quinta-feira, 18 de maio de 2017

Chávena com passarinho Vista Alegre ou Vieux Paris

No mercado das velharias é frequente encontrar chávenas, bules, açucareiros e outras peças de serviços de porcelana de chá e café do século XIX, sem nenhuma identificação válida de fabricante. Muitas delas identificamo-las inequivocamente como sendo peças da Vista Alegre, pois conhecemos desde há muito o estilo, os padrões decorativos ou as formas e temos peças iguais em casa marcadas ou já as vimos reproduzidas em livros ou em colecções de museus portugueses.

Outras peças, normalmente com decorações mais sofisticadas e sem marca levantam-nos dúvidas e interrogamo-nos sempre se serão da Vista Alegre ou porcelana de Paris. 

Também designada por Vieux Paris, a chamada porcelana de Paris não é nenhuma fábrica, como a Vista Alegre ou Sêvres. Designa a produção de porcelana feita na capital francesa entre o último quartel do Século XVIII e a primeira metade do século XIX. Muito embora a maioria das peças produzidas ou apenas decoradas na capital francesa, não fossem marcadas, o seu estilo influenciou toda a produção europeia, inclusive a nossa Vista Alegre. 
Nos sites de venda online de França, encontramos muitas das peças da última fase do Vieux Paris que juraríamos terem sido fabricadas pela Vista Alegre

Se pesquisarmos no Google pelas expressões tasse porcelaine Vieux Paris Louis Philippe ou tasse porcelaine Vieux Paris XIX siècle encontraremos imagens nos sites de venda on-line franceses de peças, que nos juraríamos serem da Vista Alegre. Lá estão as mesmas formas, as decorações com florinhas e muito ouro sobre branco. Claro, são francesas, porque obviamente no século XIX a França não importava porcelana de Portugal. Mas estas pesquisas aqui e ali nas páginas de venda on-line francesas sugerem-nos que a Vista Alegre usou e adoptou muito dos modelos da chamada Porcelana de Paris, produzida entre 1830-1850 e fabricou-os em Ílhavo pela segunda metade do século XIX fora. Esta é apenas uma conjectura minha, que não é suportada por nenhuma leitura que tenha feito sobre a história da Vista Alegre e vem a propósito de uma chávena muito bonita, decorada com flores e um passarinho, que comprei na Feira de Estremoz.

A chávena é gomada, um formato muito usado na Vista Alegre no século XIX e as florinhas com os dourados são também muito ao gosto da fábrica de Ílhavo. Mas há qualquer coisa de mais invulgar e sofisticado que me faz crer que seja uma produção francesa. Aliás encontrei à venda no e-bay de França, uma chávena com uma decoração muito semelhante, que reforça este meu palpite que seja francesa.
Chávena de porcelana de Paris à venda no e-bay de França
Seja como for, a chávena não apresenta marca de fábrica, apenas um número 2 inciso no pires, que será provavelmente um sinal do operário, uma indicação da dimensão, enfim, uma marca interna da fábrica usada para controlo da produção. Consequentemente não consigo afirmar se o passarinho pintado na minha chávena começou o seu voo em Paris ou Ílhavo. Pessoalmente preferia que o pássaro fosse português, mas a história não é aquilo que nós desejávamos que ela tivesse sido.
 
 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

L'heure bleue, par Guerlain: antiga embalagem de frasco de perfume


Coleccionar velharias significa muitas vezes recolher e catar peças que já conheceram melhores dias, isto é, chávenas que pertenceram a grandes serviços de chá, estojos de jóias vazios, frasquinhos de vidro com tampa em prata de antigas caixas de toilette, entretanto desaparecidas, ou ainda gravuras arrancadas de livros. Há sempre qualquer coisa de tremendamente sentimental no coleccionismo destes objectos tornados inúteis pelo tempo.

Talvez porque estes tesouros sem grande valor comercial sejam tantas vezes tema deste blog, um amigo meu, o Vasco, ofereceu-me uma embalagem antiga, que outrora conteve um frasco de perfume da Guerlain. Julgo que o Vasco estava também curioso em que eu publicasse aqui alguma coisa sobre esta embalagem, como seria o frasco de perfume, que em tempos guardou, bem como o nome da fragrância e alguma da sua história e de facto com as facilidades que hoje a internet nos concede, em 10 minutos de pesquisas consegui identificar o nome do perfume e conhecer alguma coisa da sua criação.
O conjunto completo. Imagem retirada de http://www.proantic.com. Infelizmente tenho apenas a embalagem.
Este perfume foi idealizado em 1911 por Jacques Guerlain, quando passeava com o seu filho nas margens do Sena, naquele momento muitas vezes mágico, que medeia entre o pôr-do-Sol e o crepúsculo, em que a luz de Paris ganha um tom azul único. Esse momento pareceu-lhe tão intenso e especial, que Jacques Guerlain sentiu que só o poderia expressar através de um perfume, e assim nasceu a hora azul, ou em francês l´heure bleue.

