sábado, 18 de junho de 2022

Os sermões do Padre Liberal Sampaio

José Rodrigues Liberal Sampaio

Na família era conhecida a actividade de pregador do Padre José Rodrigues Liberal Sampaio, meu trisavô. Sabíamos que foi particularmente brilhante, pois em 1873 foi nomeado por alvará de D. Luís pregador da sua Capela Real e a rainha D. Maria Pia ofereceu-lhe um anel com uma pedra grande de cor azulada como testemunho da sua consideração. Também tínhamos conhecimento que era chamado a pregar em muitas terras diferentes e que publicou mesmo um dos seus sermões, o Sermão da Imaculada Conceição. Coimbra: Tip. Reis Leitão, 1887.

Mais recentemente li a transcrição do artigo de um jornal da época, O Norte, 1 de Novembro de 1895 (*1), dando notícia de um comício do partido regenerador em Chaves, em que o meu trisavô foi um dos oradores e cuja intervenção é descrita da seguinte forma:

Estoirou então na escuridão do teatro a voz dominadora do sr. Padre Liberal Sampaio.

Numa época em que os registos sonoros eram raríssimos, este pequeno apontamento dá-me pelo menos uma ideia do que seria a voz do meu antepassado e o impacto, que causaria numa audiência.

Mas, agora que herdei o espólio familiar e que comecei a tratar as cartas, começo a ter uma ideia um pouco mais precisa desta sua actividade de pregador. Todos os documentos são cartas do tempo em que o meu trisavô, esteve a estudar em direito e teologia em Coimbra (1886-1891) e mesmo assim fornecem uma visão incompleta, pois só tenho acesso ao que o meu antepassado escreveu, mas desconheço a resposta, ou vice-versa, cartas que lhe escreveram a ele e que não tenho a réplica.

Em primeiro lugar, estes sermões ou missas, que meu antepassado proferia ou celebravam eram pagos e uma fonte de rendimento importante. Durante o tempo que esteve em Coimbra, escreveu muitas vezes à minha trisavô, com a qual continuava a manter uma relação, até porque o filho de ambos estava a viver com ele, pedindo-lhe dinheiro, pois os estudos em dois cursos superiores, ocupavam-lhe muito tempo e não podia aceitar todos os convites para prédicas.

O Palácio dos Lemos, em Condeixa-a-Nova. Foto monumentos.pt

Ainda assim, Liberal Sampaio arranjava tempo para dizer missas, no Palácio dos Lemos, em Condeixa-a-Nova, do qual era presença habitual, não só como sacerdote, mas como amigo da família. Há três cartas, uma de Manuel Ramalho, de 29-01-1888, que julgo ser de um dos filhos dos condes de Condeixa (Manuel Pereira Ramos Ramalho, 03.02.1864 - 04.08.1910) outra duas sem data, a primeira de Manuel de Sousa Brandão e a última da própria condessa de Condeixa, Amélia da Madre de Deus Santiago, convidando-o para dizer missas na capela da casa, ou pedindo-lhe para indicar um padre no caso de não poder aceitar, ou ainda tratando do assunto do pagamento, isto é, a esmola, como na altura se parece denominar.

Liberal Sampaio, apesar de ser um transmontano, parece ter feito rapidamente fama como pregador na região Centro. Logo em 29 de Janeiro de 1888, António Lopes Coelho de Abreu, pároco da Igreja de Nª Srª do Ó de Barcouço, Mealhada, convida-o para pregar o sermão, numa das festividades da terra, oferecendo a sua humilde choupana para o alojar. A esmola a pagar mereceu umas quantas linhas nesta carta.

Carta de José Henriques Firmino

Em 23-04-1891, José Henriques Firmino, um comerciante de Ança, convida-o para dizer missa na ermida Nossa Senhora do Despacho, numa carta deliciosa, que não resisto aqui a transcrever.

Temos no dia próximo 7 de Maio uma missa em uma ermida próxima à estrada que conduz à Figueira da Foz e perto de São Martinho das Árvores. Lembrei ao Director da dita ermida o nome de V. Exa. para lá ir dizer a missa e não lhe sendo penoso dizer meia dúzia de palavras relativas à padroeira Senhora do Bom Despacho. A esmola tem sido 5.000 r. . Vai na na diligência da Figueira, pela manhã, até S. Martinho, onde deve estar cavalgadura para o conduzir ao local e na volta torna a ser conduzido pelo mesmo local até ao mesmo sítio da diligência. A esmola é pequena, mas a pândega é superior a tudo. Jantar ao ar livre, sentando em um...relveiro aspirando sempre o aroma das inocentes florinhas.

Há arraial, onde se goza um bocado da tarde.

Espero pois na volta do correio a sua resposta afirmativa ou negativa para governo do Director.

Mas a maior parte dos convites são feitos da província de Trás-os-Montes, de onde era oriundo o meu trisavô. De Chaves, em 17.01.1890, Manuel Faria, da casa Viúva Faria e filho, na qualidade de encarregado faz festividades da Semana Santa, convidou liberal Sampaio, para proferir três sermões insistindo para que pelo menos aceite dois dos cinco, soledade e enterro.



Também de Chaves, o seu amigo, o comerciante António Gonçalves Roma, o pai do que viria a ser o célebre Coronel Bento Roma, um herói de guerra português, escreveu duas cartas ao meu trisavô, uma em 30 de junho de 1889 a propósito do sermão de São Tiago e novamente em 19 de Junho de 1891, outra vez, para convida-lo a proferir o sermão de São Tiago no dia 26 de Julho e o de São Caetano, depois do dia 7 de Agosto.

