sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Um distinto casal de Vilela Seca e a herança do 3º conde de Basto: fotografias de um velho álbum familiar



Após muitas e pacientes pesquisas consegui situar no tempo e no espaço mais duas personagens do velho álbum de fotografias carte-de-visite, formado pelo meu trisavô, o Francisco Firmino Fernandes Alvares de Moura e a Ricardina Leite de Barros. É certo, que o meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio identificou os nomes destes senhores no álbum com a sua caligrafia miudinha, mas não sabia nada deles. Fui fazendo umas pesquisas no Google e encontrei uma publicação on-line Tentativa de dedução genealógica da família Caldas da autoria Diogo Paiva e Pona, onde se refere estes dois senhores e percebi que eram casados e viviam em Vilela Seca, uma aldeia vizinha de Outeiro Seco, onde residia a minha família, os Montalvões.



Fiz entretanto mais pesquisas pelos seus nomes na base de dados do Arquivo Distrital de Vila Real e localizei dois documentos de inventário obrigatório, um de 1882, referente a Francisco Firmino Fernandes Alvares de Moura e outro de 1884, relativo a à Sra. Dona Ricardina Leite de Barros. Os inventários obrigatórios eram realizados quando as pessoas faleciam sem deixar testamento e normalmente eram feitos logo a seguir à sua morte. Portanto, a partir dessas datas lancei-me à consulta dos registos de óbitos da Paróquia de Vilela Seca e a partir daí foi como puxar o fio de um novelo, em que foram surgindo histórias e mais histórias sobre estas personalidades.


A casa dos Morgados das Gralhas, Montalegre

Francisco Firmino Fernandes Alvares de Moura morreu em Vilela Seca em 22.12.1881, com 40 anos, segundo indicou o pároco e era natural de Montalegre, de Santa Maria das Gralhas, um nome tão poético, que parece ser o título de um conto de Miguel Torga. Era filho de Domingos Fernandes Moura e de Rosa Álvares Martins, mas não consegui apurar a data de nascimento, pois os registos de baptismos da primeira metade do século XIX dessa localidade desapareceram, mas presumo que tivesse sido à volta do ano de 1841. O seu pai seria o morgado de Gralhas e um dos seus irmãos foi o padre João Álvares Fernandes de Moura (1848-1920), que fundou um seminário na antiga casa senhorial da sua família. O Padre João Álvares Fernandes de Moura era dois anos mais novo que o meu trisavô e é possível que se tenham cruzado no Seminário de Braga.

Quanto à Sra. D. Ricardina Leite de Barros (1845-1884) era natural da freguesia de Santa Senhorinha de Cabeceiras de Basto e descendia de uma belíssima família e muito rica. Era filha de Manuel Filipe Martins Leite de Barros (18.09.1800- 28.07.1870), um senhor que foi Cavaleiro da Ordem de Cristo, Presidente da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto e senhor da Casa da Breia e neta da Sra. D. Maria Josefa Martins Leite de Barros, que na década de 30 do século XIX, foi uma das protagonistas de uma tremenda batalha legal pela disputa da herança do 3º conde de Basto.
Manuel Filipe Martins Leite de Barros, pai da Sra. D. Ricardina, Foto https://geneall.net

Ainda que de uma forma muito sumária, não resisto aqui a contar a história da disputa pela herança do 3º Conde de Basto, relatada por Joaquim Fernandes Figueira, num artigo da revista Prisma de N.º 1, Abril 1941 “O Conde de Basto : epitáfio que se desfaz.

O referido Conde tinha por nome de baptismo, José António de Oliveira Leite de Barros (1749-1833) e foi umas principais figuras do regime miguelista. Foi feito Conde por D. Miguel, chegando mesmo a chefiar o governo daquele monarca absolutista e notabilizou-te tristemente pela forma cruel e violenta como perseguiu os liberais. Era de tal maneira detestado, que depois da sua morte e da vitória dos liberais o seu corpo foi retirado do túmulo, arrastado pelas ruas de Coimbra e dilacerado.



Apesar de ter sido feito conde por D. Miguel, José António de Oliveira Leite de Barros era filho bastardo e para conseguir assenhorar-se da fortuna do pai, casou com a sua prima direita a Sra. D. Leonor Angélica Leite de Barros, filha de um irmão do seu pai e que era uma descendente legítima dos Leite de Barros. Apesar de ter passado a juventude encarcerada num convento, esta D. Leonor Angélica devia ser rapariga fogosa, pois ainda nesse tempo de clausura arranjou uma filha bastarda, a Maria Josefa, que veio a ser avó da nossa Dona Ricardina. Porém, o 3º Conde de Bastos aceitou muito bem a filha da sua mulher e a menina foi criada com o casal. Do casamento da Leonor Angélica e José António de Oliveira Leite de Barros, só resultou um filho que era retardado. Após a morte de Leonor Angélica, o conde voltou a casar com uma viúva rica e de boa fidalguia, Catarina Lusitana Correia de Morais Leite Almeida, filha do Visconde da Azenha, mas que não lhe deu descendentes, apesar de a senhora ter tido filhos do anterior casamento.


