quinta-feira, 23 de março de 2017

Um trabalho em madrepérola da Terra Santa


Encontrei numa banca da Feira de Estremoz esta montagem em madrepérola, representando um santo franciscano, que me reconheci desde logo como sendo um trabalho da Terra Santa, pois ainda tinha na memória uma belíssima colecção destes objectos expostos no Museu do Oriente, que me encheram os olhos. Consegui compra-la por um preço muito razoável, pois o vendedor não tinha bem a ideia do que era e valorizava mais a moldura, uma coisa pesadona e sem graça, do que propriamente o trabalho de madrepérola. 

No emprego, mostrei a peça à conservadora de mobiliário e arte oriental do Museu Nacional de Arte Antiga, Conceição Borges de Sousa, que me confirmou tratar-se de um trabalho da Terra Santa e disse-me que muito provavelmente esta espécie de medalhão terá feito parte da decoração de um crucifixo, mostrando-me imagens de algumas destas cruzes da colecção do museu, inteiramente incrustadas com decorações a madre pérola. Por sua indicação desta conservadora, consultei o catálogo A Luz do Oriente: madrepérolas e objectos orientais de devoção cristã : colecção de Mestre Soares Branco / Textos e coord. Sérgio Gorjão. - Óbidos : Câmara Municipal, 2003, onde obtive mais informações sobre estes trabalhos vindos do território que é hoje Israel.
Crucifixos provenientes da Terra Santa. Colecção de Mestre Soares Branco. Repara-se nos medalhões ovais com imagens de santos franciscanos.

Feitos em madeira de oliveira e com aplicações de madrepérola, estes crucifixos são um trabalho muito característico da Terra Santa e durante séculos foram feitos pelos franciscanos, para vender aos peregrinos, pratica que tem uma razão histórica, que explicarei de seguida.
 
S. Francisco de Assis visitou a Terra Santa cerca de 1219, que estava na época sobre domínio do Islão e instalou aí uma missão, para a qual obteve do Papa a custódia sobre os lugares santos do cristianismo. Até 1847 os franciscanos cumpriram escrupulosamente essa missão confiada pela igreja e para sobreviverem, vendiam aos peregrinos crucifixos, registos e rosários feitos com materiais abundantes na região, a madeira de oliveira, e a madrepérola, recolhida nas margens do Mar Vermelho. Por essa razão, estes crucifixos são frequentemente decorados com motivos alusivos à Ordem de S. Francisco, como as insígnias da Ordem, imagens de S. Francisco ou de outros santos franciscanos.
 
Crucifixos provenientes da Terra Santa. Colecção de Mestre Soares Branco
Em suma, este pequeno medalhão feito de fragmentos de madrepérola é provavelmente um elemento decorativo de um crucifixo, feito na Terra Santa por frades franciscanos no século XVIII. Outrora um objecto de veneração que continha em si alguma da santidade dos lugares onde decorreu a vida de Cristo, o crucifixo ter-se-á desfeito com o tempo e sobreviveu apenas este medalhão, testemunho da viagem de um peregrino, certamente cheia de aventuras e percalços entre a Palestina e Portugal 

Alguma bibliografia:

A Luz do Oriente: madrepérolas e objectos orientais de devoção cristã : colecção de Mestre Soares Branco = The light of the Orient: mother-of-pearls and oriental objects of Christian devotion: collection of Domingos Soares Branco / Textos e coord. Sérgio Gorjão. - Óbidos : Câmara Municipal, 2003.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Um São Valentim impresso na Parva Roma


Era para ter mostrado no dia 14 de Fevereiro esta estampa, representando S. Valentim, mas como já expliquei muitas vezes neste blog, sou avesso a efemérides. No fundo, gosto de estar sempre contra a maré.

