segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Painel de Azulejos do final do XVIII

Este painel está no quarto dos meus filhos e gosto muito da sua decoração floral, feita à volta de um centro esponjado, a sugerir o mármore, para quem o vê ao longe. Apresenta já o estilo de D. Maria I (1777- 1816), que se manifestou de forma graciosa, sempre com muitos motivos de grinaldas, que se espalham pelo mobiliário e pelas paredes, através de pinturas murais e azulejos.


Quem gostar de obras de arte deste período não há como visitar a Fundação Ricardo Espírito Santo Silva e deliciar-se com a colecção de mobiliário, azulejos, faiança, porcelana e pinturas a fresco. Claro, este meu painel que comprei na feira-da Ladra é uma versão económica do estilo D. Maria, produzido para decorar casas burguesas da Baixa e não tem a opulência da Sala D. Maria ou da Sala de Música do Palácio Azurara, mas o espírito é o mesmo.


No matriz, o inventário on-line das colecções dos Museus Nacionais encontrei um painel igual, pertencente ao Museu Nacional do Azulejo, com o inventário 711, que está sumariamente datado do século XVIII.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Pela primeira vez uma cronologia da construção do Solar dos Montalvões


No Arquivo Distrital de Braga foram encontrados documentos, que permitem pela primeira vez esclarecer alguma coisa da cronologia da construção das várias partes do Solar dos Montalvões em Outeiro Seco.

Até ao momento presente conheciamos apenas três datas relativas à construção do Solar.

- A informação de José Timóteo Montalvão Machado, no livro os Montalvões, de que o solar tinha sido construído pelo Capitão de Cavalos José Alvares Ferreira (morto em 1738) como o atesta até o facto de ter várias e extensas cavalariças, onde ele podia manter os seus cavalos. Acrescento eu que as cavalariças só existem nos corpos Nascente e Norte da casa.

- A data da verga da Porta da sala de trabalho, 1782, que se reportará certamente à construção da escada do pátio interior, mandada edificar no tempo de Antónia Maria Montalvão Morais

- A Data do sino da capela, 1790, também do tempo de Antónia Maria Montalvão Morais (1732-1809).

No referido Arquivo Distrital de Braga localizaram-se três documentos, que permitem avançar significativamente os nossos conhecimentos e colmatar as falhas:

1- A ESCRITURA e mais requerimentos para a fabrica de uma capela de Sao Salvador do Mundo, que quer erigir Miguel Alves Ferreira da freguesia de Sao Miguel de Outeiro. Processo iniciado em 1761 e terminado em 1762

2 - PROVISAO a favor de D. Antonia Maria de Montalvao Morais, viuva, da freguesia de Sao Miguel do Outeiro Seco, comarca de Chaves, para erigir uma capela no dito lugar e freguesia. 24-04-1784

3 PROVISAO de licenca para se benzer a capela do Salvador do Mundo, da freguesia de Sao Miguel do Outeiro Seco, a favor de D. Antonia Maria de Montalvao Morais, viuva, da dita freguesia. 29-04-1784

O primeiro documento é muito extenso, cheio de fórmulas legais tal como as nossas escrituras de hoje, mas traz-nos os seguintes dados novos:

- A Capela foi mandada edificar por Miguel Alves Ferreira e Antónia Maria Montalvão Morais depois de 1762. O Miguel Álvares Ferreira foi cavaleiro professo da Ordem de Cristo, capitão do regimento de infantaria da praça de Chaves e mais tarde director do Presídio do Porto.

- A Capela foi construída sob invocação de São Salvador do Mundo e não S. Rita como chegámos a pensar

- Foi mandada edificar em cumprimento de um voto feito pela mãe de Miguel Alves Ferreira, Maria Sobrinho, que deixou um terço dos seus bens vinculados à construção de uma capela, onde se rezasse perpetuamente uma missa, todos os anos, no dia 15 de Agosto, a Nossa Senhora da Assunção.

- Todo o processo gira à volta dos bens, uma relação de terrenos com os respectivos rendimentos, que o casal Miguel Alves Ferreira e Antónia Maria Montalvão Morais prova possuir e dá como garantia para construir e manter a capela.

