segunda-feira, 16 de julho de 2018

Um velho castanheiro, testemunha de amores do século XIX

A minha bisavó materna Maria da Graça esteve recolhida num convento desde que era menina até aos 29 anos. Já conhecia alguns pormenores da sua vida e até já tinha escrito sobre esta antepassada aqui no blog, mas este Verão resolvi juntar a família e visitar essa casa conventual, localizada numa aldeia perdida do concelho de Vinhais, a Mofreita.

Logo no cruzamento que dá acesso aquela aldeia, da estrada de que vem de Fresulfe, encontrámos um castanheiro várias vezes centenário, daqueles muitos que se encontram por todo o concelho de Vinhais e pensei, que certamente aquela árvore terá assistido à passagem da pequena Maria da Graça e do seu pai, em 1861, quando este a foi entregar ao Recolhimento das Oblatas, apenas com sete anos de idade.
 
A Maria da Graça era filha ilegítima de uma tal Balbina Felicíssimo e de Francisco Germano Pires e quando a mãe morreu, o pai resolveu interna-la no Recolhimento das Oblatas do Menino Jesus, instituição especializada em receber crianças pobres e órfãs. Pouco se sabe deste meu trisavô materno, mas o que a tradição familiar conservou da sua existência não é muito simpático. Seria um homem avarento, que emprestava dinheiro a juros e terá feito um casamento por interesse, com uma mulher mais velha e abastada, a Hilária, de tal forma, que na vila de Vinhais se tornou conhecido pela alcunha depreciativa do Hilário. A Maria de Graça viverá no recolhimento da Mofreita cerca de 22 anos e há uma fotografia dela e das suas condiscípulas no pátio daquela casa religiosa, que aos nossos olhos contemporâneos nos impressiona muito, já que algumas das recolhidas são meninas muito pequeninas e todo aquele ambiente que as rodeia nos parece muito pobre.
 
O recolhimento da Mofreita no século XIX
No entanto, no tempo que aqui passou Maria da Graça aprendeu a ler, a escrever e certamente algum francês, pelo menos o suficiente para ler um livro de bordados, Les jours sur toile, que ainda se conserva na casa familiar de Vinhais e que tem a sua assinatura. Para os padrões da época, em que quase 80 por cento da população portuguesa era analfabeta, a instrução que aqui recebeu foi bastante boa.
Les jours sur toile. Mulhouse: H. de Dillmont éditeur, [s.d.]. A minha bisavó terá aprendido no recolhimento algum francês, pelo menos o suficiente para ler um livro de bordados. Repare-se na sua assinatura

Segundo uma história já muito esbatida pelo tempo, mas que ainda corre na família, a Maria da Graça terá conhecido o futuro marido, Clemente da Ressureição, ainda aqui na Mofreita. Ao que consta, o meu bisavó Clemente teria um parente a viver nesta aldeia transmontana, numa casa que ainda hoje existe, um pouco mais acima do convento e numa das visitas que fez a esse familiar, do qual só se conhece o primeiro nome, Amândio, travou conhecimento com Maria da Graça, mas não sabemos em que circunstâncias. Talvez o primo Amândio tivesse no recolhimento alguma familiar e quando a visitou na companhia do Clemente, este último conheceu a Maria da Graça. Normalmente, as casas conventuais femininas tinham uma sala destinada a receber visitas, o parlatório, dividida por uma grade, onde de um lado ficam as noviças ou recolhidas e do outro, as visitas.
 
Imagem recolhida na net da Igreja do Recolhimento das Oblatas, na  Mofreita, onde se vê o local onde as recolhidas assistiam à missa.
Há cerca de uns trinta e tal anos, atrás o edifício do recolhimento não estava tão arruinado e entrei na Igreja do Convento e lembro-me de ver a grade que separava as recolhidas do resto das pessoas. Quem sabe se a Maria da Graça não passaria toda a Santa Missa olhando para o Clemente, que tinha uns belos olhos azuis. Enfim, só podemos fazer suposições, mas pelo menos é certo, que o Clemente da Ressureição nas suas idas e vindas à Mofreita teria passado pelo mesmo castanheiro centenário.
A casa do Amândio ainda hoje existe na Mofreita. Sabe-se que era parente do meu bisavô e e que chegou a Tenente
 
