quarta-feira, 19 de julho de 2017

Il n’y a pas d’amour heureux: um casamento em Outeiro Seco, 1930


 
Procurei durante anos esta fotografia do casamento dos meus avós paternos. Sabia que existia, tinha-a registado na minha memória, mas não constava dos álbuns fotográficos de família, que tão cuidadosamente o meu pai compilou. Finalmente, há pouco descobri que o meu irmão Zé tinha uma cópia digital, que fez o favor de me enviar e pude confrontar então a fotografia real com a imagem que dela tinha construído. Não sei porquê, acreditava que esta fotografia tinha sido feita em frente à Capela do Solar, onde possivelmente se celebrou o casamento, mas comparando esta imagem com a da entrada da capela, imediatamente pude ver que não foi ali que os meus avós fizeram esta posse em 1930.
 
A capela do Solar dos Montalvões tem dois degraus. A fotografia de casamento dos meus avós não foi tirada aqui.
 
 O Jornal de Chaves, que noticiou o casamento em 23 de Novembro de 1930 refere apenas que o cerimónia religiosa teve lugar na igreja de Outeiro Seco, mas não refere qual delas. É provável que o lauto banquete que se seguiu ao casamento anunciado pelo referido jornal, tenha tido lugar no Solar e nesse caso é possível, que a fotografia tenha sido feita em frente à porta que dá acesso ao pátio de honra da casa. Pedi ajuda ao meu amigo de Outeiro Seco, O Humberto Ferreira, que através de uma comparação sistemática das fotografias do casamento e da entrada nobre o Solar concluiu que a minha teoria estava correcta. Esta imagem foi tirada tendo por pano de fundo a grande porta que dá acesso ao pátio de honra do Solar.
A comparação das pedras da cantaria permite supor com segurança que os meus avós se fizeram retratar em frente à porta que dá acesso ao pátio de honra do solar.
 
Quanto às pessoas representadas na fotografia são os meus avós paternos, a Maria do Espírito Santo Montalvão Cunha (29-12-1907 a 1-02-2000) e o Silvino da Cunha (12.10.1901-14.03.1972), a pequenita do lado direito é a Natália, a irmã mais nova da noiva, portanto minha tia-avó. Quanto à outra menina, do lado esquerdo do casal, não a consigo identificar. No referido Jornal de Chaves, que discrimina a lista dos convidados, informa-se que estiveram presentes na cerimónia para além da Natália, outras duas meninas, a saber, a Onorina Maldonado dos Reis Mariz e a Sara Alves Leite. Portanto, a criança do lado esquerdo ou é a Sara ou a Onorina e deixo ao critério dos leitores deste blog a escolha.
 
A fotografia é da autoria da Foto Águia, um estúdio que ficava na Rua de Santo António, nº 39, em Chaves e que já acabou entretanto. Em 1930, não deveria uma casa muito antiga, pois não é referenciada no Guia-Album de Chaves e seu Concelho, de 1915.
 
A Foto Águia inaugurou o retrato cinéfilo em Chaves. Anúncio do Almanaque de Chaves, 1937
Claro, esta é uma fotografia banal de casamento igual a tantas outras. Aliás, as fotografias de casamento são sempre iguais. A noiva olha para a câmara com um ar cansado, de quem se levantou de madrugada para arranjar o cabelo, pintar a cara e enfiar-se numa confusão de mousselinas, sedas e rendas, com a ajuda da mãe, da madrinha, das criadas e da modista, em suma, de um batalhão de mulheres. Ao lado, todo o composto, o noivo aparenta aquela frescura da juventude, que a todos os que já chegaram à idade madura parece irreal e só não é irreal, porque também já nos vimos a nós próprios, em fotografias antigas, com essa mesma expressão de quem tem toda vida pela frente. Por fim, são as meninas, que levaram as alianças ou seguraram a cauda da noiva, vestidas de tule e seda e que ainda não se sujaram no banquete, que se segue ao casamento.

Não é uma fotografia com interesse para a história, mas eu tenho este vício de tentar encontrar nestes  pequenos fragmentos da vida capturados em segundos, qualquer coisa que ajude a explicar o que sou hoje, ainda que muitas vezes essas tentativas sejam em vão.

