quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Um toucador de cómoda.


Hoje apresento-vos uma peça de mobiliário, que passou irremediavelmente de moda, um toucador de cómoda. Foi comprado pelo meu amigo Manuel em muito mau estado e que com a sua paciência e minúcia o restaurou integralmente.

É constituído por um espelho basculante, apoiado em duas traves com uma representação convencional de dois golfinhos e assenta uma caixa com uma gaveta. É folheado a nogueira e lacado à boneca. Foi uma peça destinada a estar pousada numa cómoda ou numa pequena mesa, com tampo de mármore, e em tempos serviu para uma qualquer jovem ou senhora arranjar os seus cabelos e na gavetinha guardaria uma escova, um pente, um ou outro unguento, fitas coloridas e uns ganchos.



Este toucador foi executado ao gosto do chamado estilo da Restauração, período compreendido entre os reinados de Luís XVIII (1814-1824) e de Carlos X (1824-1830). Foi época em que Napoleão Bonaparte foi afastado definitivamente do poder e a monarquia restaurada de novo em França. Contudo, apesar desta ruptura política, o estilo Império persistiu no mobiliário, só que mais suavizado, em que as pesadas ferragens e os bronzes desapareceram e preferindo-se as madeiras de cores mais claras. Os móveis lacados como este, continuaram igualmente na moda.


Contudo, apesar do seu estilo, este pequeno toucador, não será assim tão antigo. A partir de 1840, começou a moda dos revivalismos no mobiliário e que se estenderá pelo século XX adentro. Em 1870, 1890, 1910 ou mesmo em 1940 uma família burguesa encomendaria a réplica de um conjunto em estilo Luís XVI para a sala de estar, um conjunto Império para o escritório, uma sala de jantar renascença e os quartos em estilo D. João V, se por acaso vivesse em Portugal. A casa da minha família materna está em grande parte mobilidade neste estilo restauração e terá sido coisa encomendada nos anos 30 do século XX.

Embora, seja difícil precisar exactamente a época seu fabrico, é provável que este toucador de cómoda, seja uma peça dos finais do século XIX ou mesmo inícios do XX. Em todo o caso, é de um tempo em que a casa de banho ainda não estava generalizada e as pessoas faziam a sua toilette no quarto. Dispunham de uma mesa de mármore com um jarro de água e uma bacia para lavarem a cara, os braços e as mãos e um toucador como este para compor o penteado.


No verso, este toucador tem um papel, onde alguém escreveu Maria Teresa. É uma letra feminina, comum às senhoras que fizeram a sua instrução nos anos 20 e 30 do século XX. A minha mãe, que por acaso também era Teresa, tinha exactamente este tipo de letra e enfim, todos nós sabemos que a cada época, corresponde uma caligrafia. Provavelmente, durante umas partilhas familiares, alguém colou este papel no móvel destinando-o à Maria Teresa. Entretanto, passaram mais algumas décadas, a Maria Teresa morreu e os descendentes não quiseram saber mais deste móvel, tornado inútil pela casa de banho. Mas, talvez mais do que a casa de banho, o que condenou à extinção definitiva estes toucadores, bem como os seus parentes próximos, os psichés, foi a pressa da nossa sociedade contemporânea. Hoje as mulheres trabalham todas e acabam de se arranhar nos transportes públicos ou mesmo no carro. Quantas vezes, já não vi eu, logo de manhã, no carro, as mulheres aplicarem base, usando o espelho por cima do volante, no momento em que o sinal está vermelho.



Alguma bibliografia:


Reconnaître les meubles de style / P. M. Favelac. – Paris. Ch Massin, s. d.



https://www.galerie-atena.com/blog-le-style-restauration-18151830-pxl-28_42.html



sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Um pouco da vida política em Chaves na década de 90 do século XIX: Liberal Sampaio

Liberal Sampaio. Foto de meados da década de 70 do século XIX.
 
