terça-feira, 11 de julho de 2017

Gravuras de moda do tempo do II Império ou as aventureiras


Aproveitei o aniversário da minha filha Carminho para lhe oferecer duas estampas retiradas de duas revistas francesas de moda, publicadas em Paris, durante o II Império (1852-1870), o Journal des demoiselles (1833-1922) e o Petit courrier des dames (1822-1868). Devem ter sido publicações populares em Portugal, pois já é a segunda vez que compro gravuras extraídas destas duas revistas.
 
 
A primeira estampa do Journal des demoiselles, data de 1856 e a segunda, do Petit courrier des dames, foi publicada no ano de 1864 e quer uma quer outra representam a moda do segundo império, caracterizada pelas saias gigantescas, suportadas por estruturas em crinolina. A mulher do imperador Napoleão III de França, Eugénia do Montijo foi umas das figuras emblemáticas desta moda em que as saias contrariavam as leis da física e do bom senso. Mas não só a Imperatriz e as damas da aristocracia eram estrelas desta forma de trajar. Por esta altura, em Paris, prosperavam e brilhavam as cortesãs, isto é, prostitutas, que pela sua beleza e inteligência tinham acumulado fortunas incalculáveis, como a La Paiva ou Cora Pearl e exibiam, nos teatros ou nos melhores restaurantes, as suas jóias e vestidos faustosos. Eram as célebres demi-mondaines, expressão francesa que designa as mulheres sustentadas por parisienses ricos. Este grupo social que até ao início do séc. XIX era invisível começa a manifestar ruidosamente a sua existência na imprensa, no teatro, nas reuniões sociais e finalmente em toda a sociedade parisiense a partir do segundo império para atingir o seu apogeu por volta de 1900.
 
La Paiva. A mais rica
Estas demi-mondaines têm feito as delícias dos historiadores, dos escritores e dos realizadores de cinema e é difícil escolher qual é a história mais fascinante. A mais conhecida talvez seja a da Paiva, nascida Esther Lachmann, uma judia proveniente da Rússia, que graças a amantes ricos, fez em pouco tempo uma fortuna incalculável e casou com um marquês arruinado, o português Albino Francisco, ao qual pagou as dívidas e tornou-se Marquesa de Paiva Araújo, divorciando-se pouco tempo depois, mas mantendo o título e fazendo construir para si um palácio sumptuoso no Champs-Élysées. Mas a Cora Pearl também não lhe ficava atrás em extravagância. Ficaram célebres os seus banhos em champagne, ou aquela vez em que se serviu nua numa enorme bandeja de prata ou ainda quando actuou na ópera Orfeu nos infernos, de Offenbach, apenas vestida de diamantes e cada vez que caia uma das pedras, não se dignava a apanha-las e dizendo que eram gorjetas para os maquinistas do teatro.
 
Cora Pearl. A mais extravagante
Outra mulher que fez furor durante o segundo império pela sua beleza, trajes extravagantes e escândalos sexuais, foi a aristocrata italiana Virginia de Castiglione, La Perla d'Italia, que foi amante de Napoleão III e ao que parece espia ao serviço do Reino do Piemonte e da causa da unificação italiana. Considerada a mais bela mulher do seu tempo teve uma característica invulgar. Passou mais de metade da sua vida a mandar-se fotografar. Em pleno apogeu da sua vida fez-se retratar com os vestidos, que tinham feito a sua reputação em bailes e acontecimentos sociais. Depois de 1870, já caída em desgraça e esquecida pela sociedade, continuou a mandar-se fotografar com os mesmos vestidos, que lhe tinham granjeado a fama, reencenando, vezes sem conta, os momentos de glória da sua vida.
La Castiglione. A narcisista.
Compradas a bom preço numa feira de alfarrabista, estas gravuras de moda evocam nas nossas vidas corriqueiras um pouco do esplendor e das extravagâncias do II Império francês.
 
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10 comentários:

  1. Lindas as gravuras, lindas roupas ricas, bordadas. Não conhecia nenhuma dessas mulheres fantásticas que vc citou, a La Paiva, a Pearl, incríveis elas, dariam bons roteiros as suas vidas. E a Castiglione, uma louca a se perpetuar. Adorei todas. Vou fuçau no google a mulher de napoleão, a Montiju (?) irei ver a simplicidade da moça.
    Parabéns por essas redescobertas de mulheres que marcaram época como cortesãs e ficaram célebres na época em que viveu. E como eram avançadas! Os diamantes de Cora Pearl kkkk queria ser um maquinista daqueles.
    Abraços, adoro uma postagem leve, nessa, só os vestidos pesam.

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    1. Jorge

      As histórias destas demi-mondaines são fascinantes e fazem parte integrante da chamdada Belle Époque. Falei apenas de três casos, mas há muitas, por exemplo a Belle Otero ou Liane de Pougy. Estas gravuras de moda foram um pretexto para falar destas mulheres que ajudaram a construir o glamour da cidade das luzes.

      Estres trajes implicavam metros e metros de tecidos, de fitas, rendas e passamaneria e horas e horas para serem vestidos. Eram também perigosos. Muitas mulheres morreram queimadas, porque um pedaço de vestido queimava-se por acaso numa lareira e elas não conseguiam desfazer-se destas verdadeiras armaduras têxteis.