A fotografia documenta o casamento de Maria do Espírito Santo e do Silvino, que nem sequer foi feliz, mas como dizia o poeta Louis Aragon, a vida em comum é um estranho e doloroso divórcio e Il n’y a pas d’amour heureux





Um agradecimento especial ao Humberto Ferreira do blog http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt/

terça-feira, 11 de julho de 2017

Gravuras de moda do tempo do II Império ou as aventureiras


Aproveitei o aniversário da minha filha Carminho para lhe oferecer duas estampas retiradas de duas revistas francesas de moda, publicadas em Paris, durante o II Império (1852-1870), o Journal des demoiselles (1833-1922) e o Petit courrier des dames (1822-1868). Devem ter sido publicações populares em Portugal, pois já é a segunda vez que compro gravuras extraídas destas duas revistas.
 
 
A primeira estampa do Journal des demoiselles, data de 1856 e a segunda, do Petit courrier des dames, foi publicada no ano de 1864 e quer uma quer outra representam a moda do segundo império, caracterizada pelas saias gigantescas, suportadas por estruturas em crinolina. A mulher do imperador Napoleão III de França, Eugénia do Montijo foi umas das figuras emblemáticas desta moda em que as saias contrariavam as leis da física e do bom senso. Mas não só a Imperatriz e as damas da aristocracia eram estrelas desta forma de trajar. Por esta altura, em Paris, prosperavam e brilhavam as cortesãs, isto é, prostitutas, que pela sua beleza e inteligência tinham acumulado fortunas incalculáveis, como a La Paiva ou Cora Pearl e exibiam, nos teatros ou nos melhores restaurantes, as suas jóias e vestidos faustosos. Eram as célebres demi-mondaines, expressão francesa que designa as mulheres sustentadas por parisienses ricos. Este grupo social que até ao início do séc. XIX era invisível começa a manifestar ruidosamente a sua existência na imprensa, no teatro, nas reuniões sociais e finalmente em toda a sociedade parisiense a partir do segundo império para atingir o seu apogeu por volta de 1900.
 
La Paiva. A mais rica
Estas demi-mondaines têm feito as delícias dos historiadores, dos escritores e dos realizadores de cinema e é difícil escolher qual é a história mais fascinante. A mais conhecida talvez seja a da Paiva, nascida Esther Lachmann, uma judia proveniente da Rússia, que graças a amantes ricos, fez em pouco tempo uma fortuna incalculável e casou com um marquês arruinado, o português Albino Francisco, ao qual pagou as dívidas e tornou-se Marquesa de Paiva Araújo, divorciando-se pouco tempo depois, mas mantendo o título e fazendo construir para si um palácio sumptuoso no Champs-Élysées. Mas a Cora Pearl também não lhe ficava atrás em extravagância. Ficaram célebres os seus banhos em champagne, ou aquela vez em que se serviu nua numa enorme bandeja de prata ou ainda quando actuou na ópera Orfeu nos infernos, de Offenbach, apenas vestida de diamantes e cada vez que caia uma das pedras, não se dignava a apanha-las e dizendo que eram gorjetas para os maquinistas do teatro.
 
Cora Pearl. A mais extravagante
Outra mulher que fez furor durante o segundo império pela sua beleza, trajes extravagantes e escândalos sexuais, foi a aristocrata italiana Virginia de Castiglione, La Perla d'Italia, que foi amante de Napoleão III e ao que parece espia ao serviço do Reino do Piemonte e da causa da unificação italiana. Considerada a mais bela mulher do seu tempo teve uma característica invulgar. Passou mais de metade da sua vida a mandar-se fotografar. Em pleno apogeu da sua vida fez-se retratar com os vestidos, que tinham feito a sua reputação em bailes e acontecimentos sociais. Depois de 1870, já caída em desgraça e esquecida pela sociedade, continuou a mandar-se fotografar com os mesmos vestidos, que lhe tinham granjeado a fama, reencenando, vezes sem conta, os momentos de glória da sua vida.
La Castiglione. A narcisista.
Compradas a bom preço numa feira de alfarrabista, estas gravuras de moda evocam nas nossas vidas corriqueiras um pouco do esplendor e das extravagâncias do II Império francês.
 
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