sexta-feira, 17 de abril de 2015

Uma antiguidade romana ou brincando às falsificações


Desde há alguns anos que alimento uma paixão por bronzes romanos, aquelas estátuas e estatuetas, danificadas pelo tempo ou cheias de musgos que os arqueólogos recuperam do fundo do mar. Em Mérida, muito perto do Museu Nacional Romano existia uma loja especializada em réplicas de peças romanas, que vendia reproduções fantásticas de lucernas, vidros, mosaicos e de estatuetas de bronze, que eram tão deslumbrantes como caras. O proprietário, um francês radicado em Mérida há muitos anos, explicava que se inspirava em peças originais de bronzes romanos, para executar cópias segundo o antigo método da cera perdida, e que depois as enterrava, para ganharem aquele verdete, aquela patina que os objectos antigos, que dormiram longos séculos debaixo da terra apresentam sempre.
Estatuetas de bronze romanas e helenísticas no The Metropolitan Museum of Art
Fiquei sempre com aquelas réplicas das antigas estatuetas de bronze atravessadas na cabeça, mas eram tão estupidamente caras, que desisti rapidamente da ideia de ter uma delas. De vez em quando, quando comprava um bilhete do Euromilhões,  lembrava-me delas e pensava que se um dia ganhasse um prémio grande iria de propósito a Mérida comprar uma daquelas réplicas.
Há pouco tempo encontrei na Feira de Estremoz uma cópia ordinária de um busto de um imperador romano, provavelmente feita numa liga com antimónio, estanho e chumbo, imitando o bronze, aparafusado a um plinto muito feio. Comprei-a e como a peça foi baratinha e não tinha nada a perder se a estragasse, resolvi seguir o método do senhor francês para envelhecer as peças e enterrei-a durante uma boa temporada no jardim do Manel. Reguei-a muito bem e deixei-a estar assim umas três semanas em repouso. A fim desse tempo, tirei-a da terra, lavei-a com água, mas não gostei do resultado. A reacção química da liga de antimónio, estanho e chumbo com a terra do quintal do Manel provocou-lhe o aparecimento de manchas brancas em vez de fungos verdes como eu pretendia. Voltei a enterra-la mais uma semana, mas desta vez, quando a retirei, a conselho do Manel, não a lavei. Limitei-me a escovar a terra, deixando-lhe alguns restos e de facto se não ficou com uma patina que eu desejava, ganhou um certo ar de antiguidade arqueológica, como dizem os franceses de objet trouvé.

sábado, 11 de abril de 2015

Um lua sorridente: paliteiro da Vista Alegre


Tenho uma atracção muito especial por bibelots de porcelana antigos, esses objectos, que abundavam nas casas burguesas nos finais do século passado, princípios do século XX, num tempo em que ninguém se preocupava muito em decorar com contenção ou sobriedade. Por essa razão não consegui resistir a esta lua sorridente, que encontrei na feira de Estremoz. É um paliteiro da Vista Alegre e normalmente estas peças são muito procuradas por alguns coleccionadores, por exemplo, a Fundação Medeiros e Almeida, aqui em Lisboa, tem uma belíssima e completa colecção destes paliteiros da fábrica de Ílhavo. Contudo, como este paliteiro foi partido e colado, consegui compra-lo, por um preço muito aceitável.

O paliteiro encontrou um lugar na minha casa, no meio dos bules e chávenas com decorações vitorianas. Como diria um certo coleccionador francês, uma boa peça encontra sempre o seu lugar numa casa.

Embora muito desvanecida, a marca parece-me a nº21, verde grande fogo, o que significa que este paliteiro terá sido fabricado entre 1881-1921.

