quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Matheus d'Oliveira Xavier, patriarca das Índias Orientais

 
O meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio, foi um homem excepcional, que em 1886, já com 40 anos de idade partiu para Coimbra, para fazer dois cursos universitários em simultâneo, o de Direito e Teologia e em 1891 completou com êxito as duas licenciaturas.
 
No álbum de fotografias que o meu trisavô formou, consta uma significativa galeria de jovens padres, seus condiscípulos de Coimbra, que ora se formaram em Direito, ora em Teologia. A maioria desses retratos estão-lhe dedicados com frases afectuosas, idênticas aquelas que os finalistas dos dias de hoje escrevem nas fitas. Talvez neste último quartel do século XIX, estas dedicatórias fossem ainda mais sentidas, já que quase todos eles eram oriundos de fora de Coimbra, encontravam-se longe das suas terras de origem e da família, partilhando quartos e uma intensa vida em comum durante cinco anos. Quando finalizavam os cursos, trocavam as fotografias em formato carte-de-visite, escrevendo no verso pequenas, mas sentidas manifestações de amizade, pois como toda a gente sabe, Coimbra tem mais encanto na hora da despedida.
 
Verso da fotografia de Mateus de Oliveira Xavier, dedicada a José Rodrigues Liberal Sampaio.
 
As fotografias desses jovens condiscípulos do meu trisavô foram todas tiradas em Coimbra, a maioria delas no estúdio de Adriano da Silva Sousa (9 retratos), que devia ser o fotógrafo mais popular entre os estudantes e ainda duas no atelier de J. M. dos Santos e uma no J. Sartoris.
A maioria das fotografias dos condiscípulos de Coimbra do meu trisavô foram feitas pelo estúdio de Adriano da Silva Sousa, que devia ser o fotógrafo mais popular entre os estudantes.  
 
À luz do nosso olhar contemporâneo, estes jovens padres não nos parecem muito entusiasmantes. Uns arvoram um ar seráfico, outros manifestam evidente falta de exercício físico e de actividades ao ar livre e outros ainda são definitivamente uns campónios. Mas também a boa aparência física, tão importante nos nossos dias, não era certamente o seu objectivo como homens de religião. E o que é certo, é que muitos destes homens vieram a ocupar cargos importantes na vida local ou distinguiram-se na actividade educativa. O Padre José Gonçalves Lage publicou 25 manuais escolares ao longo da sua vida. Manuel de Jesus Pimenta foi o primeiro reitor do Liceu Nacional de Guimarães e o seu irmão, que também consta deste álbum, João Nepomoceno Pimenta foi Vice-Reitor do Seminário de Braga. Isidoro Martins Pereira de Andrade foi professor do Liceu Central e do Seminário Episcopal de Viseu e por fim, José Albino Ferreira veio a ser Presidente da Câmara Municipal de Penacova e ainda colaborou regularmente na imprensa local. Enfim, estes são apenas alguns dos exemplos das personalidades retratadas neste álbum e das quais já consegui traçar um pouco dos seus percursos de vida.
 
Mateus de Oliveira Xavier em 1888. Um belo homem
 
Desta galeria de clérigos, houve a figura de um jovem, que me impressionou desde logo, Mateus de Oliveira Xavier. Era em 1888, à data da fotografia, um homem bonito, de testa alta, bem penteado, um olhar inteligente e que posou para a câmara sem artifícios de beato. Posteriormente, as pesquisas, que fiz sobre ele não desfizeram esta impressão inicial. Mateus de Oliveira Xavier, que nasceu em 1858 em Vale da Urra, aldeia próxima de Vila de Rei, teve uma carreira admirável. Partiu para a Índia portuguesa, em 1894, como secretário do Patriarca, D. António Sebastião Valente e aqui rapidamente foi nomeado reitor do seminário de Rachol. Reformou os planos de estudo desta casa e fundou nela uma faculdade de teologia. Em 1898, foi sagrado bispo de Cochim, onde desenvolveu uma grande actividade na educação, criando escolas e um liceu para ambos os sexos, o que para a época era notável. Percorria toda a sua diocese de lés a lés e exerceu uma administração moderna e eficiente. Era também um homem fluente em línguas, além do português, escrevia correctamente o latim, dominava o francês, o inglês e o concani. Para os mais esquecidos da história portuguesa, recorde-se que Cochim, foi uma possessão portuguesa entre 1503 e 1663 e na época de D. Mateus de Oliveira Xavier estava já sobre domínio britânico, embora continuasse a existir uma grande comunidade católica indo-portuguesa. Ainda hoje, os cristãos constituem 35 por cento da população daquela cidade indiana.
 
