sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Canivet com moldura bordada a prata e a ouro ou votos de boas festas


Como já aqui escrevi muitas vezes não sou muito dado a assinalar no blog comemorações, efemérides, celebrações e quadras festivas. Recordo-me sempre das redacções da antiga instrução primária com o tema imposto, onde tinha que puxar pela cabeça para escrever 20 linhas, afirmando que gostava muito do Natal, de receber prendas, comer rabanadas, do menino Jesus e sei lá que mais. Depois vinham sempre as reguadas e os insultos por causa dos erros de ortografia, porque naqueles inícios dos anos 70, em Portugal, nos finais da ditadura, acreditava-se piamente nas vantagens educativas dos castigos físicos, de modo que fiquei com um asco a escrever sobre estações do ano, quadras festivas e outras coisas do género.

No entanto, não consegui resistir mostrar aqui no blog um canivet ricamente emoldurado, com bordados a prata e ouro, que o meu amigo Manel adquiriu recentemente. Achei que todo esplendor do bordado a ouro era uma forma simpática de desejar as boas festas a todos os que por aqui passam.

Como já aqui expliquei anteriormente, canivet, é um termo francês que quer dizer canivete e que alude ao instrumento de trabalho, com que eram feitas as imagens dos santinhos, um estilete pontiagudo e aguçado, com o qual se picotava um pedaço de papel, pergaminho, velino ou tecido, de modo a formar o efeito de uma renda. A imagem do santinho era desenhada e aguarelada. Estes trabalhos normalmente datam dos século XVII ou XVIII e eram feitos por monjas, que os vendiam para fora, como forma de garantirem proventos extraordinários para os seus conventos. Nunca estão assinados e as informações que se encontram na internet sobre os canivets atribuem estes trabalhos a conventos situados em França, em Itália ou no mundo germânico, designação que abarcará certamente os Países Baixos. No entanto estes canivets aparecem bastante cá em Portugal e não sei se foram importados de França da Alemanha, Flandres ou Itália ou se foram obra das mãos das nossas freiras, em cujos conventos existiu também uma tradição de trabalhos preciosos de papel recortado, que persistiu até há bem pouco tempo. O que é certo é que os exemplares que encontrei nas terras lusitanas tem sempre a legenda em latim e nunca em português, como era vulgar nas estampas devotas impressas por cá, nesse mesmo período.

O canivet que hoje aqui apresento, é um bom exemplo, de que estas pequenas maravilhas da habilidade manual poderão não ser portuguesas. A legenda da imagem é S. Elisavetha. Claro, sei que é Elisavetha é Isabel, mas não consigo identificar a língua em que está escrita. Actualmente Elisavetha é uma forma do nome Isabel apenas usada na Bulgária e na Macedónia, o que me parece fora de cogitação. Inclino-me mais para que Elisavetha seja uma forma arcaica do alemão, flamengo ou francês para Elisabetha. Em todo o caso, esta ortografia não é portuguêsa certamente.
O canivet do Manel será feito em velino
Quanto à Santa Isabel em causa é outro problema. A figura representada é uma rainha, que dá esmola a um pobre e tanto poderá representar a nossa Rainha Santa, Isabel de Aragão, ou a sua tia-avó, que também foi rainha, Isabel da Hungria ou da Turíngia. A iconografia das duas é em tudo semelhante e ambas fizeram milagres com rosas. Ainda recentemente no Museu do Prado, rectificaram a identificação de um quadro de Zurbarán, que se acreditava ser a Santa Isabel da Hungria e afinal representa a nossa Rainha Santa. Enfim, uma das duas santas, será de certeza, até porque há rosas decorando o canivet.

No entanto, como a imagem do Canivet será talvez estrangeira é mais certo, que represente Santa Isabel da Hungria (1207–1231), que provavelmente nasceu em Brastislava e talvez com mais propriedade pudesse ser designada por Isabel da República Eslovaca, o que não ficava nada bem. Na verdade, a actual República Eslovaca esteve sempre na órbita do Reino da Hungria, até 1918, altura em que os eslovacos se juntaram aos checos, para formarem a Checoslováquia. Ainda hoje na Eslováquia, finalmente independente, vivem quase meio milhão de húngaros, que formam uma minoria organizada.

