quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Uma vista de Montréal em 1830: travessa da Davenport


A faiança inglesa da primeira metade do século XIX, com suas paisagens e panorâmicas, é qualquer coisa de fascinante. Se muitas das vistas são meramente imaginadas, outras são bem reais, como é o caso desta travessa da Davenport, que retrata a cidade canadiana de Montreal, vista da ilha de Santa Helena.
No canto inferior esquerdo vê-se a âncora, típica marca da Davenport
Esta travessa terá sido produzida mais ou menos entre 1830 e 1840 pela fábrica inglesa de Davenport e inspirou-se numa estampa gravada por R. A. Sproule e W. L. Leney, datada de 1830 e executada a partir de um desenho de Robert Auchmuty Sproule (1799-1845). Este motivo serviu de base para a produção de um serviço inteiro, com pratos, travessas e molheiras, terrinas e tudo o mais.
 
Vue de Montréal à partir de l'île Sainte-Hélène. Estampa gravada por R. A. Sproule e W. L. Leney, datada de 1830 e executada a partir de um desenho de Robert Auchmuty Sproule
A panorâmica de Montréal da Davenport é tão boa, que ultrapassa em qualidade a gravura que lhe serviu de modelo. Nesta última, os barcos que navegam no rio estão dispostos de forma muito certinha, enquanto que, na travessa, o porto de Montreal fervilha de actividade e o tráfico do rio é intenso.
 
Davenport
O porto fervilha de actividade e ao fundo vislumbra-se a recém inaugurada catedral de Notre-Dame
Com efeito, a imagem desta travessa surpreendeu um momento da história de Montreal particularmente activo e próspero. Durante a primeira metade do século XIX, Montreal passa de uns modestos 9 mil habitantes para cerca de quarenta mil habitantes, tornando-se a maior cidade do Canadá. Uns cincos anos antes de a gravura ter sido impressa, em 1825, tinha sido aberto o canal de Lachine, que permitiu contornar os rápidos do Rio de São Lourenço, junto aquela cidade canadiana. Também nesse mesmo ano, mais a sul, os americanos construíram o canal Érié, que ligou o lago com o mesmo nome ao Hudson e ao porto de Nova Iorque. Montreal passou a contar com duas ligações fluviais ao atlântico e o tráfico do porto tornou-se intenso. Barcos a vapor, como aquele que é aqui mostrado, da British America asseguravam a ligação entre Québec e Montréal. A prosperidade era tão grande que em 1830 a cidade resolve erguer uma nova catedral, a igreja de Notre-Dame, construída em estilo neogótico e que vemos aqui representada, apesar de nessa época, as torres ainda não estarem terminadas. A cidade ganhou tanta importância, que entre 1842 e 1849 foi capital política e administrativa do Canadá.
Vapor da British America, que assegurava a ligação entre Québec e Montreal
Foi também entre 1800-1850, que Montréal deixou de ser uma cidade exclusivamente francófona e católica, em resultado do enorme fluxo de emigrantes, provenientes da Inglaterra, da Escócia e da Irlanda. Começaram então os conflitos entre as duas comunidades, a francesa e a inglesa, com os irlandeses católicos a aliarem-se aos franceses, também eles apostólicos e romanos. Todos estes problemas entre francófonos e anglófonos e entre católicos e protestantes culminaram na destruição do parlamento em 1849 e na consequente passagem de Montréal para Toronto da capital administrava e política do Canadá.
 
Vista de Montréal a partir do monte de Santa Helena, tirada nos nossos dias. Foto www.alamy.com
Hoje, passados quase duzentos anos, da produção desta travessa, a vista de Montréal a partir do monte de Santa Helena continua a ser um dos temas preferidos dos postais ilustrados e de todas as fotografias panorâmicas da cidade. Só que entretanto Montréal encheu-se de arranha-céus e mal se vê a catedral de Notre-Dame.
 