António Gonçalves Roma. Fotografia do álbum da família

Mas os pedidos para fazer prédicas chegam ainda de mais longe, como das terras frias e montanhosas de Vinhais. Em 7 de Abril de 1889, Manuel de Jesus Pires e Silva, escreveu-lhe daquela vila dando conta das preocupações, que lhe causavam a construção do edifício dos Paços do Concelho e que o esperava ver novamente pregar em Vinhais. Também Francisco António Teixeira, de Lebucão, a 11 de maio de 1891, convidou-o para dizer um sermão em Rebordelo, na festa do Santíssimo Coração de Jesus, no dia 5 de Junho, daquele ano.

Ao fazer esta enumeração de convites, pergunto-me a mim próprio como Liberal Sampaio arranjava tempo para estas deslocações e ainda para mais frequentando dois cursos superiores em Coimbra. As comunicações neste Portugal das décadas de 80 e 90 do século XIX eram ainda incipientes. Para ir a Chaves, o meu antepassado só tinha comboio até à Régua, o resto do caminho, seria feito por diligência e para as terras frias de Vinhais, a linha férrea ia até Mirandela e o resto do caminho seria no dorso de uma cavalgadura por montes e vales. Recordo-me eu que em meados dos anos 70 a estrada de Vinhais para Mirandela, através da Boiça, não estava ainda pavimentada.

Talvez por essa razão, em 11 de Novembro de 1888, o meu trisavô recebeu uma carta muito seca da Comissão Administrativa da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Vinhais, queixando-se de que o meu antepassado, ainda não tinha respondido ao convite para pregar um sermão na festa da Imaculada Conceição, a 8 de Dezembro. A missiva está assinada por Adílio Augusto da Silva Buiça, Abade de Vinhais e o pai de Manuel Buiça (1875-1908), um dos homens que matou o Rei D. Carlos e o Príncipe D. Luís em 1908!

O regicídio em 1908


Sabe-se que este Manuel Buiça era filho de Adílio Augusto da Silva Buiça através do Abade de Baçal, bem como através do testamento escrito, pelo próprio, poucas horas antes do atentado, além que na época, toda a gente em Vinhais saberia de quem era filho.

Este conjunto de cartas do espólio familiar permitiu-me conhecer melhor a vida de Liberal Sampaio, a ampla rede de conhecimentos, que tinha pelo País, mas também uma época mais devota, em que uma das atracções de uma festa religiosa, era o sermão de um pregador célebre, um período em que se viajava de diligência ou no dorso de uma cavalgadura e em que as famílias fidalgas ouviam missa na capela das suas casas. 

António Gonçalves Roma e a família. O bebé será o futuro Coronel Bento Roma. Fotografia do álbum da família

Também é interessante encontrar aqui cartas dos pais de personagens históricas em Portugal, como o do Coronel Bento Roma ou do regicida Manuel Buiça. Liberal Sampaio certamente, conheceu o pequeno Bento Roma e terá talvez afagado os cabelos do ainda menino Manuel Buiça, depois de lhe dar a sua bênção.

Manuel Buiça. Foto wikipédia


(*1) História moderna e contemporânea da Vila de Chaves através das actas e jornais da época / Júlio Montalvão Machado. – Chaves: Grupo Cultural Aquae Flaviae, 2012, p.151-52

terça-feira, 14 de junho de 2022

Um prato de Talavera-Puente


O Manel comprou há já alguns anos este prato de faiança. É uma peça obviamente antiga, que já se partiu várias vezes e foi restaurada. O formato e decoração são estranhos à faiança portuguesa. Normalmente, na nossa faiança a aba e o covo são muito bem definidos e a decoração, também não tem nada a ver com o cá se produziu. Por essas razões, o Manel e eu achámos que deveria ser uma peça espanhola, até porque foi comprada em Estremoz, onde é relativamente vulgar encontrar louça de Talavera e outros fabricos da sempre presente vizinha Espanha.




Sempre estive mais ou menos convencido de que seria uma peça dos finais do século XIX ou inícios do XX, até que decidi fazer uma pesquisa mais aprofunda e bati os catálogos sobre faiança espanhola na biblioteca de onde trabalho e encontrei uns quantos pratos da mesma família, reproduzidos nas seguintes obras e datados do século XVII.


Talaveras en la coleccion Carranza / [Estudo introd. e catálogo] Alfonso Pleguezuelo. - Talavera de la Reina : Ayuntamiento, 1994.

Lozas y azulejos de la colección Carranza / Alfonso Pleguezuelo. - [Toledo] : Junta de Comunidades de Castilla-La Mancha, 2002

Imagem reproduzida de Talaveras en la coleccion Carranza


Este prato parece ser saído das oficinas de Talavera ou Puente del Arzobispo. Para grande parte da produção entre os séculos XVI e XVIII, o autor dos textos sobre estes centros cerâmicos, Alfonso Pleguezuelo não distingue ente o que é manufacturado em Talavera e Puente del Arzobispo, usando a designação mais abrangente Talavera-Puente. As terras são próximas umas das outras e os materiais e os estilos eram muito próximos. Por outro lado, em Talavera ou Puente del Arzobispo houve muitas oficinas a fabricar louça fina, isto é faiança, bem como olaria e ainda azulejos. E portanto, quando hoje se refere que uma travessa ou um canudo é de Talavera-Puente, estamos a falar de um centro de produção regional e não de uma fábrica ou oficina em particular.

