Domingo, 4 de Março de 2012

Angelika Kauffman, Bartololozzi e Vieira Portuense

Angelika Kauffman, Por Sir Joshua Reynolds e gravada por Bartolozzi. Estampa datada de 1780, propriedade do nosso amigo do Norte.

Ao longo deste blog fui escrevendo vários posts sobre gravura, uma área que conhecia muito superficialmente e aos poucos fui-me apercebendo que esta é uma arte de cópia, em que o conceito de direito de autor é qualquer coisa de inexistente. O gravador cópia obras de arte, ou muitas vezes reproduz partir de outras estampas que já por si são cópias de pinturas.


Também vimos que alguns gravadores, como Bartolozzi copiaram as obras originais através de desenhos feitos por si e só depois abriram as gravuras. Esta arte de tradução da obra de outros artistas, que fazem os gravadores é também sempre uma traição, pois acabam sempre por recriar o original.



Depois de receber mais algumas de Bartolozzi, que um amigo nosso do Norte me enviou por e-mail, consultei o catálogo da exposição Francisco Vieira o Portuense: 1765-1805. – Lisboa: IPM, 2001 e consegui entender um pouco melhor o que se passou no mundo das artes e da gravura nos finais do Século XVIII, inícios do XIX.


Neste período, os impressores, gravadores e artistas começam a perceber que existia uma burguesia emergente que queria ter bonitos quadros em casa, mas que não tinha dinheiro para comprar pinturas dos grandes mestres, nem sequer para cópias medíocres a óleo ou aguarela. Por isso, na segunda metade do Séc. XVIII generaliza-se a impressão e venda de álbuns de estampas, destinados às casas burguesas, que depois eram destacadas, encaixilhadas e postas a decorar as paredes das salas e quartos. Esta produção tornou-se mesmo um negócio chorudo e quer artistas, quer gravadores dedicaram-se a ele, pintando quadros com o único objectivo de os verem divulgados em gravura, coleccionando grandes mestres do Renascimento, do Século XVII ou mesmo de pintores contemporâneos, para os copiarem sem complexos ou pejo e os passarem a gravura.

Bíblia impressa em 1774. Estampa gravada por Bartolozzi a partir de uuma obra de Tiepolo. Da colecção do nosso amigo do Norte

Para ilustrar o que afirmo, apresento uma belíssima estampa, que integra uma Bíblia, gravada por Bartolozzi e cujo modelo original foi nada menos nada mais do que a obra de um dos génios da pintura europeia, o veneziano Tiepolo (1696-1770).


Esta estampa enviada pelo nosso amigo do Norte mostra bem que copiar a obra dos grandes mestres do passado é uma actividade bem vista e uma forma comum nesta segunda metade do XVIII de divulgar a obra da grande pintura junto de um público mais vasto. Neste caso, através de um livro.



E qual era o melhor sítio na Europa do Século XVIII para copiar as obras dos grandes mestres da Pintura? Naturalmente a Itália. Todos os artistas europeus para lá se dirigem e passam largas temporadas em Florença, Roma ou Veneza a copiarem os mestres do passado e a inspirarem-se na arquitectura e nas ruínas romanas. Angelika Kauffman, uma pintura anglo-suíça estava na década de 80 em Roma, a inalar este ambiente italiano, quando terá conhecido Vieira Portuense, que se também aí se encontrava a aprender arte e a trabalhar com gravadores italianos na reprodução dos grandes mestres. Desse encontro, resultou um retrato de Vieira Portuense feito por Angelika, que ficou por terminar. Essa obra tornou-se um exemplo célebre de que por vezes o inacabado é muito mais fascinante que uma obra concluída.

Vieira Portuense retratado por Angelika Kauffman. Voralberger landesmuseum


Pouco mais se sabe desse encontro, mas os especialistas dizem, que a obra da pintora influenciou Vieira Portuense e além disso haverá de comum entre eles, Bartolozzi.


Estampa de Bartolozzi a partir de um desenho de Angelika Kauffman. Col. da Royal Academy de Londres

Muitas obras de Angelika passaram a gravura pelas mãos de Bartolozzi, gravador que o artista português irá conhecer mais tarde em Londres, em 1797, e com o qual estabelecerá uma estreita colaboração. Aliás um dos trabalhos que se esta dupla italo-portuguesa se dedicará será precisamente à cópia e gravura de grandes mestres, como de Guercino (1591-1666), a partir do qual os dois fizeram esta reprodução de um Cristo e de que se conserva um exemplar na Biblioteca Nacional de Lisboa. Os dois estabeleceram uma parceria tão boa, que terá sido Vieira Portuense quem convenceu Bartolozzi a vir para Lisboa. Parece que o projecto era fazerem uma edição sumptuosa dos Lusíadas amplamente ilustrada.