Alguns links consultados:
 
 
 
 
 
 

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Serviço de café da Schafer & Vater: da fábula às sufragistas


Este curioso serviço de café está na casa da minha família materna no Norte. As suas peças parecem figurantes de algum filme de animação da Disney, tendo por tema a Alice no país das maravilhas ou a Bela e o monstro. Talvez por essa razão tenha encantando várias gerações de meninas, que se entretiveram a inventar histórias com os bules, as leiteiras e as chávenas, reprodução de caras femininas de várias idades.

Personagens da Bela e do Monstro da Disney
Recordo-me da minha irmã contando às suas filhas qualquer coisa acerca de um passeio da mãe bule acompanhada das suas filhas pequenas, as chávenas  e talvez tivesse havido mesmo uma mais desobediente, que se afastou das restantes e se quebrou, como a na fábula da panela de ferro e da panela de barro. Já não me recordo bem dessas histórias, mas o que é certo é que a leiteira do serviço está realmente quebrada.


Este ano resolvi fotografar o serviço e tentar apurar qualquer coisa de mais concreto acerca dele e quem estas senhoras e meninas em loiça realmente representam. Através de uma pesquisa de imagens no google, combinada com palavras chave rapidamente encontrei dois ou três serviços à venda iguais, com identificação do fabricante. O serviço foi fabricado pela Schafer & Vater, firma alemã sedeada na Turíngia, em Volkstedt-Rudolstadt e cuja actividade decorreu entre 1890 e 1962. Esta Schafer & Vater produziu mais ou menos de tudo um pouco, mas destacou-se sobretudo pelas suas peças de louça divertidas e insólitas. A suas manufacturas são sempre de muito boa qualidade, com um grão fino, textura aveludada, já que a fábrica disponha de importantes minas de caulino nas imediações.
 Schafer & Vater produziu louça divertida e insólita.
Este serviço terá sido provavelmente fabricado nos primeiros anos do século XX e relativamente ao seu significado, o portal dos antiquários WorthPoint, indica tratar-se de uma caricatura das sufragistas, as mulheres, que lutavam pelo direito ao voto, enchendo os cabeçalhos dos jornais nessa época. O serviço está pintado em verde (Green), branco (White) e violeta (Violet), que correspondem às iniciais do moto das "sufragettes" Give Women Votes!

Afinal estas figuras femininas não ilustraram uma história qualquer infantil, mas antes as senhoras do movimento sufragista, que no início do século XX manifestaram-se ruidosamente na rua, punham bombas, faziam greves da fome e houve mesmo uma delas, que se matou atirando-se para debaixo das patas do cavalo do rei.


terça-feira, 14 de agosto de 2018

Terrina de faiança portuguesa: motivo País

 
Sempre tive uma grande paixão pelo motivo País, que a Fábrica de Miragaia introduziu e celebrizou em Portugal, mas está série decorativa aparece raramente nos mercados de velharias e quando surge é vendida a preços muito altos. Depois de muitos anos a procurar este padrão decorativo em todas as bancas e estendais nas feiras de velharias, só consegui comprar um único covilhete. Por essa razão, no passado Sábado, quando vi esta terrina com o motivo País a um preço razoável, não hesitei e comprei-a de imediato, apesar do seu sofrível estado de conservação.

A série País corresponde ao segundo período de laboração da fábrica de Miragaia (1822-1850) e tomou esta designação junto das pessoas porque no início do século XIX, País ainda era sinónimo de paisagem. Por exemplo, no século XVII, um pintor de paisagens era denominado por pintor de países
 