O perfume foi lançado um ano depois, em 1912 com um frasco desenhado por Georges Chevalier, feito em cristal de Baccarat num estilo arte nova. Quanto à embalagem, não encontrei informações sobre quem foi o responsável pela sua concepção e à primeira vista parece-nos estranho que não seja em tons de azul. Contudo, penso que há aqui uma associação entre  o nome do perfume, a hora, com os livros de horas, essas manuscritos iluminados, de que as bibliotecas e arquivos franceses possuem os mais belos exemplares do mundo. Com efeito, à semelhança de muitos dos livros de horas, que são calendários de orações iluminados com imagens dos trabalhos agrícolas por cada época do ano, também aqui, em cada face da embalagem se mostram diferentes actividades agrícolas realizadas ao longo do ano. Justifica-se assim a opção pelos tons que imitam o couro das encadernações e o pergaminho das páginas.
 L'heure bleue conheceu um enorme sucesso e tem sido fabricado interruptamente desde 1912 até aos dias de hoje, o que torna difícil datar esta embalagem. Talvez dos anos 30 do século XX ou até mesmo dos anos cinquenta, enfim, quem sabe.

Em todo caso, l'heure bleue é considerado último perfume da Belle Époque, esse período em que o brilho de Paris ofuscava o mundo inteiro. Logo dois anos depois, em 1914, começava a Primeira Guerra Mundial e já nada foi como dantes.

Quanto à minha embalagem, que agora perdeu a utilidade original, de conter o aroma dessa hora mágica de 1911, serve agora para guardar uma velha passamanaria, que comprei já nem sei aonde.



Alguns links:
https://elisadefeydeau.wordpress.com/2012/10/10/lheure-bleue-de-guerlain-a-100-ans/

terça-feira, 2 de maio de 2017

A beleza de duas velhas damas

Comprei esta chávena de chá, da Vista Alegre, decorada com florinhas e dourados. O preço foi muito baixo pois o estado de conservação não é dos melhores, apresenta um grande cabelo e os dourados estão muito desvanecidos. O facto de não estar marcada baixou também o preço da peça. Se pelo contrário, a chávena ou o pires ostentassem a marca VA azul o preço teria sido mais caro.
 
Mas que me importa a mim não ter marca, se sei já por intuição que é uma peça da Vista Alegre e os dourados já fanados desta chávena são como aquelas velhas senhoras, que foram muito bonitas na juventude, mas conservaram qualquer coisa da antiga beleza, no olhar, nos gestos ou na elegância do trajar.

Não é que a velhice seja propriamente uma coisa boa. Significa sempre que estamos mais próximos da morte. Mas, talvez por um período de dez ou vinte anos, antes de se cair na completa decadência, alguns de nós bafejados pela sorte alcançam um último momento de esplendor.

Talvez por estas razões associei esta chávena de dourados já fanados a Juliette Greco, que com quase 80 anos, ainda nos surpreendeu a todos com uma interpretação de Les amants d’un jour, um tema difícil, cantado anteriormente pela grande Piaf. Em vez de cantar, Juliette Greco preferiu simplesmente dizer o poema acompanhando a música, que termina precisamente com o som da louça a quebrar-se. Talvez de chávenas como estas...


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Um registo de Santa Inês


Comprei na Feira de Estremoz este registo de Santa Inês, certamente um trabalho feito por uma noviça, uma freira ou uma senhora educada num convento. É uma estampa emoldurada preciosamente com restos de tecidos e passamanaria.

Esta imagem representando uma bonita jovem, ricamente vestida, enfeitada com jóias e que segura um cordeirinho transmite-nos até uma certa imagem de tranquilidade, mas apenas aparente, já que o relato da vida de Santa Inês é uma daquelas coisas perfeitamente macabras do tempo das grandes perseguições aos cristãos empreendidas pelo Imperador Diocleciano. Basicamente, Inês recusou-se a abjurar a sua fé cristã, foi condenada às feras, mas como a lei romana não permitia matar virgens, colocaram-na num lupanar, para ser violada. Foi supliciada, torturada, mas miraculosamente manteve incólume a sua virgindade. No final foi decapitada.
S.ta Ignes
Inês ou Agnès em francês ou inglês é mais um símbolo, uma alegoria da virtude casta, do que uma personagem, que tenha existido realmente. O nome é de origem grega, agnê e quer dizer pura, casta. Os cristãos associaram o seu nome ao termo latino, agnus, que quer dizer cordeiro e é também um símbolo de Cristo, o cordeiro que se deixa imolar para resgatar os pecados do mundo. Santa Inês torna-se assim como que a Agna Dei, a personificação feminina do Cordeiro de Deus. Em termos mais práticos, isto quer dizer que Santa Inês é representada na arte com uma palma na mão, aliás como todas as santas mártires e ainda com um cordeirinho no regaço ou aos pés, alusão à sua pureza e ao seu sacrifício, que personifica o do próprio Cristo.

