segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Creme n. 2 da Thaber: um boião da Fábrica de Loiça de Sacavém

 
aqui tinha mostrado este boião em faiança, que continha um creme de beleza da antiga fábrica de cosméticos Thaber. Na altura pouco ou nada consegui apurar sobre esta Thaber, para além de que era uma casa portuguesa de cosméticos, ainda activa nos anos 60 e 70 do século XX.

A encomenda terá sido feita entre Fevereiro/Março e Abril de 1945.
Recentemente fui contactado pelo Museu de Cerâmica de Sacavém, pedindo-me emprestado o boião para uma exposição temporária. Com efeito, naquele Museu, descobriram através de um dos antigos livros de encomendas da Fábrica, que a Thaber encarregou Sacavém do fabrico dos boiões dos seus produtos de beleza. O registo da encomenda é tão preciso que nele está impresso o monograma da Thaber, um cesto com um laço, a legenda que deveria figurar em cada um dos boiões, a cor e ainda as quantidades pedidas. No referido registo, encontra-se a descrição do boião igual ao meu, o creme, nº 2, vidrado a azul e a preto. Também por por lá está identificado, o boião que a minha irmã recebeu da minha avó, pintado a rosa com o fundo preto. 


No acervo do Museu existe também um boião com um formato exactamente igual, mas sem qualquer tipo de decoração, mas sabe-se que se trata de um boião THABER, conforme vem referido num dos catálogos de 1950 da fábrica, cuja cópia tiveram a gentileza de me fornecer por e-mail.


Mas voltando à encomenda de Boiões pela Thaber, ficámos também a saber que a proprietária dessa Fábrica de produtos de beleza era nada menos nada mais do que a célebre Bertha Rosa Limpo (1894-1981), a autora do O livro de Pantagruel. Para todos aqueles que alimentar-se significa comer um  hamburguer no Macdonald's ou encomendar uma pizza pelo telefone, há que explicar que O livro de Pantagruel é o mais conhecido manual de cozinha português. Desde que saiu em 1945, já teve duzias de reedições e pode-se afirmar que está para a culinária nacional, como os Lusíadas estão para a literatura portuguesa. Aliás, este ano de 1945, deve ter sido particularmente produtivo para a Sra. D Bertha Rosa Limpo, pois além de ter publicado o Pantagruel, encomendou também estes boiões a Sacavém.  Em 1945, além de iniciar uma carreira como autora de livros de cozinha, a Sra. Dª. Bertha Rosa Limpo tornava-se também uma empresária de sucesso . 


Berta Rosa Limpo terá aproveitado o receituário seu pai, dono de uma farmácia, para pôr em prática esta fábrica de cosméticos. A Thaber, que é o anagrama de Bertha, tinha também um salão de beleza, que funcionava no mesmo local da sede da firma, a Av. António Serpa, nº 22.
 
Em suma, o meu boião Thaber foi fabricado por Savavém, talvez entre 1945 e os anos 50 e pode ser visto na exposição IMAGENS DE MARCA(S) - SACAVÉM É OUTRA LOIÇA, que está patente no Museu de Cerâmica de Sacavém, de Segunda a Sábado, das 10h às 13h e das 14h às 18h, pelo ano de 2014 fora.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Palestine de William Adams & Sons ou votos de um Natal


O tema deste post era para ser diferente. Tinha já na cabeça um texto escrito sobre uma peça de Sacavém. Mas lembrei-me que era Natal e apesar de eu nunca ter andado muito a reboque das épocas festivas neste blog, achei que devia mudar de tema, apresentando antes uma travessa inglesa, do século XIX, decorada com o motivo Palestina, a terra onde nasceu Jesus Cristo e desejar assim um bom Natal aos meus seguidores. 
 
E depois esta louça inglesa do Século XIX é muito apropriada para a época Natalícia pois evoca sempre tempos passados, casas antigas, grandes refeições com muita gente sentada à volta de mesas postas com toalhas de linho, bandejas com assados feitos em forno de lenha e pudins caseiros. Enfim, esta travessa evoca um verdadeiro jantar de Natal, sem essas porcarias que se compram já feitas no Continente.

Encontrei a travessa na Feira de Estremoz e estava muito suja e cheia de cola, de modo que a tirei por um preço estupendo, dez euros. Os Americanos pagam trezentos e seiscentos dólares por peças semelhantes, mas por cá ninguém liva pevides à louça inglesa. Não está marcada, mas apresenta no verso o nome da decoração, Palestine.

 
 
Fiz umas pesquisas no Google imagens, combinando três termos, em english potteryXIX century e Palestine e ao fim de uns quatro ou cinco minutos consegui identificar o fabricante, William Adams & Sons e a data provável de execução desta travessa, cerca de 1830-1840, que deve ser sido a bandeja de uma terrina, ou seja aquilo que franceses designam como um présentoir.
 