Se a Santa Isabel representada na imagem será a da Hungria, já o trabalho da moldura, uma estrutura montada sobre um cartão e revestida de seda, bordada a missangas de ouro e prata é mais caracteristicamente português, certamente um trabalho freirático.

Em suma, acerca deste canivet, com uma moldura luxuosamente bordada, sabe-se pouco. Talvez seja estrangeiro, representará a Rainha Santa ou mais provavelmente Santa Isabel da Hungria, mas o trabalho da moldura é mais reconhecidamente português. Apesar de todas essas incertezas é uma peça admirável, que serve como um belo cartão, desejando-vos a todos umas boas festas.
 
 
Alguns links:
 
 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Os pequenos livros de missa



Como toda a gente sabe o meu gosto pela arte sacra oferecem-me por vezes uma beatice qualquer, um crucifixo, uma estampa devota ou um pequeno missal, como este que vos apresento hoje, dado pela minha amiga e colega Fernanda Bento.

Estes missais luxuosamente encadernados a osso, marfim, madrepérola, marroquim, ou a baquelite eram objectos muito comuns ao longo do século XIX e mesmo no início do XX. Eram normalmente prendas que se ofereciam por ocasião de uma primeira comunhão ou de qualquer outro sacramento. A maioria dos exemplares que chegaram até nós foi impressa em Paris, que na altura era um centro editorial à escala mundial, onde se editavam todo o género de livros, desde os de arte, passando pelos literários e científicos, até aos piedosos e que eram vendidos nas quatro partes do mundo.


Hoje, estes livrinhos luxuosos perderam a sua utilidade e razão de ser, não só porque as pessoas estão cada vez mais descristianizadas, mas sobretudo porque no passado as missas decorriam em latim e estas obras traduziam para português o ritual da Missa.

Anuncio da Gazeta de Lisboa, no 250, Sábado, 22 de Outubro do ano 1814 a um missal coordenado pelo Prior de abrantes


Encontrei na Gazeta de Lisboa, um dos periódicos mais antigos portugueses, um anuncio datado de 1814, a um destes livros de missa, que tal como o meu exemplar também foi coordenado pelo Prior de Abrantes, onde se explica muito a sua função de tradução do ritual católico do latim para as chamadas línguas vulgares. Assim, no número 250, Sábado 22 de Outubro do ano 1814, anunciava-se na Gazeta de Lisboa que o Missal do Prior de Abrantes traz também em portuguez todas as orações comuns que o Sacerdote diz na Missa e todas as Epistolas, Evangelhos, Sequencias, e Prefacios de todas as missas do anno, mesmo para as solemnidades particulares da Igreja de Portugal em todos os bispados do Reino, e oragos das freguesias de Lisboa, Missas de defuntos, etc.
Pequeno Livro da missa e da confissão e outras devoções com edição feita sobre a do prior de Abrantes


Este livrinho, intitulado Pequeno Livro da missa e da confissão e outras devoções com edição feita sobre a do prior de Abrantes, impresso em Paris por Laplace, Sanchez, não apresenta qualquer data, como era vulgar nestes missais e não me perguntem porquê. Como bibliotecário, interrogo-me sempre irritado porque é que houve tantos editores que ao longo dos séculos não dataram os seus livros. Contudo fiz uma pesquisa no catálogo da Bibliotèque Nationale de France, pelo nome do editor e dos 306 resultados, que obtive, pude apurar que o Laplace, Sanchez esteve activo entre 1869 e 1895. Portanto posso presumir com alguma segurança que este pequeno livro de missa foi editado em Paris, entre 1869 e 1895.

Quanto ao Prior de Abrantes, não consegui descobrir nada sobre este Senhor, nem na Biblioteca Nacional de França nem na portuguesa. Pelo anúncio da Gazeta de Lisboa, de 1815, onde já se menciona a sua existência, deve ser sido uma personagem cuja vida deve ter decorrido muito antes dos anos em que foi editado meu livro. 

Ainda sobre este livros de missa, há a referir que as encadernações eram executadas por profissionais diferentes dos editores e impressores, os encadernadores e que as grandes tiragens destes livros de Missa desenvolveram imenso a arte da encadernação, colocando-a ao alcance de um largo grupo de pessoas, fora do meio bibliófilo.


Em suma este livro de missa com uma encadernação em baquelite, representando S. José e o Menino Jesus, impresso em Paris, entre 1869 e 1895 é o testemunho de uma época em que as missas decorriam em latim e havia a necessidade de publicar estes livrinhos com a tradução do ritual católico, para que os crentes pudessem acompanhar e compreender a missa.
 