Não sendo um homem crente, interrogo-me acerca do que me atrai nestes objectos piedosos, que tantas vezes simbolizam martírios e histórias violentas, que caracterizam tão negativamente a devoção cristã. O Joaquim Caetano do Museu Nacional de Arte Antiga tem uma teoria, que poderá explicar este gosto pela arte sacra, comum a tantos nós. Refere que durante décadas os portugueses cultos educaram o seu gosto em museus instalados em antigos paços episcopais, conventos ou palácios, com colecções de objectos de arte provenientes maioritariamente de conventos extintos. No fundo, os museus portugueses estabeleceram um padrão de gosto eclesiástico, que é sem dúvida o meu.
 
O verso do registo está decorado com um antigo papel de fantasia
 

quinta-feira, 23 de março de 2017

Um trabalho em madrepérola da Terra Santa


Encontrei numa banca da Feira de Estremoz esta montagem em madrepérola, representando um santo franciscano, que me reconheci desde logo como sendo um trabalho da Terra Santa, pois ainda tinha na memória uma belíssima colecção destes objectos expostos no Museu do Oriente, que me encheram os olhos. Consegui compra-la por um preço muito razoável, pois o vendedor não tinha bem a ideia do que era e valorizava mais a moldura, uma coisa pesadona e sem graça, do que propriamente o trabalho de madrepérola. 

No emprego, mostrei a peça à conservadora de mobiliário e arte oriental do Museu Nacional de Arte Antiga, Conceição Borges de Sousa, que me confirmou tratar-se de um trabalho da Terra Santa e disse-me que muito provavelmente esta espécie de medalhão terá feito parte da decoração de um crucifixo, mostrando-me imagens de algumas destas cruzes da colecção do museu, inteiramente incrustadas com decorações a madre pérola. Por sua indicação desta conservadora, consultei o catálogo A Luz do Oriente: madrepérolas e objectos orientais de devoção cristã : colecção de Mestre Soares Branco / Textos e coord. Sérgio Gorjão. - Óbidos : Câmara Municipal, 2003, onde obtive mais informações sobre estes trabalhos vindos do território que é hoje Israel.
Crucifixos provenientes da Terra Santa. Colecção de Mestre Soares Branco. Repara-se nos medalhões ovais com imagens de santos franciscanos.

Feitos em madeira de oliveira e com aplicações de madrepérola, estes crucifixos são um trabalho muito característico da Terra Santa e durante séculos foram feitos pelos franciscanos, para vender aos peregrinos, pratica que tem uma razão histórica, que explicarei de seguida.
 
S. Francisco de Assis visitou a Terra Santa cerca de 1219, que estava na época sobre domínio do Islão e instalou aí uma missão, para a qual obteve do Papa a custódia sobre os lugares santos do cristianismo. Até 1847 os franciscanos cumpriram escrupulosamente essa missão confiada pela igreja e para sobreviverem, vendiam aos peregrinos crucifixos, registos e rosários feitos com materiais abundantes na região, a madeira de oliveira, e a madrepérola, recolhida nas margens do Mar Vermelho. Por essa razão, estes crucifixos são frequentemente decorados com motivos alusivos à Ordem de S. Francisco, como as insígnias da Ordem, imagens de S. Francisco ou de outros santos franciscanos.
 
Crucifixos provenientes da Terra Santa. Colecção de Mestre Soares Branco
Em suma, este pequeno medalhão feito de fragmentos de madrepérola é provavelmente um elemento decorativo de um crucifixo, feito na Terra Santa por frades franciscanos no século XVIII. Outrora um objecto de veneração que continha em si alguma da santidade dos lugares onde decorreu a vida de Cristo, o crucifixo ter-se-á desfeito com o tempo e sobreviveu apenas este medalhão, testemunho da viagem de um peregrino, certamente cheia de aventuras e percalços entre a Palestina e Portugal 

Alguma bibliografia:

A Luz do Oriente: madrepérolas e objectos orientais de devoção cristã : colecção de Mestre Soares Branco = The light of the Orient: mother-of-pearls and oriental objects of Christian devotion: collection of Domingos Soares Branco / Textos e coord. Sérgio Gorjão. - Óbidos : Câmara Municipal, 2003.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Um São Valentim impresso na Parva Roma


Era para ter mostrado no dia 14 de Fevereiro esta estampa, representando S. Valentim, mas como já expliquei muitas vezes neste blog, sou avesso a efemérides. No fundo, gosto de estar sempre contra a maré.

