domingo, 11 de outubro de 2020

No tempo das cerejas: uma imitação de Meissen


O meu amigo Manel comprou recentemente este conjunto em porcelana, representando uma cena campestre em que três galantes jovens apanham cerejas, enquanto dois querubins assistem. É uma cena muito ao gosto do século XVIII, no tempo em que a rainha Maria Antonieta de França e os seus amigos mais próximos, brincavam aos camponeses na pequena aldeia, que aquela soberana mandara construir nos parques de Versalhes, o hameau de la Reine. Até as roupas destas pequenas figuras em porcelana sugerem esse período. 


Por exemplo, umas das jovens, enverga um chapéu de palha, adereço que a pintora Élisabeth Vigée Le Brun usou num auto-retrato e que depois Maria Antonieta tornou moda entre todas as elegantes da Europa.

Retrato da Condessa de Verdun por Élisabeth Vigée Le Brun. Museu Nacional de Arte Antiga

Esta cena provavelmente inspirou-se num das obras de François Boucher 1703-1770 La cueillette des cerises, ou numa tapeçaria de de Jean Baptiste Huet, executada a partir de uma obra de Boucher.

François Boucher 1703-1770 La cueillette des cerises

Na parte de trás da peça, apresenta uma marca com as espadas cruzadas de Meissen, essa prestigiosa fábrica de porcelana alemã, que celebrizou e popularizou as figurinhas de porcelana toda a Europa.



As marcas da peça

Mas o Manel e eu sabíamos de antemão, que esta figura de porcelana não era do século XVIII, nem tão pouco de Meissen. Porcelanas do século XVIII e sobretudo Meissen não se apanham em mercados de velharias. São peças raras e que atingem preços muito elevados nos bons antiquários. Presumimos desde logo, que fosse uma peça dos finais do XIX ou inícios do XX, produzida na Alemanha, na região do Saxe ou da Turíngia, imitando as figurinhas de Meissen, destinada à boa burguesia, que queria também ter no seu lar essas figuras de porcelana, à semelhança das residências aristocráticas, onde existia normalmente um salão só para exibir essas colecções, as chamadas salas do Saxe.


Pessoalmente achei de imediato que esta peça seria da Volkstedt, que nos finais do XIX e inícios do XX produzia muitas figurinhas destas, imitando o período de ouro de Meissen, usando algumas marcas inspiradas nas célebre espadas cruzadas daquela prestigiosa fábrica. 

Procurei na internet saber quais as marcas usadas pela Volkstedt, mas não havia nenhuma igual a esta e pesquisei no google por cherry pickers em combinação com german pocelain figurines mas não me apareceu nada igual. Só uma figurinha genuína de Meissen, do século XVIII, representado uns jovens galantes, apanhando cerejas, mas não tinha nada a ver com esta peça do Manel. Apenas confirmei que a peça do meu amigo Manel era uma imitação de Meissen.


Uma genuína peça de Meissen

Decidi então consultar alguma bibliografia, pois nem tudo se encontra na internet e abri a obra German porcelain / by W. B Honey. - London : Faber and Faber, 1947, suspeitando que houvesse um capítulo dedicado às imitações e de facto na página 46 há uma entrada sobre marcas semelhantes às espadas cruzadas de Meissen, onde consta uma marca igual à peça do Manel, atribuída ao fabricante francês Samson, de Paris. 

German porcelain / by W. B Honey. - London : Faber and Faber, 1947

Refiz então a minha pesquisa na internet por Samson, Cherry pickers e com efeito encontrei uma peça igual à esta num antiquário francês o Biscardieux Bordeuax, marcada com umas espadas de Meissen e identificadas com sendo da Samson, dos finais do século XIX. Fiz mais umas pesquisas aqui e acolá em sites de vendas de antiguidades e confirmei, que todas as figurinhas de porcelana marcadas com as espadas cruzadas, mas com um tracinho ao meio eram da Samson, Edmé et Cie, fábrica fundada em 1845 em Paris e que se dedicou a imitar as cerâmicas mais prestigiadas e mais procuradas do mercado de então, fossem elas porcelanas chinesas da família rosa ou verde, japonesas ou europeias como Worcester, Chelsea, Sèvres e Meissen ou ainda a majólica italiana. Há até uma certa discussão entre os peritos se esta firma Samson, Edmé et Cie fabricava cópias ou verdadeiras falsificações. Em todo o caso, muitas dessas peças foram vendidas como originais ao consumidor menos atento.


