quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

O retrato de um jovem das terras frias de Vinhais


Volto outra vez ao tema de identificação das fotografias antigas de família, que nos últimos tempos se tornou quase uma obsessão. Não sei que impulso me leva a perder tanto tempo com retratos de pessoas fotografadas no último quartel do século XIX, de que já ninguém se lembra e que nem tão pouco marcaram a história. Talvez seja uma forma de eu fugir a um presente, demasiado agressivo ou ainda a consequência de uma deformação profissional de bibliotecário, em que preciso de um passado estudado, ordenado e classificado, tal como os livros dispostos por temas nas estantes de uma biblioteca.

Desta vez não é nenhuma fotografia de um Montalvão ou de alguém das suas relações, mas de uma personagem do lado materno, dos Morais, uma família de lavradores relativamente abastada das terras frias de Vinhais. Em Março de 2013 tinha já tinha apresentado este retrato de um jovem bonito e que encontrei na colecção de fotografias da casa de Vinhais. A fotografia não apresentava uma dedicatória, uma legenda, uma data ou a identificação do fotógrafo sequer para que eu pudesse apresentar uma eventual identificação. Contudo, pela indumentária e pelo tipo de fotografia pareceu-me ser uma prova feita por volta de 1875 e como se encontrava numa colecção familiar, presumi que fosse um antepassado ou um parente, ou eventualmente alguém das relações de amizade dos Morais. Como nesta altura, já se coleccionavam fotografias de membros das casas reais e até de actores, cheguei a pensar se este jovem bonito seria algum príncipe, mas faltavam-lhe os atributos de realeza que sempre esses retratos tinham ou até mesmo o aplomb dessa gente, ainda que posassem como simples burgueses. Mas, mesmo em saber nada deste desconhecido, gostei tanto do retrato, que resolvi posta-lo como se fosse um símbolo de tudo aquilo que se perde da memória familiar. 

Retrato identificado de Manuel Agostinho de Morais (1854-1934) as semelhanças com o retrato do desconhecido são grandes.

Durante o confinamento em que todos os dias tinha que ir dar o jantar ao meu pai, aproveitei para consultar uma compilação, que este fez da história da família materna e fui fotografando todos os documentos e a certa altura encontrei a fotocópia de um retrato de um tio-bisavô e as semelhanças com o retrato do desconhecido eram grandes. Esse antepassado era o tio Manuel Agostinho de Morais (1854-1934), irmão do meu bisavô Clemente da Ressurreição e da sua vida, sei que seguiu uma carreira eclesiástica e e uma ou duas histórias, que sobreviveram na tradição familiar. Nasceu na Quadra, uma aldeia transmontana perdida nas serras, quase junto à fronteira com Espanha e era filho de Zeferino Urbano de Morais (1812-1894), uma espécie de antepassado primordial, porque foi o primeiro a usar o apelido de Morais, em substituição do de Gonçalves, por uma razão qualquer que escapa ao nosso entendimento. Os pais destinaram-no a uma carreira eclesiástica e em 1879 já estava a celebrar a sua primeira missa. Estranhamente, os seus pais forçaram outro dos seus irmãos a seguir igualmente uma carreira religiosa, o meu bisavô, Clemente da Ressurreição Morais. A luz dos nossos dias, parece-nos inusitado, que os pais tenham decidido, que dois filhos se deviam tornar padres. Mas creio que para além do factor da fé, teriam existido também razões económicas, a primeira seria evitar o fraccionamento da propriedade, pois os padres acabariam sempre por legar os seus bens aos irmãos casados e depois a carreira sacerdotal, permitia uma garantida ascensão social e económica e facto, quando o Padre Manuel Agostinho de Morais morreu em 1934 deixou avultadas quantias ao irmão e ao sobrinho, pelo julgar pelo imposto sucessório, que estes últimos pagaram. Ao contrário do irmão, o meu bisavô, Clemente da Ressurreição nunca quis tomar votos e pretendeu estudar em Coimbra, ganhando com isso a animosidade dos pais durante muito tempo. Conta-se ainda na família, que quando o Clemente comunicou à mãe, que não queria ser padre e pretendia estudar em Coimbra, minha trisavó, a Francisca Vicência (1824-1892) lhe terá dito, senão és padre, não és nada e com efeito o Clemente não estudou mais e tornou-se um mero lavrador.

