quarta-feira, 24 de julho de 2019

Restos de um serviço de porcelana da Vista Alegre (1852-1869)

Desde que herdei da minha avó paterna uma meia dúzia de peças da Vista Alegre, fiquei fascinado com as delicadas decorações florais tão típicas da produção daquela casa ao longo do século XIX e não parei então de as coleccionar. Claro, como a minha casa é muito pequena, não posso comprar serviços inteiros. Limito-me a adquirir um bule aqui, uma chávena acolá depois uns anos mais tarde um prato de bolo, o que talvez seja uma tolice, pois um dia que precise de vender, um serviço inteiro terá muito mais valor comercial, do que uma dúzia e meia de peças desirmanadas. Mas como sou um mero coleccionador sentimental, acabo por ser um bocadinho errático nas minhas escolhas. 
Há pouco tempo comprei por um preço irrecusável um prato raso da Vista Alegre, com uma decoração floral e uns motivos dourados muito bonitos e quando cheguei a casa, descobri que já tinha uma chávena e uma leiteirinha do mesmo padrão. Estas duas últimas peças não estão marcadas e quando escrevi sobre elas em Outubro e Setembro de 2011, embora me parecessem da Vista Alegre, não deixei de colocar a hipótese de serem porcelana francesa, já que a fábrica de Ílhavo seguiu muito de perto das modas da porcelana feita na cidade de Paris.
Marca 14 da Vista Alegre (1852-1869)
Mas, com a compra deste prato, que está marcado tirei as dúvidas e as três peças que hoje apresento em conjunto são indiscutivelmente da Vista Alegre. O prato ostenta a marca nº 14, feita a punção usada entre 1852-1869 e assim sendo a chávena, a leiteira e o prato raso são até mais antigas do que pensava em 2011. Na época, tinha o palpite que fossem do 4º período da Vista Alegre, 1870-1880 e afinal foram produzidas entre 1852-1869.
Lista de marcas da Vista Alegre https://vistaalegre.com/catalog/evolucaomarca.pdf
 
Este resto de um antigo serviço de Chá não tem grande valor comercial, mas quem poderá resistir ao charme da sua delicada decoração floral?
 
 
  

segunda-feira, 15 de julho de 2019

O Menino Jesus do Convento das Flamengas


Comprei mais este registo, representando um Menino Jesus, vestidinho como se fosse um cortesão, a que não faltam sequer uns sapatinhos de fivela, uma camisa debruada com rendas e uma peruca. Estava muito mal emoldurado, numa dessas caixas de vidro, ornamentada com umas fitas de ouro compradas nas lojas dos chineses e ainda umas escamas de um peixe, provavelmente de uma espécie geneticamente modificada. Enfim, era uma daquelas coisas modernas e infelizes a imitar os registos feitos nos conventos. Resolvi retirar esta estampa antiga daquele horror, mas acabei por rasga-la e lá foi o meu amigo Manel, que com a sua paciência, a conseguiu colar.


Como já escrevi aqui no blog, durante os séculos XVII e XVIII nos conventos femininos portugueses a devoção ao Menino Jesus, manifestou-se de formas que hoje nos parecem muito curiosas. No muito tempo que tinham livre, as irmãs dedicavam-se a confeccionar enxovais completos ao Menino Jesus, onde não faltava nada, desde trajes de caça, roupa de cama, roupa interior, trajes de corte, chapéus, sapatos e meias, conforme nos dá conta Flávio Gonçalves na sua obra O vestuário mundano de algumas imagens do Menino Jesus, Porto, 1967. Mas as religiosas se não limitavam ao guarda-roupa, escreviam poemas ao Menino Jesus, encenavam peças de teatro para Ele e ainda encomendavam-lhe cadeiras e camas em miniatura, que são réplicas fiéis do mobiliário então em voga. É o caso, deste menino Jesus, das Religiosas Flamengas do Convento de Alcântara, em Lisboa, que se encontra sentado num cadeirão de braços muito ao gosto do século XVIII.