Peça à venda em http://www.briscadieu-bordeaux.com/

Peça à venda em http://www.briscadieu-bordeaux.com/

Relativamente à figura de porcelana do Manel ela é afinal francesa, fabricada pela Samson, Edmé et Cie provavelmente dos finais do XIX ou inícios do XX. Imita sem dúvida a porcelana de Meissen e evoca esse século XVIII francês, libertino e galante.


Alguma bibliografia e links consultados:

German porcelain / by W. B Honey. - London : Faber and Faber, 1947

https://en.wikipedia.org/wiki/Edm%C3%A9_Samson

http://www.briscadieu-bordeaux.com/html/fiche.jsp?id=8479872&np=2&lng=fr&npp=100&ordre=2&aff=1&r=

https://www.catawiki.com/l/19759181-samson-meissen-porcelain-group-paris-late-19th-century



quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Décimo primeiro aniversário do blog velharias do Luís

Um aspecto da minha sala de jantar

A 30 de Setembro de 2009 iniciei o blog velharias do luís e ao longo destes 11 anos tenho escrito regularmente novos textos e novas publicações, é certo que nos últimos tempos com uma periodicidade mais espaçada. Como o próprio nome indica, é um blog sobre velharias, antiguidades, historia e memórias familiares

Por vezes quem está ai do outro lado do monitor, pergunta-me se eu sou saudosista ou se vivo mais no passado que no presente. Naturalmente que um blog sobre velharias é sempre uma coisa mais virada para o passado e com uma conotação algo saudosista. A minha formação académica é em história e sou bibliotecário num museu e digamos que a conservação da memória do passado faz parte da minha profissão. Vivo rodeado de livros escritos por gente que já morreu ou por objectos executados há mais de cem anos, duzentos ou trezentos anos. Mas o que aqui escrevo é a minha versão pessoal do passado, de uma forma livre e sem preocupações de usar uma linguagem académica.

A minha trisavô. No último quartel do século XIX a esperança de vida era baixa, mesmo entre a fidalguia.

Tive talvez a sorte de ter nascido numa família antiga, com um passado histórico de quatro séculos. Mas isso poderia não querer dizer nada. Há muita gente com apelidos sonantes e que se está nas tintas para a história. Digamos que para elas um bom apelido é como se fosse uma gravata Armani ou Yves St. Laurent. Mas na família paterna havia um gosto pela história, que remonta ao meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio e que me foi transmitido pelos meus avós e depois pelo meu pai. Continuei essa tradição aqui e evoco muitas vezes esse passado familiar, um tempo que já não conheci, talvez de uma forma algo idealizada. O passado empresta sempre uma certa patina romântica aos acontecimentos, o que por vezes não corresponde à realidade, que era bem mais crua e cruel. Recentemente, andei outra vez às voltas, com a vida da minha trisavó, a Maria do Espírito Santo, uma personalidade interessante, que manteve uma ligação amorosa com um padre e descobri que quer ela, quer os seus pais e a maioria dos seus irmãos morreram antes dos cinquenta e poucos anos. No terceiro quartel do século XIX, mesmo entre uma família abastada e fidalga a esperança de vida era baixa e os cuidados médicos incipientes. Não acredito de todo que os tempos passados tenham sido melhores que os de hoje. Também não tenho qualquer nostalgia da minha adolescência passada num bairro incaracterístico e mesquinho de Lisboa, onde todos viviam segundo as regras do parece bem e do parece mal e do quê é os outros vão pensar, nem tão pouco me apetece recordar a escola primária, onde a tabuada era aprendida à custa de estaladas e reguadas.