Clemente da Ressurreição, meu bisavô e irmão de Manuel Agostinho


Ao contrário do irmão e apesar de ser um jovem tão bonito, com uma aparência capaz de despertar paixões carnais, o Manuel Agostinho de Morais não contrariou à vontade paterna e tomou ordens, exercendo a sua acção pastoral em várias aldeias da zona e acumulou um belíssimo pé-de-meia. Vivia em Santalha, outra aldeia ali da zona de Vinhais, numa daquelas casas antigas de lavrador abastado, típicas da região, em que para se entrar em casa, é preciso penetrar num pátio. Ao fundo desse pátio, estava a casa e no primeiro andar existia uma daquelas varandas em madeira, onde se sentava esse meu tio-bisavô, armado, atento a qualquer barulho e prestes a disparar sobre qualquer intruso suspeito. Na sala, guardava numa gaveta os seus objectos de valor. Esta história, que sobreviveu na tradição familiar e que nos parece pouco consentânea com o comportamento de um homem de Deus, deve de algum modo relfectir o clima de insegurança, que se viveu nos Concelhos de Vinhais e Chaves, durante as incursões de Paiva Couceiro, entre 1911 e 1912 , essas accões militares vindas de Espanha com o intuito de restaurar a monarquia em Portugal. 

Em 1911 as terras de Vinhais estão a ferro e fogo. Os republicanos perseguem os monárquicos e dão caça aos padres. Imagem da Ilustração Portuguesa, 2.ª série, n.º 296, 23 de Outubro de 1911. Hemeroteca Digital

A primeira incursão, entrou por Bragança e os monárquicos, ou paivantes como eram conhecidos na altura, tomaram Vinhais, mas pouco depois fugiram em debandada, por Vilar de Ossos, Tuizelo e Quadra, aldeias vizinhas de Santalha, em direcção a Espanha. No ano a seguir, os monárquicos exilados em Espanha, voltaram a entrar em Portugal e atacaram Chaves, mas foram novamente derrotados. A consequência destas incursões comandadas por Paiva Couceiro no Norte foi uma verdadeira perseguição aos padres pela tropas republicanas, que os consideravam colaboradores dos monárquicos e muitos foram presos e outros fugiram para Espanha. Este clima de insegurança e de caça aos monárquicos e aos padres deve-se ter prolongado até 1919, quando se dá a última tentativa de derrubar a a República em Portugal, a chamada Monarquia do Norte. Embora não conheça as convicções políticas deste meu tio bisavô, imagino que entre 1911 e 1920, deva ter vivido grandes sustos, imaginando sempre o dia, em que o iriam prender na sua casa, por essa razão teria sempre a arma perto de si, à entrada de casa.
Iº incursão de Paiva Couceiro. Imagem retirada de Um herói português: Henrique Paiva Couceiro / Vasco Pulido Valente. - Lisboa: Aletheia editores, 2006

Mas, voltando ao retrato, parece-me efectivamente que será do meu tio-bisavô, o Padre Manuel Agostinho de Morais, embora não esteja inteiramente seguro. Poderá até ser do meu bisavô, o Clemente da Ressurreição, de que só conheço retratos enquanto homem maduro ou velho ou ainda de um terceiro irmão, o José Clemente (1856-1919), de que não tenho nenhuma imagem, mas certamente é um dos três. Em todo o caso, senti que consegui desvendar um pouco do segredo desta fotografia e conhecer um pouco a história deste meu tio trisavô, um homem bonito, padre, rico e que andava armado.




Um agradecimento especial ao Humberto Ferreira de Outeiro Seco e ao meu irmão, José Montalvão Cunha


quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Um pesado relógio burguês


Talvez nesta época, quem que passagem do ano se aproxima e em que sentimos que o tempo passa sempre demasiado depressa, seja adequado mostrar no blog este relógio francês, que o meu amigo Manuel comprou recentemente. 

É um objecto pesado, opulento, destinado a decorar uma casa burguesa do passado, num tempo em que a decoração de interiores se caracterizava por uma ornamentação excessiva e em que se queria mostrar riqueza, mas também respeitabilidade. E este último sentimento tão burguês alcançava-se usando objectos de decoração e mobiliário, que fizessem referência ao passado, aos grandes estilos artísticos, como a Renascença, o Luís XIII, o Luís XV, o Luís XVI ou Império. No fundo os burgueses queriam uma casa com aquilo que os aristocratas tinham de sobra e a eles lhes faltava, um passado. 

Medaille d’Argent, 1855. Vicent & Cie

Numa primeira abordagem, quando olhamos para este relógio e pensamos de imediato, isto é uma coisa da segunda metade do século XIX, provavelmente no tempo em que Napoleão III era imperador dos franceses (1852-1871). Com efeito, quando o meu amigo Manel abriu o relógio para o restaurar, o mecanismo apresentava uma marca incisa do fabricante, com uma data, 1855. Mais precisamente a inscrição  Medaille d’Argent, 1855. Vicent & Cie. Este rótulo significa que o seu fabricante, a companhia francesa a Vicent & Cie ganhou uma medalha de prata na Exposição Universal de 1855 de Paris, que foi precisamente inaugurada por Napoleão III.

