domingo, 14 de agosto de 2011

Cadeira estilo Luís XVI

O meu amigo Manel gosta de comprar velhos móveis, que muitas vezes já ninguém liga muito, para os restaurar e devolver-lhes uma nova vida. Ao mesmo tempo que os restaura, estuda-os e vai solidificando os seus conhecimentos sobre uma determinada época, como por exemplo, esta cadeira, que adquiriu há uns anos e apresenta todas as características do estilo artístico, que dominou o reinado do rei francês, Luís XVI (1774-1791) e que tomou o seu nome. Este Luís foi o Senhor que casou com Maria Antonieta e dois tiveram um triste fim, pois acabaram guilhotinados, vítimas da fúria da Revolução de 1789.

O estilo Luís XVI surge como reacção aos excessos barrocos do período anterior, o chamado Estilo Luís XV, em que todas as linhas são curvas e exuberantes e a simetria do classicismo é pura e simplesmente arrumada e esquecida nas arrecadações dos sótãos dos palácios.

A rosácea é um elemento típico deste estilo

O novo estilo Luís XVI baseou-se nas recentes descobertas arqueológicas de Pompeia, em 1748, que impressionaram a Europa dos aristocratas e os membros do alto clero e puseram na moda um gosto mais sóbrio, uma admiração pelas linhas direitas, pelas colunas dos templos clássicos. Aliás este gosto pelas colunas é um dos traços mais característicos do mobiliário Luís XVI. Os pés das cadeiras, das poltronas, das camas, das cómodas e dos canapés parecem pequenas colunas romanas.


O pé canelado como se fosse uma coluna clássica
Mas este retorno à antiguidade não é um plágio, mas antes uma inspiração, pois a época é demasiado frívola e desejosa de fantasias para adoptar sem restrições as linhas demasiado frias do classicismo.

os pequenos pormenores frívolos destinados a seduzir

Recordo-vos que é este o período em que a rainha Maria Antonieta vive uma existência despreocupada em Versalhes, gastando milhões em vestidos, mandando erguer nos jardins do referido Palácio, uma aldeia falsa para brincar aos camponeses com o seu círculo íntimo. Assim, nas formas puras do classicismo, usam-se grinaldas, os estofos das cadeiras são feitos de delicados tecidos com padrões florais. Embora, baseado no classicismo o estilo Luís XVI é feminino, cheio de graça e destinado a seduzir.
o espaldar cabriolet en chapeau e o tecido floral muito típico da época

Normalmente este mobiliário tinha por pano de fundo salas com boiseries em madeira trabalhada e pintada, que se harmonizavam com os estilos dos móveis. Reproduzo aqui o desenho de umas dessas salas apaineladas, retirado da obra L'Art architectural en France, motifs de décoration intérieure et extérieure / dessinés... par Eugène Rouyer ; Texte, par Alfred Darcel. - Paris : Noblet et Baudry,1863-1866, para vos dar uma ideia do luxo desses interiores.

As boiseries Luís XVI

Voltando a cadeira à cadeira do Manel, ela é feita em faia, uma madeira que normalmente se usava nos móveis que se destinavam a serem pintados. O mobiliário francês desta época é muitas vezes pintado de branco, cinzento ou então dourado. A faia é uma madeira pouco usada na marcenaria portuguesa, o que leva o Manel a pensar que esta peça tenha origem no estrangeiro. Em Portugal normalmente usa-se castanho, nogueira, carvalho ou madeiras exóticas, como o pau-santo.

O Manel como não gosta de móveis pintados, retirou-lhe a tinta cinzenta e deixou-a na sua cor natural, o que está mais de acordo com a tradição portuguesa, que aprecia a textura e as cores da madeira à vista.

Para o estofar, escolheu-lhe um bonito tecido bastante antigo, apanhado do lixo em Barcelona e que pertenceu aos cortinados de um velho palácio daquela cidade,


No entanto, a cadeira estava estofada com molas, o que indicou desde logo ao Manel que a sua peça não poderia ser um original do século XVIII. As molas só aparecem no século XIX. Por outro lado, esta cadeirinha fazia parte de um conjunto, formado por um canapé, poltronas e muitas cadeiras, o que também nos mostra que será já uma peça do século XIX, pois é nesta época que as famílias burguesas ganham o hábito de encomendar jogos de mobília no mesmo estilo para cada uma das divisões. Para a sala de jantar escolhiam móveis Renascença, para o escritório um solene estilo império e para a sala de visitas, um delicado conjunto estilo luís XVI.

