segunda-feira, 6 de julho de 2015

Um documentário sobre o Museu Nacional de Arte Antiga ou filho de peixe sabe nadar




Ninguém consegue escrever sobre os seus filhos de forma imparcial. Perante os seus actos experimentamos toda uma série de sensações, que nos transportam para um tempo em que os carregámos ao colo, lhe demos a papa ou nos vimos sozinhos com eles num hospital, e num ápice lá se vai a nossa capacidade objectiva de análise.
 
No entanto, quando recentemente vi a primeira realização do meu filho, um documentário sobre o Museu Nacional de Arte Antiga, não pude deixar de ficar impressionado com a qualidade do seu trabalho. Os planos são elegantes, a câmara move-se lentamente como é conveniente a quem filma um museu, a música é adequada e as imagens misturam-se de forma harmoniosa com a entrevista a um dos conservadores do Museu, o Anísio Franco.

Há um certo bom gosto no documentário, que me surpreendeu, até porque o meu filho acordou tarde para a cultura. Mas, fico orgulhoso, porque a apetência pelo que é antigo e pelo património tem já uma certa tradição familiar, iniciada pelo meu trisavô, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio e que me foi transmitida pela minha avó e pelo meu pai. O meu filho soube reatar essa tradição de uma forma muito pessoal, através das imagens.


Deixo-vos pois com o documentário sobre o principal museu do País, realizado pelo meu filho Henrique

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Uma estampa de S. Cristóvão inspirada em Ticiano


São Cristóvão é uma daquelas imagens Kitsch, que aqui em Portugal associamos inevitavelmente um certo mau gosto. Não há muitos anos era raro o taxi em Lisboa que não tinha uma medalhinha de metal com o S. Cristóvão no tablier. Esta decoração costumava ser completada com um terço pendurado no espelho retrovisor, bem como uma bandeirinha de um clube de futebol, do Sporting ou do Benfica. Na época, nós, as pessoas de classe média achávamos aquilo tudo muito piroso, mas se pensarmos que Portugal tinha a mais elevada taxa de sinistralidade das estradas europeias, talvez a ideia de colocar uma imagem do patrono dos viajantes não fosse assim tão tola.


Toda esta conversa veio a propósito de uma estampa representando S. Cristóvão, belissimamente emoldurada num tecido bordado à mão, um daqueles trabalhos femininos, de monja ou de menina educada nas freiras, que nunca nos deixarão de espantar pelo virtuosismo técnico e pela decoração preciosa. O bordado está em demasiado bom estado para ser muito antigo, mas a estampa parece definitivamente coisa do século XVIII. Não tem qualquer marca de gravador ou impressor, mas o nome do nome do Santo, está identificado em latim, S. Christophorus, o que me leva a pensar que esta estampa não tenha sido feita em Portugal. Pelo menos, dos muitos registos de Santos impressos em Portugal no século XVIII, que me tem passado pelas mãos, a legenda está sempre em português. Em todo o caso, esta opinião é apenas um mero palpite, baseada na experiência e não em estudos sistemáticos.

Fiz algumas pesquisas na net pelo título em latim S. Christophorus, associado às expressões, engraving ou gravure, tentando encontrar qualquer informação que me permitisse situar esta estampa no tempo ou na produção de um determinado gravador ou País. Logo aos primeiros resultados, apercebi-me que a iconografia de S. Cristóvão se fixou relativamente cedo na arte europeia, segundo Louis Réau, a partir do séc. XIV e o mártir cristão é inevitavelmente representado com um homem possante, de elevada estatura, atravessando um curso de água, com um menino às costas e um bordão nas mãos.
S. Cristóvão, por Ticiano, no Palácio dos Doges, em Veneza
Porém, no meio da centena de imagens de S. Cristovão, que desfilaram à minha frente descobri que esta estampa se inspira mais ou menos directamente num fresco pintado no século XVI por Ticiano e que se encontra no Palácio dos Doges, em Veneza. A figura do santo e do Menino Jesus é exactamente a mesma, só que invertida, o cenário ao fundo, com uma igreja do lado esquerdo e um monte do lado direito é também idêntico. Em termos iconográficos, esta pintura apresenta uma variante, o menino não transporta na mão um globo, nem existem peixes na água. O fresco de Ticiano deve ter sido muito admirado no seu tempo e a partir dele foram feitas várias gravuras, ou talvez seja mais correcto afirmar, que houve muitos impressores a copiarem algumas gravuras feitas a partir do S. Cristóvão do célebre mestre veneziano.