Algumas informações sobre missais:

http://www.bibliothequedusaulchoir.org/French/catalogues/Labarre/Labarre_Communion.pdf

http://www.bibliothequedusaulchoir.org/French/catalogues/Labarre/Labarre_Missels.pdf

domingo, 29 de novembro de 2015

Barro preto

 
Há cerca de uns doze anos comprei este grande recipiente de barro preto, em Vinhais, num senhor que vendia velharias. Foi uma peça bem regateada, pois o vendedor, presumindo que eu era um finaço qualquer de Lisboa, queria-me fazer um preço alto. Comprei-o a pensar coloca-lo logo à entrada de casa, para pôr os guarda-chuvas. O que ainda hoje estou para perceber, foi como consegui encaixa-lo no carro que tinha na altura, um Fiat Cinquento, juntamente com dois filhos, um bonsai, fraldas, brinquedos e a bagagem para 15 dias de férias e ainda fazer 550 km de regresso até Lisboa com aquela tralha toda.

Na altura que o comprei achava que era barro preto de Bisalhães, uma localidade próxima de Vila Real, em Trás-os-Montes. Aliás, todos nós associamos sempre esta louça preta a Bisalhães. Contudo, num passado ainda não muito longínquo, esta louça de barro preto era feita em quase todo País, a Norte do rio Tejo. A Sul deste rio, só há registo de duas localidades que faziam louça preta, Flor da Rosa e Pinhal Novo.

Mesmo em Trás-os-Montes, houve outros centros oleiros, além de Bisalhães a fazer peças deste barro escurecido pelo fumo, em particular Vilar de Nantes, ao pé da cidade de Chaves e umas quantas aldeias vizinhas, nomeadamente Samoiões, Agostém e Selhariz. Em Bragança, na aldeia Cavelhe, também se fez barro preto, mas ao que parece por um oleiro vindo de Vilar de Nantes.

A este propósito, li dois textos muito interessantes de Isabel Maria Fernandes, publicados respectivamente no catálogo A louça preta em Portugal, olhares cruzados. - Porto: Centro Regional de Artes Tradicionais, 1997 e no nº 1 da revista Olaria. - Barcelos: Câmara Municipal de Barcelos, 1996, p 11-36, em que a autora além de fazer um levantamento de todos os centros produtores de barro preto, sistematiza as áreas geográficas, em que cada um deles conseguia comercializar os seus produtos, que naturalmente não era grande. As panelas, os cântaros e os púcaros eram transportados, às costas pelos homens, à cabeça pelas mulheres ou no dorso de animais de carga. Relativamente a Vinhais, as feiras desta vila eram frequentados pelos oleiros de Vilar de Nantes. Em suma, é mais provável que esta peça que eu comprei tenha sido executada por um pucareiro de Vilar de Nantes ou de uma das aldeias vizinhas.
 

Relativamente à função original que ele teve, eu que já fui criado na era do Tupperware tenho alguma dificuldade em identifica-la. Consultando os catálogos dos Museu de Etnologia, Arqueologia e Arte Popular acessíveis no Matriz.net, encontrei peças com formas idênticas, que são designadas por asados. Porém, também encontrei peças com este formato, com duas asas, mas designadas por panelas, embora apresentem menores dimensões, que este meu asado, com cerca de 37 cm de altura e 27 cm de diâmetro de área máxima no bojo. Presumo que fosse um utensílio para conter líquidos, já que tem um orifício a meio do corpo, tapado por uma rolhinha, que eu conservei. Aliás, tenho a ideia que as designações das peças de olaria variaram ao longo do tempo e também no espaço. Por exemplo, em Trás-os-Montes usava-se um termo com um nítido sabor galaico-português, o pichorro, para designar uma chocolateira. A própria palavra oleiro tem um uso relativamente novo. No passado, usava-se o termo pucareiro ou paneleiro para designar um oleiro. Só nos dicionários do século XX, o termo paneleiro parece com a conotação de pederasta sexualmente passivo, provavelmente por analogia entre as formas docemente arredondadas das panelas bojudas e as nádegas. As próprias panelas poderiam ter uma acepção mais vasta do que meros instrumentos para ir ao lume.