O facto de uma prima minha me ter oferecido dois velhos álbuns de fotografias de família, tiradas mais ou menos entre 1860 e 1902, reacendeu em mim o interesse pela história da família e para me informar melhor sobre o universo onde aqueles personagens viveram, comprei a obra História moderna e contemporânea da Vila de Chaves através das actas e jornais da época, da autoria de um parente meu, Júlio Montalvão Machado e publicado pelo Grupo Cultural Aquae Flaviae. É um livro bem organizado, com um índice onomástico no fim, permitindo-nos localizar rapidamente na obra esta ou aquela personagem. E com efeito, encontrei nesta obras duas notícias referentes ao meu trisavô, que permitem entrever a personalidade polémica de José Rodrigues Liberal Sampaio, apesar da sua condição de sacerdote supostamente o obrigar a alguma descrição.

A primeira notícia foi publicada a 1 de Novembro de 1895, no jornal O Norte, periódico publicado em Vidago, ligado ao Partido Progressista e relata um comício da força política rival, o Partido Regenerador, ao qual o meu trisavô esteve ligado. Esta reunião do Partido Regenerador teve lugar no antigo teatro de Chaves e o autor do artigo descreve de forma sardónica o evento como se de um drama teatral de faca e alguidar se tratasse, tendo por protagonistas os políticos desse partido, entre os quais se contava o meu trisavô, bem como Joaquim Carneiro de Moura, entre outros e não consigo resistir a transcrever aqui parte desse texto.
 
Presumível retrato de Joaquim Carneiro de Moura, um político que passou do Partido Regenerador para o Partido Progressista

Espectáculo regenerador: a 27 de Outubro, no teatro desta vila, reuniram-se os poucos regeneradores de Chaves, após a missa do meio-dia, para a resolução de assuntos políticos de alta transcendência (…)
Estoirou então na escuridão do teatro a voz dominadora do sr. Padre Liberal Sampaio. O actor combateu o abandono a que estão lançadas as “mulheres de má vida” e pede para elas um asilo. Não quer também a canalização das águas em canos de ferro zincados, mas sim em canos de pedra, pois aqueles depositam “materiais nocivos à saúde”. Disse que os presos não ouvem missa e que os regeneradores têm em vista, se forem Câmara obriga-los a ir à missa do meio-dia para lhe purificar as almas. O actor publicou depois mais dislates à assembleia boquiaberta, estupefacta, atónita. É esta cabeça que os regeneradores apresentam para a Presidência da Câmara.

Uma vez que o autor deste texto não nutria qualquer simpatia pelo meu trisavô, acaba por me dar uma visão mais exacta do meu antepassado, muito mais do que se fosse um texto laudatório, daqueles que se escrevem quando as pessoas morrem. Em primeiro lugar sobressai a voz dominadora de Liberal Sampaio, que estoira na escuridão do teatro. Sabia que o meu trisavô foi um pregador famoso no seu tempo e presumia que tivesse bons dotes oratórios, mas neste texto tenho uma caracterização da voz de um homem em 1895, num tempo em que os registos sonoros eram raríssimos e percebe-se que terá tido a capacidade de dominar um auditório, como só alguns professores de liceu ou de faculdade o conseguem fazer ao fim de muitos anos de ensino. Por outro lado, o que no ano de 1895 pareciam dislates num meio pequeno de uma vila transmontana, aos nossos olhos contemporâneos, são bons princípios, como a criação de um abrigo para as prostitutas, a proposta de que os presos ouvissem missa, pressupondo que o meu trisavô acreditasse não só num tratamento mais humanitário para os presidiários, mas também no seu arrependimento e redenção. Finalmente parece-me interessante a sua preocupação com as canalizações e a saúde pública.

O artigo deste jornal dá-me também conta das simpatias políticas de Liberal Sampaio com o partido Regenerador, o que se confirma no levantamento que o meu pai fez de todos os artigos que o meu trisavô escreveu na imprensa periódica. Com efeito ao longo de 1895, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio colaborou pelo menos 4 vezes no Correio de Chaves, órgão do Partido Regenerador.

Contudo, terá mudado a filiação partidária, pelo menos a partir de 1899, pois o mesmo jornal, o Correio de Chaves, nesse ano ataca-o ferozmente como um progressista, mudança esta que se confirma na bibliografia levantada pelo meu pai, pois entre 1906 e 1907 Liberal Sampaio é colaborador assíduo no Intransigente, um semanário progressista, com sede em Chaves.