Eugénia do Montijo por Franz Xaver WINTERHALTER
Na verdade esta cadeira é muito provavelmente da época de Napoleão III, acerca da qual já aqui escrevemos. A sua mulher, a espanhola, Eugénia de Montijo, tinha uma verdadeira paixão pelo mobiliário estilo Luís XVI, de que mandou executar inúmeras cópias, lançando assim uma moda, que se espalhou por toda a Europa e Américas. Em França chamam as estas cópias “Louis XVI-Impératrice” e a partir de meados do século XIX multiplicaram-se por todas as grandes casas burguesas de Lisboa a Varsóvia, passando por Berlim e estendendo-se ao Rio de Janeiro ou a Nova Iorque.

Para quem quiser saber mais recomendo a leitura da obra Reconnaîte les meubles de style / P.M . Favelac. - Paris: Ch. Massin, [s. d.]

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Paris par Laure Albin-Guillot


Passam-me muitos livros pela mão. Consigo estabelecer com eles uma relação impessoal, como os médicos fazem com os seus doentes. Mas, a semana passada, tive um verdadeiro choque, quando ao abrir um álbum luxuoso de 41 cm e deparei com estas fotografias a preto e branco de Laure Albin-Guillot. São imagens de uma beleza lancinante de Paris. Foram provavelmente tiradas nos finais dos anos 30, mas mostram uma Paris imemorial, cujas imagens já tinha na cabeça, muito antes ainda de visitar a cidade. Aliás, só com o tempo, consegui reencontrar em Paris estas imagens que alimentaram a minha infância e adolescência. As primeiras vezes que lá fui senti-me esmagado e intimidado pela grandeza da cidade. Depois aos poucos, com o auxílio da literatura, da arte, da história e do cinema consegui ter a maturidade suficiente para descobrir a elegância e a beleza da arquitectura e urbanismo parisienses, que Laure Albin-Guillot tão bem mostrou.


A livro onde estão estas imagens chama-se Les Splendeurs de Paris e abre com uma citação de Paul Valery, muito a propósito da fotografia a preto e branco de Laure Albin-Guillot, em que afirma que a obra reduzida à luz e à sombra toca-nos mais e torna-nos mais profundamente pensativos, que o registo a cores. Não resisto a transcreve-la na íntegra e em francês. Comment le blanc et le noir vont parfois plus avant dans l’âme que la peinture et comment, ne prenant au jour que ses différences de clarté, un ouvrage réduit à la lumière et aux ombres nous touche, nous rende pensifs plus profondément que ne fait le registre des couleurs.



Laure Albin-Guillot (1879-1962) começou a sua carreira de fotógrafa como auxiliar do seu marido, investigador num laboratório, ao executar fotografias de micro-organismos. Nos anos 20 já era uma artista consagrada e premiada, que realizou retratos de André Gide, Paul Valéry e Jean Cocteau entre outros. Nos anos 30, foi fundadora da cinemateca francesa e ilustradora dos livros Narcisse de Paul Valéry e Les Chansons de Bilitis de Pierre Louÿs. Foi também autora de nus muito simples e inspirados.


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Sta. Catarina de Alexandria: gravura dos finais do século XVIII

Já aqui escrevi sobre Sta. Catarina de Alexandria, figura lendária cuja existência se confunde com a mítica Hipácia, a mulher filosofa, que defendia os ideiais do conhecimento helénico face a um Cristianismo cada vez mais asfixiante e que por essa razão terá sido assassinada por uma turba enfurecida, em 415 da nossa era.


Mas, desta vez, poupo-vos aos pormenores da vida da santa e o mote deste post é autor do registo que vos apresento, provavelmente datado dos finais do século XVIII. Apresenta Santa Catarina com a iconografia tradicional, a palma e o instrumento do seu martírio, a roda. Ao fundo há um pormenor delicioso, que representa a Santa quebrando a roda, com a força da sua fé.



Tirando o pormenor anedótico da Santa quebrando a roda, o desenho da estampa é mais académico e clássico do que o da maioria dos registos da época e iremos perceber porquê.