A Maria da Graça saiu do Convento por sua vontade com 29 anos e no caminho para Vinhais, onde foi novamente viver com pai, passou obrigatoriamente pelo mesmo castanheiro, que já era nesse tempo centenário. Viveu um ano e tal na companhia do pai, até que a 6 Junho de 1889, casou com o meu bisavô Clemente, tinha ele 31 anos e ela trinta, e com essas idades presumimos, que tenha sido um casamento feito por amor, além de que, segundo um pequeno caderno de memórias, que o meu bisavô deixou, foi uma união feita contra a vontade dos pais. Nos primeiros anos o casal terá vivido mesmo com dificuldades, já que nem os pais de um, nem de outro os ajudavam.
Maria da Graça já idosa. Reconheço nela o mesmos olhos e o mesmo queixo que eu tenho. 
Enfim, os tempos passaram e os pais lá aceitaram este casamento desigual e a Graça e o Clemente tiveram filhos, que por sua vez também tiveram outros filhos e de uma das netas do casal descendo eu. Também os meus filhos e eu passámos este Verão por debaixo do mesmo Castanheiro, que testemunhou a passagem dos meus bisavôs a caminho dos seus destinos.
 
O meu filho Henrique, trisneto da Maria da Graça e do Clemente, fotografando a árvore que viu passar os seus antepassados 
 

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Fragmento de uma estante de missal mogol


Hoje escrevo sobre uma área, sobre a qual sei muito pouco, o mobiliário oriental. Enquanto, que me sinto à vontade para escrever sobre gravura, faiança portuguesa, faiança inglesa ou porcelana europeia dos séculos XIX e XX, nunca aprofundei os meus conhecimentos sobre mobiliário indiano ou indo-português. Claro, quando visitava museus ou exposições temporárias ficava sempre encantado com os contadores, os escritórios e os ventós indo-portugueses ou de estilo mogol, decorados com embutidos de marfim ou madeiras exóticas, mas sempre achei que essas peças só se encontravam nos bons museus ou então à venda por preços milionários nos grandes antiquários.
 

Mas recentemente, encontrei numa banca da feira de Estremoz aquilo que me pareceu uma estante de missal, com uma decoração em embutidos em marfim, que me pareceu semelhante às peças, que vi em exposições dedicadas à arte dos descobrimentos portugueses. Porém, quando lhe peguei, percebi que lhe faltaria uma parte qualquer para ser uma estante de Missal, mas como o trabalho dos embutidos em marfim era feito com uma mestria tão grande, resolvi compra-la na mesma, mesmo sem saber exactamente qual tinha sido a sua função original.
 
 
Os parafusos para colocação na parede foram colocados já em época recente
Chegado a Lisboa, mostrei a peça a uma especialista de arte oriental, a Conceição Borges de Sousa, que foi de opinião, que provavelmente se tratava de uma peça mogol do século XVII, na origem uma estante de missal, alterada numa época desconhecida e reaproveitada para uma nova função. A portinhola, que se abre serviu talvez para colocar um espelho ou uma imagem devota e a peça foi pendurada numa parede

A arte mogol refere-se à actividade artística de um período, que vai de 1526 a 1857, em que uma dinastia de origem turco-mongol governou a maior parte do subcontinente indiano. O apogeu político, económico, cultural e artístico dessa dinastia decorreu entre os séculos XVI e XVII. Estes mogois eram muçulmanos, mas durante o seu governo desenvolveu-se uma requintada arte de fusão entre a cultura indiana, persa e até europeia. As obras de arte mais conhecidas do grande público deste período são de arquitectura, como o célebre Taj Mahal ou então de iluminura, isto é, a ilustração de livros, onde contra a tradição islâmica se representou a figura humana.
 