Em conclusão este asado, destinado a conter líquidos terá sido feito provavelmente em Vilar de Nantes, ou numa das aldeias vizinhas, num forno que era abafado, para o barro ganhar esta bela cor preta.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A casa de banho do velharias do luís na TV


 As minhas excentricidades decorativas, que tenho mostrado aos poucos neste blog, voltaram a interessar a televisão. Desta vez, a propósito do Dia Mundial da Casa de Banho, a televisão voltou a minha casa e fui convidado para o programa da Júlia Pinheiro, as Queridas Manhãs, para falar nessa divisão do meu apartamento, que decorei de forma muito pessoal com toalheiros antigos, faianças inglesas do século XIX e azulejos pombalinos e um pequeno eléctrico lisboeta.
 
É certo que o programa da Júlia Pinheiro, não é propriamente uma coisa cultural, daquelas que passam no segundo canal e que fui convidado a título de curiosidade, mas em todo o caso foi interessante passar a mensagem numa televisão com uma enorme audiência, que se podem fazer decorações divertidas, sem obedecer a nenhuma convenção ou moda, com objectos antigos, muitas vezes desprezados e atirados para o lixo pela maioria das pessoas.
 
Achei também um certo interesse ao contraste entre os dois entrevistados, eu, que nasci na classe média, habituado aos confortos modernos desde a nascença e a senhora idosa alentejana, criada no campo, numa pobreza tão característica dos meios rurais portugueses do passado e que agora vive feliz, porque tem uma casa de banho, horrorosamente setentona é certo, mas um supremo luxo para ela. Quase que me envergonhei da minha snobeira em tornar a minha casa de banho, um espaço cuidadosamente decorado com coisas em segunda mão, quando a senhora disse que não lia no wc porque era analfabeta. Mas enfim, não posso flagelar-me e sentir-me culpado da miséria que até uns cinquenta anos caracterizava Portugal. A via que escolhi seguir na vida, a cultura, o património e a história não é feita à custa da pobreza dos outros.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Uma taça de chá da Companhia das Índias que afinal será inglesa


Os dias de chuva são sempre propícios para fazer boas compras nas feiras de velharias. A multidão some-se aos primeiros pingos de chuva e os feirantes, que querem fazer algum dinheiro, de modo cobrir pelo menos os custos da gasolina e vendem então as suas mercadorias a preços convidativos. Foi assim que eu e o Manel conseguimos comprar duas taças de chá, possivelmente companhia das índias, por um valor muito simpático.

Confesso que nunca percebi nada de nem de louça chinesa, nem de Companhia das Índias e a compra desta chávena foi um pretexto para me informar sobre esses assuntos.

Bem, ainda que correndo o risco de menorizar a cultura dos leitores deste blog, talvez conviesse começar por dizer que Companhia das Índias não é nenhuma fábrica de porcelana chinesa, embora seja um termo muito usado por antiquários e amadores de arte para designar porcelana da China, produzida sobretudo no século XVIII.


Este termo tem origens nas várias companhias europeias, criadas na Holanda, no século XVII e depois em Inglaterra e na França no século XVIII e que detinham o monopólio do comércio de produtos vindos das chamadas Índias Orientais, onde se incluía a China. Uma das actividades mais importantes dessas companhias coloniais era o comércio da porcelana chinesa, mas não era uma porcelana idêntica a que os chineses usavam para si. Essa porcelana era produzida especialmente para a Europa e correspondia a um gosto ocidental. As formas inspiravam-se nas peças de ourivesaria europeia e eram frequentemente objectos desconhecidos na China, como urnas, bacias degoladas, penicos, bourdaloues, chávenas com asas, entre outras. As decorações eram também executadas ao gosto europeu e podiam ser o resultado de encomendas precisas feitas a partir de gravuras, desenhos, fragmentos de tecidos ou papéis de parede. Havia mesmo quem encomendasse serviços de louça completa com as armas de família, a chamada porcelana armoriada. Por vezes, enviavam-se para China peças de porcelana europeia, como de Meissen ou Sèvres, caríssimas na altura, pois ficava mais económico encomendar reproduções a dezenas de milhares de km do continente europeu, do que comprar as originais. Também, se mandava vir da China louça branca, que depois era decorada na Europa.