 
Mostra uma imagem fantasiosa da Palestina, que naquele tempo estava sob domínio otomano. No primeiro plano, vemos uma pérgula, uns cavaleiros turcos, uns senhores sentados num tapete oriental, tendo por cenário um lago, talvez o mar da Galileia e lá mais ao fundo, descortina-se uma cidade numa ilha, que mais parece uma espécie de Constantinopla em miniatura. É uma Palestina imaginada, romântica, com flores e lagos que nada tem a ver com o que foi a terra santa no passado e muito menos com a terra santa dilacerada pelas guerras e pelo ódio dos dias de hoje. Talvez tenha sido esse contraste, que me levou a fechar o post com uma música, que um amigo da net, israelita, partilhou comigo e que mostra uma imagem antagónica à desta travessa romântica.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Les images pieuses ou imagens do exílio

Esta original pagela, que se desdobra em várias partes, foi impressa em França, nos finais do século XIX, ou nos inícios do Século XX e faz parte daquilo que se designa em França pelo estilo saint-sulpicien.

Conforme se pode ler no rodapé, o registo foi editado pela antiga casa C. Letaille, certamente depois de 1876, pois nesse ano Charles Letaille associou ao seu negócio o genro, Boumard. Portanto, se aqui diz Boumard et Fils, presumimos que já tivessem passado uns bons vinte anos do casamento do Sr. Boumard e a estampa por conseguinte deve ter sido impressa logo nos primeiros anos do Século XX.
A pagela antes de ser aberta

Este Charles Letaille e o seu genro Boumard, juntamente com Bouasse Jeune, Bouasse Lebel e Turgis faziam parte de um conjunto de impressores, livreiros e comerciantes de artigos religiosos, que no século XIX, se agrupavam em Paris, nas cercanias da Igreja de Saint-Sulpice. Estes impressores produziam estampas devotas em grandes quantidades, sem grande qualidade artística e a baixo preço, que vendiam para todo o mundo católico, inclusive para as Américas. Esta imaginária religiosa de gosto duvidoso tomou em França o nome de estilo saint-sulpicien, que designa não só estes santinhos em papel, como as imagens de gesso ou madeira de Santa Teresinha de Lisieux, a Virgem de Lourdes, ou os Sagrados Corações de Maria e Jesus, pintados em tons rosa bombom e azul celeste e ainda todo tipo de bugigangas religiosas, como terços, medalhinhas benzidas, etc.

No entanto, apesar desse gosto algo duvidoso, que as pagelas saint-sulpicianas denotam é difícil resistir ao seu encanto sobretudo quando estas se abrem como armários secretos, protegidas pelos seus batentes, contendo por dentro outras imagens ainda. Eram pequenos tesouros, guardados com desvelo pelas nossas avós ou bisavós dentro dos seus missais  e que apesar da fragilidade dos materiais, conseguiram chegar até aos nossos dias num estado impecável.

Se é bem verdade que estas imagens são esteticamente medíocres, elas são afectivamente belas, pois constituem um testemunho de um ideal, de um paraíso perdido. As pagelas com os rendilhados e os santinhos evocam um exílio, o nosso exílio do mundo da infância, do tempo do catecismo, em que a fé e o cristianismo proporcionavam uma segurança e certezas, que hoje perdemos de todo.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O mais delirante rococó alemão: um episódio da vida de Sto. Agostinho

 
Naquela feira de alfarrabistas do Chiado comprei esta estampa de um delirante estilo rococó, representando um episódio da vida de Sto. Agostinho. Como de costume, parti à procura de mais dados sobre esta gravura, pesquisando no google usando dois termos associados: uma palavra extraída da legenda, S. Augustini e Klauber Cath, a assinatura do que me pareceu o impressor. Rapidamente descobri, que esta estampa saiu de uma oficina de impressores alemã, que foi das mais activas de toda a Europa ao longo do Século XVIII. Esta oficina da cidade de Augsburg pertencia à família Klauber, uma dinastia de impressores, que ao longo de três gerações se especializou na produção de registos e ilustrações de carácter religioso.

O frontispício da Vita Sancti Augustini Doctoris eximii in aere Universo orbi / exhibita a P. T. Z. A. -  [Augustae Vindelicorum] : [in verlag Ios. und Ioan[n]. Klauber], 1758
Fiz mais umas pesquisas aqui e acolá e descobri que a minha gravurazinha fazia parte de obra intitulada, Vita Sancti Augustini Doctoris eximii in aere Universo orbi / exhibita a P. T. Z. A, impressa em Augustae Vindelicorum, o nome latino para a Augsburgo, por Johann Baptis Klauber, em 1758. Segundo percebi na Biblioteca Nacional de Espanha, onde encontrei o registo catalográfico, esta Vita Sancti Augustini Doctoris não era propriamente um livro, mas antes um álbum de estampas, acompanhadas por algum texto em latim, descrevendo os principais episódios da Vida de Santo Agostinho de Hipona (354-430).