Napoleão III inaugura a Exposição Universal de Paris em 1855

Porém, olhando mais atentamente o mecanismo, encontra-se outra marca incisa, com a data de 1915. Portanto este relógio é muito posterior ao chamado período do II Império (1852-1871). Quando foi fabricado já se combatia nas trincheiras em França.

Data de 1915

Este pormenor é muito interessante pois desfaz-nos um bocadinho o conceito de periodização dos estilos artísticos. Nas escolas ou nos livros aprendemos que a Arte Nova começou em 1900 e o Estilo Arte Deco em 1925. Ficamos com a falsa ideia que a partir de 1900 todos os objectos decorativos apresentam as linhas fluidas Art Nouveau e que a partir de 1925, os relógios, as mobílias e os candeeiros são em Art Deco. Na verdade, os estilos revivalistas do século XIX continuaram a ser usados pelo século XX fora e as famílias da boa burguesia preferiam sempre adquirir um canapé ao estilo Luís XVI, do que uma moderníssima cadeira Barcelona, desenhada por Mies Van der Rohe.

Este objecto é o chamado relógio de chaminé, designado pelos franceses pendule de Paris e como o próprio nome indica destinava-se a ser colocado sobre a chaminé da sala, mas também por vezes numa cómoda, acompanhado de outras peças decorativas, como castiçais, jarrões da China ou figuras em porcelana, mas sempre em número impar. Os principais fabricantes franceses destes relógios foram Jappy, Marty, Pons e precisamente Vincenti, companhia fundada em 1823 por Jean (Ghjuvanni-Giovanni) Vincenti e que se manteve em actividade até 1923.



As formas do relógio inspiram-se na escultura clássica da antiguidade e são representações alegóricas muito caras a toda a arte europeia. A jovem envergando uma veste inspirada na Grécia segura um martelo numa mão, na outra, um escopro e um busto e será muito possivelmente uma alegoria à arte da escultura. Os meninos ou putti, representarão a música e o desenho. Serão talvez as artes que estiveram envolvidas na concepção do relógio, o desenho, para o mecanismo e a forma, a escultura para as figuras e a música para as suas badaladas. 

Este relógio é sem dúvida um objecto fora de moda, que se encaixa muito neste blog de velharias, escrito por mim, que não tenho muita paciência para os temas em voga.


Alguns links e bibliografia consultados: 

https://www.proantic.com/display.php?mode=obj&id=548481

https://fr.wikipedia.org/wiki/Pendule_(horlogerie)

https://fr.wikipedia.org/wiki/Exposition_universelle_de_1855

http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b53024709w/f1.item

Le XIXe siècle français: Paris. Hachette, 1957

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Uma estampa veneziana da segunda metade do século XVIII ou votos de boas festas


Os seguidores deste blog já sabem que não sou muito dado a efemérides, comemorações, quadras festivas e outros assuntos da mesma natureza. Mas o Natal é sempre uma oportunidade para mostrar mais uma estampa religiosa.

Esta gravura é uma representação do Sono do Menino Jesus, impressa em Veneza, mais ou menos entre 1770-1800, por Niccolò Cavalli (1730–1822), gravada por Pellegrino dal Colle (1737–1812) a partir de uma obra do pintor Giovanni Battista Mengardi (1738-1796). 

Gio. Batta. Mengardi pinx. e Peregrinus de Colle Sculp. ap. N. Cavalli Venetiis.

Identifiquei os criadores desta estampa a partir dos dados constantes no rodapé, Gio. Batta. Mengardi pinx. e Peregrinus de Colle Sculp. ap. N. Cavalli Venetiis. São os nomes dos autores latinizados e a respectiva função na realização da gravura. Em latim, pinx quer dizer pintou, Sculp, esculpiu ou melhor gravou e Ap, é a abreviatura de Apud, isto é, imprimiu ou editou. Nesse último quartel do século XVIII o latim tinha ainda prestígio suficiente para os autores identificarem o seu trabalho nessa língua, pelo menos nas gravuras. O que fiz foi colocar estes dados no google e rapidamente cheguei ao sítio do British Museum, que tem uma estampa quase igual, onde os autores estavam perfeitamente identificados. Refiro, quase igual, porque a estampa da colecção do British Museum foi impressa no sentido inverso ao daquela, que pertence ao meu amigo Manel, o que leva a pensar que esta gravura teve várias reimpressões.
Ego dormio, et cor meum Vigilat. Estampa do British Museum. 

