sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Uma chávena de chá de Santo António de Vale da Piedade

a minha chávena

Recentemente assisti a uma comunicação no Congresso Internacional de Faiança Portuguesa, realizada no Museu Nacional de Arte Antiga, em 2013, proferida por uma arqueóloga, Laura Cristina Peixoto de Sousa, sobre as escavações feitas nos antigos terrenos da fábrica de Santo António de Vale da Piedade, em Gaia. Embora, fosse uma palestra breve, pelo texto e pelas imagens dos objectos desenterrados apercebi-me logo que aquele trabalho ia mudar muita coisa no conhecimento da faiança portuguesa do século XIX, em particular nas produções de Gaia e do Porto. 

Foto retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista / Laura Cristina Peixoto de Sousa

De facto dos milhares de objectos exumados pela equipa de arqueólogos de que fez parte Laura Cristina Peixoto de Sousa, abundavam peças de cantão popular, decorações tipo País, muita louça colorida, que tradicionalmente se atribuiu a Fervença ou Bandeira e ainda azulejos e mais azulejos, que ainda hoje se vêem nos prédios do Porto e que se diz serem Massarelos ou Miragaia. As próprias instalações da fábrica não se situavam naquele prédio bonito, que está hoje em ruínas, mas sim numa série de construções nas suas traseiras e que foram demolidas nos finais dos anos 40. O prédio bonito cheio de azulejos, que o Gastão Brito e Silva, já mostrou no ruinarte serviu como escritório ou casa de habitação dos patrões ou proprietários da fábrica.
Foto retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista / Laura Cristina Peixoto de Sousa

No entanto, apesar dos apontamentos que tirei furiosamente na comunicação, as actas do congresso nunca mais eram publicada e eu a ferver, sabendo que alguns dos cacos mostrados nas fotografias eram iguais a peças que eu conhecia. Fui estando atento, fazendo pesquisas na net, até que descobri, que existia on line uma tese de mestrado em arqueologia de Laura Cristina Peixoto de Sousa, intitulada A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista

A referida tese continha de uma forma desenvolvida os relatórios e fotos dos trabalhos arqueológicos. Para resumir a coisa, entre 2007 e 2010 fizeram-se trabalhos arqueológicos, numa das zonas da fábrica, um antigo tanque para preparação da argila, que terá sido atulhado mais ou menos entre 1846-1848, pelos funcionários da fábrica com cacos, louça inutilizada e toda uma série de desperdícios. Segundo um contrato encontrado no Arquivo Distrital do Porto este tanque provocava infiltrações de água, nuns armazéns do proprietário do terreno, Joaquim Augusto Kopke e o arrendatário da fábrica, João de Araújo Lima, comprometia-se a destruir o referido tanque. O documento data de 1846 e portanto é natural, que em 1848, já as obras de atulhamento do referido tanque já estivessem concluídas. Tudo isto serve para dizer que todos os cacos exumados são anteriores a 1848.
Foto retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista / Laura Cristina Peixoto de Sousa
Um dos caquinhos, que foi trazido à luz pelas escavações é o fragmento de uma chávena, com uma decoração vegetalista com urna, que é igualzinha a uma que já apresentei aqui no blog. O Museu Nacional de Soares dos Reis tem um pires igual, que estava até agora estava atribuído a Viana. 

Foto retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista / Laura Cristina Peixoto de Sousa
Portanto a minha chávena que eu suspeitava vagamente que fosse de Gaia ou Porto pode ser atribuída com segurança a Santo António de Vale da Piedade e a produção deste modelo terá começado ainda antes de 1848.
A minha chávena

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Umas alminhas do Purgatório numa rua de Castelo Branco

 
Já ninguém reza um Padre-Nosso ou um Avé-Maria pelas alminhas que estão no Purgatório. Talvez as alminhas já tenham saído todas do Purgatório direitas ao céu, ou consumiram-se de vez no fogo eterno, ou ainda mais seguramente, porque nos dias de hoje somos indiferentes ao destino dos que morreram e amávamos, bem como á nossa própria sorte depois da morte. Já não rezamos pelos que morreram e o nosso próprio final é apenas um nada. Ainda recentemente, o meu pai voltou arrepiado da cerimónia fúnebre de um camarada de armas, que pediu para não ter qualquer ritual religioso na sua morte.

E no entanto, não é preciso recuar muito tempo para que os assuntos da alma, fossem objecto de uma grande preocupação dos que sabiam que iam morrer para breve, bem dos que cá ficavam.


