Quinta-feira, 16 de Maio de 2013

Alguns pensamentos sobre uma ruína em Monforte


As ruínas exercem sempre uma grande atracção nas pessoas que gostam da história e das artes. Se por um lado ficamos chocados e escandalizados com o abandono de um edifício antigo, a ruína em si mesma é atraente, fascinante, por vezes mais do que se o edifício estivesse em bom estado. Enfim, toda a gente conhece o Convento do Carmo em Lisboa e sabe que a sua especial poesia reside no facto de ser precisamente uma ruína. 
 
 
As ruínas despertam-nos sentimentos intensos. Ao entrarmos numa casa já sem telhado imaginamos quem viveu ali, os risos das crianças que morreram há muito, como ela era antes de ruir, mas também sonhamos reconstrui-la, decorando-a com os nossos objectos preferidos, as nossas estampas, móveis e loiças. A ruína é sempre uma experiência sentimental e também por essa razão se fizeram tantas falsas ruínas nos jardins europeus dos finais do XVIII e ao longo do Século XIX. A meditação suscitada pelos destroços de um templo clássico no jardim da sua própria casa era o supremo luxo da aristocracia e da grande burguesia nesses séculos.


Como não tenho nem terrenos nem dinheiro para erguer falsas ruínas, gosto de entrar em casas abandonadas, como esta em Monforte e sentir ainda a presença do Islão, ou quando vejo o Manel franquear o arco ogival do pátio interior, visualizar num repente uma Idade Média, onde as pessoas eram muito mais baixas que nós. Nestes espaços tristes arruinados, dou comigo a imaginar reconstruir aquela casa, expor as minhas faianças no armário embutido na parede, plantar uma glicínia no pátio e recomeçar uma vida inteiramente nova.

Sábado, 11 de Maio de 2013

Relicário Ostensório ou o culto dos objectos


Como sinto uma atracção irresistível por tudo aquilo que o Manel designa por beatices, quando vi esta peça em madeira folheada a ouro, num impulso comprei-a e voltei com ela para casa todo contente.


Depois, limpei-a com um algodão embebido em água do Luso e comecei a reparar, que para além da medalha em cera com o Agnus Dei, havia mais qualquer coisa nela, um pedacinho de tecido, bordado a fio de ouro e contendo palavras. Mas, como alguns dos fios estavam soltos e caiam parcialmente sobre o texto, não conseguia ler o que lá estava escrito. Além disso, o vidro estava muito sujo por dentro, o que não ajudava nada à leitura. Não me atrevi a retirar o vidro com medo de danificar a peça e esperei pela vinda do Manel, que se esquece logo de todos os cansaços e maleitas deste mundo, quando tem um destes trabalhos de minúcia pela frente. De facto, quando o Manel foi a minha casa conseguiu com muito jeito tirar o vidro, depois limpou o medalhão de cera e pôs no lugar os fios soltos no pedacinho de tecido. 
Vestimenta de N. SS. mo Pe S. D.os

Depois destes trabalhos feitos, confirmei que o pequeno registo em pano, tinha bordadas umas palavras, que formavam a frase Vestimenta de N. SS. mo Pe S. D.os. Desenvolvendo estas abreviaturas todas, que são tradicionais em Portugal, o texto seria qualquer coisa como Vestimenta de Nosso Santissimo Padre S. Domingos. Porém, o título Santíssimo Padre é uma expressão reservada ao Papa e portanto o desenvolvimento da última abreviatura deveria ser antes S. Dâmaso, um santo natural do território que é hoje Portugal e que ocupou o trono de S. Pedro entre 366 e 384 e que foi sepultado em Roma, numa igreja que tem o seu nome. 

Portanto, o registo continha uma relíquia, um pedacinho de uma veste de S. Dâmaso.
No topo, uns fragmentos de madeira, certamente uma relíquia do Santo Lenho

Nestes trabalhos de limpeza, o Manel e eu reparámos também nuns fragmentos de madeira, formando uma cruz e pelo contexto percebemos que se tratava também de outra relíquia, certamente um pedacinho do Santo Lenho, isto da cruz onde foi martirizado Jesus Cristo.

