quinta-feira, 26 de março de 2015

Maria Egipcíaca: uma estampa com sabor a pecado

Sempre tive uma certa atracção pela figura de Maria Egipcíaca, essa santa que andava a vaguear nua no deserto, coberta apenas pelos seus longos cabelos, de modo quando vi uma estampa antiga à venda com a sua imagem e comprei-a, sem pensar duas vezes, sobretudo sem saber como conseguirei arranjar espaço para encaixa-la lá em casa.
A imagem representa o encontro de Maria Egipcíaca, que deambulava em penitência pelo deserto há 47 anos, com S. Zósimo. Quando a Santa o encontra, pede-lhe um manto para cobrir a sua nudez, conta-lhe então a sua história e S. Zósimo dá-lhe a comunhão. Ao fundo vê-se uma caveira e uma cruz, atributos que costumam acompanhar a imagem desta santa e que a fazem muitas vezes confundir com Santa Maria Madalena, outra pecadora arrependida. A caveira significa como são efémeras as vaidades do mundo e a cruz simboliza a Salvação, o único e verdadeiro fim, que deverá nortear o caminho a seguir por todos os homens e mulheres.
 
A iconografia de Maria Egipcíaca e Maria Madalena confunde-se facilmente. São representadas com longos cabelos, as vestes a escorregarem, uma cruz e a caveira. Madalena Penitente por Luca Giordano. Museu do Prado

Desta Maria Egipcíaca, que terá vivido por volta do século V depois de Cristo não há propriamente registos escritos da época, que testemunhem a sua existência. A história da sua vida aparece pela primeira vez escrita, por um tal Sophronios, Patriarca de Jerusalém, no século VII, e depois disso o assunto foi repetidamente contado novamente por vários autores piedosos. O mais curioso é que enquanto no Oriente, os relatos centraram-se mais na vida de S. Zósimo, no Ocidente, durante a Idade Média os hagiógrafos e os poetas transformam em protagonista Maria Egipcíaca. Forma-se nessa época a lenda que ainda hoje se lê em toda a parte, da jovem que se prostituía em Alexandra, mais por prazer do que por dinheiro e que um dia partiu para Jerusalém, não porque lhe interessa-se a espiritualidade da cidade, mas em busca de mais aventuras. Conta-se que pagou à viagem com o seu próprio corpo entregando-se aos vários marinheiros da tripulação. Em Jerusalém, um dia, por acaso, tentou entrar na Igreja do Igreja do Santo Sepulcro e uma força qualquer estranha impedi-a de entrar. Percebeu-se que havia qualquer coisa de profundamente errado na sua vida, arrependeu-se e então ouviu uma voz dizendo-lhe para atravessar o rio Jordão, pois só ali encontraria o descanso. E esta mulher habituada aos prazeres da vida, larga tudo e parte em direcção ao deserto, levando apenas três pães com ela. Viverá como eremita, as suas roupas acabarão por desfazer-se e a apenas os seus longos cabelos desgrenhados cobrirão a sua nudez.
Na literatura que se formou sobre a vida de Santa Maria Egipcíaca, a aventura e o erotismo tem um peso evidente, camuflado por debaixo de uma história piedosa. A última comunhão de Sta. Maria Egipcíaca, por Sebastiano Ricci, c. 1695. The National Gallery of Art
Uma autora americana Connie L. Scarborough, num artigo intitulado Santa María de Egipto: la vitalidad de la leyenda en castellano, sublinha que em toda esta literatura que se formou sobre a vida de Santa Maria Egipcíaca, o que mais se destaca é o lado aventuroso, em detrimento do sagrado. No fundo criou-se um relato, onde a aventura e o erotismo tem um peso evidente, camuflado por debaixo de uma história piedosa e que encontrou grande popularidade, na Idade Média, época de repressão sexual e que continuou a seduzir senhoras piedosas, cavalheiros respeitáveis, castas donzelas, monges e freirinhas, por esses séculos fora.


