segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Santa Catarina de Alexandria: pintura em cobre do século XVII

 
Sempre simpatizei com a figura de Santa Catarina de Alexandria, essa mártir do século III, tão sábia e culta, que um certo romancista, Jean Marcel, na sua obra Hypatie ou la fin des dieux, colocou a hipótese de que a lenda, que envolve a vida desta santa seria um eco da existência da célebre filósofa, astrónoma e matemática, Hipácia de Alexandria, que foi massacrada no século V pelos cristãos, já que as suas convicções científicas punham em causa os dogmas do cristianismo.

Mas talvez a minha simpatia por esta santa remonte a uma das minhas primeiras recordações de infância, teria eu talvez uns quatro ou cinco anos e na Casa de São Vicente, onde a minha mãe era educadora, assisti a uma espécie de auto, que era uma encenação daquela música popular “A santa Catarina, prelim perlim pépé, Era filha do rei, Seu pai era pagão, prelim perlim pépé, Mas a sua mãe não. Na época fiquei muito impressionado com a cena em que a pobre Catarina é morta pelo pai e creio que ainda hoje, sempre que vejo um quadro ou uma escultura representando Santa Catarina, quase inconscientemente trauteio aquela lengalenga.

Todas estas considerações servem para justificar, a razão porque comprei mais uma representação de Santa Catarina, desta vez uma pintura em cobre, que suspeitei de imediato, tratar-se de obra do século XVII. A iconografia da Santa está aqui reduzida aos seus elementos essenciais, a espada, pela qual foi degolada, a palma, que significa o martírio e um traje luxuoso de princesa ou rainha. Falta aqui a roda pela qual foi martirizada, mas a pintura está um bocadinho suja e eventualmente poderá estar escondida pelo verdete no canto inferior esquerdo.
 
 
Mostrei esta pintura aos meus amigos o Joaquim Caetano, a Maria João Vilhena e o Anísio Franco, que foram de opinião, que esta pinturinha teria sido executada no século XVII, provavelmente em Espanha, por um pintor indeterminado da escola de Sevilha e que representará efectivamente Catarina de Alexandria.
 
 
 
Chamaram-me também a atenção para o entrelaçado de pérolas que adorna o cabelo da Santa, que é muito semelhante aos que foram usados por Josefa de Óbidos, na gravura datada de 1646, representando Santa Catarina, bem como no casamento místico de Santa Catarina, da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, inv. 197.
 
O casamento místico de Santa Catarina da col. do MNAA. Repare-se que o entrelaçado de pérolas no cabelo da santa é semelhante ao da minha pintura 
 
No verso deste cobre há uma legenda manuscrita, que eu ainda tive esperança que fosse o nome do pintor. Enfim, seria muito mais interessante se a minha Santa Catarina tivesse um autor. Contudo, a Maria João Vilhena, que é uma paleógrafa desenvolta, leu imediatamente a dita anotação e o que está lá escrito é o seguinte último figurado. Portanto, a legenda manuscrita não se reporta a um autor, mas provavelmente a uma etapa da criação artística. Talvez este pequeno cobre fosse um estudo, para uma composição maior, enfim, só Deus sabe.
Último figurado
Em todo o caso esta Catarina de Alexandria, fica muito bem nas paredes da minha casa, recordando-me sempre aquela cantinela, que ouvi pela primeira vez por volta de 1968, A santa Catarina, prelim perlim pépé, Era filha do rei…
 
 
Alguma bibliografia e links consultados:
 
Josefa de Óbidos e a invenção do barroco português / coord. científica Anísio Franco, António Filipe Pimentel, Joaquim Oliveira Caetano e José Alberto Seabra de Carvalho. - Lisboa : Museu Nacional de Arte Antiga : INCM, 2015.
 