O título da estampa é o seguinte: Ego dormio, et cor meum Vigilat, frase latina, extraída da Bíblia, do Antigo Testamento, do livro Cântico dos Cânticos e que em português se traduz por Eu durmo; e o meu coração está desperto

Ego Dormio Et Cor Meum Vigilat, Desenho de Jacopo Amigoni (1682-1752) e gravada por Giovanni Volpato - Ca. 1730

Esta frase reporta-se ao tema da gravura, o sono do Menino Jesus, um tipo iconográfico do Deus Menino muito comum na pintura e na gravura nesta época, que o representa a dormir numa prefiguração da sua paixão e morte futura. Na mão segura uma romã, cujas bagas vermelhas simbolizam o sangue de Cristo e à sua cabeceira, há também um cacho de uvas de idêntica simbologia. Naturalmente, este sono do Menino significa também, que enquanto o seu corpo dormia, a alma continua activa pensando em todos os tormentos porque havia de passar para reconciliar o Pai com a humanidade.

Na mão segura uma romã, cujas bagas vermelhas simbolizam o sangue de Cristo e à sua cabeceira, há também um cacho de uvas de idêntica simbologia

Não consegui apurar se esta estampa foi retirada de um livro ou se foi já destina a ser vendida solta em todo o caso foi realizada a partir de uma obra do pintor italiano Giovanni Battista Mengardi (1738-1796), um discípulo de Tiepolo. É sobretudo conhecido pelas suas pinturas a fresco em Igrejas, mas desempenhou também um papel importante na República Veneziana, como responsável pelo património, tendo restaurado algumas obras de grandes mestres italianos. A sua actividade como desenhador de obras destinadas a serem gravadas é menos conhecida, mas foi muito activa, conforme indica Valerio Vernesi no Dizionario Biografico degli Italiani - Volume 73 (2009)

Esta estampa não é bem uma Natividade, nem Giovanni Battista Mengardi é propriamente um grande mestre italiano, mas não deixa de ser um trabalho veneziano de boa qualidade e uma boa forma de vos desejar a todos umas boas festas.



Alguns links e obras consultadas: 




Bíblia / trad. do texto grego, apresentação e notas Frederico Lourenço. - 1a ed. - Lisboa : Quetzal, 2016

http://www.artericerca.com/artisti_italiani_settecento/mengardi%20giambattista/giambattista%20mengardi%20biografia.htm

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Ainda a biblioteca do Solar de Outeiro Seco ou as andanças de um livro

Enchiridium Missarum Sollemnium

Escrever repetidamente neste blog sobre uma casa que já não é da família e cujo recheio foi irremediavelmente disperso pode parecer um exercício inútil e saudosista. Com efeito, esse velho solar transmontano foi pela família vendido à Câmara Municipal de Chaves, que o deixou arruinar e esta, por sua vez vendeu-o a um privado, que se propõe fazer um projecto de reconstrução criminoso. No fundo, as mobílias do solar, o museu e a biblioteca desapareceram e o próprio edifício vai ser engolido e descaracterizado por uns anexos sem gosto.


O passado: a fachada poente do Solar


O passado: a fachada Sul do Solar



O futuro: o novo e criminoso projecto para o Solar de Outeiro Seco!!!!

Mas sempre tive a convicção, que todos os meus escritos, compilando as memórias de uma velha casa senhorial da província, acabariam por ser úteis não só para a herança cultural da aldeia de Outeiro Seco e do Concelho de Chaves, como também para a história da cultura e da sociedade. O solar dos Montalvões tal como existiu é afinal um exemplo das casas senhoriais transmontanas no passado.

A biblioteca do Solar dos Montalvões

Uma das riquezas daquela casa era a biblioteca, com os seus quase dois mil títulos, datados dos séculos XIX, XVIII, XVII e mesmo do XVI. Foi vendida em 1986 a dois alfarrabistas de Lisboa, um com loja em S. Domingos de Benfica e outro na Feira da Ladra e dela restou o catálogo realizado pelos meus avós paternos, Maria do Espírito Santo Montalvão e Silvino da Cunha. Através dessa lista e de um dos filme que o meu pai fez nos anos 60, consegui identificar um dos tesouros daquela biblioteca ou livraria como se dizia no passado o Theatrum orbis terrarum de Abrahamus Ortelius publicado em Antuérpia, na oficina de Christophe Plantin, em 1584. Mas a biblioteca foi dispersa e nada mais sabia sobre o paradeiro dos seus livros.

Contudo, há cerca de um ano fui contactado por Francisco Vilaça Lopes, que estava a fazer uma investigação sobre um livro antigo, comprado precisamente na Feira da Ladra por um amigo, José António González Carrilho, um oliventino e um lusófilo. Para quem não está familiarizado com a biblioteconomia, quando se está a tratar um livro antigo, isto é, uma obra impressa entre 1500 e 1800 é tão importante identificar a edição com também os seus antigos proprietários. Através do estudo das marcas de posse de um livro, ainda que virtualmente, pode-se reconstituir antigas livrarias conventuais ou de casas senhoriais. E conhecendo o que se lia num mosteiro, num convento ou numa casa fidalga podemos avaliar a cultura dos seus proprietários ou ainda se estavam a par das novidades dos grandes centros de conhecimento, como Paris, Antuérpia, Roma ou Amesterdão. 