Cadeiras de imagem da col. do Museu Nacional de Arte Antiga


O Museu Nacional de Arte Antiga expõe na secção de mobiliário algumas dessas cadeiras e leitos de imagens, que além de serem uma verdadeira graça, testemunham a intensa devoção ao Menino Jesus experimentada por essas mulheres que viviam em reclusão. Claro, aos nossos olhos modernos, tudo isto nos parece coisa própria de mulheres celibatárias, que procuravam satisfazer um desejo recalcado de maternidade, mas a sua fé era genuína e o Menino Jesus era como que um cupido brincalhão, que cravava no coração dessas freiras o dardo do amor divino.

Leitos de imagem da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga


Esta estampa dos finais século XVIII reproduz uma imagem que existiu em tempos no Convento de Nossa Senhora da Quietação, em Alcântara, conhecido vulgarmente pelas flamengas, pois tinha sido fundado no século XVI, no tempo de  Filipe II, para acolher religiosas fugidas das perseguições luteranas na Holanda e na Flandres e terá sido objecto de um intenso culto não só parte das monjas clarissas, que viviam nessa casa de religiosas, mas também da população em geral, de outro modo não se teria mandado imprimir esta estampa.

Menino Jezus das Religiosas Flamengas d'Alcântara. Carvalho Fecit. Em caza de M. D. A Junior, na rua dos Calafates, nº 116

Este registo foi gravado por um tal Carvalho, que fazia muitas destas gravurazinhas baratas (só eu tenho umas quatro gravadas por ele)  e vendia-se em casa de um tal M. D. A Junior, na rua dos Calafates, nº 16. Estas iniciais correspondem ao nome Manuel d'Ambrosii Júnior, que no Inventário da colecção de registos de santos de Ernesto Soares é mencionado 13 vezes, o que nos dá ideia da popularidade das suas edições. Tinha a sua casa na rua dos Calafates, nº 116, em Lisboa, que corresponde à actual Rua Diário de Notícias, no Bairro Alto. O Bairro Alto foi durante mais de dois séculos uma zona onde tradicionalmente os livreiros e impressores tinham os seus estabelecimentos.
O Convento das Flamengas. Foto http://www.monumentos.gov.pt/

Quanto ao paradeiro actual deste Menino Jesus e do seu precioso enxoval, não descobri nada. Após a extinção das ordens religiosas, com a morte da última freira, em 1887, as alfaias e os objectos de cultos deste convento dispersaram-se. Uns fazem parte da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, mas entre eles não se conta o Menino Jesus nem a sua cadeira, e outros bens voltaram à igreja do mosteiro em 1889, sendo entregues à Real Irmandade da Nossa Senhora da Quietação. Será que este Menino Jesus pertencerá ainda à referida Irmandade ou foi vendido em hasta pública no século XIX e da sua existência luxuosa, com trajes de corte tão ricos, restou apenas esta estampa como testemunha?





Alguma bibliografia e links consultados:



Inventário da colecção de registos de santos / org. e pref. Ernesto Soares. - Lisboa : Biblioteca Nacional, 1955.


O vestuário mundano de algumas imagens do Menino Jesus / Flávio Gonçalves , Porto, 1967


http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5940

sábado, 22 de junho de 2019

Uma moldura em forma de harpa


A história familiar é importante para mim e gosto de me rodear de retratos dos antepassados. Creio que de certa forma repito os rituais dos antigos romanos aos deuses Manes, um culto prestado aos antepassados, que partiram, mas que coabitam com os seus descendentes, numa homenagem à perpetuidade da raça. Certamente por essa razão, sempre que vejo uma bonita moldura antiga numa feira de velharias, compro-a para encaixilhar mais um retrato de um bisavô, de uma trisavó ou de uma tia.