Segundo as obras atrás referidas, o prato do meu amigo Manel será da segunda metade do século XVII e pertence à série tricolor, da subsérie Palmetas ou encomienda ou estrellas de plumas. Com efeito, do motivo central do prato, partem palmetas e plumas e este padrão inspirou-se num tecido em voga na época. O motivo que rodeia a extremidade do prato é a chamada cenefa oriental, composto com ss, estilizados inspirados na porcelana chinesa. A faiança de Talavera-Puente da segunda metade do século XVII apresenta uma pasta amarelada, pois neste tempo Portugal tinha restaurado a sua independência e estava em guerra com Espanha e os artífices espanhóis viram-se privados do chumbo e do estanho, vindos do nosso País e essenciais no fabrico de uma faiança mais branca e fina.



Apesar destas minhas leituras me indicarem que o prato do Manel foi produzido em Talavera-Puente no século XVII, não fiquei muito convencido. Louça do século XVII não aparece nas feiras de velharias. Eu pelo menos nunca vi um prato seiscentista de aranhões português no chão de uma feira e bem que gostava de ter um. Confesso que receava que este prato fosse uma coisa dos finais do século XIX ou inícios do XX, pois nesse período houve um renascimento da cerâmica de Talavera, inspirado nos motivos do passado, tal como aconteceu aqui em Portugal, em que várias fábricas começaram a produzir louça historicista, ao gosto do século XVII ou do XVIII.



Mas não encontrei referência a que o motivo estrellas de plumas tenha sido retomado nos finais do XIX ou inícios do XX. Contudo, no texto de uma revista, Boletin de la sociedad española Cerámica y Vidrio (1) e numa tese de doutoramento Técnica y estética de la cerámica de Talavera de la Reina: Recursos iconográfico de María del Carmen López Fernández (2), percebi que o uso da decoração estrellas de plumas se manteve pelo século XVIII fora.

Em suma, este prato de poderá ter sido fabricado em Talavera ou Puente del Arzobispo entre os séculos XVII e XVIII, embora quase por uma questão de bom senso, inclino-me mais para último século, pois como referi anteriormente, peças seiscentistas não aparecem nos mercados de velharias.





(1)“Los fondos del museo de cerámica Ruiz de Luna: una aportación a la historia de las lozas de Talavera y Puente /R. García Serrano, D. Portela Hernando e J. l. Reneo Guerrers no Boletin de la sociedad española Cerámica y Vidrio, Vol. 38 Núm. 4 Julio-Agosto 1999, onde consta um prato desta família, mas já datado do século XVIII.

(2)“Técnica y estética de la cerámica de Talavera de la Reina: Recursos iconográfico” de María del Carmen López Fernández. Madrid, 2015

domingo, 29 de maio de 2022

Albuquerque: um episódio da Guerra da sucessão espanhola


Como já referi muitas vezes no blog, as gravuras antigas compram-se a muito bom preço nos mercados de velharias e para quem gosta de resolver charadas,  são ainda um óptimo e aliciante desafio no sentido de se descobrir a que livro pertenceram no passado.

Esta estampa foi comprada pelo meu amigo Manel na feita de Estremoz e está datada do ano de 1729 e com o nome do impressor gravado, P. Rochefort. Representa três Cavaleiros, P. Carle, , C.de das Galveas e C. de  V.ª Verde, vendo-se ao fundo a vila fortificada de Albuquerque, na província de Badajoz, em Espanha, bem na raia com Portugal.

Para saber um pouco mais sobre esta gravura, fotografei-a, carreguei-a no motor de busca do google imagens e imediatamente encontrei uma igual, na Alma Mater, repositório de imagens da Biblioteca Geral de Coimbra. Aqui encontrei a referência de que esta imagem tinha sido extraída da obra O engenheiro português, da autoria de Manuel Azevedo Fortes, impressa em Lisboa, na oficina de Manuel Fernandes da Costa, entre 1728-1729. Ainda no referido site indicava-se até que a gravura constava da página 4, do volume segundo, impresso em 1729.

O engenheiro português. Imagem da Biblioteca Nacional de Portugal

Fui então confirmar estes dados na Biblioteca Nacional de Portugal, onde a obra está integralmente digitalizada e de facto a estampa encontra-se precisamente na pagina 4, do segundo volume. Numa data qualquer, impossível de determinar, mas certamente num período, em que esta obra sobre a arte das fortificações já estava definitivamente ultrapassada e fora de moda, alguém retalhou o livro para vender as estampas à unidade e fazer mais dinheiro. Folhei um pouco a cópia digital desta obra, para tentar perceber um pouco a história, que parece narrar esta gravura. Mas O engenheiro português não é um manual de história, mas um ensaio sobre a arte a fortificação e no fundo esta estampa ilustra o sistema de fortalezas abaluartadas, que estava voga no início do século XVIII. A estampa foi gravada por Pedro de Rochefort (1673-1740 ), também designado por Pierre de Rochefort ou Pierre de Massart, um impressor e gravador francês, que se fixou em Portugal a partir de 1728.

O conde das Galveias, o Conde de Vila Verde e Peter Carle

Fiz então algumas pesquisas sobre os cavaleiros representados na estampa, o conde das Galveias, o Conde de Vila Verde e o tal P. Carle e descobri que todos eles tem um denominador comum, foram protagonistas na guerra da Sucessão espanhola (1701 – 1714), em particular na tomada da praça forte de Albuquerque, que esteve sobre domínio português entre 1705 e 1716.