Ecce Homo. Original de Guercino, desenhado por Vieira Portuense e gravado por Bartolozzi. Biblioteca Nacional de Lisboa

Bartolozzi e Vieira Portuense vieram para Portugal em 1802, mas foram apanhados pelo turbilhão que a revolução francesa e a política expansionista de Napoleão geraram na Europa

Sexta-feira, 2 de Março de 2012

Travessinha inglesa em forma de concha

Depois de tantos temas sacros, resolvi hoje aligeirar o blog apresentando uma azeitoneira, certamente de fabrico inglês do século XIX. Como já vimos em anterior post, os cidadãos britânicos não tem o hábito português de comer azeitonas às refeições e Relish Dish é de facto o nome com que estes pratinhos são conhecidos na terras de Sua Majestade e segundo a Maria Andrade seriam usados para servir pickles.



Este elegante prato em forma de concha apresenta uma marca impressa, que me vi grego para ler. Só depois de ir buscar uma lupa e de esbugalhar bem olhos, consegui ler a Iron Stone Ware ou talvez iron Stone China. Fiz umas pesquisas na net e fiquei um bocadinho desapontado, pois esta expressão refere-se a um tipo de faiança e não a uma marca de fabricante propriamente dita.



Iron Stone é uma faiança de qualidade superior, que tenta imitar a porcelana. Foi introduzida pelos fabricantes ingleses no início do século XIX, com o objectivo de arranjarem um produto barato, que imitasse a porcelana e fosse acessível a qualquer família burguesa sem especiais meios de fortuna. Foi produzida pela primeira vez em 1800, fabricada por Josiah Spode e celebrizada por Charles Mason, que detinha a patente, muito embora a Job and George Ridgway tenha fabricado um loiça com uma composição semelhante. Muitas outras marcas se lhes seguiram.

Travessa J & G Alcock com o padrão Flow Blue, cerca de 1840

Não consegui discernir com rigor, que fábrica produziu esta travessinha em forma de conha, mas inclino-me para a Charles Masson, ou mais ainda para a J & G Alcock, da qual encontrei duas travessinhas nos sites de venda on-line de antiguidades, feitas com o mesmo molde e datadas da primeira metade do XIX. uma em flow blue e outra com o padrão do salgueiro.

Outra peça da  J & G Alcock, com o padrão do salgueiro

Também não consegui interpretar a florzinha estampada no verso.

Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

O Imcontro da Snra


Datada certamente do século XVIII, esta estampa é um dos muitos cristos que espreitam das paredes da minha casa e é talvez um dos meus preferidos. Representa, uma das estações do Calvário, o quarto passo, em que Jesus encontra a sua mãe, aqui representada como a Nossa Senhora das Dores, com uma espada trespassando o seu Coração.



Para os mais novos ou aqueles que não tiveram uma educação católica, as estações do calvário representam os vários momentos da paixão de Cristo, desde a sua condenação passando pela morte, até à deposição no túmulo. O caminho da cruz é uma cerimónia religiosa, que ocorre na Páscoa, que comporta muitas vezes uma procissão, intercalada por prédicas e meditações, diante de 14 quadros ou estampas, crucifixos ou capelas dispostas dentro ou fora da igreja, que representam a subida ao monte Calvário onde Cristo foi morto. Como em cada um desses momentos, se pára ou melhor se estaciona, cada um dos passos é conhecido pelo termo estação.

Esta cerimónia da reconstituição do Calvário foi trazida da Terra Santa pelos franciscanos, que a introduziram na Europa e foi tendo várias variantes, já que assenta mais na tradição do que foi a vida de Cristo e menos nos Evangelhos. Para os menos familiarizados com estas coisas da Igreja, para além das quatro versões oficiais de Lucas, Marcos, João e Mateus há mais relatos da vida de Cristo, a chamada literatura apócrifa e muitas vezes são esses textos que mais influenciram a arte e as tradições populares, como por exemplo, todos os episódios mais pitorescos da fuga para o Egipto, com nossa senhora, o Menino Jesus, S. José e o burrinho.