Portanto, a designação companhia das Índias cobre um universo muito vasto, que vai desde a família verde, à rosa, passando pela porcelana armoriada, folha de tabaco até à azul e branca. Este universo é imenso, não só em variedade, mas em número. Por exemplo, a companhia das Índias Orientais holandesa terá feito chegar à Europa, 43 milhões de peças entre 1724 e 1794. Igualmente no século XVIII, a estima-se que Companhia das Índias orientais inglesas, terá sido responsável pela importação de 30 milhões de peças. 

Em Portugal, tentou-se criar também várias vezes uma companhia de comércio oriental, mas sem grande sucesso. Na prática, ao longo dos séculos XVII e XVIII, o comércio de porcelana foi feito por particulares, que pagavam uma percentagem à coroa pelos produtos transportados. Em todo o caso, avaliam-se em 10 milhões o número de peças de porcelana trazidas pelos portugueses.

Talvez por causa destes números assombrosos de porcelana chinesa feita ao gosto europeu, experimentei dificuldades em classificar a minha chávena de chá nas famílias típicas da chamada Companhia das Índias e encontrar peças idênticas. A minha taça parece corresponder a um gosto francês, diria mesmo que colheu inspiração nas decorações rocaille de Sèvres. Mas é um rocaille visto por um chinês, em que as tradicionais rosas de Sèvres, se transformaram nuns crisântemos muito orientais. 
Chávena de Sèvres. Colecção Harewood House
Em suma, as minhas pesquisas sobre esta chávena não foram muito conclusivas, até por que nos finais do XVIII, as fábricas de porcelana europeia inspiravam-se também nas louças das companhias das Índias e com efeito depois de publicar este post, a Maria Andrade, chamou-me a atenção para que esta peça afinal poderia ser inglesa. Com efeito, nos finais do século XVIII, algumas fábricas inglesas começaram a produzir louça inspirada na Companhia das Índias, nomeadamente New Hall (1782-1835), Worcester (fundada em 1751), Derby (fundada em 1750), Coalport, entre outras e o formato gomado desta chávena é muito típico da porcelana britânica desse período. Fiz umas quantas pesquisas na net nesse sentido, e com efeito encontrei muitas peças com decorações do mesmo género, com azuis e dourados, das fábricas acima mencionadas, normalmente datadas dos finais do XVIII,  mas sobretudo da New Hall, em particular o padrão 248 desta fábrica, cuja produção se terá iniciado cerca de 1800.

New Hall. Padrão 248, ca. 1800

Em suma é muito provável, que esta taça seja inglesa, dos últimos anos do XVIII ou dos primeiros do XIX.


Alguma bibliografia e links úteis:

Les Compagnies des Indes : route de la porcelaine / Jean-Pierre Kerneis, Robert Picard, Y. Bruneau. - [Paris] : Arthaud, 1966. - 386 p. : il.; 22 cm. - (Bibliothèque historique)

Porcelana de encomenda ou louça encomenda da China / César Valença. - Braga : Museu Nogueira da Silva, 1987. - 13-30 p. : il. ; 23 cm. - Separata de Forum, Braga, 2 de Outubro de 1987

Porcelanas e vidros / Mary Espírito Santo Salgado Lobo Antunes. - Lisboa : Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva, 1999. - 179 p. : il. ; 29 cm

http://gotheborg.com/qa/beginning.shtml

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Santa Joana Princesa, Rainha Santa Joana de Valois e as intrigas da corte francesa

S. Ionna
Quando o Manuel comprou este registo aguarelado, com a legenda S. Ioanna, emoldurado preciosamente no século XIX, pensámos de imediato que se trava de uma representação de S. Joana Princesa. De facto tudo parecia apontar para que aquela figura coroada, envergando um manto de arminho e entregando uma esmola a um pobrezinho, fosse a Infanta de Avis (1452-1490), filha de do Rei D. Afonso V e que ficou conhecida na história como Santa Joana Princesa.


Fui então consultar o Dicionário de iconografia portuguesa: retratos de portugueses e de estrangeiros em relações com Portugal / Ernesto Soares, Henrique de Campos Ferreira Lima. - Lisboa : Instituto para a Alta Cultura, 1947-1960 e andei a ler a entrada sobre a forma como S. Joana Princesa é representada na arte portuguesa e os dados não coincidiam com a estampa do Manel. Normalmente Santa Joana Princesa é mostrada como monja dominicana, com um crucifixo na mão e ainda, uma coroa real e uma caveira algures no chão ou pousada numa mesa.