A Sé de Cochim. Foto Wikipédia
 
Uma das obras fundamentais de D. Mateus de Oliveira Xavier foi a construção da nova sé de Cochim, que foi inaugurada em 1905 e ainda hoje existe. Mas a sua carreira não parou por aí. Em 1908 foi nomeado Patriarca das Índias Orientais, cargo importantíssimo, já que Goa, a Roma do Oriente, era ainda na época o centro do catolicismo em todas essas longínquas paragens. Em fevereiro de 1909, D. Mateus de Oliveira Xavier foi capa da popular revista Ocidente, que lhe dedicou um extenso artigo e publicou uma fotografia sua, agora com cinquenta anos e o jovem bonito e inteligente retratado em 1888, no álbum do meu trisavô, transformou-se num poderoso patriarca, com impressionantes barbas, capaz de conduzir o seu povo pelas areias do deserto até a terra prometida. Só os olhos se mantiveram iguais.
 
Mateus de Oliveira Xavier em 1908. Foto revista Ocidente
 
Bibliografia consultada:
D. Mateus de Oliveira Xavier: patriarca das Índias Orientais
In O occidente : revista illustrada de Portugal e do estrangeiro, N.º 1084 ( 10 Fev. 1909 )

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

São Bento de Núrsia: um canivet


Recentemente comprei mais um canivet, representando São Bento de Núrsia. Canivet é um termo francês, que significa à letra canivete e refere-se à técnica com que estes registos eram executados, isto é, eram picotados com o recurso a um estilete. Os mais antigos, feitos entre os séculos XVII e XVIII eram picotados à mão, decorando uma folhinha de pergaminho, velino, tecido ou papel de muito boa qualidade onde uma freira habilidosa tinha pintado à mão a imagem de um santinho, de Cristo ou da Virgem Maria. Depois, nos séculos XIX e XX, a imagem passou a ser impressa e o picotado feito mecanicamente. Este São Bento é dos mais antigos, pois foi todo pintando e picotado à mão. Provavelmente data do século XVIII.

Se fizermos uma pesquisa por Canivet na net, normalmente vamos parar a sites franceses ou italianos, onde encontramos muitas destas imagens e a sua produção é atribuída sobretudo a conventos femininos na Alemanha, Flandres, mas também em França ou em Itália. Segundo essas páginas da internet as freiras faziam estes delicados registos para ganharem algum dinheiro.


Apesar de já ter apresentado alguns destes canivets aqui no blog, continuo sem saber se foram também feitos em Portugal. Aliás, nem sequer sei qual o termo português para designar estes registos de santos picotados à mão e no entanto estas imagens aparecem em Portugal nos mercados de velharias e nas colecções dos museus portugueses. A Casa-Museu José Régio em Portalegre tem uns quantos destes canivets preciosamente encaixilhados em pano, decorados com passamanaria e contas. Será que estes canivets vinham da Alemanha e da França e eram depois encaixilhados cá?

Sabemos por exemplo que os gravadores de estampas religiosas de Augsburgo na Alemanha, vendiam os seus registos para todo mundo Católico, portanto não é de estranhar que por cá se comercializassem estes santinhos, vindos dessas paragens. Por cá, além dos doces de ovos, as religiosas portuguesas distinguiram-se pelo fabrico de flores em papel e pano, bem como folhas de papel artisticamente recortadas, destinadas a guardar os boles e doces. Talento manual e tempo não lhes faltava para executarem estes canivets, mas nunca encontrei referência nenhuma a sua execução nas terras lusitanas.

Enfim, é um pequeno mistério que ainda torna estes canivets ainda mais preciosos aos coleccionadores de inúteis beatices como eu.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Ainda as damas do guéridon ou primórdios da fotografia em Chaves


Há pouco tempo apresentei aqui no blog as fotografias de três damas, que constam do velho álbum fotográfico formado pelo meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio e entre as quais a se encontra a minha trisavô. O retrato desta minha antepassada, não tinha qualquer identificação do fotógrafo, mas através da comparação com as imagens das outras damas, com nome o estúdio está bem identificado no verso, consegui perceber através de um denominador comum, um guéridon, que as três elegantes jovens se tinham feito fotografar na mesma casa, um tal T. A. Pacheco, Photographia Transmontana, profissional que abriu o seu atelier em 1873, em Vila Real, na Rua de Santo António.