Contador de mesa. Índia Mogol, primeira metade do séc. XVII. Foto reproduzida de " Missionação : a rota de Lisboa e a rota de Acapulco = Missions in the east : the route to Lisbon and the route to Acapulco / Manuel Castilho. - Lisboa : Manuel Castilho Antiguidades, 2000" 
 Até há bem pouco tempo acreditava-se que não existia propriamente mobiliário mogol, já que a vivência islâmica, que se desenvolvia sobretudo no chão, dispensava móveis. Contudo, precisamente nos séculos XVI e XVII na região de Gujarat desenvolveram-se oficinas de mobiliário, que trabalhavam para o mercado europeu e produziram peças de mobiliário ocidentais como cadeiras, contadores, escritórios e mesas, decoradas com finos embutidos de marfim e onde se misturavam elementos ocidentais, islâmicos e hindus. Essas peças eram escoadas para o Ocidente através de Goa e muitas vezes são classificadas nos museus ou antiquários como peças indo-portuguesas.
 
Estante para colocar o Corão. Índia, séc. XIX. https://www.christies.com/zh-CN/lotfinder/lot_details/?intobjectid=5362869
Terá sido o caso desta estante de missal, que de origem poderia ser uma estante tanto destinada a pousar o Corão como um livro de Missa. Normalmente nestas estantes, o intervalo entre os pés forma como que um arco indiano e são construídas com uma estrutura, semelhante a um banco de tesoura. Este formato passou também para a arte namban, muito embora nestas últimas, um dos lados da tesoura é sempre mais curto que outro.
Estante Namban do Museu Nacional de Arte Antiga. Foto http://www.matrizpix.dgpc.pt/matrizpix/home.aspx
 
Relativamente à minha peça, eu terei apenas um dos lados tesoura. A outra metade estará talvez desfeita em mil pedaços, no fundo do oceano ou a servir de bibelot algures em Portugal. Em todo o caso, este fragmento de uma estante de missal será na minha casa o vestígio de uma arte de fusão produzida na Índia, resultante dos descobrimentos portugueses, onde o cristianismo, o hinduísmo e o islão tiveram um encontro feliz, pelo menos ao nível das artes.
 
 
Alguma bibliografia e links consultados:

What happened to the mughal furniture? The role of the imperial workshops, the decorative motifs used, and the influence of western models/  Pedro Moura Carvalho
https://archnet.org/system/publications/contents/5390/original/DPC2134.pdf?1384791804
 
Missionação : a rota de Lisboa e a rota de Acapulco = Missions in the east : the route to Lisbon and the route to Acapulco / Manuel Castilho. - Lisboa : Manuel Castilho Antiguidades, 2000
 
 
https://www.christies.com/zh-CN/lotfinder/lot_details/?intobjectid=5362869

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Santa Helena: pagela francesa do século XIX

Desde os meus trinta e poucos anos, fui-me tornando aos poucos num coleccionador de santinhos em papel, o que é um hábito estranho, já que sou um ateu empedernido. Talvez porque tenha sido sempre um homem com o gosto de estar contra a maré e até de chocar, comecei a comprar aquilo que para as pessoas do meu meio, gente de esquerda ou descristianizada, era insuportável, os santinhos, as virgens e os Cristos e outras imagens piedosas. Normalmente, o meu coleccionismo por estas imagens foca-se no século XVIII, mas por vezes gosto de algumas das pagelas do século XIX, estampadas em papel finamente recortado, como esta Santa Helena, que comprei na Feira de Estremoz pelo preço irrecusável de um euro.

Esta pagela foi impressa em Paris, por L. Turgis Le Jeune, activo entre 1855–87. A casa Turgis (1828-1928) foi uma das maiores editoras de pagelas e outras beatices do seu tempo e em 1858 abriu até uma filial em Nova Iorque, para satisfazer as encomendas dos milhões e milhões de católicos, apostólicos e romanos de todas as Américas. Portanto, as estampas da Casa Turgis encontram-se um pouco em todo o mundo Católico, são baratas e apesar de uma certa religiosidade piegas, que denotam, não deixam de ter um certo charme.
 