 

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Dez anos de velharias do luís



No dia 30 de Setembro de 2009 iniciei este blog, com um post apresentado uma bonita terrina de faiança do Norte, de que hoje, passados 10 anos, ainda não sei quem é o fabricante. Aliás, comecei o blog na esperança de encontrar alguém do outro lado do monitor, que me ajudasse a esclarecer as minhas dúvidas sobre a faiança portuguesa, que na altura já coleccionava. Na verdade, aconteceu precisamente o contrário e o blog foi uma espécie de motor de arranque para começar a ler sobre faiança e porcelana e a visitar museus com colecções de cerâmica e aprender sobre o assunto por mim próprio. Mas como sou um homem com interesses muito diversificados, rapidamente comecei a escrever sobre história da família, gravura, fotografia, mobiliário, caixas de jóias, embalagens, esculturas, ferragachos, espelhos, azulejos, árvores centenárias e sei lá que mais.



Embora por vezes experimente uma certa dificuldade em arranjar assuntos novos, não há dúvida que esta obrigação de escrever regularmente um blog, exercita a minha criatividade e lá vou tirando da manga mais um tema para um post ou então volto atrás e escrevo sobre a peças que já mostrei e sobre as quais descobri elementos novos. Enfim, acabo por me divertir muito com tudo isto e acrescentar a minha cultura.

Bem sei que os blogs passaram de moda e hoje todos estão no facebook, no Twitter, no Tumblr e sabe Deus aonde mais, mas este formato do blog serve muito bem o meus intuitos, que é a produção de pequenos textos fáceis de ler no momento de pausa do emprego ou ao final do dia, quando já não há paciência para ler grandes testamentos e intercalados. São também textos intercalados com imagens agradáveis de objectos antigos, que pretendem distrair o leitor de um quotidiano agressivo e cinzento.

As lágrimas de uma Santa de Roca
Correndo o risco de parecer uma Miss Universo a discursar no momento da sua eleição, naquele momento em que chora e sorri ao mesmo, acenado ao público, queria agradecer a atenção dispensada a todos os que me seguem, aqui ou no facebook, aos que comentam ou ainda aqueles, que aqui vem parar aos trambolhões, empurrados por uma pesquisa no Google. Sinto um grande empatia por vós pois partilhamos os mesmos interesses e na medida dos meus conhecimentos da minha escassa arte fotográfica, procurarei sempre escrever textos com alguma qualidade e utilidade, ilustrados por boas imagens.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Tinteiro em porcelana francesa

 
Como a minha casa está cada vez mais cheia de velharias, resolvi apostar numa nova política de aquisições. Compro pouco, mas quando o faço procuro adquirir peças de melhor qualidade e também um pouco mais caras.
O tinteiro e o areeiro
 
 
O orifício para arrumar a pluma ou pena com que se escrevia
Apaixonei-me por este tinteiro em porcelana, que representa um pastor galante e a sua ovelha, modelados com grande perfeição. Claro, nenhum pastor apascenta as suas ovelhas de meias brancas, mas isso que importa, é uma cena muito ao gosto da segunda metade do século XVIII, no tempo em que a rainha Maria Antonieta e o seu círculo íntimo fingiam que eram camponeses e pastores numa aldeia de opereta, construída nos jardins de Versalhes, o Hameau de la Reine
O galante pastor ostenta uma meia branca
Naturalmente, que calculei logo que este tinteiro não fosse uma peça autêntica do século XVIII, mas antes o produto de um desses revivalismos do século XIX, quando os artistas copiavam e adaptavam todos os estilos dos séculos anteriores e proliferam nas artes decorativas o neogótico, o neoegípicio, o neo Luís XVI ou ainda o neorrenascença.
O verso do tinteiro. Há qualquer coisa no topo que não consigo perceber se será o resto de uma etiqueta autocolante ou uma verdadeira marca
 