Não vivo no passado e não serei um saudosista, mas acredito na importância de conservar a memória daquilo que já passou. Como a Yourcenar escreveu na obra De olhos abertos, "Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana".

Alguns retratos de família


terça-feira, 22 de setembro de 2020

A varanda do adeus

Tenho muitas fotografias da minha avó materna, tiradas em vários momentos da sua vida, na infância e na idade adulta, mas esta apresenta-a mais ou menos com a idade com que ainda a conheci, com cerca 70 e pouco anos. Morreu em 1969 e era eu miúdo, teria uns seis anos. Aliás, nem sei se me recordo ainda desta avô, ou se a memória que dela tenho foi construída a partir desta fotografia, que se encontra na casa de Vinhais e que me habituei a ver nos quarto dos meus pais desde sempre. A nossa memória de acontecimentos da infância é muitas vezes enganadora e confundimos filmes e fotografias, ou relatos que ouvimos repetidas vezes acerca desta ou daquela pessoa com as nossas próprias recordações. Em todo o caso, este plano, este cenário, de alguém debruçado na balaustrada da varanda sempre foi muito usado nas fotografias da família. Creio que há fotografias de quase todos os membros da família, de quatro gerações seguidas, debruçados nesta balaustrada e tiradas por alguém, que está cá em baixo. Em todas as grandes casas de família há sempre uns cenários preferidos para as fotografias e encontramos instantâneos tirados no mesmo sítio ao longo de 40 ou 70 anos. 

A localização em que a minha avó Adelaide (1894-1969) se encontrava nesta fotografia era também um sítio preferido pela família para saudar alguém, que chegava ou alguém que partia. Quando chegávamos de Lisboa, depois de uma viagem indeterminável de 550 km por estradas nacionais, cheias de curvas e buracos, havia sempre alguém que assomava à varanda para nos receber e saudar. Da mesma forma, quando terminávamos as férias e partíamos de Vinhais, havia também gente naquela varanda para se despedir. Creio que ali vi a avó Adelaide, provavelmente pela última vez na minha vida, a tia Maria Adelaide, a tia Chica e a minha própria mãe na varanda a dizerem-nos adeus. Enquanto tinham saúde, desciam cá em baixo para de despedirem, depois quando envelheciam e lhes custava a andar, ficam lá em cima na varanda a fazerem as suas despedidas.

Nesta imagem, os olhos da minha avó parecem estar prestes a encherem-se de lágrimas, o que reforça a mais a sensação de que a fotografia foi feita numa dessas emotivas despedidas de filhos e netos, que partiam para Lisboa, para o Porto, Luanda ou até para o Rio de Janeiro. Na verdade, talvez não seja a partida de mais uma filha ou filho a razão do seu ar triste, pois a minha avô, tinha o saco lacrimal roto. Recordo-me de uma vez a minha tia Maria Adelaide me ter mostrado o lencinho todo amarrotado, que a sua mãe usou ainda para enxugar as lágrimas, umas horas antes da sua morte súbita. Estava guardado como uma pequena relíquia, numa caixinha da cómoda do quarto grande. A tia Maria Adelaide nunca o lavou, pois queria guardar as últimas lágrimas da mamã. Recentemente, já passados muitos anos, mas muitos anos mesmo, lembrei-me de procurar esse pequeno lenço com as últimas lágrimas da minha avó na cómoda do quarto, mas já não o encontrei. Creio que a Tia Chica ou a minha mãe, que eram menos sentimentais e mais práticas, mandaram lavar o pequeno lenço e arrumaram-no numa gaveta qualquer.