- O processo prova-nos ainda que quando este casal decide erguer o templo, parte do solar já está construído, pois ao longo de toda a escritura lê-se várias vezes que pretendem fazer a capela junto às casas em que vivem.

Mais, o documento prova-nos que em 1762, o corpo nobre do solar da fachada poente já estava construído, pois quando o paróco Domingos Pinheiro dá o parecer sobre a pretensão deste casal de erguer uma capela, descreve com pormenor o local escolhido, dando-nos assim uma informação preciosa sobre as construção já existentes e que passo a transcrever:
as cazas do doanteconfinão e correm com duas ruas publicas ambas com cunaes, solio e frizio e cornija Huma pello norte, e outra que corre pello poente com estrada mais publica para o sul adonde tem hum arco bem feito e bastantemente alto, e no meyo remate huma pedra de armas das asendesias do doante e por este arco se entra para o patteo das cazas, e nesta parte que pega acima das ao patteo e he munto capaz, e corre para o Sul petende fazer a Cappella com porta para o poente

- O Documento fornece ainda a medidas exacta do templo, sendo a largura da Capella dezasseis palmos em disvão, e trinta, e dous de comprido.

Os segundos e terceiros documentos são basicamente requerimentos de 1784 feitos por Antónia Maria de Montalvão Morais, agora viúva (Miguel morreu em 1779) para benzer e consagrar a capela, a “qual se acha perfeitamente acabada”

Em suma, a construção da capela foi iniciada em 1762 e terminada em 1784.

Estes documentos permitem agora estabelecer uma cronologia provisória de construção do solar:

-Antes de 1738. O Capitão de Cavalos José Alvares Ferreira terá construído uma boa parte da casa“como o atesta o facto de ter várias e extensas cavalariças, onde ele podia manter os seus cavalos”. (José Timóteo Montalvão Machado) Acrescento eu que as cavalariças só existem nos corpos nascentes e Norte da casa.



-Antes de 1761 já está construída a fachada nobre a poente.




-1762 Início da construção da capela

-1782 Construção da escada do pátio interior (data da verga da porta da sala de trabalho virada para o pátio) mandada edificar no tempo de Antónia Maria Montalvão Morais ,



-1784 Terminada a construção da capela
-1790 É a data do sino da capela, também do tempo de Antónia Maria Montalvão Morais

-Depois de 1790 é construído corpo com 3 pisos, que existe entre a cozinha e a capela, já que o referido corpo aproveita a parede da capela.



Agradeço ao meu amigo Humberto a localização dos documentos no Arquivo Distrital de Braga, que com a sua persistência, conseguiria encontrar o paradeiro do célebre túmulo de Alexandre o Magno, se alguém houvesse por bem pedir-lho

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A casa dos Cunhas na Rua Direita de Chaves


Ao fundo da Rua Direita, na esquina do Largo do Anjo, numa casa antiga com pedra de armas e uma varanda com um desenho de proporções tão clássicas, que quase parece Renascença, viviam os Cunhas, isto é a família do meu avô Silvino, que casou com a Maria Montalvão Cunha, a Mimi de quem já tenho falado aqui. Os Montalvões e os Cunhas não se davam por aí além. Nunca percebi exactamente a razão. Provavelmente, os que conheciam o motivo deste antagonismo já morreram todos.
Na altura em que o meu pai se lembra desta casa viviam lá a irmã do meu Avô Silvino, a tia Matilde, que ainda conheci e o seu pai, Alfredo Augusto da Cunha, contador judicial.

De onde está a janela bonita da fotografia existia uma divisão, que tinha outra janela para o Largo do Anjo. Esse quarto era o preferido da Matilde, que aí passaria uma boa parte do dia com seu lorgnon, pois podia controlar em simultâneo o movimento da rua Direita e do largo do Anjo. Sempre que avistava alguém digno das suas atenções, assomava a janela de lorgnon para ser cumprimentada e cumprimentar. O meu pai lembra-se muitas vezes de passar ali, na Rua direita, com o seu Avô o José Maria Montalvão e este cumprimentar respeitosamente a Matilde, tirando o chapéu, pois naquela época os senhores e as senhoras não andavam de cabeça descoberta.