S. Cristóvão gravado por Andrea Zucchi e inspirado em Ticiano. Victoria and Albert Museum

Por exemplo, o Victoria and Albert Museum, tem nas suas colecções uma estampa impressa por Andrea Zucchi, 1679-1740, também inspirada directamente na obra de Ticiano, mas de melhor qualidade, que aquela pertencente ao meu amigo Manel. Essas gravuras copiadas ou inspiradas na pintura de Ticiano, chegaram a Portugal, pois nos últimos anos do século XVIII António Joaquim Ribeiro imprimiu uma estampa com um S. Cristóvão, que tem também por modelo a aquela obra do artista italiano. Quase por uma simples amostragem feita na net, consegui apanhar uma sucessão de cópias feitas sobre cópias do fresco de Ticiano, o que nos permite perceber como a gravura foi na arte o veículo privilegiado para a viagem das imagens de país para país ou de um século para o outro.
S. Cristóvão, impresso por António Joaquim Ribeiro. Casa Martins Sarmento, Guimarães
Sobre quem era S. Cristóvão, não vou adiantar aqui muita coisa, pois este não é um blogue sobre vidas edificantes. Em todo o caso não falta beleza à história desta figura praticamente lendária, cuja principal fonte é a Lenda dourada de Jacques de Voragine. Terá vivido na Ásia Menor talvez no tempo das grandes perseguições de Imperador romano Diocleciano (284-305), em que foram chacinados milhares e milhares de cristãos. Cristóvão era um homem fortíssimo, muito alto, que depois de se ter convertido ao Cristianismo, se dedicava a transportar gratuitamente pessoas de uma margem para a outra do Rio.

Um dia apareceu-lhe um menino, que o pediu para o levar para a outra margem. O gigante meteu a criança ao ombro, mas esta pesava-lhe imenso e fez a travessia muito a custo. Quando no final, Cristóvão observou – Quem és tu menino, que me pesaste tanto, que parecia que transportava o mundo inteiro?

O menino respondeu -Tens razão, peso mais que o mundo inteiro, pois sobre os meus ombros carrego com os pecados do mundo. Eu sou Cristo, procuravas-me e encontraste-me. Doravante, chamar-te-ás Cristóvão (em grego, quer dizer o que leva Cristo) e ao ajudares quem cruzar o rio, estarás ajudando-me. Fixa na terra esse árido tronco, que te serve de báculo e pela manhã vê-lo-ás não só em flor, mas também coroado de frutos. De facto no dia, seguinte a estaca seca plantada na terra, tinha-se tornado numa palmeira, carregada de frutos. Depois deste episódio, S. Cristóvão  dedicou-se a evangelização de novas comunidades, e o número de novos praticantes, cresceu como o fruto da palmeira do seu bastão.
 

