aux Puces de Paris. O Louvre vendia réplicas de vidros destes das suas colecções. Enfim, o máximo que se pode adiantar é que é certamente um copo feito à la façon de Venise.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Até ao fim do Mundo: os azulejos pombalinos de Lisboa


A propósito do meu recente post sobre azulejaria Viúva Lamego nas casas do Rio de Janeiro, o Fábio Carvalho comentou, que um dia gostaria que eu lhe fizesse um roteiro dos azulejos em Lisboa, para ele visitar na sua próxima viagem a Lisboa.

É difícil traçar um percurso dos principais painéis ou colecções de azulejos em Lisboa. Há-os por toda a parte, de todas as épocas e feitios. Nem é preciso entrar em Palácios ou visitar a colecção riquíssima do Museu Nacional do Azulejo, basta abrir os olhos e espreitar para dentro das velhas casas do centro, das igrejas ou estar atento às fachadas dos prédios.
Recordei-me a propósito desse desejo do Fábio Carvalho de dois filmes do realizador alemão Wim Wenders, que tomaram Lisboa por cenário. No primeiro, Até ao fim do mundo (Bis ans Ende der Welt, 1991) há uma máquina de ver sonhos, gravar visões e passa-las ao cérbero dos outros, que um cientista concebeu, para que a sua mulher (a sempre linda Jeanne Moreau), agora cega, possa ver os sítios, por onde viveram na juventude e claro um desses cenários é Lisboa. Na película Lisbon Story, Wim Wenders retoma o mesmo tema e é agora um sonoplasta que se encarrega de captar os sons de Lisboa para um amigo que está fora.
À maneira dos filmes do Wim Wenders, poderei por um instante ser os olhos do Fábio em Lisboa e entrar ao acaso nalguns prédios pombalinos, subir alguns degraus e ver painéis de azulejos pombalinos, que brilham nas escadarias de pedra sem luz. Puderei ver pelo Fábio a extraordinária capacidade de adaptação dos azulejos de padrão portugueses aos espaços arquitectónicos mais complicados e difíceis como as escadas e talvez ao fundo se ouça a lindíssima voz da Teresa Salgueiro dos Madre de Deus a cantar no filme Lisbon Story.





quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Ainda os azulejos "Bicha da praça" da Viúva Lamego: da Mouraria ao Rio de Janeiro


Na sequência do meu post de 22 de Dezembro, sobre o motivo, que ficou conhecido como bicha da praça, resolvi voltar a escrever sobre o assunto, pois o nosso amigo carioca, Fábio Carvalho enviou-me uma galeria fotográfica completíssima de azulejos portugueses no Rio de Janeiro e na qual se encontram inúmeros exemplos do motivo bicha da praça. No Brasil este padrão é conhecido por um nome também pitoresco, bicha e estrela ou estrela e bicha e antigamente abundava em muitos prédios do centro do Rio de Janeiro. A maioria dessas casas foram demolidas, mas o nosso Fábio, que deve ser um homem que conhece todos os recantos da parte velha da cidade maravilhosa e encontrou e fotografou na rua Visconde do Rio Branco um sobrado com os azulejos bicha da praça e ainda o mesmo motivo no Museu do Açude, que guarda uma colecção estupenda de faiança e azulejaria portuguesa.

Estes imagens que reproduzo aqui, são um bom exemplo de um momento da azulejaria portuguesa e também da história das artes decorativas brasileiras. Como é sabido a moda de revestir as fachadas das casas com azulejos começou no início do século XIX, no Nordeste Brasileiro, passou depois para Portugal e desde essa época, até aos primeiros anos do século XX, o Brasil foi um óptimo cliente das fábricas de cerâmica portuguesas. Já vimos aqui no blog vasos de Miragaia na cidade de Ubatuba, no Estado de S. Paulo e agora azulejos Viúva Lamego no Rio. De facto, a história portuguesa e brasileira entrelaça-se constantemente, mesmo que às vezes insistamos em virar as costas uns aos outros.
Convém explicar aos menos conhecedores de história da cerâmica e da cidade de Lisboa, que a Fábrica Viúva Lamego se encontra no Largo do Intendente em Lisboa e apesar de ser uma fundação relativamente recente (1849), se encontra num local onde existiam olarias a laborar desde a Idade Média. Como testemunho desses tempos, logo ali ao lado existe ainda uma rua das Olarias, um Largo das Olarias e umas escadinhas das Olarias. Em frente encontrava-se a Fábrica do Desterro, também especializada em faiança, que entretanto fechou. Não muito longe dali, está a rua Forno do Tijolo. A zona encosta pois ao velho bairro da Mouraria, numa área em que os artesão mouros ou descendentes dos mouros se dedicaram desde a Idade Média à moldagem de potes de barros, telhas e tijoleiras. A Viúva Lamego cuja imagem abaixo mostro mais não fez do que continuar uma tradição que vinha desde a Idade Média, provavelmente até do período islâmico.

