domingo, 24 de maio de 2015

Uma ferragem antiga estilo neo-renascença ou o gosto pela inutilidade

 
Talvez a psicologia encontre uma justificação racional para este meu gosto de comprar objectos insólitos dos quais desconheço a utilidade. Pessoalmente tenho dificuldade em explicar esta atracção por ferragachos, que encontro no chão das feiras. Talvez porque aparecem descontextualizados, estes objectos pareçam mais misteriosos e consequentemente mais valiosos do que aquilo que realmente são.

Foi certamente o que aconteceu com a peça de ferro que mostro hoje. É bonita, tem uns restos de pintura dourada, mas não sei de onde veio, nem para o que servia. Suspeito, que talvez fizesse parte de um antigo portão ou da estrutura de uma varanda de ferro forjado. Também não excluo a hipótese de ser um elemento decorativo de uma velha cama de ferro.


Olhando, para o reverso e para os pregos grosseiros que prendem a chapa decorada à base, percebo que é definitivamente antiga. Mais de 100 anos terá de certeza. Suspeito, que será coisa do século XIX, feita ao gosto neo-renascença, estilo que surgiu em França por volta de 1830-1848 e que perdurou por todo o século e prolongou-se ainda pelo século XX fora. Aliás, as casas de velharias estão cheias de conjuntos de salas de jantar, compostos por aparadores, louceiros, trinchantes, mesas e cadeiras construídas neste estilo. 

Sala de jantar em estilo neo-renascença no Palácio Nacional da Ajuda
Claro, não são peças tão boas como as da sala de jantar do Palácio da Ajuda aquelas que encontramos nas lojas e feiras das velharias, mas em todo o caso, a renascença foi para muitas famílias da burguesia o estilo preferido para o mobiliário de sala de jantar.

Quanto a esta minha peça, apresenta todas as características deste estilo, o mascarão, os enrolamentos e os brotescos. Não é uma verdadeira antiguidade, mas a ignorância que tenho da sua função original empresta um certo ar de mistério a este ferragacho, que decora a entrada da cozinha. 


sexta-feira, 8 de maio de 2015

S. Juliana de Nicomédia ou os prazeres do "bondage"


Quando no blog me faltam os temas, recorro sempre às estampas religiosas, objectos que estou sempre a comprar, sem saber exactamente o que me motiva, pois não sou crente. Com o passar dos anos desenvolvi um gosto quase eclesiástico e encanto-me em encher a casa com estes objectos piedosos e que, muitas vezes para o olhar de um ateu empedernido, acabam por ter uma certa conotação erótica, que as torna deliciosas.


Foi talvez por essa razão que comprei esta gravura representando uma S. Juliana de Nicomédia num turbilhão rococó absolutamente divertido, gravada em Augsburgo por Johann Baptist Klauber (1712-1787?) e Joseph Sebastian Klauber (1700?-1768), acerca dos quais já aqui escrevi e sobre a influência das suas produções na arte portuguesa. 

A história do martírio de S. Juliana é exactamente igual à de Santa Catarina de Alexandria ou Santa Bárbara ou à de muitas outras mártires do tempo das grandes perseguições aos Cristãos ordenadas pelo Imperador Diocleciano (284-305). Juliana era uma jovem que praticava o Cristianismo em segredo, quiseram-na casar com pagão, recusou-se e foi presa e objecto das mais horríveis torturas, como por exemplo, mergulhada num caldeirão com chumbo em estado de fusão. Enquanto sofria estes horríveis suplícios, Juliana era tentada pelo diabo, mas manteve-se firme e açoitou-o com as grilhetas da prisão e um chicote. A pobre Juliana acabou por ser decapitada em 304, em Nicomédia, a sua cidade Natal, que se situava na província da Bítinia, actual Turquia.

Esta minha estampa representa precisamente S. Juliana acoitando dois animais raivosos, com um chicote e uma grilheta. Contudo, ela não é apresentada em sofrimento, pelo contrário. É uma figura triunfante, que pisa e chicoteia Satanás, como se estivesse divertida e a tirar prazer desse acto, quase como se fosse uma adepta daquela prática sexual, que os ingleses designam por bondage.
 