Mas em todo o caso, no Século XVI, a Igreja Católica definiu as Estações do Calvário em XIV, que passo discriminar de em seguida, pois dão muito jeito para se perceber o que se vê no interior das igrejas e ao longo das aldeias e vilas portuguesas:

1 - Jesus é condenado à morte

2 - Jesus carrega a Cruz

3 - Jesus cai pela primeira vez

4- Jesus encontra a sua mãe

5- Simão de Cirene ajuda Cristo a carregar a sua cruz.


o 5º passo, segundo uma obra da época

6 -Santa Verónica limpa o rosto de Jesus

7 - Jesus cai pela segunda vez

8 - Jesus encontra as mulheres de Jerusalém que choram

9-  Jesus cai pela terceira vez

10- Jesus é despojado de suas vestes

12- Jesus morre na cruz

13- Jesus morto nos braços de sua Mãe

14 - Jesus é sepultado



Esta minha estampa, em que o tema da paixão que é pela sua natureza muito cruel foi tratado com uma certa suavidade muito característica da arte portuguesa. A estampa, não está assinada, mas o nome é indicado o nome do vendedor, Francisco Luís Pinheiro, que tinha uma loja em frente aos Mártires, no nºo 27, segundo os Subsídios para a história da gravura, de Luís Chaves.
Meditações sobre a Paixão de Cristo. Uma obra do séc. XVIII.


A estampa terá sido destacada de um livro de meditações sobre a vida de Cristo ou talvez fizesse parte de um conjunto de folhas soltas, destinadas a adornar as paredes de uma igreja.

Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

Um desenho de Francesco Bartolozzi


Uma das seguidoras deste blog, uma coleccionadora de coisas antigas e boas, normalmente designada por Seguidora Misteriosa, teve a gentileza de me enviar um desenho assinado pelo célebre gravador italiano Francesco Bartolozzi (1725–1815).


Fiquei muito excitado com a ideia de poder escrever sobre um desenho original de Bartolozzi, o célebre gravador italiano, que se radicou em Portugal e fui tentar informar-me um pouco sobre a obra deste homem e descobri, que talvez o desenho não seja tão original como à primeira vista parece.



Segundo o catálogo da exposição Francesco Bartolozzi: desenhos de um gravador. – Lisboa: IPM, 1996, cujas informações me serviram para alinhavar este texto, Bartolozzi não era propriamente um grande criador, como o foram um Leonardo da Vinci, um Amadeo Souza Cardozo, ou um Georges Latour. Bartolozzi é um antes de mais nada um gravador, isto é, um artista que se limita a interpretar a obra de outrem.

Portanto, Bartolozzi limitou-se a gravar a obra de grandes artistas do seu tempo, como o inglês Joshua Reynolds ou os portugueses, Domingos Sequeira, Francisco Vieira Portuense ou ainda o italiano Pellegrini.

Contudo, traduzir é trair e o artista italiano ao interpretar a obra de grandes pintores dava-lhes o seu cunho pessoal e usando técnicas de gravuras muito inovadoras, como o puntinato (em português ponteado), que permitia uma distribuição subtil das cores, conseguia resultados, que eram diferentes dos originais.

Thomas More por Holbein e gravado por Bartolozzi

Bartolozzi é também um homem com uma produção muitíssimo abundante. São conhecidas mais de 2.500 gravuras assinadas por ele, feitas a partir da obra de 360 artistas diferentes.

Mas então se este homem copiava ou reinterpretava os originais de grandes artistas como se justifica a existência de este desenho com um traço delicado, representando um Cristo, assinado por ele?

Apesar de ser um gravador de tradução, Bartolozzi era um desenhador extremamente hábil, qualidade que tinha a ver com a sua técnica de trabalho. Com efeito, raramente abria uma obra a partir do original. Passava sempre a papel o desenho das obras a serem gravadas, o que lhe permitia a apreensão plena do espírito do seu autor. Por essa razão se conservam por todo o lado muitíssimos desenhos de Bartolozzi, copiados a partir de desenhos ou pinturas de artistas consagrados.

Julgo que este belo desenho da nossa Seguidora Misteriosa se trata de uma dessas cópias preparatórias, que Bartolozzi fazia antes de abrir a gravura.