Como tinteiro não está marcado pensei no início que fosse alemão, pois ao longo do século XIX os alemães mantiveram a tradição das figuras de Meissen e fabricaram milhares de pastoras galantes, damas de corte ou simples bonequinhos em biscuit. Contudo, os dourados na base pareceram-me mais ao gosto da porcelana francesa e há também uma certa sobriedade na composição. Fiz umas quantas pesquisas na net nesse sentido e encontrei alguns tinteiros com figurinhas de porcelana, também ao gosto do século XVIII e atribuídos a fábricas de porcelana francesa da cidade de Paris, na segunda metade do século XVIII.
Tinteiro Porcelana de Paris. À venda em https://www.onlineantiques.net/listing/690940100/beautiful-rare-late-18thearly-19th
Fui mais longe na minha pesquisa e consultei duas obras de Régine de Plinval de Guillebon, L'exotisme de Jacob Petit - Paris : Art de France, 1963. Separata de "Art de France", No. 3, 1963 e Porcelaine de Paris: 1770-1850 . - Paris : Vilo ; Fribourg : Office du Livre, [cop. 1972], que me ajudaram a esclarecer este assunto. Esta especialista de porcelana de Paris, explica que a partir dos anos 30 do século XIX, houve uma tendência entre os fabricantes desta cidade, iniciada por Jacob Petit, de copiar as pequenas estatuetas de Meissen, produzidas no século anterior, que eram puramente decorativas e transforma-las em objectos mais utilitários, como caixas de tabaco, fosforeiras, frascos ou tinteiros. Segundo as palavras desta autora os tinteiros misturavam elementos de biscuit e porcelana pintada de dourado.

Enfim, parece-me que este tinteiro será uma produção de um qualquer mestre de porcelana da cidade de Paris, do segundo quartel do século XIX, mas naturalmente não tenho a certeza. Em todo o caso, é uma peça com uma manufactura requintada.
 
 
 
Bibliografia e links consultados:
 
Plinval de Guillebon, Régine de
 
L'exotisme de Jacob Petit - Paris : Art de France, 1963. Separata de "Art de France", No. 3, 1963 e
 
Porcelaine de Paris: 1770-1850 . - Paris : Vilo ; Fribourg : Office du Livre, [cop. 1972],
 

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Por Bragança: as margens do Rio Fervença


Bragança é uma cidade pela qual tenho uma ligação forte. O meu pai passou lá a sua adolescência e desde pequeno ouvi da sua boca histórias e descrições daquela terra, que talvez seja a mais periférica e longínqua das cidades portuguesas do continente. Igualmente, quando estava de férias em Vinhais, todos os anos havia um passeio até Bragança normalmente conduzido pelo meu tio Chico, que agarrava em nós, a miudagem toda e metia-nos no Saab até aquela cidade e visitávamos a “domus municipalis”, o castelo e ainda o Museu Abade de Baçal.

Nos últimos quarenta anos, a cidade cresceu muito. Foram rasgadas novas avenidas e construídos muitos prédios e vivendas, mas tudo aquilo é feio e tem um certo ar de subúrbio mal arranjado. O centro histórico foi ficando esquecido e talvez por essa razão conservou-se razoavelmente, pois em nome do progresso, ninguém se lembrou de lá construir prédios com 10 andares, nem agências bancárias de arquitectura espalhafatosa. Hoje, que já há uma maior consciência do valor do património, a Câmara Municipal de Bragança tem vindo a promover a reabilitação do Centro histórico, que são basicamente duas ruas paralelas, correndo da praça da Sé até ao Castelo.
 

Logo abaixo da praça principal de Bragança, existe um jardim público, daqueles bonitos, com um coreto e canteiros desenhados à régua e esquadro, que confina com o rio Fervença, que não há muito tempo era um caneiro imundo, onde esgotos da cidade desaguavam. Para minha surpresa, o rio foi inteiramente despoluído e à sua volta criaram-se passeios pedestres, com bancos de jardim, aproveitando o arvoredo já existente. O resultado é muito agradável, pois ao longo de uma extensão muito grande, julgo que mais de um quilómetro ou mais, pode-se passear ou andar de bicicleta junto às margens do Fervença, que é agora um rio lindo, que corre cheio força, com cascatas naturais e ladeados de moinhos, que fizeram o meu encanto. Um deles foi recuperado, o outro ainda está ainda em muito mau estado, mas espero que quando o restaurarem, não o arranjem demais e deixem-no com um certo ar de ruína romântica.
 