O verso da pagela. Impressa em Paris por L. Turgis Le Jeune
Esta Santa Helena viveu entre 250 e 329 no espaço do antigo Império romano e foi mãe do primeiro imperador cristão, Constantino e terá sido ela quem descobriu na Terra Santa a Cruz onde Cristo foi supliciado, bem como os pregos e outros instrumentos do martírio. Helena é uma figura interessante. Terá tido uma origem humilde e trabalhava numa estalagem quando conheceu o general Constâncio Cloro, com quem casou e teve filhos. Este Constâncio Cloro estava preparado para grandes voos e acabou por chegar a imperador de Roma, não sem antes repudiar a pobre Helena, cuja origem humilde não combinava muito bem com os cargos importantes que veio a acumular. Porém, quando o Imperador Constâncio Cloro morreu, quem herdou a púrpura imperial foi Constantino, o filho de ambos, que chamou a mãe à corte, concedendo-lhe o título de Augusta, bem como alguma preponderância nos negócios de estado. Segundo a tradição, terá sido Helena quem influenciou Constantino no sentido de conferir liberdade de culto aos cristãos através do édito de Milão, em 313.
A iconografia típica de Santa Helena: a Cruz, a coroa, o manto imperial e os três pregos da Cruz
Contudo Helena notabilizou-se na história Cristã, por ter descoberto a cruz onde Cristo foi supliciado, numa viagem que empreendeu à terra Santa, transportando-a de volta consigo para Constantinopla.
 
No fundo Santa Helena é a precursora de um vasto movimento que se estenderá por toda a Idade Média e Idade Moderna de procura de relíquias relativas à vida de Cristo, da Virgem e das centenas de santos, que preenchem o calendário católico. Depois dela, empreendem-se viagens à Terra Santa e à Ásia Menor para encontrar o dedo de um santo ou o manto de uma mártir ou a unha de uma santa. As igrejas orgulhavam-se de ter nas suas colecções de relíquias, objectos tão estranhos aos nossos olhos contemporâneos, como o cordão umbilical do Menino Jesus ou o seu prepúcio ou uma pena da pomba do Espírito Santo. Pedacinhos da Cruz eram então às centenas por toda a Europa, de tal forma que no Renascimento, os humanistas comentavam com ironia que se juntassem em todos os lenhos da Santa Cruz, um barco inteiro não seria suficiente para os transportar.
 
Na verdade, esta proliferação de relíquias tem uma explicação, que faz sentido do ponto de vista religioso. No passado, quando se fundava uma igreja nova, por exemplo dedicada a um santo mártir, pedia-se a uma igreja mais antiga para ceder um dente da caveira do mesmo santo e era à volta dessa relíquia que erguia o novo templo.
 
 

Em conclusão, Santa Helena é a pioneira desta procura incessante de relíquias, que é um dos traços mais fortes de todo o Cristianismo. Também por essa mesma razão, no cristianismo ortodoxo, Helena de Constantinopla é a padroeira dos arqueólogos.
 
Alguma bibliografia e links consultados:
 
Iconographie de l'art chrétien / Louis Réau. - Paris : Presses Universitaires de France, 1955
 
 

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Açucareiro e caixa de chá em casquinha


Apesar de ter não sei quantos açucareiros em casa, expostos num pequeno louceiro, no dia-a-dia deitava açúcar directamente do boião para a chávena. Como a minha filha se tivesse queixado dessa prática um pouco desleixada, resolvi comprar um açucareiro para uso corrente na feira de velharias de Estremoz. Encontrei um velho açucareiro em casquinha, bonito é certo, mas que já tinha perdido praticamente quase todo o banho de prata, a que foi submetido aquando do seu fabrico. Mas, como era de metal, portanto inquebrável e até me agradava aquela cor velha entre o vermelho e o dourado, comprei-o por um preço muitíssimo em conta. Aproveitei e comprei uma caixa de chá com a mesma decoração e que também já tinha perdido toda a casquinha de prata.
 
Antes da aplicação do Pratex
Coloquei as duas peças a uso e vivia contente com elas, até que o meu amigo Manel me falou num produto, o Pratex, que devolve a prata, às velhas peças, que perderam o seu revestimento original. Resolvi levar o açucareiro e a caixa de chá para o Alentejo, onde mediante um algodãozinho lhes apliquei o Pratex, deixei secar e puxei lustro e o resultado foi maravilhoso, tão fantástico, que resolvi nalgumas zonas, aplicar em menor quantidade o preferido produto, para deixar aqui e acolá alguma patine, o chamado toque do tempo.
Antes da aplicação do Pratex
Aproveitei também a ocasião para tentar apurar alguma coisa acerca da época e do local onde estas peças foram produzidas, mas obtive poucos resultados. No verso, o açucareiro apresenta a marca EPNS, sigla que se refere ao método pela qual a peça foi prateada, Electro Plated Nickel Silver e não a um fabricante em especial. No fundo a sigla EPNS servia para o consumidor saber que estava a comprar um açucareiro ou uma salva com um banho em prata e não uma genuína peça em prata. O açucareiro apresenta umas marcas na asa, mas tão pequeninas, que não as consegui ler.
EPNS (Electro Plated Nickel Silver)
 
