quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Uma paisagem com casario ou a vontade partir


Já há uns tempos que tinha este azulejo guardado, à espera de melhores dias. É antigo claro, provavelmente do século XVIII e fez em tempos parte de um painel qualquer, representando uma cena complicada. Talvez fosse o fragmento de uma paisagem, que serviu de pano de fundo a um episódio da vida de Cristo ou ao martírio de um santo. Quem sabe?

Mesmo perdido irremediavelmente do conjunto de que fez parte, este azulejo não perdeu a sua beleza. Recorda-me as paisagens com casarios que muitas vezes decoram os pratos e as travessas de faiança, mas tem também qualquer coisa de apontamento impressionista. Quem o pintou pretendeu sugerir a quem o via, a impressão que provoca uma paisagem vista ao longe, como se estivéssemos num navio e víssemos a terra a afastar-se progressivamente.
 

Talvez por essa razão, Quando olho para ele recordo-me do desejo que temos muitas vezes de partir de viagem, um impulso que tem a mais a ver com o sentimento de querer partir e menos com o de chegar a um destino, onde nos reencontraremos novamente com os nossos problemas, as nossas limitações e o mesmo medo de sempre.

Nestas últimas obras que fiz em casa, aproveitei para colocar este azulejo na parede, junto a uma estante em acrílico, onde tenho uma série de faianças expostas e assim quando os olhos o descobrirem, no meio da tralha toda que tenho, poderei experimentar uma vez por outra o estranho sentimento de querer partir, sem querer chegar ao destino.
 
 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Ainda o motivo Roselle na faiança portuguesa

Fonte baptismal da Ribeira Chã, ilha de S. Miguel. Foto de Victor Melo. Universidade dos Açores/Museu de Vila Franca do Campo

Já aqui escrevi sobre um padrão muito comum na faiança portuguesa, representando um chalet e que no mercado de velharias costuma ser identificado como fabrico de Vilar de Mouros, vamos lá nós saber porquê razão.

Faiança de Vilar de Mouros. Exposição de cerâmica das fábricas do Distrito: catálogo / Câmara Municipal de Viana do Castelo. - Viana do Castelo : C.M., 1970

A única imagem que eu conheço das produções desta fábrica minhota, foi publicada no catálogo Exposição de cerâmica das fábricas do Distrito: catálogo / Câmara Municipal de Viana do Castelo. - Viana do Castelo : C.M., 1970 e as peças que aí foram reproduzidas, não tem nada a ver com os chalets que se lhe costumam atribuir. A decoração ostenta umas casinhas é certo, mas paisagens com casario são um tema recorrente de toda a porcelana e faiança e não identificam nenhum centro cerâmico em particular, além de que, tenho ideia que a produção de Vilar de Mouros deve ter sido diminuta. 

O Roselle, da  John Meir & Son é a fonte de inspiração das produções portuguesas com o chalet
Na verdade, como já expliquei neste blog, este motivo do chalet que se encontra na faiança portuguesa produzida de Norte a Sul do País, é uma adaptação mais ou menos livre do padrão Roselle, fabricado em Inglaterra por John Meir & Son.

O Roselle fabricado pela John Meir & Son no centro e dos lados as produções portuguesas que nele se inspiraram. Pratos do meu amigo Manel
O Jorge Amaral, no seu blog, velharias, tralhas e traquitanas apresentou uma travessa provavelmente do Fabrico de Porto ou Gaia e fez simultaneamente um bom apanhado de algumas fábricas que de Norte a Sul de Portugal (Massarelos, Alcântara), produziram este motivo, que pelos vistos foi extremamente popular.

Prato produzido pela firma Alfredo Pessoa e Filho de Coimbra. Reproduzido de Louça tradicional de Coimbra: 1869-1965. – Coimbra: Direção-Geral do Património Cultural, 2015

Recentemente, António Pacheco, na obra Louça tradicional de Coimbra: 1869-1965. – Coimbra: Direção-Geral do Património Cultural, 2015 apresentou mais um destes pratos inspirados no Roselle, mas ao contrário do que é normal, inequivocamente marcado como fabrico coimbrão, com as iniciais JAP, correspondentes a fábrica de Alfredo Pessoa e Filho, activa pelo menos entre os últimos anos 15 anos do séc. XIX.