Este Verão quando regressei a Vinhais, resolvi digitalizar esta fotografia e tê-la comigo, pois é uma imagem muito emotiva, que simboliza esse tempo em que existia sempre alguém a saudar-nos ou despedir-se de nós na varanda da casa de Vinhais. Hoje a casa está vazia durante o ano inteiro e só a abrimos nas férias durante uns breves quinze dias. No momento da partida, quando olhamos lá para cima, para a varanda, não há ninguém a a dizer-nos adeus. Para trás deixamos o silêncio e as ausências de uma grande casa familiar nos seus últimos anos de vida.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Uma jarra arte nova da Volkstedt



Apresento hoje uma jarra que o meu amigo Manel comprou recentemente na Feira de Estremoz. É da conhecida marca alemã, Volksted. Contudo, ao contrário dos outros objectos dessa fábrica alemã já apresentados neste blog, que são neo-barrocos ou neo-rocaille, esta jarra é arte nova, um estilo, que começou pouco antes de 1900 e que rompeu com todos os revivalismos, que dominaram a produção das artes decorativas ao longo de todo o século XIX. Com efeito, até 1900, as chávenas eram neo-clássicas, a ourivesaria neo-barroca, as cadeiras neo-góticas e os relógios neo-renascença. Pouco antes de 1900, os artistas procuram um estilo mais livre, influenciado pelas formas da natureza, com qualquer coisa de novo, que não fosse uma mera repetição dos estilos do passado.



É o caso desta jarra, onde se vai buscar um tema da mitologia clássica, uma Nereida, uns putti, e um golfinho, mas numa composição muito fluida cheia de movimento. A técnica usada foi o que os ingleses chamam o jasperware, um biscuit, em que os elementos humanos ou florais, se destacam da peça através de uma cor diferente, normalmente mais clara que a do fundo, procurando reproduzir o efeito de um camafeu. A forma de representar a Nereida rompe de alguma forma com as convenções do classicismo. Em vez de uma virgem da estatuária greco-romana, esta dama está penteada muito à moda de 1900 e posa de uma forma lânguida sobre uma espécie de concha. Tal como as figuras dos baixos-relevos gregos ou romanos não está propriamente nua. Veste uma túnica num tecido qualquer coleante e transparente, aquilo que os franceses chamam um desabillé, revelando umas formas algo opulentas para o gosto de hoje.

As nereidas costumas ser acompanhas por golfinhos
Com efeito, cerca de 1900 as mulheres queriam-se cheias. Nesses primeiros anos do início do século XX, a modista Coco Chanel ainda não tinha conseguido impor o seu estilo de vestuário, desenhado para mulheres franzinas como ela, nem nos anos 30, a Wallis Simpson tinha dito a célebre frase nunca se é demasiado rica nem demasiado magra.

A marca da Volkstedt
Fabricada por volta de 1900, esta jarra arte nova da Volkstedt acaba por ser um testemunho histórico, de um tempo em que as mulheres não faziam areóbica, musculação, jogging e não sabiam tão pouco o que era iogurte sem lactose  ou pão sem glúten.


sexta-feira, 17 de julho de 2020

Globe de mariée

 
Hoje apresento-vos a última peça que o meu amigo Manel comprou, um globe de mariée, ou globe à mariage, ou traduzido à letra, um globo de casamento. Basicamente é uma pequena estrutura em madeira e latão, onde se guardavam as recordações do casamento, bem como dos momentos mais importantes da vida de um casal, protegidos do pó por uma campânula de vidro.

Já tinha tomado conhecimento destas peças meramente por acaso, numa pesquisa que há uns anos fiz na internet sobre umas caixinhas francesas em latão e vidro e fiquei maravilhado com estes globos, tão fantásticos, quanto inúteis, mas achei, que correspondiam a um costume francês e que nunca tivesse chegado a Portugal.
 
Os globe de mariée foram muito comuns em França. Imagem retirada de https://www.objetsdhier.com/globe-de-mariee-1391

Porém há uns dois anos vi um destes globos de casamento à venda no Olx, voltei a encontrar outro na Feira de Velharias de Estremoz e ainda um terceiro, também na mesma feira, que convenci o meu amigo Manel a comprar.