A cena que observamos na minha gravura mostra Sto. Agostinho recebendo o hábito das mãos de Santo Ambrósio, enquanto do lado esquerdo é observado por Santa Mónica, sua mãe e ainda pelo seu filho, Adeodato. Com efeito, Agostinho de Hipona antes se ter decidido pelo celibato e pela vida religiosa, manteve uma ligação com uma mulher durante 14 anos da qual teve um filho, Adeodato. Agostinho de Hipona é um homem que se decide pelo Cristianismo já tarde, com cerca de 32 anos.

Esta cena não é propriamente um episódio histórico, pois embora S. Ambrósio tenha sido o responsável, pelo baptismo de Agostinho, este não se encontrava com Agostinho, quando alguns anos mais tarde se tornou eclesiático e fundou o primeiro mosteiro em Hipona, uma antiga cidade do Norte de África, perto de Tunis, a actual capital da Tunísia. No fundo, a gravura quererá representar que foi sobre dos ensinamentos espirituais de Santo Ambrósio, que Santo Agostinho tomou o hábito religioso e fundou uma comunidade monástica. Mas, a importância daquele Santo de Hipona não foi só a fundação de uma comunidade monástica. Sto. Agostinho foi também o primeiro a escrever uma regra, ou seja um conjunto de normas, sobre a qual a uma comunidade religiosa deveria viver. Ele é por assim, dizer, juntamente com São Bento de Núrsia, um dos pais do monaquismo ocidental.

Naturalmente a importância de Santo Agostinho na história vai muito para além de ter esboçado a primeira regra monástica. Foi antes de tudo um pensador, que fez a síntese entre a filosofia grega e o judeio-cristianismo das Escrituras. 

Outra estampa do ciclo Vita Sancti Augustini Doctoris eximii in aere Universo orbi.
Santo Agostinho fez a síntese entre a filosofia grega e o judeio-cristianismo das Escrituras

Fiquei então muito contente por ter identificado a obra de onde foi extraída a minha estampa, Vita Sancti Augustini Doctoris eximii in aere Universo orbi, o nome dos seus gravadores Johann Baptist Klauber (1712-1787?) e Joseph Sebastian Klauber (1700?-1768) e ainda por ter encontrado uma explicação sobre a iconografia da estampa.

Fiz depois algumas investigações sobre o autor do desenho um tal Johann Anwander (1715-1770), um pintor alemão, rococó, célebre pelas suas pinturas a fresco em tectos de igrejas, cheias de complicados efeitos cenográficos, mas ao mesmo tempo graciosos e que os conseguiu reproduzir também no papel, como nestas estampas sobre a vida de Sto. Agostinho.

Um fresco da autoria Johann Anwander

Tinha ficado com as minhas investigações sobre esta gravura por aqui, quando por acaso me passou pelas mãos uma livrinho de Marie-Thérèse Mandroux-França Information artistique et «mass-media» au XVIIIe siècle : la diffusion de l'ornement gravé rococo au Portugal - Braga : [s.n.], 1974, que me ajudou a entender como é que uma gravurazinha alemã de Augsburgo veio parar em Portugal.

Augsburgo foi durante todo o século XVIII um centro de edição particularmente activo. Os seus impressores copiaram os tratados de arquitectura e de desenho de ornato franceses, que continham os novos modelos do estilo rococó, e difundiram-nos por toda Alemanha através de estampas contra faccionadas. O que eram modelos imaginários nos manuais franceses, tornaram-se edifícios concretos no Sul da Alemanha e e a assimetria, a curva e a contra curva foram exploradas até às últimas consequências, criando um barroco, absolutamente delirante.

Gravura da Biblioteca Nacional de Portugal. As estampas impressas em
Augusburgo foram veículos privilegiados para os arquitectos e entalhadores portugueses tomarem conhecimento das formas rococó

Em meados do século XVIII, em Augusburgo já se tinha desenvolvido uma verdadeira indústria de estampas rocaille, que traduziam e reflectiam a arquitectura das igrejas de peregrinação da Baviera. Essas gravuras eram na sua maioria registos ou imagens de livros religiosos, que eram depois vendidas em grandes quantidades para toda a Europa, inclusive para Portugal. Marie-Thérèse Mandroux-França descobriu centenas dessas estampas de Augsburgo, nas bibliotecas e arquivos portugueses, muitas provenientes de antigas livrarias conventuais, como da Abadia beneditina de Tibães e pensa mesmo, que foi através delas que arquitectos como André Soares ou escultores como Frei José António Vilaça (1731-1809) tomaram contacto com o estilo rocaille, que depois aplicaram em obras emblemáticas portuguesas, como o Mosteiro de Tibães. 