Como poderemos ver, no rodapé do lado esquerdo, a estampa está assinada por Godinho. O “F” no final, é abreviatura da palavra latina fecit, que quer dizer obviamente “fez”. O Senhor que a fez trata-se provavelmente de Manuel da Silva Godinho, um gravador do século XVIII, discípulo de J. Carneiro da Silva, sobre quem já aqui escrevemos. Segundo Luís Chaves, na obra Subsídios para a História da gravura em Portugal. Coimbra, Imp. Da Universidade. 1927 este Manuel da Silva Godinho destacou-se como grande produtor de estampas devotas.

Talvez em virtude de ter sido aluno de J. Carneiro da Silva na aula de gravura da Imprensa Régia, a futura Imprensa Nacional, que ainda hoje existe, da Silva Godinho deixou um trabalho artístico mais clássico que os outros gravador de estampas religiosas.

Biblioteca Nacional possui no seu acervo umas quantas estampas, que estão on-line, deste gravador, datadas entre 1790 e 1800. Gostei particularmente do retrato de Bento Joze Labre, que roubei no site da referida Biblioteca e que aqui reproduzo.
 
 
Impresso numa cor azulada, o meu registo reporta-se à devoção praticada na ermida de Santa Catarina, em Lisboa, que se situava no alto de Santa Catarina, onde hoje é o palacete da Associação Nacional das Farmácias. A ermida era propriedade da Irmandade dos Livreiros, o que fazia todo o sentido, pois estava localizada muito perto dos bairros onde se distribuiam as  lojas destes comerciantes (Calçada do Combro, Bairro Alto, Chiado) e Santa Catarina,  famosa pela sua erudição e cuja figura se confundia com a filosofa Hipácia, era naturalmente sua patrona.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Fotografias antigas da capela do Espírito Santo em Fronteira

Quando escrevi o meu post sobre as ruínas da capela do Espírito Santo na vila de Fronteira, a Maria Andrade comentou com amargura a destruição de uma casa antiga em Anadia e na promessa não cumprida de a Câmara recuperar uma janela manuelina dessa casa, para a colocar num jardim. O Flávio escreveu que gostaria era de ver imagens da capela antes da sua destruição parcial, em 1970. Apesar da beleza destas ruínas, o que as pessoas queriam dizer era que teria sido bem melhor conservar e restaurar o monumento do que deixa-lo cair.


Estes comentários deixaram-me a matutar e resolvi procurar mais sobre esta capela, seguindo uma das pistas indicadas no site http://www.monumentos.pt/, que indica como referência básica o autor Keil.


O portal lateral
Calculei logo que se tratasse do Luís Keil, que entre outras coisas foi funcionário do Museu Nacional de Arte Antiga e descobri através de uma pesquisa bibliográfica, que o quer ele tivesse escrito sobre Fronteira só poderia estar Inventário artístico do Distrito de Portalegre, publicado em 1943.


O púlpito
Consultei o referido volume e lá estavam as fotografias da capela ainda inteira, apesar de já muito arruinada, com a porta principal emparedada. No entanto no início dos anos 40 ainda tinha tecto, o púlpito, um tecto e as 4 fachadas.

O portal principal já emparedado

Resolvi partilhar essas fotos com os seguidores deste blog, bem como com as outras pessoas que por aqui passam, trazidas ao acaso pelas pesquisas nos motores de busca. São fotos de fraca resolução e a preto e branco, mas documentos significativos.
O altar da fotografia inicial

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Azulejos cosméticos


As casas antigas são como as velhas damas, precisam de muito pó-de-arroz para tapar as rugas e as outras marcas do tempo. As estruturas dos prédios antigos lisboetas são muitas vezes em madeira, ainda segundo o esquema da gaiola pombalina e como esse material encolhe ou estica, consoante a humidade ou o calor, as paredes abrem rachas todos os anos, que é preciso corrigir aplicando massa tapa-fendas, tal como fazem as velhas senhoras às suas rugas. E depois, para o aparecimento de todas estas rachas concorrem factores como a sucessão de obras mal feitas nestas casas antigas, que as fragilizam para sempre e ainda os pequenos sismos, que volta meia volta, sacodem os habitantes destas casinhas



Os azulejos antigos são uma alternativa à massa tapa-fendas e um óptimo cosmético para as casas antigas e por isso há que tê-los sempre à mão. Nesta parede do quarto dos meus filhos existia uma racha particularmente persistente, que há uns três ou quatro anos tapava e que reaparecia sempre. Com um fragmento de um painel historiado do século XVIII, comprado por tuta-e-meia na Feira da Ladra, tapei a malvada racha e dei a ilusão, que quando fiz obras em casa, apareceu debaixo do estuque um vestígio de um painel antigo de azulejaria.