Encontrei um paliteiro mais ou menos semelhante na obra Paliteiros da Vista Alegre / Jorge Manuel Ferreira. Lisboa: Caleidoscópio, 2006 e muito curiosamente é identificado como representando o Sol e a Lua. A cara sorridente será o sol, a base, a lua em quarto crescente, e o azul do pedestal representará o céu, conforme observou o meu amigo Humberto. No entanto, esta Lua sorridente e brincalhona, que talvez afinal seja seja um Sol só me recorda o filme mudo Le Voyage dans la lune, realizado em 1902, por Georges Méliès. 
É um filme contemporâneo da produção desta peça, com cerca de 8 minutos, absolutamente delicioso, com astronautas de chapéu alto a visitar a lua, e que se defendem dos ataques dos selenitas com golpes de guarda-chuva e ainda mete um cortejo de bathing beauties a festejar a partida e chegada do foguetão.


domingo, 5 de abril de 2015

Um combatente nas guerras da Restauração: Francisco Fernandes Montalvão (1635-1715)


Recentemente, andei a tratar de compilar elementos sobre o solar dos Montalvões, para que este constasse na base de dados sobre património arquitectónico, monumentos.pt. Quando enviei os dados sobre o brasão que está na casa, uma das técnicas, que faz a gestão da base chamou-me a atenção para o facto de que estava errada a leitura tradicional da pedra de armas, que afirmava que de um lado estavam representados os ferreira e do outro lado os álvares. Se com efeito, no lado direito, estão as riscas horizontais dos ferreiras (eu ainda sou Ferreira Montalvão), do lado esquerdo encontram-se oito besantes, com aquilo que parecem ser cruzes de Cristo e de que afinal não sabemos que a família pertencem.

Os Ferreira de um lado com as 4 tiras horizontais e do outro lado 8 besantes ou escudetes com cruzes de Cristo, armas  família não consigo identificar.
Consultei alguns manuais de heráldica e as armas mais parecidas com aqueles oito escudetes ou besantes correspondem a nomes que nunca cruzaram os seus destinos com os da família Montalvão. Segundo o livro de genealogia Os Montalvões, escrita por J. T. Montalvão Machado, em 1948, os membros desta família casaram ao longo dos séculos XVII e XVIII com Morais, Morais Sarmento, Campilhos, Castros, Coelhos, ou os Álvares Ferreira.

Face a este mistério e muito embora uma boa parte do chamado cartório da nobreza tivesse ardido com o terramoto, resolvi partir à consulta das fontes, na esperança de encontrar qualquer referência, ainda que indirecta a pedras de armas da família, que me permitisse resolver este mistério.

Como hoje em dia a maioria dos arquivos, tem os seus fundos inventariados on-line, comecei por pesquisar na Torre do Tombo, por Montalvão, tendo o cuidado de pôr de parte tudo o que disse-se respeito aos marqueses de Montalvão, que são da família Mascarenhas, à vila de Montalvão, no Alentejo, ou a documentação dos séculos XIX e XX, já que o brasão parece-me coisa do Século XVIII e de facto encontrei alguns resultados pertinentes no registo geral das Mercês.


No livro 13, fólio 31, nas Mercês de D. Pedro, encontrei uma referência ao meu nono avô, Francisco Fernandes Montalvão, um senhor do qual não sabia mais nada, além de que que viveu entre 1635 e 1715 e era filho do primeiro Montalvão, que se instalou em Portugal, vindo da vizinha Galiza, um Joseph Montalban. Sempre imaginei que este Francisco Fernandes Montalvão fosse um proprietário rural, abastado, com uma existência banal e pacata, dedicando os seus tempos à criação de vacas, ora contando os alqueires de centeio ou ainda correndo atrás das criadas. Com efeito, pela leitura do documento, acabo por perceber que este homem foi um combatente das guerras da restauração, que percorreu todos os teatros de operações do conflito luso-espanhol, do Minho ao Alentejo e de Trás-os-Montes à Beira. Teve uma vida cheia de aventuras e ter-se-à portado com heroísmo nestes combates, de outra forma o Rei D. Pedro não lhe teria concedido uma pensão em dinheiro e o hábito da Ordem de Cristo, ao seu filho Francisco de Montalvão Coelho, meu oitavo avô.