A obra comprada por José António González Carrilho na Feira da Ladra apresenta a assinatura do meu trisavô, Liberal Sampaio

A obra que o Francisco Vilaça Lopes se encontrava a estudar apresentava logo no primeiro fólio, uma anotação manuscrita, o nome de Liberal Sampaio. O Francisco Vilaça Lopes colocou esse nome no Google e fui ter ao blog do meu amigo Humberto Ferreira e do Fernando Ribeiro, que por sua vez lhe facultaram o meu contacto. Confirmei-lhe então que aquela era a assinatura do meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio e que aquele livro tinha certamente feito parte da antiga biblioteca do solar da família Montalvão, muito acrescentada e enriquecida por esse meu antepassado. Contudo, a obra adquirida por José António González Carrilho um cantoral impresso, encontrava-se truncada, sem folha de rosto nem colofão e parecia impossível saber-se o título certo e relaciona-lo com o catálogo da antiga Biblioteca do Solar de Outeiro Seco. 
A obra apresenta a nota Cantochão escrita a lápis 

Mas o Francisco Vilaça Lopes esquadrinhou bem o livro e numa das folhas existia uma anotação manuscrita, com a palavra Cantochão e de facto no catálogo da biblioteca há uma entrada para uma obra designada por Cantochão, com o nº 1281, o que o levou a presumir que se tratava o mesmo livro.
No catálogo da biblioteca do solar há uma entrada para uma obra designada por Cantochão, com o nº 1281


Depois, o Francisco Vilaça Lopes fez mais investigações, pesquisou em vários catálogos de bibliotecas, leu, pediu opiniões a peritos e acabou por concluir que este cantoral trata-se do Enchiridium Missarum Sollemnium do padre João Dias, uma edição rara, impressa em Coimbra, em finais do século XVI e princípios do séc. XVII. Mas para saberem todos os pormenores deste seu trabalho de detective, convido-vos a ler o seu texto https://divinicultussanctitatem.blogspot.com/2020/11/descoberta-de-nova-edicao-do.html

O meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio

Em suma, o meu trabalho no blog sobre a biblioteca do Solar de Outeiro Seco foi útil à investigação de um bibliófilo e fiquei feliz por saber, que esta obra rara, proveniente daquele solar se encontra estimada na posse de um oliventino, amigo de Portugal e que está ser seriamente estudada por Francisco Vilaça Lopes. Esta descoberta trouxe também mais alguma luz sobre o que foi a biblioteca daquela casa, até porque pela marca de posse, sabemos que foi adquirida pelo Padre José Rodrigues Liberal Sampaio. Embora o meu trisavô fosse um polígrafo, isto é, um homem com interesses variados que iam desde o direito, à teologia, passando pela história, numismática, arqueologia, parenética e política, desconheço se também interessou-se por música sacra ou se adquiriu este livro por coleccionismo. No tempo em que viveu o mercado livreiro estava cheio de obras provenientes dos antigos conventos, que os bibliófilos, como o meu antepassado, compravam a bom preço. Realmente o percurso que um livro faz ao longo da sua existência por vários proprietários tem sempre qualquer coisa de romanesco.

A estampa do Enchiridium Missarum Sollemnium

https://divinicultussanctitatem.blogspot.com/2020/11/descoberta-de-nova-edicao-do.html

sábado, 28 de novembro de 2020

Um candil de azeite ou uma forma imemorial



Este candil de azeite em latão amarelo é uma peça que herdei, provavelmente executada num tempo em que não havia luz eléctrica. Sei que da casa de onde veio, a electricidade chegou só nos anos 30 do século XX e portanto este candil será anterior a essa década. Terá pelo menos mais de 80 anos. Naturalmente, que depois do aparecimento da electricidade nessa terra transmontana, os candeeiros em azeite continuaram a ser usados nos velórios, conforme já escrevi no meu post de 28 de fevereiro de 2014, mas duvido que os continuassem a comprar depois disso. O mais certo era usarem as peças antigas que no passado tinham tido também uma função utilitária de iluminação. Ainda há pouco tempo uma senhora me escreveu contando-me que no século XIX um antepassado estudava à luz de um candeeiro de azeite, nos seus tempos de estudante, na Universidade de Coimbra.

Através de visitas aos museus ou da consulta de livros, sabia também que estes candeeiros mantiveram as mesmas formas durante séculos. Aliás, interrogo-me sempre como é que os conservadores de museu e os antiquários conseguem datar estas peças como sendo dos séculos XVII, XVIII, XIX. A mim parecem-me sempre iguais. Também já tinham lido algures que as estas formas não andavam longe de alguns candeeiros da antiga Roma.


