sábado, 14 de janeiro de 2017

A aventureira: gravura segundo Watteau

Continuo um comprador compulsivo de gravuras. Desta vez, adquiri na feira de alfarrabistas da rua da Anchieta uma gravura feita a partir de uma tela de Watteau, que representa uma jovem elegantemente vestida, que sem medo do que os outros possam pensar, se dirige a um grupo de boémios, procurando um momento de diversão galante, sem grandes limites, esquecendo as sensatas recomendações feitas pela mãe e pelo senhor padre-cura. Enfim, uma verdadeira aventureira.

Peint par Watteau

Pela grossura do papel, pela cor e pelas linhas de água que apresenta, a estampa pareceu-me desde logo coisa do século XVIII. Enfim, trabalho, há demasiado tempo com livros para confundir uma estampa do século XVIII com uma litografia do século XIX.
L'Avanturière. Troyes, Musée de beaux-arts. Foto de http://watteau-abecedario.org/
Fiz algumas pesquisas na net e descobri que esta gravura foi feita a partir de uma tela original de Watteau que se encontra no Musée des beaux-arts et d'archéologie de Troyes e que faz par com outra tela do mesmo pintor, intitulada L'Enchanteur.

L'Enchanteur. Troyes, Musée de beaux-arts. Foto Wikipédia
Logo após a morte deste pintor francês em 1721, houve um senhor chamado François Jullienne ( 1686-1766), mecenas e um grande coleccionador das obras de Watteau, que encomendou aos melhores gravadores da sua época a reprodução da sua colecção de quadros daquele pintor. Os vários volumes dessa compilação foram publicados entre 1728 e 1736 e tornaram-se conhecidos pelo nome Recueils Jullienne. Foram acrescentados com outras gravuras setecentistas executadas a partir da obra de Watteau pelo Barão Edmond de Rothschild, no séc. XIX. No tomo I da Oeuvre gravé dessa compilação encontrei uma estampa igual à minha, na mesma página do L'Enchanteur, mas invertida e gravada por um tal Benoît Audran II.

Recueils Jullienne. http://technologies.c2rmf.fr/exhibitions/watteau
A minha estampa está no mesmo sentido do quadro original, mas não tem a assinatura do gravador e portanto não foi executada Benoît Audran II. Mas em todo o caso, comprovou a minha impressão inicial que a gravura que comprei foi cortada e que deveria ter sido publicada na mesma página que outra estampa, muito provavelmente o L'Enchanteur. Consultei então o catálogo de uma exposição feita em Paris, em 1984, Watteau, 1684-1721. - Paris : Réunion des Musées Nationaux, 1984 e na entrada referente à L’aventuriere, refere-se que para além da gravura de Audran foram impressas mais quatro versões, uma por Louis Crepy, que encontrei a venda numa leiloeira francesa e que tem a orientação da tela do Museu de Troyes, mas está assinada e mais outras três, das quais o catálogo não dá referências. Enfim, a minha estampa será talvez uma dessas outras três.
L'Avanturière. Gravada por Louis Crepy

Estas cenas galantes, povoadas por jovens ociosos, músicos e figuras da commedia dell arte, tendo por pano de fundo paisagens com árvores frondosas são típicas de toda a obra de Watteau (1684-1721). Com efeito, Watteau é um autor que procura antes de mais nada, capturar na tela pequenos momentos da comédia do amor, postos como numa peça de teatro, onde não faltam sequer as personagens da commedia dell arte. Nos seus quadros de festas galantes, onde gente de qualidade se diverte, espreitam estátuas de divindades e génios das florestas. É um mundo frívolo, ocioso, algo egoísta, e não há um gesto de ternura entre as personagens, que apenas procuram seu próprio prazer, com esta nossa aventureira.
Jovens ociosos, músicos e figuras da commedia dell arte
Essa frivolidade da arte Watteau, característica de uma época, onde a grande nobreza francesa se diverte despreocupadamente, faz-nos no entanto a esquecer a qualidade das paisagens da obra de Watteau, que acabam por ser as grandes protagonistas das suas festas galantes.
A paisagem é a grande protagonista das festas galantes de Watteau.