O azulejo é realmente um material versátil capaz de criar ilusões dentro e fora das casas.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A fotografia do colégio: Maria do Espírito Santo Montalvão Cunha


Já há uns tempos que pensava mostrar este retrato de grupo, das meninas de um colégio religioso no Norte de Portugal. A fotografia capturou um momento da vida de um conjunto de raparigas e meninas, no início da década de 20, que hoje estarão todas mortas, ou talvez duas ou três das mais pequenitas estejam ainda vivas e contem com noventa e tais anos.


A minha avó Mimi com cerca de 15 anos

Entre as que já morreram encontra-se minha avó Mimi (1907-2000), Maria do Espírito Santo Montalvão Cunha. Está na última fila, no grupo das mais velhas. Aparenta uns 15 anos e portanto a fotografia poderá terá sido tirada em 1923, o que coincide com a data de um quadro que ela pintou no colégio, datado daquele ano e que se encontra em minha casa.

A pintura assinada em 1923

Falava bastante desse tempo do colégio interno, que deve ter ser sido muito marcante. Contava-nos, que do colégio tinham um pequeno acesso para a praia e que iam muitas vezes para lá passear em grupo com as colegas. Também nos dizia que tinha autorização para de manhã, acordar mais tarde que as suas condiscípulas. Os pais teriam transmitido às suas mestras, que ela era uma criança enfermiça. A sua longa carreira de grande hipocondríaca deve ter começado logo nessa altura.
A Mimi era uma pintora com algum talento

Julgo que neste colégio deve ter tido uma boa educação para a época. Aprendeu a pintar muito bem. Desenvolveu o gosto pela cultura, que também já lhe vinha de família e ensinaram-lhes uma caligrafia impecável, cursiva e cheia de ângulos. Voltei mais tarde a encontrar esse tipo de letra em documentos manuscritos por pessoas da sua geração ou um pouco mais velhas e acredito agora que aquela caligrafia correspondesse a um modelo definido, ensinado em todas as boas escolas. Durante alguns anos imitei deliberadamente a letra da minha avó, desenhando hastes angulosas, mas hoje já só tenho uma letra meramente cursiva, até porque cada vez escrevo menos à mão.



Claro, a educação que lhe deram no colégio não era destinada a exercer uma profissão. Naquele tempo as meninas iam para estes colégios, aprender a ler e a escrever, falar um pouco de francês, pintar, desenhar, bordar e talvez a martelar umas peças musicais simples ao piano. O objectivo era prepara-las a serem umas senhoras decorativas, que os maridos gostassem de apresentar em jantares de negócios e bailes, mas que ao mesmo tempo fossem piedosas e capaz de ajudar os filhos nos deveres escolares.



Nesta fotografia, as raparigas usam quase todas o cabelo curto, à garçonne, uma moda de penteados, que cortou radicalmente as tranças, os longos cabelos e as crinas que as meninas e senhoras usavam até ao final da Primeira Grande Guerra. Esta moda, que correu a Europa e os Estados Unidos a um ritmo alucinante no início dos anos 20, começou meramente por acaso, quando um dia Coco Chanel queimou o cabelo ao fazer um permanente e resolveu cortar o cabelo à rapaz e sair para a rua fazendo furor.

Algumas das moças, apresentam fitas como medalha ao pescoço, Umas são escuras outras claras. Julgo que seriam uns prémios dados às alunas com bons rendimentos escolares. Portanto, é provável, que esta fotografia tenha sido tirada no final do ano lectivo, aliás, na época, a fotografia era cara e só se chamava o fotógrafo em ocasiões especiais, como o final do ano lectivo.

A minha avó é das que tem uma medalha ao pescoço. Julgo que terá sido uma boa aluna. No seu livro de contos, baseado na sua própria vida, conta, que em resultado dos seus bons resultados escolares, os seus pais lhe pagaram uma viagem à ilha Madeira, o que para a época era um prémio excelente. Foi de barco, acompanhada de uma tia ou madrinha, já não me recordo, pois nos anos vinte as meninas não viajavam sem chaperon e foi uma coisa absolutamente inesquecível, pois dois dos seus contos falam dessa viagem e num deles, a sua personagem, conhece nas ilhas encantadas o amor da sua vida, o futuro marido.