A mais recente aquisição foi este porta-retratos em forma de harpa, composto por duas placas diferentes de madeira artisticamente recortadas. É um objecto muito ao gosto da arte nova, que me encantou de imediato. Procurei obter algumas informações sobre esta peça no google e fiz umas quantas pesquisas por palavras chave naquele motor de busca , em francês, português e inglês e acabei por ir ter à pagina de um senhor espanhol, http://www.finescrollsaw.com, que ainda executa estes trabalhos a partir de moldes antigos e cuja leitura me permitiu perceber exactamente o objecto que tinha em não.

No início do século XX estes trabalhos de madeira recortada estavam muito na moda e existiam uma série de empresas francesas, italianas, inglesas, belgas e americanas que editavam catálogos, vendendo quer os moldes, quer as ferramentas para que, qualquer amador habilidoso executasse no conforto do seu lar uma panóplia de objectos, que iam desde molduras, a caixas de costura e guarda-joias, passando por gaiolas e étageres, sem esquecer as caminhas para meninos jesus e mobília para casas de bonecas. Normalmente estas peças tinham um recorte muitíssimo arrebicado e combinavam bem com o gosto sobrecarregado da decoração de interiores, tão típico da viragem do século XIX para o XX.
Catálogo da Casa Pietro Barelli. Imagem retirada de http://www.finescrollsaw.com/pietrobarelli/pietrobarelli-fr.htm

Num desses catálogo, o da casa Pietro Bareli, de Milão, datado de 1906, encontrei uma imagem de uma destas molduras em forma de harpa, que é praticamente igual à minha. Há apenas uma diferença, no lado direito do modelo existe uma pequena pauta musical, que corresponde à parte onde a minha moldura está quebrada. Como este porta-retratos é um objecto frágil, provavelmente um dia caiu ao chão e perdeu a pecinha que representava a pauta musical.

Em suma, consegui perceber que a meu porta retratos foi executado a partir de um molde de uma destas revistas, publicada logo início do século XX e irá agora servir para encaixilhar umas das muitas fotografias antigas de família que disponho.


sexta-feira, 7 de junho de 2019

O luxo do Vieux Paris: chávena e pires do início do século XIX


Depois de muito namoro o meu amigo Manel comprou esta peça de uma qualidade excepcional, uma chávena com um pires, moldados em forma de concha e que imediatamente presumimos tratar-se de porcelana de Paris, do início do século XIX. Com efeito, ainda antes do Manel adquirir finalmente a peça sabíamos, que o Museu Nacional de Arte Antiga tinha em exposição uma chávena exactamente igual, da antiga colecção de Luís Fernandes (inv. 4454 e 4455 cer)
Chávena do Museu Nacional de Arte Antiga. (inv. 4454 e 4455 cer)
Contudo a chávena do Museu Nacional de Arte Antiga está marcada com uma espécie de espadas cruzadas à maneira de Meissen, identificáveis com a Casa Locré, Russinger e Pouyat (1773-1824). Ao contrário, a chávena e pires do Manel não estão marcados, o que nos levou logo a ter uma série de interrogações quanto ao seu fabricante, pois muitas das casas de Paris desse período nem sempre marcavam as peças, imitavam-se umas às outras e sobretudo copiavam Sêvres. Creio eu que muitos desses fabricantes tentariam fazer passar os seus produtos por Sêvres, a mais prestigiada fábrica de porcelana francesa e europeia. Mais ainda, algumas dessas casas parisienses compravam porcelana em branco a outros fabricantes, que se limitavam a decorar. Em suma, quando as peças não estão marcadas é sempre um risco fazer atribuições.
A chávena do MNAA está marcada com uma espécie de espadas cruzadas à maneira de Meissen, identificáveis com a Casa Locré, Russinger e Pouyat
 
 
A chávena do Manel tem apenas uma pequeno x pintado a dourado, que creio ser apenas uma marca de controlo interno da fábrica.

