A nossa segunda seguidora misteriosa enviou-me por e-mail mais um conjunto de faiança coimbrã, datada entre o século XVIII e XIX, dedicada a um único tema, os peixes. Por coincidência, ou por qualquer entendimento telepático entre amantes das belas artes, a nossa primeira seguidora misteriosa enviou-me pouco tempo depois outro prato subordinado ao mesmo tema, que remata em beleza esta pequena exposição de faiança de Coimbra dedicada aos peixes.
Os peixes são vulgares em toda a arte do Mediterrâneo. Creta, Grécia e Roma usaram-nos. O Cristianismo tornou-os um símbolo da sua fé. Em Portugal, o Peixe, ou melhor a pesca foi uma fonte de riqueza inesgotável desde o período romano. As costas portuguesas, desde Lisboa ao Algarve, estão cheias de vestígios de cetárias, os tanques onde os romanos produziam o garum, a célebre pasta de peixe, que era destas paragens exportado para todo o império. E por toda a nossa história a pesca permaneceu uma actividade essencial na vida portuguesa. Só agora com a União Europeia, abatemos quase por completo a nossa frota pesqueira. Portanto, é natural que este tema apareça com pujança na loiça portuguesa. Aliás é curioso, que a Maria Andrade há uns tempos apresentou uma travessa
inglesa do Século XIX, com cavidades para o molho escorrer, que os britânicos usavam para servir a carne assada. Mais ou mesmo no mesmo período, Miragaia fabricou travessas com formas em tudo semelhantes às travessas inglesas, mas chamadas peixeiras, porque de facto em Portugal comer-se-ia muito mais peixe do que em Inglaterra.
Segundo as próprias palavras da segunda proprietária misteriosa, o primeiro prato apresenta uma borda que me encanta, julgo que como é hábito algum artista coimbrão resolveu fazer uma interpretação pessoal do motivo rendas do século XVII/XVIII. É sem dúvida uma peça de início de XVIII, de carácter sacro em que julgo ter-se tentado explorar também o motivo peixe na sua acepção religiosa!
De facto, o motivo é indubitavelmente de significado religioso. No topo está o Sagrado Coração de Jesus, uma devoção católica iniciada por Santa Margarida Maria Alacoque. Entre 1673 e 1675, Cristo terá aparecido a esta santa e terá prometido a todos os que comungarem nas primeiras sextas-feiras de nove meses consecutivos, a graça na penitência final e o Seu Divino Coração como refúgio na hora da morte.
À volta do coração de Jesus, aparecem os peixes, um símbolo cristão. O peixe, como toda a gente que já viu os filmes Quo Vadis, A Túnica ou Ben-Hur sabe, era um símbolo secreto para os primeiros cristãos se identificarem entre si. A palavra grega para peixe, transcrita em latim, Ichthus, tem cinco letras, que dispostas verticalmente, são as primeiras palavras das frases Jesus Cristo Filho de Deus Salvador, conforme se pode ver no esquema que retirei da wikipedia francesa :
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I (I, Iota): ΙΗΣΟΥΣ (Iêsoûs)
Jesus;
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Χ (KH, Khi): ΧΡΙΣΤΟΣ (Khristòs)
Cristo;
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Θ (TH, Thêta): ΘΕΟΥ (Theoû)
Deus;
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Υ (U, Upsilon): ΥΙΟΣ (Huiòs)
Filho;
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Σ (S, Sigma): ΣΩΤΗΡ (Sôtếr)
Salvador.
Depois, na continuação directa deste prato, e avançando um século na produção coimbrã, a nossa segunda misteriosa, apresentou-nos um ratinho, com um motivo que eu nunca tinha visto nesta loiça, um peixe, talvez uma garoupa, segundo a Maria Andrade, envolto naquilo que me parecem ser as flores do linho.
Deste prato, passamos para outro exemplar ratinho, também com um motivo central do peixe, um ruivo (segundo a Maria Andrade), mas desta vez propriedade da nossa primeira seguidora.
Finalmente, a segunda seguidora, mostra outro ratinho com um sorridente peixe no meio, que a nossa Maria Andrade identificou como um Atum, mas sem certeza
Segundo a classificação apresentada para esta faiança Cerâmica de Coimbra: do Século XVI – XX / de Alexandre Nobre Pais, João Coroado, António Pacheco. Lisboa: Edições Inapa, 2007, estes pratos pertencem ao tipo zoomórfico e pelos vistos a um subtipo muito específico, os peixes
O mais curioso disto tudo é que estes peixes representados nos ratinhos, parecem representações naturalistas de espécies existentes. Infelizmente, não percebo nada de ictiologia e não os consigo identificar, mas os meus leitores e seguidores deram-me já uma ajuda e continuo aberto a mais opiniões.
Por mim, vou ficar a contemplar estes maravilhosos peixes, que parecem ter saltado de algum fresco cretense para a louça ratinha de Coimbra e despeço-me com mais um prato da nosa primeira seguidora com mais um ratinho representando...um pescador.