Como toda a gente sabe, o 14 de Fevereiro, dia dos namorados ou de S. Valentim é uma coisa recente na Europa. Não é que o culto a S. Valentim não existisse aqui e ali, umas vezes com a conotação de santo protector dos namorados, outras vezes invocado contra a epilepsia. Mas não era de todo um culto popular, como o de S. Francisco de Assis, S. Catarina de Alexandria ou S. Bárbara. Aliás, até há bem pouco tempo, em Portugal os santos namoradeiros eram sem sombra de dúvida S. António de Lisboa ou S. Gonçalo de Amarante. O 14 de Fevereiro, como dia dos namorados foi uma moda trazida dos Estados Unidos, no final da Segunda Guerra Mundial, pelos soldados americanos e desde então, a par da pastilha elástica, da Coca-Cola e de outros grandes benefícios da civilização moderna, não parou de se difundir por todo o mundo.

 

Na verdade este S. Valentim é uma figura lendária, em que a tradição misturou três pessoas distintas, um padre, que foi decapitado em 273 em Roma, um bispo também decapitado na cidade de italiana de Terni e ainda um outro bispo, Valentim da Récia, também conhecido por S. Valentim de Passau e que viveu mais tarde no século V. Os dois primeiros foram martirizados a 14 de Fevereiro e a tradição popular começou desde muito cedo a junta-los numa única figura. Valentim da Récia ou Rhaetia era comemorado a 7 de Janeiro e o seu culto como personalidade individual parece ter sobrevivido até mais tarde.

Segundo Louis Réau, o especialista em iconografia cristã, a associação de S. Valentim a santo patrono dos namorados fez-se porque a sua festa calhava, no dia 14 de Fevereiro, altura em que os passarinhos começavam a acasalar. Outra tradição que poderá explicar esta característica do santo em causa, mas de que não consegui apurar a fonte conta que S. Valentim casava em segredo os namorados nos tempos das grandes perseguições aos cristãos no século III.


O verso da folha, apresenta uma breve descrição da vida de S. Valentim em Latim
Quanto à minha estampa é uma folhinha solta, com a imagem de um qualquer S. Valentim de na frente e um breve texto no reverso. Comecei por tentar ler a súmula da história do santo em latim, na parte detrás da estampa.

Nela refere-se que se trata de Valentinus Episcopus. Portanto, se foi bispo certamente tratar-se-á de Valentim de Terni ou Valentim da Rethia e podemos excluir o Valentim de Roma. De seguida tentei ler o texto latino, recorrendo ao Google translator, pois o meu conhecimento desta língua é pobrezinho e lá consegui destrinçar que o Valentim aqui retratado lutou contra a heresia de Ario, andou pelo Tirol, e pela Áustria Superior, espalhou a verdade Cristã e morreu na paz do Senhor cerca de 440.

A antiga Rétia é hoje o cantão dos grisões na Suiça, parte da Áustria e Sul da Baviera
 
 
Estes dados coincidem perfeitamente com a vida de S. Valentim da Raethia ou de de Passau. Este Valentim era oriundo do território que é hoje a Bélgica e foi nomeado pelo Papa Leão I (440-461) para evangelizar a antiga província romana da Raethia, hoje o Tirol, parte da Áustria, o cantão dos Grisões na Suiça e algumas regiões do sul da Baviera, cujos habitantes estavam ainda presos aos antigos cultos pagãos ou eram seguidores de uma heresia cristã, o arianismo. Já depois da sua morte, no século VIII o corpo foi transferido para a cidade Bávara de Passau, que fica na fronteira entre a Áustria e a República Checa e por essa razão este Valentim, é também conhecido por Valentim de Passau.


Esta folha foi impressa em Tyrnaviae, actual Trnava na Republica Eslovaca, na imprensa do Colégio da Academia da Sociedade de Jesus, em 1763

Também há mais uma razão, para estar convencido que se trata de uma representação de S. Valentim de Passau, santo invocado na cura dos que sofriam de epilepsia. Esta gravura foi impressa mo ano de 1763, em Trnava, cidade da actual República eslovaca, na imprensa da antiga universidade Jesuítica.