Também resultante da limpeza, consegui ler algumas inscrições do medalhão de cera, nomeadamente o nome do Sumo Pontífice, que abençoou a medalha, o Papa Bento XIV, cujo pontificado decorreu entre 1745 e 1758. Portanto, esta medalha de cera feita com os restos das velas das igrejas romanas, benzida pelo Papa e à qual se atribuíam poderes de protecção especiais contra doenças, tempestades e outras desgraças foi executada entre 1745 e 1758.
Medalha de cera benzida pelo Papa Bento XIV entre 1745 e 1758

Conclui assim que este meu objecto dourado é na verdade um relicário, mandado fazer por alguém, para colocar as suas 3 relíquias mais preciosas, um santo lenho, uma medalha com o Agnus Dei benzida pelo Papa e os restos de uma veste de S. Dâmaso. Esta tipologia de relicário é comum em Portugal ao longo dos séculos XVII e XVIII e designa-se por relicário Ostensório, pois a sua forma reproduz a de uma custódia. Encontrei vários exemplares no matriz.net, pertencentes a vários museus portugueses.

Relicário Ostensório de Sta. Francisca Romana do Museu de Grão Vasco
O meu Ostensório relicário será talvez uma coisa do século XVIII ou mesmo XIX. Claro, a autenticidade das relíquias, nem as vou discutir. Duvido muito que um tecido do século IV chegasse aos nossos dias e quanto às lascas de madeira terem pertencido ao Santo Lenho, só me recordo do célebre comentário de Erasmo de Roterdão, que afirmava que todos os verdadeiros pedaços da Santa Cruz existentes na Europa dariam para construir um navio. 

Mas a crença nas relíquias e nos seus poderes era muito forte e muito enraizada na mentalidade dos católicos. Começou logo nos primeiros tempos do Cristianismo, quando as pessoas queriam ser sepultadas ao lado dos mártires das perseguições religiosas do Séc. III, pois acreditavam que estes seriam os primeiros a levantar-se no momento da Ressureição e por conseguinte, por um fenómeno de proximidade, aproveitariam a boleia dos santos mártires até ao paraíso. Este fenómeno em que se acredita que os poderes dos santos estão ainda presentes nos seus restos (reliquiae, quer dizer em latim restos) vai crescendo com tanta intensidade, que se começam a levantar igrejas em cima das sepulturas dos santos e os seus despojos mortais são enterrados sob o altar. Mais os restos dos mártires começam a ser retalhados e a serem cedidos para fundarem outras igrejas sob a invocação desses mesmos santos. Por exemplo, o nosso Rei D. Manuel, quando fundou a igreja de S. Roque em Lisboa pediu uma relíquia do referido Santo à Senhoria de Veneza, em Itália. Era a relíquia que dava força e santidade a uma igreja. De tal forma, que por vezes na memória popular, se confundiu a transladação de uma relíquia, com a própria presença do santo num território, onde este nunca havia postos os pés na sua vida terrena.

Altar das Relíquias do Museu de S. Roque
Este gosto pelas relíquias foi sempre crescendo de intensidade por toda a Europa. Pedacinhos de tecido, dentes, unhas, tíbias, fragmentos de crânio, uma sandália ou um fio de cabelo são venerados, cobiçados e guardados em caixas feitas em ouro, prata e tartaruga e decorados com pedras preciosas. Filipe II de Espanha constitui no Escorial uma das maiores colecções de sempre desses estranhos objectos, cujo número total chegaria às 7 mil unidades. Em Portugal, a igreja de S. Roque em Lisboa guarda também uma colecção absolutamente preciosa de relicários, que toda a gente deve visitar, mesmo que não se tenha fé de qualquer espécie, pois são verdadeiras obras de arte de ourivesaria, talha e escultura.