Quanto à sua datação, arrisco a data-la entre 1808 e 1815. Em 1802, Bartolozzi chegou a Portugal com um belíssimo estatuto, foi nomeado director da aula de gravura, frequentava a corte e recebia boas encomendas. Porém, com a chegada dos invasores franceses e a fuga da corte para o Rio de Janeiro, Portugal entrou numa situação económica terrível e as boas encomendas acabaram. Para sobreviver, Bartolozzi dedicou-se aos temas religiosos, que apesar da crise tinham sempre público. Executou gravuras para missais e outros livros litúrgicos, como por exemplo, para o Missale romanum de 1820, publicado já depois da sua morte de 1820 e terá também se dedicado aos registos de santos como o Senhor Jesus da Consolação de 1808.

Missale romanum de 1820, com estampas de Bartolozzi. Biblioteca do Museu Nacional de Arte Antiga
Este trabalho da estampa religiosa é pouco imaginativo, com limitações impostas pelos editores e pelo público, mas a delicadeza do traço do desenho lá está nesta obra que a nossa amiga quis partilhar connosco.

Sábado, 18 de Fevereiro de 2012

Bule da Fábrica de Loiça de Sacavém


Poucas serão as famílias portuguesas que não têm uma peça de faiança da Fábrica de Sacavém em casa. Estas loiças são praticamente uma referência nacional, como o galo de Barcelos, o Atum Bom Petisco ou uma dessas outras marcas que acompanharam a vida de gerações de portugueses. É certo que a produção da fábrica seguia muito de perto as modas da faianças inglesa, pois seus patrões eram britânicos, mas como conseguiram fazer chegar os seus produtos a quase todos os lares do nosso País, passámos a identificar o serviço do cavalinho com os nossos pais, avós e as casas antigas de família, ricas ou remediadas.



Apesar de a loiça de Sacavém, existir em todas as casas e ser a faiança mais abundante em todas as feiras de velharias, continua a surpreender-nos pela variedade da sua produção, que se estendeu por um período de quase um século e meio. Foi aquilo que me aconteceu a mim e ao Manel quando descobrimos este bule de chá no chão da Feira de Estremoz. Achamo-lo tão raro, que à primeira vista nos pareceu inglês. Mas quando, o virámos lá vimos a marca de Sacavém e ainda por cima das mais antigas.

Segundo o Dicionário de marcas de faiança e porcelana portuguesas- Lisboa: Estar Editora,1996 esta marca data de cerca de 1870

O Manel comprou o Bule por um preço muito em conta e colocou-o no aparador da sala jantar, onde expõe os azuis e brancos, essa combinação que se tornou a imagem de marca da cerâmica em Portugal.

Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

Um Dragão em Fronteira


Na melhor rua da vila de Fronteira no Alentejo, onde de um lado e outro abundam belas casas senhoriais dos séculos XVIII e XIX, cheias de uma dignidade contida, há um chalet construído nos finais do século XIX, que se destaca pela sua arquitectura exuberante, espalhafatosa, quase gótica. Trata-se certamente de uma chamada casa de brasileiro, isto é um palacete construído por algum português que fez fortuna nas terras de Vera Cruz e quando voltou à Santa Terrinha, fez erguer um palacete construído segundo a última moda de Manaus, a mítica cidade do Amazonas onde se fizeram fortunas alucinantes e o dinheiro era tanto que se construiu uma ópera para atrair o grande Caruso.


Aliás, em Portugal a casa de brasileiro, passou a ser uma expressão que designa um determinado de vilas e palácios, com uma arquitectura tendencialmente vertical, normalmente vilas e palácios, construídos nos finais do XIX, princípios do XX e decorados de forma exuberante, com muitos azulejos, ferros forjados, janelas e vidros coloridos.


A porta com motivos arte nova e vidros coloridos (foto do Manel)

Foram construídos por portugueses regressados do Brasil e foram alvo de chacota da boa sociedade de então, conforme nos testemunham os textos satíricos dos escritores da época. Camilo Castelo Branco escreveu acerca delas Vão-se os olhos naquilo! Esta maravilha arquitectónica devem-na as artes ao gosto e génio pinturesco de um rico mercador que veio das luxuriantes selvas do Amazonas, com todas as cores que lá viu de memória e todas aqui fez reproduzir sob o inspirado pincel de trolha.