Alguma Bibliografia:

Iconographie de l’art chrétien / Louis Réau. Paris: Puf, 1998

domingo, 26 de abril de 2015

Vaquinhas da Fábrica de Louça de Sacavém


Embora não seja um motivo decorativo muito vulgar e fácil de encontrar no mercado de velharias, o padrão vaquinhas é ao meu ver das decorações mais charmosas de Sacavém. A abadia em ruínas, as vaquinhas a pastar, os cavaleiros e a decoração são uma adaptação muito feliz dos motivos românticos da faiança inglesa.

Conforme já notou o MAFLS do blogue Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém, esta decoração só foi usada na louça sanitária, isto é, em peças como as que aqui agora apresento, um conjunto de gomil e lavanda ou em penicos. Portanto, este motivo não foi utilizado em serviços de chá, café ou jantar.

Não se sabe ao certo qual o padrão inglês, que deu origem a esta decoração, mas numa vista rápida pelos sites ingleses e americanos de faiança, parece inspirado nas chamadas english scenery, isto é, paisagens campestres e bucólicas da velha Albion, em particular nas decorações Abbey e o Cattle Scenery.
O padrão Abbey foi popular na faiança inglesa
O motivo Abbey  representava uma abadia gótica em ruínas e deve ter sido muito popular, pois assim numa pesquisa à vol d'oiseau, como diria a Princesa Rattazzi, percebi que foi produzido por umas quantas fábricas inglesas, como exemplo pela Livesley Powell, Williams Adams, Gorge Jones em Inglaterra, mas também  mais tarde por Petrus Regout, em Masstricht, na Holanda. Este padrão traduzia o gosto muito peculiar que romantismo do século XIX tinha pela ruína e sobretudo pela Idade Média. Aliás, é no século XIX, que a Idade Média começa a ser objecto de grande interesse pela historiografia.
Prato com o padrão Domestic Cattle, atribuído a Careys
Por outro lado, as vaquinhas de Sacavém parecem ter ter ido buscar também inspiração a outros motivo populares da das paisagens campestres inglesas, como a Cattle Scenery ou o padrão da Milkmaid, este último, já mostrado pela nossa Maria Andrade, num dos seus concorridos chás de terça-feira.


Em termos de datação, o gomil e a lavanda, apresentam marcas diferentes. O gomil parece apresentar a marca 729 do Dicionário de marcas de faiança/ Filomena Simas, Sónia Isidro. – Lisboa: Estar Editora, 1996 e portanto terá sido fabricado por volta de 1885. A Lavanda ostenta no reverso a marca 214 do mesmo Dicionário e portanto foi feita entre 1880-1896. Enfim, para simplificar a coisa, as duas peças datam dos últimos quinze anos do século XIX.

Mas é curioso observar que não só as datas são distintas, a decoração difere ligeiramente da lavanda para o Gomil. Na primeira peça há vaquinhas e ovelhas a pastar, mas também há um cavaleiro, que talvez dirija galanteios a uma linda pastora e tudo isto com a abadia gótica lá ao fundo. 
No Gomil, os cavaleiros conduzem as ditas vaquinhas a um ribeiro, onde estas bebem água. 
As próprias reservas não iguais. Uma paisagem com barcos num rio com aquilo que ao fundo parecem ser as pirâmides de Gizé preenche as reservas da lavanda. 

No Gomil também há barcos num rio, com um jarrão clássico em primeiro plano e um templete em último plano.
Enfim, esta mistura de paisagens inglesas, abadias medievais em ruínas e pirâmides do Egipto é bem típica do século XIX e foi concebida de forma muito feliz nestas peças de Sacavém de inspiração inglesa, que pertencem ao meu amigo Manel.