Detalhe de Tibães. Talha de André Soares


Mas, segundo Marie-Thérèse Mandroux-França as estampas dos impressores de Augusburgo não influenciaram só os arquitectos e entalhadores portugueses. Serviram também de modelo aos gravadores de registos de santos em Portugal, que ignorando as complicações espaciais e de pespectiva dos gravadores alemães, copiaram as molduras rocailles, que enquadram os santinhos, nas quais parecem às vezes deslocados. A influência dos registos alemães não se fez só sentir na gravura como se estendeu também aos registos de azulejos.

Concluídas estas pequenas investigações, a minha estampa ganhou um novo significado. Foi uma das muitas imagens provenientes de Augusburgo, que serviram de modelo para a difusão do estilo rococó em Portugal. Só fiquei com pena de não ter comprado as restantes estampas que por lá ficaram.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O labirinto do mundo: faiança portuguesa


No meu anterior post, apresentei um prato de faiança portuguesa, representando uma árvore, que se desenvolvia do centro para os bordos, que eu interpretei como sendo uma representação da árvore da vida, embora sem certezas ou fundamentos.

Mencionei também que o meu amigo Manel possui duas peças de faiança com este tema das ramagens, que me levam a supor a existência de uma manufactura de cerâmica, algures no Norte do País, que se tenha dedicado a estes temas das árvores e ramagens, que crescem de uma forma intrincada, com se pretendessem figurar o labirinto da vida .Claro, não tenho fundamentos nenhuns para esta suposição, a não ser os de uma certa semelhança estilística. Nenhuma das três peças está marcada e arrisco-me a estar aqui a escrever um grande disparate.

O tardoz da travessa está também decorado
Mas, voltando aos pratos do Manel, numa travessa, o tema dos ramos que se cruzam e descruzam foi levado tão longe, que artista, virou a peça ao contrário e continuou a pintar o tardoz com o mesmo tema. Em outro pratinho, o pintor fez uma orla de ramagens intrincadas umas nas outras.

Tenho uma certa intuição de quem pintou o meu prato fez também a travessa e o pratinho de sobremesa que pertencem ao Manel. Seria certamente algum artista fascinado com os efeitos estéticos produzidos pelos ramos e os troncos de uma árvore ou arbusto, que tentou recriar em peças de loiça. É muito provável que este artista tivesse uma instrução rudimentar. Mas não lhe faltou capacidade de despertar sentimentos complexos ao observador passados cento e vinte ou 150 anos. Se no meu prato, pintou aquilo, que parece uma de árvore da vida, na travessa, que também terá executado, sentimo-nos diante de uma representação do labirinto do mundo, em que genealogias de seres humanos confundem-se, misturam-se e partem em direcção a lado nenhum. Sei que não estou a ser objectivo, mas há modestas obras de arte como esta, que me provocam sentimentos fortes.

O verso da travessa também está pintado com o mesmo tema do labirinto de ramos que se cruzam e entrecruzam.


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Árvore da vida: um prato em faiança portuguesa

Já há alguns anos que tenho este grande prato de faiança comigo, com cerca 35 cm. de diâmetro, que sempre me intrigou pela sua decoração, representando uma espécie de arbusto ou árvore em flor, de uma forma muito simplificada, mas ao mesmo tempo muito conseguida do ponto de vista decorativo. Esta tendência que se nota neste prato para a abstracção de um motivo da natureza, fez-me recordar desde logo a arte islâmica. Aliás, sempre o achei que tinha um certo ar da cerâmica de Iznik.   
 
Azulejos de Iznik da Fundação Calouste Gulbenkian
Contudo é um prato de típico da cerâmica portuguesa, com uma faiança sem grande qualidade, provavelmente do século XIX e talvez fabricado região do Porto, pois foi adquirido no Norte. No reverso não apresenta marca nenhuma e apresenta os típicos gatos destes objectos que já tiveram muito uso. 