O Dicionário de iconografia de Ernesto Soares remetia para a obra de Rocha Madahil Iconografia da infanta Santa Joana. - Coimbra: Coimbra Editora, 1957 e fui então consultar esse livro, que me deu informações muito detalhadas sobre a forma como na arte se mostrou a figura daquela infanta de Portugal.


Segundo Rocha Madahil, as estampas que representam S. Joana são de dois tipos.



Retrato de Santa Joana Princesa do Museu de Aveiro. Foto wikipedia
As do primeiro tipo inspiram-se de uma forma mais ou menos fiel na tábua quatrocentista do Museu de Aveiro, que é um retrato verdadeiro da Princesa. 
 
Uma representação típica de Santa Joana Princesa. "3 coroas reais jazem por terra, em alusão aos casamentos que lhe foram propostos e desprezou". Foto http://www.csarmento.uminho.pt/ 
O segundo tipo é constituído pelas estampas devotas e nelas a Princesa é representada em hábito de dominicana e tem como atributos a coroa de Espinhos, o crucifixo, um livro de orações, frequentemente uma caveira, e quase sempre aparece de corpo inteiro, 3 coroas reais jazem por terra, em alusão aos casamentos que lhe foram propostos e desprezou. O Brasão de armas de Portugal acompanha muito frequentemente as figurações da Infanta, bem como uma legenda identificadora mencionando expressamente a sua categoria social de Princesa.
 

Uma representação típica de Santa Joana Princesa. Santa Joana é sempre identificada como Princesa de Portugal. Foto
http://www.csarmento.uminho.pt/
Em suma, a estampa do Manel não era certamente uma representação da Santa Joana, Infanta de Aviz, pois esta não era identificada inequivocamente como Princesa de Portugal, não havia coroas pelo chão, nem um escudo de Portugal e nem a figura trajava um hábito dominicano.

Rocha Madahil adverte para o facto que as estampas com a legenda S. Ioanna e que mostram uma mulher coroada, com um manto de arminho, um crucifixo e diante dela, um Menino Jesus, que lhe coloca um anel no dedo mínimo da mão esquerda, representam na realidade a Rainha Santa Joana de Valois, cujo culto, em tempos idos terá conhecido também alguma popularidade em Portugal, pois existem uns quantos registos desta santa nas colecções das bibliotecas e museus portugueses
As gravuras com a legenda S. Ioanna, mostrando uma mulher coroada, com um manto de arminho, um crucifixo e diante dela, um Menino Jesus, que lhe coloca um anel no dedo mínimo da mão esquerda, representam na realidade a Rainha Santa Joana de Valois

Esta Joana de Valois (1464-1505) era filha Luís XI de França e da Rainha Carlota de Sáboia e como todas as princesas reais daquela época, foi um mero joguete de uma prática, em que os casamentos eram contratos políticos, que variavam consoante os interesses das conjunturas do momento. Com efeito, o seu pai casou Joana com Luís de Orleães, uma família demasiado próxima do trono de França, com o objectivo maléfico de afastar os Orleães da sucessão real, pois sabia perfeitamente, que daquele matrimónio nunca sairiam filhos, uma vez que a jovem era coxa e corcunda. Se de facto, Luís de Orleães nunca fez uma vida matrimonial com pobre Joana, conhecida na época como la boiteuse, as contas saíram um bocadinho trocadas a Luís XI, quanto a afastar do trono o seu genro, pois o seu filho mais velho, Carlos VIII morreu acidentalmente, sem deixar filhos varões e Luís de Orleães, passou a ocupar o primeiro lugar na sucessão da linha do trono. No meio de uma intriga política complicadíssima, daquelas em que a corte francesa é pródiga, Luís de Orleães e a la boiteuse acabaram por se tornar reis de França, o que explica que a figura da estampa do Manel esteja coroada e com um manto de arminho. Contudo, a pobre Joana foi rainha por pouco tempo, pois Luís de Orleães, agora Luís XII, pediu ao Papa a anulação do matrimónio, para se casar com Ana da Bretanha, viúva de Carlos VIII, assegurando a integração definitiva daquela região no Reino de França. Depois de um processo complicado, em que Joana foi vilipendiada, o Papa Alexandre Bórgia acabou por anular o casamento e a La boiteuse, foi recompensada com o título de Duquesa Berry.