A estampa foi impressa em Lisboa, gravada por Gaspar Frois Machado (1759-1796) e vendia-se na casa de Francisco Manuel no fim da Rua do Passeio, isto é o Passeio público, o jardim público criado durante o consulado pombalino em 1760 e destruído a partir de 1879 para rasgar a Avenida da Liberdade. Portanto a gravura, até a julgar pela decoração neoclássica da cercadura deve ter sido impressa nos últimos anos do Século XVIII ou nos primeiros anos do Séc. XIX.

Esta estampa apresenta a legenda, S. Maria Egypciaca da Goarda Real, porque a referida Santa foi a padroeira da Guarda Real dos Arqueiros, cuja irmandade tinha sede na Igreja dos Mártires em Lisboa. Explica-se assim também o escudo real português no topo da cercadura do registo. Não consigo é explicar porque é que uma pecadora, ainda que muitíssimo arrependida, fosse padroeira da Irmandade da Guarda Real dos Arqueiros. Talvez houvesse qualquer associação entre a flechas dos arqueiros e o arrependimento, que atingiu como uma seta o coração de Maria Egipcíaca, ou talvez os guardas, que protegiam a família real experimentassem algum prazer erótico em pensar na protecção desta mulher que caminhava nua pelo deserto.


Em todo o caso, depois de comprar esta estampa e pelo que li sobre ela, fiquei a apreciar ainda mais esta figura lendária e o seu gosto pela aventura e pela liberdade, que se manifestou sempre, mesmo depois de arrepender. Deambular nua pelo deserto, sem constrangimentos de qualquer espécie é sem dúvida um acto de supremo de liberdade e um desejo de absoluto, que nos nossos tempos nos parece estranho.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Chávenas de faiança possivelmente do Porto ou Gaia

Quem se dedica a comprar ou a admirar a faiança portuguesa dos século XIX e boa parte do século XX, já se apercebeu que a maioria das peças não estão marcadas e que as atribuições a esta ou aquela fábrica, ou até mesmo a um centro regional de fabrico são sempre um tiro no escuro.

A Ivete Ferreira, especialista em faiança ratinha e com a experiência acumulada de muitos anos no contacto com a cerâmica, escreveu há pouco tempo no seu blog, que só se pode fazer uma atribuição indiscutida se as peças tiverem a marca bem estampada e evidente. Por maior que sejam as nossas inclinações e (in)certezas (pasta, vidrado, paleta cromática, ornamentação, formato ...) as filiações são difíceis.

No mercado das velharias e antiguidades tornou-se hábito atribuir grande parte da faiança fabrica no Porto e em Gaia à fábrica de Miragaia. Imagem enviada por Ivete Ferreira do leilão da CM, realizado em Abril de 2013
Julgo que este é um bom princípio a tomar quando começamos a tentar saber mais sobre as faianças que comprámos. Claro, isto não quer dizer que devemos desistir de identificar as peças que coleccionamos e que devemos pendura-las na parede, esquecer completamente a sua existência, até ao infeliz momento em que teremos de lhes limpar o pó. Pelo contrário um dos interesses de coleccionar ou adquirir velharias é precisamente acrescentar o nosso conhecimento, procurando informações em livros da especialidade, ou visitando museus.

Hoje apresento aqui um conjunto de duas chávenas e um pires em faiança, com os quais tentarei fazer algumas associações em termos de formas e decoração com outras peças já aqui apresentadas, mas sem a pretensão de tirar conclusões.
As duas chávenas lado a lado numa evocação do blog, arte, livros e velharias
As três peças foram compradas na Feira de Estremoz pelo Manel, que teve a gentileza de me oferecer a chávena sem o pires. A primeira associação possível destas três peças é com uma chávena de faiança atribuída a SantoAntónio de Vale da Piedade, que já aqui mostrei.
Embora a decoração seja diferente, o molde a partir do qual estas chávenas foram executadas deve ter sido muito semelhante. Há apenas pequenas diferenças entre elas. No tardoz, no espaço delimitado pelo frete, a chávena em tons de azul é lisa, enquanto a chávena de chávena de Santo António de Vale da Piedade, tem uma saliência em formato de conezinho. Na chávena pintada com o casario o recipiente é menor que a xícara de Santo António de Vale da Piedade. Mas em todo caso, ambas saíram de um molde semelhante.
A segunda associação possível é com uma caneca proveniente da antiga colecção António Capucho. Quando fotografei as xícaras com a caneca e depois as vi no computador, não pude deixar de me surpreender com o ar de família tão evidente nas cores alegres, no vidrado e na decoração com que surgiam na fotografia, e pensei que todas elas teriam saído da mesma fábrica. Porém, é mais possível que correspondam a um gosto do público por louça de cores vivas, que todos os fabricantes do Porto e Gaia procuravam ir ao encontro, em meados do século XIX.