A obra de Watteau conheceu grande sucesso e foi muitíssimo copiada, nem sempre da melhor maneira. Cópias das suas obras aparecem estampadas em chávenas, vasos, leques, papeis de parede ou bibelots e até mesmo na azulejaria portuguesa, como num painel de azulejos, atribuído a Bartolomeu Antunes (1668-1753), que existe no Palácio Valada Azambuja (Biblioteca Municipal Camões) no largo do Calhariz, nº 17, em Lisboa, executada certamente a partir de uma estampa semelhante a que apresento hoje aqui.


Um aspecto do interior do Palácio Valada Azambuja (Biblioteca Municipal Camões). Os azulejos foram colocados aqui em 1925 pelo proprietário de então, Manuel Henriques de Carvalho, provenientes de um Palácio em Almada. Foto João de Carvalho da Wikipédia

Apesar da frivolidade das obras de Wattau, fiquei contente com a compra. Pendurada na parede da minha casa, esta gravura evocará as festas galantes do século XVIII, esse mundo despreocupado, que acabará nos cadafalsos da revolução francesa, depois de 1789.

L'Avanturière. Watteau.
Alguns ligações e bibliografia consultadas:
À l'enseigne de Gersaint [Texte imprimé] : Edmé-François Gersaint, marchand d'art sur le pont Notre-Dame : 1694-1750 / Guillaume Glorieux. - Seyssel : Champ Vallon, 2002

Watteau, 1684-1721. - Paris : Réunion des Musées Nationaux, 1984

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Maria Madalena a arrependida ou uma visita ao Museu de Aveiro

Visitei recentemente o Museu de Aveiro, que tem uma colecção riquíssima de talha dourada e escultura religiosa. No meio daquelas salas e salas pejadas de altares fantásticos de talha e santos com trajes riquíssimos, descobri uma Maria Madalena em barro, do século XIX, que me encantou completamente. Tirei-lhe três fotografias e todas ficaram estupendas. As verdadeiras estrelas são sempre fotogénicas.

Todos nós gostamos da figura de Maria Madalena. Ainda que arrependidas, as pecadoras são sempre mais populares que as mártires, as virgens, as abnegadas e todas aquelas mulheres do cristianismo que viveram uma vida inteira de reclusão. Passa-se o mesmo na literatura, no cinema ou na televisão. Preferimos sempre a Scarlett O'Hara à Melanie Hamilton, adoramos a Becky Sharp da Feira das Vaidades do Thackeray e nas novelas brasileiras, as bandidas suplantam em popularidade as boazinhas. 

Mulheres pecaminosas do cristianismo, mesmo que arrependidas no final da história, Maria Egipcíaca e Maria Madalena foram como que um pretexto quase inconsciente para introduzir sub-repticiamente o erotismo na arte ou apimentar subtilmente os livros que relatavam a vida dos santos. Apesar de condenar o sexo praticamente desde o seu início, houve continuadamente no cristianismo, uma forma de passar algum erotismo na arte ou nos relatos hagiográficos, pois o ser humano precisa de sexo, como água para viver.
Santa Maria Madalena, Museu de Aveiro, inv. 99B

Esta Maria Madalena do Museu de Aveiro enverga um manto esvoaçante e um vestido vermelho, como se outrora, nos tempos do despertar da puberdade, se tivesse entregado às garras de algum lobo mau, daqueles que espreitam as encruzilhadas do início da nossa juventude e aparenta aquela melancolia, que sempre advêm depois de um encontro fortuito de sexo ou de uma traição à pessoa amada.

sábado, 24 de dezembro de 2016

A adoração dos magos de Joaquim Carneiro da Silva ou votos de boas festas


Confesso-vos que tenho um certo horror a escrever sobre efemérides, estações do ano ou quadras festivas. Recordo-me sempre das redacções que era obrigado a fazer na instrução primária e do medo que sentia em apanhar reguadas por causa dos erros de ortografia. Mas, tinha esta estampa da Adoração dos magos em casa assinada por Joaquim Carneiro da Silva e achei que era boa altura para mostra-la aqui no blog e desejar assim umas boas festas aos que tem pachorra para me ler.

J. Silva será a assinatura de Joaquim Carneiro da Silva

Esta estampa será  de Joaquim Carneiro da Silva (1727-1818) e terá sido retirada provavelmente de um breviário. Sou dessa opinião pois fiz a pesquisa por um dos termos do verso da gravura in vigilia epiphaniae ad nonam antiphona, ecce Maria e fui ter a um breviário integralmente digitalizado do século XVIIII. Aliás já tinha mostrado outra estampa deste gravador, comprada na mesma banca da feira de alfarrabistas, da Rua Anchieta e que terá saído do mesmo livro que esta, um breviário impresso em Lisboa, na Régia Oficina Tipográfica nos últimos anos do século XVIII ou inícios do XIX.

