segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Prato de faiança de Alcobaça

Este prato com decoração estampilhada foi das poucas peças de faiança, que consegui identificar com alguma facilidade, embora não esteja marcado. Para não variar, comprei-o na Feira-da-Ladra e consegui apurar o nome do fabricante, meramente por acaso, quando folheava o livrinho Faiança de Alcobaça de 1875 a 1950. – S. l: Jorge M. Rodrigues Ferreira, 1997, de Jorge Pereira de Sampaio. De facto, lá na página 15 da referida obra está uma fotografia de um prato semelhante ao meu, marcado, só que em tons de rosa. Este prato terá saído então da oficina de José Reis, um Senhor que veio de Coimbra, se instalou junto à Ponte D. Elias e que fundou a primeira fábrica de faiança em Alcobaça. Esteve activo entre 1875 e 1897 e segundo a mesma obra a sua produção seguia de perto os modelos de Coimbra.

Enfim, mais uma vez o mesmo problema de sempre da faiança portuguesa. Os produtores copiavam-se uns aos outros e a identificação é sempre arriscada

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Año christiano de Jean Croiset, 1791 ou exercícios de suposição de histórias passadas

Como sempre gostei de coisas que mais ninguém gostava, a minha tia Maria Adelaide deu-me em Vinhais esta obra com a vida de todos os santos, em 17 volumes. Teria 23 ou 24 anos e ainda me lembro de suar abundantemente, a carregar com eles dentro da mala de viagem, entre a estação de camionetas no Campo Pequeno de onde cheguei de Vinhais e a casa dos meus pais, em Benfica.

A obra é aquilo que vulgarmente se chama um “flos sanctorum”. Este género de literatura religiosa é organizado em forma de calendário e para cada dia do ano descreve-se a história do Santo respectivo, indicam-se umas orações adequadas para o dia e umas meditações sobre o significado daquele ou daqueloutro acto da vida de Cristo. No passado, estes “flos sanctorum” eram uma leitura muito popular. As pessoas liam-no um bocadinho todos os dias, guardavam entre as suas folhas registos de santinhos e eram usados para escolher nomes às crianças enjeitadas nas misericórdias ou aos pobres meninos africanos, que eram educados nas missões, isto já no século XIX e XX. Ao contrário dos protestantes, os católicos nunca leram muito e a Bíblia e sempre preferiram esta literatura piedosa.
O meu flos sanctorum intitula-se Año christiano ó Exercicios devotos para todos los dias del año ..., foi escrito pelo padre jesuíta francês Jean Croiset (1656-1738) traduzido para castelhano por José Francisco de Isla e editado em Madrid, na oficina de don Benedito Cano, em 1791. São 12 volumes correspondentes a cada mês do ano, mais cinco tomos suplementares, com outros conteúdos devotos, cujo alcance escapa completamente, a nós, que vivemos num meio descristianizado. A encadernação é da época, muito bem executada, com a lombada em couro e decorada a ouro.

Já muito mais tarde, depois de tirar um curso de catalogação de livro antigo e estando mais atento às memórias familiares reparei nas marcas de posse que o meu Año christiano tinha. Numa das folhinhas que antecede o rosto, estava escrito este libro é da Sta Caza da Mofreita 1873 M. da G. P. Fez-se luz na minha cabeça e percebi então que o livrinho tinha pertencido à minha bisavô materna, Maria da Graça Pires (2-3-1854 a 11-10-1943), que tinha sido educada em convento, numa aldeia perdida no Concelho Vinhais, a Mofreita, numa zona que está hoje inserida no Parque Natural de Montesinho. Posteriormente, durante umas férias em Vinhais, resolvi catalogar todos os outros livros antigos, cerca de 60 obras, dos séculos XVI, XVII e XVII, que ainda continuavam na casa de Vinhais e foi descobrindo mais marcas de propriedade manuscritas nos livros, semelhantes a estas e conclui que aquele conjunto que estava ali era a antiga livraria do convento, onde a minha bisavó foi criada e descobri até o nome correcto dessa instituição religiosa, de que já ninguém se recordava o “Recolhimento das Oblatas do Menino Jesus da Mofreita”.
Este Recolhimento foi fundado em 1793 por D. António Luís, abade de Mofreita e Bispo de Bragança. Chamavam-se oblatas, porque as jovens que entravam nesta congregação faziam uma oblação ou oferecimento de si mesmas a Deus.

Não sei como os livros transitaram do Recolhimento das Oblatas da Mofreita para casa da minha família. Arrisco a hipótese que logo a seguir à República com a expulsão das ordens religiosas, em que os bens da igreja ficaram novamente a saque, a Maria da Graça tenha mandado os transportar os livros do recolhimento para sua casa, com intenção de os salvar de terminarem numa fogueira qualquer.

Esta Maria da Graça Pires teve uma vida algo estranha, para os padrões da nossa época. Era filha natural de Francisco Germano Pires, um homem muito rico, parece que emprestava dinheiro a juros e de uma tal Balbina Gonçalves. Aos 4 anos de idade perdeu a mãe e foi viver com o seu pai para Vinhais. Aos 7 anos foi despachada para o Recolhimento das Oblatas da Mofreita, não sabemos exactamente porque razão e só saiu de lá aos 29 anos e também não sabemos porque motivo o pai a tirou de lá.

