sábado, 26 de Julho de 2014

Um objecto arte nova ou o estilo do lírio

Herdei este objecto em arte nova da minha avó Mimi. É de couro lavrado e madeira, mas nem sei exactamente qual era a sua função original. Já foi uma espécie de recipiente para pôr pot pourri, mas agora serve para guardar as chaves de casa e do carro e está colocado na primeira divisão, logo à entrada da minha casa. Aliás, julgo que esta será uma função mais próxima da original para a qual esta peça foi concebida. Suspeito que este elegante objecto arte nova terá sido desenhado como vide-poche, isto é um recipiente, que serve para esvaziar os bolsos quando chegámos a casa, mas não estou certo.
A arte nova foi um movimento artístico que prestou atenção aos mais pequenos objectos do quotidiano. Ao contrário de outros períodos da história em que os artistas se concentraram nas chamadas artes mais nobres, como a pintura, a escultura ou a arquitectura, a arte nova assumiu-se como um estilo total, que se manifestou em todas artes desde a arquitectura até à decoração de interiores, passando pela jóias, móveis, iluminação e objectos de uso prático como máquinas de costura ou este vide-poche. Não que no século XVIII, os ourives não fizessem caixinhas de rapé ou garfos e facas em materiais preciosos e formas fantasiosas, mas faziam-nos como peças únicas de acordo com as encomendas de grandes famílias aristocráticas. Mas, nestes anos de 1900, quando o movimento arte nova eclode na Europa e nos Estados Unidos está-se em plena revolução industrial e os candeeiros, as cadeiras, as cafeiteiras ou as cigarreiras são feitas em fábricas aos milhares de unidades e pela primeira vez na história, achou-se que esses objectos do quotidiano, podiam ter uma concepção artística, elevarem-se à categoria de objectos de arte.

Mas a arte nova é mais que uma aplicação das belas artes aos objectos utilitários. O movimento pretendeu romper com as formas decorativas inspiradas na antiguidade clássica e nos estilos do passado, que caracterizaram tanto o século XIX. Por exemplo, cerca de 1870, a residência de um grande industrial, teria uma salão neogótico, uma sala de visitas ao estilo Luís XVI, uma casa de jantar estilo Império e uma dúzia de quartos onde se combinariam todos os estilos possíveis, adornados com muitas palmeiras e pesados reposteiros.
Arte nova ou o estilo do Lírio
A arte nova libertou-se do peso das gramáticas decorativas do passado e inspirou-se nas formas da natureza, em particular nas flores e nas folhas, de tal maneira que se tornaram uma imagem de marca desse estilo. Os lírios, representados neste vide-poche, que herdei da minha avó são mesmo a flor de eleição deste movimento artístico de duração efémera, que singrou por volta de 1900 e terminou com a guerra de 1914-1918. Aliás um dos muitos nomes que a arte nova tomou por essa Europa foi precisamente lilienstil, o estilo do Lírio.



Alguma bibliografia:
L'objet 1900 / Maurice Rheims. - Paris: Arts et Metiers Graphiques, 1964

quinta-feira, 10 de Julho de 2014

Duas faianças de Alcobaça


Recentemente passou-me um livrinho escrito por Jorge Pereira Sampaio e Luís Peres Pereira, intitulado Cem anos de louça Alcobaça, edição do autor de 2008. Esta pequena obra tem o mérito de se dedicar a um período da faiança, o final do século XIX e o século XX, sobre o qual não há muita coisa escrita (excepto sobre Sacavém) e é por isso muito esclarecedora e útil para nós os coleccionadores amadores de faiança, que nós vimos gregos em identificar fabricos populares sem qualquer marca e acerca dos quais não conseguimos dizer com segurança, isto é Coimbra, aquilo é Aveiro e aquele outro é Porto, sem correr o risco de asneirar em grande.
O tardoz de forma oblonga da bacia do Manel é quase tão interessante como a frente.
Já aqui se tinha escrito sobre a Fábrica de José dos Reis, um senhor vindo de Coimbra e que fundou a primeira faiança em Alcobaça em 1875. Este Senhor morreu em 1898 e a viúva manteve a fábrica até 1900 e neste círculo de blogues sobre cerâmica e faiança ao qual o http://velhariasdoluis.blogspot.pt/ pertence, escreveu-se com alguma frequência sobre sobre ele e as suas produções.
Peças de José dos Reis e Manuel Ferreira da Bernarda: a continuidade
O mais interessante nesta pequena obra, é que nos revela a existência de uma continuidade na produção da fábrica de José dos Reis e a de Manuel Ferreira da Bernarda Júnior, que alugou a fábrica do primeiro à sua viúva em 1900.  Segundo os autores da obra Cem anos de louça Alcobaça, até cerca de 1930 a produção da fábrica Manuel Ferreira da Bernarda Júnior continua em linhas gerais a produção de José dos Reis, embora a diversifique.