Apesar de não apreciar muito a cunhada Matilde, a minha avô Mimi, deixou que fosse esta a educar a sua filha mais velha, que viveu também naquela casa bonita, no casco histórico de Chaves. Deste modo o meu pai pouco contactou com a irmã, apesar de por vezes os meus avós terem a preocupação de tirarem retratos conjuntos dos quatro, aparentando serem uma família normal e unida.
Na realidade, o meu pai vivia como se fosse filho único e umas das poucas ocasiões em que via a irmã, era quando os meus avós faziam alguma viagem ao estrangeiro, até S. Sebastian ou Biarritz e deixavam-no entregue à Matilde, naquela casa bonita da Rua Direita, mas que o meu pai não gostava de lá estar.
Segundo me contou muitas vezes, quando os Cunhas recebiam visitas, a irmã do meu pai era chamada a tocar piano e a Matilde, que era dada ao bel canto, interpretava uma qualquer ária para deleite da assistência. Perguntei ao meu pai se se recordava de que músicas ou compositores interpretava a Matilde. Mas julgo que ele já não se recorda bem e não creio que seja verdade que ela cantasse Je ris de me voir si belle en ce miroir.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Alminhas do Purgatório: de Estremoz a Sousel

Tomei a decisão de ir fotografando as alminhas do Purgatório que encontrar, de modo a fazer uma espécie de ficheiro desta devoção de natureza macabra, mas cujas imagens são contraditoriamente cheias de ingenuidade e graça. Por exemplo, as primeiras alminhas que apresento, fotografei-as em Estremoz, à saída do Castelo, no início da Rua Direita. À semelhança de outros registos de azulejos do século XVIII que já mostrei aqui, apresenta um casal a arder no purgatório, com a inscrição PNAVEMª na parte inferior (Padre Nosso, Ave Maria).
Neste painel, a senhora apresenta uns seios bem desenhados, um cabelo penteado e um rosto bonito com uma expressão, que se diria quase feliz. O seu pensamento parece ser finalmente deixei o meu marido, o chato do António e estou aqui neste inferno escaldante na companhia do meu amante, o Rudolfo. A arte portuguesa do século XVIII tem sempre um certo ar intimista, galante, por vezes quase jocoso.
Depois numa pequena localidade à saída de Estremoz, S. Bento do Cortiço voltei a encontrar nas paredes da igreja paroquial umas alminhas, também do século XVIII, mas num formato diferente do anterior.
O registo é formado por um crucifixo e na sua base estão novamente o homem e a mulher a arder nas chamas do purgatório. A simbologia é óbvia, se os caminhantes rezarem um Padre-nosso Ave-Maria, Cristo conseguirá transportar as alminhas para o céu.

Finalmente, já na estrada que leva de Sousel a Avis, encontrei uma capelinha encantadora isolada no meio de um chaparral, dedicada ao Senhor das Almas. O ambiente à volta com aqueles enormes sobreiros centenários empresta à capela um ar de santuário druídico, onde as almas cessantes vagueiam. Nas suas paredes está também um registo de azulejos, já moderno, provavelmente uma obra da Viúva Lamego, mas inspirado na melhor tradição do século XVIII.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

S. Sebastião: da ingenuidade à perversão


Este singelo e ingénuo S. Sebastião foi comprado na feira-ladra, num episódio que já contei aqui, a uma rapariga da chamada esquerda elegante, que achava os santinhos umas coisas tão atrozmente feias que me vendeu uma meia dúzia deles por um preço tão barato que é até é feio contar.

O pequeno registo, que não tem o nome e o local do impressor, deverá datar de finais do Século XVIII ou talvez inícios do XIX, pois apresenta uma moldura já ao gosto clássico, característico do reinado de D. Maria I. A representação do S. Sebastião da gravura é muito ingénua, mas obedece perfeitamente ao modelo iconográfico mais divulgado para este Santo. Vestido com uma túnica sumária, S. Sebastião está amarrado a uma árvore e tem o corpo perfurado por setas.

A formação do culto a este santo extremamente popular na cristandade é feito de histórias muito curiosas, que vale a pena aqui explorar um pouco.