Quando o 3º conde de Basto, morreu, deixou um testamento complicado, a segunda mulher ficava tutora do seu filho, mas à morte deste, a fortuna familiar passava para as mãos de D. Eufrásia e de seu filho. Esta D. Eufrásia era uma filha ilegítima do irmão da D. Leonor Angélica, o André António. Começou então uma tremenda disputa legal entre a Dona Josefa, a D. Eufrásia e a viúva, a Dona Catarina Lusitana, que se arrastou durante anos pelos tribunais. Quem acabou por ganhar a causa foi a Dona Josefa e o seu filho, Manuel Filipe Leite de Barros, o pai da D. Ricardina, que lhe coube o Senhorio da Casa da Breia. Para evitar futuras complicações a que ainda poderia dar lugar o testamento do conde, Manuel Filipe, casou com Benedita Rosa Leite de Barros, a filha da tão “decantada” D. Eufrásia.
Os Montalvões não perderiam a ocasião de convidar uma ilustre descendente dos condes de Basto para os seus salões



A fotografia de D. Ricardina foi executada por Ferreira de Melo, no Porto

Em suma, este casal Firmino Fernandes Alvares de Moura e a Ricardina Leite de Barros eram gente da mesma condição social dos Montalvões, que viviam numa aldeia vizinha e era natural que se visitassem e trocassem as carte-de-visite. Os Montalvões não perderiam a ocasião de convidar uma ilustre descendente dos condes de Basto para os seus salões e até imagino a Sra. D. Ricardina sentada muito direita e distinta num canapé D. Maria, que herdei dessa casa. Certamente que conheceriam o Padre Rodrigues Liberal Sampaio, pároco em Outeiro Seco e deslocar-se-iam frequentemente aquela aldeia ouvir missa, pois a fama de pregador do meu trisavô era grande quer na região, quer no País inteiro (em 1873 tinha sido nomeado pregador régio pelo Rei D. Luís). Liberal Sampaio conheceria provavelmente o irmão de Francisco Firmino, o Padre João Álvares Fernandes de Moura, dos tempos do seminário em Braga. Mais, este casal entregou a educação do filho, Filipe Barros de Moura, aos cuidados de José Rodrigues Liberal Sampaio, numa escola que fundou em Outeiro Seco, onde se ministrava uma primeira educação aos jovens.



A Nova Fotografia Nacional, na Rua do Bomjardim, 362 no Porto fez o retrato de Firmino Fernandes Alvares de Moura, 
No final de todas estas pesquisas a Sra. Dona Ricardina Leite de Barros e o seu marido, Firmino Fernandes Alvares de Moura, que morreram há quase 140 anos tornaram-se como que um casal, que se cumprimenta na rua e conhecemos vagamente a história e de que em pequenos ouvimos falar de uns escândalos familiares antigos.


Fontes consultadas:


Livros de óbito da paróquia de Vilela Seca, Concelho de Chaves, Arquivo Distrital de Vila Real


Livros de Baptismo da paróquia de Santa Senhorinha de Cabeceiras de Basto, Arquivo Distrital de Braga


Figueira, Joaquim Fernandes - “O Conde de Basto : epitáfio que se desfaz
in  Prisma de N.º 1, Abril 1941.


Tentativa de dedução genealógica da família Caldas / Diogo Paiva e Pona


Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses/  coordenado por Barroso da Fonte



sábado, 8 de dezembro de 2018

Travessa de Estremoz e terrina de fabrico desconhecido

Não há muito tempo, o meu amigo Manel comprou este belo conjunto de terrina e travessa na feira de Estremoz. São faianças decoradas à moda da faiança de Ruão, muito típicas de toda a produção portuguesa dos últimos trinta e cinco anos do século XVIII. Creio eu que quase todas as fábricas portuguesas de Estremoz a Viana do Castelo executaram louças com esta decoração e por essa razão, se as peças não estão marcadas, o que acontece quase sempre, é um sarilho identificar-lhes o fabricante.


Contudo a travessa deste conjunto apresenta uma marca no tardoz. No início, o Manel pensou tratar-se de uma marca da fábrica do Cavaquinho de Vila Nova de Gaia, pois é de facto parecida, com a que aparece reproduzida como o nº 121 no Dicionário de marcas de faiança/ Filomena Simas, Sónia Isidro.
CX. Marca da travessa de faiança do meu amigo Manel
Contudo, algum tempo mais tarde, tive o prazer de conhecer pessoalmente Isabel Maria Fernandes, autora do livro sobre os Meninos Gordos e que tem colaborado com textos seus em catálogos, como A fábrica de Vilar de Mouros, ou A colecção de faiança do Museu de Arte Decorativas de Viana do Castelo e claro, acabámos os dois a ter uma longa cavaqueira sobre faiança e esta especialista em cerâmica alertou-me para o facto de ser saído um artigo muito inovador de Hugo Alexandre Guerreiro, sobre a faiança de Estremoz. Neste texto, publicado no nº 4 da revista de Olaria o autor relaciona uma marca da Fábrica, CX, com um mestre daquela fábrica, Sebastião Lopes Gavixo.

