quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Faiança do século XIX: Quem eram os meninos gordos?


A propósito do recente post sobre o prato de faiança da Bandeira, com a jovem na fonte, que poderá ser ou não uma representação da célebre heroína minhota, houve seguidores que me enviaram muitos elementos sobre esses meninos gordos, nomeadamente a proprietária misteriosa, que nos tem presenteado com belíssimas peças de faiança e o Fábio Carvalho, que um dia destes ainda descobre o célebre túmulo de Alexandre o Magno, através de uma pesquisa no Google. Resolvi partilha-lhos com os seguidores deste blog, bem como toda a comunidade de cibernautas cansados de fazer pesquisas na net e nunca encontrarem nada de jeito sobre faiança

Os meninos gordos eram o Mateus e a Ana e nasceram perto e Turim, no Norte de Itália, em 1831 e 1833, respectivamente. Eram extraordinariamente obesos. Com 11 anos apenas o Mateus pesava 201 kg e a Ana com 9 anos somava 129 kg. As pobres crianças foram transformadas em animais de circo e foram apresentadas por toda a Europa e os próprios monarcas não desdenhavam vê-los de perto, como Luís Filipe de França, a corte piemontesa ou a nossa D. Maria II.
Em Portugal, os meninos gordos estiveram em 1842 em Lisboa, Porto, Viana, Braga e depois em 1843 em Guimarães e outra vez no Porto. É provável que tenham visitado mais terras em Portugal.

Impressionaram tanto as pessoas, que as oficinas de cerâmica, nomeadamente a Bandeira produziram muitos pratos dos dois meninos, para as pessoas ficarem com uma lembrança de tão estranho fenómeno.

Para a nossa sensibilidade moderna, exibir assim duas crianças parece-nos monstruoso. Mas não andamos nós todos a assistir na televisão a reality shows horrorosos onde é mostrada toda a baixaria humana?

Para quem quiser saber mais recomenda-se o livro Meninos Gordos: Faiança Portuguesa/ Isabel Maria Fernandes. Porto: Livraria Civilização Editora, 2005, que acompanhou a exposição, que infelizmente não tive ocasião de ver.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Galheteiro malegueiro

Hoje, a nossa amável seguidora presenteou-nos com um galheteiro todo branquinho, muito representativo de um género de faiança utilitária comum em Portugal e que é conhecido pelo nome de Malegueira.

Chamou-se Malegueira porque as primeiras faianças, que chegaram com abundância a Portugal vieram da cidade espanhola de Málaga e caracterizavam-se precisamente por serem todas branquinhas (O nome Malga deriva desta loiça). A partir do século XVI, começou a ser imitada no nosso País e desde essa época, a louça malegueira, branca e com nenhuma ou escassa decoração passou a ser produzida abundantemente, até ao principio do Século XIX. Com era branca e pouco ou nada ornamentada, a faiança malegueira era barata e destinada ao uso corrente dos conventos, das casas fidalgas, das boticas ou então para as casas dos menos abastados.

Aqui a inscrição Mafra não se refere a nenhum fabricante, mas sim ao cliente. As grandes casas religiosas encomendavam às oficinas de faiança grandes quantidades de loiça para uso corrente com o nome ou as insígnias da Ordem

Para os grandes dias e para a mesa dos abades, abadessas e madres superioras usava-se porcelana da china, bem entendido.

No site dos museus do Ministério da Cultura, o Matriz, encontrei duas peças com as mesmas marcas, um Púcaro (inv 1277) e um Cântaro (inv 765), pertencentes ao Palácio Nacional de Mafra e que estão datados do século XVIII

Para fazer este texto, usei como fonte de referência o excelente Faiança portuguesa: roteiro: Museu Nacional de Arte Antiga. - Lisboa: IPM, 2005

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Clotho: a mais nova das parcas


Esta estampa francesa representando Clotho é uma das minhas peças preferidas da casa do Manel.

Apesar de estar aqui representada com um luxuoso vestido de seda, próprio para um baile na corte em Versalhes, esta Clotho é uma das parcas, figuras temíveis e muito pouco simpáticas da mitologia greco romana, que presidiam aos destinos dos Homens.