Não consegui identificar as marcas na asa
O processo EPNS (Electro Plated Nickel Silver) foi inventado logo nos primeiros anos do século XIX, mas só começou a ser aplicado à indústria a partir de 1840 pelos ingleses George Elkington and Henry Elkington e rapidamente se generalizou pela Europa e pelos Estados Unidos. A sigla EPNS foi usada sobretudo pelos fabricantes ingleses e americanos.
 
Caixa de chá encontrada à venda no e-bay em Inglaterra e dada como peça vitoriana.
Não consegui avançar muito mais nas minhas pesquisas sobre a identificação destas duas peças, mas encontrei muitas peças com decoração semelhante ou igual à venda nos sites ingleses, datadas dos finais do século XIX e nessa época mercado da casquinha era dominado pelo Reino Unido. É provável que este açucareiro e esta caixa de chá tenham sido feitos em Inglaterra, nos finais do século XIX ou mesmo até no início do XX, por algum fabricante de Sheffield, cidade inglesa onde se concentrou grande parte da indústria de cutelaria, aço e metais do Reino Unido.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

São Manuel mártir, embaixador da Pérsia e advogado da Paciência


Comprei esta bonita gravura do século XVIII, aguarelada à mão, representando S. Manuel mártir, envolto numa moldura em estilo rococó muito bonita. Ofereci-a de prenda de anos ao meu amigo Manel, uma vez que é uma representação do seu santo homónimo e além disso o meu amigo demonstra uma paciência notável nos restauros, que faz de mobiliário e de outras velharias. É sem dúvida São Manuel que o acode, quando o meu amigo decide por exemplo empalhar uma cadeira antiga.
S. Manoel martyr, embaixador da Persia e adevogado da Paciência
Quanto ao S. Manuel não há muitas informações sobre este santo e tudo o que a ele diz respeito está envolto numa lenda tão densa, que o seu nome nem consta do actual Martirológio romano. É aliás muitas vezes confundido com outro Santo Manuel, martirizado na Anatólia e cujo dia se comemora a 26 de Março. São Manuel da Pérsia é pois um santo esquecido, riscado da lista oficial de Santos da Igreja, o que me leva a simpatizar com ele, pois tudo o que está irremediavelmente fora de moda me atrai.

A obra de Louis Réau Iconographie de l'art chrétien, que é a bíblia fundamental para quem quer ter uma perspectiva científica sobre os temas religiosos na arte, ignora completamente o nosso obscuro S. Manuel.

No entanto tempos houve em que esta figura tinha um culto significativo, pelo menos em Portugal. No Inventário da colecção de registos de santos, Ernesto Soares refere pelo menos quatro estampas diferentes com representações deste santo.
A estampa vendia-se na loja de José da Fonseca ao Arsenal


No site http://www.es.catholic.net consegui encontrar alguma informação mais séria sobre o Manuel da Pérsia.

A principal fonte para o relato da vida deste santo, são as Acta Sanctorum, compiladas pelo jesuíta, Jean Bolland (1596- 1665) e todos os autores que vieram a seguir limitaram-se a repetir o seu conteúdo.