Hoje, todo este hábito de guardar e venerar, unhas, cabelos, falanges e dentes de autenticidade duvidosa parece-nos ridículo e macabro. Mas estas sociedades que veneraram as relíquias eram afectadas por taxas de mortalidade infantis altíssimas, epidemias terríveis e guerras constantes. Esses homens morriam de uma simples gripe e o parto para muitíssimas mulheres era uma fatalidade inevitável. A relíquia correspondia a uma necessidade desses seres humanos de acreditarem, que podiam dominar de alguma forma um destino demasiado incerto e uma realidade ameaçadora.


E afinal quem os pode levar a mal por venerarem um fragmento da túnica de S. Dâmaso, se hoje há quem pague preços astronómicos por uns óculos que pertenceram ao Elvis Presley ou se extasie perante um brinco, que a Madonna perdeu num espectáculo. Talvez muitos de nós ainda acreditemos, que o espírito das pessoas se passe para os objectos e talvez seja também por essa razão que sou um coleccionador de velharias e memórias.

Alguma Bibliografia:

Esplendor e devoção : os relicários de S. Roque. Lisboa: Santa Casa da Misericórdia, [1998]

Relíquias e relicários / Leonor D'Orey, Nuno Vassallo e Silva. Lisboa: MNAA, 1996

Quinta-feira, 2 de Maio de 2013

Une starlette


Não é uma jarra nem muito antiga nem muito boa É uma coisa simples, decorada com umas faixas azuis no meio e nas extremidades. Será talvez uma peça dos finais do XIX ou até princípios do XX, destinada a enfeitar o altar dalguma capela de província ou o oratório de uma casa particular nem muito rica nem muito pobre.

A faiança malegueira no MNAA
No entanto tem um formato em balaústre, que foi usado pelos oleiros durante centenas de anos e uma simplicidade, que a aproxima da faiança malegueira, essa loiça despretensiosa fabricada para uso dos conventos e outras casas religiosas desde o século XVI até ao século XIX. O Museu Nacional de Arte Antiga possui uma belíssima colecção dessa faiança branca. Aliás, na minha opinião pessoal, a vitrina da loiça malegueira é a exposição mais dramática e mais bem conseguida de toda a secção de cerâmica do Museu. Sempre que lá vou não deixo de me extasiar com esta loiça, cujo nome deriva da cidade espanhola de Málaga, pois os primeiros oleiros a fabricar faiança em Portugal eram oriundos daquela cidade da Andaluzia.

 Mas esta minha jarra comprada baratinha na Feira de Estremoz não tem o valor da louça malegueira e nem sequer uma marca que a possa dignificar, como Miragaia, Massarelos ou o Rato. Esta jarrinha é como aquelas medíocres aspirantes a actrizes do Festival de Cannes, que os franceses designam por Starlettes. Contudo, como todas as Starlettes é fotogénica e fica lindamente perante as câmaras, sobretudo se tiver azulejos ou talha dourada como cenário.

Sexta-feira, 26 de Abril de 2013

The Monument por Thomas Hosmer Shepherd (1792-1864)


Há pouco tempo comprei esta estampa aguarelada com uma vista de um monumento, em Londres, que me encantou pelo seu coloridos e pequenas dimensões. A mancha de texto não ultrapassa os 13,3 por 8, 5 cm.

Decidi saber qualquer coisa sobre esta estampa e comecei a fazer as minhas pesquisas no Google pelo nome do desenhador, um tal T. H. Shepherd e descobri que este senhor, de nome completo, Thomas Hosmer Shepherd, foi um aguarelista conceituado no seu tempo, que se celebrizou por registar no papel vistas de Londres, caracterizadas pela atenção dada aos pormenores, como carruagens a circular e pessoas a caminhar.
Uma grande atenção dada aos pormenores

T. H. Shepherd foi sobretudo um ilustrador de livros e as obras em que colaborou mais conhecidas foram Metropolitan improvements: London in the nineteenth century. -London: Jones & Co. 1827 e London and its Environs in the Nineteenth Century.-London: Jones & Co. 1831. Estes livros encontram-se integralmente digitalizados e as estampas de Thomas Hosmer Shepherd, que registam com minúcia a arquitectura de Londres, são uma delícia para os nossos olhos e um documento precioso para a história da cidade, que tanto perdeu com as destruições da Segunda Guerra Mundial.