Ainda há pouco tempo li o testamento da minha trisavó, Maria do Espírito Santo, Ferreira Montalvão, morta em 1902 e que era uma mulher muito rica. No entanto, mais de dois terços do seu testamento referem-se à parte espiritual. Discrimina cuidadosamente as missas que quer que rezem por ela, uma missa de corpo presente, outro ofício no meio do ano e outro ainda no final e ainda vinte trintários de missas por sua alma, mais dez trintários de missas por alma das suas obrigações, mais dez missas ao asilo da sua guarda, mais dez ao S. Miguel, patrono da povoação de Outeiro Seco, sendo estas rezadas no altar do mesmo santo. Dispõe ainda de uma quantidade de trigo ou dinheiro para distribuir aos pobres da aldeia e aos respectivos criados.

Um trintário era uma série de 30 mis­sas celebradas em dias seguidos por alma dum defunto, na espe­ran­ça da sua libertação do Purgatório

Da leitura deste testamento há uma preocupação com o destino da sua alma, que a nós, que o lemos em 2015, quase que nos parece medieval, e naturalmente, que este testamento, obrigava os seus descendentes a executa-lo. A salvação da alma do morto, ficava pois também a cargo dos executores do testamento.
Tudo isto veio a propósito de um registo de azulejos, com as alminhas do Purgatório, que descobri numa das ruas antigas do Centro de Castelo Branco, que hoje parecem estar mais ou menos esquecidas de todos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A minha primeira obra de Rubens com cerca de meio palmo

 
Coleccionar estampas de santinhos e outras beatices torna-se um vício cada vez maior, sobretudo porque se conseguem comprar obras com dois ou três séculos de existência por preços muito tentadores.


Recentemente adquiri esta estampa, com cerca de meio palmo, representando uma Santa Bárbara. O traço é algo requintado, sem aquele ar ingénuo das nossas estampas e desde logo me pareceu que não fosse portuguesa, impressão que confirmei, quando vi a assinatura no canto inferior esquerdo, C. Galle. 


Fiz algumas pesquisas na net e descobri que Galle é o nome de uma dinastia de impressores e gravadores flamengos, de Antuérpia, activos entre os séculos XVI e XVII, de que já aqui falei anteriormente. A assinatura C. Galle poderá reportar-se a 3 membros desta família, Cornelius Galle I, o antigo 1576–1650 e Cornelis Galle II, o novo(1615–1678) e ainda um terceiro Cornelius nascido em 1642 e nem sempre é fácil distinguir as obras uns dos outros, até porque esta gente trabalhava em oficinas familiares, em que o mesmo trabalho era certamente repartido por avô, pai, filhos e irmãos. Em todo o caso, segundo várias pesquisas que fiz no Rijksmuseum as assinaturas C. Galle iguais às da minha estampa parecem mais corresponder mais aos trabalhos tipográficos de Cornelis Galle II, o novo(1615–1678) ou do terceiro (nascido em 1642). 
S. João Baptista. Rijksmuseum. Assinado por C. Galle
Procurei algumas informações sobre este Cornelis ou Cornelis Gale e li na wikipedia que este impressor notabilizou-se sobretudo pelas suas estampas feitas a partir de Desenhos de Pieter Paul Rubens e Anton Van Dyck. Lembrei-me então da hipótese de este pequeno registo ser uma estampa feita a partir de um desenho ou de uma pintura de um daqueles artistas e fiz então varias pesquisas combinadas por “Rubens + Cornelius Galle” e Anton Van Dyck + Cornelius Galle" e andei por uns quantos sites, nomeadamente pela biblioteca digital hispânica, que tem uma grande colecção de estampas digitalizadas, até que fui ter à Europeana, o grande repositório digital dos museus, bibliotecas e arquivos europeus e descobri que no Teylers Museum, em Harlem na Holanda, possui nas suas colecções uma estampa, idêntica à minha só que de maiores dimensões, assinada por C. Galle e cujo desenho é atribuído a Rubens. A estampa do Museu holandês tem 30 por 21 cm e a minha como só tem 9 por 6,5 cm e apresenta um desenho menos perfeito, mas a matriz não há dúvida que é a mesma.
S. Barbara a partir de desenho de Rubens e gravada Cornelis I Galle (1576-1650). Teylers Museum
Está datada entre 1596 e 1650 e na ficha de inventário deste Museu a assinatura é identificada como sendo do Cornelius Galle I, o antigo, que viveu entre 1576–1650,  embora estranhamente tivesse sido o Cornelius II (1615–1678) quem se tenha notabilizado por produzir estampas a partir de obras de Rubens. Enfim, seja lá de que Cornelius for, novo ou velho a minha gravurazinha será de meados do século XVII, impressa certamente em Antuérpia e feita a partir de um desenho de Rubens.