Por volta do início do Século IV ou talvez finais do Século III, Sebastião nasceu na antiga Gália, na região de Narbonne e terá ido para Milão, onde se fez Cristão. Tornou-se oficial do exército pretoriano e caiu nas boas graças de Diocleciano, o imperador romano, que ficou na história como o responsável pela mais sanguinária perseguição aos cristãos de toda a história desta religião. Acontece que o nosso Sebastião desobedecia ao Imperador e incentivava os prisioneiros cristãos a conservarem a sua fé e ainda convertia mais uns quantos pelo caminho.

O inevitável aconteceu, Diocleciano descobriu tudo e ordenou aos seus soldados que o executassem, trespassando-o com flechas. Segundo a lenda, os arqueiros que o estimavam muito, evitaram atingir-lhe e o coração, de modo que Sebastião sobreviveu e foi recolhido e tratado por uma mulher, S. Irene, conforme se pode ver neste quadro de Georges La Tour, que está no Louvre.

Sebastião era obstinado e estava imbuído de uma fé nova, que hoje nos parece estranha e inútil, mas que no século IV, movia os melhores cidadãos romanos a actos heróicos e dirigiu-se a Diocleciano recriminando-o pela crueldade usada contra os Cristãos. Claro, O Imperador mandou-o executar a golpes de bastão, como podemos ver em baixo, na obra anónima do Museu Nacional de Arte Antiga e desta vez o pobre santo não sobreviveu ao martírio e o seu corpo foi atirado à cloaca máxima.

A devoção ao Santo foi crescendo e como aconteceu muitas vezes no Cristianismo, associou-se e sobrepôs-se a um culto pagão já existente, neste caso o de Apolo, o Deus arqueiro e da Medicina, invocado contra a peste. Por outro lado, as pessoas associavam as flechas à peste negra e se o S. Sebastião tinha sobrevivido às setas, então a sua invocação poderia proteger as pessoas daquela terrível doença. E Assim, a principal função de S. Sebastião, sobretudo depois das grandes crises de peste bubónica, que vitimaram um terço dos europeus no Século XIV, será a de santo protector contra aquela epidemia, o que explica a enorme popularidade da sua devoção por toda a Europa.

S. Sebastião por Sebastiano del Piombo, Século XVI, Museu do Louvre


Na arte, a representação de S. Sebastião foi evoluindo, até chegar aos dias de hoje. Nos primeiros tempos do cristianismo, o Santo era representando como um homem maduro, mas a partir do Século XIV, ou seja depois das grandes epidemias da peste, impõe-se a iconografia actual, do santo amarrado, sumariamente vestido e crivado de flechas, Esta imagem vai evoluindo pela renascença e pelo Barroco no sentido de S. Sebastião ser representando como um homem com um corpo jovem e cada vez mais belo. No fundo, os artistas do renascimento e do barroco encontram no tema de S. Sebastião a oportunidade de representar um nu masculino em todo o seu esplendor, à maneira da antiguidade clássica, que a temática da crucificação não lhes permitia fazer de todo. Aparecem então esculturas de S. Sebastião que são magníficos nus, ou óleos verdadeiramente sensuais como este do século XVII, de Annibal Carraches do musée de Soissons, em França.

De tal forma o tema do belo jovem quase se nu, se tornou popular entre os grandes escultores e pintores europeus, que modernamente S. Sebastião se tornou um ícone da cultura gay. Se nos abstrairmos da conotação religiosa de santo protector contra a peste, o que vemos é um jovem quase nu, contraindo-se lascivamente da dor e prazer provocada pela penetração das setas, imagem esta, que a cultura gay obviamente se apropriou, se vê na obra dos artistas franceses Pierre et Giles, os reis da arte kitch ou o fotografo Aleksandar Tomovic.


Enfim, comecei com a ingenuidade e acabei na perversão.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Chaves: as ruas e as varandas

Já percorri todas as ruas do centro de Chaves vezes sem conta. Durante a infância pelas mãos do meu avô Silvino, depois na adolescência com a minha irmã, meios enfadados com as poucas distracções que uma cidade provinciana oferecia a uns adolescentes lisboetas, e depois já adulto, a descobrir os recantos de um património cultural mais ou menos bem preservado.