Há uma simbologia cristã mais ou menos evidente, nesta história, que é aquele que pratica o bem desinteressadamente, no momento da passagem para o outro lado do mundo, garante a sua salvação. Mas esta narrativa assenta também nos velhos mitos pagãos, como o do barqueiro Caronte, que transportava as almas dos que morriam através das águas do rio Estige e Aqueronte, que dividiam o mundo dos vivos do mundo dos mortos. Contudo Caronte, fazia-se pagar pelo seu serviço, pedindo uma moeda, o óbolo, e Cristóvão transportava desinteressadamente os seus passageiros, o que do ponto de vista ético é um lado muito interessante desta lenda.
Alguma Bibliografia:

Iconographie de l’art chrétien / Louis Réau. Paris: Puf, 1958
 

terça-feira, 16 de junho de 2015

Azeitoneiras e molheira Copeland

Para um coleccionador amador como eu, que vive numa espécie de casa de bonecas com uma assoalhada e meia, resta-me apenas a opção de comprar peças de pequenas dimensões, possíveis de encaixar nuns 20 ou 30 cm de parede livre, que ainda restam aqui e acolá, apesar de serem cada vez em menor número. Por isso, comprei há pouco tempo duas pequenas azeitoneiras de faiança inglesa de meados do século XIX, por um preço muito em conta na Feira de Estremoz. O Manuel comprou uma molheira do mesmo serviço e acabei por lhe oferecer uma das azeitoneiras. Esta minha peça irá juntar-se a um conjunto de azeitoneiras inglesas que tenho vindo a adquirir.
A marcas das azeitoneiras
As peças estão marcadas com o monograma da fábrica, a Copeland, que foi umas das marcas inglesas de cerâmica com mais prestígio. Teve origem na célebre Spode, fundada em 1770, a primeira casa a produzir o célebre padrão do salgueiro, e que foi em 1833 comprada por William Copeland e Thomas Garrett. A partir de 1847 o Sr. Copeland tornou-se o único dono e marca passou-a designar-se por W.T. Copeland & Sons, nome que manteve até 1976, ano em que voltou a designar-se por Spode. As marcas destas peças indicam-nos, que poderão ser tido executadas entre 1847-67
 
Tardoz da molheira. O diamond-shaped English Registry mark indica o ano, o mês e o dia, em que o padrão foi registado
As três peças deste conjunto, ostentam também no tardoz o chamado The diamond-shaped English Registry mark, isto é, um conjunto de sinais e códigos, definidos pelo serviço oficial de patentes do Reino Unido, que indicam o ano, o mês e o dia, em que o padrão foi registado e cuja chave de descodificação se encontra disponível em vários sites da net, como por exemplo no kovels.com. O padrão destas duas azeitoneiras e molheira foi registado no dia 17 de Agosto de 1849.

No entanto, julgo que esta data, se refere ao registo do padrão decorativo e não ao ano exacto do fabrico. Portanto, a execução destas três peças poderá ser sido mais tardia. Aliás encontrei num site de arqueologia, o Canadian Historic Sites, referência a que em 1882 este padrão ainda estava disponível num catálogo de vendas da W.T. Copeland and Sons.

Este site contem um artigo on-line, muito curioso de Lynne Sussman, intitulado Spode/Copeland Transfer-Printed Patterns Found at 20 Hudson's Bay Company Sites, que nos conta que em meados da década de trinta do século XIX, a Spode Copeland tornou-se o fornecedor oficial de loiça da Hudson Company, situação que manteve até ao início do século XX. Portanto, em todos postos da Companhia comia-se e bebia-se em serviços daquela loiça inglesa. Já no nosso tempo, os arqueólogos escavaram alguns postos comerciais da Hudson Company e compararam os achados de loiça com as chapas de cobre e os livros de padrões que ainda existem na fábrica Spode e o resultado foi a publicação de um trabalho impressionante, que cobre 109 padrões decorativos, muito útil para todos os coleccionadores de faiança inglesa
Imagem do livro de padrões da fábrica
Consegui descobrir neste site, numa das reproduções do livro de padrões, a imagem que esteve na origem do decoração estampada nestas três peças e que se conserva nos arquivos da fábrica Spode, onde surge designado por garland ou rose briar.
 