Transcrevo aqui o ataque ao meu antepassado feito pelo Correio de Chaves em 13 de Maio de 1899.

A seriedade do padre e advogado José Rodrigues Liberal Sampaio. É como homem e como padre que me proponho tratar este desgraçado - perigoso instrumento do agente das trevas – e depois o arrastarei à praça pública, onde ficará a nu das pústulas, como advogado. Como Padre tem por tema a volúpia. Como homem é sem firmeza de carácter e de tal baixeza que havendo dito dos progressistas locais no teatro de Chaves em 1895 o pior que se pode dizer de um partido, pouco depois foi-lhes oferecer os seus serviços a mendigar favores.

Como padre, arranjou uma espécie de Congregação de Filhas de Maria para conseguir o concubinato rico que ostenta, vaidoso, e praticou em Outeiro Seco, as acções más que a devassidão pode inventar. Além disso mandou espancar um homem por meio de uma cilada combinada com uma amante, o que lhe trouxe a sentença de desterro que cumpriu.

É este padre que se exibe pregador régio, não tendo senão exemplos de descrédito na vida…um pregador que vive em mancebia, pratica escândalos e cobra dinheiro por assistir a um moribundo.
 
Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, a minha trisavó, foi amante de Liberal Sampaio 

Como bem refere Júlio M. Machado, que reproduz este texto na sua obra, o redactor deste periódico, era um agressivo autor das notícias mais especulativas e é evidente o tom calunioso desta notícia. Para o leitor flaviense de 1899, num meio em que todos se conheciam, as insinuações deste texto eram mais que óbvias, mas hoje, passados 120 anos tenho alguma dificuldade em entender o exacto significado destas injúrias. Por exemplo, quando menciona arranjou uma espécie de Congregação de Filhas de Maria para enriquecer, será que o jornalista do Correio de Chaves se refere a algum recolhimento para raparigas pobres, talvez a Confraria do Sagrado Coração de Maria, que por volta destes anos manteve um conflito com a Câmara de Chaves e para a qual o meu trisavô angariaria dinheiro?

O autor desta notícia, que assina sob o pseudónimo de Zéquentelho, acusa Liberal Sampaio de ter espancado um homem em Outeiro Seco, com a cumplicidade da amante (certamente a Maria do Espírito Santo) e que lhe trouxe uma sentença de desterro que cumpriu. Este episódio não consta da tradição familiar, mas creio que se refere à suspensão de advogado, pelo prazo de seis meses, a que o meu trisavô foi condenado em Julho de 1898, por falta de respeito a um juiz, conforme notícia o Correio de Chaves, a 16 desse mesmo mês, no nº 7 e cujo texto transcrevo aqui.

O Tribunal da Relação do Porto, suspendeu de advogado nos Tribunaes do Reino, durante 6 meses, o Sr. Dr. Liberal por insultos dirigidos ao Sr. Dr. Juiz d’esta Comarca em uma minuta de aggravo, de que um pasquim da localidade exibiu cópia com grande ufania. Que esta pena, sirva de exemplo para muitos que, no destempero da linguagem, andam constantemente a faltar ao respeito devido aos tribunais(..).

 
Liberal Sampaio no momento da sua formatura, em Coimbra
 
Da leitura destes artigos publicados em 1895 e 1899 fica claro que o meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio era um homem que ou era amado ou detestado. Não seria de todo uma daquelas pessoas que estão bem com Deus e o Diabo. Politicamente, passou do Partido Regenerador para o Progressista e com uma voz dominadora defendeu alguns princípios que ainda hoje fazem parte da agenda política, como a criação de abrigos para as prostitutas e um tratamento mais humano dos presidiários. Também da leitura destes artigos se comprova inequivocamente, que Liberal Sampaio viveu maritalmente com a minha trisavó, a Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, uma fidalga de condição superior à sua e que a sua vida decorreu entre polémicas.

Estes dois artigos evocam também uma época em Portugal, a segunda metade do século XIX, em que existia plena liberdade de imprensa e os inimigos políticos, sociais ou de corrente literária insultavam-se ferozmente, numa desfaçatez completamente impensável para os dias de hoje, em que as polémicas quando estalam, entre jornalistas, políticos ou cineastas ou escritores, decorrem sempre de forma civilizada.