A série País inspirou-se no padrão denominado View in Fort Madura da fábrica Inglesa Herculaneum, como se pode ver nesta imagem,  com duas terrinas lado a lado, a primeira da Herculaneum e a segunda portuguesa, da chamada série País
A série País foi inspirada num padrão denominado View in Fort Madura da fábrica inglesa Herculaneum, do qual Miragaia fez uma adaptação simplificada, segundo um gosto popular, mas ao qual não falta o seu charme.
A minha terrina não está marcada
O problema é que a minha terrina não está marcada e sabe-se que pelo menos três fábricas nortenhas copiaram este motivo, Santo António de Vale da Piedade, Alto da Fontinha e ainda Viana. As imitações de Viana são relativamente fáceis de distinguir das outras, pois os azuis são mais clarinhos e o motivo decorativo é adaptado de forma mais livre. Contudo as peças de Santo António de Vale da Piedade e Alto da Fontinha são difíceis de distinguir das de Miragaia para os olhos de um leigo.
É difícil distinguir Miragaia do Alto Fontinha. Imagem retirada de "A colecão de faiança do Museu de Artes Decorativas de Viana do Castelo. Viana do Castelo: Câmara Municipal, 2015"
Existiam relações muito próximas entre Miragaia e as duas últimas fábricas. Entre 1824 e 1833 a Fábrica de Santo António de Vale da Piedade esteve alugada à família de Rocha Soares, patrões de Miragaia e depois do encerramento desta última em 1850, muitos dos seus operários e mestres transitaram para Santo António de Vale da Piedade. Quanto à fábrica do Alto da Fontinha (1837-1860) vendeu na década de quarenta as suas produções num depósito na Rua da Esperança, pertença da família de Rocha Soares. Depois do fecho da Fábrica de Miragaia, a Fontinha contratou um oficial, antigo empregado daquela fábrica. Estas relações de proximidade explicam porque é que é que as três fábricas fabricaram este padrão praticamente em simultâneo, ou ainda porque é que a Fontinha e Santo António do Vale da Piedade terão continuado a produzir a série País, depois do fecho de Miragaia.
As pegas são muito características
Relativamente à minha terrina, a pintura parece-me um bocadinho trapalhona, relativamente às peças que vemos de Miragaia nos museus ou nos catálogos de exposições. Por outro lado, no catálogo da exposição Fábrica de Louça de Miragaia, de 2008, não é reproduzida nenhuma terrina com este modelo de pega.

No blog, Arte Livros e Velharias, a nossa amiga Maria Andrade, publicou duas terrinas iguais a esta, a primeira sem marca tal como a minha e a segunda marcada Santo António de Vale da Piedade. A Maria Andrade referiu ainda que no catálogo Mostra portuguesa de faiança: Museu de Arte Sacra de Arouca. Arouca: Real Irmandade Rainha Santa Mafalda, 1998 consta uma terceira terrina igual a esta, mas marcada Miragaia.
Terrina marcada Miragaia. Imagem retirada de Mostra portuguesa de faiança: Museu de Arte Sacra de Arouca. Arouca: Real Irmandade Rainha Santa Mafalda, 1998
Em suma, aparecem terrinas iguais a esta com marcas de Miragaia, Santo António de Vale da Piedade e outras pura e simplesmente sem marca nenhuma. Sendo assim, a minha terrina tanto poderá ter sido fabricada por Miragaia entre 1822-1850, como também, no mesmo período ou até numa data mais tardia por Santo António do Vale da Piedade ou ainda, quem sabe, se pela fábrica do Alto da Fontinha.
 
 
Alguma bibliografia e links consultados:

- A colecão de faiança do Museu de Artes Decorativas de Viana do Castelo. Viana do Castelo: Câmara Municipal, 2015
- Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional do Azulejo, 2008
- Mostra portuguesa de faiança: Museu de Arte Sacra de Arouca. Arouca: Real Irmandade Rainha Santa Mafalda, 1998
http://artelivrosevelharias.blogspot.com/2011/08/duas-terrinas-com-pronuncia-do-norte.html
http://artelivrosevelharias.blogspot.com/2013/08/de-novo-fabrica-de-santo-antonio.html
 
 

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Dois Santos Antónios que não cumpriram os objectivos

 
Já apresentei aqui no blog, em 2011 e 2012 , estas duas imagens em barro de Santo António, que comprei há já uns anos. Foram os dois baratinhos pois estavam em muito mau estado. Com uma pintura policromada muito cuidada, o primeiro foi simplesmente partido ao meio e o segundo, que perdeu toda a policromia, parece ter estado enterrado e depois esfregado com palha-de-aço. Nenhum deles apresenta o Menino Jesus sobre o livro. Na época, achei que estas duas imagens tinham sido vítimas dos maus tratos do tempo e não pensei mais no assunto.