Depois olhando bem para esta simpática xícara, reconhecemos de imediato alguns elementos decorativos, as folhas das árvores e a mancha do chão, que são obviamente copiados do motivo país, da Fábrica de Miragaia.

Quanto ao casario, não vale a pena especular sobre ele. São as casinhas que todos nós desenhávamos na infância e que ainda hoje somos capazes de desenhar numa folhinha qualquer, enquanto atendemos no serviço a chamada de algum maçador, e que estão presentes em quase toda a faiança portuguesa mais ingénua.

Obviamente não posso concluir nada sobre o possível fabricante destas chávenas. Serão talvez de uma daquelas muitas fábricas do Porto e Gaia, quase vizinhas umas das outras, em que havia entre elas uma intensa troca de moldes, decorações, operários e mestres até patrões. Terão sido produzidas numa época, talvez à volta de meados do século XIX, um pouco antes, um pouco depois, em que estava na moda esta louça muito colorida.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Prato de faiança do Norte ou o fascínio pela abstracção

Este enorme prato de faiança que pertence ao meu amigo Manel é uma daquelas peças típicas da faiança portuguesa do século XIX. São muito bonitas, ingénuas, foram decoradas por gente muito imaginativa, que pintava com traços rápidos, não estão marcadas e ninguém parece saber nada acerca da origem delas.

É um prato com cerca de 36 cm de diâmetro, o que os especialistas de cerâmica designam por palangana, embora pense que este termo terá origem em algum regionalismo da zona Centro ou Sul. Por exemplo, em Trás-os-Montes, há cerca de 60 anos, o meu pai ainda se recordava de ver os trabalhadores agrícolas de uma casa senhorial a comerem todos com o auxílio de um faca ou de um pedaço de pão de um enorme prato, a que se chamava fonte, termo aliás que os espanhóis ainda usam para nomear uma travessa. Enfim, julgo que este prato ainda será de um tempo em que o uso dos pratos individuais ainda não estava generalizado por todas as classes sociais, talvez entre 1840 ou 1860.

A decoração é ingénua e quem o decorou tinha o gosto pela abstracção, pintando linhas sinuosas que conduzem a todo lado e a lado nenhum, entremeadas com pequenas flores. Aliás, acho sempre graça às obras abstractas, criadas muito antes de os artistas plásticos terem reinventado esta arte no início do século XX, em Paris. Enquanto os modernistas de Paris criaram o abstraccionismo, fruto de uma atitude intelectual, conceptual mesmo se quisermos usar um palavrão, o artista que pintou este prato criou espontaneamente esta decoração, provavelmente sem ter lido nenhum livro na vida ou sem ter frequentado uma tertúlia artística num café.

http://www.amleiloes.pt/cp2
Quanto ao seu fabrico é naturalmente um mistério, pois não ostenta nenhuma marca no verso. Talvez a boa qualidade da faiança, nos leve a pensar que seja do Porto ou Gaia, mas é uma mera intuição. Há uns anos encontrei uma fotografia de um prato decorado certamente pelo mesmo artesão, que pintou o prato do Manel, num catálogo de uma leiloeira, do qual perdi a referência e estava atribuído à fábrica do Monte Cavaco, mas como toda a gente sabe nestes catálogos dos leilões as atribuições são um bocadinho apressadas. Também em outros catálogos de leilões encontrei pratos com decorações semelhantes cujo fabrico é identificado como sendo do Norte, o que é muito vago para nos satisfazer.