Contudo, temos quase a certeza que se trata de Porcelana de Paris produzida nas duas primeiras décadas do século XIX. Na sua obra Porcelaine de Paris, Régine de Plinval de Guillebon afirma que, no início do Século XIX houve uma tendência geral na produção daquela cidade para transformar a chávena num bibelot extremamente requintado. Observa-se uma verdadeira loucura de formas novas de chávenas, que podem ser em forma de cisne, de caracol, de concha, ao estilo etrusco, caneladas e ainda com muitos grifos à mistura. A título de exemplo, a Darte Frères e Sêvres produziram chávenas em forma de cisne, que mais tarde, a nossa Vista Alegre copiou, mais ainda, a Dagoty e a Casa Locré, Russinger Pouyat fabricaram chávenas em forma de concha e os grifos abundaram por todo o lado.
Chávena e Pites da Dagoty, que esteve à venda na leiloeira Christie's
No fundo, esta chávena do Manel é bem um exemplo dessa produção das casas de porcelana Paris no início do século XIX, que tendem a adoptar formas insólitas, mas refinadas e a transformar a chávena num objecto que se exibe numa vitrina. É provável que tenha sido cerca fabricada cerca de 1820 pela Casa Locré, Russinger Pouyat, já que é igual ao exemplar do Museu Nacional de Arte Antiga, mas não é seguro. Em todo o caso, independente do seu fabricante está chávena é tão refinada, que só me ocorre um francesismo para a qualificar, ravissante.
 
 

Alguma bibliografia e links consultados:
 
Porcelaine de Paris, 1770-1850 / Régine de Plinval de Guillebon. Friburg: Office du Livre, 1972
 
 
 

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Os pais de Bento Roma: um herói da Primeira Guerra Mundial e governador de Angola


Continuo nos meus trabalhos de exploração do álbum de fotografias formado pelo meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio, que é um verdadeiro fresco da sociedade flaviense no último quartel do século XIX. Talvez por essa mesma razão insisto em partilhar publicamente as fotografias do álbum aqui no Blog, pois sinto que não são só pertença da família. Estas imagens são a memória de uma comunidade, da cidade e do Concelho de Chaves e nalguns casos do próprio País.
 
António Gonçalves Roma
Durante o trabalho de inventariação das fotografias, encontrei o retrato de um cavalheiro respeitável, identificado pelo meu trisavô na sua caligrafia miudinha, como António Gonçalves Roma. Na página ao lado desta fotografia estava um retrato de uma família, um senhor sentado, com um bebé sobre os joelhos, visivelmente orgulhoso da sua cria e em pé, a mãe, que posa com a sua melhor toilette, enquanto segura um leque. É engraçado observar como estes fotógrafos do XIX reproduziram a encenação e as convenções do retrato da pintura dos séculos anteriores, em que as grandes damas posavam sempre com um leque na mão, símbolo de riqueza e realeza. O Manuel, meu ajudante precioso neste trabalho de inventariação do álbum do meu trisavô, chamou-me a atenção para o facto, de que o orgulhoso pai da fotografia de conjunto é o mesmo indivíduo, que é representado com umas suíças e um bigode. Portanto, o retrato de grupo representava a família de António Gonçalves Roma.
 
António Gonçalves Roma e o filho
 

Segundo o jornal O Flaviense, nº1, 13 de Junho de 1876, António Gonçalves Bento Roma era um comerciante de algodões, lãs e fazendas em Chaves, com um estabelecimento acabado de inaugurar na Rua Direita. A 18 de Julho, anunciava-se no nº 6 do mesmo jornal, que António Gonçalves Bento Roma e outros comerciantes de Chaves organizaram um bazar de prendas, cujo produto destinava-se a ser aplicado, na compra de uma túnica para a imagem do Senhor dos Passos e um vestido para a devota imagem de Nossa Senhora das Lágrimas (*1). A julgar pela por estas informações e pela toilette complicada da sua mulher, terá sido um comerciante próspero, até porque na época a fotografia ainda era cara.
 