Pelos vistos esta moda de encomendar estes globos por ocasião do casamento, que decorreu em França entre 1850 e 1930 acabou por chegar a Portugal. Se pensarmos bem é muito natural que isso tenha acontecido. Entre 1850 e 1930 a França era o grande centro cultural, artístico e económico da Europa e enfim, do mundo inteiro. As pessoas instruídas liam revistas e jornais em francês. Os mais abastados viajavam até Paris, a cidade da luz, iam a banhos a Biarritz, faziam uma cura de águas em Vichy ou peregrinavam até Lourdes e claro, voltariam carregados de roupas, chapéus, perfumes, livros, vinhos e talvez estes globos,para oferecer a um jovem noiva. Na época também já existiam catálogos de venda por correspondência de firmas francesas, que chegavam a Portugal. Lembro-me que o meu bisavô tinha um desses catálogos, publicado um pouco antes da guerra de 1914-1918 por ma casa comercial em St. Etienne, uma cidade muito industrial, perto de Lião. Era um catálogo fabuloso, que nós em miúdos adorávamos ler, pois vendia de tudo, desde armas a automóveis, passando por aquários, bengalas e chapéus. Portanto é bem possível, que alguns desses globos chegassem a Portugal por encomenda.
No globe de mariée apresentavam-se objectos que simbolizavam a vida do casal, como os sapatos usados pela noiva no dia do seu casamento. Imagem retirada de https://www.objetsdhier.com/globe-de-mariee-1391
Seja como for a forma como esta peça entrou em Portugal, os globes de mariée estiveram em voga em França entre 1850 e 1930 e a sua primeira função era guardar a coroa de flores da noiva ou o bouquet. Depois acrescentavam-se pequenas coisas que simbolizavam os momentos da vida casal, fotografias do casamento ou dos filhos, a madeixa do cabelo de uma criança morta demasiado cedo, o sapatinho, que a noiva usou no casamento ou o carnet de baile, onde ficou anotada a primeira dança. Deste conjunto podiam constar também medalhas benzidas ou uma condecoração de guerra.
 
A ornamentação era carregada de simbolismos.
Os globes de mariée apresentam formas variadas, pois correspondiam muitas vezes a uma encomenda personalizada e ao longo do tempo foram sendo adaptados pela família, mas normalmente são constituídos por uma base em madeira, uma estrutura em latão dourado artisticamente trabalhado, espelhinhos e um pequeno coxim em veludo ou seda vermelha. Muitos destes elementos tem um significado simbólico, por exemplo os espelhos serviam para devolver o mau-olhado de volta, as folhas de vinha em latão representavam a fecundidade. Todos eles têm em comum serem protegidos do por uma campânula em vidro muito fininho.

Normalmente os globos de casamento eram colocados em cima da cómoda do quarto do casal, sobre a chaminé da sala de visitas ou noutro ponto qualquer de destaque da casa.
 
O Globe de Mariée do meu amigo Manel foi usado para mostrar uma colecção de antigos alfinetes de chapéu

Quanto a peça do Manel, não apresenta os objectos típicos do Globe de Mariée. Não sabemos se com o tempo alguém se lembrou de retirar todos esses objectos, que recordavam a vida de um casal, morto e esquecido há muito, ou se quem o recebeu como oferta no dia do casamento não lhe deu a utilização devida, pois nem todas as pessoas tem feitio ou vocação, para coleccionar recordações. Na prática, ó último proprietário usou esta peça para mostrar uma colecção de antigos alfinetes de chapéu, que também tem o seu encanto.

Em suma, este globe de mariée terá sido muito provavelmente feito em França na segunda metade do século XIX ou nos primeiros trinta anos do séc. XX, destinado a guardar as pequenas relíquias familiares de um casamento, mas estas desapareceram com o tempo ou nunca lhe foi dada essa função. É um objecto frágil, precioso nos seus detalhes, inútil, mas absolutamente irresistível.
 
 
 

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Desesperadamente procurando…a Imperatriz dos Anjos


Hoje apresento-vos uma fotografia, que acho perfeitamente deliciosa e que se encontra num dos velhos álbuns fotográficos da família Montalvão, que há uns tempos recebi de uma prima minha. Trata-se do retrato de uma senhora e de uma jovem, provavelmente mãe e filha, a julgar pela posse das mãos, cuidadosamente encenada pelo fotógrafo e que se encontra dedicada ao meu bisavô, José Maria Ferreira Montalvão (1878-1965), apesar de se encontrar no álbum o mais antigo formado pelo meu trisavô, o Padre José Rodrigues Liberal Sampaio.
 