Resumindo este relato tradicional, Manuel e os seus irmãos, Sabel e Ismael eram cristãos persas e teriam sido enviados no ano de 362 pelo seu rei, Baltano, à corte do Imperador Juliano (331-363) para negociar uma paz entre a Pérsia e Roma. Numa época em que o Império romano já era maioritariamente cristão e desde Constantino, os seus soberanos eram praticantes da fé de Cristo, este Imperador Juliano decide fazer marcha atrás e voltar ao antigo paganismo. Por essa razão, tornou-se conhecido na história por Juliano, o Apóstata, termo que designa aquele que renuncia ou muda de religião. Juliano obrigou os embaixadores da Pérsia a participar em sacrifícios pagãos. Como estes se recusaram, foram objecto de martírios terríveis. Manuel foi condenado a ter um cravo de ferro espetado em cada lado do peito e um cravo atravessando-lhe a cabeça de ouvido a ouvido, castigos por não ouvir a voz do imperador e ter o peito endurecido às prédicas imperiais. Enfim, os pobres embaixadores acabaram por morrer no dia 17 de Junho de 362. Contudo, a história vingou-os muito rapidamente e Juliano foi morto numa batalha contra os Persas no ano seguinte, não sem antes ter gritado, venceste Galileu!


Toda esta história é pouco credível. Se é certo que o Imperador Juliano manteve uma terrível guerra contra os Persas ou melhor contra o reino Sassânida, nunca existiu nenhum rei Persa chamado Baltano. Por outro lado, apesar de o Imperador Juliano ter abandonado o Cristianismo para regressar ao paganismo, não moveu perseguições aos cristãos. Exilou um ou outro bispo mais crítico da sua nova política religiosa, mas era um homem culto, um filósofo, a quem lhe repugnavam os banhos de sangue.

Um autor russo, o senhor Alex Vladimirirovich Muraiev num estudo publicado na Studia Patristica, defende que Manuel, Ismael e Sabel são nomes semitas e que provavelmente seriam embaixadores de um dos reinos árabes, que por vezes se aliavam aos os romanos na luta contra os Persas e que provavelmente esta história traduz um rompimento abrupto nas negociações entre árabes e romanos.

Na minha opinião, esta lenda do martírio de Manuel, Sabel e Ismael é também um eco de toda a literatura cristã, que vilipendiou o Imperador Juliano após a sua morte, transformando-o num apóstata preverso. Só a partir do século XVI, com o desenvolvimento do pensamento laico, a figura de Juliano começou a ser reabilitada pela história. No século XVIII, Voltaire transformou este imperador num campião das luzes contra o obscurantismo cristão. Pessoalmente, Juliano agrada-me particularmente por ser o herói falhado de uma causa perdida.

S. Manoel martyr, embaixador da Persia e adevogado da Paciência

Algumas obras e links consultados:

Inventário da colecção de registos de santos / org. e pref. Ernesto Soares. - Lisboa : Biblioteca Nacional, 1955

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Uma figurinha em biscuit da Volkstedt ou a irresistível atracção pelo Kitsch

Volkstedt bisque figurine
Bem sei que não devia ter comprado esta figurinha em biscuit, representando um menino vestido à moda do século XVIII, brincando com um caniche, pois é terrivelmente kitsch. Mas, o preço era convidativo, a pintura e a modelação da peça eram de excelente qualidade e estava marcado, o que é raro em peças em biscuit. Enfim, suspeitei que era uma peça proveniente de uma qualquer fábrica alemã, produzida ao gosto de Meissen, entre os finais do séc. XIX e o início do XX e deste modo, quando dei por mim tinha a peça dentro de casa.
 
Volkstedt mark
A marca consiste consiste numa espécie de forquilha, com um Sol no meio. Apresenta ainda um número de série, o 16
Apesar de esta figurinha estar marcada e de ser uma coisa tipicamente alemã, tive a maior das dificuldades em identificar a marca, pois enquanto nós em Portugal, tivemos ao longo da história praticamente uma única fábrica de porcelana a laborar continuadamente, a Vista Alegre, muitas regiões alemãs contaram com 10 ou 15 fábricas de porcelana activas ao longo de duzentos anos. Vasculhei todos os dicionários de marcas de cerâmica on-line e não aparecia nada igual a esta marca, que consiste numa espécie de forquilha, com um Sol no meio. Depois de ver milhares de figurinhas em biscuit alemãs, encontrei finalmente no portal americano de antiquários o Rubylane, uma placa em biscuit, estilo arte nova, com marca muito parecida com esta e atribuída à Volkstedt.
 