Para os que sabem menos de religião Católica, esta Santa Bárbara viveu no Século III, em Nicomédia, na Ásia Menor e a sua história é muito semelhante a outras virgens mártires destes primeiros séculos do cristianismo. Em traços gerais, a jovem Bárbara era cristã e o pai pagão, quis casa-la contra à sua vontade. A coisa correu mal e o Dióscoro, o pai resolveu encerra-la numa torre com duas janelas, mas a jovem Bárbara para mostrar a sua crença inabalável na Santíssima Trindade, mandou abrir uma terceira janela. Como Bárbara teimava não abjurar da sua fé, o pai denunciou-a ao Perfeito Martiniano e a jovem foi vítima de um terrível suplício. Quando finalmente a pobre Bárbara morreu decapitada, caiu um trovão dos céus e que fulminou o seu pai Dióscoro.
Esta estampa apresenta os elementos típicos que permitiam a qualquer crente, mesmo que fosse analfabeto, identificar rapidamente a Santa que aqui estava representada. É uma jovem, segura a palma, que significava que foi martirizada, a torre com três janelas, onde foi encerrada e o cálice, que significa a sua conversão ao catolicismo.

Em suma, uma estampa, feita em meados do século XVII, em Antuérpia, a partir de uma obra do Rubens, apesar de não ultrapassar 9 por 6,5 cm, valeu bem a meia dúzia de euros que dei por ela.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Um espelho mágico achado no lixo

Os espelhos são sempre objectos fascinantes. Na decoração, por maiores que sejam, os espelhos vez de encher ou sobrecarregar um espaço, multiplicam-no. Fazem mais do que isso, recriam uma área da casa dando-nos ângulos ou visões que não existem na realidade. Os espelhos são como que uma porta para outro mundo.

Talvez por essa razão, os espelhos apareçam tão frequentemente nas fotografias deste blog, pois há cinco anos que ando a fotografar a minha casa e os espelhos servem como cenários sempre novos para as peças, que fotografo ou para recriar qualquer recanto da minha casa, que já mostrei anteriormente e que através do efeito mágico do espelho, surge modificado.
Por estas razões, quando vi este este espelho velho num contentor das obras, não lhe pude resistir e trouxe-o para casa. Terá pertencido a uma das muitas velhinhas que moram aqui no centro da cidade e que quando morrem, todo o recheio das suas casas é atirado para lixo, desde o mobiliário, às fotografias antigas, passando pelas panelas. Este espelho fazia parte de uma das aquelas antigas cómodas, com um tampo em mármore, no tempo em que as casas-de-banho ainda não estavam generalizadas nas casas mais remediadas e a a higiene diária fazia-se no quarto com o recurso a um jarro e uma bacia. Nestes bairros populares do centro histórico de Lisboa, as casa-de-banho são coisas novas, construídas nos últimos vinte ou trinta anos, normalmente numa parte da cozinha. No passado existia uma pia polivalente na cozinha ou varanda que servia literalmente para tudo.
O espelho que achei no lixo faria parte de um móvel deste tipo.
Este espelho estava em muito mau estado, tratei-o contra o caruncho, pincelando-o com cuprinol e depois revesti-o com película aderente e assim ficou durante duas semanas, como se estivesse numa câmara de expurgo. Depois passou pelas mãos mágicas do Manel, que o restaurou e lhe acrescentou um pináculo no sítio onde existiria um frontão. No final, foi a prenda de Natal para a minha filha Carminho. Talvez ela possa nele descobrir outros mundos sem sair do seu quarto.