Travessa de Faiança de Estremoz, 1774-1775. Marcada com as iniciais CX. Col. Joaquim Torrinha. Foto reproduzida de Apontamentos sobre a faiança de Estremoz / Hugo Alexandre Guerreiro 

Lembrei-me da marca da travessa do Manel e logo que pude, corri a consultar o artigo da revista de Olaria e com efeito a marca da travessa do Manel é igualzinha, aquela reproduzida na revista, bem como a própria travessa, onde está a dita marca, é em tudo idêntica à do Manel.

O texto de Hugo Alexandre Guerreiro é muito interessante e dá-nos conta de três mestres que trabalharam na fábrica de Estremoz, cruzando as informações obtidas nos livros de passaportes, com outras investigações já feitas por Alexandre Nobre Pais e João Pedro Monteiro, publicadas no nº 5 e 6 (1997-98) da revista Callipole, com o título A Faiança de Estremoz: um contributo para a história do seu fabrico.

O primeiro é Sebastião Lopes Gavixo, mencionado no processo de licenciamento da Fábrica de Miragaia como um mestre que aprendeu a sua arte na Fábrica do Rato, com Tomás Burneto, trabalhou na Fábrica de Massarelos e depois e na Fábrica de Estremoz.



Hugo Alexandre Guerreiro cruza estes dados com os registos de passaporte da Câmara de Estremoz, pois nas sociedades do antigo regime não havia livre circulação de pessoas e bens dentro do País e consegue surpreender os movimentos deste Sebastião Lopes Gavixo, bem como de outros dois mestres, Luís Freme de Rosa e Joaquim Freme de Rosa. A partir dos dados dos passaportes, o autor consegue perceber que os dois últimos senhores, que já se dedicavam à olaria, se deslocaram ao Porto, para aprender a técnica da faiança em Massarelos, onde terão conhecido Sebastião Lopes Gavixo. Certamente o terão convidado para nova fábrica de louça fina que estava a arrancar em Estremoz e doravante os três exercerão a sua actividade como mestres, na fábrica daquela cidade.


Ainda através dos registos de passaporte da Câmara de Estremoz, o autor identifica a área geográfica onde a Fábrica de Estremoz consegue vender os seus produtos, isto é, as feiras do Alentejo, de Setúbal, de Lisboa e ainda das povoações ribatejanas. Por último, estabelece novas datas de laboração da Fábrica de Estremoz, 1774-1806.

Em suma, a travessa do Manel foi fabricada em Estremoz, marcada com as iniciais do mestre Sebastião Lopes Gavixo, cuja actividade decorreu nesta cidade entre 1774-1775.



O problema é a identificação da terrina, que não está marcada. Embora a decoração seja muito semelhante a travessa, não é exactamente igual. A pasta também é mais branca, que a travessa, mas essa diferença, pode-se dever ao facto que nos fornos onde eram cozidas as peças a temperatura não era uniforme em baixo ou em cima e nem de fornada para fornada, conforme já explicou o ceramista Jorge Saraiva no blog da Maria Isabel. No catálogo A colecção de faiança do Museu de Arte Decorativas de Viana do Castelo está reproduzida uma terrina com um formato semelhante, mas a decoração embora seja parecida não é igual. Enfim, é muito complicado saber se a terrina também é de Estremoz ou de uma outra fábrica qualquer, que tivesse laborado na mesma época, até porque como vimos ao longo deste texto, os mestres circulavam de fábrica para fábrica, de Lisboa para Gaia, de Gaia para Estremoz e novamente para Gaia e por consequência, todas as peças com esta decoração ruanesca apresentam o mesmo ar de família.


Bibliografia consultada:

Apontamentos sobre a faiança de Estremoz / Hugo Alexandre Guerreiro
in
Olaria. - Barcelos: Câmara Municipal de Barcelos, nº 4 (2008-2010), p. 68-117

Dicionário de marcas de faiança/ Filomena Simas, Sónia Isidro. – Lisboa: Estar Editora, 1996

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Um general, uma pianista e uma senhora vestida de amarelo com uma rosa vermelha ao peito: viagem por um velho álbum de fotografias

 
Como é já do conhecimento dos pacientes leitores deste blog recebi de uma prima dois álbuns de fotografias carte-de-visite da família Montalvão e o trabalho de identificação dos vários retratos tem sido uma viagem no labirinto das genealogias familiares e da rede de amizades, cultivada pelo meus antepassados no último quartel do século XIX.

No meio de muitas imagens de damas vestidas com metros e metros de seda, de condiscípulos do meu trisavô do curso de teologia, com aquele ar seráfico tão característico de muitos homens da Igreja ou de jovens elegantes de bigode retorcido, finalistas do curso de Direito, em 1901-1902 e colegas do meu bisavô, houve uma fotografia que se destacou desde logo, a de um jovem militar, cheio de garbo.

Embora a fotografia não tivesse nenhuma legenda, como era o único militar de toda esta galeria de retratos, suspeitei de imediato que tratava do irmão da minha trisavó, António Vicente Ferreira Montalvão, que fez uma carreira brilhante no exército, chegando mesmo a Comandante do que é hoje a Academia Militar.
Foto tirada no estúdio de H. Tisseron, photographie parisienne, R. do Loreto 61 e Rua das Chagas 42, Lisboa
A fotografia foi tirada por um tal H. Tisseron, fotógrafo parisiense, radicado em Lisboa desde 1858 e o uniforme lembrou-me de imediato à indumentária militar francesa do tempo de Napoleão III. Presumi por isso que fosse uma fotografia da década de 60 do século XIX.