      Espanhola de nascença, a Eugénia de Montijo era de facto uma mulher muito interessante e que marcou a de forma indelével moda desta época. São famosos os quadros que Winterhalter fez da Imperatriz.

      Um abraço

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    2. KKK Histórias muito boas. Fogo!É fogo na roupa! Tem até esse ditado, será que vem dessas histórias? Fui fuçar no Google e muitas das fotos eu já conhecia, mas não sabia a história daquelas mulheres. Fiz uma postagem há algum tempo sobre Cléo de Mérode. Linda. A Belle Otero é famosa e a Pougy também, mas as outras eu n conhecia. A que me tocou mais foi a italiana, a Castiglione, que é bem melancólica. A La Paiva, segundo o leitor Manel, tinha uma casa esplendorosa, a banheira esculpida em onix, é o máximo. Vou ver se acho algum livro pra comprar sobre alguma dessas cortesãs.
      Um grande abraço, adorei essa sua matéria.

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    3. Jorge

      A Paiva, a Belle Oteto e a Pougy já as conhecia há muito.

      Mas relativamente há pouco tempo vi um documentário da televisão francesa "Les courtisanes : les reines de Paris", uma coisa muito bem feita, onde tomei conhecimento pela primeira vez da Castiglione. Sobre esta mulher também já se fizeram exposições, nomeadamente no Met de Nova Iorque. Veja http://www.metmuseum.org/toah/hd/coca/hd_coca.htm

      Um abraço

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  2. Que interessante. Desconhecia estas histórias, que demonstram bem que a extravagância está longe de ser um fenómeno recente. Bjs!

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    1. Margarida

      A Belle Époque de Paris é um período recheado de extravagâncias. Não só os escritores, os pintores ou os escultores e arquitectos fizeram o prestígio de Paris, mas também estas demi-mondaines e os seus amantes, escolhidos na melhor sociedade europeia. O futuro Eduardo VII de Inglaterra, sempre que podia, escapava-se da vigilância da irrepreensível Rainha Victoria e dava um salto até Paris para se divertir com estas mulheres extravagantes.

      Bjos

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  3. Estas gravuras têm a sua piada.
    Mas as histórias que contaste ainda são mais fascinantes.
    Claro que conhecia bem a história da "Païva", que escandalizou meio mundo, e cujo palácio -
    "Hotel de la Païva" como é conhecido em Paris, e que ainda hoje existe, se bem que, transformado na sede de uma sociedade qualquer, o "Traveller's Club", creio eu.
    São famosas as duas banheiras da sala de banho, uma escavada num único bloco de onix amarelo e uma segunda em prata (consta que esta última destinava-se ao banho com leite de burra (!) ou champagne (menos calórico que o primeiro, mas mais alcoólico, digo eu, não sei se algum deles se destinavam a ser bebido ou ...); não é de desprezar a grande escadaria revestida, novamente, do mesmo onix amarelo; para não deixar de reparar o teto pintado por Baudry (conhecido sobretudo pelas pinturas que executou para o edifício da ópera, de Garnier), que são verdadeiramente de fazer ficar boqueaberto qualquer simples cristão.

    Enfim, esta prenda foi muito bem lembrada, e as histórias das "demi-mondaines" bem a talhe de foice
    Manel

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    1. Manel

      É verdade, o hotel da Paiva ainda hoje existe em Paris, com a sua decoração sumptuosa. Só é pena não já não ter o mobiliário original, pois a Paiva, que entretanto casou com um industrial alemão fabulosamente rico, caiu em desgraça depois da guerra franco-alemã em 1870. Fugiu com o marido alemão, juntamente com a tralha do seu hotel parisiense e mandou erguer em plena Silésia um luxuoso castelo francês, perfeitamente desenquadrado da paisagem e da arquitectura local, o Schloss Neudeck (hoje na Polónia) e que foi reconstruído recentemente.

      http://schloss-neudeck-swierklaniec-palac.blogspot.pt/

      Um abraço

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  4. Caro Luis

    Grandioso cenário em pano fundo à volta de umas folhas do imaginário da moda de outros tempos mofos. O Luis conta e escreve e o som das palavras fazem os nossos olhos voar a locais distantes onde os sentidos todos se conjugam numa dimensão onde nos perdemos.
    Vi gravuras dessas num sotão...espalhadas ao sabor do pó, pertenciam à "francesa" que usava Dior e recebia o Paris Match pelas mãos de um portador que lhe batia à porta todos os fins de semana.....Ainda guardei o "Le Guide de La Mode" empoeirado e o recuperei...creio que ainda cheira ao perfume da "Francesa"
    Obrigado Luis pelos encantos figurativos com que desenvolve os seus impulsos.
    Vitor Pires

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    1. Vítor

      Obrigado pelo seu comentário. Com efeito, até há bem pouco tempo, todas as boas papelarias e tabacarias portuguesas recebiam revistas de moda francesas, que eram vistas e lidas avidamente. Os figurinos eram copiados, sabia-se que perfumes estavam na moda e algumas dessas publicações traziam novidades sobre livros, exposições, filmes ou hábitos e costumes. Hoje, a geração mais nova não lê pura e simplesmente francês. A minha filha Carminho a quem ofereci estas gravuras não sabe uma única palavra de francês. Digamos que esse mundo francófilo é inteiramente desconhecido das gerações mais novas.

      Um abraço

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