Hoje, quando regresso a Chaves, além de me encantar sempre com a arquitectura, já faço a minha deambulação pelas ruelas antigas acompanhado pelas imagens de todos os familiares que ali moraram e já morreram. Já só resta uma prima direita naquela cidade que foi tão ligada à nossa família.

O Centro de Chaves que é antiquíssimo apresenta no entanto uma planta regular, em quadrícula e assim o é, porque a cidade começou por ser um acampamento romano e os acampamentos dos legionários, que deram depois origem a cidades foram sempre sendo estruturados da mesma forma: uma cerca rectangular, com ruas desenhadas em quadricula, existindo duas artérias principais a Cardo (Norte/Sul) e a Decumana (Este/Oeste), que se cruzavam numa praça central, onde era depois levantado o Fórum.


Planta de Chaves, do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, que evidencia a sobrevivência da planta em quadrícula da cidade romana.

A Decumana deu origem à actual Rua Direita e no Fórum, construíram-se a igreja matriz, a da misericórdia e a Câmara Municipal, provavelmente usando fundações de antigos edifícios públicos romanos.

Como os romanos formaram um império gigantesco tiveram que normalizar os equipamentos urbanos e tipologias de obras públicas para construírem rapidamente, fosse na Lusitânia, na Síria, em África ou na Gália. Houve um senhor romano, Vitrúvio, que na obra De Architectura deixou modelos de edifícios que foram aplicados por todo o Império. Por exemplo, os teatros romanos são exactamente iguais em todo o lado, o que facilita o trabalho aos arqueólogos, que já sabem mais ou menos o que vão encontrar antes de iniciarem as escavações.


Talvez seja este traçado romano das ruas desta cidadezinha transmontana, que fez com que eu em Florença, ao passear no centro, de repente me sentisse transportado para Chaves. Com efeito, Florença, começou a sua história como uma colónia para soldados veteranos, estabelecida por Júlio César em 59 a.C. Foi designada Florentia e e foi também construída ao estilo de um acampamento do exército com as ruas principais cardo e decumanus, cruzando-se na actual praça da República.

Mas, em Chaves não se olha só para o chão. Há varandas, balcões, sacadas e janelas bonitas por todo o centro. Experimentamos aquela sensação que temos muitas vezes em cidades estrangeiras. Apetece-nos ser alguma daquelas pessoas que ali vive e passar o dia inteiro sentada numa varanda antiga de madeira de castanho, rodeados de dois ou três gatos dorminhocos e ficar a ver quem passa na rua.


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Y todo a media luz, crepúsculo interior, que suave terciopelo la media luz de amor.


Bem, como todos perceberam, não sou dado à poesia. Talvez porque já seja daquela geração, que rompeu com uma tradição portuguesa antiquíssima, em que todas as pessoas de cultura se dedicavam aos versos. No século XIX e no início do Século XX não havia doutor em Coimbra que não tivesse publicado o seu opúsculo de poesia com sonetos de uma simplicidade pastoril ou de arrebatados sentimentos.


E no entanto, apesar desta minha falta de sensibilidade poética, não consigo deixar de evocar o célebre tango “media luz”, de 1924, celebrizado por Carlos Gardel, quando acendo este candeeiro. Até porque provavelmente o abat-jour data dos anos vinte, altura em que Edgardo Donato compôs esta música.


Apresenta uma decoração minuciosa toda bordada a missangas, muito no espírito dos vestidos que fizeram furor nas duas primeiras décadas do século XX, no tempo em que o costureiro Paul Poiret recebia o Tout-Paris no seu atelier, uma barcaça no Sena.


O Abat-jour foi comprado na Feira-da-Ladra por tuta-e-meia. Mas os poucos euros que dei por ele permitem-me todas as noites ouvir o tango:



Y todo a media luz, que es un brujo el amor,... a media luz los besos, a media luz los dos...
Y todo a media luz, crepúsculo interior, que suave terciopelo la media luz de amor.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Nuestra Señora de la Consolacion de Utrera: uma virgem da região de Sevilha


Tive durante muitos anos este pequeno registo do século XVIII, representando a virgem espanhola de Nuestra Señora de la Consolacion de Utrera. Depois, talvez em 1992, mandei-a emoldurar a uma senhora já de idade, amiga da avô da minha ex-mulher, que sabia fazer este trabalho precioso de decoração de registos de santos com passamanaria e creio que o resultado foi bastante bom, pois a decoração escolhida harmoniza-se com o estilo ornamentado da virgem espanhola.