O verso da estampa indica-nos que ela foi retirada de um livro, provavelmente um breviário ou de um outro livro litúrgico

O mais curioso é que encontrei duas estampas praticamente iguais a esta, uma da colecção do Museu dos Coches e outra à venda no Cabral Moncada, assinadas por Bartolozzi e datadas de 1811. Tal como Joaquim Carneiro da Silva, Francesco Bartolozzi (1725-1815) executou várias estampas para missais e breviários da Régia Oficina Tipográfica, livros que na altura eram muitíssimos vendidos, pois todas as paróquias, conventos tinham que ter pelo menos um exemplar.

A adoração dos magos de Bartolozzi, 1811. Cabral Moncada Leilões, lote 579, 2008
Recordei-me imediatamente de um texto de Pedro Queiroz Leite, intitulado O Missal da Regia Officina Typographica e seu legado na pintura rococó mineira: uma refutação à influência de Bartolozzi, de 2011, em que afirma que o célebre gravador italiano radicado em Portugal usou estampas de Joaquim Carneiro da Silva, sem sequer lhe prestar os devidos créditos. Seguindo o raciocínio de Pedro Queiroz Leite esta Adoração dos Magos terá sido primeiro gravada por Joaquim Carneiro da Silva num breviário e mais tarde reutilizada por Bartolozzi, numa edição posterior dessa mesma obra.

A Adoração dos magos de Carlo Maratta será o modelo das estampas de Joaquim Carneiro da Silva e Bartolozzi
Em todo o caso o modelo que inspirou as gravuras  de Joaquim Carneiro da Silva e Francesco Bartolozzi foi uma adoração dos magos de do pintor italiano Carlo Maratta, cujo desenho encontrei à venda na net.

Enfim, estamos numa época em que os conceitos de plágio e direito de autor não estavam ainda formados e as cópias faziam-se da forma mais natural possível. Por mais incrível que pareça à nossa sensibilidade actual, que valoriza a originalidade dos artistas ao ponto de admirar indivíduos que espalham livremente tinta numa tela posta no chão, na época, a cópia fazia parte do processo de criação da obra de arte.


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Santa Sofia e as suas três filhas: fé, esperança e caridade



Sofia é uma santa lendária, que nem consta do Martirológio Romano. Terá vivido em Roma, no tempo do Imperador Adriano e elas e as suas filhas, Fé, Caridade e Esperança foram martirizadas no ano de 137. A sua história é semelhante a de muitas outras mártires cristãos que viveram em Roma no tempo das perseguições. As quatro andavam pelas ruas de Roma tentando atrair pessoas para a nova fé cristã e foram presas. Sofia, que em grego quer dizer sabedoria, assistiu ao martírio das filhas e incentivou-as sempre a resistirem e a não abjurarem da sua verdadeira fé. Depois de suplícios terríveis, acabaram as três por ser mortas à vista da sua mãe, que morreu de desgosto. Há uma metáfora evidente nesta história. É a sabedoria divina que engendra no coração dos cristãos a três virtudes teologais, que são a fé, a esperança e a caridade.
O Imperador Justiniano dedicou-lhe a mais bela e grandiosa igreja de Constantinopla, a Hagia Sophia. Foto de https://www.khanacademy.org/

O culto de Sofia de Roma cresceu rapidamente no Oriente, nos territórios do Antigo Império Bizantino, como a personificação da sabedoria divina. O Imperador Justiniano dedicou-lhe a mais bela e grandiosa igreja de Constantinopla, a Hagia Sophia e mais tarde em todas as nações que abraçaram o cristianismo ortodoxo, levantaram-se templos monumentais a Santa Sofia e ainda hoje, apesar de cerca de 80 anos de comunismo, Sofia (sabedoria), Vera (fé), Nadejda (esperança) e Lioubov (caridade) continuam a ser nomes próprios extremamente populares na Rússia.
Quem rezasse um Padre Nosso e uma Avé Maria à imagem de Santa Sofia, que estaria no altar de uma igreja que nós hoje desconhecemos, além da protecção contra o paludismo obteria 40 dias de indulgência