Bibliografia:
História moderna e contemporânea da Vila de Chaves através das actas e jornais da época / Júlio Montalvão Machado. – Chaves: Grupo Cultural Aquae Flaviae, 2012, p.151-52 e p. 173-174

José Rodrigues Liberal Sampaio: 62 anos de jornalismo: bibliografia activa e passiva / José Manuel Alves Montalvão da Cunha
In
Adenda ao nº 56, de Junho 2018 da Revista Aquae Flaviae. Chaves: Grupo Cultural Aquae Flaviae, 2019

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Restos de um serviço de porcelana da Vista Alegre (1852-1869)

Desde que herdei da minha avó paterna uma meia dúzia de peças da Vista Alegre, fiquei fascinado com as delicadas decorações florais tão típicas da produção daquela casa ao longo do século XIX e não parei então de as coleccionar. Claro, como a minha casa é muito pequena, não posso comprar serviços inteiros. Limito-me a adquirir um bule aqui, uma chávena acolá depois uns anos mais tarde um prato de bolo, o que talvez seja uma tolice, pois um dia que precise de vender, um serviço inteiro terá muito mais valor comercial, do que uma dúzia e meia de peças desirmanadas. Mas como sou um mero coleccionador sentimental, acabo por ser um bocadinho errático nas minhas escolhas. 
Há pouco tempo comprei por um preço irrecusável um prato raso da Vista Alegre, com uma decoração floral e uns motivos dourados muito bonitos e quando cheguei a casa, descobri que já tinha uma chávena e uma leiteirinha do mesmo padrão. Estas duas últimas peças não estão marcadas e quando escrevi sobre elas em Outubro e Setembro de 2011, embora me parecessem da Vista Alegre, não deixei de colocar a hipótese de serem porcelana francesa, já que a fábrica de Ílhavo seguiu muito de perto das modas da porcelana feita na cidade de Paris.
Marca 14 da Vista Alegre (1852-1869)
Mas, com a compra deste prato, que está marcado tirei as dúvidas e as três peças que hoje apresento em conjunto são indiscutivelmente da Vista Alegre. O prato ostenta a marca nº 14, feita a punção usada entre 1852-1869 e assim sendo a chávena, a leiteira e o prato raso são até mais antigas do que pensava em 2011. Na época, tinha o palpite que fossem do 4º período da Vista Alegre, 1870-1880 e afinal foram produzidas entre 1852-1869.
Lista de marcas da Vista Alegre https://vistaalegre.com/catalog/evolucaomarca.pdf
 
Este resto de um antigo serviço de Chá não tem grande valor comercial, mas quem poderá resistir ao charme da sua delicada decoração floral?
 
 
  

segunda-feira, 15 de julho de 2019

O Menino Jesus do Convento das Flamengas


Comprei mais este registo, representando um Menino Jesus, vestidinho como se fosse um cortesão, a que não faltam sequer uns sapatinhos de fivela, uma camisa debruada com rendas e uma peruca. Estava muito mal emoldurado, numa dessas caixas de vidro, ornamentada com umas fitas de ouro compradas nas lojas dos chineses e ainda umas escamas de um peixe, provavelmente de uma espécie geneticamente modificada. Enfim, era uma daquelas coisas modernas e infelizes a imitar os registos feitos nos conventos. Resolvi retirar esta estampa antiga daquele horror, mas acabei por rasga-la e lá foi o meu amigo Manel, que com a sua paciência, a conseguiu colar.


Como já escrevi aqui no blog, durante os séculos XVII e XVIII nos conventos femininos portugueses a devoção ao Menino Jesus, manifestou-se de formas que hoje nos parecem muito curiosas. No muito tempo que tinham livre, as irmãs dedicavam-se a confeccionar enxovais completos ao Menino Jesus, onde não faltava nada, desde trajes de caça, roupa de cama, roupa interior, trajes de corte, chapéus, sapatos e meias, conforme nos dá conta Flávio Gonçalves na sua obra O vestuário mundano de algumas imagens do Menino Jesus, Porto, 1967. Mas as religiosas se não limitavam ao guarda-roupa, escreviam poemas ao Menino Jesus, encenavam peças de teatro para Ele e ainda encomendavam-lhe cadeiras e camas em miniatura, que são réplicas fiéis do mobiliário então em voga. É o caso, deste menino Jesus, das Religiosas Flamengas do Convento de Alcântara, em Lisboa, que se encontra sentado num cadeirão de braços muito ao gosto do século XVIII.