Santa Joana de Valois por Jean Mazoyer. Bordeaux, église Sainte-Eulalie. Foto http://inventaire.aquitaine.fr/
Apesar de coxa e corcunda, Joana de Valois era inteligente e sensível e logo depois de ser repudiada, dedicou-se à única actividade permitida a uma mulher da sua condição (para além dos lavores femininos), a religião e fundou a Ordem da Anunciação (Ordo de Annuntiatione Beatae Mariae Virginis), que ainda hoje existe. 

Voltando à gravura do Manel, depois de todas estas leituras, o que era uma simples imagem piedosa, transformou-se num pequeno símbolo das insídias da corte dos Valois, fonte inesgotável para a literatura, para o cinema e mesmo para aqueles historiadores, que se comprazem com a intriga política.
S. Ionna
 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Cenas Venezianas: faianças da Wood and Brownfield, da misteriosa marca C. & J. Shaw e ainda de Sacavém

 
Quem gosta e aprecia faiança inglesa do século XIX sabe que é um tema muito bem estudado e que uma simples pesquisa pela marca, no Google, permite datar e identificar rapidamente o prato ou a travessa, que temos lá em casa. Todavia, a passagem de 150 ou 200 anos depois da produção dessas loiças inglesas apagou inevitavelmente alguns registos, fazendo desaparecer alguns aspectos da história dessas cerâmicas. Nesses casos, não há internet, que nos valha e se quiséssemos eventualmente recuperar a história de alguns fabricantes, como a misteriosa firma inglesa C. & J. Shaw, teríamos que fazer uma investigação em arquivos, anuários industriais ou velhos catálogos de fábrica. Como me falta a disponibilidade para fazer investigações mais sérias terei que me valer das marcas existentes, associar algumas ideias e fazer suposições. 
Pormenor da travessa. Uma vista italiana imaginada.

Toda esta história começou quando eu e o Manel comprámos na feira de Estremoz, um prato coberto e uma travessa de um enorme serviço de jantar de faiança inglesa, de meados do século XIX, que estava à venda na Feira de Estremoz. Todo o serviço era muito bonito e as várias peças representavam uma paisagem italiana, com algumas variantes entre si, misturando ruínas romanas, lagos românticos e gôndolas venezianas, mas no fundo sem reproduzir nenhuma vista real em concreto. Enfim, a decoração deste serviço mostra uma Itália imaginada e romântica, destinada a deleitar uma burguesia, que lia nos jornais ilustrados as maravilhas de Roma, Veneza ou Florença, mas não tinha dinheiro para viajar até lá.

Contudo, ao contrário do que eu e o Manel achávamos natural, as marcas das peças que comprámos, não eram as mesmas.
O prato coberto, ao qual lhe falta a tampa.

O meu prato coberto apresenta a marca H. Cutler-Castle-Hill-Works, Sheffield, acerca do qual fiz algumas pesquisas na net e descobri senhor H. Cutler era um fabricante de cutelaria, isto é, produzia facas de cozinha, talheres, canivetes e ferramentas. Aliás, à semelhança da nossa Guimarães, a localidade de Sheffield era célebre pelas suas fábricas de cutelaria. Em suma, este H. Cutler não parece ter sido um produtor de cerâmica.
A marca do prato coberto

Já a travessa do Manel, apresenta a marca W. & B., facilmente atribuível à fábrica inglesa Wood and Brownfield, uma firma que inicia a sua actividade em 1837 e termina em 1900, com algumas alterações de nome pelo meio.

 
A travessa e a sua marca W. & B.

No sábado seguinte, o Manel voltou à Feira e constatou que as restantes peças do serviço, que ficaram na banca do vendedor ostentavam no reverso a marca W. B ou C. & J. Shaw. Este C. & J. Shaw é um nome do qual se sabe muito pouco, na internet não há informações pertinentes sobre ele, mas aparecem aqui em Portugal muitas peças com a sua marca muito característica, que inclui além das referidas iniciais, o mote latino, Vincit Veritas, quer dizer, mais ou menos, a verdade vencerá, ou pela verdade vencerás.

Portanto, no mesmo serviço encontravam-se três marcas diferentes: H. Cutler-Castle-Hill-Works, Sheffield; W. B e C. & J. Shaw, o que constituía verdadeiro quebra-cabeças.