O primeiro, o Conde das Galveias, chamava-se Diniz de Melo de Castro, viveu entre 1624 e 1709) e foi um militar e político português. O segundo conde de Vila Verde foi D. Pedro António de Meneses Noronha de Albuquerque (1661-1731) e se distinguiu também como militar. A terceira personagem P. Carle, trata-se de Pedro Carle, também conhecido com Peter Carle, Peter Carless, ou Mylord Carle (1666–1730). Era um protestante francês, que se refugiou em Inglaterra, engenheiro militar e combateu activamente no contingente inglês durante a guerra da sucessão espanhola.
Albuquerque

Para se perceber melhor, o que fazem estes dois aristocratas portugueses juntos a um huguenote a soldo de Inglaterra, em frente à vila de Albuquerque, convém recordar um pouco o que foi a chamada guerra da sucessão espanhola. Em 1700, morria Carlos II, rei de Espanha, da casa de Áustria, sem deixar descendência. Em testamento deixou a coroa a um sobrinho neto seu, Filipe de Anjou, neto de Luís XIV de França. Uma boa parte das potências europeias, sobretudo a Inglaterra, viram com muitos maus olhos este expansionismo francês, que colocava a Espanha debaixo do governo da mesma casa real de França, os Bourbons. Os ingleses trataram de apoiar um pretendente Habsburgo ao trono de Espanha, um tal arquiduque Carlos e mobilizaram outros países para uma guerra em Espanha. Portugal foi aliciado pela Inglaterra para entrar na guerra ao seu lado, em troca de umas quantas praças fortes espanholas na raia, Badajoz, Albuquerque e Alcântara, na Estremadura, bem como Vigo, Tui, La Guardia e Baiona, na Galiza e ainda a colónia do Sacramento, na América do Sul. Ao contrario da maioria das guerras luso-espanholas, em que a estratégia portuguesa era essencialmente defensiva, neste conflito os portugueses, com o apoio de um contingente inglês, penetraram por Espanha adentro e conquistaram Madrid, tendo o nosso Marquês de Minas, entrado triunfalmente naquela capital em 28 de Junho de 1706. 

O cerco a Albuquerque em 1705. Imagem retirada de Curiosidades Genealógicas do Algarve: 2021 (genalg.blogspot.com)

A guerra teve várias peripécias complicadas, que não interessa aqui contar e terminou com o tratado de Utreque, assinado entre 1713-1715. Em Espanha, o duque de Anjou, Filipe V, manteve o seu trono, mas aquele país foi impedido de se unir a França e abdicou de todos os territórios na Europa, os Países Baixos e os reinos do Sul de Itália . Os portugueses renunciaram às praças espanholas da fonteira, devolvendo Albuquerque, mas conseguiram importantes territórios no Brasil, na disputada colónia do Sacramento. Na realidade, quem beneficiou sobretudo desta guerra foi a Inglaterra, que ascendeu a potência de primeira grandeza na Europa.

Em suma, esta estampa é a ilustração de um daqueles muitos conflitos luso-espanhóis e daquelas inúmeras e impressionantes fortalezas abaluartadas levantadas nos dois lados da fronteira, como Elvas, Almeida, Valença do Minho ou Albuquerque. Felizmente, nos dias de hoje, quem atravessa esta fronteira é para fins mais pacíficos, como passear, meter gasolina mais barata ou comprar uns atoalhados.


Algumas ligações consultadas:

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Um prato Companhia das Índias: família rosa


Mais uma vez na feira de Estremoz comprei este prato Companhia das Índias muito barato. Claro, o preço foi estupendo pois o prato está gatado e ainda depois de alguém o ter mandado gatar, partiu-se novamente e foi colado. Como sei muito pouco de porcelana chinesa, o facto de estar gatado e o metal dos gatos apresentar alguma ferrugem, foi para mim uma garantia de autenticidade. Assim, soube logo, que não era uma cópia ou uma réplica, pois hoje em dia já ninguém sabe gatar louça, a não ser o ceramista Jorge Saraiva da Oficina da Formiga, mas esse gata os pratos com objectivos, que se podem classificar de estudos de tecnologia antiga.

O prato está gatado e ainda numa segunda fase partiu-se e foi colado 

Para os menos entendidos em cerâmica, a designação Porcelana Companhia das Índias quer dizer porcelana chinesa encomendada por europeus e ao gosto ocidental. O termo tem origem na Companhia das Índias fundada na Holanda no século XVII para trazer produtos orientais para a Europa, mas rapidamente os franceses e os ingleses também criaram as suas companhias das Índias, para receberem os luxuosos bens do Oriente, em particular a porcelana da China. Em Portugal, as primeiras porcelanas chinesas chegaram logo no início do século XVI e como iam da China para a Índia, antes de entrar no porto de Lisboa, aparecem designadas nos documentos antigos como louça da Índia. Companhia das Índias ou louça da Índia são termos já antigos para designarem esta porcelana chinesa ao gosto europeu, mas o termo mais cientificamente correcto é porcelana chinesa de exportação.

O fabrico da porcelana na China é quase milenar e é um universo gigantesco no tempo e no espaço e conhece-lo, ainda que pela rama, implica muito estudo e muito do que sabe é sobre a porcelana produzida para a Europa. Porque os chineses fabricavam porcelana para o seu próprio mercado, que era gigantesco, para o mercado japonês e ainda para o mercado islâmico, sendo estas últimas peças absolutamente deslumbrantes. Para complicar ainda mais a coisa, alguns dos nomes pelos quais conhecemos os vários tipos de porcelana, que chegaram aos portos europeus, como a família rosa ou família verde foram definidos no século XIX pelo coleccionador francês Albert Jacquemart (1808-1875), na sua tentativa de classificação da cerâmica chinesa.