 
Em suma, este conjunto de azeitoneiras e molheira foi fabricado pela Copeland, entre 1849 e 1867, numa época em que Inglaterra era maior potência industrial do mundo e as suas produções invadiam o mundo inteiro e tão depressa chegavam às imensidões gélidas do Canadá, como à Ocidental Praia Lusitana.
A beleza do azul e branco da faiança inglesa
 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Vista Alegre ou porcelana francesa

 
Apresento aqui um jarro e uma bacia de porcelana, que o meu amigo Manel comprou recentemente na feira de velharias de Estremoz. Este conjunto de duas peças, também designadas pelo nome de gomil e lavanda, era usado num tempo em que não havia casas-de-banho e a higiene diária era feita no quarto de dormir. O jarro e bacia eram colocados em cima de uma cómoda com um tampo de mármore e um espelho, ou numa simples mesa com uma gaveta, também com um tampo em mármore, de que já mostrei um exemplo em Fevereiro de 2010. As pessoas todas as manhãs lavavam a cara, as mãos e talvez os sovacos e ficavam-se por aí. Nessa época, o banho completo era uma coisa que se fazia muito espaçadamente, numa tina em metal ou numa selha de madeira. Aliás, ainda me lembro de em miúdo, de passar alguns dias no Solar de Outeiro Seco, onde os quartos tinham estas mesas com as bacias e jarros e era aí que nos lavávamos. Nunca me lembro de ter tomado banho nas temporadas que passámos naquela casa, mas, enfim, de vez em quando, íamos mergulhar no rio Tâmega, que passa nos limites da propriedade...
O Jarro e a Bacia não ostentam nenhuma marca. Apenas uma sinalefa, talvez de uso interno da fábrica
Quando o Manel, comprou este conjunto de jarro e bacia, que não tem nenhuma marca de fábrica, só uma sinalefa no tardoz, pegámo-nos, porque eu achava que eram da Vista Alegre e o meu amigo estava convencido que seriam peças francesas. Eu lembrava-me vagamente que já tínhamos comprado dois pratos de torradas com uma decoração semelhante, marcados Vista Alegre e o Manel argumentava que o formato do jarro não era português. 
 
Prato para torradas, marcado Vista Alegre
Esta pequena altercação não foi uma simples teima da nossa parte. Com efeito, no século XIX a produção da Vista Alegre inspirou-se muitos nos modelos e decorações da porcelana de Paris e da porcelana francesa em geral e como muitas das peças do chamado Vieux Paris não foram marcadas, sempre que nos deparamos com louças decoradas com estes motivos florais e sem nenhum distintivo de fabrico, pomos sempre a hipótese de serem francesas.
 
A marca nº 20 do prato para torradas
Resolvi aprofundar um pouco mais o assunto e fui consultar alguns catálogos sobre a fábrica de Ílhavo e de facto na obra Vista Alegre porcelanas. - Lisboa: INAPA, 1989 encontrei reproduzidos um jarro e bacia com formatos idênticos ao do Manel, pertencentes ao Museu da Vista Alegre, com data presumível de 1849 e que embora não ostentem marca, são atribuídos aquela fábrica e terão sido pintados por Victor Rosseau. Portanto, a Vista Alegre fabricou este formato de jarro e com evidente influência francesa.
Bacia e Jarro do Museu da Vista Alegre. Inv.. 334
Depois resolvi fotografar o gomil e lavanda juntamente com o prato de torradas, que ostenta a marca nº 20 (1870-80) e fazer uma comparação e quando visualizei as imagens no computador achei que as três peças apresentavam um evidente ar de família, apesar existirem pequenas diferenças na grinalda e na rosa.
 
 
Fiquei ainda mais convencido que o Jarro e a bacia se tratam de peças da nossa Vista Alegre, fabricadas mais ou menos entre 1860-1880, até porque a porcelana de Paris tem sempre uma pasta com uma aparência mais vítrea. Evidentemente, quando as peças não ostentam marcas, nunca podemos ter a certeza. Em todo o caso, há uma elegância, que poderia muito bem ser francesa nestas peças, que presumo serem da Vista Alegre.
 