Se bem que o culto a Santa Sofia e às suas 3 filhas nunca tenham alcançado a dimensão, que teve no cristianismo ortodoxo, também foi praticado no catolicismo romano e esta estampa popular, provavelmente dos finais do século XVIII, é bem prova disso. Muito mais prosaicamente, aqui em Portugal,  S. Sofia tornou-se advogada das sezões, uma designação popular que se dá ao paludismo. Talvez esta relação com o paludismo tenha a ver com os suplícios infligidos às filhas, que foram martirizadas com matérias ardentes, estendidas em grelhas, passadas sobre carvão em brasa e regadas com cera e resinas quentes, tendo sobrevivido sempre. Só conseguiram acabar com a vida delas decapitando-as. Portanto, se as santas sobreviveram aos ardores do carvão ou da resina a escaldar, então elas protegeriam o crente dos calores da febre do paludismo, se fossem efectuadas as correctas orações.
 
 
Alguma bibliografia:


La légende dorée / Jacques de Voragine. - Paris : Perrin et Cie., Libraires-Éditeurs, 1910.

Iconographie de l'art chrétien / Louis Réau. - Paris : Presses Universitaires de France, 1955.

https://fr.wikipedia.org/wiki/Sophie_de_Rome 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

O atlas quinhentista da biblioteca do solar dos montalvões em Outeiro Seco, Chaves

Frontispício de Theatrum orbis terrarum. - Antverpiae : apud C. Plantinum, 1579. Biblioteca Nacional de França

Já falei aqui da biblioteca do Solar de Outeiro Seco, com os seus quase dois mil títulos, datados dos séculos XIX, XVIII, XVII e mesmo do XVI. Tal como a casa, a biblioteca já não está na posse da família e foi vendida a um alfarrabista de Lisboa e dispersa pelos quatro cantos do mundo. Dela, resta apenas um catálogo elaborado pelos meus avós paternos, Maria do Espírito Santo Montalvão da Cunha e Silvino da Cunha.

 
Imagem da biblioteca do Solar dos Montalvões, Outeiro Seco, Chaves

Sabia através das histórias do meu pai e da minha avó que um dos tesouros dessa biblioteca era um atlas quinhentista e conhecia até algumas imagens desse livro, através de um filme feito pelo meu pai do interior da casa, em meados dos anos 60. No entanto, no catálogo que os meus avós fizeram dessa biblioteca, a informação sobre o atlas era muito escassa. Limitaram-se a indicar, Atlas para o título e apontaram o local de edição, Antuérpia e o ano de publicação, 1584. No fundo, não sabíamos mais nada da obra

Catálogo da biblioteca do Solar dos Montalvões. O Atlas é descrito de forma muito incompleta 

Como já fui referindo aqui e ali nos textos do blog sou bibliotecário e ao longo da vida já cataloguei muito livro antigo, isto é, edições impressas entre 1500 e 1800. Mas, nesta profissão, muitas vezes limitamo-nos a identificar os elementos que descrevem um livro, autor, título, publicação, descrição física e assuntos, mas não estudamos as obras. Esse trabalho é deixado aos investigadores. Mas recentemente, houve umas quantas edições antigas da biblioteca que saíram para uma exposição no Museu Nacional de Arte Antiga e tive necessidade de ler um pouco mais sobre a história de cada uma delas. Uma das obras era precisamente um atlas quinhentista, o célebre Theatrum orbis terrarum de Abrahamus Ortelius (1527-1598), publicada em Antuérpia em 1579. Esta obra de Ortelius é o primeiro atlas da história. Até 1570, data da sua edição, imprimiam-se cartas geográficas soltas, normalmente em forma de rolo e de difícil consulta. Ortelius teve então a ideia de reunir num único livro, num formato facilmente manuseável todas as cartas geográficas existentes, ordenadas por continente. Por essas razões o atlas de Ortelius conheceu desde logo um grande sucesso e entre 1570 e 1612 teve 31 edições.
Uma imagem da carta de Portugal e Espanha do Theatrum orbis terrarum, edição de 1579 da  Biblioteca Nacional de França

Acrescente-se que o facto do primeiro atlas moderno ter sido publicado em Antuérpia e não em Paris, ou Londres tem a ver com o intenso comércio marítimo internacional que passava pela aquela cidade e da necessidade que os riquíssimos mercadores flamengos experimentavam de estarem informados sobre as 4 partes do mundo.