Algumas das produções, que normalmente pensávamos ser peças de José dos Reis, como as ingénuas paisagens com casario, feitas numa faiança de tom amarelado, foram igualmente produzidas por Manuel Ferreira da Bernarda Júnior. Será talvez o caso desta bacia de faiança do Manel,  que acreditávamos ser de José dos Reis, portanto datada entre 1875-1900 e que afinal poderá igualmente ter sido executada por Manuel Ferreira da Bernarda Júnior, entre 1900 e 1930.


Em suma, esta bacia poderá ser bem mais moderna do que parecia à primeira vista. Aliás, as peças ingénuas parecem ser sempre mais antigas do que aquilo realmente são, já o dizia Ernesto de Sousa na sua obra para o Estudo da escultura Portuguesa. Este fenómeno tem a ver com a permanência de valores, de gostos e de ideias estéticas das sociedades mais rurais, que levam os artesãos a repetir sem grandes variações modelos antigos.

O prato com um simpático e gordo Perú será um fabrico de Alcobaça

De igual modo, este livrinho sobre cerâmica de Alcobaça, permitiu-me identificar outra peça do Manel, representando um simpático Perú, que achávamos sem grande convicção que poderia ser Coimbra.


De facto, nesta obra, é reproduzida uma sucessão de terrinas, todas de Alcobaça, desde José dos Reis até a OAL pretendendo precisamente demonstrar a continuidade dos modelos e decorações da produção de Alcobaça e umas delas, de fabrico Manuel Ferreira da Bernarda Júnior apresenta uma decoração com um perú, em todo semelhante ao do prato do Manel. Portanto o prato do nosso amigo Manel,  será provavelmente uma produção de Alcobaça, da fábrica de Manuel Ferreira da Bernarda Júnior, datada entre Manuel 1900 e 1930.

Refiro o ano de 1930 como uma data limite aproximada, porque  ao longo da década de trinta, o filho de Manuel Ferreira da Bernarda Júnior, Raul da Bernarda empreende um processo de modernização dos modelos e padrões da fábrica e começa a fazer aquela louça inspirada em modelos históricos, que ainda hoje associamos às lojas de souvenirs em Alcobaça.

A cercadura em estampilha  é semelhante às peças do Manel

De igual modo, a partir de 1927, outro filho de Manuel Ferreira da Bernarda Júnior, Silvino da Bernarda funda a Olaria de Alcobaça (OAL), juntamente com António Vieira Natividade e Joaquim e Vieira Natividade. Se nos primeiros anos ainda fazem alguma louça estampilhada à maneira antiga, renovam toda a produção inspirando-se na faiança portuguesa do século XVII, na fábrica do Juncal e ainda nos ratinhos coimbrões.
Um pormenor do prato com o Perú

Claro, a atribuições que acabei de fazer da bacia com o casario e do prato com o Perú, como sendo de Manuel Ferreira da Bernarda Júnior não são inteiramente seguras, pois as peças não são marcadas e como todos sabemos, os fabricantes copiavam os motivos decorativos e formas uns dos outros, tentando corresponder ao gosto de quem comprava as peças nas feiras ou nos armazéns e portanto as peças do Manel poderiam eventualmente ter sido feitas em Coimbra. No entanto, parece-me mais provável serem de Alcobaça. Jorge Pereira Sampaio teve acesso a testemunhos e a colecções de quem conheceu gente, que ainda trabalhou nestas antigas fábricas, ele próprio formou uma bela colecção de cerâmica da região e desde alguns anos existe em Alcobaça o Museu Raul da Bernarda.