Porém, ver as coisas ao vivo é muito diferente, do que ver a imagem num livro, na televisão ou na internet. Recentemente no Museu Nacional de Arte Antiga visitei a exposição Guerreiros & mártires: a cristandade e o Islão na formação de Portugal, que tem muitíssimas obras de arte islâmica, e qual é o meu espanto, quando numa das vitrinas encontro três candis datados entre os séculos XI e XIII, com formas muito semelhantes às da minha peça. Os três candis foram encontrados no Algarve e eram objectos correntes nas casas naqueles tempos em que o Islão dominava o Sul da península Ibérica. Os mais abastados usavam candis em metal como estes, mas a maioria da população utilizava os de cerâmica.

Imagem retirada de Guerreiros & mártires : a cristandade e o Islão na formação de Portugal / coord. científica Joaquim Oliveira Caetano, Santiago Macias. - Lisboa : Museu Nacional de Arte Antiga : Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2020

Fiquei realmente surpreendido com a continuidade das formas que alguns objectos do quotidiano apresentam. Um candil manufacturado há talvez uns 90 anos no Norte de Portugal, pouco difere de outro feito há quase mil anos no Sul do País. Talvez para os mais entendidos nestas questões da etnografia e da arqueologia, eu esteja a descobrir a pólvora, mas para mim que vivo neste mundo, onde em cada dez anos há um modelo de electrodoméstico radicalmente novo e em que todos os dias no telemóvel aparecem-nos aplicações tão espantosas como incompreensíveis, esta continuidade das formas e da vida material é uma descoberta fascinante.



sexta-feira, 6 de novembro de 2020

A pobre Balbina Felicíssima ou uma genealogia dos desafortunados


Nas suas memórias, a Yourcenar escreveu que começamos por fazer genealogia levados por um sentimento de vaidade. Porém à medida que exploramos as genealogias de todos os ramos e nós temos 4 avôs, 8 bisavôs, 16 trisavôs e 32 tetravôs, número que se vai multiplicando à medida que recuamos no tempo, chegamos rapidamente a uma sensação de abismo, perante o mar de mortos que temos por detrás de nós. Também nessas explorações percebemos que tanto descendemos de fidalgos unidos pelos laços sagrados do matrimónio, como de gente rude dos campos, que consumou os seus amores num celeiro ou ainda de judeus, padres ou talvez até dos bastardos de um rei. 

Recentemente decidi explorar um dos ramos da família da minha mãe, gente sem os pergaminhos da família Montalvão, do meu lado paterno. A minha bisavó materna, Graça Pires de Morais era filha ilegítima e depois de a sua mãe morrer, quando tinha apenas 4 anos, o seu pai, Francisco Germano Pires, que era um homem abastado, levou-a consigo para Vinhais, onde viveu na sua companhia, até à idade dos sete anos, momento em que o pai a internou no recolhimento das Oblatas da Mofreita. Viveu nessa casa religiosa destinada a raparigas pobres até aos 29 anos e só casou aos 31 anos com o meu bisavô, um matrimónio contrariado por ambos os pais.

O recolhimento das Oblatas da Mofreita. A Maria da Graça será uma das jovens ou meninas do grupo

Resolvi apurar mais alguma coisa desta bisavó cuja infância e juventude pareciam-me obviamente infelizes. Encontrei o seu assento de baptismo na paróquia de Sobreiró de Baixo, freguesia do Concelho de Vinhais e lá se encontra registado o seu nascimento no dia 2 de Março de 1859, tendo sido baptizada, no dia 6 do mesmo mês. Era filha de Balbina Felicíssima e de pai incógnito e neta materna de Angélica Maria, de Sobreiró de Cima de José Gonçalves, de Sobreiró de Baixo. Neste simples assento, transparece uma certa pobreza. Não há apelidos sonantes, o pároco nem se deu ao trabalho de indicar a profissão da mãe, nem dos avôs, nem usou o Dona antes do nome das mulheres, como era hábito quando se referiam a senhoras de condição nestes registos paroquiais. Esta seria uma família de simples jornaleiros, de que não merecia a pena gastar muita tinta.

O assento de baptismo de Maria da Graça

Também crianças bastardas nesta época e neste meio rural eram um assunto banal para que o padre Raimundo Gomes, que lavrou o assento de baptismo da minha bisavó, perdesse muito tempo com ele. Há um estudo sobre demografia e estrutura familiar da paróquia de Santalha, uma aldeia do Concelho de Vinhais, não muito longe dali e com características semelhantes, em que a autora Berta Gonçalves Morais apresenta números impressionantes. Em Santalha, na década de 80 do século XIX, no conjunto das crianças nascidas 35,2% eram filhos naturais, na década seguinte, atinge a proporção de 40,8% no início do século regista-se a mesma tendência 44,1% e em 1910-19, quase metade das crianças, 46% eram filhos naturais. Portanto o caso da pobre Balbina Felismina e da sua filhinha Maria da Graça inscreve-se num padrão social típico de uma época e de um meio. 