Fonte baptismal da Ribeira Chã, ilha de S. Miguel. Foto de Victor Melo. Universidade dos Açores/Museu de Vila Franca do Campo
 
Mas a popularidade deste chalet envolto em arvoredo, inspirado no motivo inglês Roselle não se ficou pelo continente. Igualmente nos Açores temos notícia do seu fabrico. Há pouco tempo, Rui de Sousa Martins, da Universidade dos Açores, muito amavelmente enviou-me um texto seu intitulado Fontes baptismais na faiança da ilha de S. Miguel: Açores, sécs. XIX-XX, publicado na obra Artes Decorativas nos Açores: subsídios para o seu estudo nas ilhas de são Miguel e Terceira / coord. Gonçalo de Vasconcelos e Sousa. – Porto: Universidade Católica do Porto, 2015, onde assinala duas peças de faiança, com decorações inspirada no Roselle, feitas na ilha de S. Miguel



Este texto debruça-se sobre as fontes baptismais, objectos destinados a escoar a água santificada do baptismo e foram uma produção, marcante da primeira fábrica de cerâmica da Vila da Lagoa, fundada em 1862. São peças, muito bonitas e invulgares, que obedecem a uma iconografia complexa, que tem a ver o baptismo, mas no verso, em alguns exemplares, o ceramista fugiu a esse programa iconográfico rígido e usou uma decoração, inspirada no Roselle de John Meir & Son. É o caso da Fonte Baptismal da Ribeira Chã, produzida cerca de 1912, pela fábrica da Lagoa. Contudo, o motivo deve ter sido considerado tão bonito, que em 1962, foi reproduzido com algumas variantes, pela Cerâmica Leite no verso de outra fonte baptismal para a igreja da Caloura.


Fonte baptismal da Caloura, ilha de S. Miguel. Foto de Victor Melo. Universidade dos Açores/Museu de Vila Franca do Campo
Agora, no final do texto, é suposto fazer uma conclusão qualquer, mas na verdade não há muito a concluir. Talvez volte a insistir que não há razão nenhuma para atribuir estas paisagens com a representação de um chalet romântico a Vilar de Mouros e muito menos a Miragaia, como é hábito fazer a com todas as paisagens com casario azul e franco. A certeza que se pode ter, é que o padrão tem origem em Inglaterra e foi de encontro ao gosto dos portugueses e por essa razão foi reproduzido por fábricas de Norte ao Sul do País, incluindo os Açores. Umas fábricas mantiveram-se fiéis ao padrão inglês, outras adaptaram-no de uma forma mais livre e criativa, como é o caso do verso destas encantadoras fontes baptismais açorianas.
Detalhe da Fonte baptismal da Ribeira Chã, ilha de S. Miguel. Foto de Victor Melo. Universidade dos Açores/Museu de Vila Franca do Campo
 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Velharias do Luís em obras ou remodelação da minha casa de banho.

Tal como o fado Madrugada de Alfama, em que a personagem mora numa água-furtada, que é a mais alta de Alfama, e que o sol primeiro inflama quando acorda à madrugada, também eu vivo num sótão, quase no alto de uma das colinas da velha Lisboa, onde de um lado vejo o Castelo, a Graça, a Senhora do Monte e de frente avisto um torreão do Terreiro do Paço e o Tejo. Enfim, é tudo muito Amália Rodrigues. Aliás, diz-se que a grande diva do fado, nasceu na minha rua. Não é verdade, pois Amália era natural da Beira Baixa, mas se tivesse nascido ali, o carácter popular da rua combinaria muito bem com a personagem. 

A minha casa apresenta uma característica bem típica de todas as águas furtadas, isto é, a possibilidade de crescimento em direcção ao céu de Lisboa. Normalmente, nos últimos andares há uma caixa-de-ar entre os telhados e os apartamentos propriamente ditos e as obras de remodelação destas casas, passam sempre por subir os tectos até aos telhados, conseguindo-se um pé direito muito mais alto, tornando-as casas espaçosas e mais frescas, sobretudo quando se faz um bom isolamento. Já tinha feito obras semelhantes de eliminação dessa caixa-de-ar para duas divisões e para a cozinha e resolvi na passada semana fazer o mesmo para a casa de banho, uma divisão pequenina, onde tinha que pedir autorização ao tecto para tomar duche.

As obras largaram uma poeiraçada incrível, andei acantonado em casa durante quase uma semana, vivendo na maior das confusões. Depois seguiu-se a arrumação e a limpeza das centenas de velharias, que revestem as paredes e os tectos do meu apartamento.

Aproveitei as obras para mandar colocar um friso de azulejos dos finais do século XVIII, que há muito tinha encontrado num contentor das obras, ali atrás da estação do Rossio e depois nas tarefas de arrumação, passei para a casa de banho a faiança inglesa, que andava mais ou menos dispersa. 