Aspecto de Trnava, conhecida por Parva Roma, isto é, a Pequena Roma. À direita da Igreja pode-se ver as instalações da antiga universidade, que contava com uma oficina tipográfica, particularmente activa e de onde saiu esta folhinha com o S. Valentim
 
Trnava em eslovaco ou Nagyszombat em húngaro, cidade cheia de igrejas e que albergou a primeira universidade da Hungria no século XVII, conhecida como a pequena Roma não fica assim tão longe de Passau e é pois natural que esta folhinha solta se vendesse aos crentes devotos do S. Valentim da Raethia. Como é que esta gravurazinha da Eslováquia chegou a Portugal é uma boa pergunta. Mas o mundo católico romano formava já nesse século XVIII um todo coeso e  e circulavam gravuras e livros por todo o lado onde se obedecia a autoridade do Papa.

Em suma este meu Santinho nunca foi invocado pelos namorados no dia 14 de Feveiro. É um S. Valentim da Europa Central, mais sério, invocado na cura contra a epilepsia. Confesso-vos que fiquei alguma com pena, pois teria gostado que esta gravura representasse aquele episódio da Legende Dorée, de Jacques Voragine, em que se conta que S. Valentim de Roma curou a filha do seu carcereiro da cegueira e já imaginava a rapariga, com a visão recuperada, apaixonada, sem conseguir tirar os olhos do belo Valentim.



Alguma bibliografia e ligações consultadas:

Iconographie de l'art chrétien / Louis Réau. - Paris : Presses Universitaires de France, 1955.
La légende dorée / Jacques de Voragine. - Paris : Perrin et Cie., Libraires-Éditeurs, 1910.
https://fr.wikipedia.org/wiki/Valentin_de_Rh%C3%A9tie
A history of the church / Johann Joseph Ignaz von Döllinger
https://en.wikipedia.org/wiki/Trnava

quinta-feira, 2 de março de 2017

Ruínas: prato de faiança inglesa da Copeland



Comprei recentemente este prato de sobremesa da Copeland na feira de Estremoz. Na verdade, não pretendia compra-lo, mas o vendedor fez um preço conjunto irresistível para este pratinho e um prato de faiança portuguesa, no qual o meu amigo Manel estava interessado e lá voltamos para a casa os dois todos contentes, cada um com o seu prato na mão.

Este prato de faiança foi fabricado pela firma inglesa Copeland, cuja existência decorreu entre 1847 e 1970, muito embora a origem desta fábrica remonte à mítica Spode, comprada em 1833, pelos senhores William Taylor Copeland e Thomas Garrett. Em 1847 o Sr. Copeland tornou-se o único proprietário e a fábrica manteve-se com esse nome até 1970, altura em que retomou antigo e prestigiado nome Spode.
 
Marca incisa da Copeland
É um prato com marca, portanto a atribuição não oferece dúvidas. Mais, está também datado, conforme se pode ver pela marca incisa M75, que quer dizer que a peça foi fabricada em Março ou Maio de 1875.

Relativamente à decoração, que representa um edifício gótico em ruínas, ladeado por folhas de carvalho e bolotas. Descobri no blog da nossa amiga Maria Andrade, o Arte livro e velharias, que este padrão é conhecido ora pelo nome ruins ou Melrose. Fiz então umas pesquisas combinando aqueles dois termos no Google e descobri que a decoração deste prato possivelmente evocará as ruínas da Abadia de Melrose, na Escócia.
 
Este monumento arruinado tinha inspirado muitas gravuras românticas, que circulavam em Inglaterra na primeira metade do século XIX e que serviram certamente de modelo ao fabricante de faiança, Zachariah Boyle, que produziu entre 1823-1850, uma série de vistas de paisagens, castelos e mosteiros, as Antique Scenery Series, entre as quais se contavam as ruínas da Abadia de Melrose.
A Abadia de Melrose pela Boyle
A possível representação da Abadia de Melrose feita a partir de 1848 pela Copeland está mais longe da realidade do que aquela feita pela Boyle. Será apenas uma vaga evocação daquela ruína romântica ou talvez de um outro qualquer monumento em ruínas inglês, pois poder-se-a tratar de uma série decorativa da Copeland, com vários pratos, travessas e terrinas, cada um deles representando uma ruína da velha Albion 
 
 
 
No entanto, a decoração deste simples prato, com as ruínas, envoltas numa névoa, não deixa de ser sugestiva e parece-nos que ao longe ouvimos ventos uivantes e os ecos dos amores infelizes de Heathcliff e Cathy.