 
 Mas a decoração continuava a intrigar-me. Recordava-me uma representação gráfica que um dia tinha visto num desses programas da BBC sobre a evolução das formas de vida na terra, em que todo começa na água com seres de uma só célula, que dão origem a outros seres, que passam para a terra, representados por ramos crescendo em direcção a todos lados. Uns ramos morrem, outros continuam, outros ainda bifurcam-se, constituindo assim um emaranhado, que representa as espécies extintas e aquelas que continuaram e deram origem a novos seres e novos animais, plantas ou hominídeos. Mas, claro, nunca levei os sentimentos, que este prato me despertou muito a sério. A nossa imaginação não tem limites e a realidade não é aquilo que nos desejaríamos que fosse.  
Colcha com bordado de Castelo Branco. do Museu Nacional de Arte Antiga, inv.3465 tec
Contudo há uns tempos, passou-me pela mão o catálogo Colchas de Castelo Branco : Percursos por terra e mar - [Castelo Branco] : IMC/Museu de Francisco Tavares Proença Junior : ADRACES-Associação para o Desenvolvimento da Raia Centro-Sul, 2008 e ao folheá-lo encontrei uma colcha do Museu Nacional de Arte Antiga, representando uma romãzeira, que me lembrou, não sei porquê, o meu prato. Fui ler a entrada descritiva e descobri, que aquela colcha representa a árvore da vida, um símbolo muito antigo, comum a várias religiões, inclusive ao Cristianismo. Porque as suas raízes se mergulham na terra e os seus ramos se elevam no céu, a árvore é universalmente considerada como um símbolo das relações que se estabelecem entre o céu e a terra.

Portanto, a decoração do meu prato mais não é do que a representação de uma árvore da vida, só que adaptada ao formato circular de um prato. O crescimento dos ramos que procuram a luminosidade dos céus desenvolve-se num movimento em espiral feito a partir do centro, em direcção aos bordos daquela peça de loiça.

Claro podemo-nos perguntar, em meados do século XIX, conheceriam os ceramistas fracamente instruídos de uma qualquer oficina de Gaia ou do Porto, o significado da árvore da Vida?

Talvez não soubessem explicar com palavras de gente erudita o significado da árvore da vida. Mas já teriam visto colchas de Castelo Branco e frontais de altar azulejos com esse motivo, ou ainda árvores de Jesse, nas igrejas que frequentariam, que certamente os impressionaram. Os padres também não deixariam decerto de evocar este simbolismo da árvore nas suas sermoneias. Por conseguinte, julgo que era natural, que quando estes ceramistas pegassem no pincel, esta imagem da árvore a desenvolver-se em direcção ao céu lhes surgisse como qualquer coisa poderosa, que desejassem reproduzir num prato. E a verdade é que ainda hoje, passados uns bons cento e cinquenta anos este prato mantêm intacto o seu fascínio simbólico.

 

domingo, 17 de novembro de 2013

Um bordado dos finais do século XIX feito em Chaves

O bordado mede 53 x 54 cm. No final, apresenta a legenda Amor Felial, as abreviaturas de Sagrado Coração de Maria e o local de execução, Chaves
Há pouco tempo, a Maria Andrade apresentou no seu blog, um mostruário de bordados em ponto de cruz e achei que era de todo o interesse apresentar aqui, uma variante desse tipo de trabalho, que esteve muito em voga entre as meninas de família, nos séculos XVIII e XIX e julgo que ainda no início do século XX, por toda a Europa e nas Américas.
O bordado foi feito pela minha bisavó
Estes mostruários são conhecidos pelo termo inglês, samplers, que vem do francês exemplaire. Na sua origem, no século XVI, foram repositórios de motivos decorativos, representando animais, frutos, flores ou letras ou ainda de diferentes tipos de pontos. Como na época, não existiam revistas de modas e bordados, onde as senhoras se pudessem inspirar para fazer novos trabalhos, precisavam de um pano onde pudessem registar todo o tipo de pontos e decorações, que iam aprendendo com as amigas, de modo a utiliza-los em futuros lavores. Estes primitivos samplers eram normalmente longas tiras de tecido, integralmente preenchidas com padrões bordados, pois os tecidos eram caros e convinha não desperdiçar. Eram peças muito valorizadas e passavam de mães para filhas e eram pois uma espécie de livro de exemplos de bordados.

Com a generalização da imprensa, os livros e revistas de bordados começaram a ser mais acessíveis a todas as senhoras e no século XIX, os samplers já eram mais um exercício de virtuosismo de meninas de boas famílias, que aprendiam simultaneamente a bordar e as letras do alfabeto.
Claro mantinham ainda a função de repositório de pontos, como se pode ver no exemplar feito pela minha Bisavô, que apresenta vários tipos de caligrafia, que certamente foram usados como modelos para marcar lençóis, toalhas de mesa e sacas de guardanapos. Como muitos ainda saberão, no passado era vulgar as meninas bordarem as suas iniciais nas peças do enxoval que iam confecionando antes de casarem. Assim as suas peças não se misturavam com as das suas irmãs casadoiras, além de que, como existia o hábito de mandar lavar a roupa fora, no rio, às lavadeiras, não haveria trocas com a roupa de outras clientes e nem se perdiam as preciosas sacas de guardanapo ou fronhas..
O bordado está datado, 1891
Esta peça que hoje apresento tem um valor acrescido. Conhecemos o nome do seu autor, que foi a minha bisavó paterna, Ana Maria da Conceição de Morais Alves (1881-1974), está datada de 1891 e indica ainda o local da sua realização, a cidade de Chaves. A minha bisavô terá feito este bordado em ponto de cruz, com 9 ou 10 anos, mostrando assim os seus dotes de menina bem comportada

Nas últimas linhas, lê-se ainda "Amor Felial", e as abreviaturas de "Sagrado Coração de Maria". Este bordado é muito semelhante aqueles que se encontram nos samplers dos países anglo-saxónicos, onde além dos abecedários, existe sempre um dito de natureza moral moral ou religiosa.