O verso da foto. T. A. Pacheco, photographo
Como tenho andado encantado com estas fotografias de antepassados tão remotos, resolvi no Natal oferecer à família cópias destes retratos, encaixilhados em molduras antigas, que fui comprando nas feiras de velharias e que aguardavam numa gaveta a imagem certa. Foi a forma que encontrei de partilhar com os meus familiares este tesouro com cerca de 140 anos, com imagens de antepassados e dos quais herdamos certamente alguma coisa, o olhar, os gestos ou um traço de personalidade.
Retrato da minha trisavô, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902). A moldura é francesa e será coisa da primeira metade do XX, ao estilo Restauração

Uma das cópias que ofereci foi de a um retrato da minha trisavô, Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão, também feito na década de 70 do século XIX e onde se percebe bem, que era uma mulher encantadora, com uns grandes olhos claros e algo melancólicos. Não me admirada nada que o Padre Rodrigues Liberal Sampaio se tenha encantado por esta mulher e tenha posto em risco a sua reputação, e sobretudo a dela, numa paixão condenada socialmente. Aliás, é curioso, que uma das suas bisnetas, a prima Lídia, embora fosse uma morena, tinha algo deste olhar.

Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902).


O meu irmão Zé, que recebeu uma cópia do retrato de Liberal Sampaio, gostou tanto destas fotografias, que me pediu uma cópia digital de todas e como é um homem muito observador (passou três quartos da vida a dele a montar e pintar kits de aviõezinhos e miniaturas automóveis), detectou que o retrato de busto da minha trisavô foi feito no mesmo dia e no mesmo fotografo, que o retrato a corpo inteiro. O penteado, o vestido e as jóias são os mesmos e portanto este retrato, sem identificação de fotógrafo, pode ser também seguramente atribuído ao T. A. Pacheco.
Esta foto foi tirada no mesmo dia que o retrato de busto, conforme se pode verificar pelo destaque que abaixo apresento


No entanto, nesta história toda havia qualquer coisa que não batia certo. O fotógrafo T. A. Pacheco tinha o seu estúdio em Vila Real e estas senhoras estariam em Chaves ou nas cercanias. Através de autoestrada, a distância actual entre as duas cidades são cerca de 70 Km e quem não conhece a região pensa que se fazem rapidamente. Mas estamos Trás-os-Montes e como o nome indica o terreno é acidentadíssimo e na época,  meados da década de 70 do século XIX, não existia caminho de ferro. Os primeiros comboios só chegaram a Vila Real em 1906 e a Chaves em 1921. A jornada entre Chaves e Vila Real seria feita a cavalo ou carruagem, por caminhos pedregosos, entre terríveis montanhas, certamente em dois dias, com uma pernoita pelo caminho, em Vila Pouca de Aguiar. Portanto ir a de Chaves a Vila Real tirar uma fotografia era uma aventura. Aliás, por estes motivos sempre tive o palpite que mesmo os fotógrafos do Porto, como o Emílio Biel, deslocar-se-iam periodicamente às cidades e vilas do interior Norte, no dia das festas do santo padroeiro, para fotografar as individualidades locais. Por exemplo, um dos fotógrafos deste período, Albino Pereira da Silva, trabalhava em três localidades distintas, consoante a época, em Braga de Novembro a Maio, em Vizela de meio de Maio a meio de Agosto quando os mais favorecidos iam para as termas e na Póvoa de Varzim de meio de Agosto a meio de Novembro, quando a boa sociedade de bracarense ou do Porto ia a banhos. Para o efeito, este fotógrafo tinha três carimbos diferentes, que apunha no verso da foto, consoante a localidade onde estivesse a trabalhar (1).
A D. Aurora Falcão
Ao analisar as outras fotografias do mesmo álbum, descobri mais à frente uma fotografia de uma jovenzinha, apoiada no mesmo guéridon só que já sem franjas, uma tal Dona Aurora Falcão, que no verso estava marcada a carimbo, Photographia Pacheco Chaves.

