sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Um jovem malandrete: retratos fotográficos de estudantes da Universidade de Coimbra em 1900


Desde há cerca de um ano que me dedico a estudar os dois álbuns fotográficos da família, contendo retratos tirados mais ou menos entre 1860 e 1902. Tenho também procurado consultar bibliografia sobre retrato fotográfico em Portugal no século XIX e um dos textos mais interessantes sobre o tema foi o de Francisco Queiroz (*1), que escreveu sobre os álbuns fotográficos de família em particular, chamando a atenção para a importância de os relacionar com outros álbuns de família da mesma região geográfica. Mais ou menos entre 1860 e 1900, as pessoas mais afortunadas tiravam o seu retrato fotográfico em formato carte-de-visite, guardavam um exemplar para si ofereciam os restantes sete exemplares pelos seus parentes ou gente do seu círculo social. Em teoria, os retratos do álbum de uma determinada família encontrar-se-ão também nos álbuns de outras famílias aparentadas entre si, do mesmo meio social e região geográfica.

Por essa razão, tenho vasculhado os arquivos com colecções fotográficas on-line à procura de retratos fotográficos do XIX e nas feiras de velharias sempre que vejo álbuns carte-de-visite, ou mesmo fotografias do século XIX, lanço-me sobre eles na esperança de encontrar um retrato igual aos que tenho por identificar, só que com uma legenda ou uma dedicatória, que me permitam reconhecer aqueles senhores de bigode retorcido ou uma daquelas damas vestidas com metros e metros de seda. No entanto, não tenho tido muita sorte, pois normalmente frequento à Feira de Estremoz e os álbuns e fotografias que encontro à venda pertenceram a famílias do Sul, de Lisboa ou mesmo do estrangeiro. O que eu realmente precisava era de comparar os dois álbuns de fotografias que tenho, com o de outras famílias transmontanas de Chaves, Valpaços, Montalegre, Vinhais ou Vila Real.
 
A fotografia do álbum do meu bisavô.
Há pouco tempo, encontrei à venda um desses álbuns, datado mais ou menos da mesma época, daquele que foi formado pelo meu bisavô e a semelhança deste, estava cheio de retratos de condiscípulos da Universidade de Coimbra do proprietário original. Folheei o dito livro e imediatamente encontrei um finalista do curso de Direito de Coimbra, que constava também do álbum do meu bisavô, um jovem de bigode, com um certo ar de malandrete. Ainda tentei comprar o álbum inteiro, pois talvez houvesse mais retratos iguais, mas a senhora só vendia as fotografias à peça, pois assim fazia mais dinheiro.
 
A fotografia que comprei na feira de velharias de Estremoz

Esta fotografia que comprei é de maiores dimensões, do que aquela que eu tenho. É o chamado formato cabinet, ou carte cabinet (*2) , como dimensões médias de 10,8×16,5cm, portanto, maior que o carte-de visite. Os dois retratos foram executados pelo mesmo estúdio, o J. Gonçalves, também designado por Centro Fotográfico Académico, com sede na Avenida Navarro de Pais (estrada da Beira), Coimbra e que tinha também um atelier na Figueira da Foz, a Photographia Europa.
 
A assinatura ilegível
 
Apesar de ambas as fotografias estarem dedicadas, não conseguia ler a assinatura. O primeiro nome parecia-me Arthur, mas o apelido era indecifrável. Este jovem que foi condiscípulo do meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão, esceveu seguir ao nome, Mousão, ou Monsão.
 
José Maria Ferreira Montalvão, meu bisavô, no momento da sua formatura. em 1902
 
Pensei ainda que fosse um título nobiliárquico, pois na altura era hábito colocar a seguir ao nome próprio o título de nobreza entre parêntesis (mesmo hoje em dia ainda há quem faça isso). Pesquisei na net por viscondes de Monção, mas os nomes desses fidalgos não tinham nada a ver com o deste jovem com ar de quem partiu muitos corações em Coimbra. Pesquisei então, no arquivo da Universidade de Coimbra, pelas expressão  Artur Direito 1902 ( o ano em que o meu bisavô terminou o Curso de Direito), mas os resultados foram  nulos. Enquanto fazia estas buscas chegou uma colega, a Conceição Borges de Sousa, que me sugeriu para pesquisar na base daquele arquivo, pelo nome do Senhor a quem o jovem em causa, dedicou a fotografia, um tal Aurélio de Vasconcellos e recuei a data para 1900 e consegui descortinar então, que o proprietário do álbum à venda na Feira de Estremoz foi Aurélio de Almeida Santos e Vasconcelos, que cursou Direito entre 1895 e 1900 (*3). Lembrei-me então, que o Arthur poderia ter concluído o curso também em 1900, um pouco mais cedo que o meu bisavô e procurei na base de dados do arquivo daquela Universidade por Artur Direito 1900 e imediatamente percebei, que o galante jovem de bigodes só poderia ser Artur Anselmo Ribeiro de Castro, nascido em Macedo, Monção e que estudou direito em Coimbra entre 1898 e 1900 (*4). A assinatura que eu não conseguia ler, era afinal a de Arthur Anselmo.
Verso da fotografia, com a dedicatória de Artur Anselmo ao meu bisavô
Este Artur Anselmo, que andou pela Universidade de Direito em Coimbra 1898 e 1900, a julgar pelos registos oficiais, era das relações do meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão, a quem dedicou o seu retrato, mas muito mais próximo de Aurélio de Vasconcelos, pois a este, escreveu no verso da fotografia, que lhe ofereceu, um extenso e sentido texto. Aliás é natural, que isso tivesse acontecido. O Artur Anselmo era um partidário da República, que dirigiu um jornal republicano em Coimbra, a Voz do porvir, em 1897 (*5) e Aurélio de Vasconcelos comungava também do mesmo ideal político, apesar de ser um fidalgo, morgado de Sortelha. Portanto, os dois eram republicanos, ao contrário do meu bisavô, que era monárquico, embora nunca tenha sido um activista político, como o seu pai, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio.
Artur Anselmo dedicou um extenso e sentido texto a Aurélio de Vasconcelos
O senhor que formou o álbum do qual eu comprei a fotografia, Aurélio de Almeida Santos e Vasconcelos era natural de Meda e foi morgado de Sortelha(*6). Os senhores, que tinham à venda este álbum, fazem várias feiras de velharias do País, mas são também da Beira, mais precisamente do Fundão e é natural, que tenham comprado o recheio da casa de algum dos seus descendentes de Aurélio de Almeida Santos e Vasconcelos, de onde constaria este álbum.