Há uma fotografia de grupo dela e das suas ”irmãs” na dita casa, que eu descobri lá nos fundos de uma gaveta em Vinhais. Nós nem sabemos bem qual delas será a Maria da Graça. A minha irmã e o meu pai ficam sempre muito impressionados com esta imagem e acham que esta casa religiosa devia ser terrível. Não sou dessa opinião. Creio até que a vida num convento seria muito mais suportável para as mulheres do que casa paterna ou a do marido. No convento aprendiam a ler e a escrever, o que era um privilégio numa época em que cerca de 90 % da população era analfabeta. Todas bordavam muito e algumas até pintavam e dedicavam-se as coisas do espírito.
Bem, não sabemos se era feliz ou não no convento, mas saiu de lá aos 29 anos e passado um ano casou, contra a vontade do seu pai, em 6 de Junho de 1889, com o meu bisavó materno, Clemente da Ressurreição Morais, que é a nossa principal fonte nesta história, pois deixou um livrinho onde apontou os principais factos da sua vida e dos seus. Aparecem aqui nesta fotografia com os dois filhos que tiveram. Estão todos com um ar carracundo, pois o fotógrafo implicou com eles durante toda a sessão, afirmando-lhes que com os seus olhos azuis não iam ficar nada bem na fotografia. O instantâneo deve ter sido tirado por um daqueles fotógrafos ambulantes, que andavam de feira em feira, pois o chão é de terra batida, apesar do cenário pintado ter pretensões a interior palaciano. A rapariguinha que se chega ao pai é a minha avó materna, Maria Adelaide (4-6-1894), muito parecida com a minha mãe e também com a minha filha. O rapazinho é o Francisco Manuel Morais (28-3-1891), que viria a falecer muito novo num acidente de caça em 1916. Era na altura um estudante de medicina e teria um futuro promissor.
Segundo se conta na família, logo a após a morte do jovem Francisco, a Maria da Graça teria mandado queimar todos os livros do filho. Diz-se que seriam livros imorais, romances do Camilo e do Eça e obras de medicina. Este auto de fé aos livros parece-me pouco consentâneo com o anterior percurso desta Senhora. Aprendeu a ler e a escrever. Conviveu com livros. Muito provavelmente teve a preocupação de salvar a livraria do convento da fogueira. Talvez tenha mandado queimar os livros, para não ter sempre presente a sua frente a memória do filho. Quem sabe.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Prato em faiança Miragaia?


Já depois de ter colocado este post, consegui identificar o fabrico provável deste prato, proveniente do Norte e que não está marcado. Com efeito ao desfolhar o belíssimo catálogo Fábrica de Louça de Miragaia. Lisboa: IMC, 2008, passei pelo capítulo dedicado à escavação arqueológica, que foi feita nas instalações da antiga fábrica e entre os fragmentos achados lá estava um “caco” com umas florinhas em tudo iguais às do meu prato (ver pág. 87 do referido catálogo). Portanto, é muito provável que este prato seja um Miragaia, da célebre fábrica de Rocha Soares, no Porto. Claro, há sempre a hipótese de ter sido a mulher do patrão, que tenha trazido um prato de Fervença ou viúva Lamego, com croquetes para o marido e o tenha partido na fábrica e os cacos tenham ficado por lá, enterrados 150 anos. Em todo o caso, há fortes probabilidades de ser um Miragaia.

É aquilo que se chamava antigamente um prato galinheiro ou frangueiro, pois era usado para servir à mesa uma qualquer ave de criação. Hoje chamar-lhe-íamos pura e simplesmente uma travessa No verso, vê-se bem que o prato foi partido e unido através de umas espécies de agrafos, os célebres “gatos”. Este trabalho era normalmente feito pelos amoladores galegos que andavam de terra em terra. Confesso que ainda hoje me espanto como é que eles conseguiam fixar estes agrafos na loiça. Usavam umas brocas manuais, que se assemelhavam a uns arcos, para perfurar a loiça, fazendo furinhos oblíquos, mas mesmo assim, era um trabalho difícil e de grande precisão, pois conseguiam uma junção perfeita das partes, que impedia que os líquidos vertessem. Segundo o meu pai, estes amoladores usavam também uma cola feita de clara do ovo, que era altamente resistente ao vapor e humidades.

Na época ninguém deitava nada fora e prato, terrina ou travessa que se partisse era mandado ao amolador e tinha mais vinte, 30, 40 ou 100 anos de vida e às vezes mais, pois muitos deles chegaram às nossas mãos. Aliás, é muito curioso, pois na casa da família da minha mãe, em Souto Covo, Vinhais, há cerca de 30 anos não existia lixo e tudo era reaproveitado. As cascas de melão davam-se às galinhas, os cordéis iam para uma gaveta, os frascos eram religiosamente guardados para as compotas, os restos de carne eram dados aos cães e aos gatos, as cascas de batata serviam para a sopa dos porcos e das panelas velhas de esmalte e das latas a velha criada fazia vasos de flores para o seu jardinzinho particular nas traseiras da casa, que tinha um encanto ingénuo, muito semelhante ao que tem este prato. Enfim, nestes tempos de preocupação com o ambiente, teremos que brevemente reaprender estes antigos hábitos comuns às famílias portuguesas do passado.