Como toda a gente sabe, o 14 de Fevereiro, dia dos namorados ou de S. Valentim é uma coisa recente na Europa. Não é que o culto a S. Valentim não existisse aqui e ali, umas vezes com a conotação de santo protector dos namorados, outras vezes invocado contra a epilepsia. Mas não era de todo um culto popular, como o de S. Francisco de Assis, S. Catarina de Alexandria ou S. Bárbara. Aliás, até há bem pouco tempo, em Portugal os santos namoradeiros eram sem sombra de dúvida S. António de Lisboa ou S. Gonçalo de Amarante. O 14 de Fevereiro, como dia dos namorados foi uma moda trazida dos Estados Unidos, no final da Segunda Guerra Mundial, pelos soldados americanos e desde então, a par da pastilha elástica, da Coca-Cola e de outros grandes benefícios da civilização moderna, não parou de se difundir por todo o mundo.

 

Na verdade este S. Valentim é uma figura lendária, em que a tradição misturou três pessoas distintas, um padre, que foi decapitado em 273 em Roma, um bispo também decapitado na cidade de italiana de Terni e ainda um outro bispo, Valentim da Récia, também conhecido por S. Valentim de Passau e que viveu mais tarde no século V. Os dois primeiros foram martirizados a 14 de Fevereiro e a tradição popular começou desde muito cedo a junta-los numa única figura. Valentim da Récia ou Rhaetia era comemorado a 7 de Janeiro e o seu culto como personalidade individual parece ter sobrevivido até mais tarde.

Segundo Louis Réau, o especialista em iconografia cristã, a associação de S. Valentim a santo patrono dos namorados fez-se porque a sua festa calhava, no dia 14 de Fevereiro, altura em que os passarinhos começavam a acasalar. Outra tradição que poderá explicar esta característica do santo em causa, mas de que não consegui apurar a fonte conta que S. Valentim casava em segredo os namorados nos tempos das grandes perseguições aos cristãos no século III.


O verso da folha, apresenta uma breve descrição da vida de S. Valentim em Latim
Quanto à minha estampa é uma folhinha solta, com a imagem de um qualquer S. Valentim de na frente e um breve texto no reverso. Comecei por tentar ler a súmula da história do santo em latim, na parte detrás da estampa.

Nela refere-se que se trata de Valentinus Episcopus. Portanto, se foi bispo certamente tratar-se-á de Valentim de Terni ou Valentim da Rethia e podemos excluir o Valentim de Roma. De seguida tentei ler o texto latino, recorrendo ao Google translator, pois o meu conhecimento desta língua é pobrezinho e lá consegui destrinçar que o Valentim aqui retratado lutou contra a heresia de Ario, andou pelo Tirol, e pela Áustria Superior, espalhou a verdade Cristã e morreu na paz do Senhor cerca de 440.

A antiga Rétia é hoje o cantão dos grisões na Suiça, parte da Áustria e Sul da Baviera
 
 
Estes dados coincidem perfeitamente com a vida de S. Valentim da Raethia ou de de Passau. Este Valentim era oriundo do território que é hoje a Bélgica e foi nomeado pelo Papa Leão I (440-461) para evangelizar a antiga província romana da Raethia, hoje o Tirol, parte da Áustria, o cantão dos Grisões na Suiça e algumas regiões do sul da Baviera, cujos habitantes estavam ainda presos aos antigos cultos pagãos ou eram seguidores de uma heresia cristã, o arianismo. Já depois da sua morte, no século VIII o corpo foi transferido para a cidade Bávara de Passau, que fica na fronteira entre a Áustria e a República Checa e por essa razão este Valentim, é também conhecido por Valentim de Passau.


Esta folha foi impressa em Tyrnaviae, actual Trnava na Republica Eslovaca, na imprensa do Colégio da Academia da Sociedade de Jesus, em 1763

Também há mais uma razão, para estar convencido que se trata de uma representação de S. Valentim de Passau, santo invocado na cura dos que sofriam de epilepsia. Esta gravura foi impressa mo ano de 1763, em Trnava, cidade da actual República eslovaca, na imprensa da antiga universidade Jesuítica.