O meu nono avô era capitão da ordenança do lugar da Vila de Frades, aldeia do Concelho de Chaves, junto à fronteira e entre 1660 e 1695 governou uma companhia em Mairos, outra aldeia a Norte de Chaves, também junto à fronteira espanhola. Muito embora o vale de Chaves, tenha sido uma das entradas tradicionais dos exércitos invasores de Portugal (a segunda invasão francesa passou a fronteira pelo vale de Chaves) o principal teatro de operações das Guerras da Restauração foi o Alentejo. Assim a Beira, Trás-os-Montes e Entre-Douro-e-Minho tinham exércitos provinciais mais reduzidos do que o Alentejo e esses contingentes eram deslocados muitas vezes para socorrer uma província ou outra, sobretudo a fronteira Alentejana, onde os combates eram quase sempre duríssimos. Em suma, o meu antepassado fez parte desses contingentes móveis, que foram sendo destacados do Norte a Sul do País, cada vez que o inimigo exercia pressão sobre um ponto qualquer de uma fronteira, que se estendia por mais de 1200 km

Assim, no ano de 1663 o meu nono Avô, Francisco Fernandes Montalvão, saiu de Trás-os-Montes e marchou para a ribeira do Caia, a Norte de Elvas onde se tinha desencadeado uma ofensiva inimiga terrível. Os espanhóis, romperam as linhas de Elvas, tomaram Évora e chegaram até Alcácer do Sal. Esta expedição só terminou com a sua derrota espanhola na Batalha do Ameixial.


Porem, o meu avô, não parou por aí. Nesse mesmo ano regressou a Trás-os-Montes e participou na campanha de Vilarelho na entrada que fez em Galliza, sem dúvida umas muitas incursões portuguesas ordenadas pelo Conde de S. João, governador das armas da província de Trás-os-Montes, que consistiam na pilhagem e saque das terras galegas na fronteira. Ainda em 1663, o meu antepassado passou à Beira na defença de hum comboy de mantimentos que hia pera o nosso exercito em que derrotou o inimigo com morte de 4 capitães de cavallos , muitos officiais e mays de 250 soldados"

Em 1664, Francisco Fernandes Montalvão foi destacado para o Minho onde foi um dos muitos homens que ajudou a recuperar o castelo de Lindoso, terra minhota tomada pelos Espanhóis em 1662, sob o comando do General Pantoja. Ainda em 1664, o meu avô marchou em socorro do Alentejo onde "se achou no Rendimento de Alcântara", praça forte na Estremadura espanhola, que os portugueses conquistaram.


Em 1665, o meu antepassado atravessou novamente o País inteiro em direcção ao Minho e juntamente com outros portugueses, atravessam o rio que divide Portugal e Espanha e conquistaram vila galega de La Guardia, que se tornou portuguesa por três anos. E no mesmo anno passar a Alentejo e assistir na batalha de Monte Claros masandose he nella o cavallo em que o hia montado e sahio ferido. Portanto, o meu antepassado, combateu e foi ferido numa das maiores batalhas de sempre da história portuguesa, Montes Claros, a 17 de Julho de 1665, acontecimento que pôs um fim definitivo às pretensões espanholas sobre Portugal, aliás três anos mais tarde Portugal e Espanha selaram uma paz definitiva.

Voltou ainda para Trás-os-Montes, onde se achou  no encontro que houve com 5 tropas de cavallos inimigas que foram postas em fugida com morte de muitos e outros prezioneiros.

Foram estes os principais feitos deste meu antepassado narrados no fólio 31, livro 13 das Mercês de D. Pedro, que combateu no último período das guerras da Restauração e que foi também o mais encarniçado e violento, já que a partir de 1659, depois de debelada a insurreição da Catalunha, os espanhóis ficaram com as mãos livres para atacar Portugal. O percurso de Francisco Fernandes Montalvão de Norte a Sul do País, constitui também um bom exemplo das características militares da restauração, que foi sobretudo uma guerra de posições, intercalada com uma outra ofensiva espanhola. Normalmente, a coisa passava-se da seguinte forma, os espanhóis iam pôr cerco a Elvas e os portugueses ripostavam, tomando Valência de Alcântara. Os Espanhóis atacavam Valença do Minho e o nossos pilhavam e incendiavam aldeias galegas em frente à Bragança ou Chaves.