Começámos no Rio de Janeiro e acabámos no Islão

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Pequeno registo com a Sagrada Família ou boas festas

O pequeno registo com a Sagrada Família que aqui apresento foi comprado em dois momentos diferentes.

Julgo que comprei primeiro a moldura na Feira-da-Ladra e destinava-se originalmente à casa de bonecas da minha filha. Contudo, o metal de que é feita tornava-a muito pesada para afixar na casinha da minha filha, de modo, que ficou armazenada numa gaveta à espera de melhores dias ou de uma utilização interessante.

Depois passado muito tempo, comprei numa casa de velharias, ali na Rua Forno do Tijolo, o registo com a Sagrada Família, que é certamente o resto de um escapulário. Julgo que em tempos terá tido um tecido, missangas e passamanes, mas só restou a gravurazinha num suporte doirado. É uma peça muito pequena, nem cinco cm de altura terá, mas é cheia de um encanto ingénuo e parece-me que será do Século XVIII, embora com estas obras de carácter popular se tenha que ter muita cautela na datação, pois parecem sempre ser mais velhas do que aquilo que realmente são. Depois, por um acaso qualquer, lembrei-me de colocar o registo na moldura e casaram tão bem, que parece que foram concebidos um para o outro.
Este registo e esta pequena história são o meu voto de boas festas a todos aqueles que tem tido paciência para me ler neste blog.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Azulejos Viúva Lamego: bicha da praça ou aventuras nos contentores das obras


Já vos contei muitas vezes sobre o meu hábito de espiolhar todos os contentores das obras da Baixa Lisboeta, que são muitas vezes ricos em azulejos pombalinos, pois as pessoas parecem acha-los muito feios e na primeira remodelação do apartamento ou prédio, aproveitam para mandar retira-los e pôr tudo no lixo.

No fim-de-semana passado, estava precisamente a esgravatar despudoradamente um contentor das obras na baixa, quando vislumbrei que tinha companhia no meu trabalho de prospecção. Era um homem dos seus trinta e tal anos, com ar de quem já conheceu melhores dias e que me abordou de imediato a perguntar o que procurava eu ali. Respondi-lhe que procurava azulejos antigos e então o senhor propôs-me ali sem rodeios, que lhe comprasse uma grande quantidade de azulejos antigos, que tinha em casa.

Em circunstâncias normais, recusaria imediatamente a proposta, pois quem vive no centro, em bairros populares, onde o clima de miséria do País já é muito evidente, torna-se duro e desconfiado, mas houve qualquer coisa naquele homem já quase sem dentes, que me inspirou confiança. Certamente foram os olhos. Os olhos determinam sempre as nossas escolhas.

Acompanhei-o então até á sua casa ali na Mouraria e fomos conversando pelo caminho. Percebi que estava doente, com uma hérnia, sobrevivia de uns biscates na construção civil e depois de se ter divorciado, vivia por caridade numa arrecadação da Câmara. Andava pelos contentores das obras à cata de ferro, azulejos, mobiliário e tudo o mais que pudesse vender.
Lá subimos e subimos calçadas e escadinhas da velha Mouraria e depois de entrarmos na arrecadação onde ele vivia, mostrou-me a um canto uns sessenta e tais azulejos Viúva Lamego (casa fundada em 1849 no Largo do Intendente Pina Manique) , do século XIX, de um padrão, que foi muito popular para revestir cozinhas, casas de banho, como também as próprias fachadas dos edifícios. Vendeu-mos por um preço estupendo, menos de um euro cada um e descemos os dois carregados de quilos de azulejos para o Martim Moniz, onde levantei dinheiro no Multibanco para lhe pagar. Despedimo-nos e trocámos telemóveis para futuros contactos. Gostei dele. Havia ali uma honestidade firme que a pobreza não tinha corrompido
Quanto à compra, segundo a obra Azulejos de fachada em Lisboa/ A. J. Barros Veloso, Isabel Almasque- Lisboa: CML, 1989, este padrão de azulejos era conhecido entre os operários da Viúva Lamego pelo curioso nome de, bicha da praça e foi fabricado em mais duas variantes, para além desta que já apresento. Também foi produzido em amarelo e só forma um padrão completo com 4 azulejos.
Segundo a mesma fonte, este padrão foi estudado por uma Senhora Brasileira, Dora Alcântara, que julgo que foi professora do nosso amigo Fábio. Esta estudiosa dos azulejos portugueses das casas de S. Luís do Maranhão concluiu que este motivo foi uma adaptação de um azulejo holandês, conhecido por Viersterren (quatro estrelas). Reproduzo aqui a página de um catálogo holandês do séc. XIX, de J. Van Hulst, de Harlingen, trazido à luz por Dora Alcântara e que o Fábio Carvalho teve a gentileza de me enviar por e-mail, onde aparece no canto superior esquerdo, a versão holandesa do padrão.
Ao que parece este fenómeno de cópias de padrões holandeses, franceses e ingleses foi relativamente vulgar na azulejaria portuguesa do século XIX.