Aspecto de Trnava, conhecida por Parva Roma, isto é, a Pequena Roma. À direita da Igreja pode-se ver as instalações da antiga universidade, que contava com uma oficina tipográfica, particularmente activa e de onde saiu esta folhinha com o S. Valentim
 
Trnava em eslovaco ou Nagyszombat em húngaro, cidade cheia de igrejas e que albergou a primeira universidade da Hungria no século XVII, conhecida como a pequena Roma não fica assim tão longe de Passau e é pois natural que esta folhinha solta se vendesse aos crentes devotos do S. Valentim da Raethia. Como é que esta gravurazinha da Eslováquia chegou a Portugal é uma boa pergunta. Mas o mundo católico romano formava já nesse século XVIII um todo coeso e  e circulavam gravuras e livros por todo o lado onde se obedecia a autoridade do Papa.

Em suma este meu Santinho nunca foi invocado pelos namorados no dia 14 de Feveiro. É um S. Valentim da Europa Central, mais sério, invocado na cura contra a epilepsia. Confesso-vos que fiquei alguma com pena, pois teria gostado que esta gravura representasse aquele episódio da Legende Dorée, de Jacques Voragine, em que se conta que S. Valentim de Roma curou a filha do seu carcereiro da cegueira e já imaginava a rapariga, com a visão recuperada, apaixonada, sem conseguir tirar os olhos do belo Valentim.



Alguma bibliografia e ligações consultadas:

Iconographie de l'art chrétien / Louis Réau. - Paris : Presses Universitaires de France, 1955.
La légende dorée / Jacques de Voragine. - Paris : Perrin et Cie., Libraires-Éditeurs, 1910.
https://fr.wikipedia.org/wiki/Valentin_de_Rh%C3%A9tie
A history of the church / Johann Joseph Ignaz von Döllinger
https://en.wikipedia.org/wiki/Trnava

quinta-feira, 2 de março de 2017

Ruínas: prato de faiança inglesa da Copeland



Comprei recentemente este prato de sobremesa da Copeland na feira de Estremoz. Na verdade, não pretendia compra-lo, mas o vendedor fez um preço conjunto irresistível para este pratinho e um prato de faiança portuguesa, no qual o meu amigo Manel estava interessado e lá voltamos para a casa os dois todos contentes, cada um com o seu prato na mão.

Este prato de faiança foi fabricado pela firma inglesa Copeland, cuja existência decorreu entre 1847 e 1970, muito embora a origem desta fábrica remonte à mítica Spode, comprada em 1833, pelos senhores William Taylor Copeland e Thomas Garrett. Em 1847 o Sr. Copeland tornou-se o único proprietário e a fábrica manteve-se com esse nome até 1970, altura em que retomou antigo e prestigiado nome Spode.
 
Marca incisa da Copeland
É um prato com marca, portanto a atribuição não oferece dúvidas. Mais, está também datado, conforme se pode ver pela marca incisa M75, que quer dizer que a peça foi fabricada em Março ou Maio de 1875.

Relativamente à decoração, que representa um edifício gótico em ruínas, ladeado por folhas de carvalho e bolotas. Descobri no blog da nossa amiga Maria Andrade, o Arte livro e velharias, que este padrão é conhecido ora pelo nome ruins ou Melrose. Fiz então umas pesquisas combinando aqueles dois termos no Google e descobri que a decoração deste prato possivelmente evocará as ruínas da Abadia de Melrose, na Escócia.
 
Este monumento arruinado tinha inspirado muitas gravuras românticas, que circulavam em Inglaterra na primeira metade do século XIX e que serviram certamente de modelo ao fabricante de faiança, Zachariah Boyle, que produziu entre 1823-1850, uma série de vistas de paisagens, castelos e mosteiros, as Antique Scenery Series, entre as quais se contavam as ruínas da Abadia de Melrose.
A Abadia de Melrose pela Boyle
A possível representação da Abadia de Melrose feita a partir de 1848 pela Copeland está mais longe da realidade do que aquela feita pela Boyle. Será apenas uma vaga evocação daquela ruína romântica ou talvez de um outro qualquer monumento em ruínas inglês, pois poder-se-a tratar de uma série decorativa da Copeland, com vários pratos, travessas e terrinas, cada um deles representando uma ruína da velha Albion 
 
 
 
No entanto, a decoração deste simples prato, com as ruínas, envoltas numa névoa, não deixa de ser sugestiva e parece-nos que ao longe ouvimos ventos uivantes e os ecos dos amores infelizes de Heathcliff e Cathy.