Não descobri nada acerca se este Francisco Fernandes Montalvão, ou seu Filho, Francisco de Montalvão Coelho, pediram cartas de armas em virtude destes feitos, mas mais muito significativo que a questão heráldica, foi recuperar a memória deste meu avô, de que a genealogia reteve apenas das datas de nascimento e morte e do qual sinto orgulho, pois foi um dos muito heróis anónimos, que permitiram a Portugal vencer uma guerra de 28 anos, contra uma das maiores potências europeias de então, a Espanha. 

Alguns links úteis:



quinta-feira, 26 de março de 2015

Maria Egipcíaca: uma estampa com sabor a pecado

Sempre tive uma certa atracção pela figura de Maria Egipcíaca, essa santa que andava a vaguear nua no deserto, coberta apenas pelos seus longos cabelos, de modo quando vi uma estampa antiga à venda com a sua imagem e comprei-a, sem pensar duas vezes, sobretudo sem saber como conseguirei arranjar espaço para encaixa-la lá em casa.
A imagem representa o encontro de Maria Egipcíaca, que deambulava em penitência pelo deserto há 47 anos, com S. Zósimo. Quando a Santa o encontra, pede-lhe um manto para cobrir a sua nudez, conta-lhe então a sua história e S. Zósimo dá-lhe a comunhão. Ao fundo vê-se uma caveira e uma cruz, atributos que costumam acompanhar a imagem desta santa e que a fazem muitas vezes confundir com Santa Maria Madalena, outra pecadora arrependida. A caveira significa como são efémeras as vaidades do mundo e a cruz simboliza a Salvação, o único e verdadeiro fim, que deverá nortear o caminho a seguir por todos os homens e mulheres.
 
A iconografia de Maria Egipcíaca e Maria Madalena confunde-se facilmente. São representadas com longos cabelos, as vestes a escorregarem, uma cruz e a caveira. Madalena Penitente por Luca Giordano. Museu do Prado

Desta Maria Egipcíaca, que terá vivido por volta do século V depois de Cristo não há propriamente registos escritos da época, que testemunhem a sua existência. A história da sua vida aparece pela primeira vez escrita, por um tal Sophronios, Patriarca de Jerusalém, no século VII, e depois disso o assunto foi repetidamente contado novamente por vários autores piedosos. O mais curioso é que enquanto no Oriente, os relatos centraram-se mais na vida de S. Zósimo, no Ocidente, durante a Idade Média os hagiógrafos e os poetas transformam em protagonista Maria Egipcíaca. Forma-se nessa época a lenda que ainda hoje se lê em toda a parte, da jovem que se prostituía em Alexandra, mais por prazer do que por dinheiro e que um dia partiu para Jerusalém, não porque lhe interessa-se a espiritualidade da cidade, mas em busca de mais aventuras. Conta-se que pagou a viagem com o seu próprio corpo entregando-se aos vários marinheiros da tripulação. Em Jerusalém, um dia, por acaso, tentou entrar na Igreja do Igreja do Santo Sepulcro e uma força qualquer estranha impedia-a de entrar. Percebeu-se que havia qualquer coisa de profundamente errado na sua vida, arrependeu-se e então ouviu uma voz dizendo-lhe para atravessar o rio Jordão, pois só ali encontraria o descanso. E esta mulher habituada aos prazeres da vida, larga tudo e parte em direcção ao deserto, levando apenas três pães com ela. Viverá como eremita, as suas roupas acabarão por desfazer-se e a apenas os seus longos cabelos desgrenhados cobrirão a sua nudez.
Na literatura que se formou sobre a vida de Santa Maria Egipcíaca, a aventura e o erotismo tem um peso evidente, camuflado por debaixo de uma história piedosa. A última comunhão de Sta. Maria Egipcíaca, por Sebastiano Ricci, c. 1695. The National Gallery of Art
Uma autora americana Connie L. Scarborough, num artigo intitulado Santa María de Egipto: la vitalidad de la leyenda en castellano, sublinha que em toda esta literatura que se formou sobre a vida de Santa Maria Egipcíaca, o que mais se destaca é o lado aventuroso, em detrimento do sagrado. No fundo criou-se um relato, onde a aventura e o erotismo tem um peso evidente, camuflado por debaixo de uma história piedosa e que encontrou grande popularidade, na Idade Média, época de repressão sexual e que continuou a seduzir senhoras piedosas, cavalheiros respeitáveis, castas donzelas, monges e freirinhas, por esses séculos fora.