Porém pouco tempo depois, tive ocasião de visitar as ruínas arqueológicas do prédio do BCP, aqui em Lisboa, na Rua Correeiros e a guia chamou-nos a atenção para uma imagem de Santo António muito mal tratada, que apareceu no fundo de um poço ou de uma canalização, já não me recordo exactamente. Segundo a mesma guia, os arqueólogos que trabalham no subsolo dos bairros históricos de lisboeta encontram muitas vezes estas imagens partidas do santo António, pois no passado era costume castigar o referido santo se ele não cumprisse os pedidos dos devotos, atirando-o por exemplo para o fundo de um poço ou para um cano de esgoto.
 
 
 
Num texto publicado no catálogo O santo do menino Jesus: Santo António devoção e festa. - Lisboa : Instituto Português de Museus, 1995, Irisalva Moita faz também referência a este estranho costume de castigar o santo. Segundo a autora, as pessoas acreditavam que Santo António poderia recuperar objectos perdidos, aliás, a primeira repartição de perdidos e achados situava-se precisamente na Igreja de Santo António em Lisboa. Se o atendimento aos pedidos dos crentes, não fosse rápido, o devoto insatisfeito colocava o santo de costas para a parede, amarrava-o à perna de uma mesa, ou mergulhava-o na água, de cabeça para baixo, de forma a apressar o milagre. Katherine Vaz no seu romance histórico Mariana menciona que Mariana de Alcoforado e a sua irmã, ainda adolescentes enterraram uma imagem de Santo António de modo a força-lo a arranjar-lhes noivos. Como a pobre Mariana foi encerrada num convento pelo pai, o Santo António permaneceu enterrado no fundo do quintal.
 
Nenhuma das minhas imagens apresenta o atributo tradicional de Santo António, o Menino Jesus sentado no livro. Segundo ainda Irisalva Moita era costume roubar a imagem do Menino, pois acreditava-se trazer sorte ao autor da proeza.
 

Estes estranhos hábitos de maltratar a imagem do Santo revelam a familiaridade e a proximidade com que desde muito cedo os portugueses experimentaram com Santo António, a mais popular das devoções nas terras lusitanas.
 
Em suma, talvez o mau estado destas minhas duas imagens de barro não tenham sido consequência da acção do tempo, mas sim do espírito vingativo de algum crente insatisfeito, a quem o Santo não atendeu os pedidos. Um deles, foi partido, o outro talvez enterrado ou mergulhado muito tempo em água e os dois perderam o Menino Jesus. Como se diria hoje em dia, naquela infeliz linguagem da gestão, que invadiu o jornalismo, o futebol, os textos oficiais do Diário da República e a conversa dos políticos, estes dois santos antónios não cumpriram os objectivos, que lhes foram traçados pelos crentes.
 
 

terça-feira, 31 de julho de 2018

Tampa de terrina de faiança inglesa: Village Church


Coleccionar velharias significa muitas vezes comprar peças desirmanadas, pires sem chávenas, puxadores de cómodas, pegas de banheiras ou cabeças de santos sem corpo. Normalmente essas peças desemparelhadas vendem-se a um bom preço e fazem colecções estranhas, mas sempre interessantes. Recordo-me que um amigo tinha uma colecção muito gira de urnas de madeira, provenientes de antigas camas, oratórios ou louceiros, todas colocadas em cima de uma cómoda ou arca antiga. Outras das colecções engraçadas que se pode fazer é de tampas de terrinas, que expostas em conjunto na parede de uma sala de jantar fazem um bom efeito.
 