Até há lugar para um carro eléctrico na minha nova casa de banho.
Como podem ver pelas fotografias que publico, o resultado valeu bem a pena. A casa de banho ficou maior e mais fresca e com uma decoração ao gosto muito carregado do século XIX, que emprestou graça a um espaço, que tradicionalmente é sempre tão asséptico e aborrecido em todas as casas.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Sacavém e Copeland

Saladeira copeland
Já é um lugar comum falar na influência que faiança inglesa exerceu ao longo do século XIX na louça de Sacavém, quer na decoração, quer nos processos de fabrico. Se conhecemos essa influência em algumas peças, como o motivo cavalinho, o faisão ou o Júpiter, para muitas outras decorações produzidas ao longo da segunda metáde do séc. XIX por Sacavém, falta estabelecer uma relação com a loiça feita em Inglaterra ou em outras fábricas europeias, durante o mesmo período.

A saladeira Copeland ao lado da pequena terrina de Sacavém. As semelhanças falam por si.

Em Janeiro de 2013, já aqui tinha mostrado uma pequena terrina, ou talvez uma molheira, com a marca de Sacavém, correspondente ao período de 1856-1861, ou seja à época mais antiga da Fábrica, anterior aos patrões ingleses, que dominaram praticamente toda a existência de Sacavém. Quando mostrei esta peça, fui de opinião que a influência inglesa era óbvia, mas não a relacionei com nenhum padrão em particular, até que o Manel e eu colocámos esta peça ao lado de uma saladeira da Copeland, de que já aqui tinha apresentado duas azeitoneiras e uma molheira do mesmo serviço e as semelhanças eram eloquentes. 

Portanto, em Sacavém, entre 1856-1861 alguém tomou como modelo a decoração e as formas de um serviço da Copeland, registado em 1849 e conhecido pelos nomes de garland ou rose briar.

As semelhanças são tão evidentes nas fotografias, que escuso de maçar quem lê estas linhas, com descrições exaustivas da decoração, referindo que há um filete aqui, uma grinalda acolá e uma faixa decorativa acoli. Não há dúvida que Sacavém copiou Copeland, mas fê-lo com gosto.
Sacavém copiou Copeland, mas com gosto

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Um documentário sobre o Museu Nacional de Arte Antiga ou filho de peixe sabe nadar




Ninguém consegue escrever sobre os seus filhos de forma imparcial. Perante os seus actos experimentamos toda uma série de sensações, que nos transportam para um tempo em que os carregámos ao colo, lhe demos a papa ou nos vimos sozinhos com eles num hospital, e num ápice lá se vai a nossa capacidade objectiva de análise.
 
No entanto, quando recentemente vi a primeira realização do meu filho, um documentário sobre o Museu Nacional de Arte Antiga, não pude deixar de ficar impressionado com a qualidade do seu trabalho. Os planos são elegantes, a câmara move-se lentamente como é conveniente a quem filma um museu, a música é adequada e as imagens misturam-se de forma harmoniosa com a entrevista a um dos conservadores do Museu, o Anísio Franco.

Há um certo bom gosto no documentário, que me surpreendeu, até porque o meu filho acordou tarde para a cultura. Mas, fico orgulhoso, porque a apetência pelo que é antigo e pelo património tem já uma certa tradição familiar, iniciada pelo meu trisavô, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio e que me foi transmitida pela minha avó e pelo meu pai. O meu filho soube reatar essa tradição de uma forma muito pessoal, através das imagens.


Deixo-vos pois com o documentário sobre o principal museu do País, realizado pelo meu filho Henrique

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Uma estampa de S. Cristóvão inspirada em Ticiano


São Cristóvão é uma daquelas imagens Kitsch, que aqui em Portugal associamos inevitavelmente um certo mau gosto. Não há muitos anos era raro o taxi em Lisboa que não tinha uma medalhinha de metal com o S. Cristóvão no tablier. Esta decoração costumava ser completada com um terço pendurado no espelho retrovisor, bem como uma bandeirinha de um clube de futebol, do Sporting ou do Benfica. Na época, nós, as pessoas de classe média achávamos aquilo tudo muito piroso, mas se pensarmos que Portugal tinha a mais elevada taxa de sinistralidade das estradas europeias, talvez a ideia de colocar uma imagem do patrono dos viajantes não fosse assim tão tola.


Toda esta conversa veio a propósito de uma estampa representando S. Cristóvão, belissimamente emoldurada num tecido bordado à mão, um daqueles trabalhos femininos, de monja ou de menina educada nas freiras, que nunca nos deixarão de espantar pelo virtuosismo técnico e pela decoração preciosa. O bordado está em demasiado bom estado para ser muito antigo, mas a estampa parece definitivamente coisa do século XVIII. Não tem qualquer marca de gravador ou impressor, mas o nome do nome do Santo, está identificado em latim, S. Christophorus, o que me leva a pensar que esta estampa não tenha sido feita em Portugal. Pelo menos, dos muitos registos de Santos impressos em Portugal no século XVIII, que me tem passado pelas mãos, a legenda está sempre em português. Em todo o caso, esta opinião é apenas um mero palpite, baseada na experiência e não em estudos sistemáticos.

