quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Ainda a Fábrica da Bandeira

A Maria Andrade apresentou recentemente um post mostrando mais decorações de pratos atribuídos à Fábrica da Bandeira, para lá daqueles que já vimos aqui. Na sequência desse seu trabalho, aproveito para apresentar aqui mais uma peça, que a nossa seguidora misteriosa amavelmente resolveu divulgar e que mostra ainda um  outro motivo diferente, as armas reais de Portugal.

Usando o trabalho da Maria Andrade e o conteúdo de anteriores posts deste blog podemos arriscar com uma primeira tentativa de sistematização dos motivos dos pratos com cercaduras de flores, tradicionalmente atribuídos àquela fábrica Bandeira:


1- Figuras humanas:


- Os Meninos Gordos Ana e Mateus
Menino gordo, catálogo de uma leiloeira


- As Marias da Fonte

Prato da Seguidora Misteriosa

- Os Músicos

Prato do Museu Nacional de Soares dos Reis 1104


- Casal Passeando

Prato de catálogo de leiloeira



- Retratos, Figuras Reais, etc 


Prato do Museu Nacional de Soares dos Reis 1087


2- Heráldica, Símbolos Reais, etc



- Escudo real


Prato da Seguidora Misteriosa

3- Paisagens:



- Casario

Prato de Catálogo de Leiloeira


- Paisagem rural com animais de quinta, gansos, (foto gentilmente roubada do blog da Maria Andrade)



Não sei se servirá para alguma coisa, mas assim podemos começar a arrumar algumas ideias

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Terrina atribuída à Fábrica da Bica do Sapato

A nossa seguidora misteriosa decidiu enviar-nos por e-mail uma peça atribuída à Fábrica da Bica do Sapato.

Apesar de as faianças deste centro de fabrico serem das mais procuradas pelos coleccionadores e antiquários o conhecimento da sua produção é escasso. Na realidade, sabe-se através dos documentos de arquivo, que a Fábrica existiu entre 1796 e 1818 e que em 1824 já não constava dos mapas estatísticos das fábricas do Reino, que se efectuavam nas altura.

Sucedeu-lhe no mesmo sítio, na calçada dos Cesteiros, ali para Santa Apolónia, mas uma década mais tarde, a Fábrica de Vítor Roseira, que produziu milhares de azulejos paras as fachadas dos prédios lisboetas.


A única peça que se conhece marcada da Fábrica da Roseira é esta Lavanda, que pertence a uma colecção particular e foi a partir dela que Artur Sandão, o celebre especialista em cerâmica, por comparação estilística, fez pela primeira vez uma série de atribuições a outras peças sem marca e a partir dessas, os antiquários fizeram mais outras quantas atribuições.

Esta explicação para a existência de uma única peça marcada da Bica do Sapato não se prende com o acaso, mas antes, porque na sociedade de antigo regime portuguesa, ainda corporativa, era necessário a uma fábrica, que pretendesse entrar em funcionamento, requerer um alvará à Junta de Comercio, provando ser capaz de fabricar produtos de qualidade. Assim tal como o operário para passar a mestre sapateiro ou alfaiate tinha que apresentar a obra-prima, a fábrica candidata ao Alvará submetia à consideração da referida Junta uma peça de grande qualidade e com assinatura. Esta Lavanda talvez tenha sido uma dessas peças.
Escrevi estas palavras com base num dos textos de Alexandre Nobre Pais e João Pedro Monteiro presente na obra Cerâmica neoclássica em Portugal. – Lisboa: IPM, 1997

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Grand Tour ou Caneca inglesa da John Meir & Son

Infelizmente a minha casa é pequena e qualquer coisa para lá entrar, deve sujeitar-se a uma regra de ouro, ser pequena, tal como esta bela caneca inglesa, com uns desenhos bonitos, muito bem executados, como é hábito da loiça inglesa, através da técnica do transfer way.

A caneca apresenta o padrão roselle, que é composto por um romântico chalet e uma árvore, que ladeiam um lago, onde se avista ao longe um castelo. Roselle é o nome de uma localidade italiana no Sul de Florença, que era um ponto de escala do chamado Grand Tour
Vista de Roselle no início do Século XIX

O Grand Tour era uma grande viagem efectuada por jovens oriundos das mais altas classes britânicas ou alemãs, destinada a aperfeiçoar a sua educação. A moda começou no século XVII e prolongou-se pelos séculos XVIII e XIX.