Segundo a tradição clássica, as Parcas eram três irmãs, Clotho, Lachésis e Atropos e detinham o fio misterioso, que simbolizava o curso da vida humana e eram por isso representadas como fiandeiras.
Clotho tecia o fio da vida, Lachésis enrolava o fio no fuso e Atropos cortava o fio. No fundo, a primeira criava a vida, a segunda tratava da prossecução da vida e a última punha-lhe fim, com uma simples e precisa tesourada. (Ver imagem superior de Giovanni Battista Paggi)

Esta tradição da mitologia clássica sobreviveu no português actual, pois usamos na nossa linguagem corrente, muitas vezes expressões como “tecer o destino”ou o “frágil fio da vida”, mesmo que não saibamos, que estas metáforas tem origem no mito destas terríveis mulheres.
Esta Clotho sempre me fascinou por causa do realismo com que é representada a seda do vestido. Não é fácil representar as texturas e o cair dos diferentes tecidos. Sei disso, porque em jovem interessei-me por moda, comprei livros sobre desenho de figurinos e cheguei a pintar muitos croquis de vestidos, mas a seda era sempre representação difícil. Contudo, nesta estampa, ao olharmos para o vestido da Clotho, o artista conseguiu a proeza de nos fazer ouvir o frufru da seda de um vestido de corte, num salão de baile revestido a espelhos venezianos.

Fascinado com a Clotho, procurei saber mais e pesquisei sobre o impressor, o Monsieur Mariette. Fiquei um pouco confuso porque descobri que Mariette é o nome de família de uma dinastia de impressores, livreiros e coleccionadores, que tiveram a sua oficina em funcionamento nos séculos XVII e XVIII, em Paris, na Rue de S. Jacques. Esta rua fica na Rive Gauche e hoje é uma artéria, que a remodelação urbanística do Século XIX, de Haussman, tornou insignificante

Existiram portanto três senhores Mariette , primeiro, o Pierre Mariette, (1603-1657), o segundo Jean Mariette (1660-1742) e o terceiro, Pierre-Jean Mariette (1694–Paris 1774), o mais famoso de todos, que além de livreiro e impressor, foi um coleccionador famoso e crítico de arte.
Estava pois na dúvida sobre qual dos Mariettes tinha impresso esta estampa e fiz uma pesquisa mais aturada no site da Bibliothèque nationale de France e acabei por descobrir que o responsável por esta Clotho foi o Monsieur Jean Mariette (1660-1742), cujas obras tinham sempre esta assinatura característica I. Mariette, com o sinal identificador aux colonnes d'Hercules.

Presumindo que o Monsieur Jean Mariette tenha começado a assinar as suas próprias obras com cerca de vinte anos de idade, podemos datar esta gravura entre 1680 e 1742.

Estava resolvido o problema da autoria, mas resolvi ir um pouco mais além e tentar saber se esta estampa pertenceu a um livro, ou se o Jean Mariette foi um mero executor de desenhos dos outros. Não encontrei a resposta a estas perguntas, mas também na La Bibliothèque nationale de France, encontrei mais uma estampa com a sua assinatura, Madame de *** en Magdelaine, que retrata uma dama de corte, despojando-se das suas jóias como Maria Madalena fez outrora e o tratamento dos tecidos é exactamente igual ao da Clotho. A mestria inacreditável no tratamento dos tecidos luxuosos parece ser característica da obra de Jean Mariette

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Prato da Fábrica da Bandeira(?) ou minha mãe mandou-me à fonte e eu parti a cantarinha


A nossa seguidora misteriosa continua decidida a alimentar-nos todos a pão-de-, enviando imagens de peças de faiança fantásticas.

Desta vez, enviou-nos um prato com uma cena deliciosa, representando uma rapariga numa fonte, com dois cântaros e um ar pensativo. Já tive ocasião de explicar neste blog, que no passado ir à fonte era o único momento de liberdade das raparigas, ocasião para namoriscar e dar uma escorregadela perigosa. A coisa era de tal maneira, que a expressão partir a cantarinha tornou-se sinónimo de perder a virgindade. A velha canção infantil “minha mãe mandou-me à fonte e eu parti a cantarinha, ó minha mãe não me bata que eu ainda sou pequenina..." faz eco dos costumes desse tempo e bem podia ser a banda sonora que acompanha a cena deste prato irresistivelmente ingénuo.