Relativamente ao excelente texto de Francisco Queiroz, intitulado História da Fotografia em Portugal, no século XIX: os retratos "carte de visite”, que sublinha a importância de relacionar os álbuns carte-de-visite de várias famílias da mesma região, eu acrescentaria que seria do maior proveito para a memória do País e da Universidade de Coimbra, relacionar todos os álbuns com fotografias de estudantes de Coimbra, de modo a formar um extenso repositório de imagens de alunos da Universidade de Coimbra, no último quartel do século XIX. Toda elite portuguesa da época passou por lá.
 
As duas fotografias: a primeira formato carte-de-visite, do álbum do meu bisavô; a segunda formato cabinet, ou carte cabinet, comprada na feira de Estremoz
 
Ligações consultadas:

(*1) História da Fotografia em Portugal, no século XIX: os retratos "carte de visite” / Francisco Queiroz http://www.queirozportela.com/fotografia.htm

(*2) https://fr.wikipedia.org/wiki/Format_cabinet

(*3) https://pesquisa.auc.uc.pt/details?id=209256&ht=aur%c3%a9lio%7Cvasconcelos%7Cdireito%7C1900

(*4). https://pesquisa.auc.uc.pt/details?id=290604&ht=artur%7Cdireito%7C1900

(*5) https://digitalis.uc.pt/pt-pt/fundo_antigo/voz_do_porvir_hebdomadario_republicano_red_arthur_anselmo_ribeiro_de_castro_et_al

(*6). https://capeiaarraiana.pt/2014/09/21/78688/

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Resgatando fotografias do anonimato

 
Este retrato carte-de-visite não tem identificação do fotografo, do retratado, nem tão pouco uma dedicatória

Desde que uma prima minha me ofereceu dois álbuns fotográficos de família, constituídos mais ou menos entre 1865-1900, a identificação daquela galeria de personagens tornou-se mais ou menos uma obsessão permanente. Faço pesquisas em arquivos que possuem colecções de fotografia digitalizadas, consulto estudos genealógicos, escrevo e-mails a familiares ou descendentes dos retratados e publico notícias em fóruns e ainda dou voltas a cabeça, pensando que outros meios poderei encontrar para identificar aquelas personagens retratadas há quase 150 anos e das quais não há uma legenda, uma dedicatória, uma pista sequer, que me esclareça sobre quem foram e o que fizeram.
 
Este segundo retrato carte-de-visite também não apresenta qualquer identificação, mas trata-se da mesma pessoa que anterior fotografia
 

Muitos desses retratos fotográficos teimam em guardar os seus segredos, outros, aos poucos, vão se revelando e começam a ter um nome. Foi o que aconteceu com duas fotografias de um cavalheiro distinto, tiradas talvez em meados dos anos 60 do século XIX ou eventualmente já na década de 70 desse mesmo século. Os dois retratos não têm qualquer identificação da pessoa, do estúdio fotográfico, nem tão pouco uma dedicatória. No entanto, desde logo pareceu-me certo que os retratos eram da mesma pessoa e que se tratava de um Montalvão, pois o senhor apresentava o mesmo tipo fisionómico da minha trisavô, a Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão (1856-1902), e do seu irmão o General António Vicente Ferreira Montalvão (1840-1919). Enviei cópias destas duas fotografias, bem como a de um senhor em uniforme militar, à minha prima, Fernanda Montalvão Hof, bisneta do general e imediatamente reconheceu como seu bisavô o jovem militar, mas quanto ao personagem dos outros dois retratos, achou que seria certamente um Montalvão, mas não o identificou.
 

Os dois irmãos Montalvão, a Maria do Espírito Santo e o António Vicente. Os dois apresentam os mesmo traços de família, os olhos claros, o mesmo formato de orelhas.