Mostrei a fotografia ao meu irmão, oficial reformado do exército e antigo aluno da Academia Militar, bem como ao Coronel Francisco Amado Rodrigues e foram os dois de opinião, que o jovem envergava um uniforme da Escola do Exército, muito provavelmente com a patente de Alferes. Ora o meu pai, que estudou a biografia deste antepassado nos arquivos do exército, refere que em 24-10-1864, António Vicente Ferreira Montalvão foi promovido a alferes-aluno e consequentemente esta fotografia terá sido tirada pouco depois dessa data. Teria nesta altura 23 anos ou 24 anos.

Contudo a dúvida subsistia e resolvi enviar à bisneta de António Vicente Ferreira Montalvão, a prima Fernanda Montalvão Hof, uma cópia digital desta imagem e a Senhora ficou muito surpreendida, pois nunca tinha visto esta fotografia, mas concluiu com toda a segurança, que se travava do seu bisavô, já que era igual ao pai em novo.

Portanto esta é a fotografia do General António Vicente Ferreira Montalvão (18-12-1840-19.9.1919), que foi muitos anos, professor na Escola do Exército e que Francisco Gonçalves Carneiro considerou ser o maior matemático do seu tempo em Portugal, conforme se poder no Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses.

Ao contrário da sua irmã, a minha trisavó, que se envolveu numa relação mais ou menos escandalosa com um padre e do outro irmão o Miguel, que rodeado de livros, morreu louco, segundo reza a obra 5 contos …em moeda corrente, em consequência de amores mal correspondidos com uma prima, o António Vicente Ferreira Montalvão casou muito bem, com uma senhora da boa sociedade lisboeta, Mariana das Mercês Bravo Borges (1858-1888) e juntos tiveram uma filha, Elina Bravo Borges de Ferreira Montalvão (1884-1912), da qual tenho também uma fotografia no segundo álbum, formado pelo meu bisavô.
 
Elina Bravo Borges de Ferreira Montalvão era filha do General António Vicente Ferreira Montalvão  . Foto de Vidal & Fonseca, na Calçada do Combro 29, Lisboa

Segundo a minha prima Fernanda Montalvão Hof, o General António Vicente Ferreira Montalvão ter-se-á afastado da irmã, a Maria do Espírito Santo, depois de esta se ter envolvido com o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio e só regressou a Chaves depois da morte da minha trisavó, em 1902. Contudo nesse mesmo ano, com uma dedicatória muito afectuosa, a jovem Elina oferece a sua fotografia, ao primo, o meu bisavô, que para todos os efeitos era o filho bastardo de um padre e de uma fidalga, o que talvez seja o indício de que o escândalo dessa relação amorosa não foi assim tão grande, já que a bastardia era um fenómeno comum no século XIX, conforme defendeu Maria Filomena Mónica na sua biografia sobre Eça de Queiroz, outro filho ilegítimo. Enfim, relações ilegítimas com bastardos à mistura não eram a situação mais recomendável na sociedade, na segunda metade do século XIX, mas também era nada do outro mundo. Se assim não fosse, o General António Vicente Ferreira Montalvão, nunca deixaria a sua filha prendada, com o curso superior de Piano, discípula de Viana da Mota e dama da corte trocar fotografias com um bastardozinho.
 
Verso da fotografia da jovem Elina, com dedicatória ao meu bisavô, "José, envio-te o meu retrato accedendo ao teu pedido e para te provar que te estimo como a um irmão. Tua prima Elina. 19-12-902"
Seja como for esta Elina, que nesta fotografia nos parece tão doce, talvez até demasiado suave para suportar as cruezas, que a vida sempre nos reserva, veio a casar com um primo afastado, o Dr. Leopoldo de Montalvão de Lima Barreto Pereira Coelho, médico e proprietário do chamado Solar dos Crespos em Vinhais. Morreu cedo, com cerca de 28 anos e deixou um filho, o pai da minha prima, Fernanda Montalvão Hof.
 
O chamado Solar dos Crespos, em Vinhais
O Dr. Leopoldo de Montalvão de Lima Barreto Pereira Coelho casou em segundas núpcias com Graziela Russel Cortez, uma senhora bonita e vistosa, de que a minha mãe e as minhas tias se lembravam muito bem de Vinhais. A partir das histórias que me contaram ao longo da minha infância e juventude, fui formando imagens da Sra. Dona Graziela, passeando-se pela única e comprida rua de Vinhais na companhia da criada, que lhe segurava a sombrinha, ou de quando se sentava no estabelecimento comercial do meu avô materno, para conversar e se distrair do aborrecimento de uma vila perdida nas serras do extremo Norte de Portugal. Tenho também ainda muito presente, a imagem daquele certo dia de 1937, em que a Sra. D. Graziela Russel Cortez se vestiu de amarelo com uma rosa vermelha ao peito, quando soube da morte do seu marido, vítima de uma congestão a bordo de um navio.