O pináculo foi posto pelo Manuel em lugar do antigo frontão que se perdeu.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Uma miniatura, uma obra falsa, uma cortesã e uma dama da sociedade


Sempre tive uma paixão por retratos miniatura, aquelas pinturas dos séculos XVII, XVIII e XIX, que antes da invenção da fotografia eram o único meio de fazer conhecer um rosto à distância. Os retratos miniatura eram objectos de natureza íntima, que se trocavam por ocasião de casamentos arranjados entre noivos, que nunca se tinham visto, ou entre pais e filhos separados por longas distâncias, ou serviam ainda para recordar uma criança morta demasiado cedo. Esses retratos pintados sobre velino, papel ou marfim são normalmente um pequeno primor e fazem parte das colecções dos grandes museus.
Retrato do Visconde de Vila –Nova de Ourém.
Museu Nacional de Arte Antiga,
228 Min. Foto http://www.matrizpix.dgpc.pt/

Como recebi um dinheiro extra, resolvi fazer uma pequena extravagância e comprei uma dessas pinturas miniatura, emoldurada em marfim, na Feira de Estremoz. Representa uma jovem dama, vestida em trajes datados mais ou menos do segundo quartel do século XIX, isto é, cerca de 1825-1850. Está assinado, mas na altura em que o comprei não consegui ler o nome. O verso da moldura foi revestido com a página de um livro antigo, de uma edição qualquer da Bíblia, inglesa, dos finais do XVIII.


No entanto, como este retrato não me pareceu muito antigo, abri a Santa e Sapientíssima Internet e pesquisei pelos termos Miniature portrait, ivory framework, e Miniature cadre en ivoire, quer em imagens, quer em texto e rapidamente comecei a perceber que as miniaturas emolduradas em marfim semelhantes à minha são relativamente recentes. As que encontrei em sites de leilões e de antiquários na internet eram datadas dos finais do Século XIX ou dos primeiros anos do Século XX.

Continuei as minhas pesquisas e descobri um artigo estupendo na internet de Don Shelton, intitulado Copy, Fake, and Decorative Miniatures, que descreve sumariamente a história da miniatura, bem com as reproduções e falsificações que delas se foram fazendo ao longo dos tempos. Neste texto, refere que finais do Séc. XIX, inícios do XX, na Alemanha e na França foram executadas centenas, senão milhares de cópias de retratos em miniatura ou de obras famosas a partir de estampas, só que em dimensões reduzidas. 
As molduras em marfim eram feitas a partir de teclas de piano
 As molduras de marfim eram feitas reaproveitando antigas teclas de piano e no verso eram revestidas com páginas de livros antigos, para lhes dar um ar histórico. Ao contrário dos retratos miniatura originais, que muitas vezes não eram assinados, estas cópias ostentavam assinaturas de nomes de artistas famosos como Stieler, Nattier, Cosway, Smart e Isabey. Aliás, foi a referência a estes artistas que me permitiu ler a assinatura que constava no meu retrato “Stieler”.
Stieler é a assinatura de Joseph Karl Stieler
Stieler é a assinatura de Joseph Karl Stieler (1781-1858) um pintor alemão da corte bávara que se notabilizou entre outras coisas pela execução da célebre galeria das beldades do Palácio de Nymphenburg, em Munique. Esta Galeria das beldades, ou Schönheitengalerie em alemão, é um conjunto de 36 pinturas, encomendadas pelo Rei Luís I da Baviera a Joseph Karl Stieler, que as executou entre 1827-50, representando as mulheres mais bonitas de Munique. Desta galeria de beldades consta o quadro original, que o autor da minha miniatura copiou descaradamente.
A obra que serviu de modelo à minha pintura. O retrato de Rosalie Julie von Bonar, por Joseph Karl Stieler.