 
Da dedicatória, consta o seguinte, Offerece ao Exmo. Dr. Montalvão em testemunho de muita amizade e consideração Imperatriz dos Anjos. Na última linha, há um gatafunho, que eventualmente poderá ser o apelido da Senhora, talvez Vaz, mas a letra não me parece igual ao restante texto.

Não sei quem era a Imperatriz dos Anjos, se a mãe se a rapariguinha, nem tão pouco consegui descobrir nada destas duas personagens, se eram gente de Chaves, ou do Porto, já que o estúdio Fotografia Moderna funcionava naquela última cidade. Mas isso também não quer dizer nada, esta jovem mãe e a sua filha adolescente poderiam ter viajado até ao Porto e aproveitaram a ocasião para se fazer fotografar ou então os artistas da Fotografia Moderna deslocaram-se Chaves, por ocasião das festas do padroeiro ou padroeira, para executar retratos da sociedade local.
 
 

Mas o mais engraçado, talvez seja o contraste entre o nome muito piedoso da senhora que dedica a fotografia, a Imperatriz dos Anjos e a garridice das duas personagens femininas. Poder-se-ia até usar o termo francês coquetterie para adjectiva-las se não houvesse aqui uma certa ingenuidade burguesa de quem vestiu as suas melhores roupinhas, para parecer bem na fotografia. A rapariguinha usa um chapeuzinho enfeitado por fita terminando com um laço artisticamente executado, uns brinquinhos com pérolas, uma espécie de estola em pele e na gola uma estrela, talvez em prata, muito à moda da Imperatriz Sissi.
 
 
A senhora, que eu presumo ser a mãe, também veste a sua melhor blusa com um folho de renda e um alfinete de ouro ou em prata. Para rematar o conjunto, o fotógrafo escolheu como um adereço uma cadeira estilo Segundo Império, com o apoio estofado e enfeitado de borlas. Se pensarmos que uma das retratadas é a Imperatriz dos Anjos, uma das designações de Nossa Senhora então tudo nesta fotografia se torna ainda mais deliciosamente frívolo.
 
 

Quanto à data, a Imperatriz dos Anjos trata o meu bisavô por Doutor. Se o meu bisavô se formou em Direito no ano de 1902 e se a Fotografia Moderna terminou a sua actividade em 1905, este retrato foi certamente tirado entre essas duas datas. Não sei que relação manteve a Imperatriz dos Anjos com o meu bisavô. Talvez tenha querido casar a sua jovem filha com o meu antepassado ou o meu bisavô resolveu-lhe algum imbróglio jurídico relacionado com partilhas ou a venda de uma propriedade e esta fotografia foi uma prova da gratidão da Imperatriz dos Anjos.

Segundo Paulo Artur Ribeiro Baptista na obra a Casa Biel e as suas edições fotográficas no Portugal de Oitocentos, a Fotografia moderna foi um estúdio fotográfico fundado em 1883, no Porto, na Rua da Picaria, nº 1 e que esteve activo até 1905. Por vezes aparece designado por Leopoldo Cirne & C.ª
 
Se aí, do outro lado do monitor se encontrar algum trineto ou bisneto da Imperatriz dos Anjos, muito agradeço que me indique quem foram a senhora e a jovem do retrato. Até lá a Imperatriz dos Anjos permanece um mistério cheio de graça e com o seu je ne sais quoi de frívolo.
 

 

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Uma terrina neo-rocaille da Vista Alegre

 
Herdei esta terrina da minha avó paterna, bem como umas quantas peças avulsas de serviços da Vista Alegre. Estavam no Solar de Outeiro Seco e por isso tem um valor sentimental para mim, já que acabei por receber pouca coisa daquela grande casa. Quando olho para elas, ainda consigo ver a sala de jantar daquela casa, com a sua grande mesa cheia de gente, um louceiro em estilo renascença e uma mesa pequenina onde nós os miúdos comiam. Já quase que nem sei se essa recordação da sala cheia de gente é minha ou se um produto do que eu imaginei durante muitos anos a partir das histórias do meu pai. É pena do que nunca ninguém tenha fotografado ou filmado aquela divisão com o seu recheio original.