Verso da foto de António Gonçalves Bento Roma. Fotografia União, do fotografo António Correia da Fonseca,  Praça de Sta. Teresa, no Porto 

O retrato de António Gonçalves Roma foi tirado depois de 1876 na Fotografia União, do fotografo António Correia da Fonseca, que tinha sede na Praça de Sta. Teresa, no Porto, que era um dos estúdios mais chiques do Porto. A fotografia da família foi executada no estúdio de António José de Barros, activo desde 1874 na Póvoa de Varzim.
 
Verso da fotografia de grupo. António José de Barros, Póvoa de Varzim, Photographo
 
É certo que esta família burguesa era certamente próspera e talvez pudesse ir a banhos à Povoa de Varzim ou deslocar-se ao Porto em negócios, mas tenho sempre a mesma interrogação nestes casos. Será que os fotógrafos destas casas do Porto e terras circundantes não se deslocariam periodicamente às cidades e vilas do interior Norte, nos dias de festa dos respectivos santos padroeiros, para retratarem os burgueses abastados e a fidalguia locais?
 

Fiz mais umas pesquisas pelo nome deste senhor na internet e acabei por descobrir que António Gonçalves Roma e a sua mulher são nada mais, nada menos, que os pais do Coronel Bento Roma (1884-1953), um herói da primeira guerra mundial e das campanhas em Angola e que chegou a ser governador em Angola. Muitas ruas em diferentes localidades portuguesas ostentam o seu nome. Consultei o registo de baptismo de Bento Roma, de 2 de Janeiro de 1884, onde encontrei mais algumas informações sobre esta família. António Gonçalves Roma era natural de Chaves, negociante e a sua mulher era Josefina Augusta Esteves natural de Bobadela, Barroso, Concelho de Boticas e moravam na Rua Direita de Chaves. Curiosamente na sua antiga casa situa-se hoje a sede do Grupo Cultural Aquae Flaviae.
O Cornonel Bento Roma
Bento Roma em 1904. Foto retirada de O coronel Bento Roma (1884-1952): homenagens e consagrações em 1954 e 1955.  Lisboa: Of. gráficas da Gazeta dos Caminhos de Ferro, imp. 1955

Embora tenha consultado mais alguns livros de baptismo da então Vila de Chaves, não encontrei informação sobre mais nenhum filho deste casal. Portanto, a fotografia da família poderá muito bem ser o primeiro retrato de Bento Roma e ter sido tirada por volta de 1885 ou 1886.
 
Esta poderá ser a primeira fotografia de Bento Roma.
Não sei exactamente as relações que a família Gonçalves Roma estabeleceu com a minha família, mas Chaves, nos últimos 25 anos do século XIX era um meio pequeno e todos se conheciam. António Gonçalves Roma era um homem devoto, que organizou um bazar para comprar vestes para imagens da Virgem e de Cristo e certamente escutou muitas vezes os sermões do Padre José Rodrigues Liberal Sampaio, um pregador muito conhecido e era muito natural, que os dois tivessem trocado as respectivas carte-de-visite. Também é possível que a minha trisavó, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, que era nesta época uma mulher elegante se abastecesse no estabelecimento de tecidos família Roma, para mandar fazer as suas toilettes sofisticadas e a Sra. D. Josefina lhe tivesse oferecido um retrato da família.

Em todo o caso, anos mais tarde, por volta de 1911, os destinos da família Roma poderão ter-se cruzado novamente com os de Liberal Sampaio e da família Montalvão. Pouco depois da República, o meu trisavô, que era monárquico, esteve escondido algum tempo num quarto secreto do Solar dos Montalvões e posteriormente fugiu para Espanha: Nesse mesmo período, o jovem oficial, Bento Roma, um republicano convicto, foi incumbido de ir à Galiza tentar dissuadir os portugueses que ali se haviam concentrado com o fim de virem atacar a República. Quem sabe se os dois não se encontraram em Verín ou Fezes de Abajo, localidades galegas vizinhas de Chaves.
 