A Mimi com o marido, o meu avô Silvino

Claro, depois a coisa não aconteceu bem como nos seus contos e a Mimi viveu um longo casamento com uma relação extremamente crispada.

Em todo o caso, o colégio foi um período marcante. Quando já estava demasiado idosa para viver sozinha e a perder as faculdades mentais, fui viver connosco e muitas vezes julgava que a minha mãe era a Directora do Colégio.

As únicas informações que eu tenho acerca deste colégio era que pertencia às Doroteias e estava localizado em Vila do Conde. Durante muito tempo pensei que fosse no Mosteiro de Santa Clara, aquela massa edificada que se vê, na margem do rio, mas fiz algumas pesquisas na net e não encontrei referência a nenhum colégio de Doroteias naquela terra nortenha. Parece ter havido naquelas datas, um colégio das Doroteias na Póvoa de Varzim, ali ao lado, dirigido pela célebre Madre Sá, uma educadora conceituada, que esteve refugiada na Suiça, no período mais anticlerical da República.

A escritora Agustina Bessa Luís, que frequentou este colégio escreveu alguns parágrafos sobre essa Madre Sá, elogiando o seu espírito de justiça. Talvez a Madre Sá seja a directora de que a minha avó falava, nos seus delírios de senilidade, quando regressava à infância,

terça-feira, 26 de julho de 2011

Mais sobre a faiança de Estremoz

Quando apresentei o post com a tampa da terrina do Manel, algumas pessoas congeminaram como seria o resto da peça, já que a tampa era por si só tão bonita. Talvez por querer satisfazer a imaginação desses seguidores, a nossa primeira seguidora misteriosa enviou-me imagens de uma terrina completa da sua própria colecção, que também é atribuída a Estremoz.




Nesta peça, podemos observar novamente a técnica de pintura atmosférica, que torna a produção da fábrica de faiança de Estremoz famosa. Como já referi no post anterior, para criar uma sensação de profundidade, pintam-se com cores mais escuras os elementos mais próximos do observador e aqueles que se quer dar a ideia que estão mais longe, são pintados com cores desvanecidas.




O uso do termo atmosférico tem a ver com o facto de que a técnica é geralmente utilizada para pinturas de espaços exteriores, para representar as poeiras e a humidade que distorcem o que o olho vê.



Mas não são só as perspectivas de pintura, que são notáveis nesta peça, mas também os pormenores das pegas da terrina e da tampa.



Tampa


Mas como a nossa seguidora misteriosa é generosa, enviou-nos também uma bonita travessa, representando uma paisagem com casario da Fábrica de Estremoz, pintada na mesma técnica acima descrita.



A propósito do termo Fábrica, que usamos indiscriminadamente nestes blogs para falar do Rato, de Miragaia, Massarelos ou de Estremoz, entre outros, convém esclarecer, que em História, só se usa o termo fábrica, para grandes unidades de produção mecanizada, nascidas depois da revolução industrial, que como toda a gente, começou na Inglaterra em meados do Século XVIII e na restante Europa, ao longo do século XIX. Até à revolução industrial o que existem são manufacturas, unidades de produção já maiores do que as simples oficinas familiares, mas ainda com uma forma de trabalhar manual, aliás como o próprio nome indica (em latim, Manufactura, quer dizer feita à mão).



Ora, Estremoz, Viana, Rato, Miragaia, Juncal não tinham uma produção em massa mecanizada, como mais tarde, na segunda metade do Século XIX, veio a ter a Fábrica de Loiça de Sacavém. A rigor deveriam ser designadas por manufacturas. Contudo, segundo nos explica Sven Staff, na obra a Faiança portuguesa: fábrica de Estremoz, 1997 em Portugal, o termo usado nos documentos oficiais do século XVIII e princípios do século XIX é sempre Fábrica. Escreve-se a propósito da Real Fábrica do Rato, fazem-se requerimentos para a Fábrica de Miragaia no Porto ou relatórios sobre a Fábrica de Massarelos. Em suma, pode-se usar com propriedade o termo fábrica para estas unidades de produção cerâmicas, que estiveram activas entre 1750 e 1850, embora na realidade elas tivessem sido manufacturas.