Cadeiras de imagem da col. do Museu Nacional de Arte Antiga


O Museu Nacional de Arte Antiga expõe na secção de mobiliário algumas dessas cadeiras e leitos de imagens, que além de serem uma verdadeira graça, testemunham a intensa devoção ao Menino Jesus experimentada por essas mulheres que viviam em reclusão. Claro, aos nossos olhos modernos, tudo isto nos parece coisa própria de mulheres celibatárias, que procuravam satisfazer um desejo recalcado de maternidade, mas a sua fé era genuína e o Menino Jesus era como que um cupido brincalhão, que cravava no coração dessas freiras o dardo do amor divino.

Leitos de imagem da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga


Esta estampa dos finais século XVIII reproduz uma imagem que existiu em tempos no Convento de Nossa Senhora da Quietação, em Alcântara, conhecido vulgarmente pelas flamengas, pois tinha sido fundado no século XVI, no tempo de  Filipe II, para acolher religiosas fugidas das perseguições luteranas na Holanda e na Flandres e terá sido objecto de um intenso culto não só parte das monjas clarissas, que viviam nessa casa de religiosas, mas também da população em geral, de outro modo não se teria mandado imprimir esta estampa.

Menino Jezus das Religiosas Flamengas d'Alcântara. Carvalho Fecit. Em caza de M. D. A Junior, na rua dos Calafates, nº 116

Este registo foi gravado por um tal Carvalho, que fazia muitas destas gravurazinhas baratas (só eu tenho umas quatro gravadas por ele)  e vendia-se em casa de um tal M. D. A Junior, na rua dos Calafates, nº 16. Estas iniciais correspondem ao nome Manuel d'Ambrosii Júnior, que no Inventário da colecção de registos de santos de Ernesto Soares é mencionado 13 vezes, o que nos dá ideia da popularidade das suas edições. Tinha a sua casa na rua dos Calafates, nº 116, em Lisboa, que corresponde à actual Rua Diário de Notícias, no Bairro Alto. O Bairro Alto foi durante mais de dois séculos uma zona onde tradicionalmente os livreiros e impressores tinham os seus estabelecimentos.
O Convento das Flamengas. Foto http://www.monumentos.gov.pt/

Quanto ao paradeiro actual deste Menino Jesus e do seu precioso enxoval, não descobri nada. Após a extinção das ordens religiosas, com a morte da última freira, em 1887, as alfaias e os objectos de cultos deste convento dispersaram-se. Uns fazem parte da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, mas entre eles não se conta o Menino Jesus nem a sua cadeira, e outros bens voltaram à igreja do mosteiro em 1889, sendo entregues à Real Irmandade da Nossa Senhora da Quietação. Será que este Menino Jesus pertencerá ainda à referida Irmandade ou foi vendido em hasta pública no século XIX e da sua existência luxuosa, com trajes de corte tão ricos, restou apenas esta estampa como testemunha?





Alguma bibliografia e links consultados:



Inventário da colecção de registos de santos / org. e pref. Ernesto Soares. - Lisboa : Biblioteca Nacional, 1955.


O vestuário mundano de algumas imagens do Menino Jesus / Flávio Gonçalves , Porto, 1967


http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=5940

sábado, 22 de junho de 2019

Uma moldura em forma de harpa


A história familiar é importante para mim e gosto de me rodear de retratos dos antepassados. Creio que de certa forma repito os rituais dos antigos romanos aos deuses Manes, um culto prestado aos antepassados, que partiram, mas que coabitam com os seus descendentes, numa homenagem à perpetuidade da raça. Certamente por essa razão, sempre que vejo uma bonita moldura antiga numa feira de velharias, compro-a para encaixilhar mais um retrato de um bisavô, de uma trisavó ou de uma tia.