Um pormenor da cercadura da bacia com a paisagem com casario

quinta-feira, 3 de Julho de 2014

Inauguração de um salão ao estilo Luís XVI na casa de bonecas da Carminho

 

A minha filha já não brinca com bonecas. Vai fazer treze anos, passa a vida no facebook, agarrada ao telemóvel e já põe lápis nos olhos. Eu, pela minha parte, sou homem, já com cinquenta anos e também não brinco com bonecas. Mas, apesar disso, decidi deitar mãos à obra e fazer mais uma modificação na casinha de bonecas da minha filha Carminho e redecorar a sala de estar, em estilo Luís XVI.
As salas de jantar e de estar da casa de bonecas da Carminho
Para os menos conhecedores de história, Luís XVI foi rei de França entre 1774-1791 e durante o seu reinado desenvolveu-se um estilo na arquitectura e sobretudo nas artes decorativas, que tomou o seu nome.É um estilo inspirado na Grécia e em Roma, com linhas direitas, mas muito ligeiro, feminino mesmo, destinado sobretudo a seduzir.

Para revestir as paredes usei um papel de parede comprado no Hospital das bonecas, que reproduz as antigas boiseries francesas. As boiseries são apainelados em madeira, que se tornaram um elemento muito característico da decoração de interiores em França, nos séculos XVII e XVIII. As mais mais antigas eram deixadas da cor original da madeira, mas posteriormente passaram a ser pintadas apresentando-se os frisos em dourado. Em Portugal, podemos admirar um desses apainelados franceses no Museu Nacional de Arte Antiga, a célebre sala doada pelo milionário Atenor Patiño, muito embora seja ao estilo do reinado anterior, de Luís XV. 
Representação gráfica da Sala Atenor Patiño no Museu Nacional de Arte Antiga
Em França, claro, são inúmeros os exemplos de salas com boiseries. As mais célebre são as do Palácio de Versalhes, mas o Musée des Arts décoratifs, em Paris possui uns quantos destes salões, aliás, foi neste museu que fiquei irremediavelmente apaixonado por estas boiseries e na impossiblidade de montar um desses apainelados no meu apartamento, reproduzi um destes interiores na casa de bonecas da minha filha.
Boiserie Luís XVI no Palácio de Versalhes. Foto de http://godsandfoolishgrandeur.blogspot.pt
Montar esta boiserie na casinha de bonecas da minha filha ainda me deu trabalho. Passei a tarde de um dia de folga, a recortar as várias partes do papel, de forma a adaptar os vários painéis ao espaço. Usei cola UHU em em forma de batton

Também em estilo Luís XVI, o mobiliário foi comprado no Hospital das Bonecas, aqui em Lisboa. Pintei-o de dourado, estofei-o com o tecido de uma gravata de homem que comprei na loja dos chineses e coloquei-lhe um galão dourado. A chaminé comprei-a on-line numa conhecida casa de brinquedos em Inglaterra.

Tudo isto poderá parecer um trabalho inútil feito por um homem maduro para uma filha que já não brinca com bonecas. Mas, quando a minha filha crescer e for morar sozinha, levará a casa de bonecas com elas, e creio, que cada vez que olhar para ela, se recordará desta prenda do seu pai e dos momentos agradáveis ou mais dolorosos que passou em minha casa. No fundo queremos ser sempre lembrados depois de mortos.
Uma boneca travessa derrubou o candelabro no salão Luís XVI

domingo, 29 de Junho de 2014

Mais uma travessa de faiança inglesa "well-and-tree"


Volto hoje a apresentar mais uma travessa de faiança inglesa, usada para servir para servir carne assada, dita de well-and-tree.  Traduzida à letra esta expressão inglesa, quer dizer poço e árvore, ou seja, ao longo da travessa correm uns sulcos, formando o desenho de uma árvore, que terminam numa concavidade, o poço. Este desenho muito curioso destinava-se a que o molho da carne escorresse para a concavidade onde era muito mais fácil recolhe-lo com o auxílio de uma colher.