Depois desta resposta, comecei a pensar que este senhor poderia ser o outro irmão da Maria do Espírito Santo e do António Vicente, o meu tio trisavô, Miguel Ferreira Montalvão (1838-1890), que morreu louco, rodeado de livros, um personagem acerca do qual sei tão pouco e tenho tanta curiosidade. Creio que todos nós temos sempre mais interesse pelos indivíduos, que saíram da normalidade social e este meu antepassado foi um desses casos. Começou a sua carreira muito bem, fez o curso de Direito em Coimbra, onde assistiu a umas das grandes revoltas estudantis, daquela universidade, a Rolinada (1864), regressou a Chaves, onde exerceu advocacia, foi administrador do Concelho, Juiz de Direito Substituto e em 1890, morre louco, rodeado de livros, sem querer ver ninguém. Era um homem culto e terá sido através dele, que o meu trisavô, Padre José Rodrigues Liberal Sampaio foi introduzido no Solar de Outeiro Seco, pois os dois partilhavam o gosto pelos livros e pela leitura. Claro, uma coisa leva à outra e o Padre acabou por se envolver com a irmã, relação da qual nasceu um filho, o meu bisavô, de que quem eu descendo. Isto é, se fizermos fé na obra 5 contos …em moeda corrente. . / Montalvão Machado - Porto: Livraria Progredior, 1961, que narra de uma forma muito romanesca os amores do padre e da fidalga.
 
Os símbolos militares
 
 
António Vicente Ferreira Montalvão

Porém, como a história nem sempre é aquilo, que nós desejávamos que ela fosse, resolvi pedir mais opiniões sobre os retratos deste cavalheiro ao meu amigo Humberto Ferreira, que além de ser sempre prestável, é um homem observador, um coleccionador de tudo o que diga respeito à fotografia e muito conhecedor dos assuntos de Outeiro Seco, Concelho de Chaves, onde viveram estes personagens que mencionei. O Humberto viu as fotografias e foi de opinião que no segundo retrato, o distinto cavalheiro envergava um traje militar, chamando-me a atenção para os botões do traje e para as mangas, idênticos ao do retrato de António Vicente Ferreira Montalvão, na altura um jovem alferes-aluno.
 
O símbolo da artilharia, a bombarda.
Resolvi então enviar cópia das imagens ao meu irmão, oficial reformado, que foi da mesma opinião do Humberto e ainda foi mais longe, identificando nos botões, o símbolo da artilharia, a bombarda. Portanto, estes dois retratos são efectivamente do António Vicente Ferreira Montalvão, cuja área militar, era precisamente a artilharia.


Fiquei satisfeito por ter resgatado mais duas fotografias do silêncio e do anonimato.

António Vicente Ferreira Montalvão (1840-1919)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Nereidas e Tritões por Charles Le Brun


Bem sei que esta estampa não foi propriamente uma pechincha, mas pareceu-me desde logo uma coisa com qualidade, com uma moldura adequada, pequenina e ficava a matar na minha sala de jantar e lá paguei a quantia pedida e voltei todo satisfeito para casa com ela dentro da mochila.
 
Representa um tema da mitologia clássica, o que serve bem para variar de tantos santos, cristos e virgens que decoram a minha casa. Enfim, tenho que começar a pensar nos meus filhos, que um dia herdarão a tralha toda da minha casa e não acham ainda grande graça à arte sacra.
 
Para tentar identificar esta estampa, fotografei-a primeiro e depois fiz up-load desse ficheiro no google imagens e mediante um clic o motor de busca vasculhou num minuto toda a internet e descobri imediatamente, duas ou três páginas com imagens iguais, que me permitiram identificar a gravura.
Folha de rosto da obra Recueil de divers Desseins de Fontaines et de Frises maritimes Inventez et dessignez par Monsieur Le Brun premier Peintre du Roy. Foto bibliothèque numérique de l’Institut National d’Histoire de l’Art
 
Na bibliothèque numérique de l’INHA (Institut National d’Histoire de l’Art ) percebi que esta estampa fez parte de uma obra, o Recueil de divers Desseins de Fontaines et de Frises maritimes, impressa em Paris, por Jean Audran em data incerta, embora naquela biblioteca francesa situem a sua publicação entre 1727-1756. Como o próprio nome indica, esta obra trata-se de um compilação de desenhos de fontes desenhadas pelo célebre Charles Le Brun (1619-1690) e que se destinavam originalmente aos jardins do Palácio de Versalhes, em França, mas que foram rejeitadas por serem demasiado barrocas, numa época em que o gosto do rei Luís XIV já tinha evoluído numa direcção mais clássica e sóbria. Com efeito, estes projectos para fontes de Le Brun são de um barroco muito romano, mas confesso que me delicio a imagina-las construídas.
 