O verso da foto da D. Aurora Falcão. Marca a carimbo PHOTOGRAPHIA PACHECO  CHAVES
Suspeitei de imediato que se tratasse do mesmo fotógrafo e escrevi ao meu amigo de Outeiro Seco, o Humberto Ferreira, pedindo-lhe ajuda, pois além de ser um entusiasta da fotografia e da sua história possui um talento especial para descobrir seja lá o que for. Com efeito, o meu amigo de Outeiro Seco, escreveu para o Museu do Som e da Imagem de Vila Real e rapidamente lhe responderam, informando-o que este T. A. Pacheco era de seu nome completo Tomás Aquino Pacheco e que a partir de pelo menos 1876 estaria também a fotografar em Chaves, pois em 10 de Dezembro desse ano baptizou o seu filho nessa cidade, conforme se pode ver no Arquivo Distrital de Vila Real. Os senhores  do Museu do Som e da Imagem foram tão amáveis que me enviaram uma publicação que versa sobre este fotógrafo Narciso Alves Correia: A fotografia em Vila Real na década de 1870 / Elísio Amaral Neves. Portanto este Tomás Aquino Pacheco fez fotografias em Vila Real e depois em Chaves e ainda suspeito que se deslocaria repetidamente até Vidago, onde o turismo termal tinha acabado de arrancar, para retratar figuras da boa sociedade.

Esta descoberta permite-me supor com alguma segurança que os retratos que o Tomás Aquino Pacheco fez das das três elegantes damas do guéridon, foram afinal realizados em Chaves e permitiu-me também atribuir a esse profissional a fotografia de busto da minha trisavô. Mas o interesse desta informação nova ultrapassa o da história familiar, pois permite recuar a história da fotografia em Chaves aos meados da década de 70 do século XIX.

Este retrato da minha trisavô foi feito por Tomás Aquino Pacheco, provavelmente em Chaves, na década de 70, do século XIX



Narciso Alves Correia: A fotografia em Vila Real na década de 1870 / Elísio Amaral Neves. Vila Real: Museu do Som e da Imagem, 2011. – (Cadernos do som e da imagem; 8)


Registo de Batismos de 1876, paróquia de Santa Maria Maior, Chaves, Arquivo Distrital de Vila Real.
https://digitarq.advrl.arquivos.pt/viewer?id=1050032

domingo, 20 de janeiro de 2019

O círculo de Liberal Sampaio: José Joaquim de Almeida Carvalhais e José Leite de Vasconcelos


No velho álbum de fotografias de formato carte-de-viste formado pelo meu trisavô, José Rodrigues Liberal Sampaio, consta este retrato de um jovem de bigodes retorcidos, olhos grandes, com uma expressão sonhadora e um cabelo, que apesar da brilhantina toda ameaça revoltar-se a qualquer momento. O personagem está identificado como sendo José Joaquim de Almeida Carvalho, numa anotação manuscrita feita pelo meu trisavô na sua na caligrafia cursiva e miudinha. Porém, quando retirei a fotografia do álbum e encontrei a dedicatória, que adiante transcrevo percebi que o seu nome deste senhor é ligeiramente diferente do que está posto na legenda.

José Joaquim d’ Almeida Carvalhaes, Sta. Martha



José Joaquim d’ Almeida Carvalhaes, Sta. Martha


Fiz uma pesquisa na internet por este nome e percebi que este senhor só podia ser o José Joaquim de Almeida Carvalhais, nascido em Santa Marta de Penaguião em 2.12.1854 e falecido em Mesão Frio (9.2.1919), cuja vida é descrita no Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses / coordenado por Barroso da Fonte, que se encontra online, que por sua vez repete o texto da entrada da Grande enciclopédia portuguesa e brasileira. Este senhor teve uma vida muito movimentada, andou pelo Brasil, foi oficial da marinha na Amazónia, trabalhou numas minas em Huelva, Espanha e administrou propriedades rurais em Alenquer e em Montemor-o-Novo e no final da década de 90 passou a colaborar com José Leite de Vasconcelos, no que é hoje Museu Nacional de Arqueologia, aproveitando certamente a sua experiência nas minas.