 
 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Um bibelot fora de moda


Por vezes os impulsos que nos levam a encher as nossas casas com objectos definitivamente fora de moda ou até mesmo Kitsch são estranhos. Talvez a frieza do mobiliário contemporâneo e o racionalismo da decoração minimalista se adaptem mal a quem tem uma certa visão romântica do mundo e gosta de se rodear de história. No fundo, quem colecciona velharias ou antiguidades está a inventar um passado para si, a encher a casa de objectos cheios de memórias, que pertenceram a outras pessoas e a apropriar-se delas.

Aliás é curioso, que o comércio de antiguidades como o conhecemos hoje teve origem em França, nos finais do II Império (1852-1870), quando os grandes milionários burgueses começaram a comprar cómodas, pinturas, bronzes, tapeçarias e esculturas dos séculos XVI, XVII e XVIII para tornar as suas casas semelhantes às dos velhos aristocratas. Estes grandes financeiros burgueses ao copiarem a decoração das casas nobres, cheias de antiguidades, herdadas de geração em geração, pretendiam confundir-se com a sociedade aristocrática.

Claro, esta jarrinha não tem nada de aristocrática. É um bibelot burguês possivelmente do início do século XX, mas que tem o charme de uma velha casa de família do passado. Nem sequer está marcada, pois na altura que foi produzida, algures na Alemanha, Áustria ou Boémia, os seus fabricantes tentariam que esta jarra passa-se por ser uma peça de Meissen, ou da prestigiada Royal Dux, com as suas jarras e figurinhas em estilo arte nova. Aliás, ainda tive esperança que esta jarra, com a sua decoração assimétrica, copiando as formas vegetais, fosse da Royal Dux. Mas as peças dessa antiga fábrica checa tem uma qualidade muito superior estão sempre marcadas. 

A decoração da jarrinha, composta por um putti, uvas e parras representa uma dança dionisíaca, tema já usado na antiguidade e é muito comum na faiança, majólica, porcelana, biscuit e até na ourivesaria. Na pesquisa por imagens da internet vi dúzias e dúzias de jarras, jarrinhas e jarrões decorados com meninos gordos e travessos pendurados na asa, no bojo e no bico e com muitas parras e uvas à mistura.

Em suma, todas as minhas pesquisas para identificar o fabricante desta jarra foram inúteis. Posso apenas presumir que foi fabricada algures na Alemanha, Áustria ou na Boémia nos últimos anos do séc. XIX ou inícios do século XX. É uma peça Kitsch, sem grande valor, pois parte da asa está partida, mas tem o charme dos objectos irremediavelmente fora de moda.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

“Le Feu: Vulcain”: uma pequena gravura com três séculos

Por um preço muito simpático comprei recentemente esta estampa com 300 anos. Não preciso dela para nada e nem sei onde a hei-de colocar, pois as paredes da minha casa estão integralmente cheias. Mas, para os amantes das velharias e antiguidades o prazer da descoberta não tem preço.
 
Quando cheguei a casa com a gravura, lancei-me sobre a internet e fiz algumas pesquisas combinando o nome do título da gravura Le Feu: Vulcain com os nomes do gravador e do pintor Jeaurat e Vleughels e descobri um exemplar desta estampa na Welcome Library de Londres.

Pude então identificar correctamente esta gravura, que representa o deus romano Vulcano e foi gravada em 1716 por Edme Jeaurat (1688-1738), a partir de uma obra do pintor Nicolas Vleughels (1668-1737), na cidade de Paris, onde o gravador Edme Jeaurat tinha a sua oficina.