sexta-feira, 17 de abril de 2015

Uma antiguidade romana ou brincando às falsificações


Desde há alguns anos que alimento uma paixão por bronzes romanos, aquelas estátuas e estatuetas, danificadas pelo tempo ou cheias de musgos que os arqueólogos recuperam do fundo do mar. Em Mérida, muito perto do Museu Nacional Romano existia uma loja especializada em réplicas de peças romanas, que vendia reproduções fantásticas de lucernas, vidros, mosaicos e de estatuetas de bronze, que eram tão deslumbrantes como caras. O proprietário, um francês radicado em Mérida há muitos anos, explicava que se inspirava em peças originais de bronzes romanos, para executar cópias segundo o antigo método da cera perdida, e que depois as enterrava, para ganharem aquele verdete, aquela patina que os objectos antigos, que dormiram longos séculos debaixo da terra apresentam sempre.
Estatuetas de bronze romanas e helenísticas no The Metropolitan Museum of Art
Fiquei sempre com aquelas réplicas das antigas estatuetas de bronze atravessadas na cabeça, mas eram tão estupidamente caras, que desisti rapidamente da ideia de ter uma delas. De vez em quando, quando comprava um bilhete do Euromilhões,  lembrava-me delas e pensava que se um dia ganhasse um prémio grande iria de propósito a Mérida comprar uma daquelas réplicas.
Há pouco tempo encontrei na Feira de Estremoz uma cópia ordinária de um busto de um imperador romano, provavelmente feita numa liga com antimónio, estanho e chumbo, imitando o bronze, aparafusado a um plinto muito feio. Comprei-a e como a peça foi baratinha e não tinha nada a perder se a estragasse, resolvi seguir o método do senhor francês para envelhecer as peças e enterrei-a durante uma boa temporada no jardim do Manel. Reguei-a muito bem e deixei-a estar assim umas três semanas em repouso. A fim desse tempo, tirei-a da terra, lavei-a com água, mas não gostei do resultado. A reacção química da liga de antimónio, estanho e chumbo com a terra do quintal do Manel provocou-lhe o aparecimento de manchas brancas em vez de fungos verdes como eu pretendia. Voltei a enterra-la mais uma semana, mas desta vez, quando a retirei, a conselho do Manel, não a lavei. Limitei-me a escovar a terra, deixando-lhe alguns restos e de facto se não ficou com uma patina que eu desejava, ganhou um certo ar de antiguidade arqueológica, como dizem os franceses de objet trouvé.

sábado, 11 de abril de 2015

Um lua sorridente: paliteiro da Vista Alegre


Tenho uma atracção muito especial por bibelots de porcelana antigos, esses objectos, que abundavam nas casas burguesas nos finais do século passado, princípios do século XX, num tempo em que ninguém se preocupava muito em decorar com contenção ou sobriedade. Por essa razão não consegui resistir a esta lua sorridente, que encontrei na feira de Estremoz. É um paliteiro da Vista Alegre e normalmente estas peças são muito procuradas por alguns coleccionadores, por exemplo, a Fundação Medeiros e Almeida, aqui em Lisboa, tem uma belíssima e completa colecção destes paliteiros da fábrica de Ílhavo. Contudo, como este paliteiro foi partido e colado, consegui compra-lo, por um preço muito aceitável.

O paliteiro encontrou um lugar na minha casa, no meio dos bules e chávenas com decorações vitorianas. Como diria um certo coleccionador francês, uma boa peça encontra sempre o seu lugar numa casa.

Embora muito desvanecida, a marca parece-me a nº21, verde grande fogo, o que significa que este paliteiro terá sido fabricado entre 1881-1921.

Encontrei um paliteiro mais ou menos semelhante na obra Paliteiros da Vista Alegre / Jorge Manuel Ferreira. Lisboa: Caleidoscópio, 2006 e muito curiosamente é identificado como representando o Sol e a Lua. A cara sorridente será o sol, a base, a lua em quarto crescente, e o azul do pedestal representará o céu, conforme observou o meu amigo Humberto. No entanto, esta Lua sorridente e brincalhona, que talvez afinal seja seja um Sol só me recorda o filme mudo Le Voyage dans la lune, realizado em 1902, por Georges Méliès. 
É um filme contemporâneo da produção desta peça, com cerca de 8 minutos, absolutamente delicioso, com astronautas de chapéu alto a visitar a lua, e que se defendem dos ataques dos selenitas com golpes de guarda-chuva e ainda mete um cortejo de bathing beauties a festejar a partida e chegada do foguetão.


domingo, 5 de abril de 2015

Um combatente nas guerras da Restauração: Francisco Fernandes Montalvão (1635-1715)


Recentemente, andei a tratar de compilar elementos sobre o solar dos Montalvões, para que este constasse na base de dados sobre património arquitectónico, monumentos.pt. Quando enviei os dados sobre o brasão que está na casa, uma das técnicas, que faz a gestão da base chamou-me a atenção para o facto de que estava errada a leitura tradicional da pedra de armas, que afirmava que de um lado estavam representados os ferreira e do outro lado os álvares. Se com efeito, no lado direito, estão as riscas horizontais dos ferreiras (eu ainda sou Ferreira Montalvão), do lado esquerdo encontram-se oito besantes, com aquilo que parecem ser cruzes de Cristo e de que afinal não sabemos que a família pertencem.