Mais sobre este Prato

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Leiteira da Vista Alegre

Esta leiteira estava no chão de um estaminé na Feira-da-ladra a chamar-me insistentemente e só sei que quando dei por mim, já estava com ela em casa, a tentar arranjar-lhe espaço no meu louceiro pequeno, no meu minúsculo T1, a maldizer a minha falta de bom senso e a recordar-me da frase daquele coleccionador francês “há sempre lugar numa casa para uma boa peça comprada a um bom preço”. Claro, a casa dele não tinha 10 cm de parede ou de chão livres de quadros, quadrinhos, estatuetas, camas, cadeiras, tambores e cómodas.

Mas, enfim, tenho uma paixão por estas grinaldas de flores que a Vista Alegre fabricou durante a segunda metade do século XIX. São tão delicadas e simples, aliás este período de laboração da fábrica foi particularmente feliz

No catálogo da Exposição Vista Alegre: porcelana portuguesa: testemunho da história. - Lisboa: Estar Editora, 1998, aparece reproduzida uma Leiteira com formato praticamente idêntico, diferindo da minha peça apenas na asa

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Gravuras de Gabriel Huquier (1695-1772)


Na Feira-da-Ladra comprei três belas gravuras do século XVIII, da responsabilidade de Gabriel Huquier (1695-1772). Este senhor francês foi simultaneamente um impressor, um desenhador, um livreiro e um coleccionador de arte, que se distinguiu pelas gravuras de ornamentos de gosto rocaille. Passou para gravura as obras de vários pintores famosos do século XVIII, com particular destaque para Watteau.
Huquier por Jean-Baptiste Perronneau.

Estas 3 gravuras fizeram parte de um livro, ou talvez melhor ainda dum álbum de gravuras, do qual eu tenho o frontispício e cujo título é o seguinte Nouveau Livre de Serurerie Contenant soixante planches Remplies de plusieurs pensées Pour tous les differents ouvrages qui S'y éxécutent / Inventé Gravé et mis au jour Par Huquier. A obra assumia-se como uma espécie de catálogo de bons exemplos, para quem quisesse mandar fazer uma balaustrada em ferro para uma imponente escadaria, um portão de palácio, o balcão duma elegante casa burguesa de cidade ou ainda um candelabro em bronze. Estávamos na época em que Paris era considerada a capital do bom gosto e livros como este eram vendidos para toda a Europa, desde St. Peterburgo a Lisboa, para que todos pudessem copiar as últimas modas francesas.
O frontíspicio

A obra estava distribuía-se por 60 pranchas, que estavam agrupadas em 10 letras, cada qual correspondendo aos diferentes trabalhos em ferro forjado. Quase todos os desenhos são da autoria de Huquier. Por acaso, a minha 3ª gravura, o desenho da grade da escada é assinado de um tal Jean Mansare, do qual não encontrei nenhuma referência.

Embora não tenha data, pensa-se que obra tenha sido publicada entre 1738-1761, pois as gravuras, estão dadas como impressas em Paris, umas na sua morada a partir de 1738, Rue de S. Jacques au coin de celle des Mathurinse e outras na Rue des Mathurins, local onde veio a encerrar o seu negócio em 1761.
Encontrei na Royal Academy of Arts de Londres o registo bibliográfico da obra, o que me permitiu identificar correctamente estas gravuras

Este Nouveau Livre de Serurerie deve ter sido um álbum de gravuras lindíssimo, mas é mais menos prática corrente, entre os alfarrabistas desfazerem estas colecções e venderem as estampas à peça, pois fazem muito mais dinheiro desta forma.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Registos de Santos III


Muitas gravuras com santos eram aguareladas, num momento posterior à sua compra, creio eu, embora nunca tenha encontrado nenhuma referência a esse assunto nas minhas leituras. Gosto do resultado ingénuo que essas cores emprestam às obras. Por exemplo, este S. Caetano Thienus tem um colorido muito bonito, que a moldura a folha de ouro ainda realça mais.

Houve um período da minha vida, há cerca de 12 anos, em que dispunha de mais tempo livre, que me dediquei a fazer pastiches de registos de santos. Usava papel antigo que encontrava na biblioteca onde trabalhava, copiava a moldura de um registo e desenhava-lhe por dentro outro santo, copiado de outra gravura qualquer ou de algum quadro, de que gostava mais. Por vezes dava-lhe também uma aguarela por cima.

Esta Santa Úrsula é um dos meus trabalhos mais conseguidos. O papel é antigo, a moldura que enquadra o desenho foi copiada do frontispício de um livro do século XVIII, a santa decalcada de um quadro do Zurbaran, um dos melhores pintores de tecidos de sempre, a grinalda de flores foi roubada de um óleo da Josefa de Óbidos e os vasos de barros tiveram como modelo, uma peça que eu e a minha ex-mulher tinhamos comprado em Alcobaça, numa casa de velharias. Já muito recentemente, arranjei-lhe esta moldura dourada na feira-da-ladra e pus-lhe um fundo em damasco vermelho, que sobrou da estofagem do cadeirão e tamboretes da minha avô. Gosto do resultado com ar eclesiástico da obra, que animou a minha cozinha, que tem aqueles azulejos pindéricos, grandes, a imitar os porcelanosa da Isabel Presley

Sta. Cacilda de Francisco Zurbaran, o genial pintor de tecidos (Museu do Prado)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Vénus pré-histórica


Numas das minhas últimas idas à feira-da-Ladra perdi a cabeça e comprei esta pequena Vénus pré-histórica. Embora tenha uma predilecção dominante pelos dourados, pelos damascos escarlates e pelo barroco, também me encanto por peças rústicas, populares ou muito primitivas e esta peça, estava lá no chão a chamar por mim e não fui capaz de lhe resistir. Não faço a menor ideia onde o vendedor a foi desencantar e até é bom nem fazer muitas conjecturas sobre a sua proveniência…

Estas esculturas são muitas vezes designadas por Vénus de Willendorf, que é a obra de arte mais famosa deste género e que se acha guardada num museu em Viena. É curioso observar que a minha peça tem mais ou menos as mesmas características da Vénus de Willendorf, cerca de 11 cm, material calcário, um grande ventre, grandes seios, rosto mal esboçado e braços quase imperceptíveis. Claro, a peça de Viena, tem uns cabelos muito bem esculpidos e no geral é uma obra de melhor qualidade, não fosse ela uma das esculturas mais famosas de toda a pré-história.