Bento Roma em 1907. Foto retirada de O coronel Bento Roma (1884-1952): homenagens e consagrações em 1954 e 1955.  Lisboa: Of. gráficas da Gazeta dos Caminhos de Ferro, imp. 1955
 
Alguma bibliografia:
(¨*1). História moderna e contemporânea da Vila de Chaves através das actas e jornais da época / Júlio Montalvão Machado. – Chaves: Grupo Cultural Aquae Flaviae, 2012, p. 89 e e 92

O coronel Bento Roma (1884-1952): homenagens e consagrações em 1954 e 1955 / pref. Do General Ferreira Martins. Lisboa: Of. gráficas da Gazeta dos Caminhos de Ferro, imp. 1955
 
 

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Ancient Greece: um prato de faiança inglesa Ralph Stevenson


Hoje apresento-vos um prato de faiança inglesa datado entre 1825–1827, com um padrão que não aparece muito no mercado, o Ancient Greece, o que em português quer dizer Grécia Antiga.

O prato está marcado, com nome do padrão e as iniciais do fabricante, RS estampados no verso, bem como a marca incisa Stevenson. A decoração é típica da faiança inglesa desta época, três personagens no meio de uma paisagem campestre, com ruínas clássicas, tendo por fundo um rio onde se vislumbra uma cidade antiga com uma ponte romana e um edifício com uma cúpula. Toda a cena está envolta por uma bordadura floral.
 
Terrina Ancient Greece

Este prato fez parte de um serviço jantar, onde se incluíam terrinas, travessas e todo o tipo de pratos e naturalmente entre essas peças existiam variantes decorativas.
 

No site do Transferware Collectors Club, encontrei um texto muito bem feito onde se explica qual foi a fonte usada para conceber a variante do padrão que decora a travessa da terrina do Ancient Greece. Os artistas da Stevenson usaram como inspiração o quadro O regresso de Ulisses, do pintor francês, Claude Lorrain (1600-1682), e que se encontra hoje no Museu do Louvre. Claro, não é uma adaptação fiel, pois ceramistas ingleses tiveram que adaptar um quadro que mede 1,10 x 1.5 m a uma travessa de terrina com cerca de 30 cm e claro está simplificaram a pintura.
Pormenor da travessa da terrina do Ancient Greece
 
O regresso de Ulisses, Claude Lorrain (1600-1682), Museu do Louvre
Este Claude Lorrain foi um pintor francês do século XVII que viveu grande parte da sua vida em Itália e se especializou em paisagens com ruínas da antiguidade.

A rigor os temas das suas pinturas eram episódios da mitologia clássica, história clássica, da bíblia ou da vida dos santos, mas as personagens eram sempre muito pequeninas e quem protagonizava verdadeiramente as suas telas era a paisagem com as suas ruínas, arvoredo e a luz de um entardecer.
 
Uma mulher com uma criança nos braços, ajoelhada perante um cavalheiro indiferente
 
 Aliás, este prato, do Ancient Greece, onde no centro da composição está uma mulher com uma criança nos braços, ajoelhada perante um cavalheiro indiferente, provavelmente representa um desses temas bíblicos, que Claude Lorrain tanto gostava de pintar com ruínas clássicas por pano de fundo. Creio tratar-se da expulsão de Hagar, que Claude Lorrain pintou numa obra de 1688, que se encontra hoje na Alte Pinakothek de Munique. Agar ou Hagar era uma concubina de Abraão, da qual teve um filho, Ismael. Por razões que não interessa muito explicar aqui, Abraão acabou por expulsar Hagar e Ismael para o deserto.
 A expulsão de Hagar, Claude Lorrain, 1688, Alte Pinakothek de Munique

No fundo, o que é curioso deste padrão do Ancient Greece, é que os ceramistas ingleses foram buscar inspiração num género de pinturas que estiveram muito em voga no século XVII e sobretudo no século XVIII, os chamados Capriccios, representações de paisagens imaginárias com ruínas da antiguidade clássica e que nesses tempos faziam as delícias dos aristocratas europeus, com os quais decoravam as paredes dos seus palácios. Na primeira metade do século XIX, os fabricantes de faiança inglesa reproduziram nas suas loiças esses temas tão em voga na pintura dos séculos anteriores e colocaram-nos ao alcance da bolsa de um médio burguês, que podia agora ter um Capriccio na mesa da sua sala de jantar.
 