Em suma, não se sabe muito deste grande prato, mas não há dúvida que as suas linhas, recordando-nos que estamos numa estrada a caminho de lado nenhum, fascinam-nos.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Uma amante ou uma princesa? Estampa por Jean-Marc Nattier (1685-1766)

Tenho um gosto variado. Tanto aprecio a ingenuidade da faiança portuguesa com o refinamento da arte francesa do século XVIII. Como não tenho dinheiro nem espaço para comprar cómodas de Luís XV ou Luís XVI, compro estampas dessa época, que são baratinhas. Esta foi a última que comprei na Feira de Estremoz e representa uma alegoria à força. Uma alegoria é uma figura humana, um conjunto de pessoas, um animal ou uma planta, que personificam alguma qualidade moral ou uma outra qualquer abstracção.
J. M. Nattier pinx
Como os autores estão identificados, “J. M. Nattier pinx” e “Balechou print”, apercebi-me logo no momento da compra que era uma obra do século XVIII feita a partir de uma pintura de Jean-Marc Nattier, o pintor da oficial da corte de Luís XV. Estranhei um pouco o formato da moldura e achei que poderia ter feito parte de um qualquer livro onde se apresentassem modelos para cartões de tapeçaria. destinadas a forrar o estofo de uma daquelas cadeiras Luís XV.

Mas, quando cheguei a casa tratei antes de mais nada de encontrar referências nos museus e nas bibliotecas sobre a estampa, de modo a poder identifica-la mais claramente.

De facto, encontrei rapidamente duas gravuras iguais a estas, uma no Harvard Art Museums/Fogg Museum e outra no Palácio de Versalhes, que me confirmaram que se tratava de uma estampa do século XVIII, gravada por Jean Joseph Balechou (1716-1764) a partir de uma obra Jean-Marc Nattier (1685-1766). Contudo, a Harvard Art Museums identificava a senhora da alegoria, como a Duquesa Chateauroux, ou seja, Marie-Anne de Mailly-Nesle, uma pequena que foi amante de Luís XV e no Palácio de Versalhes a figura feminina, que personifica a Força, foi dada como sendo Marie-Louise-Élisabeth de France (1727-1759), a filha mais velha de Luís XV.
Estampa feita a partir de uma pintura de Nattier, representando Marie-Louise-Élisabeth de France (1727-1759), como um dos quatro elementos, a Terra. Cabinet d'arts graphiques des Musées d'art et d'histoire, Genève
Fiquei muito espantado como é que a filha preferida de Luís XV, conhecida pelo petit nom de Babette é confundida com uma das amantes do Rei, a tal Marie-Anne de Mailly-Nesle. Tentei pesquisar alguma coisa sobre estas personagens, mas a vida da corte francesa neste reinado é tão complicada é que é fácil começarmos seguir sem rumo a história desta ou daquela personagem e a certa altura estamos completamente perdidos. Só a título de exemplo, esta Marie-Anne de Mailly-Nesle era a mais nova de cinco irmãs e todas elas foram amantes de Luís XV. Embora a Marie-Anne fosse a mais pequena das manas foi quem melhor conseguiu conquistar o Rei e chegou a mesmo exercer algum poder na corte e as suas ambições só foram travadas porque uma peritonite a levou cedo desta vida. Ao fim de quatro meses da sua morte foi rapidamente substituída no seu cargo de Maîtresse-en-titre, por Madame de Pompadour, a mais célebre das amantes reais de França. 
Marie-Anne de Mailly-Nesle, Duquesa Chateauroux, como Aurora, pintada por Nattier. Palácio de Versalhes. MV 8415
Para aumentar, a minha confusão Jean-Marc Nattier pintou todas estas senhoras, a Marie-Anne de Mailly-Nesle, a Marie-Louise-Élisabeth de France e a Madame de Pompador (Jeanne-Antoinette Poisson). Para além disso os retratos deste pintor francês são sempre de alguma forma semelhantes entre si. As grandes damas da aristocracia, as favoritas ou as princesas de sangue posam nas mesmas posições, como se fossem deusas da mitologia ou alegorias. Os coloridos são claros, as sedas destacam-se e as fisionomias não traduzem uma verdade psicológica. São retratos idealizados, onde os rostos não exibem uma verruga ou qualquer imperfeição e procura-se sobretudo a pintar elegância e a doçura. Enfim, há uma certa superficialidade e mesmo frivolidade nestes retratos, que tornam a obras de Nattier historicamente justas, pois pintam correctamente a sociedade da corte de Luís XV, com o seu estilo de vida feito de divertimentos mundanos e ociosidade e que se via muito mais bela do que era na realidade.
Madame de Pompadour, como Diana, pintada por Nattier. Palácio de Versalhes
Acabei por encontrar a solução para esta dúvida sobre se a minha gravura representaria a filha mais velha de Luís XV, a Babette, ou se a sua amante a Marie-Anne de Mailly-Nesle, no livro Jean Marc Nattier : 1685 -1766 / Xavier Salmon. - Paris : Réunion des Musées Nationaux, 1999.