Estas peças herdadas são todas elas do 3º quartel do século XIX e apresentam uma decoração com delicadas florinhas, muito típica daquela fábrica de Ílhavo. Aliás foi a partir daí que comecei a comprar muitas peças da Vista Alegre deste período. 

A forma desta terrina é do chamado estilo neo-rocaille, posto em moda por Jacob Petit, em França, por volta de 1830 e que prolongou até cerca de 1880, altura em que os fabricantes de cerâmicas, influenciados pelas artes do Japão começaram a fabricar peças mais simples e despojadas. Se o rococó ou rocaille do século XVIII já era por si um estilo exagerado, o neo-rocaille do século XIX tornou-se então excessivo, tal era a profusão de dourados pintados sobre formas complicadas, mas este era o gosto de uma época, onde os interiores queriam-se carregados de mobília, bibelots, quadros e pesados reposteiros, cheios de berloques.
Serviço de chá neo-rocaille de Jacob Petit. Imagem retirada de https://www.etsy.com/listing/698653575/reserved-jacob-petit-o-old-paris-rococo?show_sold_out_detail=1&ref=nla_listing_details
 
Aliás a moda neorrococó ou neo-rocaille persistiu para lá da simplicidade do japonismo e em pleno século XX, as famílias continuaram a encomendar mobílias em estilo D. José para os quartos de dormir, ou a comprar salvas de prata ao gosto rocaille para exibir na sala de jantar. Aliás, resolvi acompanhar estas fotografias com algumas peças de um faqueiro em estilo D. João V, que a minha avó recebeu como prenda de casamento em 1930, numa época em que já os objectos utilitários modernistas de desenho funcional faziam furor na Europa. Mas, em 1930, as pessoas tradicionais preferiam apostar nos velhos estilos do passado do que comprar cadeiras Barcelona, ou serviços em porcelana desenhadas por artistas da Bauhaus.
 
 

Apesar da forma arrebicada neo-rocaille, esta terrina da Vista Alegre consegue ser uma peça sóbria, mediante o uso de uma decoração muito simples, só com umas rosas e umas folhinhas. Creio que conseguir adaptar as várias modas das artes decorativas com uma certa simplicidade e bom gosto foi uma característica da Vista Alegre ao longo dos tempos.

Esta terrina que é obviamente da Vista Alegre apresenta um borrão no lugar do logótipo da marca, mas parece-me que corresponderá à marca nº 20, usada entre 1870-1880. Tenho também três chávenas da mesma decoração que vieram também do Solar de Outeiro Seco e apresentam o mesmo borrão. Será que essa manchinha azul corresponderia a um código interno, indicando que se tratava de peças de segunda escolha? Enfim, quem sabe.
 
O tardoz
Também no tardoz apresenta um nº 10 inciso. Ainda pensei tratar-se da medida do diâmetro, mas nem a base nem o bojo apresentam 10 cm de diâmetro, quer à largura, quer ao comprimento. Mas na pág. 100 da obra A Fábrica da Vista Alegre : o livro do seu centenário 1824-1924. - Lisboa : Biblioteca Nacional, 1924 encontrei finalmente uma explicação para esses números incisos. Cada oleiro marcava as suas peças com um número gravado com um cunho de madeira. Igualmente há um número pintado, o nº 7, que no meu post de 30 de Março de 2020, demonstrei que não identifica uma decoração. Pela mesma lógica poderá ser o número próprio de cada pintor?

Sei que não estou a trazer muitas novidades sobre a Vista Alegre, mas nestes tempos de incertezas, partilho com todos vós algumas imagens agradáveis.
 
 
 
Alguma bibliografia:

A Fábrica da Vista Alegre : o livro do seu centenário 1824-1924. - Lisboa : Biblioteca Nacional, 1924

Le XIXe siècle français / dir. Stéphane Faniel. - Paris : Librairie Hachette, 1957. - (Connaissance des arts ; 2)