 

Mas esse passeio ao longo das margens do rio Fervença também é bonito pelas vistas que podemos desfrutar do velho burgo brigantino. Seriam até vistas de postal ilustrado, se uma casa medonha dos anos 70/80 não estivesse cravada na encosta do lado direito do Castelo. Depois das férias, quando cheguei a casa e abri as fotografias no meu computador, apeteceu-me ser um ditador feroz e mandar implodir aquela casa ou pelos menos saber o suficiente de edição de imagens para apagar aquela casa da fotografia.
 
A casa estraga o aquilo que seria um belo postal ilustrado, onde além do castelo e do casario antigo de Bragança não falta sequer o típico pombal do Nordeste transmontano
 
Ao olhar para esta fotografia não consigo deixar de ser moralista e pensar que por todo o País autoriza-se a demolição de casas antigas, mas que raramente se manda destruir aberrações arquitectónicas, como esta casa nova, que estraga irremediavelmente uma paisagem histórica. Bem entendido, imagino que quem mandou erguer esta casa, fê-lo com o dinheiro de uma vida de trabalho em França, mas quem autorizou a sua construção. cometeu um acto criminoso.
 
Apetece-me ser um ditador feroz e mandar implodir a casa assinalada na seta ou pelos menos saber o suficiente de edição de imagens para apagar aquela casa da fotografia.
 

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Um toucador de cómoda.


Hoje apresento-vos uma peça de mobiliário, que passou irremediavelmente de moda, um toucador de cómoda. Foi comprado pelo meu amigo Manuel em muito mau estado e que com a sua paciência e minúcia o restaurou integralmente.

É constituído por um espelho basculante, apoiado em duas traves com uma representação convencional de dois golfinhos e assenta uma caixa com uma gaveta. É folheado a nogueira e lacado à boneca. Foi uma peça destinada a estar pousada numa cómoda ou numa pequena mesa, com tampo de mármore, e em tempos serviu para uma qualquer jovem ou senhora arranjar os seus cabelos e na gavetinha guardaria uma escova, um pente, um ou outro unguento, fitas coloridas e uns ganchos.



Este toucador foi executado ao gosto do chamado estilo da Restauração, período compreendido entre os reinados de Luís XVIII (1814-1824) e de Carlos X (1824-1830). Foi época em que Napoleão Bonaparte foi afastado definitivamente do poder e a monarquia restaurada de novo em França. Contudo, apesar desta ruptura política, o estilo Império persistiu no mobiliário, só que mais suavizado, em que as pesadas ferragens e os bronzes desapareceram e preferindo-se as madeiras de cores mais claras. Os móveis lacados como este, continuaram igualmente na moda.


Contudo, apesar do seu estilo, este pequeno toucador, não será assim tão antigo. A partir de 1840, começou a moda dos revivalismos no mobiliário e que se estenderá pelo século XX adentro. Em 1870, 1890, 1910 ou mesmo em 1940 uma família burguesa encomendaria a réplica de um conjunto em estilo Luís XVI para a sala de estar, um conjunto Império para o escritório, uma sala de jantar renascença e os quartos em estilo D. João V, se por acaso vivesse em Portugal. A casa da minha família materna está em grande parte mobilidade neste estilo restauração e terá sido coisa encomendada nos anos 30 do século XX.

Embora, seja difícil precisar exactamente a época seu fabrico, é provável que este toucador de cómoda, seja uma peça dos finais do século XIX ou mesmo inícios do XX. Em todo o caso, é de um tempo em que a casa de banho ainda não estava generalizada e as pessoas faziam a sua toilette no quarto. Dispunham de uma mesa de mármore com um jarro de água e uma bacia para lavarem a cara, os braços e as mãos e um toucador como este para compor o penteado.


No verso, este toucador tem um papel, onde alguém escreveu Maria Teresa. É uma letra feminina, comum às senhoras que fizeram a sua instrução nos anos 20 e 30 do século XX. A minha mãe, que por acaso também era Teresa, tinha exactamente este tipo de letra e enfim, todos nós sabemos que a cada época, corresponde uma caligrafia. Provavelmente, durante umas partilhas familiares, alguém colou este papel no móvel destinando-o à Maria Teresa. Entretanto, passaram mais algumas décadas, a Maria Teresa morreu e os descendentes não quiseram saber mais deste móvel, tornado inútil pela casa de banho. Mas, talvez mais do que a casa de banho, o que condenou à extinção definitiva estes toucadores, bem como os seus parentes próximos, os psichés, foi a pressa da nossa sociedade contemporânea. Hoje as mulheres trabalham todas e acabam de se arranhar nos transportes públicos ou mesmo no carro. Quantas vezes, já não vi eu, logo de manhã, no carro, as mulheres aplicarem base, usando o espelho por cima do volante, no momento em que o sinal está vermelho.