Os Ferreira de um lado com as 4 tiras horizontais e do outro lado 8 besantes ou escudetes com cruzes de Cristo, armas  família não consigo identificar.
Consultei alguns manuais de heráldica e as armas mais parecidas com aqueles oito escudetes ou besantes correspondem a nomes que nunca cruzaram os seus destinos com os da família Montalvão. Segundo o livro de genealogia Os Montalvões, escrita por J. T. Montalvão Machado, em 1948, os membros desta família casaram ao longo dos séculos XVII e XVIII com Morais, Morais Sarmento, Campilhos, Castros, Coelhos, ou os Álvares Ferreira.

Face a este mistério e muito embora uma boa parte do chamado cartório da nobreza tivesse ardido com o terramoto, resolvi partir à consulta das fontes, na esperança de encontrar qualquer referência, ainda que indirecta a pedras de armas da família, que me permitisse resolver este mistério.

Como hoje em dia a maioria dos arquivos, tem os seus fundos inventariados on-line, comecei por pesquisar na Torre do Tombo, por Montalvão, tendo o cuidado de pôr de parte tudo o que disse-se respeito aos marqueses de Montalvão, que são da família Mascarenhas, à vila de Montalvão, no Alentejo, ou a documentação dos séculos XIX e XX, já que o brasão parece-me coisa do Século XVIII e de facto encontrei alguns resultados pertinentes no registo geral das Mercês.


No livro 13, fólio 31, nas Mercês de D. Pedro, encontrei uma referência ao meu nono avô, Francisco Fernandes Montalvão, um senhor do qual não sabia mais nada, além de que que viveu entre 1635 e 1715 e era filho do primeiro Montalvão, que se instalou em Portugal, vindo da vizinha Galiza, um Joseph Montalban. Sempre imaginei que este Francisco Fernandes Montalvão fosse um proprietário rural, abastado, com uma existência banal e pacata, dedicando os seus tempos à criação de vacas, ora contando os alqueires de centeio ou ainda correndo atrás das criadas. Com efeito, pela leitura do documento, acabo por perceber que este homem foi um combatente das guerras da restauração, que percorreu todos os teatros de operações do conflito luso-espanhol, do Minho ao Alentejo e de Trás-os-Montes à Beira. Teve uma vida cheia de aventuras e ter-se-à portado com heroísmo nestes combates, de outra forma o Rei D. Pedro não lhe teria concedido uma pensão em dinheiro e o hábito da Ordem de Cristo, ao seu filho Francisco de Montalvão Coelho, meu oitavo avô.

O meu nono avô era capitão da ordenança do lugar da Vila de Frades, aldeia do Concelho de Chaves, junto à fronteira e entre 1660 e 1695 governou uma companhia em Mairos, outra aldeia a Norte de Chaves, também junto à fronteira espanhola. Muito embora o vale de Chaves, tenha sido uma das entradas tradicionais dos exércitos invasores de Portugal (a segunda invasão francesa passou a fronteira pelo vale de Chaves) o principal teatro de operações das Guerras da Restauração foi o Alentejo. Assim a Beira, Trás-os-Montes e Entre-Douro-e-Minho tinham exércitos provinciais mais reduzidos do que o Alentejo e esses contingentes eram deslocados muitas vezes para socorrer uma província ou outra, sobretudo a fronteira Alentejana, onde os combates eram quase sempre duríssimos. Em suma, o meu antepassado fez parte desses contingentes móveis, que foram sendo destacados do Norte a Sul do País, cada vez que o inimigo exercia pressão sobre um ponto qualquer de uma fronteira, que se estendia por mais de 1200 km

Assim, no ano de 1663 o meu nono Avô, Francisco Fernandes Montalvão, saiu de Trás-os-Montes e marchou para a ribeira do Caia, a Norte de Elvas onde se tinha desencadeado uma ofensiva inimiga terrível. Os espanhóis, romperam as linhas de Elvas, tomaram Évora e chegaram até Alcácer do Sal. Esta expedição só terminou com a sua derrota espanhola na Batalha do Ameixial.