No entanto, há também a hipótese de esta cena representar a Maria da Fonte, cuja revolta se deu provavelmente na altura em que este prato foi produzido. De facto, era hábito no século XIX as oficinas de cerâmica produzirem pratos representando os acontecimentos marcantes ou em voga. Os melhores exemplos disso são os pratos e estatuetas dos "meninos gordos", que representavam umas crianças muito gordas, a Ana e o Mateus, que foram exibidos pelas feiras e circos como curiosidade, entre 1840 e 1842 (Ver imagem enviada pelo Fábio Carvalho). As peças de faiança com os meninos Gordos são na sua maioria produzidas pelas fábricas do Norte, entre as quais a da Bandeira e portanto é de todo plausível que essas mesmas manufacturas se tivessem lembrado de fazer um prato com a Maria da Fonte.
E de facto, houve mais pratos a serem produzidos com esta jovem com a cantarinha ou Maria da Fonte, conforme se pode ver neste exemplar que o Mercador Veneziano me enviou, reproduzido do catálogo de um leiloeiro.

O Fábio Carvalho ainda conseguiu descobrir na net mais uma variante deste prato da Maria da Fonte ou da jovem que vai à Fonte. Difere dos outros dois pelas ramagens da árvore que serve de pano de fundo à cena.


Em termos de identificação do fabricante o prato não está marcado, mas já percebemos pelos exemplos acima mostrado a que fábrica é atribuído. No site matrizpix, o inventário fotográfico das colecções dos museus nacionais encontrei ainda dois pratos do Museu Nacional de Soares dos Reis, inv. 1104 e inv 1087 (fotos inferiores na ordem respectiva), muito semelhantes a este, quer ao nível das cores, quer da decoração floral da cercadura, atribuídos à Fábrica da Bandeira e datados do Século XIX. Podemos atribuír com segurança o prato da moça na fonte à Fábrica da Bandeira.

A fábrica da Bandeira situava-se em Vila Nova de Gaia e terá estado activa entre 1840 e o início do século XX. As suas produções confundem-se muitas vezes com as de Fervença.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Prato e galheteiro em faiança de Estremoz

A nossa seguidora continua a presentear-nos com as peças da sua colecção de faiança. Desta vez enviou-me por e-mail um prato e um galheteiro atribuídos a Estremoz.

Não se sabe grande coisa da Fábrica de Estremoz. Terá laborado entre 1773/4 e 1808. Até há pouco tempo pensou-se que existiram duas oficinas distintas. Hoje acredita-se outra vez, que só houve uma fábrica, mas com dois períodos bastante diferenciados entre si.

Na primeira fase, trabalhou o mestre Sebastião Gavixo (1773/74 a 1775), que tinha aprendido a sua arte no Porto e na Fábrica do Rato e portanto a primeira produção caracteriza-se pelo uso da flor do morangueiro e das faixas de Ruão. Uma parte dessas peças tem a a marca CX ou Estremoz.

A segunda fase dos mestres José Freme da Roza e Joaquim Freme da Roza (1773/74 a 1808.) caracteriza-se pelo domínio da policromia, com o uso de muitos motivos florais miudinhos, geométricos e umas pequenas paisagens muito delicadas. A fábrica terá terminado com a entrada dos franceses em Estremoz em 1808.

As peças da nossa amiga são nitidamente do segundo período.

No catálogo, Cerâmica neoclássica em Portugal. – Lisboa: IPM, 1997, consta um prato do Museu Municipal de Portalegre, inv 629, praticamente igual ao da nossa amiga e que está datado entre 1795 e 1808 (foto inferior).