A mais recente aquisição foi este porta-retratos em forma de harpa, composto por duas placas diferentes de madeira artisticamente recortadas. É um objecto muito ao gosto da arte nova, que me encantou de imediato. Procurei obter algumas informações sobre esta peça no google e fiz umas quantas pesquisas por palavras chave naquele motor de busca , em francês, português e inglês e acabei por ir ter à pagina de um senhor espanhol, http://www.finescrollsaw.com, que ainda executa estes trabalhos a partir de moldes antigos e cuja leitura me permitiu perceber exactamente o objecto que tinha em não.

No início do século XX estes trabalhos de madeira recortada estavam muito na moda e existiam uma série de empresas francesas, italianas, inglesas, belgas e americanas que editavam catálogos, vendendo quer os moldes, quer as ferramentas para que, qualquer amador habilidoso executasse no conforto do seu lar uma panóplia de objectos, que iam desde molduras, a caixas de costura e guarda-joias, passando por gaiolas e étageres, sem esquecer as caminhas para meninos jesus e mobília para casas de bonecas. Normalmente estas peças tinham um recorte muitíssimo arrebicado e combinavam bem com o gosto sobrecarregado da decoração de interiores, tão típico da viragem do século XIX para o XX.
Catálogo da Casa Pietro Barelli. Imagem retirada de http://www.finescrollsaw.com/pietrobarelli/pietrobarelli-fr.htm

Num desses catálogo, o da casa Pietro Bareli, de Milão, datado de 1906, encontrei uma imagem de uma destas molduras em forma de harpa, que é praticamente igual à minha. Há apenas uma diferença, no lado direito do modelo existe uma pequena pauta musical, que corresponde à parte onde a minha moldura está quebrada. Como este porta-retratos é um objecto frágil, provavelmente um dia caiu ao chão e perdeu a pecinha que representava a pauta musical.

Em suma, consegui perceber que a meu porta retratos foi executado a partir de um molde de uma destas revistas, publicada logo início do século XX e irá agora servir para encaixilhar umas das muitas fotografias antigas de família que disponho.


sexta-feira, 7 de junho de 2019

O luxo do Vieux Paris: chávena e pires do início do século XIX


Depois de muito namoro o meu amigo Manel comprou esta peça de uma qualidade excepcional, uma chávena com um pires, moldados em forma de concha e que imediatamente presumimos tratar-se de porcelana de Paris, do início do século XIX. Com efeito, ainda antes do Manel adquirir finalmente a peça sabíamos, que o Museu Nacional de Arte Antiga tinha em exposição uma chávena exactamente igual, da antiga colecção de Luís Fernandes (inv. 4454 e 4455 cer)
Chávena do Museu Nacional de Arte Antiga. (inv. 4454 e 4455 cer)
Contudo a chávena do Museu Nacional de Arte Antiga está marcada com uma espécie de espadas cruzadas à maneira de Meissen, identificáveis com a Casa Locré, Russinger e Pouyat (1773-1824). Ao contrário, a chávena e pires do Manel não estão marcados, o que nos levou logo a ter uma série de interrogações quanto ao seu fabricante, pois muitas das casas de Paris desse período nem sempre marcavam as peças, imitavam-se umas às outras e sobretudo copiavam Sêvres. Creio eu que muitos desses fabricantes tentariam fazer passar os seus produtos por Sêvres, a mais prestigiada fábrica de porcelana francesa e europeia. Mais ainda, algumas dessas casas parisienses compravam porcelana em branco a outros fabricantes, que se limitavam a decorar. Em suma, quando as peças não estão marcadas é sempre um risco fazer atribuições.
A chávena do MNAA está marcada com uma espécie de espadas cruzadas à maneira de Meissen, identificáveis com a Casa Locré, Russinger e Pouyat
 
 
A chávena do Manel tem apenas uma pequeno x pintado a dourado, que creio ser apenas uma marca de controlo interno da fábrica.