Bibliografia:

História da imagem fotográfica em Portugal 1839-1997 / António Sena. - 1ª ed. - Porto : Porto Editora, 1998

http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=565&id=3270&action=noticia

5 contos …em moeda corrente. . / Montalvão Machado - Porto: Livraria Progredior, 1961

Famílias transmontanas : descendência de Francisco de Moraes, Palmeirim : ligações familiares e outras famílias de Trás-os-Montes / Francisco Xavier de Moraes Sarmento- . Ponte de Lima : Carvalhos de Basto, 2001.

Os Montalvões / J. T. Montalvão Machado. - Famalicão: Tip. Minerva, 1948

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Identificando uma senhora desconhecida de uma fotografia com quase 150 anos

 
Os simpáticos seguidores deste blog já devem saber que recebi de uma prima dois álbuns de fotografias de família, o primeiro com instantâneos tirados mais ou menos entre 1860 e 1900, formado pelo meu trisavô, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935) e o segundo, constituído pelo meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão. Tenho andado sobretudo de volta do primeiro álbum. Se algumas das imagens estão identificadas ou tem dedicatórias e o trabalho de identificação das personagens é simples, outras são verdadeiros quebra-cabeças, como esta fotografia, acerca da qual vos escrevo hoje, de uma velha senhora, tirada mais ou menos por volta de 1870.
 
A legenda da fotografia, manuscrita no álbum pelo meu trisavô, indica que se trata de João Lopes Carneiro de Moura, um advogado, político e jornalista, muito conhecido nos meios flavienses, nascido em Montalegre em 1886, autor de várias obras publicadas e que chegou a deputado. Ora a fotografia foi obviamente trocada num tempo qualquer posterior ao meu trisavô. Alguém andou a tirar e a pôr fotografias no álbum e colocou a velha senhora no lugar de João Lopes Carneiro de Moura e a fotografia daquele ilustre transmontano será a de um dos cavalheiros desconhecidos, que constam do álbum.
 
 
 
Ao retirar a fotografia do álbum,  manuscrita com a letra, que me parece da minha trisavô, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, encontrei no verso a seguinte legenda: Faleceu a 11 de Setembro de 1875, pelas três da tarde pouco mais ou menos, tendo nascido a Dezembro de 1.
 
Mas quem seria esta senhora?
 
Certamente foi uma pessoa muito estimada, de outra forma não teria havido o cuidado de assinalar a data da sua morte e muito menos a hora. Pensei tratar-se da mãe da Maria do Espírito Santo (1856-1902), Maria Emília Morais Sarmento, mas essa morreu a 14 de Abril de 1874. Lembrei-me que podia ser a tua tia paterna, a Rita, com a qual mantinha uma relação muito estreita, segundo o meu pai ainda se lembra de ouvir contar. Mas segundo o livro Os Montalvões de J. T. Montalvão Machado, essa tia teria morrido nos anos 80 do século XIX.
 
Resolvi tirar o assunto a limpo e vasculhar os registos de óbito das freguesias de Santo Estêvão, não fosse tratar-se de uma parente do lado dos Morais Sarmento e ainda os da aldeia de Outeiro Seco, onde residia a família Montalvão. Contudo, ninguém dessas duas freguesias tinha morrido no dia 11 de Setembro de 1875, pelas três da tarde, que se pudesse relacionar com a família. Como os registos paroquiais se encontram todos digitalizados e disponíveis on-line nos arquivos distritais, lembrei-me de procurar em Chaves, já que quase toda esta gente, que consta deste álbum gira à volta desta cidade. Assim, abri o livro de registo de óbitos 1875, da paróquia de Santa Maria Maior de Chaves e encontrei o seguinte assento Aos onze dias do Mês de Setembro do ano de mil oitocentos e setenta e cinco ás tres horas da tarde, no largo da Senhora da Lapa d'ésta villa (...) faleceu(...) na casa de sua residência Isabel Rodrigues liberal d'edade de setenta e três anos. No mesmo assento, indica-se a que a falecida era filha de António Gonçalves Liberal e de Ana Gonçalves da Laje. Ora os dados coincidiam na perfeição com a legenda da fotografia e percebi que esta velha senhora só podia ser uma tia ou a mãe de Liberal Sampaio.
 
O assento da morte de Isabel Rodrigues Liberal
Corri então a comparar este registo com o assento de baptismo de Liberal Sampaio de 1846, da freguesia de Sarraquinhos, Concelho de Montalegre e lá pude ler que o meu trisavô era filho de António Rodriguez de Sampaio e de Isabel Rodrigues Liberal e neto materno de António Gonçalves Liberal e de Ana Gonçalves da Laje. Conclui sem sombra de dúvidas, que esta Senhora era a mãe de José Rodrigues Liberal Sampaio. Confesso que fiquei emocionado ao descobrir uma imagem de uma quarta avó, uma mulher que nasceu ainda antes das invasões francesas e que se lembraria ainda certamente da passagem dos exércitos napoleónicos, durante a segunda invasão, em 1809, que retiram de Portugal por Montalegre, a terra onde nasceu e cresceu.
 