A travessa esta marcada no verso,  T. Fell & Cº,  marca que foi usada pela companhia Thomas Fell entre 1830-1890. Esta firma estava sediada em Newcastle e fornecia com os seus serviços de jantar e de chá o Nordeste inglês, bem como o mercado báltico e pelos vistos também o Sul da Europa, pois o meu amigo Manel, comprou-a por cá, na Ocidental Praia Lusitana. Esta companhia fabricou os padrões que estavam na moda no século XIX, como o Wild Rose, o Willow e o Asiatic Pheasants, sendo estes dois últimos, também por cá produzidos, nomeadamente  por Sacávem, entre outras fábricas e ficaram conhecidos pelos nomes, padrão do salgueiro e faisão, respectivamente.

A Tomas Fell fabricou também outros padrões menos vulgares, como o padrão desta travessa, o Bosphorus, embora também não tenha sido inteiramente original nesta escolha,  pois a firma britânica Ralph Hall & Co também produziu o Bosphorus, entre, 1841-1849, numa versão muitíssimo semelhante. 
Travessa Bosphorus da Ralph Hall & Co. 1841 - 1849. Propriedade da Connecticut Historical Society
Este padrão Bosphorus, tal como o nome indica, inspira-se no estreito do Bosfóro, que liga o mar Negro ao mar de Mármara e marca o limite dos continentes asiático e europeu na Turquia. Mas é uma visão fantasiosa, povoada por jovens casais galantes, passeando em barcarolas românticas com edifícios exóticos ao fundo, que pouco terá a ver com aquele estreito, que separa a Europa da Ásia. Portanto, quem foi o responsável pelo desenho desta travessa nunca pôs certamente os pés em Istambul, mas talvez tenha tido acesso às estampas de Thomas Allom, publicadas  na Constantinople and the scenery of the seven churches of Asia Minor, em 1838, as quais poderá ter interpretado livremente, usando elementos daqui e dali, sem grandes preocupações de rigor.
Estampas que poderão ter servido de inspiração longínqua para o padrão desta travessa. Foram extraídas da obra Constantinople and the scenery of the seven churches of Asia Minor.  London:  Fisher, Son in London, 1839
Este Tomas Allom (1804-1872) foi um arquitecto inglês que se distinguiu sobretudo pelos desenhos de paisagens, executados ao longo do seu percurso de viajante incansável e que serviram para ilustrar livros de viagens,  que estavam muito na moda no início do século XX. Este Senhor viajou intensamente pelo seu próprio pelo seu próprio País, do qual deixou inúmeros desenhos publicados na obra A topographical history of Surrey, da qual já reproduzi no blogue uma estampa, e ainda viajou pela Europa e pelo Oriente e um dos seus álbuns mais conhecidos é precisamente publicado com desenhos executados em Istambul e no Império Otomano.
Uma imagem da obra Constantinople and the scenery of the seven churches of Asia Minor.  London:  Fisher, Son in London
Esse livro intitulado Constantinople and the scenery of the seven churches of Asia Minor.  London:  Fisher, Son in London, 1839 saiu em dois volumes e creio que algumas das suas estampas foram a inspiração longínqua desta travessa.


domingo, 22 de Junho de 2014

Figurinha em biscuit: piano baby

Sei bem que estes bibelots em biscuit, que estavam tão na moda nas casas burguesas dos finais do século XIX e inícios do século XX são um bocadinho kitch. Falta-lhes a autenticidade dos pratos ratinhos ou a elegância depurada da porcelana de Paris das primeiras décadas de oitocentos, mas apresentam um charme muito burguês ao qual, confesso, não consigo resistir. E com efeito, na semana passada cedi à atracção exercida por esta menina em biscuit, na feira de Estremoz, e trouxe-a comigo para casa.
Em frente ao espelho
Quando a comprei achei que fosse uma rapariguinha, pelas formas arredondadas do corpo, pelo cabelo e até pelo sinal que ostenta no rosto. Contudo nos finais do século XX, inícios do século XX, se olharmos para as fotografias da época, temos dificuldade em distinguir os meninos das meninas. Eles usavam também uma espécie de vestido e muitas vezes o cabelo era-lhe cortado à pajem. Ainda recentemente enviei a uma prima minha uma fotografia antiga de família, de uma menina tirada cerca de 1900, sem nenhuma legenda, pedindo que me ajudasse a identifica-la e afinal quando recebi a resposta da prima, descobri que se tratava do seu pai ou de um dos seus tios. No entanto, se no início do século XX os vestidos ou bibes eram comuns aos rapazinhos e às meninas, os calções eram uma indumentária masculina, conforme me chamou a atenção a Maria Andrade. Em suma, é mais provável, que esta figurinha represente um menino.
Um menino da minha família cerca de 1900. Nas fotografias antigas temos dificuldade em distinguir os meninos das  meninas pela indumentária
Em todo o caso, seja ele menino ou menina, está muito animado, com umas roupas divertidas de festa, meias às riscas e um barrete engraçado. julgo que está a fazer balões de água com sabão.