Quanto ao galheteiro, no mesmo catálogo encontrei uma leiteira do Museu Nacional de Arte Antiga, inv 2365 com um mesmo ar de família e igualmente datado entre os anos de 1795 e 1808.
Embora vivendo nas terras de Vera Cruz, mas conhecedor de tudo o que é site sobre faiança, o Fábio Carvalho enviou-me uma imagem de um galheteiro, também atribuído a Estremoz, que saiu publicado no catálogo duma leiloeira lisboeta.
À laia de conclusão, podemos adiantar que Estremoz tal com Miragaia, Viana, o Rato, Sto António do Vale da Piedade, ou Massarelos, foi mais uma das muitas manufacturas criadas no ambiente favorável das reformas pombalinas e que prosperaram ao longo do reinado de D. Maria. Todas elas entraram profunda em crise com as invasões francesas, mas conseguiram sobreviver com muitas dificuldades, uma parte delas pelo menos até meados do século XIX, excepto Estremoz, que soçobrou de imediato.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Mais faianças do Museu do Açude: Miragaia


No ficheiro de imagens enviado pelo Fábio sobre a Colecção do Museu do Açude, no Rio de Janeiro constavam duas peças Miragaia, datadas do chamado segundo período de laboração da fábrica, isto é, entre 1822-1850.

A primeira é um vaso de faiança em tudo semelhante, à que existe na antiga casa de Manoel Baltazar da Cunha Fortes, na cidade de Ubatuba, estado de S. Paulo, aqui reproduzido em 22-10-2010
E também idêntico aos exemplares apresentados na exposição sobre a fábrica Miragaia, propriedade da Confraria do Santíssimo Sacramento de Miragaia, no Porto (imagens inferiores na ordem respectiva), igualmente reproduzido no blog, em 22-10-2010



Só a cercadura superior do exemplar do Museu do Açude difere das outras peças já mostradas em 22-10-2010. Tal como as outras, pertence a chamada série País, que dominou a produção do segundo período de laboração de Miragaia.
A segunda é uma a esfera também destinada a ser colocada num alto dum edifício, por cima duma balaustrada ou a ladear um portão e está também marcada Miragaia.
Esta peça aparece reproduzida no catálogo Fábrica de Louça de Miragaia, Lisboa: IMC, 2008, p. 103, embora não constasse da exposição. A autora do texto, Margarida Rebelo Correia, afirma que nunca viu nenhum exemplar semelhante em Portugal. Talvez os leitores do Porto e da Região Norte consigam descobrir no alto das casas antigas das suas terras peças idênticas a esta. Prometo publica-las no blog.

Pelo lugar onde estão, ambas as peças provam que a portuense Fábrica de Miragaia fazia muito bons negócios com o Brasil

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Là-bas, là-bas, de l'autre côté du miroir


Espelhos nunca são demais numa casa pequena. Reflectem, aumentam os espaços e criam janelas, que se abrem para outros mundos, que só na aparência são iguais a este.

Este espelho pertenceu à minha avô Mimi, que o terá mandado fazer em Braga, aos Mouras, nos anos 40 e apresenta-se no chamado estilo D. João V, com os concheados característicos daquele reinado. Fazia parte de uma mobília de quarto completa, toda em D. João V, que foi repartida entre mim e os meus irmãos.

Quando o recebi estava pintado de um dourado esverdeado bastante feio. Uma vez raspei-o ao limpa-lo e percebi que havia uma tinta dourada mais brilhante por baixo. Julgo que a minha avó quando o recebeu, achou-o demasiado brilhante e mandou-o escurecer, só que o resultado foi qualquer coisa de híbrido e desinteressante.

Um dia, estava a avivar com guache os dourados de uma peça antiga e por curiosidade experimentei usar aquela tinta no espelho num dos adornos laterais. Ficaram com um reflexo bonito. O Manuel também gostou e como tem um olho clínico para o restauro, aconselhou-me a repinta-lo integralmente. Assim o fiz a três tons de dourados, um muito vivo, outro em ouro velho e outro com cambiantes de vermelho. Os tons mais vivos foram para os frisos, os intermédios para preencher as superfícies maiores e o avermelhado para o interior das conchas, criando assim zonas de diferentes brilhos.

O espelho ganhou uma vida nova e agora reflecte o pequeno mundo de velharias da minha casa, transformando-o por efeitos de luz e óptica num outro mundo, que apetece visitar, atravessando o espelho para o outro lado

Là-bas, là-bas,
De l'autre côté du miroir,
J'aimerais tant qu'on m'y porte,
Qu'on s'y voit, qu'on y passe,
Oh, oh que je voudrais que l'on m'y porte,
Avant que quelqu'un ne le casse,
Là-bas, là-bas,
De l'autre côté du miroir,