| Angelika Kauffman, Por Sir Joshua Reynolds e gravada por Bartolozzi. Estampa datada de 1780, propriedade do nosso amigo do Norte. |
Ao longo deste blog fui escrevendo vários posts sobre gravura, uma área que conhecia muito superficialmente e aos poucos fui-me apercebendo que esta é uma arte de cópia, em que o conceito de direito de autor é qualquer coisa de inexistente. O gravador cópia obras de arte, ou muitas vezes reproduz partir de outras estampas que já por si são cópias de pinturas.
Também vimos que alguns gravadores, como Bartolozzi copiaram as obras originais através de desenhos feitos por si e só depois abriram as gravuras. Esta arte de tradução da obra de outros artistas, que fazem os gravadores é também sempre uma traição, pois acabam sempre por recriar o original.
Depois de receber mais algumas de Bartolozzi, que um amigo nosso do Norte me enviou por e-mail, consultei o catálogo da exposição Francisco Vieira o Portuense: 1765-1805. – Lisboa: IPM, 2001 e consegui entender um pouco melhor o que se passou no mundo das artes e da gravura nos finais do Século XVIII, inícios do XIX.
Neste período, os impressores, gravadores e artistas começam a perceber que existia uma burguesia emergente que queria ter bonitos quadros em casa, mas que não tinha dinheiro para comprar pinturas dos grandes mestres, nem sequer para cópias medíocres a óleo ou aguarela. Por isso, na segunda metade do Séc. XVIII generaliza-se a impressão e venda de álbuns de estampas, destinados às casas burguesas, que depois eram destacadas, encaixilhadas e postas a decorar as paredes das salas e quartos. Esta produção tornou-se mesmo um negócio chorudo e quer artistas, quer gravadores dedicaram-se a ele, pintando quadros com o único objectivo de os verem divulgados em gravura, coleccionando grandes mestres do Renascimento, do Século XVII ou mesmo de pintores contemporâneos, para os copiarem sem complexos ou pejo e os passarem a gravura.
| Bíblia impressa em 1774. Estampa gravada por Bartolozzi a partir de uuma obra de Tiepolo. Da colecção do nosso amigo do Norte |
Para ilustrar o que afirmo, apresento uma belíssima estampa, que integra uma Bíblia, gravada por Bartolozzi e cujo modelo original foi nada menos nada mais do que a obra de um dos génios da pintura europeia, o veneziano Tiepolo (1696-1770).
Esta estampa enviada pelo nosso amigo do Norte mostra bem que copiar a obra dos grandes mestres do passado é uma actividade bem vista e uma forma comum nesta segunda metade do XVIII de divulgar a obra da grande pintura junto de um público mais vasto. Neste caso, através de um livro.
E qual era o melhor sítio na Europa do Século XVIII para copiar as obras dos grandes mestres da Pintura? Naturalmente a Itália. Todos os artistas europeus para lá se dirigem e passam largas temporadas em Florença, Roma ou Veneza a copiarem os mestres do passado e a inspirarem-se na arquitectura e nas ruínas romanas. Angelika Kauffman, uma pintura anglo-suíça estava na década de 80 em Roma, a inalar este ambiente italiano, quando terá conhecido Vieira Portuense, que se também aí se encontrava a aprender arte e a trabalhar com gravadores italianos na reprodução dos grandes mestres. Desse encontro, resultou um retrato de Vieira Portuense feito por Angelika, que ficou por terminar. Essa obra tornou-se um exemplo célebre de que por vezes o inacabado é muito mais fascinante que uma obra concluída.
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| Vieira Portuense retratado por Angelika Kauffman. Voralberger landesmuseum |
Pouco mais se sabe desse encontro, mas os especialistas dizem, que a obra da pintora influenciou Vieira Portuense e além disso haverá de comum entre eles, Bartolozzi.
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| Estampa de Bartolozzi a partir de um desenho de Angelika Kauffman. Col. da Royal Academy de Londres |
Muitas obras de Angelika passaram a gravura pelas mãos de Bartolozzi, gravador que o artista português irá conhecer mais tarde em Londres, em 1797, e com o qual estabelecerá uma estreita colaboração. Aliás um dos trabalhos que se esta dupla italo-portuguesa se dedicará será precisamente à cópia e gravura de grandes mestres, como de Guercino (1591-1666), a partir do qual os dois fizeram esta reprodução de um Cristo e de que se conserva um exemplar na Biblioteca Nacional de Lisboa. Os dois estabeleceram uma parceria tão boa, que terá sido Vieira Portuense quem convenceu Bartolozzi a vir para Lisboa. Parece que o projecto era fazerem uma edição sumptuosa dos Lusíadas amplamente ilustrada.
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| Ecce Homo. Original de Guercino, desenhado por Vieira Portuense e gravado por Bartolozzi. Biblioteca Nacional de Lisboa |
Bartolozzi e Vieira Portuense vieram para Portugal em 1802, mas foram apanhados pelo turbilhão que a revolução francesa e a política expansionista de Napoleão geraram na Europa