O meu amigo Manel gosta de comprar tampas de terrinas de faiança portuguesa ou inglesa, que pendura nas paredes da sala de jantar. Recentemente comprou esta tampa, em faiança inglesa, com uma decoração muito cheia, em tons de azuis mais escuros, que caracteriza a produção britânica dos primeiros trinta anos do século XIX. O tema é também típico dessa época, uma cena rural envolvida numa bordadura de flores, com camponeses, uma torre de igreja, cottages e umas simpáticas ovelhinhas.
 
Foto retirada de https://www.blueandwhite.com
 
O problema é que uma tampa de uma terrina não está obviamente marcada e descobrir o fabricante não parecia tarefa nada fácil. Fui fazendo pesquisas por imagens no Google pela expressão english pottery 19th century, em combinação com country scenery ou domestic cattle e depois de ver uma centena de imagens de pratos e travessas com pastores, ruínas góticas, lagos, cavalos e vaquinhas acabei por descobrir num desses sites de venda on-line, que o nome deste padrão é o Village Church, do qual raramente aparecem poucas peças com uma identificação do fabricante e por conseguinte terá sido produzido por várias casas inglesas. Os poucos exemplares, que surgem marcados são da James and Ralph Clews, firma activa entre 1818 e 1834.
 
 
Consegui localizar na net uma terrina inteira do padrão Village Church. Fotos retiradas de http://www.sellingantiques.co.uk/271999/antique-english-georgian-blue-and-white-transfer-village-church-pattern-pottery-tureen-and-cover/
Fiz mais umas pesquisas na net, agora pelos termos Village Church e Clews pottery e tive tanta sorte, que encontrei uma terrina à venda deste padrão e pude assim ver como era bonito o conjunto formato pela terrina e pela tampa. Este padrão Village Church é realmente um bom exemplo do charme da faiança romântica inglesa dos primeiros trinta anos do século XIX.
A tampa de terrina do Manel terá sido produzida em Inglaterra entre 1818-1834, talvez pela James and Ralph Clews e o nome do padrão é o Village Church

 

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Como uma princesa persa foi transformada numa Madalena penitente

 
O meu amigo Manel comprou mais uma estampa, representando Santa Maria Madalena, que de todas as pecadoras arrependidas e canonizadas, é de longe a mais popular. Esta pequena gravura é uma representação típica da bela pecadora arrependida, vestida com trajes de cortesã, longos cabelos soltos e que medita ajoelhada diante de uma mesa, onde estão um crucifixo e uma caveira. No chão está uma caixa aberta com as jóias, de que ela se despojou e toda a cena é envolvida por uma cortina de luxo.
 
A gravura não está assinada e contem apenas uma legenda S. Maria Magdalena. Provavelmente os dados com a identificação do impressor foram cortados pela habilidosa Senhora, que encaixilhou a gravura. Abri a página da Sociedade Martins de Sarmento, o melhor site para identificar registos de santos e descobri uma estampa igual à do Manel, mas inteira, contendo os dados da impressão. A gravura foi impressa por Teotónio José de Carvalho, um senhor que esteve activo em Lisboa nos finais do XVIII, inícios do XIX e vendia-se na rua do Ouro, Loja 16B. Provavelmente uma boa parte dos compradores desta gravurazinha seriam frequentadores da Igreja da Madalena, que é ali nas imediações. 
Estampa da colecção da Sociedade Martins Sarmento

Mas não fiquei satisfeito e resolvi pesquisarem inglês e francês no Google sobre esta imagem daquela figura do Novo Testamento, designada antigamente em França por La Trés Sainte demoiselle pécheresse e os resultados foram surpreendentes. Encontrei duas placas de esmalte de Limoges, exactamente com o mesmo tipo de representação e ambas do século XVII. Há apenas pequenas diferenças aqui e ali. Como as placas são ovais, o pormenor da caixa de jóias foi cortado e sobre a mesa, acrescentaram o vaso de perfume, com o qual Madalena ungiu os pés de Cristo e que é um dos seus atributos mais característicos, de tal forma que ainda hoje, Maria Madalena é padroeira dos fabricantes de perfumes.
Imagem extraída do blog de Alain.R.Truong
 