Alguma bibliografia:


Reconnaître les meubles de style / P. M. Favelac. – Paris. Ch Massin, s. d.



https://www.galerie-atena.com/blog-le-style-restauration-18151830-pxl-28_42.html



sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Um pouco da vida política em Chaves na década de 90 do século XIX: Liberal Sampaio

Liberal Sampaio. Foto de meados da década de 70 do século XIX.
 
O facto de uma prima minha me ter oferecido dois velhos álbuns de fotografias de família, tiradas mais ou menos entre 1860 e 1902, reacendeu em mim o interesse pela história da família e para me informar melhor sobre o universo onde aqueles personagens viveram, comprei a obra História moderna e contemporânea da Vila de Chaves através das actas e jornais da época, da autoria de um parente meu, Júlio Montalvão Machado e publicado pelo Grupo Cultural Aquae Flaviae. É um livro bem organizado, com um índice onomástico no fim, permitindo-nos localizar rapidamente na obra esta ou aquela personagem. E com efeito, encontrei nesta obras duas notícias referentes ao meu trisavô, que permitem entrever a personalidade polémica de José Rodrigues Liberal Sampaio, apesar da sua condição de sacerdote supostamente o obrigar a alguma descrição.

A primeira notícia foi publicada a 1 de Novembro de 1895, no jornal O Norte, periódico publicado em Vidago, ligado ao Partido Progressista e relata um comício da força política rival, o Partido Regenerador, ao qual o meu trisavô esteve ligado. Esta reunião do Partido Regenerador teve lugar no antigo teatro de Chaves e o autor do artigo descreve de forma sardónica o evento como se de um drama teatral de faca e alguidar se tratasse, tendo por protagonistas os políticos desse partido, entre os quais se contava o meu trisavô, bem como Joaquim Carneiro de Moura, entre outros e não consigo resistir a transcrever aqui parte desse texto.
 
Presumível retrato de Joaquim Carneiro de Moura, um político que passou do Partido Regenerador para o Partido Progressista

Espectáculo regenerador: a 27 de Outubro, no teatro desta vila, reuniram-se os poucos regeneradores de Chaves, após a missa do meio-dia, para a resolução de assuntos políticos de alta transcendência (…)
Estoirou então na escuridão do teatro a voz dominadora do sr. Padre Liberal Sampaio. O actor combateu o abandono a que estão lançadas as “mulheres de má vida” e pede para elas um asilo. Não quer também a canalização das águas em canos de ferro zincados, mas sim em canos de pedra, pois aqueles depositam “materiais nocivos à saúde”. Disse que os presos não ouvem missa e que os regeneradores têm em vista, se forem Câmara obriga-los a ir à missa do meio-dia para lhe purificar as almas. O actor publicou depois mais dislates à assembleia boquiaberta, estupefacta, atónita. É esta cabeça que os regeneradores apresentam para a Presidência da Câmara.

Uma vez que o autor deste texto não nutria qualquer simpatia pelo meu trisavô, acaba por me dar uma visão mais exacta do meu antepassado, muito mais do que se fosse um texto laudatório, daqueles que se escrevem quando as pessoas morrem. Em primeiro lugar sobressai a voz dominadora de Liberal Sampaio, que estoira na escuridão do teatro. Sabia que o meu trisavô foi um pregador famoso no seu tempo e presumia que tivesse bons dotes oratórios, mas neste texto tenho uma caracterização da voz de um homem em 1895, num tempo em que os registos sonoros eram raríssimos e percebe-se que terá tido a capacidade de dominar um auditório, como só alguns professores de liceu ou de faculdade o conseguem fazer ao fim de muitos anos de ensino. Por outro lado, o que no ano de 1895 pareciam dislates num meio pequeno de uma vila transmontana, aos nossos olhos contemporâneos, são bons princípios, como a criação de um abrigo para as prostitutas, a proposta de que os presos ouvissem missa, pressupondo que o meu trisavô acreditasse não só num tratamento mais humanitário para os presidiários, mas também no seu arrependimento e redenção. Finalmente parece-me interessante a sua preocupação com as canalizações e a saúde pública.