Este meu prato de sopa é da chamada família rosa, não porque a louça desta tipologia fosse decorada com rosas, mas pela razão, que entre 1720 e 1730, na China, introduziu-se uma esmaltagem na porcelana, conseguindo-se obter novos tons entre o rosa e o vermelho, que se tornaram muito apreciados e no início eram só destinados à família imperial. Mas, quando este prato terá sido executado entre 1760 e 1790, já os europeus encomendam às toneladas porcelana nestes tons. Normalmente a louça era produzida em branco no grande centro cerâmico da China, Jingdezhen, embora houvesse outras regiões produtoras e depois transportada para a zona de Cantão onde era pintada e decorada ao gosto europeu, segundo desenhos, gravuras ou mesmo de peças de porcelana europeia, como as de Meissen e cozida novamente e depois exportada para a Europa e mais tarde também para as Américas.

A decoração da porcelana de exportação variava consoante as preferências estéticas do país, que procedia à encomenda. A porcelana para o mercado francês tem um gosto peculiar e distingue-se daquela encomendada pelos ingleses ou holandeses. Da mesma forma a porcelana de exportação para Portugal apresenta características próprias e se queremos estudar ou identificar as Companhias das Índias, que temos em casa teremos, que as comparar com aquelas existentes nas colecções dos museus portugueses.

Pratos do Museu da Quinta das Cruzes. Inv. MQC 460.1-460.13Reproduzido de Porcelana da China : colecção do Museu Quinta das Cruzes / Francisco António Clode Sousa. - 1ª ed. - Funchal : Museu da Quinta das Cruzes, 2005

Com efeito encontrei várias peças com semelhanças a este meu prato de sopa publicadas no catálogo Porcelana da China : colecção do Museu Quinta das Cruzes. O primeiro conjunto apresenta uma borda idêntica em motivo de escamas e é do período da dinastia Quing, reinado de Quialong (1736-1795), com datação aproximada de 1770. 

Prato do Museu da Quinta das Cruzes. Inv. MQC 532. Reproduzido de Porcelana da China : colecção do Museu Quinta das Cruzes / Francisco António Clode Sousa. - 1ª ed. - Funchal : Museu da Quinta das Cruzes, 2005

Igualmente na colecção deste museu, existe outro prato, com a bordadura diferente, mas com um motivo central do mesmo género, um ramalhete de flores, atado com uma fita a fazer um laço, muito ao gosto dos estilos Luís XVI e D. Maria, com datação aproximada de 1760. 

Prato da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga. Inv. 2885 cer.

Também, no Museu Nacional de Arte Antiga está exposto um prato, que apresenta no centro um ramalhete do mesmo género, que foi datado de cerca de 1790. 

Em suma, este motivo da bordadura em escamas e do ramalhete de flores atado com um laço deve ter sido moda entre 1760 e 1790, entre as famílias nobres portuguesas, que encomendavam na China grandes serviços de jantar assim decorados.
O motivo central do meu prato. A flor do meio parece ser uma peónia

O meu prato de sopa será o resto de um grande serviço de jantar, produzido na China, no período da dinastia Quing, reinado de Quialong (1736-1795), entre 1760 e 1790, segundo uma encomenda portuguesa e apresenta os tons característicos da família rosa. É apenas, o fragmento de um conjunto, mas a pintura foi feita com tanta qualidade e minúcia, que consigo entender através desta peça o entusiasmo e admiração, que levou os europeus durante quase século e meio a encomendarem toneladas e toneladas desta louça dita da Índia.

Alguma bibliografia e ligações consultados:

Porcelana da China : colecção do Museu Quinta das Cruzes / Francisco António Clode Sousa. - 1ª ed. - Funchal : Museu da Quinta das Cruzes, 2005.

La porcelaine des Qing : «Famille verte» et «Famille rose» 1644-1912 / Michel Beurdeley, Guy Raindre. - Paris : Office du Livre - Editions Vilo, 1986.

https://en.wikipedia.org/wiki/Famille_rose

http://oficinadaformiga.com/os-gatos-e-os-deita-gatos-the-cats-and-the-cats-applicator/

domingo, 20 de março de 2022

Ainda os álbuns carte-de-visite: os brasileiros


Do álbum de retratos de fotografias formado pelo meu trisavô, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio (1846-1935), resolvi destacar o grupo dos “brasileiros”. Escrevo brasileiros ente aspas, pois certamente eram portugueses, que emigraram para o Brasil e que em algum momento das suas vidas, cruzaram-se com o meu antepassado e ofereceram o seu retrato como prova de estima e amizade. Terão sido pessoas importantes da vida de José Rodrigues Liberal Sampaio, de outra forma não teria inserido os seus retratos no álbum fotográfico. Em todo o caso, todos os retratos foram feitos em estúdios fotográficos brasileiros.

Como é conhecimento de todos, a emigração portuguesa para o Brasil durante o século XIX foi enorme. Durante os anos de 1881-1900, mais ou menos na época em que estas fotografias foram realizadas, 316.204 portugueses entraram no Brasil, o que é imenso se pensarmos, que Portugal tinha então mais ou menos cinco milhões de habitantes. Isto significa, que no último quartel do século XIX, toda a gente em Portugal tinha vários familiares ou amigos no Brasil.