Uma das imagens da obra Recueil de divers Desseins de Fontaines: a fonte de Perseu e Andrómeda. Foto de https://bibliotheque-numerique.inha.fr/
Esta estampa corresponde a um desenho de Charles Le Brun feito na segunda metade do século XVII e encontrava-se na última folha do Recueil de divers Desseins de Fontaines, onde além desta imagem constavam mais outras duas. Numa época que desconheço, alguém, talvez um alfarrabista retalhou o Recueil e vendeu as estampas em separado para fazer mais dinheiro.
A minha estampa fazia parte de uma folha com mais duas imagens. Foto de https://bibliotheque-numerique.inha.fr/
A gravura apresenta no canto inferior esquerdo as iniciais C.L.B., correspondentes ao nome Charles Le Brun, Contudo a leitura das iniciais seguintes C.P.R. confundiram-me um bocado, pois não correspondiam às do nome do impressor Jean Audran, nem do outro gravador, que colaborou na obra, Louis de Châtillon (1639-1734). Enfim, fiz mais umas pesquisas e percebi que C.P.R. são as iniciais da expressão latina, Cum Privilegio Regis, o que quer dizer, com o privilégio real. Enfim, por vezes esqueço-me que na primeira metade do século XVIII o latim era ainda uma língua de comunicação entre as pessoas cultas da Europa.
C.L.B. e C.P.R. Estas inicias são o desdobramento de Charles Le Brun cum privilegio regis
 
Como referi no início, esta estampa é uma representação de figuras da mitologia da antiguidade clássica, uma cena com Nereidas, isto é, umas ninfas marítimas, que aparecem normalmente montadas em golfinhos e os Tritões, outras divindades do mar, com metade do corpo humano e a outra metade peixe. No centro há uma concha, onde um putti, segura em cada mão uma flor de Liz, o símbolo real francês, certamente uma alusão à grandeza de Luís XIV, ao qual as nereides e os tritões vem prestar homenagem
Uma nereida
Uma alusão à grandeza de Luís XIV, ao qual as nereides e os tritões vem prestar homenagem
O tritão

É curioso observar que Charles Le Brun usou uma convenção artística vinda da antiguidade clássica para representar os tritões e as nereidas, conforme se pode comprovar em mosaicos de vilas romanas, que sobreviveram até aos nossos dias. Realmente houve temas artísticos que permaneceram imutáveis durante séculos.
Mosaico romano com a representação de uma nereida
 
Mosaico romano com a representação de um tritão
Em suma, esta estampa foi impressa em Paris entre 1727-1756, fazia parte da obra Recueil de divers Desseins de Fontaines et de Frises maritimes, realizada a partir de desenhos de Charles Le Brun da segunda metade do século anterior e evoca todos os esplendores do Grand Siècle, expressão, que designa o reinado de Luís XIV. 

Ligações consultadas:

https://bibliotheque-numerique.inha.fr/collection/item/36638-recueil-de-divers-dessins-de-fontaines-et-de-frises-maritimes?offset=1

http://arts-graphiques.louvre.fr/detail/oeuvres/1/207833-Fontaine-de-la-victoire-dApollon-sur-le-serpent-Python

https://library.princeton.edu/versailles/item/872

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Uma fantástica terrina Miragaia


Nos mercados de velharias, Miragaia é sinónimo de faiança azul e branca portuguesa antiga. Nas feiras de velharias, no olx, e até em alguns blogs, Miragaia é um prato azul e branco, gatado e com muitos sinais de uso. Se nele estiver representado um casario então é Miragaia sem sombra de dúvidas. Por vezes até nos tentam vender pratinhos toscos de Alcobaça e Coimbra, coisas nitidamente do início do século XX, como Miragaia, quando aquela fábrica terminou a sua laboração em 1850.

Então como como poderemos saber se o que nos estão a tentar vender é Miragaia ou não? Pergunta o paciente leitor deste blog. Consultando a bibliografia especializada, sobretudo o catálogo, Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional de Soares dos Reis, 2008, que é uma bíblia para este assunto, visitando museus com boas colecções de faiança daquela fábrica do Porto, como por exemplo o Museu Nacional de Arte Antiga ou Museu Nacional de Soares dos Reis e sobretudo através das marcas, que identificam inequivocamente uma peça como sendo de Miragaia, já que houve outras fábricas do Norte, que copiaram algumas decorações daquela Casa.



Talvez porque nos tentem vender tanta loiça pseudo-miragaia, que quando vemos uma peça autêntica desta marca, ficamos muito entusiasmados. Foi o que me aconteceu quando um seguidor deste blog, Tiago Araújo, me enviou por e-mail imagens de uma terrina sua, marcada Miragaia e absolutamente fabulosa.
A marca corresponde ao segundo período de laboração da Fábrica de Miragaia, 1822-1850

A marca corresponde ao segundo período de laboração da Fábrica, 1822-1850, e apresenta a célebre decoração País. No passado, País era sinónimo de paisagem e portanto este motivo ficou conhecido por esse termo. Como já escrevi em posts anteriores, a série País foi inspirada num padrão denominado View in Fort Madura da fábrica inglesa Herculaneum. Por sua vez esta fábrica tinha usado como fonte de inspiração as estampas do pintor paisagista inglês, Thomas Daniell, (1749-1840) publicadas entre 1795-1808, num álbum em 6 volumes, intitulado Oriental Scenery.