Até há pouco tempo acreditava que José Leite de Vasconcelos esteve apenas duas vezes no Solar dos Montalvões, em Outeiro Seco. Porém na obra Historia do Museu Etnologico Português : 1893-1914 .- Lisboa : [s.n.], 1915 Leite de Vasconcelos indica que em 1902 também visitou Liberal Sampaio,  em Outeiro Seco. Pela simples leitura desta página, é notório que Almeida Carvalhais acompanhava Leite de Vasconcelos pelo país inteiro
Portanto, o mais lógico é que Joaquim de Almeida Carvalhais tivesse travado conhecimento com o meu trisavô, nos finais dos anos 90 no século XIX, numa das viagens em que acompanhou José Leite de Vasconcelos pelo país fora, relatadas na obra Historia do Museu Etnologico Português : 1893-1914. O meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio era um homem profundamente interessado na história e formou no Solar de Outeiro Seco uma colecção de objectos arqueológicos e recebeu nessa casa José Leite de Vasconcelos, pelo menos três vezes, em 1895, 1902 e em 1915. As visitas de 1915 e 1895 são referidas na obra Por Trás-os-Montes e a de 1902 na Historia do Museu Etnologico Português : 1893-1914, ambas da autoria daquele eminente arqueólogo. Estas visitas não eram apenas de cortesia, antes eram o pretexto para longos passeios pela região para reconhecimento de locais de interesse arqueológioco ou etnológico. Nessas datas era muito possível, que José Joaquim de Almeida Carvalhais tivesse acompanhado Leite de Vasconcelos ao Solar de Outeiro Seco e tivesse trocado com o meu trisavô as carte-de-visite, isto é, os respectivos retratos fotográficos.


José Joaquim de Almeida Carvalhais


Porém esta fotografia de José Joaquim de Almeida Carvalhais, mostra um homem ainda jovem e se ele nasceu em 1854 este retrato será mais ou menos datado entre 1874 e 1884, ou talvez um um bocadinho mais tarde. Portanto o meu trisavô e o Almeida Carvalhais travaram conhecimento ainda antes de o primeiro entrar ao serviço do que é hoje o Museu Nacional de Arqueologia. Talvez se tivessem conhecido na década de 80, período em que Almeida Carvalhais foi funcionário dos Correios primeiro na Régua, depois em Vila Pouca de Aguiar e finalmente em Vila Real. A partir de 1886 já andava o meu trisavô a caminho de Coimbra, para fazer os seus estudos superiores e essas terras acima referidas eram ponto de passagem obrigatórios para quem vinha de Chaves, numa viagem que se fazia a cavalo. Só na Régua é que o meu pobre antepassado apanhava um comboio até ao Porto e daí até Coimbra. Talvez se tenham conhecido num posto de correio, quando o meu trisavô ia deitar uma carta a avisar, que tinha chegado bem e conversaram longamente, descobrindo, que ambos partilhavam a mesma a paixão por antigualhas. Enfim, estou a especular sem provas, mas é certo que se conheceram por essa altura, de outra forma o retrato de José Joaquim de Almeida Carvalhais não estaria no álbum fotográfico do meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio.

Para rematar, este José Joaquim de Almeida Carvalhais é o pai do célebre caricaturista e ilustrador Stuart Carvalhais.

As ilustrações de Stuart Carvalhais são sempre cativantes. Algumas delas eram feitas com a ponta de um fósforo queimado


Alguma bibliografia:

Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses / coordenado por Barroso da Fonte
Historia do Museu Etnologico Português : 1893-1914 / J. Leite de Vasconcelos. - Lisboa : [s.n.], 1915.

Por Trás-os-Montes / J. Leite de Vasconcelos. Lisboa: Imprensa Nacional em 1917

Stuart Carvalhais: antecedentes artísticos e contexto do seu nascimento em Vila Real / Elísio Amaral Neves
In
Vila Real história ao café / Elísio Amaral Neves • A. M. Pires Cabral. p. 318- 322

domingo, 6 de janeiro de 2019

A poesia dos objectos oxidados ou Galheta de vinho para a celebração da Eucaristia



Comprei esta jarrinha já há muitos anos na feira-da-ladra, sem saber sequer que tipo de peça se tratava, qual a sua função original ou a época em que foi executada, mas agradou-me muito o seu ar de achado arqueológico, conforme escrevi neste blog em 2010. Tinha aquela poesia das estátuas de bronze gregas ou romanas encontradas no fundo do mar. Fiz algumas  pesquisas sobre esta peça, mas não encontrei nada de relevante sobre ela, apenas que percebi, que quem a executou se inspirou nos jarros produzidos no Próximo Oriente e no Norte de África.

Foi só depois de ir trabalhar como bibliotecário no Museu Nacional de Arte Antiga, que percebi realmente qual foi a função original desta jarrinha. À conta de ver tantos objectos de prataria sacra naquele museu vai-se aprendendo alguma coisa.
A galheta é de dimensões reduzidas. O motivo floral no bojo forma a letra "V"

Com efeito esta jarrinha, é na verdade uma galheta de vinho usada na celebração da Eucaristia e em tempos terá feito par com outra igual contendo água e estariam as duas pousadas numa pequena bandeja ou prato. A parte da frente desta galheta apresenta uma decoração floral no bojo, que forma a inicial "V". Sempre que não sejam de vidro, as galhetas devem ter uma letra que permita distinguir o seu conteúdo, não o vá o Senhor Padre confundir água com vinho e engatar a celebração eucarística. Para os mais novos, que nunca tiveram uma educação católica, a água simboliza nossa humanidade e o vinho, a divindade de Cristo e ambos os líquidos são misturados num cálice para simbolizar a sua união.