Imagem extraída do site de vendas Aguttes 
Apesar de mais de um século separar a produção das placas de Limoges e a estampa do Manel, as três tinham algo em comum, a mesma fonte iconográfica, que suspeitei desde logo que pudesse ser uma gravura. E com efeito, num desses sites de venda on-line, o “todocoleccion.net”, encontrei uma gravura francesa com a mesma representação da Madalena, ajoelhada em frente à mesa e vestida exactamente da mesma forma. A estampa não está datada, mas parece-me coisa do XVIII.
Imagem retirada de todocoleccion.net
Continuando as minhas buscas, acabei por descobrir uma gravura mais antiga provavelmente do XVII, gravada por Nicolas Bazin (1633-1710), editada por Pierre Mariette II (1634-1716) e feita a partir de um desenho de Charles Le Brun (1619–1690) e que será muito provavelmente a fonte de inspiração das gravuras e dos esmaltes já mencionados.
Imagem retirada de https://picclick.fr/Gravure-ancienne-MARIE-MADELEINE-PLEURANT-Nicolas-BAZIN-253631299911.HTML
 
Charles Le Brun foi um pintor régio na Corte de Luís XIV, com uma vasta obra de pintura, desenho, gravura e cartões para tapeçarias. Pintou pelo menos duas Madalenas, uma que se encontra no Louvre, outra no Museu de Grenoble, mas não tem nada a ver com as imagens das estampas e dos esmaltes, que venho aqui referindo. Já estava a praticamente a desistir de encontrar a pintura, que deu origem a esta gravura, quando encontro no site do British Museum uma outra estampa com uma cortesã semelhante a esta e onde se refere, que esta figura ajoelhada, foi extraída de uma grande composição de Charles Le Brun, datada de 1661, que está no Palácio de Versalhes, representando a família de Dario aos pés de Alexandre o Grande.
 
A família de Dario aos pés de Alexandre o Grande. Palácio de Versalhes
Em suma, o Senhor Charles de Brun ou o gravador Nicolas Bazin tiveram a ideia de reaproveitar a princesa da família de Dario, acrescentar-lhe um crucifixo, uma caveira e uma caixa de jóias e transformaram-na numa bela Madalena penitente.
Pormenor do quadro "A família de Dario aos pés de Alexandre o Grande". A jovem que chora foi reaproveitada e transformada numa Maria Madalena Penitente 

 

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Um velho castanheiro, testemunha de amores do século XIX

A minha bisavó materna Maria da Graça esteve recolhida num convento desde que era menina até aos 29 anos. Já conhecia alguns pormenores da sua vida e até já tinha escrito sobre esta antepassada aqui no blog, mas este Verão resolvi juntar a família e visitar essa casa conventual, localizada numa aldeia perdida do concelho de Vinhais, a Mofreita.

Logo no cruzamento que dá acesso aquela aldeia, da estrada de que vem de Fresulfe, encontrámos um castanheiro várias vezes centenário, daqueles muitos que se encontram por todo o concelho de Vinhais e pensei, que certamente aquela árvore terá assistido à passagem da pequena Maria da Graça e do seu pai, em 1861, quando este a foi entregar ao Recolhimento das Oblatas, apenas com sete anos de idade.
 
A Maria da Graça era filha ilegítima de uma tal Balbina Felicíssimo e de Francisco Germano Pires e quando a mãe morreu, o pai resolveu interna-la no Recolhimento das Oblatas do Menino Jesus, instituição especializada em receber crianças pobres e órfãs. Pouco se sabe deste meu trisavô materno, mas o que a tradição familiar conservou da sua existência não é muito simpático. Seria um homem avarento, que emprestava dinheiro a juros e terá feito um casamento por interesse, com uma mulher mais velha e abastada, a Hilária, de tal forma, que na vila de Vinhais se tornou conhecido pela alcunha depreciativa do Hilário. A Maria de Graça viverá no recolhimento da Mofreita cerca de 22 anos e há uma fotografia dela e das suas condiscípulas no pátio daquela casa religiosa, que aos nossos olhos contemporâneos nos impressiona muito, já que algumas das recolhidas são meninas muito pequeninas e todo aquele ambiente que as rodeia nos parece muito pobre.
 