A série País foi inspirada num padrão denominado View in Fort Madura da fábrica inglesa Herculaneum, como se pode ver nesta fotografia.
Porém, esta terrina tem algumas particularidades, que a tornam um pouco diferentes das outras. Normalmente nos pratos, travessas e terrinas que conheço, há apenas a representação do pavilhão ou templete de inspiração indiana. Nesta terrina do Tiago Araújo, além do templete há uma ponte e um segundo edifício. Só tinha visto esta variante nos vasos ou urnas de jardim, que o catálogo Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional de Soares dos Reis, 2008 reproduz na página 230.


Mas talvez o mais invulgar desta peça, é o formato, que nunca tinha visto nas produções de Miragaia. É uma daquelas coisas onde pressentimos de imediato a influência da ourivesaria, nomeadamente das terrinas em prata, muito embora essa inspiração seja certamente indirecta. O mais certo é que quem concebeu o molde copiou uma terrina inglesa de faiança, que por sua vez se inspirou numa terrina em prata.

Formatos mais usuais de terrina Miragaia do segundo período de laboração da fábrica, 1822-1850. Fotos http://www.matrizpix.dgpc.pt
Esta terrina é uma peça muito boa, que o Tiago Araújo quis partilhar com a comunidade de amantes de faiança portuguesa, que consulta regularmente este blog.
É uma daquelas peças onde pressentimos de imediato a influência da ourivesaria,


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

A Anunciação: o arcanjo Gabriel ou votos de boas festas

Ave gratia plena
Os leitores mais assíduos deste blog já sabem que não sou muito dado a efemérides, comemorações e festas religiosas. Recordo-me de imediato de todas as redacções, que era obrigado a fazer na escola primária ou até mesmo no liceu, sobre o Natal, a Páscoa ou a Primavera. Sempre funcionei melhor com temas livres.

Contudo como não há regra sem excepção, este ano resolvi celebrar a época natalícia e desejar as boas festas aos pacientes leitores deste blog com uma estampa francesa dos finais do século XVII, representado o Arcanjo Gabriel, no momento em que anuncia a Maria, que será a mãe de Deus.

A estampa está assinada. Terá sido executada a partir de uma pintura de Charles Le Brun, gravada por Gilbert Filloeul e impressa em Paris por Jean Mariette no ano de 1695.
 
A legenda da estampa: Carol Le Brun pinx; a Paris chez. J. Mariette, grave para G. Filloeul,  1695 
Charles Le Brun (1619–1690) foi o principal pintor francês do Rei Luís XIV e notabilizou-se pelas suas pinturas para o Castelo de Versalhes, bem como na execução de cartões para tapeçarias.

Jean Mariette (1660-1742) pertencia a uma famosa dinastia de impressores e gravadores e imprimiu ou gravou cerca de 900 obras, executadas a partir das obras dos mais famosos pintores da sua época, tais como Nicolas Poussin, Domenico Zampieri, Charles Le Brun, Michel Corneille the Younger, Louis Chéron, Antoine Dieu, Guido Reni, A. Caracci, Sébastien Bourdon, Giovanni Contarini, e Van Dyck.

Gilbert Filloeul (1661-1714) foi um gravador francês, figura um pouco mais obscura, que Charles Le Brun ou Jean Mariette e segundo o Inventaire du fonds français, graveurs du XVIIe siècle de Roger-Armand Weigert, usava muitas vezes as gravuras de mestres mais famosos para produzir as suas estampas. Notabilizou-se mais pela divulgação das obras dos grandes gravadores e impressores do que propriamente pelas suas qualidades artísticas.

Tendo chegado a este ponto da identificação da estampa, achei que já tinha o trabalho quase feito e que só me faltava identificar a partir de que pintura de Charles le Brun esta gravura foi executada.

Fui procurar nos manuais e percebi logo que a coisa não era assim tão simples. Na obra de Henry Jouin Charles le Brun et les arts sous Louis XIV.Paris : Imprimerie Nationale, 1889 descobri que esta gravura teve por base uma encomenda recebida por Charles Le Brun, uma pintura da Anunciação, para a Igreja dos Petits Péres de Nazareth e que nunca chegou a entregar. As gravuras inspiradas neste trabalho dividiram a obra em duas partes, uma para o Arcanjo Gabriel, outra para a Virgem. Portanto, algures por esse mundo fora existe outra estampa, que faz “pendant”, com esta estampa do meu amigo Manel.
 
O desenho da Biblioteca Nacional de França que poderá ter inspirado a gravura de Gilbert Filloeul

No entanto, terão existido ensaios ou esboços dessa pintura da anunciação, que deram origem às gravuras. Jennifer Montagu, no artigo The Unknown Charles Le Brun: Some Newly Attributed Drawings (*1), descobriu um desenho na Biblioteca Nacional de França, atribuído aquele pintor francês e que relacionou com as gravuras existentes. Segundo essa especialista este desenho seria um dos esboços para essa Anunciação da Igreja dos Petits Péres de Nazareth. Jennifer Montagu refere ainda uma estampa, que entretanto se perdeu e que seria uma versão mais original do projecto de Le Brun e publica duas gravuras, mais antigas do que aquela que apresento hoje, feitas por Gilles Rousselet, baseadas também nessa composição, mas que igualmente a dividem em duas partes.
 