Não consegui apurar quase nada sobre estes senhores, que se fizeram retratar no Brasil mais ou menos há 120 ou 150 anos e por isso resolvi publicar estas fotos, na esperança, que alguém do outro do Atlântico, me escreva, minha nossa, olha, o retrato de vôvô português.

Fotografia do estúdio Carneiro & Gaspar, em São Paulo

Vou começar pela fotografia de um jovem de bigodes, apoiado num plinto de forma clássica, com um cenário palaciano atrás, imitando um apainelado francês, onde não falta sequer um candelabro em estilo Luís XV. É o típico retrato carte-de-visite, imitando as convenções da pintura do passado. 

Fotografia do estúdio Carneiro & Gaspar, em São Paulo

A fotografia foi realizada no estúdio Carneiro & Gaspar, em São Paulo, no Brasil. Esta associação dos fotógrafos Joaquim Feliciano Alves Carneiro (s.d.-1887) e Gaspar António da Silva Guimarães (s.d.- 874) esteve activa entre 1865 e 1875, com estúdios em São Paulo e no Rio de Janeiro. Por consequência, o retrato deste jovem português, que emigrou para o Brasil, terá sido feito antes de 1875.

Dr. Francisco Teixeira de Magalhães

A segunda fotografia brasileira deste álbum está identificada com a letra do meu trisavô como Dr. Francisco Teixeira de Magalhães e representa um cavalheiro muito distinto. O retrato foi executado na Fotografia Alemã, Henschel & Benque, no Rio de Janeiro. Esta firma fundada pelo alemão Alberto Henschel (1827-1882) iniciou a sua actividade em Pernambuco, no Recife e abriu a sua filial carioca na Rua dos Ourives em 1870, mas em 1877, mudou as instalações no Recife, do no 2, do Largo da Matriz de Santo António para a Rua Barão da Vitória, nº 52. Portanto esta fotografia foi executada entre 1870 e 1877.

Fotografia Alemã, Henschel & Benque, Rio de Janeiro

Quanto ao cavalheiro distinto que se fez retratar no mais prestigiado estabelecimento fotográfico do Rio de Janeiro é difícil saber exactamente quem foi. Teixeira ou Magalhães são nomes comuns em Portugal e em qualquer época da história ou em qualquer terra um Manuel Magalhães poderá ter casado com uma Maria Teixeira e o primeiro filho do matrimónio, baptizado como Francisco Teixeira de Magalhães. No entanto, há algumas hipóteses mais ou menos plausíveis. Quando escrevi sobre um dos amigos do meu trisavô, o Paulino Antunes Guerreiro, acabei por passar a pente fino algumas décadas dos registos paroquiais de Montalegre e de facto naquela terra, há uma família Teixeira de Magalhães e alguns dos homens com esse apelido, são franciscos. Faria sentido que este Francisco Teixeira de Magalhães fosse originário de Montalegre e conterrâneo do meu trisavô José Rodrigues Liberal Sampaio. Mas não tenho conhecimento que nenhum deles tenha emigrado para o Brasil e muito menos que se tenha licenciado. Aliás, é curioso, que este senhor foi a única personalidade deste álbum de retratos identificado com um título académico, dr., apesar de existirem várias fotografias de condiscípulos do meu trisavô, licenciados em direito ou teologia, o que talvez me leva a pensar que talvez tenha sido médico. E com efeito no Diário do Governo, n.º 52, de 08/03/1870, na página 1, há um referência a um Francisco Teixeira de Magalhães, médico, residente na cidade do Rio de Janeiro, agraciado com a comenda da ordem militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, em atenção aos serviços que tem prestado em proveito do ensino publico, concorrendo com um valioso donativo para a construção, na vila de Paredes, de um edifício destinado ao estabeleci­mento de três escolas de instrução. Num boletim cultural da Câmara Municipal de Paredes, confirmei que o Comendador Francisco Teixeira de Magalhães, residente no Rio de Janeiro, Brasil, deu 12000$000 mil réis para ajudar à construção do edifício escolar Conde de Ferreira

Dr. Francisco Teixeira de Magalhães

O Dr. Francisco Teixeira de Magalhães terá sido um daqueles brasileiros de torna viagem, expressão, que designa homens, que enriqueceram no Brasil e regressaram ao país de origem, onde se tornaram membros proeminentes da comunidade. Alguns deles, à semelhança do célebre Conde de Ferreira, tornaram-se beneméritos na sua terra natal, patrocinando a construção de escolas primárias. Mas como terá conhecido o meu trisavô e em que ocasião lhe ofereceu o seu retrato?

O Padre José Rodrigues Liberal Sampaio foi um homem preocupado com a educação e mais ou menos entre 1875-1880 estabeleceu uma escola em Outeiro Seco, que funcionava informalmente, mas da qual há testemunhos de antigos alunos. Será que estabeleceu contactos com o Dr. Francisco Teixeira de Magalhães no sentido deste financiar uma escola pública em outeiro Seco?

O meu trisavô foi um pregador reputado na época e era chamado a fazer as suas predicas um pouco por toda à parte, inclusive na corte e poderá ter travado conhecimento com este Dr. Teixeira Magalhães em Vila Real, no Porto ou em Lisboa. Enfim, talvez, com a leitura das cartas do espólio familiar eu consiga resolver este enigma.