Um pormenor da carta de Portugal e Espanha do Theatrum orbis terrarum, edição de 1579 da  Biblioteca Nacional de França


Enquanto fazia este pequeno estudo sobre a obra e folheava o Theatrum orbis terrarum de Ortelius do Museu Nacional de Arte Antiga, fez-se uma luz qualquer na minha cabeça e lembrei-me que talvez o atlas que existia na biblioteca do Solar de Outeiro Seco fosse o do Ortelius. Era muito provável, pois na centúria de quinhentos não existiriam muito mais atlas além do Theatrum orbis terrarum.
 
 
Um pormenor do atlas que existiu no Solar de Outeiro Seco, extraída de um filme que o meu pai fez nos anos 60. Por aqui, percebe-se desde logo que este atlas é o Theatrum orbis terrarum de Abrahamus Ortelius.
 
Vi novamente o filme que o meu pai fez, revi várias vezes a mesma cena, comparei as plantas filmadas com as da edição do Museu Nacional de Arte Antiga e tudo coincidia. O atlas que existiu na biblioteca do Solar de Outeiro Seco era de facto o célebre Theatrum orbis terrarum, que em português quer dizer Teatro do Globo Terrestre.
 
O colofon do atlas que existiu na biblioteca do Solar de Outeiro Seco. O atlas de desta biblioteca foi impresso em Antuérpia, na oficina de Christophe Plantin em 1584. Imagem extraída do filme feito pelo meu pai em meados dos anos 60
 
Como o meu pai sempre foi um homem de minúcias fez o favor de filmar o colofon, palavrão que designa o que hoje chamaríamos a ficha técnica do livro e que costuma aparecer na última página do livro e atráves dessas imagens consegui identificar com toda a segurança os dados da edição da obra. O atlas  que esteve em Outeiro Seco foi impresso em Antuérpia, na oficina de Christophe Plantin em 1584. A Biblioteca Nacional de Portugal guarda uma edição exactamente igual, com a cota C.A. 148 V, que está assim catalogada:

Theatrum orbis terrarum [ Material cartográfico] / Abrahamus Ortelius Antuerpianus. Antuerpiae: Christophorum Plantinum,1584.
O colofon do Theatrum orbis terrarum, edição de 1579. Biblioteca Nacional de França

Fiquei muito contente com esta minha pequena descoberta. Mas mais importante do que este sentimento de vaidade com a minha esperteza foi a percepção que alguém numa determinada época, que eu desconheço, talvez pelo meu trisavô, Liberal Sampaio durante o final do século XIX e inícios do XX, ou mais provavelmente, por um grupo de antepassados meus, que ao longo de dois ou três séculos, formaram numa casa no extremo Norte de Portugal, uma biblioteca que reunia obras fundamentais da cultura europeia.
 
Uma imagem do atlas que existiu na biblioteca do Solar dos Montalvões extraída de um filme feito pelo meu pai em meados dos anos 60
  
Uma imagem da carta de Portugal do Teatrum orbis terrarum, edição de1579. Biblioteca Nacional de França
 

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Castanheiros de Vinhais: um paraíso intocado


Há uns anos prometi a mim mesmo fazer um álbum com fotografias dos castanheiros de Vinhais, terra da minha família materna e de facto todos os anos, nas férias, tento capturar com a minha câmara a beleza de algumas árvores centenárias, que vejo ao passar na estrada. Claro, não é nada de sistemático. Não faço nenhum levantamento, nem consulto nenhum estudo e nem sei se já alguém se deu ao trabalho de fazer um inventário dos castanheiros com duzentos, trezentos, quatrocentos ou quinhentos anos desta terra fria de Vinhais. Recentemente li num jornal que há uma bióloga, Raquel Lopes, que se propõe fazer um inventário das árvores centenárias em Portugal. Pois bem, a senhora que visite Vinhais e percorra as estradas do Concelho e a única dificuldade que encontrará é escolher o que fotografar.



O Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas tem um inventário nacional do Arvoredo de Interesse Público, mas para o Concelho de Vinhais só encontrei 4 ocorrências, uma nogueira, em Quintela, que já aqui mostrei imagem e três castanheiros, em Paçô, Lagarelhos (também já aqui mostrado) e Vilarinho de Lomba. Mas, existem muito mais árvores centenárias que estas aqui classificadas. Eu que não vivo em Vinhais e só lá vou no Verão já vi mais que uma centena de castanheiros seculares. Aliás o interesse desta região é que não encontramos aqui ou acolá um ou outro castanheiro centenário, que sobreviveu por mero acaso à fúria do desenvolvimento selvagem, como em outras regiões do país. Aqui, no concelho de Vinhais deparamos com manchas de castanheiros à medida que nos aproximamos de cada povoação e muitos desses soutos são centenários e bem que mereciam uma classificação global.



Esses maciços de castanheiros tornam-se ainda mais interessantes para nós, os portugueses, se pensarmos que vivemos num país cuja paisagem está quase inteiramente desfigurada pelo Eucalipto e pelo Pinheiro bravo. Viajando pela auto-estrada de Lisboa ao Porto, ou de Lisboa a Viseu, ao longo de quilómetros e quilómetros, somos capazes de ver de um e o outro lado da estrada eucaliptos e pinheiros ininterruptamente, florestas essas que nos Verões muito quentes ardem invariavelmente, para grande excitação dos media, que fazem imensos debates, reportagens e mesas redondas e depois no final da estação, toda a gente se volta a esquecer dos incêndios e volta tudo ao mesmo e plantam-se mais e mais eucaliptos e pinheiros bravos. Pois aqui em Vinhais, vive-se ainda no paraíso perdido sem o pecado original do eucalipto, com a floresta tradicional de carvalhos e as grandes manchas de soutos em volta das povoações. Só para admirar árvores vale a pena visitar Vinhais.
 
 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O Bom Deus: azulejos do Museu Regional de Beja

Pormenor da vida de S. João Baptista. Azulejos atribuídos a Policarpo de Oliveira Bernardes

Recentemente voltei Beja com o Manel para mostrarmos a um amigo nosso brasileiro, o Fábio, aquilo que é uma espécie de capela Sistina do azulejo português, o Museu Regional de Beja, Rainha D. Leonor. É um daqueles monumentos únicos e nem sei como é que nenhuma autoridade local se lembrou ainda de candidatar aquele antigo convento a património mundial da UNESCO. Talvez as autoridades andem demasiado distraídas a procurar classificar chocalhos e bonecos de barro para se lembrarem do Museu Regional de Beja. Mas, enfim, não vou prosseguir com este assunto, pois não pretendo ensinar a ninguém as opções a tomar numa política de defesa do património.
O claustro
Na verdade, no meio de toda aquela azulejaria fantástica, de todas as épocas e estilos, que invade o interior do antigo Convento da Conceição, houve uma imagem de Deus Pai surgindo do alto das nuvens, que me chamou a atenção. A figura correspondia exactamente a ideia que eu tinha de Deus na minha infância, um senhor mais idoso, que via tudo e que saia lá do alto, para corrigir os erros dos homens, ou castigar meninos que mentissem. Cheguei a perguntar a minha tia Lalai se Deus conseguia realmente ver tudo lá do alto, mesmo as formiguinhas, e ela claro, respondeu-me sem quaisquer dúvidas que sim. Foi este Deus que acompanhou a minha infância, a quem pedia para fazer que eu não tivesse muitos erros no ditado, pois tinha medo das reguadas (os professores primários costumavam dar uma reguada por cada erro de ortografia). Foi também a este Deus que na minha adolescência eu pedia inutilmente que me fizesse igual a todos os outros. Claro, na altura não tinha estudado filosofia ou religião para saber que os negócios com o bom Deus não se fazem na base do toma lá, dá cá, isto é, uma troca de orações por favores, mas a ideia que existia alguém lá acima a quem se podiam fazer as mais íntimas confissões era reconfortante.

Azulejos do interior claustro
Depois no final da juventude, apercebi-me que só eu próprio poderia fazer alguma coisa por mim e que o Deus Católico não estava muito pelos ajustes com rapazes com os meus gostos sexuais. Deixei de contar com Deus na minha vida, não voltei a falar com ele e esqueci-o. O Senhor com barbas brancas lá no alto das nuvens passou a ser uma figura da história da arte, uma parte da composição de uma tela do século XVII, de um painel de azulejos ou uma figura de uma escultura da Santíssima Trindade.
Pormenor da vida de S. João Baptista.Azulejos atribuídos a Policarpo de Oliveira Bernardes