Este trabalho está emoldurado, pendurado na sala de jantar de casa do meu pai e sempre que lá como em casa, sinto um pouco a presença da menina que o bordou há 122 anos atrás. 
Fontes:
O grande livro das antiguidades. Rebo International, 2002

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Hay un angel en Guadalupe


Estive o fim-de-semana passado, na Estremadura Espanhola, já na fronteira com Castela, numa terra perdida nas montanhas, onde no Século XIV, houve uma aparição da Virgem, que deu lugar a uma das mais importantes devoções marianas de toda a hispanidade, a Virgem de Guadalupe. À volta deste culto construiu-se um mosteiro dos Jerónimos e uma povoação para acolher milhares de peregrinos vindos de Espanha e Portugal e mais tarde da América Latina. Claro, este centro de peregrinação não é tão antigo e nem nunca foi tão importante como Santiago de Compostela, que atraiu romeiros desde os confins da Europa. A Virgen de la Gudalupe permaneceu sempre um fenómeno exclusivamente ibero-americano.


No entanto, sendo uma vila pequena, Guadalupe apresenta um casco histórico muito interessante e o mosteiro tem uma colecção muito rica, de paramentária, bordados oferecidos à Virgem, iluminuras, telas de Rubens, El Greco e sobretudo de Zurbaran, que é um dos meus pintores preferidos. A chatice é que a visita ao mosteiro é guiada, andámos todos a toque de caixa atrás do guia e para vislumbrar as obras foi necessário afastar à cotovelada uma trintena de excursionistas beatas da terceira idade. Quando chegámos à sacristia e estava eu ainda indeciso sobre para qual dos quadros do Zurbaran olhar, já a guia tocava no apito para zarparmos para outra sala. O Manuel disse-me logo que era preferível eu ver os quadros na net.

As tentações de S. Jerónimo de Zurbaran é um dos muitos tesouros que o Mosteiro de Guadalupe guarda

No entanto, o Mosteiro é muito bonito. É daquelas obras de arquitectura que foi sendo acrescentada ao longo de séculos, de forma quase orgânica, mas que manteve uma unidade estilística, quase por acaso, talvez a partir das cores do tijolo e da pedra com que foi sendo construído.

O estilo Mudéjar
Fascinaram-me particularmente as janelas mudéjares do lado poente do edifício. Para os menos familiarizados com a história da arte, mudéjar designa a população islamizada, que ficou em Espanha e em Portugal depois da reconquista cristã. Muitos desses mouros ou mouriscos eram artificies ligados à construção civil, especialistas entre outras coisas no uso do tijolo burro. Os novos senhores cristãos apreciaram a arte destes operários, que levantaram edifícios maravilhosos como o Alhambra em Granada e contrataram estes alvanéis para construir igrejas e mosteiros cristãos, segundo as plantas e modelos vigentes da arquitectura europeia, mas em tijolo e com decorações de evidente sabor mourisco. O resultado desta síntese entre a arte dos trabalhadores mouriscos e a arquitectura cristã é o estilo mudéjar, de que estas janelas de Guadalupe são um óptimo exemplo. Aqui em Portugal, temos uma igreja mudéjar, que quase minguem conhece, Castro de Avelãs, em Bragança e onde se pode admirar a arte de trabalhar o tijolo dos alvanéis mouriscos num edifício tipicamente românico.


À volta do mosteiro cresceu uma povoação, que está bem preservada, em que quase todas as casas tem galerias, destinadas a abrigar os peregrinos das chuvas e permitir o pequeno comércio debaixo dessas arcadas.


Estrategicamente há fontes em pedra por toda a vila, para saciar a sede dos peregrinos e das suas montadas, que chegavam extenuados a Guadalupe depois de terem percorrido um longo caminho através das várias regiões das Espanhas. Uma delas, talvez a mais simples, a fonte del angel encantou-me particularmente pela sua simplicidade.
A fonte del Angel
Por uma estranha associação de ideias e sensações, não consegui deixar de trautear a aquela música do Miguel Bosé, hay un angel en tu mirada, quando olhava para aquele anjo em granito, encimado por uma Cruz.