Os destinos principais eram a França, os Países Baixos, a Alemanha, a Suiça e sobretudo a Itália e mais tarde a Grécia e a Ásia Menor. Estas viagens eram longas, duravam por vezes mais de um ano e os jovens eram acompanhados por um tutor e tornaram-se uma prática instituída, considerada absolutamente necessária a uma boa educação. Serviam também para o jovem nobre fazer a sua educação sexual e ao que consta Veneza era a cidade preferida para essa iniciação, e enfim, nós só lhe podemos gabar o bom gosto.

O Grand Tour foi também o caminho escolhido dos amantes das belas artes, dos coleccionadores e dos escritores. Por essa forma, as classes cultas do Norte da Europa começaram a conhecer a arte do renascimento italiano e arte geco-romana e consequentemente o Grand Tour ajudou assim a difundir o palladianismo e o neoclassicismo, modas que reintroduziram o gosto pelo clássico na arte europeia.

Esta pequena peça de loiça, que traduz essa moda do Grand Tour, terá sido produzida entre 1837-97, em Tunstall, sede da John Meir & Son para gente da classe média, que não tinha dinheiro para viajar até Itália ou até a Grécia, mas que se comprazia a imaginar essas viagens ao pequeno almoço tomando leite ou chá nestas canecas.

Em Portugal, segundo aprendi com o mercador veneziano, O Roselle foi copiado pela Fábrica de Massarelos. Foi também adaptado de forma popular por um fabricante que algumas leiloeiras identificam como Vilar de Mouros e outras por loiça de Coimbra.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Ratinhos, Ciganos e Estremoz

A nossa seguidora misteriosa presenteou-nos com mais um prato ratinho da sua colecção, representando um galo e que pertence à categoria dos zoomórficos (os animais), como este prato da antiga colecção do António de Capucho, que o Fábio fez-me o favor de me enviar.


Recordo mais uma vez que esta loiça ratinha se divide tradicionalmente nas seguintes categorias:

-zoomórficos (os animais), vegetalistas (plantas) e geométricos, que são os mais antigos.

-figuras populares, masculinas ou femininas, figuras fantásticas, caricaturas e retratos.

A propósito deste tipo de loiça tão característica, que não se confunde com mais nenhuma, tenho visto na Feira de Estremoz muitas destas peças à venda. Ao contrário, nas feiras de Lisboa, aparecem poucos ratinhos e quando isso acontece vendem-nos ao preço do ouro.

De facto se pensarmos bem, é natural que no Alentejo haja mais ratinhos do que em Lisboa, pois no passado, os trabalhadores beirões que chegavam às terras alentejanas para as ceifas trocavam a sua faiança ratinha por roupa usada. Mas, talvez o mais curioso disto tudo é que em Estremoz, a venda de velharias está praticamente toda na mão dos ciganos, coisa que nunca tinha visto em lado nenhum. Normalmente, vejo os ciganos feiras a venderem roupa nas feiras e droga na Baixa Lisboeta.

Mas, em Estremoz quase todas as bancas de velharias estão na mão dos ciganos e segundo me disseram são respeitados neste comércio de antiguidades. Todos eles apresentam uma vantagem negoceiam sempre. Primeiro atiram com um preço alto. Nós torcemos a cara. Baixam o preço. Voltamos a torcer o nariz e eles perguntam-nos quanto queremos oferecer. Portanto, é uma gente com a qual se pode comprar coisas a preços mais aceitáveis.

Os ciganos são um povo que me fascina sempre. Tenho-lhe algum receio, mas a história de nomadismo, que transportam consigo desde a Índia fascina-me. Recentemente tive por vizinhos umas quatro ou cinco famílias de ciganos moldavos (enfim, eu moro num bairro intercultural do centro de Lisboa) e olhei-os sempre com um misto de medo, admiração e nojo. As crianças eram duma beleza rara, mas aquelas famílias viviam no meio do maior lixo, como se estivessem num bairro da lata. Confesso que quando os vi longe respirei de alívio.

Passei dos Ratinhos a Estremoz e daí aos ciganos, mas o pensamento humano é feitio através destas estranhas associações

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Azulejos neoclássicos

Há muito tempo comprei este friso de azulejos com um motivo de botão de flor, que aproveitei para mandar colocar ao longo da janela. Descobri-o na Feira-da-Ladra e não foi muito caro. Normalmente quando se compram azulejos em quantidade, os vendedores fazem sempre uma significativa atenção.