Boiserie. Por cima das portas encaixavam-se pinturas, como aquela que a minha estampa reproduz.
Segundo este catálogo, a pintura que esta estampa reproduz (gravada antes de 1750), fazia parte de um conjunto de outras sete, encomendadas a Nattier por Jean-Philippe d'Orléans, para decorar o interior do seu Palácio do Templo, em Paris. Estas obras não eram propriamente telas para serem emolduradas e penduradas na parede. Eram aquilo que os franceses designam dessus-de-porte e nós, os portugueses, por sobre portas. Portanto eram pinturas para serem encaixadas numa boiserie e por cima das portas. Destas sobre-portas, duas representavam musas, um déjeneur e quatro virtudes. As virtudes de que aqui se descrevem são as quatro virtudes cardeais, que a Igreja Católica definiu como a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança.

A Justiça, outra das quatro virtudes cardeais. Tal como a Força, fazia parte do conjunto que Nattier pintou para decorar o interior do Palácio do Templo. Colecção particular. Foto tirada de Jean Marc Nattier. - Paris : Réunion des Musées Nationaux, 1999
Segundo Xavier Salmon autor do catálogo Jean Marc Nattier. - Paris : Réunion des Musées Nationaux, 1999 os documentos da época não referem nada acerca se estas virtudes representavam esta ou aquela personalidade da época. Foi só no século XIX, em 1879, que os irmãos Goncourt, pioneiros da crítica de arte em França, se lembraram de identificar a figura da Força como a Duquesa Chateauroux e a partir daí, os historiadores da arte nunca mais pararam com especulações acerca da identidade das damas representadas nestas telas. Aliás a tendência persiste nos dias de hoje e as leiloeiras e os antiquários estão cheios de cópias de retratos de Nattier, apressadamente identificados como sendo de Marie-Anne de Mailly-Nesle ou de uma das filhas do Rei. O mais provável é que estas virtudes não representem nenhuma mulher em particular e sejam realmente meras alegorias às quatro virtudes cardeais.
Afinal a bela representada na minha estampa é uma figura idealizada e não representa nem a filha, nem a amante de Luís XV
Em suma, a minha estampa não é um retrato nem da amante, nem da filha de Luís XV. Em todo o caso, talvez fruto das sugestões despertadas pelas leituras que fiz, na minha casa, olhando para esta gravura ouvir-se-ão muito ao longe, de forma quase indistinta as vozes de Babette, do seu pai, o Rei de França, de Marie-Anne de Mailly-Nesle e claro de Madame de Pompadour e do pintor Nattier.
Em minha casa tentei reproduzir o local para o qual o quadro A força foi concebido, uma sobre porta

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Uma caneca de faiança do Norte

Esta caneca de faiança foi comprada pelo meu amigo Manel a um dos descendentes de António Capucho, que para quem não saiba, foi um dos mais importantes coleccionadores de cerâmica em Portugal. Por essa razão, esta peça tem desde logo uma marca de qualidade e de certa forma um peso histórico. Manusear ou admirar esta caneca colorida é experimentar estar dentro da casa de António Capucho, rodeado das melhores faianças portuguesas.