Links consultados:
 
 
 

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Vistas do Reno: terrina inglesa da Davenport


Ao longo dos anos o meu amigo Manel foi coleccionando muita faiança inglesa do século XIX, que ainda se encontra a bom preço no mercado das velharias em Portugal. Umas das minhas peças preferidas desta pequena colecção é esta terrina e travessa da fábrica inglesa da Davenport, com o padrão conhecido Reno, Rhine Pattern ou Rhenish views, o que em Português quer dizer, vistas do Reno. Em tempos fez parte de um serviço que apresentava várias paisagens daquele grande rio europeu, que nasce na Suíça, onde serve de fronteira entre aquele País, a Áustria e o Liechtenstein, atravessa a Alemanha, a França e desagua na Holanda A leiloeira inglesa Bonhams teve um serviço destes à venda em 2005, com 13 vistas diferentes do Reno, embora até essa data estivessem documentadas apenas 10.

Na informação que se encontra on-line normalmente indica-se que estas vistas do Reno serão aparentemente imaginárias. Contudo, no caso desta terrina, segundo alguma pesquisa que fiz, as paisagens representadas serão um pouco mais reais do que se pensava. Em primeiro lugar representarão aspectos do chamado médio Reno, uma região onde o rio corre por gargantas profundas e no alto dos montes, se alcandoram castelos medievais. É uma zona muito turística, em cujas encostas crescem extensos vinhedos e que é património mundial da UNESCO, desde 2002.
 


Em segundo lugar, pelo menos a travessa da terrina representa seguramente a vista de Ehrenbreitstein, em frente a Coblença, que na altura era um subúrbio do outro lado do Reno e que hoje faz parte daquela cidade alemã. Encontrei duas estampas com a representação de Ehrenbreitstein, Coblença e creio uma delas terá servido de fonte aos artistas da Davenport para conceberem o desenho desta travessa ou presentoir, como dizem os franceses.
 
Coblentz e o castelo de Ehrenbreitstein. Estampa com desenho de C G Schutz, gravada por Sutherland, publicada por R. Ackermann, 1820.
Publicada na obra A picturesque tour along the Rhine, from Mentz to Cologne : with illustrations of the scenes of remarkable events, and of popular traditions

 
Coblentz e o castelo de Ehrenbreitstein. Estampa da obra A Tour through Holland, along the right and left banks of the Rhine, to the south of Germany, in/ by Sir John Carr. London : Printed for R. Phillips by T. Gillet,1807

Igualmente a vista da terrina parece-me uma panorâmica da cidade de Coblença, com a sua ponte sobre o Mosela, composta livremente a partir de estampas da época, muito embora aqui não haja uma semelhança tão evidente entre estas imagens e a peça de loiça, como na vista de Ehrenbreitstein.
 
 
 
 
Relativamente à tampa da terrina não consegui identificar a paisagem representada, embora seja uma panorâmica típica do médio Reno, onde o rio corre entre gargantas profundas e nas margens erguem-se povoações históricas com as suas torres de igrejas.
 
 
Andernach. Uma típica paisagem do Médio Reno. Estampa da obra A Tour through Holland, along the right and left banks of the Rhine, to the south of Germany, in/ by Sir John Carr. London : Printed for R. Phillips by T. Gillet,1807

Nas primeiras décadas do século XIX foram publicados uns quantos livros de viagens sobre o Reno, como por exemplo A picturesque tour along the Rhine, from Mentz to Cologne, London : R. Ackermann, 1820, A Tour through Holland, along the right and left banks of the Rhine, to the south of Germany, in/ by Sir John Carr. London : Printed for R. Phillips by T. Gillet, 1807 ou ainda, Tombleson's views of the Rhine, London : W. Tombleson & Co, 1832 e seria muito interessante poder comprar as ilustrações destes livros com as todas peças deste serviço da Davenport para chegar a conclusões mais definitivas.
 