Apresenta um epigrama, alusivo ao tema, da autoria de Noël Bosquillon, um poeta e tradutor de latim, com alguma notoriedade nos finais do século XVII, inícios do XVIII e hoje completamente esquecido e cujo texto abaixo transcrevo:

Vulcan n'est pas long-temps paisible;
L'enclume va gemir sous son puissant marteau:
On reconnoist le feu, cet element terrible,
A celuy qui de Vleugle échaufa le pinceau
 
 

Com os dados obtidos nessa biblioteca, cuja imagem está disponível on-line continuei a minha busca até chegar ao catálogo da Biblioteca Nacional de França onde consegui perceber que esta gravura fazia parte de um conjunto de quatro, em que cada uma delas representava um dos elementos básicos da constituição da matéria, o fogo, a água, o ar e a terra. Todas estas gravuras foram executadas pela parceria Jeaurat e Vleughels, contam um epigrama de Noël Bosquillon e nelas os 4 elementos são representados por um deus da mitologia clássica, Vulcano para o fogo, Juno para o ar, Amphitrite para a água e Cíbele para a terra.
L'eau :Amphitrite / Edme Jeaurat ; N. Vleughels
 
 
L'air :Junon / Edme Jeaurat ; N. Vleughels

Parti então à procura de imagens das outras estampas, que formavam conjunto com este meu Vulcano, pois já agora queria reconstitui-lo, ainda que virtualmente e de facto consegui encontrar na net imagens de L’eau: Amphitrite e de L’air: Junon, a primeira à venda no e-bay e a segunda num inventário cultural dos bens da Lombardia. Quanto a Cíbele ou Ceres, esquadrinhei toda a internet, mas não encontrei nada. No entanto, ao vasculhar os catálogos dos museus e das bibliotecas, descobri que este Edme Jeaurat dedicou-se muito a produzir conjuntos de estampas com este tipo de alegorias, como por exemplo, aos cinco sentidos, às quatro estações, às paixões humanas, tomando sempre como referência cenas da mitologia clássica.
 
L'ETE / Edme Jeaurat ; N. Vleughels. Edme Jeaurat dedicou-se muito a produzir conjuntos de estampas alegóricas, como por exemplo, aos cinco sentidos, às quatro estações, às paixões humanas.
 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

La Fuite à dessein, gravura segundo Fragonard

Numa banca de uma feira de velharias, encantei-me com esta pequena gravura colorida, impecavelmente emoldurada e sem hesitações comprei-a e trouxe-a para casa. O meu amigo Manel fez o favor de se desencaixilhar a estampa, mas infelizmente não apresentava qualquer marca de gravador, o que significava que teria que identificar aquele pedacinho de papel a partir de milhares de imagens disponíveis na internet.


Desde logo fiquei com a ideia, que esta gravura representando uma jovem com um vestido esvoaçante seria uma dessas estampas coloridas inglesas, dos finais do XVIII ou inícios do século XIX ou até talvez uma obra de Bartolozzi, pois na mesma banca vendiam-se umas quantas gravuras daquele artista italiano, que trabalhou em Londres e em Lisboa. Abri então a internet e fiz umas quantas pesquisas com os termos combinados Bartolozzi e colour engraving, que não deram resultados. Lembrei-me também que poderia ser uma gravura feita a partir de uma das obras de Angelika Kauffmann, que pintava muitas vezes umas jovens envergando uns vestidos de tecidos leves e suavemente drapeados, mas as buscas no Google foram igualmente decepcionantes.


Apliquei então uma técnica nova e no menu pesquisa por imagens do google, carreguei uma fotografia que fiz da estampa e ordenei ao motor de busca que encontrasse imagens idênticas. Acrescentei à pesquisa alguns termos significativos, como colour engraving e antiques, young woman e zás, surgiu-me uma imagem a preto e branco da estampa da colecção do The Metropolitan Museum of Art. O mistério estava resolvido, a minha estampa tinha sido feita a partir de uma obra do célebre artista francês, Jean Honoré Fragonard (1732–1806), o pintor de cenas galantes e libertinas.
La Fuite à Dessein. Jean Honoré Fragonard (1732–1806). The Metropolitan Museum of Art
O título da obra é La Fuite à Dessein, o que em português quer dizer, fuga com propósito, isto é, a jovem rapariga foge de um pretendente, que aparece representando no canto inferior direito da gravura. No entanto, ela não está nada aflita. Pelo contrário, parece deliciada com a situação e foge em direcção a um sítio qualquer afastado e protegido, onde se poderá entregar sem reservas ao rapaz.