O Manel e eu temos dificuldade em atribuir esta caneca um fabrico em particular, pois não está marcada. Conhecemos a fonte de inspiração da sua decoração, que é motivo decorativo país produzido pela fábrica de Miragaia, entre 1822-1850, que por sua vez uma é adaptação livre do padrão View in the Fort Madura, da Herculaneum Pottery, de Liverpool.
Covilhete de Miragaia. Foi o motivo decorativo desta peça que serviu de inspiração à Caneca do Manel

 Através do catálogo Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional de Soares dos Reis, 2008, sabemos que as Fábrica de Santo António de Vale da Piedade em Gaia e Viana, no Minho copiaram este motivo, mas aqui, neste círculo de blogues já se apresentaram mais peças, que são uma variante deste motivo país e para os quais ninguém conseguiu fazer uma atribuição fundamentada. 

Presumimos que será do Norte, até porque o motivo País começou em Miragaia, no Porto. Mas, em meados do século XIX e até já antes de 1848, conforme mostrou Laura Cristina Peixoto de Sousa na sua tese A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista, as fábricas do Porto e Gaia tinham tornado moda a louça com coloridos fortes. Fervença, Bandeira e Santo António de Vale da Piedade produziram esta loiça muito colorida. As escavações arqueológicas feitas diante da Cadeia da Relação, (1899-90) na cidade do Porto, trouxeram à luz do dia muita desta louça de cores vivas, datadas entre 1850-1870. 
As escavações feitas diante da Cadeia da Relação, (1899-90) na cidade do Porto, trouxeram à luz do dia muita desta louça colorida, datadas entre 1850-1870. Repare-se nas canecas no canto superior direito. Itinerário da faiança do Porto e Gaia. Lisboa: IMC, 2001
Aliás na referida tese Laura Cristina Peixoto de Sousa, encontrei uns quantos fragmentos de canecas coloridas fabricadas por Santo António de Vale da Piedade antes de 1848.
Foto de Laura Cristina Peixoto de Sousa  A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista

Contudo, entre 1840-70, existiam tantas fábricas no Porto em Gaia, das quais conhecemos tão pouco,  como as Fábrica do Alto da Fontinha, das Palhacinhas, do Carvalhinho, da Afurada ou do Senhor do Além, entre outras, que talvez também tenham produzido louça com um colorido vivo, que afirmar que esta caneca é Santo António Vale da Piedade, Miragaia ou Afurada, significa correr um grande risco e escrever um disparate.

Em suma, este não é um post conclusivo, é antes uma exposição de várias hipóteses plausíveis sobre o fabrico desta caneca de grandes dimensões.

Em todo o caso, seja ela, o que for apresenta todas as qualidades que tornam a faiança portuguesa do século XIX tão atractiva, a ingenuidade e um traço rápido de pintura.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Uma chávena de chá de Santo António de Vale da Piedade

a minha chávena

Recentemente assisti a uma comunicação no Congresso Internacional de Faiança Portuguesa, realizada no Museu Nacional de Arte Antiga, em 2013, proferida por uma arqueóloga, Laura Cristina Peixoto de Sousa, sobre as escavações feitas nos antigos terrenos da fábrica de Santo António de Vale da Piedade, em Gaia. Embora, fosse uma palestra breve, pelo texto e pelas imagens dos objectos desenterrados apercebi-me logo que aquele trabalho ia mudar muita coisa no conhecimento da faiança portuguesa do século XIX, em particular nas produções de Gaia e do Porto. 

Foto retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista / Laura Cristina Peixoto de Sousa

De facto dos milhares de objectos exumados pela equipa de arqueólogos de que fez parte Laura Cristina Peixoto de Sousa, abundavam peças de cantão popular, decorações tipo País, muita louça colorida, que tradicionalmente se atribuiu a Fervença ou Bandeira e ainda azulejos e mais azulejos, que ainda hoje se vêem nos prédios do Porto e que se diz serem Massarelos ou Miragaia. As próprias instalações da fábrica não se situavam naquele prédio bonito, que está hoje em ruínas, mas sim numa série de construções nas suas traseiras e que foram demolidas nos finais dos anos 40. O prédio bonito cheio de azulejos, que o Gastão Brito e Silva, já mostrou no ruinarte serviu como escritório ou casa de habitação dos patrões ou proprietários da fábrica.
Foto retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista / Laura Cristina Peixoto de Sousa