No he podido escapar
De ese aquí, de ese allá
Me deje dominar... Poco a poco...poco
(…)
Me sentí castigar
Te dije si... si...
Por tu forma de amar...
Tan salvaje...
Hay un ángel en tu mirada
Inquietante tabú


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A elegância do Vieux Paris

O meu amigo Manel não tem o hábito de comemorar os anos. Quase sempre deixo passar a data e este ano não foi excepção. Lembrei-me dessa falha quando estava na Feira de Estremoz ao ver a chávena que vos trago hoje, absolutamente perdida no meio da maior caqueirada. Sabem como é, aquelas bancas, que vendem tudo a um euro ou cinco euros? 

Percebi que o Feirante não fazia a menor ideia do que estava a vender, ao pedir-me cinco euros, por esta chávena e pires, em bom estado de conservação, que me pareceram desde logo porcelana de Paris e do início do século XIX, até porque a chávena não tinha asa, que normalmente é um bom indicador de que a peça é antiga.


Ofereci assim a chávena ao Manel, que ficou todo contente e a colocou junto a uma outra chávena, da mesma época, decorada segundo um desenho de Adam Buck, sobre a qual já aqui escrevi. 

Como disse no início, por uma espécie de intuição, presumi que esta chávena fosse porcelana de Paris, mas claro, não tinha a certeza, pois a peça não está marcada como era frequente entre os fabricantes sediados na capital francesa, entre 1770-1850.

Para saber mais sobre esta chávena, parti então para o google armado de uma santa paciência e fiz várias pesquisas combinando os termos bol et soucoupe, porcelaine vieux Paris e ainda Teabowl and Saucer com Paris Porcelain.

Chávena e Pires. Porcelana de Clignancourt. ca. 1790. Victoria & Albert Museum

Obtive os primeiros resultados no Victoria And Albert Museum, ao encontrar uma chávena da Manufactura de Clignancourt, datada de cerca de 1790, com uma decoração com algumas semelhanças à peça que ofereci ao Manel e pintada nos característicos dourados da porcelana de Paris.

Continuei as minhas pesquisas, mas sem resultados conclusivos, pois entre 1770-1850, Paris é o centro das artes, da moda, da literatura e da cultura e todos os fabricantes de porcelana europeus, de Lisboa a St. Petersburgo copiaram os modelos manufacturados na cidade da luz. De modo que encontrei uma ou outra coisa da Fábrica de Porcelanas de Nyon na Suiça, com muitas semelhanças com esta chávena e ainda descobri que na Bélgica, a porcelaine Vieux Bruxelles, muito procurada pelos antiquários, inspirou-se na porcelana de Paris.

Passei depois à pesquisa bibliográfica e encontrei um livro estupendo, Porcelaine de Paris / Régine de Plinval de Guillebon : 1770-1850 . - Fribourg : Office du Livre, [cop. 1972], que me forneceu mais algumas pistas e explicações. 
Porcena de Paris. Fleury. Museu Nacional de Arte Antiga

Encontrei reproduzidas nestes livro duas fotografias de duas chávenas, uma no Museu Nacional de Arte Antiga e outra no British Museum com decorações idênticas às da peça do Manel, que me levaram a ter quase a certeza que a chávena do meu amigo é porcelana francesa. A primeira foi fabricada por Flamen-Fleury e a segunda por Potter.

Chávena e Pires por Potter & Blancheron , ca. 1794. British Museum
Em todas estas chávenas, incluindo a do Manel, se encontra uma característica muito própria de muitas das produções da porcelana Vieux Paris. Enquanto nas formas a porcelana de Paris imita muitas vezes a ourivesaria, nas decorações a fonte de inspiração é a arte dos tecidos. E de facto, se olharmos bem para a chávena do Manel, a decoração poderia ser um muito bem o estampado ou a passamanaria de um vestido estilo império. Talvez por isso, a chávena do Manel ficou tão bem ao lado da chávena decorada com um desenho do Adam Buck, representando uma Senhora com um Vestido Estilo Império.  


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Uma dama, um cofre e um incêndio

Desde há muito anos que sou um comprador compulsivo de estampas. E esta que apresento hoje, é daquelas que comprei já há mais de vinte anos, mas que só há pouco consegui descobrir alguma coisa sobre a sua história.

Representa uma senhora, tendo aos seus pés um cofre cheio de moedas e ao fundo um prédio em chamas. A senhora segura um escudo com uma legenda, onde se lê Companhia de Lisboa. Pareceu-me desde logo óbvio, que esta dama em trajes greco-romanos era uma alegoria aos seguros e que a estampa terá sido recortada de alguma apólice, de um folheto anunciando uma companhia de seguros ou de um outro qualquer documento relativo à actividade seguradora.