Estas figurinhas em biscuit de meninos e meninas em posses travessas, pintadas e fabricadas com uma grande mestria técnica são normalmente de fabrico alemão e destinavam-se a ornamentar os pianos das salas vitorianas. Estes pianos eram cobertos com panos decorados com franjas, os chamados mantons de Manilha e por cima colocavam-se estas figurinhas, retratos de famílias, jarras de flores e outra cangalhada, num gosto surchargé, como dizem os franceses.  

Sala vitoriana de casa burguesa. A decoração é sobrecarregada. Por cima do piano um pano com franjas e uma figurinha em biscuit ou porcelana.
Em função do local onde eram normalmente dispostas, estas figurinhas ficaram então conhecidas pela designação de pianos babies. Eram normalmente alemães, produzidos sobretudo da região da Turíngia e a mais famosa fábrica foi a Gebrüder Heubach (1843-1938), cujos pianos babies, quando ostentam marca, atingem preços exorbitantes nos Estados Unidos.

Piano Baby de Carl Schneider.
Mas outras fábricas também se distinguiram pela qualidades das suas figurinhas de biscuit, como a Reichmannsdorf (1881-1964) e ainda Carl Schneider Erben (1886-1951).  Além destes bibelots, estas casas dedicavam-se também ao fabrico de bonecas com a caras e as mãos também em biscuit e que hoje são procuradíssimas pelos coleccionadores de brinquedos por causa da sua elevada qualidade.
Tal como muitas figurinhas em biscuit alemãs, este meu piano baby apresenta como marca apenas um número, 2413
No entanto, muitas destas figurinhas encantadoras não estão marcadas, ou então apresentam apenas números de fabrico, que se reportavam talvez às séries ou aos artistas. Esta ausência de marcas parece-nos um pouco inexplicável por parte de um povo tão metódico e organizado como os alemães. Mas de facto há uma razão política para isto. Desde 1870, quando a Alemanha invadiu a França e cercou Paris, o militarismo prussiano passou a ser visto como uma ameaça cada vez mais maior pela Europa, receio que se foi alargando ao mundo anglo-saxónico, sobretudo de depois de 1900, quando os alemães começaram a competir com a Inglaterra em poderio naval. Essa antipatia por tudo o que era alemão, traduziu-se nos Estados Unidos na aprovação do McKinley Tariff Act em 1890, que obrigava a que todos os produtos importados tivessem referência ao seu país de origem.


E no entanto, a porcelana e o biscuit alemão eram de grande qualidade e tinham preços competitivos e a forma que os fabricantes alemães encontraram de contornar esse anti-germanismo e continuar a exportar para os Estados Unidos e para a Europa foi não marcar os seus produtos, ou apor-lhes apenas um número ou ainda uma marca pouco clara e o termo "Germany", quando aparecia era em letras muito pequeninas. Houve até um grande distribuidor de cerâmica inglês, Max Emanuel & Co, que usou uma fábrica em Mitterteich na Baviera para fabricar loiça alemã, com uma marca britânica. No fundo, o consumidor mais desatento comprava produtos alemães sem o saber.

Em suma, apesar do anti-germanismo patente no mundo anglo-saxónico e na Europa, entre os finais do século XIX e inícios do século XX, as famílias burguesas continuaram a comprar estas figurinhas em biscuit, que de tão simpáticas que são, nelas é impossível encontrar qualquer vislumbre do militarismo prussiano, que pôs a ferro e fogo toda a Europa.


Sobre marcas alemãs, leia-se http://www.figurines-sculpture.com/pottery-markings-archive.html

domingo, 15 de Junho de 2014

Anunciação: estampa de Joaquim Carneiro da Silva?