A rapariga é perseguida por um pretendente

É uma obra típica de Fragonard, que trabalhava sobretudo para uma clientela privilegiada, pintando quadros de pequenos formatos destinados a decorar os interiores de residências aristocráticas. O traço fogoso, as cores vivas e luminosas das suas telas celebraram com poesia a juventude e a natureza. Fragonard foi pintor de numerosas cenas galantes, moda iniciada por Watteau, que apresentam os divertimentos da nobreza, no meio de uma luxuriante natureza, onde a coberto do jogo, o desejo exprime-se sem entraves

La Fuite à Dessein. Jean Honoré Fragonard. Harvard Art Museums/Fogg Museum

O quadro que serviu de modelo à estampa encontra-se nos Estados Unidos, no Harvard Art Museums/Fogg Museum e foi pintado originalmente para a Marquesa de Turpin de Crissé.

As obras de Fragonard estão impregnadas de uma grande sensualidade e mesmo de um certo erotismo


Contudo ao contrário da gravura da colecção do The Metropolitan Museum of Art, que está assinada por Charles François Adrien Macret (1751–1789) e Jacques Couché (1750-1800?) e datada no ano de 1783, a minha estampa não tem qualquer assinatura de gravador ou impressor. Será talvez uma cópia posterior dessa estampa, talvez já do século XIX, até porque as gravuras feitas a partir das obras de Fragonard, impregnadas de uma grande sensualidade e mesmo de um certo erotismo, conheceram um grande sucesso junto do público.

Esta pequena estampa representa um tempo em que o espírito libertino das luzes pairava sobre a França.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Travessa de faiança de Viana (1790-1830)


Ultimamente tenho apresentado aqui tantas obras de arte sacra, que os seguidores deste blog já devem estar fartos de tanta beatice. Por isso, resolvi mostrar aqui uma travessa de faiança da Fábrica de Viana (1774-1855), que pertence ao meu amigo Manel. A travessa está em mau estado, foi partida, gateada e arranjada, mas mesmo assim é uma peça de Viana, uma das mais carismáticas fábricas de faiança portuguesas e ainda para mais está marcada, o que não deixa sombras de dúvidas sobre a sua atribuição. 
O característico "V", a marca da Fábrica de Viana do Castelo

Segundo a obra, A colecção de faiança do Museu de Arte Decorativas de Viana do Castelo. – Viana do Castelo: Câmara Municipal, 2015 esta marca e decoração são típicas do segundo período de laboração da fábrica, que decorre entre 1790-1830. Aliás, esta comprovação pudemos faze-la ao vivo, quando visitamos recentemente o Museu onde está exposto um conjunto de terrina e travessa com esta marca e pertencente à mesma família decorativa.
A travessa do Manel foi em tempos a base de uma terrina. Imagem reproduzida de A colecção de faiança do Museu de Arte Decorativas de Viana do Castelo. – Viana do Castelo: Câmara Municipal, 2015

Aliás esta não é propriamente uma travessa comum. Servia de base a uma terrina, tal como se pode ver na imagem que aqui reproduzo do catálogo A colecção de faiança do Museu de Arte Decorativas de Viana do Castelo. É aquilo que se costuma designar pelo termo francês présentoir.

Quanto à decoração desta travessa é inspirada na China, naquilo que em história da arte se designa por chinoiserie

Uma "chinoiserie" ou uma China imaginada pelos europeus
A chinoiserie é um modelo artístico europeu, de influência chinesa, que é caracterizado pela utilização de uma linguagem figurada e fantasista de uma China imaginada e ainda pela assimetria. As chinoiseries espalharam-se na arte europeia na segunda metade do séc. XVII, a sua popularidade conheceu o apogeu em meados do séc. XVIII e foram assimiladas pelo estilo rococó. 

Embora o fabrico desta travessa esteja balizado entre 1790 e 1830, a decoração em chinoiserie permite-nos supor, que tenha sido executada na última década do século XVIII.
 


Fontes consultadas: 

A colecção de faiança do Museu de Arte Decorativas de Viana do Castelo. – Viana do Castelo: Câmara Municipal, 2015

https://fr.wikipedia.org/wiki/Chinoiserie