A estampa é de pequenas dimensões
Quanto à data, pelo estilo da grinalda que enfeita o topo da estampa e pelas fatiotas da Senhora, pareceu-me tudo muito ao gosto neoclássico das primeiras décadas do Século XIX. Lá atrás, a casa em chamas, é um típico prédio pombalino, daqueles da Baixa, que ainda estavam a ser construídos no início do século XIX, pois como toda a gente sabe, a reconstrução pombalina, prolongou-se muito além do consulado do Marquês de Pombal.

Mas, na altura, fiquei-me por aqui, entretanto divorciei-me, mudei de casa, pendurei a estampa na casa de banho, a tapar um ponto de electricidade e nunca mais pensei muito nela, até há uns dias, quando me passou pela mão o livro A companhia de Seguros Fidelidade no seu primeiro centenário: 1835-1935. – Lisboa: Fidelidade, 1935. Como deverão calcular, não é suposto, nós, os bibliotecários lermos todos os livros que catalogamos. Mas pelo menos temos que os abrir, ler na diagonal o prefácio, os sumários, os índices e folheá-los, para identificar os assuntos que tratam. Assim, perfeitamente ao acaso, na página onde abri o livro descobri uma estampa com evidentes semelhanças com a minha, também de uma Companhia Lisboa. Embora o mundo das seguradoras não seja propriamente uma área que me a apaixone, fiquei de atenas no ar e desatei a ler as primeiras páginas da obra.


Estampa reproduzida na obra A companhia de Seguros Fidelidade no seu primeiro centenário: 1835-1935. – Lisboa: Fidelidade, 1935
Segundo esta obra, a primeira notícia da fundação de uma companhia de seguros é do ano de 1792. Nos anos sequentes vão aparecendo mais companhias, como por exemplo a Bonança, em 1808, que até há bem pouco tempo existia e depois de 1822, em data incerta a Lisboa ou Lisia, que subsistia, em 1835, no momento da Fundação da Fidelidade.

Mais tarde, por indicação do meu amigo de Outeiro Seco, o Humberto, descobri no site http://historiadoseguro.com a data exacta da Fundação da Companhia Lisboa, que foi no ano de 1819.

A Companhia Lisboa ou Lisia não durou muito mais tempo e foi em 1839, absorvida pela Fidelidade, que eliminou assim uma concorrente do mercado. A Lisboa parece que estava mais especializada na cobertura de sinistros causados pelos fogos, daí o incêndio representado na estampa, ao contrário da Fidelidade que começou a sua actividade com os seguros marítimos.

A Companhia Lisboa dedicava-se à cobertura dos estragos causados por incêndios
Finalmente, graças também ao meu amigo Humberto, que descobriria o tumulo de Alexandre Magno, se lho pedissem, confirmei a minha impressão inicial, de que esta estampa fez parte de um documento oficial. Com efeito, foi muito provavelmente recortada de um certificado de seguro, conforme se pode ver num documento datado de 1828, passado em nome de duas senhoras, a D. Maria Madalena de Lima e D. Francisca Gutier, que cobria o risco de incêndio de uma casa na Rua Filipe de Nery, n.ºs 21 a 23.

Imagem retirada de http://www.forum-numismatica.com/viewtopic.php?f=84&t=88334.

Quanto à Lísia, que no início, pensei tratar-se do nome do impressor da estampa, afinal foi um dos nomes da companhia de Seguro.

Durante muito tempo, pensei que "Lisia" fosse a assinatura do impressor ou gravador. Afinal era um dos nomes da Companhia de Lisboa

Mais, Lísia é efectivamente o nome da Senhora, que segura o escudo. Lísia é um termo hoje caído em desuso, mas usado pelos poetas dos finais do XVIII ou inícios do XIX, como Bocage ou a Marquesa da Alorna, como sinónimo de Portugal. Bocage escreveu em 1792,  um poema, Liberdade, onde estás? Quem te demora?, onde emprega precisamente a palavra Lísia, como sinónimo de Portugal, segundo li em http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/bocage.pdf.

Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia
porque (triste de mim!), porque não raia
já na esfera de Lísia a tua aurora?


Mas Lísia, não era só um termo literário. Era também representada na pintura, no desenho e na gravura, como uma mulher, uma alegoria, representando Portugal, conforme se pode ver numa estampa da Biblioteca Nacional, de 1838, intitulada Lysia apresenta às quatro partes do Mundo o retrato do grande Marquez de Pombal

http://purl.pt/6781
Em suma, esta Dama que figura na minha estampa, será afinal, Lísia, uma alegoria a Portugal.

Não encontrei muito mais informações sobre esta antiga seguradora, mas consegui datar a minha estampa com alguma segurança, entre 1819 e 1839,  perceber que foi muito provavelmente recortada de um certificado de seguro, descobrir graças aos meus amigos Maria e Andrade e Humberto quem foi esta Lísia e trazer à luz do dia esta Companhia de Lisboa ou Lísia, que produziu esta gravura com tema tão curioso.