A estampa foi impressa em Lisboa, gravada por Gaspar Frois Machado (1759-1796) e vendia-se na casa de Francisco Manuel no fim da Rua do Passeio, isto é o Passeio público, o jardim público criado durante o consulado pombalino em 1760 e destruído a partir de 1879 para rasgar a Avenida da Liberdade. Portanto a gravura, até a julgar pela decoração neoclássica da cercadura deve ter sido impressa nos últimos anos do Século XVIII ou nos primeiros anos do Séc. XIX.

Esta estampa apresenta a legenda, S. Maria Egypciaca da Goarda Real, porque a referida Santa foi a padroeira da Guarda Real dos Arqueiros, cuja irmandade tinha sede na Igreja dos Mártires em Lisboa. Explica-se assim também o escudo real português no topo da cercadura do registo. Não consigo é explicar porque é que uma pecadora, ainda que muitíssimo arrependida, fosse padroeira da Irmandade da Guarda Real dos Arqueiros. Talvez houvesse qualquer associação entre a flechas dos arqueiros e o arrependimento, que atingiu como uma seta o coração de Maria Egipcíaca, ou talvez os guardas, que protegiam a família real experimentassem algum prazer erótico em pensar na protecção desta mulher que caminhava nua pelo deserto.


Em todo o caso, depois de comprar esta estampa e pelo que li sobre ela, fiquei a apreciar ainda mais esta figura lendária e o seu gosto pela aventura e pela liberdade, que se manifestou sempre, mesmo depois de arrepender. Deambular nua pelo deserto, sem constrangimentos de qualquer espécie é sem dúvida um acto de supremo de liberdade e um desejo de absoluto, que nos nossos tempos nos parece estranho.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Chávenas de faiança possivelmente do Porto ou Gaia

Quem se dedica a comprar ou a admirar a faiança portuguesa dos século XIX e boa parte do século XX, já se apercebeu que a maioria das peças não estão marcadas e que as atribuições a esta ou aquela fábrica, ou até mesmo a um centro regional de fabrico são sempre um tiro no escuro.

A Ivete Ferreira, especialista em faiança ratinha e com a experiência acumulada de muitos anos no contacto com a cerâmica, escreveu há pouco tempo no seu blog, que só se pode fazer uma atribuição indiscutida se as peças tiverem a marca bem estampada e evidente. Por maior que sejam as nossas inclinações e (in)certezas (pasta, vidrado, paleta cromática, ornamentação, formato ...) as filiações são difíceis.

No mercado das velharias e antiguidades tornou-se hábito atribuir grande parte da faiança fabrica no Porto e em Gaia à fábrica de Miragaia. Imagem enviada por Ivete Ferreira do leilão da CM, realizado em Abril de 2013
Julgo que este é um bom princípio a tomar quando começamos a tentar saber mais sobre as faianças que comprámos. Claro, isto não quer dizer que devemos desistir de identificar as peças que coleccionamos e que devemos pendura-las na parede, esquecer completamente a sua existência, até ao infeliz momento em que teremos de lhes limpar o pó. Pelo contrário um dos interesses de coleccionar ou adquirir velharias é precisamente acrescentar o nosso conhecimento, procurando informações em livros da especialidade, ou visitando museus.