Trata-se do retrato de Rosalie Julie von Bonar, uma jovem aristocrata, filha de um cavaleiro imperial da Morávia e de uma condessa polaca e que casou com o embaixador inglês em Viena, o Barão Ernst von Bonar. Teria 26 anos, quando Joseph Karl Stieler executou este retrato em 1840 e pouco mais se sabe desta Senhora. Mas desta galeria, que ainda hoje se pode admirar no Palácio de Nymphenburg não constam só damas de alta condição, mas também uma cortesã e uma das mais famosas, a danseuse exótica Lola Montez, uma aventureira irlandesa que se fazia passar por espanhola e que se tornou amante do Rei Luís I da Baviera. Mas, o Rei não se limitou só a mandar retrata-la na galeria das beldades de Munique, concedeu-lhe uma anuidade milionária e ainda fez dela Condessa de Landsfeld. O escândalo foi de tal ordem, que o Rei foi forçado a abdicar e a pobre Lola Montez teve que partir da Baviera às pressas, procurando um outro qualquer patrono ou marido rico em paragens mais distantes.
A danseuse exótica Lola Montez, amante do Rei da Baviera é o retrato mais famoso que Joseph Karl Stieler executou para a galeria das Beldades 
Mas voltando à minha pintura da bem comportada Rosalie Julie von Bonar, não é com efeito um verdadeiro retrato em miniatura, um objecto íntimo que um dia alguém encomendou para oferecer a um parente ou a um noivo. É uma reprodução de pequenas dimensões do quadro de Joseph Karl Stieler, ao jeito das miniaturas do início do XIX, feita provavelmente a partir de uma estampa, algures na Alemanha ou na França, por algum estudante de pintura, numa oficina que fazia destes quadrinhos às centenas, reaproveitando teclas de piano para fazer as molduras. Mas o que é mais curioso é que estas falsificações eram na verdade uma espécie de souvenirs das obras dos grandes museus e galerias, vendidas aos turistas que faziam o grand tour nos finais do século XIX. Com efeito, era uma época em que os museus e galerias de arte não dispunham ainda de todo o merchandising das suas colecções, com reproduções das obras dos grandes mestres da pintura e nem as pessoas viajavam com câmaras digitais, fotografando tudo e mais alguma coisa, de modo que estas pinturas miniaturas eram compradas como recordações das grandes obras do Louvre ou outras grandes colecções europeias, da mesma forma como hoje em dia adquirimos nas nossas viagens a Paris ou a Florença uma t-shirt com a Mona Lisa, ou uma coisinha para pendurar no frigorífico, com o Nascimento de Vénus de Boticelli. Terá sido o caso deste quadrinho, talvez comprado por alguém, que há cerca de 100 ou 120 anos visitou a célebre galeria das beldades do Palácio de Nymphenburg e quis ficar com uma recordação, que hoje é minha e cuja história serve de presente de Natal a todos os que ainda tem pachorra para me ler.
Alguns links úteis:

http://www.rubylane.com/item/135488-213pmHat/Antique-French-Portrait-Miniature-large-Miss

http://en.wikipedia.org/wiki/Gallery_of_Beauties

http://www.artwis.com/articles/copy-fake-and-decorative-miniatures/

domingo, 14 de dezembro de 2014

Uma estampa com 413 anos

a Vita et miracula S.P. Dominici praedicatorii ordinis primi institutoris
Apesar de imaginar que os seguidores deste bolg já devem andar fartos da beatice toda que tenho postado ultimamente, hoje volto à carga com mais uma estampa religiosa. Mas este assunto de identificar velhas folhas de papel arrancadas de livros é para mim um conjunto de charadas, que me dão um prazer louco resolver e para as quais uso a minha experiência profissional de pesquisa em catálogos de bibliotecas europeias e americanas.

O canivet de S. Filipe o Apóstolo, que mostrei a semana passada, comprei-o  juntamente com uma estampa representando uma Santa Bárbara, assinada por um tal C. Galle e percebi desde logo que não era portuguesa, pois parecendo que não vou conhecendo o estilo dos gravadores nacionais e por consequente parti para o google, fazendo uma pesquisa combinada por "C. Galle" "engraving" e "S. Barbara". Rapidamente percebi que se devia tratar de uma obra de um tal Cornelius Galle, o antigo, (1576-1650), um senhor natural da cidade Anvers, ou Antuérpia como é conhecida a cidade em Português e que pertencia a uma dinastia de gravadores flamengos, activos no século XVII.
À medida que ia virando as páginas do livro digitalizado, comecei a achar o que reconhecia o estilo daquelas estampas, bem com o tipo de letra das legendas