Os azulejos destinam-se a uma casita rural que o Manel comprou no Alentejo

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Ménade


Os museus e palácios do Ministério da Cultura têm uma rede de lojas onde se vendem excelentes réplicas das suas colecções, sempre escolhidas por gente com um gosto irrepreensível.

Há uns tempos, entrei numa dessas lojas e descobri esta réplica de um fragmento de relevo, existente no Museu de Évora, que me apaixonou completamente e levei-a para casa.

A irregularidade dos planos e a falta de esquadria da água furtada antiga onde vivo parecem talhadas para receber fragmentos, ruínas e partes de objectos como esta Ménade. Parece que os séculos a partiram especialmente para caber entre o tecto e a televisão da minha casa.


Segundo o Museu de Évora As Ménades eram umas ninfas que alimentaram o Deus Baco e são conhecidas como as bacantes divinas. Inspiradas pela embriaguez cantam e dançam freneticamente até serem possuídas por um êxtase místico. Representam-se nuas ou vestidas com véus ligeiros que mal lhes dissimulam a nudez. Em grupo de nove, dançam coroadas de hera, e trazem na mão um tirso, por vezes um cântaro, ou então tocam um instrumento como uma flauta de dois tubos ou um tamborim.

As Ménades representam a irracionalidade e o abandono aos instintos e talvez por essa razão esta Ménade se tenha adaptado tão bem à minha casa tão irregular e assimétrica.
Esta peça é uma réplica de um original romano, da época do imperador Augusto (31 a. C a 14 d. C), achado no século XVIII nos alicerces da muralha romana de Beja. Depois, fez parte da colecção do célebre Arcebispo de Évora, frei Manuel do Cenáculo, que por sua vez esteve na origem do núcleo inicial do Museu de Évora

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Cornija e capitel em talha dourada: uma pequena loucura


Por vezes, enlouquecemos e queremos ter uma qualquer peça insensata em casa, para a qual não temos espaço, mas ainda assim vamos em frente e depois de uma negociata de ciganos, damos por nós a transportar uma cornija e capitel em talha dourada num saco do Pingo Doce, a subir com aqueles 9 ou 10 kilos, uma calçada lisboeta daquelas a pique e finalmente três andares sem elevador de um prédio desengonçado e antigo.

Depois, abrimos o saco e... como dizem os brasileiros, caímos na real e percebemos que não há 40 cm de parede livre em casa. Segue-se um momento de desespero, mas rapidamente a esperança regressa, quando nos lembramos da frase daquele coleccionador francês, que dizia, que quando encontramos uma boa antiguidade a preço de ocasião, devemos sempre compra-la, pois uma boa peça encontra sempre o seu lugar em casa.
Pede-se a opinião de amigos, desviam-se uns pratos para o lado, umas travessas passam para outra parede, tira-se o berbequim do armazém e lá se consegue encaixar a cornija num sítio adequado que respeite a sua concepção original, pois este elemento arquitectónico foi desenhado para correr entre a parede e o tecto.

Pronto, foi tudo isso que recordo desse período de insanidade mental.
Agora, que recuperei a minha lucidez, investiguei alguma coisa sobre talha dourada e apesar de ter apenas um fragmento de um todo decorativo, consegui apurar que pertence à primeira fase da talha dourada barroca portuguesa, designada pelos especialistas como 1ª fase: estilo nacional (entre 1675 e 1725) e cujas principais características são colunas torsas (ou retorcidas) profusamente ornamentadas com motivos fitomorfos (folhas de acanto, cachos de uva, por exemplo) e zoomorfos (aves, geralmente um pelicano); coroamento formado por arcos concêntricos; revestimento em talha dourada e policromia em azul e vermelho.
Vi uns quantos altares barrocos deste período do estilo nacional, dos quais destaco o da Igreja de Minde (em cima)ou o Altar de S. João Evangelista no Museu Regional de Beja (em baixo) e neles estão sempre presentes este tipo de cornijas com com uma cabeças de anjinhos nos capitéis