 

domingo, 24 de maio de 2015

Uma ferragem antiga estilo neo-renascença ou o gosto pela inutilidade

 
Talvez a psicologia encontre uma justificação racional para este meu gosto de comprar objectos insólitos dos quais desconheço a utilidade. Pessoalmente tenho dificuldade em explicar esta atracção por ferragachos, que encontro no chão das feiras. Talvez porque aparecem descontextualizados, estes objectos pareçam mais misteriosos e consequentemente mais valiosos do que aquilo que realmente são.

Foi certamente o que aconteceu com a peça de ferro que mostro hoje. É bonita, tem uns restos de pintura dourada, mas não sei de onde veio, nem para o que servia. Suspeito, que talvez fizesse parte de um antigo portão ou da estrutura de uma varanda de ferro forjado. Também não excluo a hipótese de ser um elemento decorativo de uma velha cama de ferro.


Olhando, para o reverso e para os pregos grosseiros que prendem a chapa decorada à base, percebo que é definitivamente antiga. Mais de 100 anos terá de certeza. Suspeito, que será coisa do século XIX, feita ao gosto neo-renascença, estilo que surgiu em França por volta de 1830-1848 e que perdurou por todo o século e prolongou-se ainda pelo século XX fora. Aliás, as casas de velharias estão cheias de conjuntos de salas de jantar, compostos por aparadores, louceiros, trinchantes, mesas e cadeiras construídas neste estilo. 

Sala de jantar em estilo neo-renascença no Palácio Nacional da Ajuda
Claro, não são peças tão boas como as da sala de jantar do Palácio da Ajuda aquelas que encontramos nas lojas e feiras das velharias, mas em todo o caso, a renascença foi para muitas famílias da burguesia o estilo preferido para o mobiliário de sala de jantar.

Quanto a esta minha peça, apresenta todas as características deste estilo, o mascarão, os enrolamentos e os brotescos. Não é uma verdadeira antiguidade, mas a ignorância que tenho da sua função original empresta um certo ar de mistério a este ferragacho, que decora a entrada da cozinha. 


sexta-feira, 8 de maio de 2015

S. Juliana de Nicomédia ou os prazeres do "bondage"


Quando no blog me faltam os temas, recorro sempre às estampas religiosas, objectos que estou sempre a comprar, sem saber exactamente o que me motiva, pois não sou crente. Com o passar dos anos desenvolvi um gosto quase eclesiástico e encanto-me em encher a casa com estes objectos piedosos e que, muitas vezes para o olhar de um ateu empedernido, acabam por ter uma certa conotação erótica, que as torna deliciosas.


Foi talvez por essa razão que comprei esta gravura representando uma S. Juliana de Nicomédia num turbilhão rococó absolutamente divertido, gravada em Augsburgo por Johann Baptist Klauber (1712-1787?) e Joseph Sebastian Klauber (1700?-1768), acerca dos quais já aqui escrevi e sobre a influência das suas produções na arte portuguesa. 

A história do martírio de S. Juliana é exactamente igual à de Santa Catarina de Alexandria ou Santa Bárbara ou à de muitas outras mártires do tempo das grandes perseguições aos Cristãos ordenadas pelo Imperador Diocleciano (284-305). Juliana era uma jovem que praticava o Cristianismo em segredo, quiseram-na casar com pagão, recusou-se e foi presa e objecto das mais horríveis torturas, como por exemplo, mergulhada num caldeirão com chumbo em estado de fusão. Enquanto sofria estes horríveis suplícios, Juliana era tentada pelo diabo, mas manteve-se firme e açoitou-o com as grilhetas da prisão e um chicote. A pobre Juliana acabou por ser decapitada em 304, em Nicomédia, a sua cidade Natal, que se situava na província da Bítinia, actual Turquia.