 
London and its Environs in the Nineteenth Century.-London: Jones & Co. 1831
Pensei logo de início que esta minha gravura teria feito parte de uma ou outra dessas duas edições e desfolhei-as página a página, mas apesar da minha paciência não encontrei nada, muito embora o estilo das estampas fosse absolutamente idêntico ao meu. 
London and its Environs in the Nineteenth Century.-London: Jones & Co. 1831

Depois lembrei-me de pesquisar pelo editor, Dugdales England and Wales e lá consegui finalmente descobrir que esta minha estampa fez parte da obra Curiosities of Great Britain. England & Wales delineated Historical, Entertaining & Commercial /by Thomas Dugdale, Antiquarian, assisted by William Burnett, publicada em vários volumes, ao longo de 1833-40. Esta obra era uma espécie de livro de viagens e a minha estampa foi de lá rasgada um belo dia para fazer um quadrinho a pendurar na parede.

Fiquei assim muito contente por identificar o autor do desenho da gravura e o livro no qual saiu, mas depois lembrei-me que não sabia nada sobre que monumento representava. Pareceu-me que reproduzia a Coluna de Nelson, a homenagem prestada pelo do povo inglês ao herói de Trafalgar. Contudo, a coluna de Nelson, só foi inaugurada em 1843, data posterior à publicação da Curiosities of Great Britain. England & Wales. Portanto havia qualquer coisa que estava a falhar nestas investigações. Fiz mais umas pesquisas no google e percebi que The Monument , para os Londrinos é de facto uma grande coluna, mas não é exactamente a de Nelson. The Monument, ou seja o Monumento foi erguido entre 1671 e 1677 e homenageia as vítimas do pavoroso incêndio que devastou Londres em 1666.
O Monumento homenageia as vítimas do pavoroso incêndio que devastou Londres em 1666.
Passei assim a tarde de hoje nestas investigações. Quando acabei, percebi que já não tinha tempo para aspirar a casa, conforme tinha pensado fazer no dia de hoje.

Domingo, 21 de Abril de 2013

Faiança: distinguir Fervença e Bandeira, a eterna confusão


Recentemente comprei uma caneca atribuída a Fervença, que está a fazer as minhas delícias pelo seu colorido muito popular e ao mesmo tempo a desencadear novamente uma grande confusão na minha cabeça entre o que é Fervença e o que é Bandeira. 

Esta minha nova caneca tem uma particularidade, é enorme, mede cerca de 15 cm de altura e à volta de 10 cm de diâmetro. O Manel e eu fizemos uma experiência com um medidor, enchemo-la de água e ela comporta um litro e ainda mais qualquer coisinha.


Fiquei intrigado com as dimensões desta caneca cilíndrica. Quem beberia tanto vinho ou tanto café com leite? 

Bem sei que antigamente, as pessoas não tinham esta preocupação contemporânea em serem magras, mas em todo caso, beber um litro inteiro de vinho é um exagero!

Presumi também que a caneca não fosse destinada a beber cerveja, pois o hábito de consumir esta bebida só se generalizou em Portugal no século XX, embora é certo que as primeiras fábricas tivessem aparecido na centúria de oitocentos, quando esta peça saiu do forno.