O artigo deste jornal dá-me também conta das simpatias políticas de Liberal Sampaio com o partido Regenerador, o que se confirma no levantamento que o meu pai fez de todos os artigos que o meu trisavô escreveu na imprensa periódica. Com efeito ao longo de 1895, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio colaborou pelo menos 4 vezes no Correio de Chaves, órgão do Partido Regenerador.

Contudo, terá mudado a filiação partidária, pelo menos a partir de 1899, pois o mesmo jornal, o Correio de Chaves, nesse ano ataca-o ferozmente como um progressista, mudança esta que se confirma na bibliografia levantada pelo meu pai, pois entre 1906 e 1907 Liberal Sampaio é colaborador assíduo no Intransigente, um semanário progressista, com sede em Chaves.

Transcrevo aqui o ataque ao meu antepassado feito pelo Correio de Chaves em 13 de Maio de 1899.

A seriedade do padre e advogado José Rodrigues Liberal Sampaio. É como homem e como padre que me proponho tratar este desgraçado - perigoso instrumento do agente das trevas – e depois o arrastarei à praça pública, onde ficará a nu das pústulas, como advogado. Como Padre tem por tema a volúpia. Como homem é sem firmeza de carácter e de tal baixeza que havendo dito dos progressistas locais no teatro de Chaves em 1895 o pior que se pode dizer de um partido, pouco depois foi-lhes oferecer os seus serviços a mendigar favores.

Como padre, arranjou uma espécie de Congregação de Filhas de Maria para conseguir o concubinato rico que ostenta, vaidoso, e praticou em Outeiro Seco, as acções más que a devassidão pode inventar. Além disso mandou espancar um homem por meio de uma cilada combinada com uma amante, o que lhe trouxe a sentença de desterro que cumpriu.

É este padre que se exibe pregador régio, não tendo senão exemplos de descrédito na vida…um pregador que vive em mancebia, pratica escândalos e cobra dinheiro por assistir a um moribundo.
 
Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, a minha trisavó, foi amante de Liberal Sampaio 

Como bem refere Júlio M. Machado, que reproduz este texto na sua obra, o redactor deste periódico, era um agressivo autor das notícias mais especulativas e é evidente o tom calunioso desta notícia. Para o leitor flaviense de 1899, num meio em que todos se conheciam, as insinuações deste texto eram mais que óbvias, mas hoje, passados 120 anos tenho alguma dificuldade em entender o exacto significado destas injúrias. Por exemplo, quando menciona arranjou uma espécie de Congregação de Filhas de Maria para enriquecer, será que o jornalista do Correio de Chaves se refere a algum recolhimento para raparigas pobres, talvez a Confraria do Sagrado Coração de Maria, que por volta destes anos manteve um conflito com a Câmara de Chaves e para a qual o meu trisavô angariaria dinheiro?

O autor desta notícia, que assina sob o pseudónimo de Zéquentelho, acusa Liberal Sampaio de ter espancado um homem em Outeiro Seco, com a cumplicidade da amante (certamente a Maria do Espírito Santo) e que lhe trouxe uma sentença de desterro que cumpriu. Este episódio não consta da tradição familiar, mas creio que se refere à suspensão de advogado, pelo prazo de seis meses, a que o meu trisavô foi condenado em Julho de 1898, por falta de respeito a um juiz, conforme notícia o Correio de Chaves, a 16 desse mesmo mês, no nº 7 e cujo texto transcrevo aqui.