Fiz algumas pesquisas na net pelo título em latim S. Christophorus, associado às expressões, engraving ou gravure, tentando encontrar qualquer informação que me permitisse situar esta estampa no tempo ou na produção de um determinado gravador ou País. Logo aos primeiros resultados, apercebi-me que a iconografia de S. Cristóvão se fixou relativamente cedo na arte europeia, segundo Louis Réau, a partir do séc. XIV e o mártir cristão é inevitavelmente representado com um homem possante, de elevada estatura, atravessando um curso de água, com um menino às costas e um bordão nas mãos.
S. Cristóvão, por Ticiano, no Palácio dos Doges, em Veneza
Porém, no meio da centena de imagens de S. Cristovão, que desfilaram à minha frente descobri que esta estampa se inspira mais ou menos directamente num fresco pintado no século XVI por Ticiano e que se encontra no Palácio dos Doges, em Veneza. A figura do santo e do Menino Jesus é exactamente a mesma, só que invertida, o cenário ao fundo, com uma igreja do lado esquerdo e um monte do lado direito é também idêntico. Em termos iconográficos, esta pintura apresenta uma variante, o menino não transporta na mão um globo, nem existem peixes na água. O fresco de Ticiano deve ter sido muito admirado no seu tempo e a partir dele foram feitas várias gravuras, ou talvez seja mais correcto afirmar, que houve muitos impressores a copiarem algumas gravuras feitas a partir do S. Cristóvão do célebre mestre veneziano.


S. Cristóvão gravado por Andrea Zucchi e inspirado em Ticiano. Victoria and Albert Museum

Por exemplo, o Victoria and Albert Museum, tem nas suas colecções uma estampa impressa por Andrea Zucchi, 1679-1740, também inspirada directamente na obra de Ticiano, mas de melhor qualidade, que aquela pertencente ao meu amigo Manel. Essas gravuras copiadas ou inspiradas na pintura de Ticiano, chegaram a Portugal, pois nos últimos anos do século XVIII António Joaquim Ribeiro imprimiu uma estampa com um S. Cristóvão, que tem também por modelo a aquela obra do artista italiano. Quase por uma simples amostragem feita na net, consegui apanhar uma sucessão de cópias feitas sobre cópias do fresco de Ticiano, o que nos permite perceber como a gravura foi na arte o veículo privilegiado para a viagem das imagens de país para país ou de um século para o outro.
S. Cristóvão, impresso por António Joaquim Ribeiro. Casa Martins Sarmento, Guimarães
Sobre quem era S. Cristóvão, não vou adiantar aqui muita coisa, pois este não é um blogue sobre vidas edificantes. Em todo o caso não falta beleza à história desta figura praticamente lendária, cuja principal fonte é a Lenda dourada de Jacques de Voragine. Terá vivido na Ásia Menor talvez no tempo das grandes perseguições de Imperador romano Diocleciano (284-305), em que foram chacinados milhares e milhares de cristãos. Cristóvão era um homem fortíssimo, muito alto, que depois de se ter convertido ao Cristianismo, se dedicava a transportar gratuitamente pessoas de uma margem para a outra do Rio.

Um dia apareceu-lhe um menino, que o pediu para o levar para a outra margem. O gigante meteu a criança ao ombro, mas esta pesava-lhe imenso e fez a travessia muito a custo. Quando no final, Cristóvão observou – Quem és tu menino, que me pesaste tanto, que parecia que transportava o mundo inteiro?

O menino respondeu -Tens razão, peso mais que o mundo inteiro, pois sobre os meus ombros carrego com os pecados do mundo. Eu sou Cristo, procuravas-me e encontraste-me. Doravante, chamar-te-ás Cristóvão (em grego, quer dizer o que leva Cristo) e ao ajudares quem cruzar o rio, estarás ajudando-me. Fixa na terra esse árido tronco, que te serve de báculo e pela manhã vê-lo-ás não só em flor, mas também coroado de frutos. De facto no dia, seguinte a estaca seca plantada na terra, tinha-se tornado numa palmeira, carregada de frutos. Depois deste episódio, S. Cristóvão  dedicou-se a evangelização de novas comunidades, e o número de novos praticantes, cresceu como o fruto da palmeira do seu bastão.
 