Foi muito complicado descobrir um bom sítio para a pendurar em minha casa, pois é um tipo de peça que carece de uma luz especial. Estas esculturas pré-históricas valem talvez muito mais pelo significado que ocultam em si mesmas, do que propriamente pela forma em que se apresentam, pois mais não são do que calhaus afeiçoados pela mão humana. Para valorizar este significado mágico, é necessário darmos-lhes uma luz dramática, que lhe empreste de novo a áurea sagrada de um ídolo poderoso, iluminado pela luz de uma fogueira, no interior de uma cabana rústica numa noite de Inverno, algures no Paleolítico Superior.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Maria do Espírito Santo Montalvão Cunha (29-12-1907 a 1-02-2000)


No inventário sentimental dos meus bens e memórias, que faço neste blog, faltava escrever sobre a minha avó paterna, Maria do Espírito Santo Montalvão Cunha, ou Mimi, como os netos e quase todos os familiares a conheciam. É uma das pessoas a quem devo o respeito pelo passado, o bichinho da história e um certo gosto eclesiástico na forma de arranjar e decorar as casas.

A Mimi era uma senhora com valor. Era colaboradora frequente de vários títulos da imprensa regional, como o Anuário de Chaves, o Boletim dos Amigos de Bragança, o Jornal de Chaves e até mesmo de jornais como uma tiragem nacional, como era o Comércio do Porto. Publicou um livro de contos, o Panorama da Verdade. - Bragança, 1981, proferiu várias conferências e em Bragança, onde viveu muitos anos, fazia parte do círculo do Abade Baçal, o enorme vulto da história e da arqueologia transmontana. Ganhou também um prémio literário, o segundo lugar de uns jogos florais promovidos pela Câmara Municipal de Chaves, com um trabalho acerca do seu avô, o Liberal Sampaio.

A minha opinião da obra literária dela foi durante muitos anos condicionada pela fraca opinião, que a minha mãe tinha dela. Julgava-a uma pretensiosa e uma mulher superficial, o que não deixava de ser verdade. Com efeito, hoje em dia, os seus textos, embora muito bem escritos parecem-nos um bocadinho ocos, com pouca mensagem. Mas, a minha avó viveu numa época, o Estado Novo, em que não se encorajavam grandes conteúdos, nem opiniões vincadas. O estilo da época era floreado, cheio de adjectivos e enalteciam-se as virtudes campestres, as várzeas, as moças sorridentes que entoavam cantares enquanto vindimavam em vales ubérrimos. Contudo, e apesar de uma certa falta de conteúdo, é de admirar uma mulher que nos anos 40 e cinquenta do século XX, vivendo em meios pequenos, se tenha dedicado à escrita e à colaboração em jornais.
Espelho estilo D. João V, herdado da minha avó

A Mimi e o seu marido, o meu avô Silvino, eram pessoas com gosto pela cultura, que se evidenciava por exemplo no mobiliário que mandavam fazer em Braga, aos Mouras. Hoje, vendo aquelas peças de mobília, percebemos que tinham um bom conhecimento dos estilos portugueses, adquirido em visitas a museus, que tinham por hábito frequentar. Os dois fizeram também o catálogo da extensa livraria do Solar de Outeiro Seco. Essa biblioteca foi vendida a um alfarrabista e foi dispersa por mil sítios diferentes, mas o meu pai (benza-o Deus por isso) conserva o catálogo, e que ainda um dia, o hei-de digitalizar e coloca-lo na net.


Cadeirão estilo finais do século XVII


Era também uma pintora com algum talento, embora só se tenha dedicado a esse passatempo na juventude. Lembro-me de a ouvir dizer que tinha aprendido a pintar no colégio de freiras, em Vila do Conde, onde foi educada. Na minha casa há um floreiro pintado por ela, datado de 1923, com um certo ar japonês.

Hoje, tenho um sentimento, que é frequente experimentar com as pessoas, que já morreram. Lamento não lhe ter feito centenas de perguntas sobre a antiga casa de Outeiro Seco, sobre o meu trisavô, sobre memórias antigas e sobre todo um passado, cuja memória já se perdeu definitivamente com a sua morte.

Quadro pintado pela Mimi

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Os motivos de grinaldas de flores da Vista Alegre


Herdei da minha avó paterna um bule, uma leiteira, uma terrina e umas chávenas de chá da Vista Alegre, decorados com este motivo das florinhas e salpicados com dourados. Num inventário que a minha avó fez dos bens que estavam na sala de jantar casa de Outeiro Seco, localizei várias peças, que correspondem às características destas peças e por esse motivo tenho-lhes uma estima ainda maior.