Estampas de Gilles Rousselet inspiradas na obra projectada para a Igreja dos Petits Péres de Nazareth
 
Na internet, encontrei mais uma referência a esta anunciação de Charles Le Brun, na obra Dessins français du XVIIe siècle: Inventaire de la collection de la Réserve/.Por Damien Chantrenne‎, Pascale Cugy, Maxime Préaud , em que os autores reproduzem o desenho da Biblioteca Nacional de França e ainda a gravura que se julgava perdida. Os autores são de opinião, que o desenho apresenta uma execução um pouco seca, que poderá explicar-se pelo facto de o desenho ter sido concebido já com o objectivo de ser traduzido em gravura, mas também os leva a interrogarem-se se a obra é realmente de Charles Le Brun.
 
Estampa da Biblioteca Nacional de França e que será aquela que reproduz melhor a composição de Carles Le Brun
Enfim, como acontece muitas vezes em história, não é possível fazer conclusões definitivas sobre a obra de Le Brun, que inspirou esta gravura do Arcanjo Gabriel. No entanto, é uma estampa de qualidade muito superior às gravuras de Rousselet e o ramo de Açucenas, que o Arcanjo segura na mão, dá-lhe um encanto muito especial, muito adequado para oferecer aos meus leitores este Natal.
 
As açucenas
(*1), Master drawings, vol.1, nº 2 (1963), p.40-47

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Os irmãos Sampaio Mariz e as suas relações com o Padre Liberal Sampaio e Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão

Maria Cândida de Sampaio Mariz. Photographie française Celestin Benard, Porto
Continuo nos meus trabalhos de identificação do álbum de fotografias carte-de-visite, formado pelo meu trisavô, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio, durante o último quartel do século XIX.  Este álbum fotográfico é uma fonte importante para a história da família Montalvão, mas também para a história de uma comunidade, já que dele consta toda uma galeria de retratos de senhoras e senhores, que viveram no Concelho de Chaves ou noutras localidades do distrito de Vila Real, mais ou menos entre 1870-1900 e que faziam parte das relações sociais e de amizade do Padre Liberal Sampaio ou da família Montalvão.
 
Luiz António de Sampaio Mariz. Fotografia de Narciso Alves Correia, Vila Real
Desta galeria fotográfica constam três personagens, cujos nomes estão identificados com a letra miudinha do meu trisavô e que obviamente pertenciam à mesma família. O primeiro é o retrato de uma Senhora, Maria Cândida de Sampaio Mariz, acompanhada de duas meninas, provavelmente as filhas, o segundo e o terceiro são dois distintos cavalheiros, fisicamente parecidos, Frederico Augusto de Sampaio Mariz, Luiz António de Sampaio Mariz.
Frederico Augusto de Sampaio Mariz. Fotografia de Narciso Alves Correia, Vila Real
Calculei de imediato que o Frederico Augusto e o Luiz fossem irmãos, mas não tinha provas nenhumas disso. Quanto à Maria Cândida tanto poderia ser a mulher de um deles, como irmã ou uma prima muito próxima. Através de meia dúzia de pesquisas na net percebi que os Sampaio Mariz eram os morgados de Água Revés, uma localidade no actual Concelho de Valpaços, mas no site geneall.com só encontrei referências a Frederico Augusto de Sampaio Mariz e seus descendentes. Muni-me então de paciência e resolvi tirar o assunto a limpo, esquadrinhando os livros de registo de baptismo da paróquia de Águas Revéz entre 1840-1855, anos em que eu calculava, que tivesse nascido esta gente, já que as fotografias presumivelmente foram tiradas entre 1870/80. Mas, desgraçadamente, os livros de baptismo dessa época terão apanhado humidade, o bolor corroeu-lhes os cantos e apresentam-se truncados, de modo que, ao fim de uma ou duas horas, agastado, desisti dessa pesquisa.
 
O assento de nascimento da Sra. D. Maria Cândida do livro de baptismo da paróquia de Água Revez, Arquivo Distrital de Vila Real
Ao mesmo tempo, que desenvolvia estas pequenas investigações, coloquei no forúm do site geneall, no tópico famílias transmontanas, um post comunicando, que possuía fotografias da família e que estava disposto a enviar cópias digitais aos descendentes, em troca de informações sobre as personagens retratadas. O post foi ficando esquecido meses e meses e mais meses, até que um trineto de um destes personagens me respondeu, e amavelmente enviou-me informações detalhadas sobre os três retratados.
 