Há uma simbologia cristã mais ou menos evidente, nesta história, que é aquele que pratica o bem desinteressadamente, no momento da passagem para o outro lado do mundo, garante a sua salvação. Mas esta narrativa assenta também nos velhos mitos pagãos, como o do barqueiro Caronte, que transportava as almas dos que morriam através das águas do rio Estige e Aqueronte, que dividiam o mundo dos vivos do mundo dos mortos. Contudo Caronte, fazia-se pagar pelo seu serviço, pedindo uma moeda, o óbolo, e Cristóvão transportava desinteressadamente os seus passageiros, o que do ponto de vista ético é um lado muito interessante desta lenda.
Alguma Bibliografia:

Iconographie de l’art chrétien / Louis Réau. Paris: Puf, 1958
 

terça-feira, 16 de junho de 2015

Azeitoneiras e molheira Copeland

Para um coleccionador amador como eu, que vive numa espécie de casa de bonecas com uma assoalhada e meia, resta-me apenas a opção de comprar peças de pequenas dimensões, possíveis de encaixar nuns 20 ou 30 cm de parede livre, que ainda restam aqui e acolá, apesar de serem cada vez em menor número. Por isso, comprei há pouco tempo duas pequenas azeitoneiras de faiança inglesa de meados do século XIX, por um preço muito em conta na Feira de Estremoz. O Manuel comprou uma molheira do mesmo serviço e acabei por lhe oferecer uma das azeitoneiras. Esta minha peça irá juntar-se a um conjunto de azeitoneiras inglesas que tenho vindo a adquirir.
A marcas das azeitoneiras
As peças estão marcadas com o monograma da fábrica, a Copeland, que foi umas das marcas inglesas de cerâmica com mais prestígio. Teve origem na célebre Spode, fundada em 1770, a primeira casa a produzir o célebre padrão do salgueiro, e que foi em 1833 comprada por William Copeland e Thomas Garrett. A partir de 1847 o Sr. Copeland tornou-se o único dono e marca passou-a designar-se por W.T. Copeland & Sons, nome que manteve até 1976, ano em que voltou a designar-se por Spode. As marcas destas peças indicam-nos, que poderão ser tido executadas entre 1847-67
 
Tardoz da molheira. O diamond-shaped English Registry mark indica o ano, o mês e o dia, em que o padrão foi registado
As três peças deste conjunto, ostentam também no tardoz o chamado The diamond-shaped English Registry mark, isto é, um conjunto de sinais e códigos, definidos pelo serviço oficial de patentes do Reino Unido, que indicam o ano, o mês e o dia, em que o padrão foi registado e cuja chave de descodificação se encontra disponível em vários sites da net, como por exemplo no kovels.com. O padrão destas duas azeitoneiras e molheira foi registado no dia 17 de Agosto de 1849.

No entanto, julgo que esta data, se refere ao registo do padrão decorativo e não ao ano exacto do fabrico. Portanto, a execução destas três peças poderá ser sido mais tardia. Aliás encontrei num site de arqueologia, o Canadian Historic Sites, referência a que em 1882 este padrão ainda estava disponível num catálogo de vendas da W.T. Copeland and Sons.

Este site contem um artigo on-line, muito curioso de Lynne Sussman, intitulado Spode/Copeland Transfer-Printed Patterns Found at 20 Hudson's Bay Company Sites, que nos conta que em meados da década de trinta do século XIX, a Spode Copeland tornou-se o fornecedor oficial de loiça da Hudson Company, situação que manteve até ao início do século XX. Portanto, em todos postos da Companhia comia-se e bebia-se em serviços daquela loiça inglesa. Já no nosso tempo, os arqueólogos escavaram alguns postos comerciais da Hudson Company e compararam os achados de loiça com as chapas de cobre e os livros de padrões que ainda existem na fábrica Spode e o resultado foi a publicação de um trabalho impressionante, que cobre 109 padrões decorativos, muito útil para todos os coleccionadores de faiança inglesa
Imagem do livro de padrões da fábrica
Consegui descobrir neste site, numa das reproduções do livro de padrões, a imagem que esteve na origem do decoração estampada nestas três peças e que se conserva nos arquivos da fábrica Spode, onde surge designado por garland ou rose briar.
 
 
Em suma, este conjunto de azeitoneiras e molheira foi fabricado pela Copeland, entre 1849 e 1867, numa época em que Inglaterra era maior potência industrial do mundo e as suas produções invadiam o mundo inteiro e tão depressa chegavam às imensidões gélidas do Canadá, como à Ocidental Praia Lusitana.
A beleza do azul e branco da faiança inglesa