Porem, o meu avô, não parou por aí. Nesse mesmo ano regressou a Trás-os-Montes e participou na campanha de Vilarelho na entrada que fez em Galliza, sem dúvida umas muitas incursões portuguesas ordenadas pelo Conde de S. João, governador das armas da província de Trás-os-Montes, que consistiam na pilhagem e saque das terras galegas na fronteira. Ainda em 1663, o meu antepassado passou à Beira na defença de hum comboy de mantimentos que hia pera o nosso exercito em que derrotou o inimigo com morte de 4 capitães de cavallos , muitos officiais e mays de 250 soldados"

Em 1664, Francisco Fernandes Montalvão foi destacado para o Minho onde foi um dos muitos homens que ajudou a recuperar o castelo de Lindoso, terra minhota tomada pelos Espanhóis em 1662, sob o comando do General Pantoja. Ainda em 1664, o meu avô marchou em socorro do Alentejo onde "se achou no Rendimento de Alcântara", praça forte na Estremadura espanhola, que os portugueses conquistaram.


Em 1665, o meu antepassado atravessou novamente o País inteiro em direcção ao Minho e juntamente com outros portugueses, atravessam o rio que divide Portugal e Espanha e conquistaram vila galega de La Guardia, que se tornou portuguesa por três anos. E no mesmo anno passar a Alentejo e assistir na batalha de Monte Claros masandose he nella o cavallo em que o hia montado e sahio ferido. Portanto, o meu antepassado, combateu e foi ferido numa das maiores batalhas de sempre da história portuguesa, Montes Claros, a 17 de Julho de 1665, acontecimento que pôs um fim definitivo às pretensões espanholas sobre Portugal, aliás três anos mais tarde Portugal e Espanha selaram uma paz definitiva.

Voltou ainda para Trás-os-Montes, onde se achou  no encontro que houve com 5 tropas de cavallos inimigas que foram postas em fugida com morte de muitos e outros prezioneiros.

Foram estes os principais feitos deste meu antepassado narrados no fólio 31, livro 13 das Mercês de D. Pedro, que combateu no último período das guerras da Restauração e que foi também o mais encarniçado e violento, já que a partir de 1659, depois de debelada a insurreição da Catalunha, os espanhóis ficaram com as mãos livres para atacar Portugal. O percurso de Francisco Fernandes Montalvão de Norte a Sul do País, constitui também um bom exemplo das características militares da restauração, que foi sobretudo uma guerra de posições, intercalada com uma outra ofensiva espanhola. Normalmente, a coisa passava-se da seguinte forma, os espanhóis iam pôr cerco a Elvas e os portugueses ripostavam, tomando Valência de Alcântara. Os Espanhóis atacavam Valença do Minho e o nossos pilhavam e incendiavam aldeias galegas em frente à Bragança ou Chaves.

Não descobri nada acerca se este Francisco Fernandes Montalvão, ou seu Filho, Francisco de Montalvão Coelho, pediram cartas de armas em virtude destes feitos, mas mais muito significativo que a questão heráldica, foi recuperar a memória deste meu avô, de que a genealogia reteve apenas das datas de nascimento e morte e do qual sinto orgulho, pois foi um dos muito heróis anónimos, que permitiram a Portugal vencer uma guerra de 28 anos, contra uma das maiores potências europeias de então, a Espanha. 

Alguns links úteis:



quinta-feira, 26 de março de 2015

Maria Egipcíaca: uma estampa com sabor a pecado

Sempre tive uma certa atracção pela figura de Maria Egipcíaca, essa santa que andava a vaguear nua no deserto, coberta apenas pelos seus longos cabelos, de modo quando vi uma estampa antiga à venda com a sua imagem e comprei-a, sem pensar duas vezes, sobretudo sem saber como conseguirei arranjar espaço para encaixa-la lá em casa.
A imagem representa o encontro de Maria Egipcíaca, que deambulava em penitência pelo deserto há 47 anos, com S. Zósimo. Quando a Santa o encontra, pede-lhe um manto para cobrir a sua nudez, conta-lhe então a sua história e S. Zósimo dá-lhe a comunhão. Ao fundo vê-se uma caveira e uma cruz, atributos que costumam acompanhar a imagem desta santa e que a fazem muitas vezes confundir com Santa Maria Madalena, outra pecadora arrependida. A caveira significa como são efémeras as vaidades do mundo e a cruz simboliza a Salvação, o único e verdadeiro fim, que deverá nortear o caminho a seguir por todos os homens e mulheres.
 