O Tribunal da Relação do Porto, suspendeu de advogado nos Tribunaes do Reino, durante 6 meses, o Sr. Dr. Liberal por insultos dirigidos ao Sr. Dr. Juiz d’esta Comarca em uma minuta de aggravo, de que um pasquim da localidade exibiu cópia com grande ufania. Que esta pena, sirva de exemplo para muitos que, no destempero da linguagem, andam constantemente a faltar ao respeito devido aos tribunais(..).

 
Liberal Sampaio no momento da sua formatura, em Coimbra
 
Da leitura destes artigos publicados em 1895 e 1899 fica claro que o meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio era um homem que ou era amado ou detestado. Não seria de todo uma daquelas pessoas que estão bem com Deus e o Diabo. Politicamente, passou do Partido Regenerador para o Progressista e com uma voz dominadora defendeu alguns princípios que ainda hoje fazem parte da agenda política, como a criação de abrigos para as prostitutas e um tratamento mais humano dos presidiários. Também da leitura destes artigos se comprova inequivocamente, que Liberal Sampaio viveu maritalmente com a minha trisavó, a Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, uma fidalga de condição superior à sua e que a sua vida decorreu entre polémicas.

Estes dois artigos evocam também uma época em Portugal, a segunda metade do século XIX, em que existia plena liberdade de imprensa e os inimigos políticos, sociais ou de corrente literária insultavam-se ferozmente, numa desfaçatez completamente impensável para os dias de hoje, em que as polémicas quando estalam, entre jornalistas, políticos ou cineastas ou escritores, decorrem sempre de forma civilizada.

Bibliografia:
História moderna e contemporânea da Vila de Chaves através das actas e jornais da época / Júlio Montalvão Machado. – Chaves: Grupo Cultural Aquae Flaviae, 2012, p.151-52 e p. 173-174

José Rodrigues Liberal Sampaio: 62 anos de jornalismo: bibliografia activa e passiva / José Manuel Alves Montalvão da Cunha
In
Adenda ao nº 56, de Junho 2018 da Revista Aquae Flaviae. Chaves: Grupo Cultural Aquae Flaviae, 2019

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Restos de um serviço de porcelana da Vista Alegre (1852-1869)

Desde que herdei da minha avó paterna uma meia dúzia de peças da Vista Alegre, fiquei fascinado com as delicadas decorações florais tão típicas da produção daquela casa ao longo do século XIX e não parei então de as coleccionar. Claro, como a minha casa é muito pequena, não posso comprar serviços inteiros. Limito-me a adquirir um bule aqui, uma chávena acolá depois uns anos mais tarde um prato de bolo, o que talvez seja uma tolice, pois um dia que precise de vender, um serviço inteiro terá muito mais valor comercial, do que uma dúzia e meia de peças desirmanadas. Mas como sou um mero coleccionador sentimental, acabo por ser um bocadinho errático nas minhas escolhas. 
Há pouco tempo comprei por um preço irrecusável um prato raso da Vista Alegre, com uma decoração floral e uns motivos dourados muito bonitos e quando cheguei a casa, descobri que já tinha uma chávena e uma leiteirinha do mesmo padrão. Estas duas últimas peças não estão marcadas e quando escrevi sobre elas em Outubro e Setembro de 2011, embora me parecessem da Vista Alegre, não deixei de colocar a hipótese de serem porcelana francesa, já que a fábrica de Ílhavo seguiu muito de perto das modas da porcelana feita na cidade de Paris.
Marca 14 da Vista Alegre (1852-1869)
Mas, com a compra deste prato, que está marcado tirei as dúvidas e as três peças que hoje apresento em conjunto são indiscutivelmente da Vista Alegre. O prato ostenta a marca nº 14, feita a punção usada entre 1852-1869 e assim sendo a chávena, a leiteira e o prato raso são até mais antigas do que pensava em 2011. Na época, tinha o palpite que fossem do 4º período da Vista Alegre, 1870-1880 e afinal foram produzidas entre 1852-1869.
Lista de marcas da Vista Alegre https://vistaalegre.com/catalog/evolucaomarca.pdf
 
Este resto de um antigo serviço de Chá não tem grande valor comercial, mas quem poderá resistir ao charme da sua delicada decoração floral?