Sempre gostei deles, mas nunca procurei muito saber sobre este motivo, até que, há umas duas semanas, quando me andei a informar sobre a louça de Estremoz, descobri no catálogo Cerâmica neoclássica em Portugal. - Lisboa: IPM, 1997 um painel com uma cercadura exactamente igual, que só difere nas cores. Os meus são azuis e a cercadura da exposição é em amarelo e verde. O referido painel está datado de cerca de 1800.


Em cima do painel está um dos meus muitos crucifixos e no chão umas das minhas opulentas e sensuais Vénus pré-históricas, que provavelmente serão falsificações. As três coisas não tem nada a ver umas com as outras, mas por qualquer motivo desconhecido harmonizaram-se bem.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Meus anjos


Talvez não sejam bem anjos, mas antes aquilo que os italianos designam por putti, o que em português não se pode traduzir literalmente, pois o resultado fica muito feio. Enfim, à falta de melhor designação, são uns meninos gorduchinhos, que no passado enfeitavam o topo de grandes altares de talha dourada. Normalmente, eram postos aos pares e seguravam uma coroa ou abriam uma cortina como se fosse um pano de cena, sempre com a função de chamar a atenção para a imagem de Cristo, da Virgem, ou do Santo que ocupava o centro do altar.
Comprei-os na Feira-da-Ladra e como a minha casa é muito pequena, sem 10 cm que sejam de parede livre, foram parar ao tecto, o que até nem foi mau, porque consegui respeitar a colocação original para o qual estas peças de talha foram concebidas.

O tecto desta divisão foi já mandado fazer por mim, aproveitando o próprio formato da água furtada e imitando deliberadamente os antigos tectos de maceira dos solares portugueses. É um bocadinho ridículo colocar tectos com um ar palaciano num triste T1, mas ao mesmo tempo, os visitantes que sobem por umas escadas desengonçadas e acanhadas até minha casa, são apanhados por um efeito surpresa, quando abrem a porta e vêem aquela recriação de uma sala do Solar de Mateus à escala 1/43.

Falta-me agora qualquer coisa para pôr no meio dos anjos. Se eu fosse a Salomé, pedia a cabeça do José Sócrates, mandava-a dourar a ouro de lei e colocava-a lá no meio como se fosse um mascarão daqueles usados na Renascença.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Faiança do século XIX: Quem eram os meninos gordos?


A propósito do recente post sobre o prato de faiança da Bandeira, com a jovem na fonte, que poderá ser ou não uma representação da célebre heroína minhota, houve seguidores que me enviaram muitos elementos sobre esses meninos gordos, nomeadamente a proprietária misteriosa, que nos tem presenteado com belíssimas peças de faiança e o Fábio Carvalho, que um dia destes ainda descobre o célebre túmulo de Alexandre o Magno, através de uma pesquisa no Google. Resolvi partilha-lhos com os seguidores deste blog, bem como toda a comunidade de cibernautas cansados de fazer pesquisas na net e nunca encontrarem nada de jeito sobre faiança

Os meninos gordos eram o Mateus e a Ana e nasceram perto e Turim, no Norte de Itália, em 1831 e 1833, respectivamente. Eram extraordinariamente obesos. Com 11 anos apenas o Mateus pesava 201 kg e a Ana com 9 anos somava 129 kg. As pobres crianças foram transformadas em animais de circo e foram apresentadas por toda a Europa e os próprios monarcas não desdenhavam vê-los de perto, como Luís Filipe de França, a corte piemontesa ou a nossa D. Maria II.
Em Portugal, os meninos gordos estiveram em 1842 em Lisboa, Porto, Viana, Braga e depois em 1843 em Guimarães e outra vez no Porto. É provável que tenham visitado mais terras em Portugal.

Impressionaram tanto as pessoas, que as oficinas de cerâmica, nomeadamente a Bandeira produziram muitos pratos dos dois meninos, para as pessoas ficarem com uma lembrança de tão estranho fenómeno.

Para a nossa sensibilidade moderna, exibir assim duas crianças parece-nos monstruoso. Mas não andamos nós todos a assistir na televisão a reality shows horrorosos onde é mostrada toda a baixaria humana?

Para quem quiser saber mais recomenda-se o livro Meninos Gordos: Faiança Portuguesa/ Isabel Maria Fernandes. Porto: Livraria Civilização Editora, 2005, que acompanhou a exposição, que infelizmente não tive ocasião de ver.