Estive depois a ler o glossário de termos técnicos do Itinerário da Faiança do Porto e Gaia. – Lisboa: IPM, 2001 e descobri que estas canecas cilíndricas de grandes dimensões eram vulgares na época e destinavam-se efectivamente a beber vinho, mas eram passadas de mão em mão, bebendo várias pessoas pelo mesmo recipiente, e por isso eram tão grandes. A caneca é pois testemunho de um costume ainda comum no século XIX, em que toda uma família comia de um único prato de grandes dimensões, usando o garfo ou uma faca para picar e beberia também por única caneca. Pratos ou copos individuais só existiriam nas famílias mais abastadas ou à mesa da fidalguia.

A caneca pertenceu à colecção António Capucho, que para quem não saiba foi um dos grandes coleccionadores de faiança em Portugal e um grande conhecedor de cerâmica. Nos mercados das velharias, ainda se conta que o Senhor identificava a origem das peças pelo peso e pelo toque, tal era sua experiência em lidar com a faiança. A caneca foi atribuída a Fervença pelo próprio António Capucho, conforme se pode comprovar pela etiqueta manuscrita na base, e como tenho o maior respeito pela experiência deste coleccionador, tomarei por ponto assente que é Fervença. Até porque de facto, a caneca apresenta as características atribuídas a Fervença por Artur Sandão, na obra a Faiança portuguesa: séculos XVIII-XIX. Porto: Civilização, 1985, isto é, forte policromia e delicada espessura.
 


A policromia assemelha-se efectivamente a outros pratos Fervença, como aquele mostrado nos Meninos gordos: faiança portuguesa/ Isabel Maria Fernandes. – Porto Civilização, 2005, página 37, em que as flores são feitas com uma máscara e depois pintadas à mão com pinceladas rápidas. Mas também é verdade, que é um Prato Fervença, que se poderia confundir com Bandeira…
 
 
Quanto à delicada espessura, a caneca tem efectivamente paredes finas, tal como uma terrina, com a qual iniciei este post há mais de 3 anos e que me continua a desconcertar, pois sempre que olho para ela mudo de opinião. Umas semanas julgo que é Bandeira, outra convenço-me que é Fervença.
 
 

Objectivamente, o mais próximo que encontrei desta peça foi uma Terrina do Museu Nacional de Soares dos Reis, com uma decoração muito colorida e está identificada como fabrico de Bandeira.
 
Terrina do Museu Nacional de Soares dos Reis
Mas este formato de terrina foi usado por muitas fábricas portuguesas entre finais do XVIII e a primeira metade do XIX. Ainda recentemente descobri uma destas sopeiras com um formato igualzinho à minha, atribuída à Fábrica de Domingos Vandelli, do século XVIII, no catálogo Cerâmica de Coimbra na colecção Pereira de Sampaio. – Coimbra: Câmara Municipal, 2011 e no matriz.net também encontrei mais umas quantas iguais, manufacturadas em várias partes do País.
 
Terrina de fabrico de Coimbra por Vandelli
 
Aliás, já aqui no blog referi que a mesma forma era usada em várias fábricas portuguesas, o que se explica pelo facto de que a Fábrica do Rato em Lisboa ter servido de escola a jovens de todo o País e que quando terminavam a sua aprendizagem, voltavam paras suas terras não só com as técnicas, mas com os próprios moldes das peças.

Enfim, escrevi todo este texto para vos dizer que não tenho certezas absolutas sobre esta caneca e terrina, mas julgo, que pelo menos terão sido fabricadas muito perto uma da outra, na margem esquerda do Douro, talvez em meados do século XIX.
 
 

Domingo, 14 de Abril de 2013

Santo António de Lisboa por Debrie

D. Antonius Lisbonensis, domus mea, domus orationis
Nunca tive um grande interesse na figura de S. António de Lisboa, nem na sua iconografia. Talvez por excentricidade sempre me atraíram mais aqueles santos que caíram completamente no esquecimento como S. Facundo ou Santa Brígida ou então aqueles com uma conotação sexual mais ou menos evidente como S. Sebastião ou Maria Madalena a arrependida.