No entanto, o tempo perdoa muita coisa e hoje cento e dez anos depois, essas casas parecem-nos charmosas nas suas fantasias decorativas, como este palacete de Fronteira, com um dragão no pináculo, a sugerir um romance da Idade Média ou as suas varandas com o ferro forjado arte nova. E depois, em comparação com os caixotes da arquitectura modernista dos anos 60, 70, 80 e 90, tudo o resto nos parece aceitável e humano.

Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

Vue de la nouvelle décoration de la Foire Saint-Germain


Recentemente, encontrei esta estampa do século XVIII por um preço irrisório na Feira de velharias de Estremoz. Representa a Feira de St. Germain e fiz algumas pesquisas para saber mais sobre gravura em que personagens galantes se passeiam tendo por detrás um cenário de edifícios característicos do classicismo francês.

Num site sobre história do teatro, http://cesar.org.uk//, baseado na tese de doutoramento de uma senhora, uma tal Nuria Aragonès Riu, encontrei a explicação para esta imagem curiosa. A Vue de la Nouvelle Décoration de la Foire Saint-Germain é uma vista óptica mostrando a nova feira de st- Germain, em Paris, reconstruída após o incêndio de 1762. Portanto, a estampa pode ser datada a partir de 1763, ano em que a feira reabriu as suas portas até mais ou menos aos anos de 1780, a julgar pelas toilletes das personagens.



Quatro versos alexandrinos lêem-se no rodapé da gravura Des cendres d’Ilion renait une autre Troye/Vesnés de toutes parts livrés vous à la Joye/Un prince bienfaisant our recréer Paris/A rétabli ce lieu digne séjour des Ris”. Esta alegoria poética compara a nova Feira de S. Germain com a destruição e reconstrução da antiga Tróia.


A feira é representada com uma arquitectura neoclássica, idealizada. Os transeuntes são em número reduzido e pertencem à nobreza, como nos indicam os trajes sumptuosos.


A fidalguia e grandes burgueses passeando-se na feira

Esta imagem simétrica e regular contrasta com as descrições que as fontes da época fazem dela, caracterizando-a como um evento bem popularucho, como aliás são sempre as feiras em toda à parte do mundo. Também não se sabe e esta gravura representa com fidelidade a arquitectura da feira, já que esta foi novamente destruída em 1779, penso que por outro fogo.

A gravura apresenta uma curiosidade suplementar, no centro está representando um teatro, o chez les Nicolet, que pertenceu a um dos mais célebres comediantes populares franceses, Jean-Baptiste Nicolet (1728-1796).

As personagens da Commedia dell’arte:Cassandro, Pierrot, Isabel, Arlequim e Colombina. No topo das porta o monograma do Rei Luís

No balcão do teatro encontramos os personagens típicos da Commedia dell’arte, o velho Cassandro, Pierrot, uma personagem feminina, sem dúvida, Isabel, Arlequim e ainda uma outra figura que é possivelmente Colombina. Era hábito, os actores destas companhias fazerem umas representações gratuitas no exterior, para atraírem o público ao interior do teatro, onde se desenrolava o verdadeiro espectáculo e esse claro, era pago.

Julgo que esta estampa seria talvez uma forma de a companhia popular de Nicolet arvorar-se ao estatuto de uma grande companhia de teatro, frequentada por um público saído da nobreza ou da grande burguesia e sedeada num edifício clássico, o que não correspondia à verdade, pois era uma companhia de feira, em que os momentos cómicos se misturavam com números de malabarismo e espectáculos de marionetas. Em todo o caso, a popularidade de Nicolet foi tanta, que em 1772, o Rei Luís XV viu o espectáculo e apesar de ser um homem blasé, gostou e a companhia pode então intitular-se pomposamente La Troupe des Grands-Danseurs du Roi.



A estampa saiu da casa editora Basset, na rua de S. Jacques, em Paris, conhecida impressora e loja de estampas de temas populares, cuja existência de prolongou pela primeira metade do século XIX fora. Esta editora era um negócio familiar, que passava de pais para filhos e é mais provável que esta estampa tenha sido dada à luz no tempo de André Basset (1749?-1785?)


Na nossa Biblioteca Nacional existe uma estampa assinada por este André Basset, representado uma vista idealizada de Lisboa reconstruída depois do Terramoto e que também apresenta o título principal invertido. Julgo que se este artifício se destinava a que a gravura fosse vista através de um espelho, já que na decoração das casas francesas do século XVIII era costume usar 4 espelhos colocados simetricamente, um cada canto da sala.