Contudo, temos quase a certeza que se trata de Porcelana de Paris produzida nas duas primeiras décadas do século XIX. Na sua obra Porcelaine de Paris, Régine de Plinval de Guillebon afirma que, no início do Século XIX houve uma tendência geral na produção daquela cidade para transformar a chávena num bibelot extremamente requintado. Observa-se uma verdadeira loucura de formas novas de chávenas, que podem ser em forma de cisne, de caracol, de concha, ao estilo etrusco, caneladas e ainda com muitos grifos à mistura. A título de exemplo, a Darte Frères e Sêvres produziram chávenas em forma de cisne, que mais tarde, a nossa Vista Alegre copiou, mais ainda, a Dagoty e a Casa Locré, Russinger Pouyat fabricaram chávenas em forma de concha e os grifos abundaram por todo o lado.
Chávena e Pites da Dagoty, que esteve à venda na leiloeira Christie's
No fundo, esta chávena do Manel é bem um exemplo dessa produção das casas de porcelana Paris no início do século XIX, que tendem a adoptar formas insólitas, mas refinadas e a transformar a chávena num objecto que se exibe numa vitrina. É provável que tenha sido cerca fabricada cerca de 1820 pela Casa Locré, Russinger Pouyat, já que é igual ao exemplar do Museu Nacional de Arte Antiga, mas não é seguro. Em todo o caso, independente do seu fabricante está chávena é tão refinada, que só me ocorre um francesismo para a qualificar, ravissante.
 
 

Alguma bibliografia e links consultados:
 
Porcelaine de Paris, 1770-1850 / Régine de Plinval de Guillebon. Friburg: Office du Livre, 1972
 
 
 

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Os pais de Bento Roma: um herói da Primeira Guerra Mundial e governador de Angola


Continuo nos meus trabalhos de exploração do álbum de fotografias formado pelo meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio, que é um verdadeiro fresco da sociedade flaviense no último quartel do século XIX. Talvez por essa mesma razão insisto em partilhar publicamente as fotografias do álbum aqui no Blog, pois sinto que não são só pertença da família. Estas imagens são a memória de uma comunidade, da cidade e do Concelho de Chaves e nalguns casos do próprio País.
 
António Gonçalves Roma
Durante o trabalho de inventariação das fotografias, encontrei o retrato de um cavalheiro respeitável, identificado pelo meu trisavô na sua caligrafia miudinha, como António Gonçalves Roma. Na página ao lado desta fotografia estava um retrato de uma família, um senhor sentado, com um bebé sobre os joelhos, visivelmente orgulhoso da sua cria e em pé, a mãe, que posa com a sua melhor toilette, enquanto segura um leque. É engraçado observar como estes fotógrafos do XIX reproduziram a encenação e as convenções do retrato da pintura dos séculos anteriores, em que as grandes damas posavam sempre com um leque na mão, símbolo de riqueza e realeza. O Manuel, meu ajudante precioso neste trabalho de inventariação do álbum do meu trisavô, chamou-me a atenção para o facto, de que o orgulhoso pai da fotografia de conjunto é o mesmo indivíduo, que é representado com umas suíças e um bigode. Portanto, o retrato de grupo representava a família de António Gonçalves Roma.
 
António Gonçalves Roma e o filho
 

Segundo o jornal O Flaviense, nº1, 13 de Junho de 1876, António Gonçalves Bento Roma era um comerciante de algodões, lãs e fazendas em Chaves, com um estabelecimento acabado de inaugurar na Rua Direita. A 18 de Julho, anunciava-se no nº 6 do mesmo jornal, que António Gonçalves Bento Roma e outros comerciantes de Chaves organizaram um bazar de prendas, cujo produto destinava-se a ser aplicado, na compra de uma túnica para a imagem do Senhor dos Passos e um vestido para a devota imagem de Nossa Senhora das Lágrimas (*1). A julgar pela por estas informações e pela toilette complicada da sua mulher, terá sido um comerciante próspero, até porque na época a fotografia ainda era cara.
 
Verso da foto de António Gonçalves Bento Roma. Fotografia União, do fotografo António Correia da Fonseca,  Praça de Sta. Teresa, no Porto 

O retrato de António Gonçalves Roma foi tirado depois de 1876 na Fotografia União, do fotografo António Correia da Fonseca, que tinha sede na Praça de Sta. Teresa, no Porto, que era um dos estúdios mais chiques do Porto. A fotografia da família foi executada no estúdio de António José de Barros, activo desde 1874 na Póvoa de Varzim.
 