Nesse obra, intitulada Ruralismo e família em Vinhais: estudo de caso sobre a paróquia de Santalha (1886-1909) a autora refere que umas das razões para essa elevada taxa de filhos bastardos relaciona-se com uma prática, que pretendia evitar fraccionar a propriedade, isto é, apenas a um ou outro filho é consentido o casamento e as terras são herdadas por aqueles que tem descendentes. Os outros filhos ficam solteiros ou seguem a carreira eclesiástica. Talvez a especialista em sociologia familiar, Berta Gonçalves Morais esteja certa, mas creio que também haverá outra razão mais óbvia. Nos meios muitos pobres, ontem como hoje, as mulheres são sempre mais vulneráveis ao assédio ou mesmo à violência sexual.

Mas o que se passava nestas sociedades rurais no interior de Portugal, durante o século XIX escapa um pouco ao nosso juízo contemporâneo. 

Se a pobre Balbina Felicíssima baptizou a filha como sendo de pai incógnito e terá assumido o encargo da criança, nos seus primeiros quatro anos de vida, quando morre, é o pai que tomará conta da menina  e aos sete anos interna-a no recolhimento das Oblatas da Mofreita. Portanto, a criança não lhe seria tão indiferente como isso, de outra forma deixá-la-ia aos cuidados dos avós, ou simplesmente morrer à fome na rua. Nas Oblatas da Mofreita a menina aprendeu a ler e a escrever, a fazer bordados, rendas e outras artes femininas e creio eu, que alguns rudimentos de latim e francês. Tudo isto era muito bom numa época, em que cerca de 80 por cento da população feminina era analfabeta. 

Por outro lado, apesar de ser uma filha espúria, a Maria da Graça usou o apelido do pai, Pires, quando se casou com o meu bisavô em 1889. O mais natural era que assinasse como Maria da Graça Gonçalves, o nome materno. Poder-se-ia ter dado o caso de o Pai a ter perfilhado entretanto, mas no assento de casamento, a minha bisavó é referida novamente como filha de pai incógnito. Depois do casamento passou a assinar por Graça Pires de Morais, nome que se encontra em muitos dos livros, que pertenceram ao Recolhimento da Mofreita e que ela comprou ou mandou trazer a seguir à República. Embora o Francisco Germano Pires não tenha apoiado o casamento, sei através de um pequeno caderno que o meu bisavô, Clemente da Ressurreição Morais escreveu com breves apontamentos sobre a sua vida e os seus antepassados, que acabou por se reconciliar com a filha e passou os últimos anos da sua vida com o casal. 


A Graça Pires de Morais, com o marido e os filhos

Tudo isto me faz pensar que a forma como se estruturavam as famílias no século XIX era bem diferente da nossa. Também me comoveu um pouco conhecer a existência desta trisavó, que eu ignorava totalmente a existência, a pobre Balbina Felicíssima, cuja mãe, a minha quarta avó, Angélica Maria, deve ter afrouxado a vigilância sobre ela e deixou-a entregar-se aos desejos de Francisco Germano Pires. Não tenho um retrato, uma peça de louça, um naperon ou uma simples fita que tivesse pertencido à Balbina Felicíssima, nem ela devia ter nada de seu, mas confesso que passei a ter um certo carinho por esta pobre rapariga do campo, que em tempos se deixou seduzir por um homem abastado. 

Bibliografia e fontes consultadas:

Ruralismo e família em Vinhais: estudo de caso sobre a paróquia de Santalha (1886-1909) / Berta Gonçalves Morais. Porto, 2003

Arquivo distrital de Bragança: assentos paróquiais de Vinhais e Sobreiro de Baixo

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Faiança inglesa e faiança espanhola

As peças de que hoje vou escrever, já foram apresentadas aqui há muito tempo. Mas, quando iniciei o blog há já onze anos sabia ainda pouco e fiz algumas atribuições erradas, apresentado peças de faiança espanhola, muito provavelmente da Pickman de Sevillha, como se fossem inglesas. Depois, voltei a escrever sobre assunto e corrigi as atribuições, mas a mesma dúvida se a peça é inglesa ou espanhola, colocou-se-me novamente acerca de um prato coberto, também já aqui apresentado e que eu acreditava ser inglês.