Fotografia do estúdio Teixeira Bastos, Rio de Janeiro

Numa foto já mais tardia, existe o retrato de um jovenzinho, que aparenta ter 17 ou 18 anos no máximo e que é a imagem clássica, que temos de todos os portugueses, que rumaram em direcção ao Brasil, ingénuos e cheios de esperança de fazer fortuna nesse país do futuro, segundo a feliz expressão usada por Stefan Zweig uns 50 anos mais tarde. Enfim, não sei nada deste jovem, que posa com as suas melhores roupas, sem esquecer um vistoso alfinete de gravata. Dá ate a ideia que o fato é de um tamanho acima do seu e alguém lho emprestou para o retrato. Em todo o caso tirar uma fotografia nesta época ainda era caro e posso presumir, que estaria ao cuidado de um tio ao de um padrinho, emigrado para o Brasil, há mais tempo e viveria com algum desafogo. 

Fotografia do estúdio Teixeira Bastos, Rio de Janeiro

A fotografia é do Teixeira Bastos, Rio de Janeiro. Segundo a Brasilianafotografica este Teixeira Bastos comprou a Manuel Garcia o atelier fotográfico Casa Garcia, que passou a dirigir com o nome de a Photographia do Commercio, na rua Sete de Setembro, em 1891 no Rio de Janeiro, mas em 1893, já estaria em Curitiba. Enfim, o retrato deste rapaz, que ainda nos olha com toda aquela ingenuidade da adolescência terá sido tirado à volta de 1891 ou 1892.

O Guimarães

A quarta e última foto e a mais tardia, foi tirada em Belém do Pará e está dedicada Oferece ao meu amigo Montalvão, seu amigo Guimarães. Certamente refere-se ao meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão. 

Foto de Fidanza, Pará. Dedicatória ao meu bisavô.

A fotografia deste senhor Guimarães foi tirada no estúdio de Filipe Augusto Fidanza (Lisboa, ca. 1847 - Belém (Pará), 20 de janeiro de 1903). No verso da foto refere-se que o artista foi premiado na Exposição Universal de Chicago, realizada em 1893 e portanto este retrato terá sido tirado depois dessa data. Talvez entre 1894 e 1900, mais ou menos. Ao Senhor Guimarães falta-lhe a distinção sóbria do Dr. Francisco Teixeira Magalhães, mas sobra-lhe em garridice. Repare-se no seu penteado, com uns caracolinhos artisticamente frisados na franja.


Enfim, pouco ou nada sei destas personagens, cujos retratos existem no álbum carte-de-visite do meu trisavô e disponibilizo-os aqui na esperança de que alguém no Brasil ou mesmo aqui em Portugal identifique uma destas fotografias. Este blog tem um público de seguidores muito fiel no Brasil e os fóruns de genealogia portugueses estão cheios de brasileiros à procura dos seus antepassados, pedindo ajuda para encontrar os registo da bisavó ou trisavô, uma Maria Morais ou um Francisco Silva, dos quais pouco ou nada sabem, excepto que nasceram algures em Trás-os-Montes. É certo que uma boa parte deles pretende fundamentar com documentos pedidos de nacionalidade portuguesa, mas muitos procuram sinceramente encontrar as suas origens, tentando responder a algumas das grandes questões existenciais que se colocam a todos: de onde viemos; o que somos;  e para onde vamos.

Alguns links consultados: 








domingo, 13 de março de 2022

Uma menina em biscuit ou para onde foram todas flores


O meu encanto por estas figurinhas em biscuit alemãs do início o século XX mantém-se e comprei esta menina por um bom preço, pois foi quebrada aqui e acolá. A cabeça da boneca que a criança segurava partiu-se e os pés da base também já viram melhores dias.

Marcas de série: 5673, 26 e 21

Não apresenta nenhuma marca de fabrico, mas apenas números de série, 5673, 26 e 21, que se reportam certamente ao molde e ao pintor. Contudo encontrei uma figurinha igual à venda na net, com a marca da E. & A. Müller, Schwarza-Saalbahn, empresa que esteve activa entre 1890 e 1927 na Turíngia, essa região alemã onde se concentraram dezenas de fabricantes de porcelana e figurinhas em biscuit.

A figurinha que esteve à venda no e-bay, tem uma orla na base em latão doirado e a minha está em biscuit, decorada com uma baia.


Não há muitas informações sobre estas fábricas, cujos arquivos se perderam com a guerra em 1944 e 1945 ou talvez por eu não perceber nada de alemão, não consiga encontrar informações pertinentes. Ultimamente penso muitas vezes que nos fazem falta a todos umas luzes de alemão, para podermos aceder a uma cultura tão rica na Europa, mas a última grande guerra tornou essa língua pouco apetecível, diria quase malquista, o que é uma pena.


Seja como for, esta figura representa uma menina a estudar na sua carteira, mas ela não é exactamente um modelo de bom comportamento. Já descalçou um sapato e enquanto faz os deveres numa tábua de lousa, segura a boneca e uma maça. A pasta está no chão atirada a trouxe-mouxe e e a menina está toda mal sentada. Enfim, tudo se encontra num desalinho, muito pouco germânico. 


Confesso, que talvez a tenha comprado porque me recordou a minha própria filha a estudar, sempre mal sentada, tudo espalhado por todo o lado e ao mesmo tempo com o telemóvel a fazer toda a espécie de ruídos e toques. Creio que eu próprio terei sido assim na minha meninice. 