Com estes dados continuei a fazer mais pesquisas na net e fui ter a um desses repositórios digitais, o http://catalog.hathitrust.org/Record/010658048, mais propriamente a uma obra dos inícios do Séc. XVII, a Vita et miracula S.P. Dominici praedicatorii ordinis primi institutoris, que foi integralmente digitalizada pela Universidade da Califórnia. Como na descrição sumária mencionavam-se gravuras da família Galle, resolvi encher-me de pachorra e folhear a obra toda, pois podia ser que lá no meio houvesse uma Santa Bárbara qualquer. À medida que ia virando as páginas do livro digitalizado, comecei a achar o que reconhecia o estilo daquelas estampas, bem com o tipo de letra das legendas e pensei que se talvez tivesse sido daquela obra, que foi recortada a minha gravura, representando o São Domingos de Gusmão, a ser perturbado nos seus estudos, por uns diabozinhos antipáticos. E realmente lá para o final do livro, que é uma obra, quase sem texto e com muitas imagens, encontro uma estampa, igualita ao meu São Domingos de Gusmão. Foi uma enorme surpresa, pois apesar de em 2011 ter conseguido identificar o santo e o tema da gravura, nunca tinha chegado a descortinar a que livro ela tinha pertencido.
A estampa igual à minha
Se estava desvendado o mistério de que livro provinha a minha estampa, a ficha do repositório digital, http://catalog.hathitrust.org/Record/010658048, não atribuía uma data certa para a publicação da obra. Indicava que o livro teria sido editado entre 1640 e 1659. Não fiquei contente com estes dados e resolvi e dar uma volta a outras paragens, nomeadamente à Biblioteca Nacional de França, que dava o livro como publicado em 1611 e ainda dei um salto à rede nacional das bibliotecas italianas, onde encontrei outro exemplar, cujo registo catalográfico, confirmou o ano de 1611 como data de publicação e ainda discriminava claramente os autores da obra. As legendas escreveu-as o Senhor Jean Nys, Theodor Galle (1751-1633) imprimiu e gravou as estampas, segundo um desenho de Pieter Jode (1570-1634), outro artista também natural da Flandres.

Em suma, esta minha estampa representando São Domingos de Gusmão é flamenga e datada do ano 1611, e portanto deve ser sem dúvida a gravura mais antiga da minha colecção, pois completou este ano exactamente 413 anos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Canivet : S. Filipe, o Apóstolo


Consegui comprar mais um canivet, isto é, um daqueles santinhos, com um trabalho todo picotado à volta semelhante a uma renda. Todavia este santinho não é uma daquelas pagelas do século XIX ou inícios do XX em que o picotado é realizado mecanicamente. Aqui o picotado foi feito à mão mediante o auxílio de um instrumento cortante, um canivete, daí a origem do nome, canivet, termo francês pelo qual são normalmente conhecidas estas peças entre os amantes das velharias.

Já aqui apresentei dois destes canivets antigos, que normalmente são datados no século XVIII nos catálogos internacionais de alfarrabistas, leiloeiras e sites de coleccionadores. Mas, aproveitei a compra deste para efectuar mais umas pesquisas aqui e ali na net e apurei mais alguma coisa sobre estes objectos.
Os canivets do século XVIII são de dimensões muito reduzidas.
Em primeiro lugar, ao contrário dos outros registos de santos, estes canivets nem sempre são estampas impressas, que posteriormente foram aguareladas. Os canivets, sobretudo os mais antigos, são pinturas originais a guache, o que os transforma em peças únicas. Também relativamente aos materiais, apurei que estes canivets não são só realizados em papel, mas também em tecido, como o agnus dei, que aqui apresentei em 15 de Março deste ano, ou ainda em velino como este S. Filipe. O velino é uma pele semelhante ao pergaminho, só que de melhor qualidade, normalmente feita de um vitelo, daí o nome velino (do francês antigo Vélin), ou de um outro animal qualquer jovem, como de um cordeiro e tratado de forma a que ficasse com uma espessura muito fina e lisa.
No verso, pode-se observar alguma rugosidade típica de um suporte em pele
Como já expliquei em anteriores posts, estes canivets eram um trabalho realizado em conventos femininos e vendidos para fora como fonte de receita. Aparecem muitas destas peças nos sites de alfarrabistas e de coleccionadores de estampas religiosas, originárias da Alemanha, França ou Holanda. Em Portugal, existiu também uma tradição de trabalho em papel e era natural que também produzissem estes santinhos, mas como estas peças nunca são assinadas, é complicado afirmar que são portuguesas, francesas ou alemãs. Todavia, havia uma grande circulação de gravuras por toda a Europa, como por exemplo as estampas produzidas em Augsburgo, que eram muito populares em Portugal, conforme o demonstrou Marie-Thérèse Mandroux-França na obra Information artistique et «mass-media» au XVIIIe siècle : la diffusion de l'ornement gravé rococo au Portugal - Braga : [s.n.], 1974 e portanto não é de estranhar que estes canivets sejam alemães ou franceses.


Este canivet representa S. Filipe, um dos doze apóstolos que acompanharam Jesus Cristo, facilmente reconhecível, pelos seus atributos, o livro e a cruz, na qual foi supliciado. A legenda encontra-se em latim, S. Philippus.