O recolhimento da Mofreita no século XIX
No entanto, no tempo que aqui passou Maria da Graça aprendeu a ler, a escrever e certamente algum francês, pelo menos o suficiente para ler um livro de bordados, Les jours sur toile, que ainda se conserva na casa familiar de Vinhais e que tem a sua assinatura. Para os padrões da época, em que quase 80 por cento da população portuguesa era analfabeta, a instrução que aqui recebeu foi bastante boa.
Les jours sur toile. Mulhouse: H. de Dillmont éditeur, [s.d.]. A minha bisavó terá aprendido no recolhimento algum francês, pelo menos o suficiente para ler um livro de bordados. Repare-se na sua assinatura

Segundo uma história já muito esbatida pelo tempo, mas que ainda corre na família, a Maria da Graça terá conhecido o futuro marido, Clemente da Ressureição, ainda aqui na Mofreita. Ao que consta, o meu bisavó Clemente teria um parente a viver nesta aldeia transmontana, numa casa que ainda hoje existe, um pouco mais acima do convento e numa das visitas que fez a esse familiar, do qual só se conhece o primeiro nome, Amândio, travou conhecimento com Maria da Graça, mas não sabemos em que circunstâncias. Talvez o primo Amândio tivesse no recolhimento alguma familiar e quando a visitou na companhia do Clemente, este último conheceu a Maria da Graça. Normalmente, as casas conventuais femininas tinham uma sala destinada a receber visitas, o parlatório, dividida por uma grade, onde de um lado ficam as noviças ou recolhidas e do outro, as visitas.
 
Imagem recolhida na net da Igreja do Recolhimento das Oblatas, na  Mofreita, onde se vê o local onde as recolhidas assistiam à missa.
Há cerca de uns trinta e tal anos, atrás o edifício do recolhimento não estava tão arruinado e entrei na Igreja do Convento e lembro-me de ver a grade que separava as recolhidas do resto das pessoas. Quem sabe se a Maria da Graça não passaria toda a Santa Missa olhando para o Clemente, que tinha uns belos olhos azuis. Enfim, só podemos fazer suposições, mas pelo menos é certo, que o Clemente da Ressureição nas suas idas e vindas à Mofreita teria passado pelo mesmo castanheiro centenário.
A casa do Amândio ainda hoje existe na Mofreita. Sabe-se que era parente do meu bisavô e e que chegou a Tenente
 
A Maria da Graça saiu do Convento por sua vontade com 29 anos e no caminho para Vinhais, onde foi novamente viver com pai, passou obrigatoriamente pelo mesmo castanheiro, que já era nesse tempo centenário. Viveu um ano e tal na companhia do pai, até que a 6 Junho de 1889, casou com o meu bisavô Clemente, tinha ele 31 anos e ela trinta, e com essas idades presumimos, que tenha sido um casamento feito por amor, além de que, segundo um pequeno caderno de memórias, que o meu bisavô deixou, foi uma união feita contra a vontade dos pais. Nos primeiros anos o casal terá vivido mesmo com dificuldades, já que nem os pais de um, nem de outro os ajudavam.
Maria da Graça já idosa. Reconheço nela o mesmos olhos e o mesmo queixo que eu tenho. 
Enfim, os tempos passaram e os pais lá aceitaram este casamento desigual e a Graça e o Clemente tiveram filhos, que por sua vez também tiveram outros filhos e de uma das netas do casal descendo eu. Também os meus filhos e eu passámos este Verão por debaixo do mesmo Castanheiro, que testemunhou a passagem dos meus bisavôs a caminho dos seus destinos.
 
O meu filho Henrique, trisneto da Maria da Graça e do Clemente, fotografando a árvore que viu passar os seus antepassados