O solar dos Sampaio Mariz em Águas Revez, Valpaços, Distrito de Vila Real. Fotografia retirada de http://retratosdevalpacos.blogspot.com/2016/03/casa-mariz-sarmento-e-capela-de-sao.html

A Maria Cândida, o Frederico e o Luiz António eram irmãos, filhos de Frederico de Sampaio Mariz Sarmento e Castro e D. Maria Madalena de Gouveia Morais Sarmento e a família residiu em Água Revés, Vilas Boas e no Amedo. Portanto, os filhos foram baptizados em paróquias diferentes e por essa razão eu não consegui reconstituir esta família através dos registos de Águas Revez. As casas onde residiram estas famílias ainda estão em pé. O solar de Água Revés foi restaurado, o do Amedo, no concelho de Carrazeda de Ansiães, embora esteja ainda em fase de recuperação, conserva toda a sua dignidade de velha casa familiar.
A casa dos Sampaio Mariz, no Amedo, Carrazeda de Ansiães, Distrito de Bragança. Fotografia de http://amedo-pt.blogspot.com/2019/06/casas-transmontanas-dos-ansiaes-de-mariz.html

A Sra. D. Maria Cândida nasceu em Maio de 1843 na paróquia de Água Revez e casou com 20 anos, a 9 de Setembro de 1863, em Marzagão, com João António da Veiga Mariz e Castro, seu primo, dali natural. Sobre as duas meninas nada se sabe.
 
Maria Cândida de Sampaio Mariz. Photographie française Celestin Benard, Porto

Conforme se pode ver no verso, o retrato desta senhora e crianças foi feito na Photographie française Celestin Benard, no Porto, que tinha o seu estúdio no 247, na Rua de Santa Catarina no Porto. Este dado permite datar de algum modo a fotografia. Será posterior a 1872, pois nesse ano o Celestin Benard mudou o seu estúdio do nº do 128 para o nº 247, e anterior a 1890, data em que este fotógrafo terá cessado sua a actividade. Nesta imagem a Sra. D. Cândida parece ter no máximo uns trinta e poucos anos, portanto se nasceu em 1843, o mais natural é que a fotografia tenha sido tirada à volta dos anos de 1872-1875 (*1).
Verso da fotografia de Maria Cândida de Sampaio Mariz. Photographie française Celestin Benard, Porto, Rua de Santa Catarina, 247
Nesta sessão fotográfica longamente encenada, como todas as fotografias o eram na época, a Sra. D. Maria Cândida está sentada, a cabeça coberta por um véu e segura um livrinho na mão, como se tivesse acabado de sair de uma cerimónia religiosa, dir-se-ia quase, que estava de luto, mas eu não conheço suficientemente bem os códigos de vestuário da época, para afirmar tal coisa. Talvez o livro fosse um simples álbum fotográfico vendido pelo estúdio, mas a ideia seria que representasse um missal, mostrando a todos, que recebessem esta fotografia, que a Sra. D. Cândida era um mulher devota, mas também suficientemente instruída para assegurar uma boa educação aos seus filhos.

Quanto aos senhores, Frederico Augusto de Sampaio Mariz e Castro, nasceu na freguesia de Vilas Boas, concelho de Vila Flor, a 22 de Fevereiro de 1851. Casou na freguesia de Amedo, do concelho de Carrazeda de Ansiães, 1880, com sua prima sua, D. Carlota de Jesus de Sampaio Mariz. Foi o 9º morgado de Água Revés e do Amedo. Fez uma carreira importante no município de Carrazeda de Ansiães. Foi vice-presidente da Câmara no ano de 1881, 1882, 1884 e em 1918 e também vereador em 1886, 1890, 1899 e em 1923. Faleceu em 1932.

Luís António de Sampaio Mariz e Castro nasceu e foi baptizado em Água Revés. Com 21 anos, em 1874, casou com D. Carolina Amália Morais Pinto de Magalhães. Terá morrido em 1930 ou 1931, pois o Arquivo Distrital de Vila Real conserva um processo de inventário obrigatório dos seus bens datado de 1931 (PT/ADVRL/JUD/TJCCHV/C-C/082/947)
 
Verso das fotografias Luiz António e de Frederico Augusto de Sampaio Mariz. Fotografia de Narciso Alves Correia, Vila Real, Rua Direita, nº36-40
 
Os dois retratos destes senhores foram feitos por Narciso Alves Correia, que abriu na década de 70 do século XIX o primeiro estúdio fotográfico em Vila Real. Este senhor era um homem multifacetado, que se dedicou à tipografia, à relojoaria, à metrologia, à fotografia e ainda tinha um estabelecimento onde vendia desde lunetas a flores artificiais. O Museu do Som e da imagem conserva na sua colecção uns quantos retratos carte-de-visite, em tudo semelhantes aos de Luís António e de Frederico Augusto e datados dos primeiros anos da década de 1870 do século XIX, portanto é possível estas duas fotografias sejam também desse período(*2).
 
Embora tenha conseguido identificar estas três personagens, não consegui reconstituir as relações, que estabeleceram com os meus antepassados. Nestes meados dos anos 70 do século XIX certamente que eram boas, de outra forma estes retratos não constariam do velho álbum de família. A fotografia ainda era demasiado cara nesta época para se desperdiçar com amizades de ocasião. Talvez os irmãos Sampaio Mariz fossem das relações da minha trisavó, a Maria do Espírito Ferreira Montalvão. Os Montalvões e os Sampaio Mariz eram gente do mesmo meio social, fidalguia rural, quem sabe se vagamente aparentados, e era natural, que se conhecessem e visitassem. Outra hipótese é que estes irmãos teriam conhecido o meu trisavô, o padre José Rodrigues Liberal Sampaio por ocasião de uma das suas pregações. Este meu antepassado era um pregador muito apreciado no seu tempo, chamado para todas as terras do  País e poderia ter conhecido estes irmãos por ocasião de umas dessas prédicas e ter ganho a sua estima.
 