No entanto, apesar dos apontamentos que tirei furiosamente na comunicação, as actas do congresso nunca mais eram publicada e eu a ferver, sabendo que alguns dos cacos mostrados nas fotografias eram iguais a peças que eu conhecia. Fui estando atento, fazendo pesquisas na net, até que descobri, que existia on line uma tese de mestrado em arqueologia de Laura Cristina Peixoto de Sousa, intitulada A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista

A referida tese continha de uma forma desenvolvida os relatórios e fotos dos trabalhos arqueológicos. Para resumir a coisa, entre 2007 e 2010 fizeram-se trabalhos arqueológicos, numa das zonas da fábrica, um antigo tanque para preparação da argila, que terá sido atulhado mais ou menos entre 1846-1848, pelos funcionários da fábrica com cacos, louça inutilizada e toda uma série de desperdícios. Segundo um contrato encontrado no Arquivo Distrital do Porto este tanque provocava infiltrações de água, nuns armazéns do proprietário do terreno, Joaquim Augusto Kopke e o arrendatário da fábrica, João de Araújo Lima, comprometia-se a destruir o referido tanque. O documento data de 1846 e portanto é natural, que em 1848, já as obras de atulhamento do referido tanque já estivessem concluídas. Tudo isto serve para dizer que todos os cacos exumados são anteriores a 1848.
Foto retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista / Laura Cristina Peixoto de Sousa
Um dos caquinhos, que foi trazido à luz pelas escavações é o fragmento de uma chávena, com uma decoração vegetalista com urna, que é igualzinha a uma que já apresentei aqui no blog. O Museu Nacional de Soares dos Reis tem um pires igual, que estava até agora estava atribuído a Viana. 

Foto retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista / Laura Cristina Peixoto de Sousa
Portanto a minha chávena que eu suspeitava vagamente que fosse de Gaia ou Porto pode ser atribuída com segurança a Santo António de Vale da Piedade e a produção deste modelo terá começado ainda antes de 1848.
A minha chávena

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Umas alminhas do Purgatório numa rua de Castelo Branco

 
Já ninguém reza um Padre-Nosso ou um Avé-Maria pelas alminhas que estão no Purgatório. Talvez as alminhas já tenham saído todas do Purgatório direitas ao céu, ou consumiram-se de vez no fogo eterno, ou ainda mais seguramente, porque nos dias de hoje somos indiferentes ao destino dos que morreram e amávamos, bem como á nossa própria sorte depois da morte. Já não rezamos pelos que morreram e o nosso próprio final é apenas um nada. Ainda recentemente, o meu pai voltou arrepiado da cerimónia fúnebre de um camarada de armas, que pediu para não ter qualquer ritual religioso na sua morte.

E no entanto, não é preciso recuar muito tempo para que os assuntos da alma, fossem objecto de uma grande preocupação dos que sabiam que iam morrer para breve, bem dos que cá ficavam.


Ainda há pouco tempo li o testamento da minha trisavó, Maria do Espírito Santo, Ferreira Montalvão, morta em 1902 e que era uma mulher muito rica. No entanto, mais de dois terços do seu testamento referem-se à parte espiritual. Discrimina cuidadosamente as missas que quer que rezem por ela, uma missa de corpo presente, outro ofício no meio do ano e outro ainda no final e ainda vinte trintários de missas por sua alma, mais dez trintários de missas por alma das suas obrigações, mais dez missas ao asilo da sua guarda, mais dez ao S. Miguel, patrono da povoação de Outeiro Seco, sendo estas rezadas no altar do mesmo santo. Dispõe ainda de uma quantidade de trigo ou dinheiro para distribuir aos pobres da aldeia e aos respectivos criados.

Um trintário era uma série de 30 mis­sas celebradas em dias seguidos por alma dum defunto, na espe­ran­ça da sua libertação do Purgatório

Da leitura deste testamento há uma preocupação com o destino da sua alma, que a nós, que o lemos em 2015, quase que nos parece medieval, e naturalmente, que este testamento, obrigava os seus descendentes a executa-lo. A salvação da alma do morto, ficava pois também a cargo dos executores do testamento.
Tudo isto veio a propósito de um registo de azulejos, com as alminhas do Purgatório, que descobri numa das ruas antigas do Centro de Castelo Branco, que hoje parecem estar mais ou menos esquecidas de todos.