A gravura é de pequenas dimensões e está datada de 1771. Deve ter sido uma estampa comprada por um devoto português, que se deslocou em peregrinação aquele santuário, perto de Sevilha.

A Consolacion da Utrera foi uma das devoções mais populares de Espanha até finais do Século XVIII, cujo santuário atraiu por um período de mais de 300 anos uma multidão vinda de toda a Espanha, Portugal e ainda muitos ciganos. No geral, os peregrinos eram pobres, muitas vezes marginais e à volta da Igreja existiam sempre muitos aleijados, homens, mulheres e crianças com deficiências de todo o género, já que esta Virgen de la Consolacion tinha grande fama de curarandeira de enfermidades. Assim se explicam nesta gravura a presença de ex-votos, como mãos e pernas que rodeiam a composição.

Esta devoção a Virgem da Consolação em Utrera é muito antiga na região sevilhana. Pensa-se que a estátua original seria uma Magestade Românica, portanto sentada, numa atitude hierática e também teria pele escura, provavelmente, uma virgem Negra, semelhante à de Guadalupe, ali perto, na Extremadura. Posteriormente a imagem foi sendo alterada, colocaram-lhe uns braços amovíveis como as Santas de roca, vestiram-na com trajes barrocos espanaventosos e ganhou um barco como atributo. Este último atributo relaciona-se com o crescimento exponencial desta devoção durante os descobrimentos espanhóis.


Enquanto que o centro dos descobrimentos portugueses foi a nossa bela cidade de Lisboa, capital do País, a expansão marítima espanhola teve por centro Sevilha, que é uma cidade que está a alguma distância do mar. O principal canal de comunicação entre esta cidade era e é o rio Guadalquivir. Como as embarcações de grande tonelagem que iam ou regressavam das Américas, navegavam demasiado pesadas e podiam bater no fundo do rio, viajavam sempre sem passageiros. Estes últimos seguiam uma rota terrestre de Sevilha até à foz do Guadalquivir, que passava pelo Santuário de Utrera. Assim, marinheiros e viajantes espanhóis, portugueses, genoveses, venezianos, ciganos e índios encomendavam-se à Virgem da Consolação de Utrera antes de partir para uma perigosa viagem de travessia do mundo, ou quando voltavam agradeciam os favores da Virgem por os ter salvo das doenças e dos naufrágios. Assim, o fez no século XVI o capitão sevilhano Rodrigo de Salinas, que ofereceu à senhora um barco feito com materiais preciosos, com a particularidade de ser também um perfumador. Este objecto impressionou tanto, que aos poucos foi associado definitivamente à imagem e tornou-se um atributo inconfundível

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Porta na Rua Silva Carvalho em Lisboa


Andamos todos mal dispostos, rabujentos e com medo do futuro, os jornais não se podem ler e a televisão é um nunca mais acabar de coisas horríveis, em que se anuncia o que nos pretendem fazer muito brevemente, mal nos apanharem a jeito. E no entanto a beleza está por todo lado, em cada canto, em cada rua das cidades portuguesas. Eu, por exemplo, sou um eterno turista em Lisboa, apesar de aqui viver há cerca de 46 anos. Estou sempre a descobrir pormenores engraçados, painéis de azulejos, coisas fantásticas que esta cidade tem. Há bem pouco tempo encontrei esta porta assombrosa num prédio devoluto na Rua Silva Carvalho, ali atrás daquela coisa medonha onde as pessoas gostam muito de fazer compras, as Amoreiras.


Fiquei tão encantado que resolvi partilha-lha convosco, até porque ela não vai durar muito mais tempo, pois estará ali a surgir brevemente um condomínio qualquer piroso ou um caixotão de vidro de escritórios. Um bom fim-de-semana.