Esta minha estampa representa precisamente S. Juliana acoitando dois animais raivosos, com um chicote e uma grilheta. Contudo, ela não é apresentada em sofrimento, pelo contrário. É uma figura triunfante, que pisa e chicoteia Satanás, como se estivesse divertida e a tirar prazer desse acto, quase como se fosse uma adepta daquela prática sexual, que os ingleses designam por bondage.
 

Alguma Bibliografia:

Iconographie de l’art chrétien / Louis Réau. Paris: Puf, 1998

domingo, 26 de abril de 2015

Vaquinhas da Fábrica de Louça de Sacavém


Embora não seja um motivo decorativo muito vulgar e fácil de encontrar no mercado de velharias, o padrão vaquinhas é ao meu ver das decorações mais charmosas de Sacavém. A abadia em ruínas, as vaquinhas a pastar, os cavaleiros e a decoração são uma adaptação muito feliz dos motivos românticos da faiança inglesa.

Conforme já notou o MAFLS do blogue Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém, esta decoração só foi usada na louça sanitária, isto é, em peças como as que aqui agora apresento, um conjunto de gomil e lavanda ou em penicos. Portanto, este motivo não foi utilizado em serviços de chá, café ou jantar.

Não se sabe ao certo qual o padrão inglês, que deu origem a esta decoração, mas numa vista rápida pelos sites ingleses e americanos de faiança, parece inspirado nas chamadas english scenery, isto é, paisagens campestres e bucólicas da velha Albion, em particular nas decorações Abbey e o Cattle Scenery.
O padrão Abbey foi popular na faiança inglesa
O motivo Abbey  representava uma abadia gótica em ruínas e deve ter sido muito popular, pois assim numa pesquisa à vol d'oiseau, como diria a Princesa Rattazzi, percebi que foi produzido por umas quantas fábricas inglesas, como exemplo pela Livesley Powell, Williams Adams, Gorge Jones em Inglaterra, mas também  mais tarde por Petrus Regout, em Masstricht, na Holanda. Este padrão traduzia o gosto muito peculiar que romantismo do século XIX tinha pela ruína e sobretudo pela Idade Média. Aliás, é no século XIX, que a Idade Média começa a ser objecto de grande interesse pela historiografia.
Prato com o padrão Domestic Cattle, atribuído a Careys
Por outro lado, as vaquinhas de Sacavém parecem ter ter ido buscar também inspiração a outros motivo populares da das paisagens campestres inglesas, como a Cattle Scenery ou o padrão da Milkmaid, este último, já mostrado pela nossa Maria Andrade, num dos seus concorridos chás de terça-feira.


Em termos de datação, o gomil e a lavanda, apresentam marcas diferentes. O gomil parece apresentar a marca 729 do Dicionário de marcas de faiança/ Filomena Simas, Sónia Isidro. – Lisboa: Estar Editora, 1996 e portanto terá sido fabricado por volta de 1885. A Lavanda ostenta no reverso a marca 214 do mesmo Dicionário e portanto foi feita entre 1880-1896. Enfim, para simplificar a coisa, as duas peças datam dos últimos quinze anos do século XIX.

Mas é curioso observar que não só as datas são distintas, a decoração difere ligeiramente da lavanda para o Gomil. Na primeira peça há vaquinhas e ovelhas a pastar, mas também há um cavaleiro, que talvez dirija galanteios a uma linda pastora e tudo isto com a abadia gótica lá ao fundo. 
No Gomil, os cavaleiros conduzem as ditas vaquinhas a um ribeiro, onde estas bebem água. 
As próprias reservas não iguais. Uma paisagem com barcos num rio com aquilo que ao fundo parecem ser as pirâmides de Gizé preenche as reservas da lavanda. 

No Gomil também há barcos num rio, com um jarrão clássico em primeiro plano e um templete em último plano.
Enfim, esta mistura de paisagens inglesas, abadias medievais em ruínas e pirâmides do Egipto é bem típica do século XIX e foi concebida de forma muito feliz nestas peças de Sacavém de inspiração inglesa, que pertencem ao meu amigo Manel.