Encontrei sempre tanto encanto neste motivo das florinhas, que quando vejo alguma peça em bom preço, compro-a logo. Num dia de muita chuva, em que os feirantes já tinham debandado todos, achei no chão da Feira-da-Ladra um chávena solta com o motivo das florinhas, que veio fazer conjunto com um pires desirmanado, que tinha em casa.


As mais peças mais antigas tem marcas do início da segunda metade do século XIX e a mais moderna, uma chávena tem uma marca da década de 20. A Vista Alegre foi usando este padrão com florinhas com pequenas variantes aqui e ali, durante um período de mais de cinquenta anos, aplicados em várias formas diferentes. No livro Porcelanas e Vidros. – Lisboa: FRESS, 1999, Mary Lobo Antunes diz a propósito de uma porcelanas semelhante da colecção da Fundação, inv 1347, lembra as peças de Gustave Fortier um pintor francês contratado pela vista Alegre neste período.
Pena é que a página da Internet Vista Alegre seja tão fraquinha e pouco revele da belíssima colecção do Museu da Fábrica. No núcleo do século XIX, abundam peças com grinaldas, florinhas como estas e de muitas outras variedades, todas elas com um charme irresistível. Vale a pena ir a Ílhavo visitar este Museu só para ver as peças oitocentistas.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Apliques do Marché aux Puces



Comprei dois belos apliques no Marché aux Puces, em Paris. O primeiro, em forma de facho, é em bronze e está marcado com as iniciais Y. C (creio que se referem a um tipo de casquilho usado em França, que a peça tinha de origem). O segundo embora seja apenas em latão, tem uma carranca na base que lhe dá uma graça doida. Gosto também imenso das tulipas em forma de flor desabrochada destas duas peças. Julgo que ambas são do século XIX.



Sempre tinha ouvido falar no Marche aux Puces em Paris. Fazia parte do imaginário tradicional, que alimentei ao longo de anos e anos sobre aquela cidade. Idealizava uma espécie de feira-da-ladra com gente a vender umas coisinhas velhas espalhadas pelo chão e frequentada por uns franceses com ar de artista, mas pobretanas.

Há cerca de 3 anos, tive a oportunidade de regressar a Paris e marquei o Marché aux Puces como ponto obrigatório do programa turístico. As dimensões e qualidade da feira foram uma verdadeira surpresa. Com efeito, é o maior mercado de antiguidades e velharias do mundo. São pavilhões e pavilhões e ainda mais pavilhões carregados de toda a sorte de peças de outros tempos. Encontra-se por lá o grande mobiliário francês de época, os Luís XV, Os Luís XVI o Império, a Restauração, que de facto tem uma qualidade excepcional. Percebemos de imediato, porque é que durante séculos a Europa inteira copiou os móveis franceses. Podem-se também comprar painéis de madeira trabalhada, as célebres “boiseries” ou ainda comprar parquets do século XVIII, para revestir e cobrir salas inteiras. Claro, os preços são proibitivos, mas vale a pena entrar, admirar e tocar para educarmos o gosto com o trabalho dos melhores artistas Europeus.



Para além destes pavilhões de estadão, existem outros onde se podem comprar a preços um pouco menos caros as cópias feitas no século XIX dos estilos Luís XIII, XIV, XV ou XVI ou ainda comprar os móveis românticos e Napoleão III. Depois há dúzias de alfarrabistas, livrarias, casas com relógios antigos, lustres, bibelots, loiças de Sêvres, enfim, é um mundo onde o dourado predomina e ofusca os olhos dos transeuntes.

A frequência também é curiosa. Encontram-me muitos americanos da classe alta, com bom aspecto, daqueles que montam um interior Luís XVI completo e da época num apartamento de Manhattan ou numa vila em Los Angeles.

Enfim, o Manel e eu passámos lá horas, almoçamos por lá e saímos por volta das quatro da tarde, porque os pés já não aguentavam mais, mas cheios de pena, porque foi nessa altura que descobrimos a parte barata do mercado das pulgas, mais semelhante à nossa Feira-da-ladra.



Ainda foi complicado passar com estes dois apliques no Aeroporto. A menina da Segurança detectou-os no radar, houve ainda um certo frú-fru e lá tive que explicar, que não eram armas perigosas e que eram velharias compradas nas Puces. Tive sorte, e mandaram-me passar pois quase ao mesmo tempo, os seguranças detectaram uma pistola de alarme na bagagem duma portuguesa, a típica concierge de Paris, que armou um escarcéu dos diabos, bradando contra a polícia e as autoridades do aeroporto, que já da última vez lhe tinha apreendido um conjunto de facas de cozinha, que ela ia levar para a filha, na aldeia

http://www.les-puces.com/

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Viçoso e Moratalla: mais uma casa que acabou

A Viçoso, Moratalla era uma daquelas lojas especializadas que antigamente proliferavam pela Baixa Lisboeta, vindas do tempo em que naquela parte da cidade se encontrava tudo e se podia encomendar coisas ao gosto do cliente. Se queríamos mandar fazer uns sapatos duma cor especial, comprar um galão mais requintado, um tecido melhor, um colchão com uma medida excêntrica, uma cera diferente íamos à Baixa, pois ali vendiam-se coisas mais originais e de melhor qualidade de toda a cidade. Hoje pegamos no carro, vamos para a via rápida, ao hipermercado…

A Viçoso e Moratalla era uma casa de gravadores, que entre carimbos, condecorações e medalhas fazia aqueles cantos em metal, as rosetas, para colocar nas molduras e que são tão difíceis de achar. Faziam coisas absolutamente maravilhosas e o mostruário era tão bonito que tornava difícil a escolha. Qualquer moldura banal ficava logo com um ar estupendo com um daqueles cantinhos trabalhados.