Verso da fotografia de grupo. António José de Barros, Póvoa de Varzim, Photographo
 
É certo que esta família burguesa era certamente próspera e talvez pudesse ir a banhos à Povoa de Varzim ou deslocar-se ao Porto em negócios, mas tenho sempre a mesma interrogação nestes casos. Será que os fotógrafos destas casas do Porto e terras circundantes não se deslocariam periodicamente às cidades e vilas do interior Norte, nos dias de festa dos respectivos santos padroeiros, para retratarem os burgueses abastados e a fidalguia locais?
 

Fiz mais umas pesquisas pelo nome deste senhor na internet e acabei por descobrir que António Gonçalves Roma e a sua mulher são nada mais, nada menos, que os pais do Coronel Bento Roma (1884-1953), um herói da primeira guerra mundial e das campanhas em Angola e que chegou a ser governador em Angola. Muitas ruas em diferentes localidades portuguesas ostentam o seu nome. Consultei o registo de baptismo de Bento Roma, de 2 de Janeiro de 1884, onde encontrei mais algumas informações sobre esta família. António Gonçalves Roma era natural de Chaves, negociante e a sua mulher era Josefina Augusta Esteves natural de Bobadela, Barroso, Concelho de Boticas e moravam na Rua Direita de Chaves. Curiosamente na sua antiga casa situa-se hoje a sede do Grupo Cultural Aquae Flaviae.
O Cornonel Bento Roma
Bento Roma em 1904. Foto retirada de O coronel Bento Roma (1884-1952): homenagens e consagrações em 1954 e 1955.  Lisboa: Of. gráficas da Gazeta dos Caminhos de Ferro, imp. 1955

Embora tenha consultado mais alguns livros de baptismo da então Vila de Chaves, não encontrei informação sobre mais nenhum filho deste casal. Portanto, a fotografia da família poderá muito bem ser o primeiro retrato de Bento Roma e ter sido tirada por volta de 1885 ou 1886.
 
Esta poderá ser a primeira fotografia de Bento Roma.
Não sei exactamente as relações que a família Gonçalves Roma estabeleceu com a minha família, mas Chaves, nos últimos 25 anos do século XIX era um meio pequeno e todos se conheciam. António Gonçalves Roma era um homem devoto, que organizou um bazar para comprar vestes para imagens da Virgem e de Cristo e certamente escutou muitas vezes os sermões do Padre José Rodrigues Liberal Sampaio, um pregador muito conhecido e era muito natural, que os dois tivessem trocado as respectivas carte-de-visite. Também é possível que a minha trisavó, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, que era nesta época uma mulher elegante se abastecesse no estabelecimento de tecidos família Roma, para mandar fazer as suas toilettes sofisticadas e a Sra. D. Josefina lhe tivesse oferecido um retrato da família.

Em todo o caso, anos mais tarde, por volta de 1911, os destinos da família Roma poderão ter-se cruzado novamente com os de Liberal Sampaio e da família Montalvão. Pouco depois da República, o meu trisavô, que era monárquico, esteve escondido algum tempo num quarto secreto do Solar dos Montalvões e posteriormente fugiu para Espanha: Nesse mesmo período, o jovem oficial, Bento Roma, um republicano convicto, foi incumbido de ir à Galiza tentar dissuadir os portugueses que ali se haviam concentrado com o fim de virem atacar a República. Quem sabe se os dois não se encontraram em Verín ou Fezes de Abajo, localidades galegas vizinhas de Chaves.
 
Bento Roma em 1907. Foto retirada de O coronel Bento Roma (1884-1952): homenagens e consagrações em 1954 e 1955.  Lisboa: Of. gráficas da Gazeta dos Caminhos de Ferro, imp. 1955
 
Alguma bibliografia:
(¨*1). História moderna e contemporânea da Vila de Chaves através das actas e jornais da época / Júlio Montalvão Machado. – Chaves: Grupo Cultural Aquae Flaviae, 2012, p. 89 e e 92

O coronel Bento Roma (1884-1952): homenagens e consagrações em 1954 e 1955 / pref. Do General Ferreira Martins. Lisboa: Of. gráficas da Gazeta dos Caminhos de Ferro, imp. 1955