 
O assento de nascimento de José Rodrigues Liberal Sampaio. Os dados coincidem na perfeição

Este assento de óbito também indica alguns dados novos, que embora pequenos, dão algumas pistas para perceber a história da família. Em primeiro lugar a Senhora saiu de Sarraquinhos, uma aldeia perdida no concelho de Montalegre e passou a residir em Chaves, que embora fosse ainda vila neste último quartel do século XIX, já era uma terra importante. Em segundo lugar, enviuvou e voltou a casar, o que me leva a pensar que talvez os liberais e os sampaios não fossem muito dados à abstinência sexual, já que o filho, que era Padre, manteve uma relação com uma senhora fidalga, da qual resultou um filho, de quem eu descendo.

A minha quarta avó vivia no Largo da Senhora da Lapa, em Chaves, que foi demolido pela DGEMN, na segunda metade do século XX, para permitir uma melhor leitura do forte abaluartado, ao qual o casario se enconstava. Foto http://www.monumentos.gov.pt , amavelmente enviada pelo meu amigo Humberto Ferreira do blog https://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt/
 
Sempre tive ideia que o meu trisavô era proveniente de uma família humilde e que através da carreira eclesiástica, do seu trabalho como advogado e homem de letras e ainda da relação com uma senhora de uma importante família flaviense, tivesse alcançado uma posição social destacada. No fundo, seria aquilo que hoje se designa, um self-made man. Contudo a foto da sua mãe e das roupas que enverga, mostra-nos que não é propriamente uma camponesa, endomingada para a fotografia. Claro, não veste as toilettes sofisticadas, cheias de folhos e froufrous da fidalga, que foi amante do filho, minha trisavô, mas também quando posou para esta fotografia, cerca de 1870, era uma já uma senhora, a que a idade obrigava a vestir-se de uma forma discreta. Em todo o caso, em 1870 tirar uma fotografia era apenas acessível aos mais desafogados.
 
Todos nós temos quatro avôs, 8 bisavôs, 16 trisavôs e 32 tetravôs e ao olhar para esta senhora sinto que uma trigésima segunda parte de meu ser foi herdado dela e que talvez alguns dos meus tiques, aspectos da personalidade, propensão para ter esta ou aquela doença ou a forma das mãos sejam ainda os mesmos de Isabel Rodrigues Liberal.
 
A minha tetravó, Isabel Rodrigues Liberal
Fontes consultadas:
 
 
- Livro de registo de baptismos 1819/1859, paróquia de Sarraquinhos, Montalegre Arquivo Distrital de Vila Real;
 
- Livro de registo de óbitos 1875, da paróquia de Santa Maria Maior de Chaves

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Copo para termas de Karlsbad



O Manel comprou recentemente este copo muito bonito para tomar água termal. O vidro apresenta-se gravado com uma tabela de medidas, indicando a quantidade de água a ingerir prescrita pelo médico, um veado numa floresta e ainda a letras góticas, a inscrição Karlsbad.

Embora fosse conhecida desde o final da Idade Média, Karlsbad foi uma das estâncias termais mais chiques da Europa entre o último quartel do século XIX e o início da Primeira Guerra Mundial. A aristocracia, os burgueses ricos e as cabeças coroadas da Europa frequentavam as suas termas e na mesma rua era possível cruzarem-se dois imperadores, tudo isto num cenário de edifícios opulentos, construídos numa arquitectura eclética, a que o modernista Le Corbusier designou depreciativamente como um “prato de bolos”. Pessoalmente prefiro a arquitectura de prato de bolos ao betão do Le Corbusier, mas gostos são gostos.
 
Postal antigo de Karlsbad, cidade de arquitectura eclética, que o modernista Le Corbusier designou depreciativamente como um “prato de bolos
Karlsbad, juntamente com estância termal vizinha de Marienbad, é dos símbolos da Belle époque, que a Guerra de 1914-18 pôs fim. Com efeito, depois desse grande conflito mundial, as cabeças coroadas caíram uma após a outra e o Grand Monde passou a ir a banhos para a Riviera francesa. Karlsbad tornou-se parte da Checoslováquia e entrou em declínio. Depois da segunda Guerra Mundial, o Estado checoslovaco procedeu à expulsão da população de língua alemã, que era maioritária na região e a cidade tomou o nome eslavo de Karlovy Vary. Este facto histórico é importante, pois a inscrição do copo encontra-se em alemão, Karlsbad, o que nos permite concluir que o seu fabrico seja anterior a 1945.

Mas para além das qualidades terapêuticas das suas águas e do público elegante que frequentava estas termas, Karlsbad notabilizou-se pelo fabrico do vidro e do cristal. Uma das mais célebres fábricas da Boémia, a Moser, situava-se nesta cidade e no último quartel do século XIX produziu centenas de peças decoradas e gravadas com veados, tais como caixas de jóias, jarras e jarros, serviços de copos, e canecas exactamente iguais a esta, para tomar água termal.

Foto https://www.rubylane.com O veado é um tema recorrente das produções da Moser e faz eco da lenda da fundação da cidade termal

Este motivo do veado não aparece por acaso nestas peças de vidro e prende-se com a própria origem da cidade e da exploração das suas águas. Segundo reza a lenda, o Rei Carlos IV, caçava nesta região e ao perseguir um veado, caiu do cavalo e tombou numa fonte de água em ebulição, que curou miraculosamente o seu cão ferido. Apercebendo-se das qualidades medicinais destas águas, Carlos IV, rei da Boémia e imperador do Sacro Império Românico Germânico, decidiu fundar ali mesmo uma cidade, que tomou o nome de Karlsbad, que quer dizer à letra o Banho de Carlos.