Descobri aquela casa na Rua de S. Julião, 72, um dia, quando voltava da Feira-da-ladra e logo senti-me como um daqueles índios do tempo dos Descobrimentos, que ficavam fascinados a olhar para a quinquilharias, que os colonizadores lhes ofereciam. Voltei logo lá na segunda-feira e depois disso, eu e o meu amigo Manuel tornamo-nos uns clientes fiéis da Viçoso e Moratalla, creio mesmo que os únicos, pois a casa acabou de falir.

Enfim, percebo porque fechou. O horário era tonto e nunca se apanhava aquilo aberto às horas, que se pode fazer compras, não dispunham de pagamento por Multibanco, a empregada era uma sostra e cheirava a urina de cão naquele vão de escadas.

E no entanto que possibilidades tinha aquela loja. Estava toda revestida com estantes e gavetinhas, que se fossem decapadas da tinta castanha cor de caca, revelariam provavelmente um lindíssimo pinho velho. Se o funcionamento tivesse sido modernizado, certamente que a turistada toda que enxameia pelas ruas da Baixa perderia a cabeça com as ferragens deliciosas daquela lojinha vinda de outros tempos.

Enfim, é uma pena

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Registos de Santos II

Este martírio de Santa Felicidade é um dos meus registos preferidos. A cercadura barroca, com o anjinho a oferecer a palma de mártir e as vestes esvoaçantes das personagens, são elementos que emprestam a esta pequena gravura um movimento barroco delicioso.

Santa Felicidade foi uma das muitas mártires cristãs do século III. Esta jovem escrava cartaginesa foi feita prisioneira juntamente com a sua Senhora, uma tal Perpétua. A Felicidade estava grávida e deu à luz antes de ser morta e a infeliz Perpétua levava um filho pequeno. Enfim, foram as duas martirizadas no ano de 202 e o seu dia comemora-se a 7 de Março.





Martírio de Santa Catarina de Alexandria, MNAA



Nas minhas deambulações pelo inventário das colecções dos museus nacionais -o matriz (http://www.matriznet.imc-ip.pt) - descobri outros dois martírios, o de Santa Catarina de Alexandria e o de S. Sebastião, representados exactamente da mesma forma, que a minha pobre Santa Felicidade. À esquerda está ajoelhado o santo ou santa, prestes a ser decepado e à direita está o carrasco a brandir a espada. Fiquei com a ideia de que os pintores, desenhadores e gravadores da época tinham matrizes para representar as cenas religiosas, que eram usadas de pintura para pintura ou até mesmo de pintor para pintor. Consoante o santo a representar, alteravam os atributos, um ou outro pormenor aqui e ali e o quadro ou a gravura estavam prontos para serem entregues ao cliente.



Martírio de S. Sebastião, MNAA

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Relógio Waterbury


Este velho relógio estava pendurado na cozinha da casa de Chaves dos meus avós paternos. Embora na altura, estes objectos não fizessem propriamente parte dos meus interesses, era impossível não reparar nele, por causa do baralho das suas badaladas. Sendo já eu da geração em que os relógios de parede e de sala tinham deixado de se usar há muito, o barulho destes mecanismos era qualquer coisa de intimidante para um miúdo com a minha idade. Existia este relógio na cozinha, e um outro, na sala de visitas, muito grande, de madeira escurecida, que eu imaginava sempre que tivesse um cadáver lá dentro. Também é verdade que o meu irmão e eu dormíamos num quarto contíguo à cozinha, onde existia uma fotografia de um bebé, irmão do meu pai, dentro do seu caixão, rodeado de flores, de modo que era fácil ficar sugestionado para os terrores nocturnos, que tinham como música de fundo as badaladas dos relógios.

Creio que este relógio de cozinha era da família do meu avô paterno, portanto veio da casa dos Cunhas.

O relógio foi fabricado pela firma americana Waterbury e por dentro, gravado no mecanismo, tem a seguinte inscrição Waterbury Clock co / pat’d sept 22 / 1874/ 6 ½ in. Portanto será um exemplar dos finais do século XIX.

Na segunda metade do século XIX e princípios do XX os americanos dominaram o mercado mundial dos relógios e invadiram a Europa com os seus produtos baratos, encontrando apenas uma concorrência significativa da parte dos fabricantes alemães. Contudo, a produção de luxo continuou em mãos francesas.

Esta Waterbury nasceu no Connecticut, em 1857 e a partir de 1890, em virtude da sua associação com uma firma de venda por correspondência, a R. H. Ingersoll & Brother, tornou-se o maior fabricante americano, posição que mantive até às vésperas da Primeira Guerra.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a firma foi comprada por um grupo norueguês, construiriam uma nova fábrica, que tomou o nome de United States Time Corporation, rapidamente abreviado para Timex. Em suma, este meu relógio é um antepassado dos modernos e populares Timex.

Há uns tempos, debaixo da supervisão do meu amigo Manel, que tem um fetiche por relógios, o bicho foi todo desmontado e com uma palha de aço muito fininha limpei a madeira da sujidade de muitos anos de pó e de ceras acumuladas e a maquineta ficou esta maravilha que se vê

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Cafeteira em porcelana russa?