Embora aprecie muito temas religiosos, tenho sempre uma certa inclinação para comprar gravuras com representações de santos menos conhecidos, como S. Facundo, Sta. Maria Egipíciaca ou S. Brígida. Enfim, atrai-me sempre aquilo que está fora de moda. Mas desta vez não resisti a uma gravura com um dos temas mais representados pelos artistas plásticos nos últimos 500 ou 600 anos, uma Anunciação. Achei o desenho tão delicado e o preço estava tão em conta que resolvi traze-la para casa e guardei-a num envelope, à espera de encontrar uma moldura adequada e um local vago na parede

Há uns tempos, folhei um catálogo de livro antigo da colecção do Museu de Aveiro, editado em 1999 e encontrei ai reproduzida uma estampa praticamente igual à minha. A referida gravura fazia parte de um missal impresso em Antuérpia, pela Tipografia Plantiniana, em 1738.
Missale Romanum ex Decreto Sacrosancti Concilii Tridentini restitutum, S. Pii Pont. Max. jussu editum, et Clementis VIII. primum, nunc denuo Urbani Papae octavi auctoritate recognitum, et novis Missis ex Indulto Apostolico huc usque concessis auctum. Antuerpiae : ex Architypographia Plantiniana, 1738
Estranhei um pouco, pois tinha ideia que a minha estampa era portuguesa, mas também sei o suficiente de arte, para perceber a que a gravura foi o veículo privilegiado de circulação de imagens e era possível que a fonte de inspiração da minha estampa fosse flamenga.

Esta Tipografia Plantiniana, tinha tido início no século XVI com Christophe Plantin (ca. 1520-1589) na cidade flamenga de Antuérpia e os seus descendentes transformaram esta casa num dos negócios mais bem sucedidos da Europa. Nos séculos XVII e XVIII exportavam livros para todo o mundo católico usando um sistema engenhoso de letras de câmbio para evitar o uso de numerário. A Tipografia Plantiniana também era conhecida pelas boas ilustrações, assinadas por artistas famosos na época, nomeadamente Rubens, amigo de um dos netos de Plantin.
Peter Paul Rubens (1577-1640), Annunciation,  c1628, Rubens House (Antuérpia, Bélgica)

Aliás, esta Anunciação, do Missale Romanum, da Tipografia Plantiana tem qualquer coisa da Anunciação de Pieter Paul Rubens, feita em 1628 e que se encontra na Casa-Museu Rubens, precisamente na cidade de Antuérpia. É certo que todas as Anunciações são semelhantes, mas estas duas, nomeadamente o Arcanjo tem muitos pontos de contacto.
Tentei apurar mais algumas informações sobre este assunto e fiz várias pesquisas sucessivas no google, pelas palavras  Anunciação, em português e inglês, combinando-as com os termos Missale romanum, old print e gravura. Acabei por ir ter ao site da Casa de Sarmento, onde encontrei uma estampa igual à minha, identificada como sendo da autoria de Joaquim Carneiro da Silva (1727-1818), de quem aqui já escrevi e que foi um dos mestres da gravura em Portugal nos finais do XVIII, inícios do XIX.
Silva Fecit
De facto no canto inferior esquerdo da minhas estampa, está uma assinatura Silva f., que poderá realmente significar Joaquim Carneiro da Silva, embora Silva seja um nome demasiado comum em Portugal para ficar com certezas. Na descrição da Casa Sarmento, refere que a gravura fez parte de um missal.

A minha estampa é dimensões reduzidas

Procurei então na biblioteca onde trabalho consultar os missais portugueses editados nos finais do XVIII e inícios do século XIX. Neles encontrei várias anunciações assinadas de forma inequívoca por Joaquim Carneiro da Silva, mas muito diferentes da minha estampa, além de que estes missais eram de grandes dimensões, ln-fólios, com 30 ou mais centímetros de altura e a mancha de texto da minha estampa mede apenas 14,5 x 10,5 cm, portanto ela teria que pertencer a um livro dimensões mais pequenas.
O verso da minha estampa prova que ela fez parte de um livro

Como o verso da minha estampa da Anunciação está impresso, o que mostra claramente que fez parte de um livro, lembrei-me de transcrever um trecho e coloca-lo no Google, na esperança de localizar um site onde o livro estivesse digitalizado. E de facto, o google que permite coisas maravilhosas, localizou em 4 ou 5 segundos uma página na net, contendo exactamente o conjunto de palavras pesquisadas post alias vero horas, quanto terminatur officium, dicitur tantum pater noster. secreto".