Hoje apresento aqui um conjunto de duas chávenas e um pires em faiança, com os quais tentarei fazer algumas associações em termos de formas e decoração com outras peças já aqui apresentadas, mas sem a pretensão de tirar conclusões.
As duas chávenas lado a lado numa evocação do blog, arte, livros e velharias
As três peças foram compradas na Feira de Estremoz pelo Manel, que teve a gentileza de me oferecer a chávena sem o pires. A primeira associação possível destas três peças é com uma chávena de faiança atribuída a SantoAntónio de Vale da Piedade, que já aqui mostrei.
Embora a decoração seja diferente, o molde a partir do qual estas chávenas foram executadas deve ter sido muito semelhante. Há apenas pequenas diferenças entre elas. No tardoz, no espaço delimitado pelo frete, a chávena em tons de azul é lisa, enquanto a chávena de chávena de Santo António de Vale da Piedade, tem uma saliência em formato de conezinho. Na chávena pintada com o casario o recipiente é menor que a xícara de Santo António de Vale da Piedade. Mas em todo caso, ambas saíram de um molde semelhante.
A segunda associação possível é com uma caneca proveniente da antiga colecção António Capucho. Quando fotografei as xícaras com a caneca e depois as vi no computador, não pude deixar de me surpreender com o ar de família tão evidente nas cores alegres, no vidrado e na decoração com que surgiam na fotografia, e pensei que todas elas teriam saído da mesma fábrica. Porém, é mais possível que correspondam a um gosto do público por louça de cores vivas, que todos os fabricantes do Porto e Gaia procuravam ir ao encontro, em meados do século XIX.


Depois olhando bem para esta simpática xícara, reconhecemos de imediato alguns elementos decorativos, as folhas das árvores e a mancha do chão, que são obviamente copiados do motivo país, da Fábrica de Miragaia.

Quanto ao casario, não vale a pena especular sobre ele. São as casinhas que todos nós desenhávamos na infância e que ainda hoje somos capazes de desenhar numa folhinha qualquer, enquanto atendemos no serviço a chamada de algum maçador, e que estão presentes em quase toda a faiança portuguesa mais ingénua.

Obviamente não posso concluir nada sobre o possível fabricante destas chávenas. Serão talvez de uma daquelas muitas fábricas do Porto e Gaia, quase vizinhas umas das outras, em que havia entre elas uma intensa troca de moldes, decorações, operários e mestres até patrões. Terão sido produzidas numa época, talvez à volta de meados do século XIX, um pouco antes, um pouco depois, em que estava na moda esta louça muito colorida.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Prato de faiança do Norte ou o fascínio pela abstracção

Este enorme prato de faiança que pertence ao meu amigo Manel é uma daquelas peças típicas da faiança portuguesa do século XIX. São muito bonitas, ingénuas, foram decoradas por gente muito imaginativa, que pintava com traços rápidos, não estão marcadas e ninguém parece saber nada acerca da origem delas.

É um prato com cerca de 36 cm de diâmetro, o que os especialistas de cerâmica designam por palangana, embora pense que este termo terá origem em algum regionalismo da zona Centro ou Sul. Por exemplo, em Trás-os-Montes, há cerca de 60 anos, o meu pai ainda se recordava de ver os trabalhadores agrícolas de uma casa senhorial a comerem todos com o auxílio de um faca ou de um pedaço de pão de um enorme prato, a que se chamava fonte, termo aliás que os espanhóis ainda usam para nomear uma travessa. Enfim, julgo que este prato ainda será de um tempo em que o uso dos pratos individuais ainda não estava generalizado por todas as classes sociais, talvez entre 1840 ou 1860.

A decoração é ingénua e quem o decorou tinha o gosto pela abstracção, pintando linhas sinuosas que conduzem a todo lado e a lado nenhum, entremeadas com pequenas flores. Aliás, acho sempre graça às obras abstractas, criadas muito antes de os artistas plásticos terem reinventado esta arte no início do século XX, em Paris. Enquanto os modernistas de Paris criaram o abstraccionismo, fruto de uma atitude intelectual, conceptual mesmo se quisermos usar um palavrão, o artista que pintou este prato criou espontaneamente esta decoração, provavelmente sem ter lido nenhum livro na vida ou sem ter frequentado uma tertúlia artística num café.

http://www.amleiloes.pt/cp2
Quanto ao seu fabrico é naturalmente um mistério, pois não ostenta nenhuma marca no verso. Talvez a boa qualidade da faiança, nos leve a pensar que seja do Porto ou Gaia, mas é uma mera intuição. Há uns anos encontrei uma fotografia de um prato decorado certamente pelo mesmo artesão, que pintou o prato do Manel, num catálogo de uma leiloeira, do qual perdi a referência e estava atribuído à fábrica do Monte Cavaco, mas como toda a gente sabe nestes catálogos dos leilões as atribuições são um bocadinho apressadas. Também em outros catálogos de leilões encontrei pratos com decorações semelhantes cujo fabrico é identificado como sendo do Norte, o que é muito vago para nos satisfazer.