Em suma, este copo para uso nas termas apresenta um motivo local típico, o veado, que evoca a lenda da formação da cidade e foi fabricado pela Moser, provavelmente nos finais do séc. XIX e evoca esse mundo elegante da Europa Central, que os grandes conflitos mundiais fizeram desaparecer para sempre.


Alguns links e livros consultados:

https://fr.wikipedia.org/wiki/Karlovy_Vary

http://www.lefigaro.fr/voyages/2015/09/25/30003-20150925ARTFIG00238-de-pilsen-a-marienbad-vie-de-boheme-et-histoires-d-eaux.php

Moser : joya del cristal de Bohemia : catálogo de exposición. - Segovia : Museo del Vidrio de la Real Fábrica de Cristales, 2000. - 110 p. : il. ; 30 cm

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Uma sessão de fotografia na Antiga Casa Fritz, no Porto

Hoje publico mais três fotografias de dois velhos álbuns de fotografia da família Montalvão, que uma prima me ofereceu recentemente. Uma das fotografias é a da minha trisavó, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902), de que eu até há bem pouco tempo só conhecia uma cópia digital. O original afinal encontrava-se cuidadosamente arquivado no primeiro álbum, constituído certamente pelo meu trisavô, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio.
 
Todas as três fotografias foram tiradas na Antiga Caza Fritz, de Emílio Biel
A fotografia foi tirada pelos estúdios de Emílio Biel, na Rua do Almada, nº 122, Porto, que nesta altura ainda era conhecida pela Antiga Casa Fritz. Emílio Biel adquiriu a Casa Fritz em 1873/74 e só em 1890, se mudou para o Palácio do Bolhão, nº 342, da Rua Formosa, na mesma cidade. Portanto, esta fotografia será datada entre 1873/74 e 1890. Mas como a Maria do Espírito Santo nasceu em 1856 e nesta fotografia ainda é bastante jovem, presumo que a imagem seja de meados da década de 70 do século XIX. Aliás, basta ver os figurinos da época, para confirmar que a Maria do Espírito Santo traja à última moda de 1875.
 
Le moniteur de la mode, 1875
Contudo, o que eu desconhecia em absoluto é que a Maria do Espírito Santo não foi sozinha ao fotógrafo. Aliás, naquele tempo, uma senhora, ainda para mais solteira, não se passeava nas ruas sem a companhia de um chaperon. Com efeito, a minha trisavó foi ao fotógrafo na companhia de uma dama mais velha, talvez com uns trintas e tais, quarenta anos e de duas adoráveis crianças, conforme pude descobrir através de mais duas fotografias, que se encontravam soltas no segundo álbum.
 
 
As duas senhoras fizeram-se fotografar primeiro individualmente e depois posaram em grupo com as criancinhas. Percebe-se que entre elas há uma cumplicidade e uma familiaridade, que nos fazem supor que fossem parentes. As duas senhoras parecem estar satisfeitas e esboçam mesmo um meio sorriso, o que é raro nestas fotografias antigas, pois o tempo de exposição eram muito longo e as pessoas tinham que estar muito hirtas e acabam por ficar sempre com um ar demasiado sério e severo. Na imagem de grupo, ao centro, está a senhora mais velha, ladeada pelas duas meninas, sem dúvida suas filhas, que se chegam à mãe e por fim, a minha trisavó, que pousa a mão no seu ombro. Na época a fotografia era ainda cara, uma ocasião especial para vestir a melhor roupa e não se desperdiçava dinheiro a tirar fotos com amizades de ocasião.
 
Mas quem eram as meninas e a senhora que foram na companhia de Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão à Antiga Caza Fritz?

O meu pai recordava-se vagamente de ouvir falar de uma tia e de umas primas da Maria do Espírito Santo, que passavam largas temporadas no Solar de Outeiro Seco. Seriam essas parentes a senhora e as duas meninas da imagem? É quase impossível adivinha-lo. A Maria do Espírito Santo tinha duas tias paternas, a Antónia Vicência e a Rita, a primeira nascida em 1805 e a segunda em 1809. Portanto, cerca de 1875, no momento em que este grupo posou nos estúdios da Antiga Casa Fritz as tuas tias eram bastantes mais velhas do que a senhora da fotografia. Também desse lado paterno, a minha trisavó tinha 17 primos direitos e por aí também não vamos lá. Talvez esta senhora e as duas adoráveis meninas fossem suas parentes do lado da mãe, Maria Emília Emília Morais Sarmento (1818-1874), da Casa de Santo Estevão, numa aldeia próxima de Outeiro Seco.
 