Esta cafeteira em porcelana foi também uma compra na Feira-da-ladra a um preço muito bom. Percebi logo que não se tratava de uma peça da Vista Alegre, nem de outro fabrico nacional. Ao longo dos seus quase dois séculos de existência, a Vista alegre tem tido uma produção muito característica, conservando por períodos de 50 ou 70 anos os mesmos moldes, ou usando por longos períodos a mesma decoração, efectuando aqui e ali, pequenos retoques, ou actualizações para tornar as peças "plus à la page”. O brilho da pasta também é muito característico da fábrica de Ílhavo.

Há pouco tempo, depois de um jantar com os meus filhos, passei em frente a um antiquário na Estrada de Benfica, em frente à praceta Padre Francisco Álvares e estava na montra um conjunto de 3 peças muito semelhantes a esta minha cafeteira, identificadas como sendo porcelana russa. A decoração é mais simples que a minha, mas o formato da leiteira, o bico em forma de bicho, a tampa pontiaguda e as asas são muito semelhantes. Telefonei para esse antiquário e o proprietário muito gentilmente informou-me, que as peças não apresentam marca de fabrico, mas que lhes foram vendidas em leilão pelo Palácio do Correio Velho, com um certificado de autenticação.

A minha mente fervilhou logo, imaginando a cafeteira na bagagem de russos brancos, fugidos à revolução de Outubro de 1917, vagueando pela Europa fora à procura de asilo, até chegarem a o jardim à beira mar plantado.
Há pouco tempo, recebi aqui um comentário aqui no blog, do Elder, casado com uma Senhora russa e habituado a comprar louças daquele país, que me adiantou que a cafeteira poderá ser da fábrica LOMONOSOV, actualmente renomeada IMPERIAL PORCELAIN MANUFACTORY, da cidade de São Petersburgo. Segundo o Elder as porcelanas destinadas ao mercado interno russo não levavam marca.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Desfile por ocasião da coroação do imperador Carlos VI


Comprei esta bela gravura do início do século XVIII, muito barata, em Budapeste, num alfarrabista da rua Vaci. A Vaci é uma artéria pedonal, cheia de lojas, muito comprida, que está para a capital magiar, como a Rua Augusta para Lisboa. Foi uma trapalhada completa compra-la, pois toda a rede de multibancos e cartões de crédito da cidade tinha falhado nesse dia. Tive que acabar por trocar escudos por florins numa das centenas de casas de Câmbio que existiam então no centro da cidade.

Foi uma paixão à primeira vista pois nunca tinha visto nada assim. Trata-se de uma gravura de grandes dimensões, dividida em 31 linhas, que representa um desfile de gala completo, com variadíssimos tipos de coches, cavaleiros e peões. Cada um deles está numerado e deve ter existido uma folha à parte com as legendas dos números, onde se poderia saber quem seriam aquelas digníssimas pessoas, que faziam parte do cortejo. Esta representação da coroação de Carlos VI como imperador do Sacro Império Romano Germânico, na cidade de Frankfurt é muito semelhante à técnica da Banda Desenhada

Não sei se esta gravura fazia parte dum livro. Talvez fosse vendida como folha volante, para que aqueles que não pusessem ter assistido à coração, ficarem com uma ideia do esplendor da cerimónia. A minha colega Eva-Maria sugeriu-me até que seria vendida em forma de rolo.

Infelizmente o documento não apresenta o nome do impressor, nem do gravador. Só tem a legenda em alemão, identificando o evento e a data Einzug Ihro Römischen Kayserlichen Mayestaet Caroli VI in Frankfurt am Mayn / Den 19 Dech Ao 1711.

Frankfurt sobre o Meno era o local tradicional de coroação dos imperadores do Sacro Império, entidade supra nacional, que incluía não só os domínios dos Habsburgos como também toda a Alemanha.

Para nós Portugueses, o nome de Carlos VI não nos diz nada. Mas a sua única filha, que para conseguir herdar o trono do pai, teve que se bater com metade da Europa, na chamada guerra da Sucessão, é nada menos nada mais do que a célebre Maria Teresa de Áustria, a déspota iluminada, que foi mãe de outra celebridade histórica, Maria Antonieta, rainha de França.


Mais recentemente, a Eva Maria, minha colega, enviou-me uma imagem, que representa a última embaixada polaca em Istambul, em 1790, que adopta um esquema gráfico idêntico ao da minha gravura

Faiança de Vilar de Mouros



Esta travessinha que desencantei na feira de velharias de Belém é mais um dos muitos mistérios da faiança portuguesa. Quando a comprei pareceu-me fabrico de Alcobaça. Contudo, nos sites dos leiloeiros portugueses este tipo de decoração - uma casa com um telhado muito inclinado- é invariavelmente atribuído a Vilar de Mouros, no Minho e datado do século XIX. Gostava de perceber em que se baseiam estes antiquários e leiloeiras para fazer esta atribuição. Já pesquisei toda a net e não me aparece nada de jeito sobre esta fábrica de Vilar de Mouros. Se lançar uma pesquisa no google, para além dos sites dos leiloeiros, que tem uma informação mais que sumária, só encontro infindáveis notícias sobre o maldito festival de rock de Vilar de Mouros, todas elas a cheirarem a suor e a cerveja azeda.
A este propósito consultei o Artur Sandão, Faiança portuguesa: séculos XVIII-XIX e nas págs. 167 a 170, do segundo vol. e encontrei uma referência a esta fábrica. Teria sido fundada em 1855, em Vilar de Mouros, por José Maria Bento e José Alvarinhas, antigos operários da Fábrica de Viana, em sociedade com um tal Domingos de Luís. Laboravam com barro importado de Lisboa e estiveram em actividade até 1905. O Sandão apresenta umas imagens a preto e branco muito esmorecidas de algumas peças da Fábrica. A figura 170ª é de facto algo parecida com a minha travessa, mas acho que continua a ser difícil afirmar categoricamente que estas faianças com o motivo do chalet alpino são produto da Fábrica de Vilar de Mouros .
Padrão Roselle