Ainda continuo sem saber a época desta peça ou se um dia teve um banho de metal brilhante ou um lustro qualquer, que lhe desse um ar mais nobre, pois a Igreja Católica e Apostólica Romana sempre gostou de se rodear de objectos ricos. Em todo o caso, vou mante-la com este ar oxidado, como se tivesse sido acabada de trazer de algum navio naufragado há muito.


Alguma bibliografia:
Thesaurus : vocabulário de objectos do culto católico / coord. Natália Correia Guedes. Vila Viçosa : Fundação da Casa de Bragança, 2004

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

D. António, Prior do Crato


Como já contei muitas vezes neste blog, que na antiga casa da minha família paterna, o solar dos Montalvões em Outeiro Seco, existia uma colecção de gravuras com os retratos dos Reis de Portugal, da qual herdei apenas três estampas. Talvez com o intuito de reconstituir de essa colecção, sempre que vejo à venda um retrato de um rei português, compro-o. Claro, eu nunca conseguirei juntar os retratos de todos os monarcas portugueses, pois o número dos nossos reis é bem maior que os escassos centímetros livres, que restam nas paredes lá de casa. Mesmo com essas condicionantes de espaço, acrescentei a essa colecção mais uma gravura, desta vez representando D. António, Prior do Crato, que na historiografia oficial portuguesa nem sequer é considerado propriamente rei. Na verdade, quem sucedeu ao Cardeal D. Henrique após a sua morte a 31 de Janeiro de 1580, foi Filipe II de Espanha, aclamado rei nas Cortes de Tomar, em 1581.
 
Europa portuguesa / Manuel de Faria e Sousa. Lisboa: Antonio Craesbeeck de Melo, 1678
Bem, mas seja lá qual for interpretação dos acontecimentos históricos da crise dinástica, que resultou na perda da independência portuguesa, esta estampa fez em tempos parte da obra da Europa portuguesa, de Manuel de Faria e Sousa, impressa em Lisboa na oficina de Antonio Craesbeeck de Melo em 1678, conforme informa Ernesto Soares na entrada 199 H da obra Dicionário da Iconografia Portuguesa: Lisboa: Instituto para a Alta Cultura, 1947. Encontrei a referida edição da Europa Portuguesa digitalizada no Google books e a referida estampa encontrava-se no tomo III, entre as páginas, entre as páginas 68 e 69.
 
 

Na obra de Ernesto Soares não encontrei uma referência explícita ao autor da gravura, mas a estampa parece ser um reaproveitamento de um dos muitos retratos régios feitos pelo gravador Pietrus Perret (1549-1637), que foram publicados na obra Elogios dos Reis de Portugal de frei Bernardo Brito.

Quanto à obra Europa portuguesa, escrita por Manuel Faria de Sousa (1590-1649) é um dos muitos livros publicados no período antes e depois da Restauração da independência portuguesa em 1640, que pretendiam justificar através da valorização da história portuguesa a necessidade de uma separação entre os destinos de Portugal e Espanha.
 
D. António, Prior do Crato. Na oval lê-se Antonius I, Port. rex, vixit ann. LXIV, obit 1595
Esta gravura um pouco tosca do Prior do Crato, irá recordar-me na minha casa a memória deste homem, que disputou com Filipe II de Espanha, o trono português, numa luta muito desigual. A Espanha era o estado mais poderoso da Europa de então e possuía um império onde Sol nunca se punha. Portugal atravessava uma crise terrível e a grande nobreza portuguesa precisava urgentemente de dinheiro para resgatar os cativos, que ficaram em Marrocos, depois da desastrosa expedição de D. Sebastião aquele País. Filipe II comprou com muito dinheiro através de mercês os favores dos aristocracia lusa e mandou os seus exércitos invadir Portugal e fez-se aclamar nas Cortes de Tomar.
Filipe II de Espanha, I de Portugal. Retrato da obra Europa portuguesa / Manuel de Faria e Sousa. Lisboa: Antonio Craesbeeck de Melo, 1678
Por D. António, que acabou por morrer no exílio e lutou  por uma causa perdida, sinto a mesma simpatia, que o escritor judeu Stefan Zweig experimentava pelas figuras de Maria Stuart e Maria Antonieta, ambas vítimas da política e tocadas por destinos trágicos, tal como o povo judaico e tal como mais tarde o próprio Stefan Zweig, que cometeu suicídio no Brasil em 1942, para não continuar a assistir à agonia de um mundo dominado por Hitler. 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Um distinto casal de Vilela Seca e a herança do 3º conde de Basto: fotografias de um velho álbum familiar