Em suma, não se sabe muito deste grande prato, mas não há dúvida que as suas linhas, recordando-nos que estamos numa estrada a caminho de lado nenhum, fascinam-nos.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Uma amante ou uma princesa? Estampa por Jean-Marc Nattier (1685-1766)

Tenho um gosto variado. Tanto aprecio a ingenuidade da faiança portuguesa com o refinamento da arte francesa do século XVIII. Como não tenho dinheiro nem espaço para comprar cómodas de Luís XV ou Luís XVI, compro estampas dessa época, que são baratinhas. Esta foi a última que comprei na Feira de Estremoz e representa uma alegoria à força. Uma alegoria é uma figura humana, um conjunto de pessoas, um animal ou uma planta, que personificam alguma qualidade moral ou uma outra qualquer abstracção.
J. M. Nattier pinx
Como os autores estão identificados, “J. M. Nattier pinx” e “Balechou print”, apercebi-me logo no momento da compra que era uma obra do século XVIII feita a partir de uma pintura de Jean-Marc Nattier, o pintor da oficial da corte de Luís XV. Estranhei um pouco o formato da moldura e achei que poderia ter feito parte de um qualquer livro onde se apresentassem modelos para cartões de tapeçaria. destinadas a forrar o estofo de uma daquelas cadeiras Luís XV.

Mas, quando cheguei a casa tratei antes de mais nada de encontrar referências nos museus e nas bibliotecas sobre a estampa, de modo a poder identifica-la mais claramente.

De facto, encontrei rapidamente duas gravuras iguais a estas, uma no Harvard Art Museums/Fogg Museum e outra no Palácio de Versalhes, que me confirmaram que se tratava de uma estampa do século XVIII, gravada por Jean Joseph Balechou (1716-1764) a partir de uma obra Jean-Marc Nattier (1685-1766). Contudo, a Harvard Art Museums identificava a senhora da alegoria, como a Duquesa Chateauroux, ou seja, Marie-Anne de Mailly-Nesle, uma pequena que foi amante de Luís XV e no Palácio de Versalhes a figura feminina, que personifica a Força, foi dada como sendo Marie-Louise-Élisabeth de France (1727-1759), a filha mais velha de Luís XV.
Estampa feita a partir de uma pintura de Nattier, representando Marie-Louise-Élisabeth de France (1727-1759), como um dos quatro elementos, a Terra. Cabinet d'arts graphiques des Musées d'art et d'histoire, Genève
Fiquei muito espantado como é que a filha preferida de Luís XV, conhecida pelo petit nom de Babette é confundida com uma das amantes do Rei, a tal Marie-Anne de Mailly-Nesle. Tentei pesquisar alguma coisa sobre estas personagens, mas a vida da corte francesa neste reinado é tão complicada é que é fácil começarmos seguir sem rumo a história desta ou daquela personagem e a certa altura estamos completamente perdidos. Só a título de exemplo, esta Marie-Anne de Mailly-Nesle era a mais nova de cinco irmãs e todas elas foram amantes de Luís XV. Embora a Marie-Anne fosse a mais pequena das manas foi quem melhor conseguiu conquistar o Rei e chegou a mesmo exercer algum poder na corte e as suas ambições só foram travadas porque uma peritonite a levou cedo desta vida. Ao fim de quatro meses da sua morte foi rapidamente substituída no seu cargo de Maîtresse-en-titre, por Madame de Pompadour, a mais célebre das amantes reais de França. 
Marie-Anne de Mailly-Nesle, Duquesa Chateauroux, como Aurora, pintada por Nattier. Palácio de Versalhes. MV 8415
Para aumentar, a minha confusão Jean-Marc Nattier pintou todas estas senhoras, a Marie-Anne de Mailly-Nesle, a Marie-Louise-Élisabeth de France e a Madame de Pompador (Jeanne-Antoinette Poisson). Para além disso os retratos deste pintor francês são sempre de alguma forma semelhantes entre si. As grandes damas da aristocracia, as favoritas ou as princesas de sangue posam nas mesmas posições, como se fossem deusas da mitologia ou alegorias. Os coloridos são claros, as sedas destacam-se e as fisionomias não traduzem uma verdade psicológica. São retratos idealizados, onde os rostos não exibem uma verruga ou qualquer imperfeição e procura-se sobretudo a pintar elegância e a doçura. Enfim, há uma certa superficialidade e mesmo frivolidade nestes retratos, que tornam a obras de Nattier historicamente justas, pois pintam correctamente a sociedade da corte de Luís XV, com o seu estilo de vida feito de divertimentos mundanos e ociosidade e que se via muito mais bela do que era na realidade.
Madame de Pompadour, como Diana, pintada por Nattier. Palácio de Versalhes
Acabei por encontrar a solução para esta dúvida sobre se a minha gravura representaria a filha mais velha de Luís XV, a Babette, ou se a sua amante a Marie-Anne de Mailly-Nesle, no livro Jean Marc Nattier : 1685 -1766 / Xavier Salmon. - Paris : Réunion des Musées Nationaux, 1999.