Efectivamente, um seguidor do blog, enviou-me um e-mail, com um prato coberto exactamente igual ao meu, pedindo ajuda para o o identificar e ao olhar para ele com atenção reparei que o motivo central é muito parecido com uma padrão que a Pickman de Sevilha fabricou durante mais cem anos. O motivo central representa uma fonte com uns putti, um lago e um palácio ao fundo. Pensei, será que este prato coberto é afinal espanhol?  

Escudela atribuída à Pickman

Como os leitores que acompanham este blog sabem certamente, os ingleses foram os primeiros a fabricar faiança de uma forma industrial e em larga escala, com técnicas modernas, como o transfer-way. Posteriormente, ao longo do século XIX invadiram todos os mercados com as suas faianças a preços acessíveis e de grande qualidade, decoradas com paisagens, mais ou menos reais ou fantasiosas.

Um pouco, por toda a Europa, outros fabricantes tentaram fazer concorrência aos ingleses e começam também a produzir faiança de uma forma mecanizada, em grandes quantidades e imitando as decorações inglesas. É o caso da nossa fábrica de Louça de Sacavém, Sargadelos e a Pickman em Espanha, ou Sarreguemines em França.

Resolvi rever então tudo que já tinha pesquisado acerca da Pickman e de Sargadelos, inclusive reler um e-mail que tinha recebido do Museo Belas Artes da Coruña, onde muito gentilmente uma das conservadoras me esclarecia de alguns pormenores deste assunto. 

Faianças atribuídas à Pickman

Em primeiro lugar há algumas diferenças da decoração da Pickman, em relação a este prato coberto. A fábrica espanhola de Sevilha usou cisnes a nadar no meio do lago e o palácio que se vê lá ao fundo é diferente deste prato coberto As decorações usadas pelos espanhóis na borda deste padrão também não tem nada a ver com esta minha peça. Por fim, a qualidade da faiança do prato coberto é muito melhor que os das faianças espanholas, não apresentando o chamado craquelé daquelas e o seu brilho é quase o da porcelana, mas eu também não conheço assim tão bem as faianças da Pickman, fábrica cujo período de laboração vai de 1839 até aos dias de hoje, para ser tão perentório. 

Este prato coberto tem um brilho que falta à faiança espanhola

No entanto, ao pesquisar na base de dados dos museus espanhóis, http://ceres.mcu.es encontrei alguns dados que me levaram um pouco mais longe. Segundo a ficha de uma destas peças da Pickman a fábrica espanhola ter-se-ia inspirado numa das decorações do fabricante Inglês, Thomas Godwin de Burslem, (1804-1834). 

Fiz algumas pesquisas pelo nome deste fabricante sem resultados conclusivos, mas encontrei uma decoração parecida à usada pela Pickman, o Montezuma pattern, fabricada por outra firma também com o nome Goodwin, a John Goodwin ou Goodwin & Co (1852-1871), no site http://www.thepotteries.org/


Montezuma pattern, de John Goodwin ou Goodwin & Co (1852-1871). Foto de http://www.thepotteries.org


Montezuma pattern, de John Goodwin ou Goodwin & Co (1852-1871). Foto de http://www.thepotteries.org

Aliás este meu prato coberto, bem como o do seguidor do meu blog, apresentam uma pequena letra no tardoz, o "M". Será que este M se reporta ao nome do padrão Montezuma ou é alguma marca de controlo interno ou ainda relativa ao tamanho, por exemplo Medium?

A marca M , do meu prato coberto

A marca M, do prato coberto do seguidor deste blog

Em todo o caso, o meu prato coberto não é exactamente igual ao Montezuma da Goodwin ou Goodwin & Co. Pode tratar-se de uma variante do padrão desconhecida do autor do site http://www.thepotteries.org/ ou uma produção de outra fábrica inglesa, pois no Reino Unido também era vulgar duas ou três fábricas produzirem a mesma decoração com pequenas diferenças e estou a lembrar-me de alguns padrões muito populares na indústria inglesa, como o Willow Pattern ou o Asiatic Pheasants, este último produzido por mais de uma dúzia de fabricantes

Em suma, este prato coberto poderá ser inglês, talvez executado entre 1850-1870, mas a sua decoração está muito próxima das produções espanholas da Pickman ou mesmo de Sargadelos. A dúvida acerca da sua origem persiste sempre, pois na segunda metade século XIX, toda a Europa estava em processo de industrialização, as ideias e as formas circulavam rapidamente, surgindo modernas fábricas um pouco por todo lado, produzindo louça à maneira inglesa e o que nos parece à primeira vista britânico, poderá ser espanhol, francês, holandês ou alemão.


Alguns links consultados: 

http://www.thepotteries.org/allpotters/454a.htm

http://ceres.mcu.es/pages/Viewer?accion=4&AMuseo=MNR&Ninv=CE0323/17