Em todo o caso, parece-me que este motivo do prato - a casa com o telhado de chalet alpino rodeada de árvores - se inspira no padrão Roselle do fabricante inglês JOHN MEIR & SON (segunda metade do século XIX). Durante todo o século XIX a faiança inglesa dominou o mercado europeu, os seus motivos serviram de inspiração aos fabricantes de todo o continente. Em Portugal, Sacavém e Massarelos seguiram de perto os modelos ingleses e o célebre padrão dos Países da fábrica Miragaia inspirou-se num motivo da Herculaneum pottery, de forma, que parece-me muito natural, que este motivo do chalet seja uma reinterpretação popular e livre do padrão roselle

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Mesa Bufete

Esta mesa bufete veio da família da minha avó paterna, do solar de Outeiro Seco. Consegui identifica-la num filme que o meu pai fez do solar nos 60. Estava colocada na antiga sala de visitas e tinha por cima uma fonte em alabastro, de vários andares e decorada com uns pássaros.


Depois de umas trocas e baldrocas com a minhas irmã, este bufete ficou para mim e o meu amigo Manel entusiasmou-se com a peça mal a viu e ofereceu-se para a restaurar. Limpou-a dos excessos de cera e outras sujidades que o muito uso lhe deu, consolidou-a e pôs as ferragens a brilhar.
Este Bufete é feito em pau-santo, tirando as travessas mais curtas, que serão talvez em vinhático. O pau-santo é uma madeira proveniente do Brasil, da mesma família que os célebres jacarandás, aquelas árvores que nos finais da Primavera, princípios do Verão enfeitam as ruas de Lisboa com umas flores roxas. Aliás, nos Açores e no Brasil, nomeiam esta madeira por Jaracandá. Seja como for, o Pau-Santo foi de tal forma preferido pelos nossos marceneiros nos séculos XVII e XVIII, que se tornou a imagem de marca do mobiliário português. Por exemplo, os franceses usavam madeiras relativamente pobres, carvalho, faia e depois, para disfarçar essa relativa pobreza do material, pintavam os móveis de dourado, adornavam-nos com bronzes ou faziam preciosos embutidos com ébano e pedacinhos de madeiras exóticas. Os portugueses como tinham acesso às melhores madeiras exóticas do mundo, deixavam os móveis na sua cor natural e assim possibilitaram a que ainda hoje se possa admirar o contraste dos veios do pau-santo. No Norte de Portugal, o Pau-santo aparece também muitas vezes designado por pau-preto.
O meu avô Silvino desdobrando um antigo livro em cima do bufete
Com as suas travessas e pernas torneados e o contraste muito característico entre o escuro do pau-santo os dourados das ferragens, este bufete faz parte daquilo que Robert Smith, o historiador de arte americano, designou por estilo nacional português. Contudo, as pernas são oblíquas à maneira das mesas espanholas, o que não é de estranhar já que Outeiro seco está a uns escassos km de Espanha e que a origem da família Montalvão é espanhola. Segundo o meu amigo Manel, que já tem muita experiência de mobiliário, esta peça é provavelmente antiga, talvez do século XVIII, ou até talvez mesmo do século XVII, embora é sempre complicado fazer estas datações, pois por vezes os marceneiros repetiam durante décadas a fio, o mesmo tipo de modelos.

pormenor da ferragem
Contudo, esta mesa teve uma história complicada. Originalmente, terá tido entre o tampo e as pernas uma cintura de gavetas ou outro corpo qualquer, eventualmente um bargueño ou um contador. Nos dois travessões entre as pernas e o tampo estão lá os buracos para os parafusos que fixariam o tal corpo de gavetas, entretanto desaparecido. Em reforço desta teoria está também a altura do bufete (74, 5 cm), que mais baixo que o normal (entre 90 e 85 cm). O que terá acontecido a este corpo de gavetas, ninguém sabe. Um incêndio terá danificado o móvel? Alguém que achou a mesa muito alta?

Embora actualmente sirva de mesa de sala de jantar na minha casa minúscula, a função original desta peça não era essa. Este tipo de mesas destinava-se à escrita e estavam normalmente colocadas nas livrarias das grandes casas ou conventos. Aliás, o uso da mesa de sala de jantar data só dos finais do século XVIII. Até lá usavam-se simples tábuas assentes sobre uns estrados, que eram facilmente amovíveis de sala para sala, pois nas casas antigas não existia divisão nenhuma específica para as refeições.

Para quem goste de conhecer como eram os espaços interiores nas antigas casas portuguesas, sugiro a leitura do do livrinho "Museu dos Biscainhos: roteiro. Lisboa: IPM, 2005"