Breviarium Romanum ex decreto sacro-sancti Concilii Tridentini restitutum, S. Pii V. pontificis max. iussu editum, et Clementis VIII. primum, nunc denuo Urbani PP. VIII. auctoritate recognitum ...: Pars autumnalis. - Antuerpiae: ex architypographia Plantiniana, 1747

Encontrei-as num um breviário digitalizado no google books, uma edição também da Tipografia Pantiniana, de 1747. Os Breviários eram documentos oficiais da Igreja, cujos textos eram definido pelo Papa e portanto o seu conteúdo era igual e de edição para edição. Portanto a minha estampa fez parte não de um Missal, mas sim de um Breviário, mais exactamente do volume Pars autumnalis e antecedia imediatamente o capítulo Proprium de tempore. Aliás, o PRO, no rodapé indica as primeiras letras do capítulo imediatamente a seguir.


Em suma, a minha estampa, será presumivelmente da autoria de Joaquim Carneiro da Silva e foi com toda a certeza publicada num Breviário editado em Portugal nos finais do XVIII, inícios do XIX e inspirou-se numa gravura publicada num missal, em Antuérpia, na Oficina Plantiniana, em 1738, que talvez tenha tido como fonte de inspiração, ainda que longínqua, uma Anunciação de Rubens, de 1628 

segunda-feira, 9 de Junho de 2014

Garden Party, Gellé Frères, Paris


Julgo que todos nós sentimos sempre um grande fascínio pelos perfumes e águas de colónia. Não só o seu aroma nos agrada, como também os próprios frascos e as embalagens, que são sempre objecto de um desenho de uma manufactura requintados. Eu desde miúdo gostava de mexericar nos frascos de perfume da minha mãe. Parecia que ali se guardava um tesouro qualquer, volátil e efémero, mas mesmo assim muito precioso. Ainda hoje me lembro do frasco da Madame Rochas, que a minha mãe usava muito criteriosamente, colocando só um bocadinho, cada vez que tinha uma saída especial, uma visita, um jantar ou uma ida à Baixa. Aquele frasquinho deve ter durado anos.

Já mais raro é encontrar um perfume antigo, com o seu frasco e a sua embalagem. A maioria das vezes quando se acaba a essência, as pessoas deitam fora tudo e lá se acaba o precioso e misterioso tesouro.


Por isso mesmo fiquei tão contente quando me deram um frasquinho antigo, ainda com alguma essência e a embalagem original. Trata-se do Garden Party Bouquet, um cosmético fabricado pelos mestres perfumistas Gellé Frères, de Paris, no início do Século XX. Aliás, o desenho da embalagem denota o mais puro estilo arte nova. A ilustração da embalagem e do rótulo poderá ter sido concebida por Jules Chéret (1836-1932), célebre pelos seus cartazes publicitários na França da Belle époque e que desenhou um cartaz para a Gellé Frères, cujo estilo não anda muito longe da caixa deste perfume, conforme descobriu a Alexandra na Biblioteca Nacional de França.


A Gellé Frères foi umas das muitas casas francesas de perfumes que fizeram de Paris a  grande capital da indústria cosmética da Europa ao longo de dois séculos. Começaram a sua actividade em 1826, ao comprarem a oficina Fargeon le Jeune, descendente de uma dinastia, iniciada no século XVII e que no século XVIII chegarem a ser perfumistas oficiais da Rainha Maria Antonieta e da sua corte. Os irmãos Gellé continuaram esta brilhante tradição e produziram perfumes, dentífricos e sabonetes ininterruptamente, até aos dias de hoje, atravessando períodos terríveis da história de França, como a guerra franco-prussiana, em que viram a sua fábrica destruída, a primeira guerra mundial e ainda a ocupação alemã entre 1940 e 1944.


Na realidade, em França, o perfume nunca foi considerado um luxo do qual se pudesse prescindir. Talvez os franceses acreditassem naquilo que Coco Chanel repetia muitas vezes Une femme sans parfum est une femme sans avenir.

http://fr.wikipedia.org/wiki/Gell%C3%A9_fr%C3%A8res

http://gellefreres.com/histo.php