Esta travessa da Davenport, com a marca impressa a azul terá sido produzida em meados do século XIX, numa época em que o movimento romântico descobriu os castelos medievais arruinados do Reno com panorâmicas majestosas e as viagens por aquele rio tornaram-se parte do circuito do Grand Tour. Esta louça da Davenport permitia satisfazer o gosto pela Idade Média e pelas paisagens românticas, trovadores, valquírias e princesas encantadas aquelas pessoas com algum dinheiro para comprarem um serviço de faiança, mas não o suficiente o suficiente para empreenderem uma viajem ao longo do Reno.
 
 
 
 
 

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Tudo sobre candeeiros


Não faço a menor ideia como se fazem recensões críticas de novos livros, mas conheci recentemente um investigador especializado em luminária e que me ofereceu uma obra da sua autoria, intitulada Iluminação da Casa Real Portuguesa: os candeeiros do Palácio Nacional da Ajuda, pedindo-me para escrever sobre ela, aqui no blog das Velharias do Luís, e pronto aqui vai a minha recensão muito pouco académica.

Os estudos sobre a luminária em Portugal são escassos e julgo que sobre candeeiros do século XIX, o livro do António Cota Fevereiro deve ser o primeiro, e com efeito, este autor fez um bom estudo da colecção real dos candeeiros a gás, petróleo, azeite e electricidade do Palácio Nacional da Ajuda, com um levantamento sistemático das marcas, comparação das obras com os catálogos das principais fábricas e ainda transcreveu dos arquivos os documentos com as encomendas da Casa Real aos fornecedores portugueses e estrangeiros. É um livro útil para todos os que gostam de antiguidades e velharias e ainda para aqueles, que ainda acham que a iluminação de uma casa, deve ir mais além do que uns assépticos focos espalhados por ali e acolá. Claro está, o livro é também um convite para se visitar o Palácio Nacional da Ajuda.
Foto retirada de https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com. O António Cota Fevereiro é também um coleccionador de candeeiros
Aliás, o António Cota Fevereiro é também um coleccionador de candeeiros e gosta de bater as feiras de velharias, onde estes objectos se encontram ainda a bom preço. Escreve regularmente num blog https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com, onde descreve os seus achados, as pesquisas realizadas para a identificação das peças, pequenos restauros e os abat-jours que ele próprio confecciona.
 
No blog https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com analisam-se os candeeiros dos filmes de época.
Mas o blog, vai mais além, pois o António, que é também um cinéfilo, analisa os filmes passados no século XIX e inícios do XX à luz dos candeeiros presentes nos adereços e indica-nos, que em determinada cena um candeeiro é de época ou se aquele outro modelo foi apenas usado dez anos depois dos factos narrados. Com muita atenção analisa a iluminação dos interiores desses filmes, que muitas vezes é demasiado clara e eléctrica, para ser verdadeira. Uma casa típica de meados do século XIX, alumiada com gás ou a petróleo, é obviamente mais escura, que um ambiente artificial de estúdio.
 
O blog https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com tem também imensas reproduções de catálogos de casas comerciais, publicados no século XIX
 
O blog tem também imensas reproduções de catálogos de casas comerciais. publicados no século XIX ou inícios do XX, que nos ajudam a perceber o tipo de globo ou abat-jour, que se deve usar numa base de candeeiro, comprada por tuta-e-meia no olx.pt ou num mercado de velharias.

Para quem tenha um gosto vitoriano e aprecia bater as feiras de velharias recomendo a leitura da obra Iluminação da Casa Real Portuguesa: os candeeiros do Palácio Nacional da Ajuda e do blog https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com
 
Foto retirada de https://lightinaglasscandeeiroapetroleo.blogspot.com