Casa de Santo Estevão. Foto retirada de "Famílias transmontanas : descendência de Francisco de Moraes, Palmeirim : ligações familiares e outras famílias de Trás-os-Montes / Francisco Xavier de Moraes Sarmento- . Ponte de Lima : Carvalhos de Basto, 2001"
Talvez eu nunca venha a saber quem eram estas meninas e esta senhora, que acompanharam a minha trisavó à Antiga Casa Fritz, na rua do Almada, no Porto, mas como estas fotografias carte-de-visite eram feitas em 8 exemplares, tenho sempre a esperança, que alguém tenha em casa, nos velhos papeis da família, uma dessas cópias, com uma dedicatória, que me permita a identificação destas personagens.


Aliás, é curioso, que algumas horas depois de publicar este post, o Vítor Silva, de Vila do Conde, enviou-me uma fotografia da  Dona Antónia, a Ferreirinha, também tirada no Emílio Biel, talvez uns anos depois desta série, em que a célebre personagem está sentada exactamente no mesmo cadeirão, usado pela amiga ou parente da minha trisavó. Pelos vistos o pesado cadeirão, ornamentado de franjas era um adereço muito usado pelo Emílio Biel para fotografar estas damas de condição.


D. Antónia, a célebre "Ferreirinha", senta-se no mesmo cadeirão, que aparece na fotografia da parente ou amiga da minha trisavó.

  
Alguma bibliografia:
 
Famílias transmontanas : descendência de Francisco de Moraes, Palmeirim : ligações familiares e outras famílias de Trás-os-Montes / Francisco Xavier de Moraes Sarmento- . Ponte de Lima : Carvalhos de Basto, 2001. 
 
Os Montalvões / J. T. Montalvão Machado. - Famalicão: Tip. Minerva, 1948
 

terça-feira, 23 de outubro de 2018

As damas do guéridon ou um retrato da minha trisavó

Fotografia da minha trisavô, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902)
Continuo nos meus trabalhos de identificação das personagens de um velho álbum de fotografias, datado mais ou menos entre 1860 e 1900 e que terá sido formado, pelo meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio. Normalmente parte-se para uma tarefa desta natureza, com o entusiasmo de um arqueólogo prestes a entrar numa câmara funerária há muito esquecida, sentido que vamos finalmente a dar um rosto a personagens, dos quais conhecíamos apenas os nomes nas genealogias e reviver o seu círculo de amizades e parentesco, mas acabamos muitas vezes desapontados e melancólicos, pois muitas fotografias não estão identificadas e aquelas damas e cavalheiros respeitáveis, desaparecidos do mundo dos vivos há muito, muito tempo, persistem em manter os seus segredos.
 
Um pormenor do retrato da minha trisavó
Contudo, com a ajuda de um bom amigo, o Manel, e alguma paciência, através da comparação sistemática de todas as fotografias deste álbum, conseguimos encontrar alguns denominadores comuns e desvendar um ou outro segredo.

A primeira fotografia do referido álbum é a de uma senhora elegantemente trajada de escuro e que eu reconheci como a minha trisavó, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão. Apesar de até bem pouco tempo só se conhecer uma única imagem dela, identifiquei-a imediatamente pelos seus grandes olhos claros e pela postura do corpo, uma certa tendência a curvar o corpo para a frente, evidenciando o ventre. Porém, no verso da fotografia, não há uma data, uma dedicatória ou nome do atelier fotográfico, para percebermos que momento da sua vida a câmara capturou. Como a Maria do Espírito Santo nasceu em 1856 e nesta imagem ainda parece estar na flor da vida, talvez a fotografia tenha sido tirada em meados da década de 70 ou início da década de 80 do século XIX.
 
Uma jovem elegante desconhecida

 
Um pormenor do retrato
Avançando pelo álbum fora, o Manel e eu encontrámos mais duas fotografias de jovens elegantes, mais ou menos da mesma época e que tem um factor comum com o retrato da minha trisavó, para além de pertencerem ao mesmo meio social obviamente. Todas as três posaram para o fotógrafo junto a uma pequena mesa decorada com passamanaria, ou um guéridon, nome francês pelo qual ficaram conhecidas essas mesinhas, destinadas a suportar objectos ligeiros, decorativos ou não e que proliferam na decoração de interiores da segunda metade do século XIX. As três seguram sempre um livrinho, que parece ser um daqueles livros de missa, editados em Paris e luxuosamente encadernados, demonstrado assim às madrinhas, às primas, às tias e aos potenciais candidatos a noivos, que eram jovens elegantes, instruídas, mas não em demasia e sobretudo devotas. Há de facto nestas fotografias, uma intenção e uma mensagem.
A segunda jovem elegante desconhecida
 
 
Um pormenor do retrato da segunda jovem elegante desconhecida
Na prática, como a mesinha é a mesma nas três fotografias e nas duas últimas, o nome do estúdio está identificado, descobrimos que a fotografia da minha trisavó foi feita no T. A. Pacheco, Photographia Transmontana, profissional que abriu o seu atelier em 1873, em Vila Real, na Rua de Santo António. As três damas, que certamente eram do mesmo meio social e se conheciam, foram ao mesmo estúdio fotográfico em Vila Real.
 
O autor das três fotografias é T. A. Pacheco de Vila Real, Trás-os-Montes
  
Alguma bibliografia, que refere o fotografo  T. A. Pacheco:
 
História da imagem fotográfica em Portugal 1839-1997 / António Sena. - 1ª ed. - Porto : Porto Editora, 1998