Após muitas e pacientes pesquisas consegui situar no tempo e no espaço mais duas personagens do velho álbum de fotografias carte-de-visite, formado pelo meu trisavô, o Francisco Firmino Fernandes Alvares de Moura e a Ricardina Leite de Barros. É certo, que o meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio identificou os nomes destes senhores no álbum com a sua caligrafia miudinha, mas não sabia nada deles. Fui fazendo umas pesquisas no Google e encontrei uma publicação on-line Tentativa de dedução genealógica da família Caldas da autoria Diogo Paiva e Pona, onde se refere estes dois senhores e percebi que eram casados e viviam em Vilela Seca, uma aldeia vizinha de Outeiro Seco, onde residia a minha família, os Montalvões.



Fiz entretanto mais pesquisas pelos seus nomes na base de dados do Arquivo Distrital de Vila Real e localizei dois documentos de inventário obrigatório, um de 1882, referente a Francisco Firmino Fernandes Alvares de Moura e outro de 1884, relativo a à Sra. Dona Ricardina Leite de Barros. Os inventários obrigatórios eram realizados quando as pessoas faleciam sem deixar testamento e normalmente eram feitos logo a seguir à sua morte. Portanto, a partir dessas datas lancei-me à consulta dos registos de óbitos da Paróquia de Vilela Seca e a partir daí foi como puxar o fio de um novelo, em que foram surgindo histórias e mais histórias sobre estas personalidades.


A casa dos Morgados das Gralhas, Montalegre

Francisco Firmino Fernandes Alvares de Moura morreu em Vilela Seca em 22.12.1881, com 40 anos, segundo indicou o pároco e era natural de Montalegre, de Santa Maria das Gralhas, um nome tão poético, que parece ser o título de um conto de Miguel Torga. Era filho de Domingos Fernandes Moura e de Rosa Álvares Martins, mas não consegui apurar a data de nascimento, pois os registos de baptismos da primeira metade do século XIX dessa localidade desapareceram, mas presumo que tivesse sido à volta do ano de 1841. O seu pai seria o morgado de Gralhas e um dos seus irmãos foi o padre João Álvares Fernandes de Moura (1848-1920), que fundou um seminário na antiga casa senhorial da sua família. O Padre João Álvares Fernandes de Moura era dois anos mais novo que o meu trisavô e é possível que se tenham cruzado no Seminário de Braga.

Quanto à Sra. D. Ricardina Leite de Barros (1845-1884) era natural da freguesia de Santa Senhorinha de Cabeceiras de Basto e descendia de uma belíssima família e muito rica. Era filha de Manuel Filipe Martins Leite de Barros (18.09.1800- 28.07.1870), um senhor que foi Cavaleiro da Ordem de Cristo, Presidente da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto e senhor da Casa da Breia e neta da Sra. D. Maria Josefa Martins Leite de Barros, que na década de 30 do século XIX, foi uma das protagonistas de uma tremenda batalha legal pela disputa da herança do 3º conde de Basto.
Manuel Filipe Martins Leite de Barros, pai da Sra. D. Ricardina, Foto https://geneall.net

Ainda que de uma forma muito sumária, não resisto aqui a contar a história da disputa pela herança do 3º Conde de Basto, relatada por Joaquim Fernandes Figueira, num artigo da revista Prisma de N.º 1, Abril 1941 “O Conde de Basto : epitáfio que se desfaz.

O referido Conde tinha por nome de baptismo, José António de Oliveira Leite de Barros (1749-1833) e foi umas principais figuras do regime miguelista. Foi feito Conde por D. Miguel, chegando mesmo a chefiar o governo daquele monarca absolutista e notabilizou-te tristemente pela forma cruel e violenta como perseguiu os liberais. Era de tal maneira detestado, que depois da sua morte e da vitória dos liberais o seu corpo foi retirado do túmulo, arrastado pelas ruas de Coimbra e dilacerado.