Contudo, o mais curioso disto tudo, é que houve outro irmão destes Sampaio Mariz, João Evangelista, que residiu em Chaves e foi vereador da câmara daquela cidade em 1885, 1886, administrador do Concelho em 1887 e entre 1897 e 1898 responsável pela polícia de Chaves (*3) e que seguramente privou com o meu trisavô, Liberal Sampaio, também envolvido na política local, por esses anos, e muito provavelmente conheceu também Maria do Espírito Santo Ferreira Montalvão. No entanto, desse irmão não consta nenhuma fotografia do velho álbum familiar.
Maria Cândida de Sampaio Mariz. Photographie française Celestin Benard, Porto
 
Em suma, apesar de ter conseguido saber quem realmente foram estes irmãos Sampaio Mariz, a natureza das relações que mantiveram com a minha família, continuam uma incógnita. Parece que estas velhas fotografias teimam sempre em manter alguns dos seus segredos e com isso o fascínio, que exercem sobre nós.
 
(*1) Dados recolhidos em A Casa BIEL e as suas edições fotográficas no Portugal de Oitocentos/ Paulo Artur Ribeiro Baptista. Lisboa: Edições Colibri; Universidade Nova de Lisboa, 2010
 
(*2) Dados recolhidos em Narciso Alves Correia: a fotografia em Vila Real na década de 1870 / Elísio Amaral Neves. Vila Real: Museu do Som e da Imagem, 2011. – (Cadernos do som e da imagem; 8)
 
(*3) História moderna e contemporânea da Vila de Chaves através das actas e jornais da época / Júlio Montalvão Machado. – Chaves: Grupo Cultural Aquae Flaviae, 2012
 
Um especial agradecimento ao trineto de um destes irmãos Sampaio Mariz, que amavelmente me cedeu os dados biográficos dos seus antepassados.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Um relógio Waterbury


O meu amigo Manel tem a mania dos relógios antigos. Nas duas casas dele, há relógios de todos os tipos e feitios e por toda a parte, nas salas, nos quartos, nos corredores e sei lá onde mais. Quando tocam, há uma verdadeira sinfonia de badalos, uns que parecem sinos de igreja, e outros com toques subtis, próprios de casas de gente educada e discreta. Talvez esta mania dos relógios se explique por um certo gosto pela rotina, que marca a personalidade do Manel. Com efeito, estes instrumentos definem metodicamente um quotidiano, que se repete dia após dia e cujos passos decorrem às mesmas horas. Porém, desconfio que a verdadeira paixão dele pelos relógios tem a ver com os mecanismos e os segredos das engrenagens que os fazem funcionar. Com efeito, mal compra um destes objectos, o Manel, desmonta-os integralmente, repara o mecanismo, compra as peças em falta nas feiras de velharias ou nos poucos relojoeiros, que restam ainda na cidade, restaura a caixa de madeira e tudo aquilo lhe dá uma enorme satisfação.

Um dos relógios, que mais acho graça da colecção do Manel é um Waterbury, do tipo relógio de capela, aquilo que os americanos designam por Sharp Gothic. Tem ainda a etiqueta original do fabricante, colada por dentro da caixa, o que nos permite datar o relógio aí por volta da década de 70 do século XIX.
 
A etiqueta original permite datar o relógio por volta por volta da década de 70 do século XIX.
Há um site só dedicado à Waterbury, onde se ensina a datar os relógios pela etiqueta original de fabrico, cujo endereço disponibilizo http://www.antiquewaterburyclocks.com/Waterbury-Clock-Labels.php, pensando ser útil às pessoas, que lá em casa tem relógios desta marca, tão populares nas Américas e na Europa no último quartel do século XIX, já que nesse período, os fabricantes americanos invadiram o mercado dos relógios de parede ou de mesa, com os seus produtos baratos, produzidos industrialmente.
 
 
Mas o mais encantador deste relógio é que tem uma espécie de decalcomania, colada por dentro no vidro, com uma representação de uns meninos jogando à cabra-cega. Os petizes estão vestidos à maneira do século XVIII e recordam algumas das gravuras que Bartolozzi executou a partir dos desenhos de William Hamilton (1751–1801).
 
Blind man's Bluff de William Hamilton (1751–1801). British Museum
Contudo, o mais provável é que a fonte de inspiração seja a cabra-cega, um cartão que Francisco Goya executou em 1789 para uma tapeçaria. Os meninos descrevem uma roda à volta da menina vendada, numa composição muito semelhante à La gallina Ciega de Goya.
 
.A cabra-cega de Goya. Museu do Prado. Foto wikipedia

Creio que na casa ou nas casas por onde este relógio andou, terá feito  as delícias de gerações de crianças. Talvez imaginassem, que abrindo a porta de acesso ao mecanismo, houvesse lá dentro um mundo em miniatura, onde viveriam os meninos que jogavam à cabra-cega.