Boiserie. Por cima das portas encaixavam-se pinturas, como aquela que a minha estampa reproduz.
Segundo este catálogo, a pintura que esta estampa reproduz (gravada antes de 1750), fazia parte de um conjunto de outras sete, encomendadas a Nattier por Jean-Philippe d'Orléans, para decorar o interior do seu Palácio do Templo, em Paris. Estas obras não eram propriamente telas para serem emolduradas e penduradas na parede. Eram aquilo que os franceses designam dessus-de-porte e nós, os portugueses, por sobre portas. Portanto eram pinturas para serem encaixadas numa boiserie e por cima das portas. Destas sobre-portas, duas representavam musas, um déjeneur e quatro virtudes. As virtudes de que aqui se descrevem são as quatro virtudes cardeais, que a Igreja Católica definiu como a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança.

A Justiça, outra das quatro virtudes cardeais. Tal como a Força, fazia parte do conjunto que Nattier pintou para decorar o interior do Palácio do Templo. Colecção particular. Foto tirada de Jean Marc Nattier. - Paris : Réunion des Musées Nationaux, 1999
Segundo Xavier Salmon autor do catálogo Jean Marc Nattier. - Paris : Réunion des Musées Nationaux, 1999 os documentos da época não referem nada acerca se estas virtudes representavam esta ou aquela personalidade da época. Foi só no século XIX, em 1879, que os irmãos Goncourt, pioneiros da crítica de arte em França, se lembraram de identificar a figura da Força como a Duquesa Chateauroux e a partir daí, os historiadores da arte nunca mais pararam com especulações acerca da identidade das damas representadas nestas telas. Aliás a tendência persiste nos dias de hoje e as leiloeiras e os antiquários estão cheios de cópias de retratos de Nattier, apressadamente identificados como sendo de Marie-Anne de Mailly-Nesle ou de uma das filhas do Rei. O mais provável é que estas virtudes não representem nenhuma mulher em particular e sejam realmente meras alegorias às quatro virtudes cardeais.
Afinal a bela representada na minha estampa é uma figura idealizada e não representa nem a filha, nem a amante de Luís XV
Em suma, a minha estampa não é um retrato nem da amante, nem da filha de Luís XV. Em todo o caso, talvez fruto das sugestões despertadas pelas leituras que fiz, na minha casa, olhando para esta gravura ouvir-se-ão muito ao longe, de forma quase indistinta as vozes de Babette, do seu pai, o Rei de França, de Marie-Anne de Mailly-Nesle e claro de Madame de Pompadour e do pintor Nattier.
Em minha casa tentei reproduzir o local para o qual o quadro A força foi concebido, uma sobre porta