Mas quando vi esta estampa de S. António do século XVIII, com um desenho muito requintado encantei-me logo por ela. Achei uma delícia o dossel que cobre a figura do santo. Recordou-me imediatamente uma daquelas camas que estiveram muito em voga no último quartel do Século XVIII, o lit à la polonaise. Vemos um exemplar de um desses leitos no quadro Premier pas de convalescence, de António Pascutti, que embora tenha sido pintado em 1875, reproduz um interior em estilo Luís XVI (1774-1791), quando essas camas, guarnecidas por cortinas em tecidos luxuosos estavam na moda. Era o tempo em que as grandes figuras da aristocracia recebiam visitas formais no quarto e as camas eram pequenos compartimentos reservados.

O Premier pas de convalescence, de António Pascutti representa um interior em estilo Luis XVI, onde se vê um lit à la polonaise. Imagem de http://www.photo.rmn.fr
Quanto a esta estampa do Sto. António, encontrei-a referenciada, no Dicionário Iconográfico português / Ernesto Soares e Henrique de Campos Ferreira Lima. Lisboa: Instituto de Alta Cultura, 1950, que a descreve de forma precisa: S. António debaixo de um dossel de corpo inteiro, de frente, segurando com a direita uma cruz e um lírio e com a esquerda um livro, onde está sentado nu um menino com a coroa Real. A estampa descrita apresenta a mesma legenda que a minha e está assinada por Debrie, ou melhor Guilherme Francisco Lourenço Debrie, o gravador francês ou flamengo trazido para Portugal por D. João V e datada de 1745. 


Porém a minha estampa é mais tardia que 1745. Com efeito, o Dicionário Iconográfico português refere que esta estampa voltou a ser usada com o mesmo delineamento em 1761 no frontispício da obra Cultos de devoção e obsequios, que se dedicão ao Thaumaturgo Portuguez.
A minha estampa foi retirada da obra Cultos de devoção e obsequios, que se dedicão ao Thaumaturgo Portuguez., editada em 1787
Mais tarde, em 1787 esta obra foi reimpressa por Simão Tadeu Ferreira e é desta edição que a minha estampa foi retirada.

Sábado, 6 de Abril de 2013

Colocação de mais azulejos pombalinos


Esta Páscoa o Manel e eu andámos outra vez a colocar mais azulejos na sua casa do Alentejo. O método foi o mesmo. Retirámos os móveis, quadros e pratos e estendemos um plástico no chão.

Depois foi necessário calcular o espaço certo que os azulejos ocupariam, para abrir o roço, o que não significou simplesmente multiplicar a dimensão típica de um azulejo, 14 cm, pelo nº de unidades a colocar. Na verdade, os azulejos não eram exactamente iguais. Os marmoreados eram quase todos do século XIX e apresentavam dimensões mais pequenas que os restantes. Por outro lado, os azulejos com um motivo rocaille estavam muitas vezes partidos nos cantos e outras vezes empenados. No fundo estamos a falar em azulejos ainda muito artesanais, todos ligeiramente diferentes e precisamente para não haver desfasamentos no final, o Manel montou o painel previamente no chão, numerou-o a marcador e foi tomando às medidas na parede três a três.


Depois, calçámos as luvas e armados com um martelo e um escopro, começámos a partir furiosamente a parede, até chegarmos ao tijolo. Seguiu-se a feitura da massa e a colocação dos painéis. À medida que a massa ia secando, um de nós ia limpando com uma esponjinha os azulejos.

Quando acabámos já eram nove e tal da noite. Jantámos tarde e a más horas, mas no dia seguinte, quando se conseguiu arrumar tudo, o resultado obtido era verdadeiramente espectacular. A boa azulejaria portuguesa passou a ser um cenário de época perfeitamente adequado para a mesa bufete e as cadeiras D. José. A comparação das duas fotografias do antes demonstra aliás como os azulejos modificam e alteram a percepção que temos do espaço arquitectónico, mesmo que a superfície em causa não ultrapasse a meia dúzia de metros.