 
Porém como a marca não era exactamente igual continuei a minha busca e descobri na biblioteca do Museu Nacional de Arte Antiga um livro alemão, Führer für Sammler von Porzellan und Fayence, Steinzeug, Steingut - Braunschweig; Berlin: Klinkhardt & Biermann, [1963] dedicado só ao assunto das marcas germânicas e na página 229 lá estava uma marca igual à minha, da Volkstedt. Enfim, consegui concluir que este biscuit com um menino brincando com um cachorro foi fabricado pela Volkstedt, na Alemanha nos finais do XIX ou nos primeiros anos do XX.
 
Führer für Sammler von Porzellan und Fayence, Steinzeug, Steingut - Braunschweig; Berlin: Klinkhardt & Biermann, [1963]. Na pág. 229 consta uma marca Volkstedt  igual à do meu boneco.
Claro, apesar de ser uma peça Volkstedt, esta figurinha não deixa de ser kitsch, esse termo de origem incerta surgido na segunda metade do século XIX, em plena época da industrialização na Europa, para designar objectos produzidos em larga escala, que imitavam obras de arte, destinados a uma burguesia sem grande gosto, mas com algum bem-estar económico e que ambicionava decorar as suas casas com objectos parecidos aos que encontravam nas residências aristocráticas, ainda que só vagamente. É exactamente o caso, deste meu biscuit, inspirado nas figuras de Meissen e vendido aos burgueses com pretensões a ter seus lares uma salinha do Saxe.
 
Volkstedt bisque figurine

Com o tempo, o kitsch passou não só a designar a imitação barata da obra de arte, mas também tudo aquilo que é demasiado dourado, demasiado cor-de-rosa, demasiado pequeno, demasiado ornamentado e que é supérfluo e que passou irremediavelmente de moda. É também o caso, deste bonequinho em biscuit, pequenino, com decoração sobrecarregada, inútil e absolutamente inaceitável para um decorador de interiores contemporâneo.
Volkstedt bisque figurine

Contudo, acredito que pelo menos uma vez na vida, todos nós temos vontade de sair dos limites do gosto convencional do nosso tempo e usar uma cor berrante, um fato de banho politicamente incorrecto, um boné disparatado ou ainda expor na sala um bibelot ao estilo de Meissen.
Volkstedt bisque figurine
Algumas obras e links consultados:
 
Führer für sammler von porzellan und fayence, steinzeug, steingut - Braunschweig; Berlin: Klinkhardt & Biermann, [1963]
 
https://www.rubylane.com/item/150922-twt3206/13-1-2x22-Antique-Volkstedt-Germany

https://fr.wikipedia.org/wiki/Kitsch

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Mirante em Borba


Por todas as terras que passo, por todas as ruas com casario antigo, que calcorreio, estou sempre a descobrir casas onde me imagino a viver. Não sei exactamente de onde me vem esse desejo. Talvez seja por viver num apartamento muito pequeno e ambicione um espaço maior para enche-lo com antiguidades ou talvez porque na infância e juventude conheci ainda casas de família com história e aprendi com o meu pai e a minha avó a valorizar esse passado, que impregna cada uma dessas casas antigas, mesmo quando já foram abandonadas se encontram em ruínas. Viajo sempre com esse sentimento romântico de querer viver naquele solar abandonado, na grande residência burguesa do século XIX ou naquela casinha com um portal quinhentista, estejam estes edifícios no Alentejo, em Guimarães, Chaves ou no Porto.
 

Desta vez apaixonei-me por uma casa antiga com um mirante, na vila Alentejana de Borba. Em 1863, o proprietário desta casa teve a deliciosa ideia de construir um mirante no telhado e certamente que não foi por razões práticas. Daqui poderia ver os extensos vinhedos, que rodeiam a vila, enquanto tomava um chá sentado numa cadeira de verga e nas noites do terrível verão alentejano, talvez aqui em cima se sentisse uma brisa fresca. No dia da procissão do Senhor dos Aflitos era certo que o Mirante estaria engalanado de colchas e que os vários membros da família se acotovelariam para ver passar os andores. 

Enfim, confesso que também me imaginei neste mirante, até porque sou um homem curioso, que gosta de ver os outros passar na rua sem outro objectivo aparente senão o de observar a humanidade.