A iconografia de Maria Egipcíaca e Maria Madalena confunde-se facilmente. São representadas com longos cabelos, as vestes a escorregarem, uma cruz e a caveira. Madalena Penitente por Luca Giordano. Museu do Prado

Desta Maria Egipcíaca, que terá vivido por volta do século V depois de Cristo não há propriamente registos escritos da época, que testemunhem a sua existência. A história da sua vida aparece pela primeira vez escrita, por um tal Sophronios, Patriarca de Jerusalém, no século VII, e depois disso o assunto foi repetidamente contado novamente por vários autores piedosos. O mais curioso é que enquanto no Oriente, os relatos centraram-se mais na vida de S. Zósimo, no Ocidente, durante a Idade Média os hagiógrafos e os poetas transformam em protagonista Maria Egipcíaca. Forma-se nessa época a lenda que ainda hoje se lê em toda a parte, da jovem que se prostituía em Alexandra, mais por prazer do que por dinheiro e que um dia partiu para Jerusalém, não porque lhe interessa-se a espiritualidade da cidade, mas em busca de mais aventuras. Conta-se que pagou a viagem com o seu próprio corpo entregando-se aos vários marinheiros da tripulação. Em Jerusalém, um dia, por acaso, tentou entrar na Igreja do Igreja do Santo Sepulcro e uma força qualquer estranha impedia-a de entrar. Percebeu-se que havia qualquer coisa de profundamente errado na sua vida, arrependeu-se e então ouviu uma voz dizendo-lhe para atravessar o rio Jordão, pois só ali encontraria o descanso. E esta mulher habituada aos prazeres da vida, larga tudo e parte em direcção ao deserto, levando apenas três pães com ela. Viverá como eremita, as suas roupas acabarão por desfazer-se e a apenas os seus longos cabelos desgrenhados cobrirão a sua nudez.
Na literatura que se formou sobre a vida de Santa Maria Egipcíaca, a aventura e o erotismo tem um peso evidente, camuflado por debaixo de uma história piedosa. A última comunhão de Sta. Maria Egipcíaca, por Sebastiano Ricci, c. 1695. The National Gallery of Art
Uma autora americana Connie L. Scarborough, num artigo intitulado Santa María de Egipto: la vitalidad de la leyenda en castellano, sublinha que em toda esta literatura que se formou sobre a vida de Santa Maria Egipcíaca, o que mais se destaca é o lado aventuroso, em detrimento do sagrado. No fundo criou-se um relato, onde a aventura e o erotismo tem um peso evidente, camuflado por debaixo de uma história piedosa e que encontrou grande popularidade, na Idade Média, época de repressão sexual e que continuou a seduzir senhoras piedosas, cavalheiros respeitáveis, castas donzelas, monges e freirinhas, por esses séculos fora.


A estampa foi impressa em Lisboa, gravada por Gaspar Frois Machado (1759-1796) e vendia-se na casa de Francisco Manuel no fim da Rua do Passeio, isto é o Passeio público, o jardim público criado durante o consulado pombalino em 1760 e destruído a partir de 1879 para rasgar a Avenida da Liberdade. Portanto a gravura, até a julgar pela decoração neoclássica da cercadura deve ter sido impressa nos últimos anos do Século XVIII ou nos primeiros anos do Séc. XIX.

Esta estampa apresenta a legenda, S. Maria Egypciaca da Goarda Real, porque a referida Santa foi a padroeira da Guarda Real dos Arqueiros, cuja irmandade tinha sede na Igreja dos Mártires em Lisboa. Explica-se assim também o escudo real português no topo da cercadura do registo. Não consigo é explicar porque é que uma pecadora, ainda que muitíssimo arrependida, fosse padroeira da Irmandade da Guarda Real dos Arqueiros. Talvez houvesse qualquer associação entre a flechas dos arqueiros e o arrependimento, que atingiu como uma seta o coração de Maria Egipcíaca, ou talvez os guardas, que protegiam a família real experimentassem algum prazer erótico em pensar na protecção desta mulher que caminhava nua pelo deserto.


Em todo o caso, depois de comprar esta estampa e pelo que li sobre ela, fiquei a apreciar ainda mais esta figura lendária e o seu gosto pela aventura e pela liberdade, que se manifestou sempre, mesmo depois de arrepender. Deambular nua pelo deserto, sem constrangimentos de qualquer espécie é sem dúvida um acto de supremo de liberdade e um desejo de absoluto, que nos nossos tempos nos parece estranho.