Apesar de ter sido feito conde por D. Miguel, José António de Oliveira Leite de Barros era filho bastardo e para conseguir assenhorar-se da fortuna do pai, casou com a sua prima direita a Sra. D. Leonor Angélica Leite de Barros, filha de um irmão do seu pai e que era uma descendente legítima dos Leite de Barros. Apesar de ter passado a juventude encarcerada num convento, esta D. Leonor Angélica devia ser rapariga fogosa, pois ainda nesse tempo de clausura arranjou uma filha bastarda, a Maria Josefa, que veio a ser avó da nossa Dona Ricardina. Porém, o 3º Conde de Bastos aceitou muito bem a filha da sua mulher e a menina foi criada com o casal. Do casamento da Leonor Angélica e José António de Oliveira Leite de Barros, só resultou um filho que era retardado. Após a morte de Leonor Angélica, o conde voltou a casar com uma viúva rica e de boa fidalguia, Catarina Lusitana Correia de Morais Leite Almeida, filha do Visconde da Azenha, mas que não lhe deu descendentes, apesar de a senhora ter tido filhos do anterior casamento.


Quando o 3º conde de Basto, morreu, deixou um testamento complicado, a segunda mulher ficava tutora do seu filho, mas à morte deste, a fortuna familiar passava para as mãos de D. Eufrásia e de seu filho. Esta D. Eufrásia era uma filha ilegítima do irmão da D. Leonor Angélica, o André António. Começou então uma tremenda disputa legal entre a Dona Josefa, a D. Eufrásia e a viúva, a Dona Catarina Lusitana, que se arrastou durante anos pelos tribunais. Quem acabou por ganhar a causa foi a Dona Josefa e o seu filho, Manuel Filipe Leite de Barros, o pai da D. Ricardina, que lhe coube o Senhorio da Casa da Breia. Para evitar futuras complicações a que ainda poderia dar lugar o testamento do conde, Manuel Filipe, casou com Benedita Rosa Leite de Barros, a filha da tão “decantada” D. Eufrásia.
Os Montalvões não perderiam a ocasião de convidar uma ilustre descendente dos condes de Basto para os seus salões



A fotografia de D. Ricardina foi executada por Ferreira de Melo, no Porto

Em suma, este casal Firmino Fernandes Alvares de Moura e a Ricardina Leite de Barros eram gente da mesma condição social dos Montalvões, que viviam numa aldeia vizinha e era natural que se visitassem e trocassem as carte-de-visite. Os Montalvões não perderiam a ocasião de convidar uma ilustre descendente dos condes de Basto para os seus salões e até imagino a Sra. D. Ricardina sentada muito direita e distinta num canapé D. Maria, que herdei dessa casa. Certamente que conheceriam o Padre Rodrigues Liberal Sampaio, pároco em Outeiro Seco e deslocar-se-iam frequentemente aquela aldeia ouvir missa, pois a fama de pregador do meu trisavô era grande quer na região, quer no País inteiro (em 1873 tinha sido nomeado pregador régio pelo Rei D. Luís). Liberal Sampaio conheceria provavelmente o irmão de Francisco Firmino, o Padre João Álvares Fernandes de Moura, dos tempos do seminário em Braga. Mais, este casal entregou a educação do filho, Filipe Barros de Moura, aos cuidados de José Rodrigues Liberal Sampaio, numa escola que fundou em Outeiro Seco, onde se ministrava uma primeira educação aos jovens, conforme se pode ler na Voz de Chaves, num artigo de homenagem ao meu trisavó, em 23 de Fevereiro de 1961.



A Nova Fotografia Nacional, na Rua do Bomjardim, 362 no Porto fez o retrato de Firmino Fernandes Alvares de Moura, 
No final de todas estas pesquisas a Sra. Dona Ricardina Leite de Barros e o seu marido, Firmino Fernandes Alvares de Moura, que morreram há quase 140 anos tornaram-se como que um casal, que se cumprimenta na rua e conhecemos vagamente a história e de que em pequenos ouvimos falar de uns escândalos familiares antigos.


Fontes consultadas:


Livros de óbito da paróquia de Vilela Seca, Concelho de Chaves, Arquivo Distrital de Vila Real


Livros de Baptismo da paróquia de Santa Senhorinha de Cabeceiras de Basto, Arquivo Distrital de Braga


Figueira, Joaquim Fernandes - “O Conde de Basto : epitáfio que se desfaz
in  Prisma de N.º 1, Abril 1941.


Tentativa de dedução genealógica da família Caldas / Diogo Paiva e Pona


Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses/  coordenado por Barroso da Fonte