Aliás, o encanto destas figurinhas de biscuit é que gravaram num material perene aqueles momentos de travessura ou garotice da nossa infância, da dos nossos filhos ou de crianças que viveram há mais de 100 anos. Hoje, que sou um adulto que tenta ser sério a todo o custo, a minha filha já é uma mulher e as meninas que foram as minhas avós e bisavós, morreram há muito tempo pergunto-me para onde foram esses momentos de inocência, para onde foram todas essas flores e essas meninas, como cantava Marlene Dietrich, em Sag Mir Wo Die Blumen Sind, que foi uma menina alemã, mais ou menos na altura em que esta peça em biscuit foi fabricada.




domingo, 27 de fevereiro de 2022

Uma jóia, um documento íntimo e a pequena Natália



No meu anterior post, mostrei uma fotografia de conjunto, da minha trisavô e dos seus dois filhos, o José Maria e o João Maria. Este ultimo morreu cedo, mas o José Maria meu bisavô (1878-1965), cresceu, licenciou-se em direito em Coimbra, em 1902, e no ano a seguir, casou com a minha bisavó, Ana da Conceição de Morais Alves (1881-1974) de uma família burguesa rica de Chaves e como era vulgar na altura tiveram uma prole numerosa, 7 filhos. 

Os seis filhos do matrimónio de Ana da Conceição de Morais Alves e José Maria Ferreira Montalvão

Na família, sabia-se que uma das crianças tinha morrido pequenina, a penúltima, a Natália Maria de Lurdes. A obra que reconstituiu a genealogia familiar, Os Montalvões, de J. T. Montalvão Machado, publicada em 1948, refere que nasceu em 1917 e morreu em 1919. Imaginávamos que que tivesse sido uma perda grande, para a família, pois a criança, que nasceu a seguir, também se foi baptizada com o mesmo nome, Natália, como que para substituir a perda da pequenita.

Contudo, há um ou dois anos o meu pai descobriu um documento, que nos mostrou, bastante impressionante. Trata-se de uma espécie de relato, que a minha bisavô Aninhas escreveu sobre a doença e morte da filhinha, como se fossem as páginas de um diário intimo, destinadas a fixar para sempre num papel, aquilo que não queria esquecer de todo.
Página 1 do documento de 3 de Junho de 1918, escrito pela minha bisavô


A Natália nasceu no dia 5 de Dezembro de 1916 e era a criança mais nova, a companheira de dia e de noite, sobretudo quando os outros filhos estavam na escola, conforme escreveu a minha bisavó. Segundo o seu relato, no dia 12 de Abril de 1918, numa sexta-feira adoeceu de tarde e esteve toda a noite a gemer e eu toda aflita por a ver doente e cheia de febre. Na segunda-feira, mandei-lhe tirar um retrato que ainda não o tinha coitadinha, sentada na caminha da sua querida mãe, muito sossegadinha, lhe vesti o seu casaquinho de veludo e touquinha e o fotógrafo lho tirou e foi o que me valeu, porque não tinha retrato nenhum da minha querida filhinha. Mas criança piorou, chorando pela mãe e pelo pai para que eu lhe acudisse, mas não lhe pode valer. Assim, me deixou a minha sempre adorada filhinha do meu coração, às cinco e meia da tarde de quarta-feira dia 17 [de Abril] para sempre na mais ardente dor e tristeza (…) No dia 18, às seis da tarde, levaram-me a minha querida filhinha par sempre

Página 2 do documento de 3 de Junho de 1918, escrito pela minha bisavô

A minha bisavó, remata esta narrativa da morte da sua filha, da seguinte forma: Só hoje tive coragem para escrever isto, dia 3 de Junho de 1918.

Página 3 do documento de 3 de Junho de 1918, escrito pela minha bisavô

Quando o meu pai, nos mostrou a transcrição deste documento, interrogámo-nos, acerca do paradeiro da fotografia da pequena Natália, mas o mais natural era estar perdida ou esquecida, algures na casa dos cerca de 100 ou mais descentes dos meus bisavós. Contudo, depois da morte do meu pai, aquando na partilha dos bens, minha irmã identificou o retrato, primorosamente encaixilhado num pequeno pendente em ouro, com vidro biselado, obviamente uma jóia de grande estima, para se trazer pendurada num fio, bem junto ao coração. E com efeito, a descrição que minha bisavó faz do único retrato que mandou tirar à filha, com o casaquinho de veludo e touquinha coincide com esta imagem e acreditamos que seja a fotografia da Natália (5.12.1916-17.4.1918)

O pequeno medalhão em ouro. O retrato encontra-se nas duas faces

Este relato intimo da minha bisavô Aninhas acerca da morte da pequena Natália é um testemunho tocante de uma época em que a mortalidade infantil era elevada, tendo aumentando ainda mais nos anos da guerra (1914-1918), naturalmente maior entre os pobres, mas que também se fazia sentir entre os mais abastados, como a família Montalvão. Repara-se que neste relato, não se refere a visita de um médico ou nenhum medicamento que a criança tivesse tomado e muito menos a ida a um hospital. Na época, não existia nenhum serviço nacional de saúde e muito menos antibióticos. Também neste período a fotografia ainda era cara e reservada para grandes ocasiões e é muito tocante a necessidade, que a minha bisavó sentiu de chamar o fotógrafo, para tirar o primeiro e último retrato da pequena Natália, para ficar com uma imagem dela, mandada encaixilhar num medalhão, que certamente trouxe junto ao seu coração durante muitos anos.

A pequena Natália (5.12.1916-17.4.1918)