Porém, lembrei-me que há uns tempos, a Margarida Elias, do blog memórias e imagens, tinha-me enviado uma imagem de um prato coberto inglês com uma marca incisa, ilegível e que ela me pediu ajuda para identificar. Na altura, não consegui ler a marca, mas fiquei com a coisa pendente numa pasta da minha cabeça, que se intitula assuntos que o só tempo resolverá. E com efeito, abri novamente o e-mail, vi que o prato coberto era igualzinho ao meu e percebi que a marca que lá estava deveria ser certamente, Brownfield.

Portanto, era plausível que o meu prato coberto poderia ser sido fabricado pela Wood and Brownfield e vendido com a marca estampada, H. Cutler-Castle-Hill-Works, Sheffield, talvez fruto de uma encomenda especial daquele fabricante de cutelaria, destinado aos seus clientes, qualquer coisa do género, na compra de um faqueiro, oferecemos um valioso serviço de jantar, mas, talvez isto, seja apenas uma suposição minha, decerto mirabolante.
A travessa da terrina

Quanto ao misterioso C. & J. Shaw, continuava sem saber porque é as suas marcas apareciam em algumas peças neste serviço de cenas ditas venezianas. Lembrei-me então que o meu amigo Manel, tem uma cozinha pejada de loiças inglesas, onde não cabe nem mais um simples pires de café, e que tinha algumas peças com esta decoração pretensamente veneziana. Pedi-lhe então o favor de ver as marcas dessas peças e fotografa-las e quando o Manel me envia as fotos de uma terrina com presentoir, descubro com espanto, que no verso da travessa estão duas marcas em simultâneo o W. & B e o C. & J. Shaw.
As marcas da terrina: W. & B e  C. & J. Shaw.
Portanto, estas marcas provam que este C. & J. Shaw esteve associado de alguma forma à Wood and Brownfield. Recordei-me que o autor do blog Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém, já tinha notado com estranheza que todos os manuais ingleses, referem Wood & Brownfield como única produtora do motivo Grecian Statue, que mais tarde foi copiado por Sacavém no popular motivo cavalinho e ignoram completamente C. & J. Shaw, que também produziu aquela decoração, cujos exemplares aparecem muito em Portugal. 

Com o recurso dos conhecimentos da língua inglesa do Manel, escrevi então ao Steve Birks, que é o responsável pelo site http://www.thepotteries.org, uma bíblia na internet para a identificação de marcas de faiança inglesa, pedindo-lhe ajuda para tentar montar as peças deste puzzle. O Steve Birks foi muito gentil e respondeu-me muito rapidamente, confirmando-me que mesmo em Inglaterra, se sabe muito pouco deste C.& J. Shaw, embora seja referido muito sumariamente na Encyclopaedia of British Pottery and Porcelain Marks. Em todo o caso, fez uma entrada no seu site para C. & J. Shaw, ilustrada com imagens tiradas deste blog e fazendo o ponto da situação, o que certamente irá ajudar outros interessados neste assunto em prosseguir as suas pesquisas.
Um pormenor do prato coberto

Em todo o caso fica claro, que há inequivocamente uma associação entre C. & J. Shaw e o Wood and Brownfield, agora qual a sua natureza, se institucional ou meramente comercial, isso é que não se sabe. Há talvez duas hipóteses:

- A C. & J. Shaw poderia ser uma marca com a qual Wood and Brownfield comercializava as suas peças nalguns mercados estrangeiros, como Portugal ou os Estados Unidos, que são os países onde aparecem mais estas louças;

- A C. & J. Shaw poderia ser uma firma britânica, talvez sedeada em Portugal, que se dedicasse a importar louça inglesa e quem sabe se também cutelaria. No século XIX, o que não faltam são exemplos de famílias inglesas estabelecidas em Portugal e nas ilhas atlânticas, que se dedicam ao negócio dos vinhos, do chá e da laranja e também da faiança, como foi o caso de Sacavém. Inclino-me mais para esta hipótese, de o C. & J. Shaw ser um importador, pois a Maria Andrade, apresentou há uns anos um prato, que ostenta no verso também duas marcas distintas, a primeira do C. & J. Shaw e segunda do Hope & Carter. Sendo assim, C. & J. Shaw teria acordos estabelecidos com mais de uma firma britânica para distribuir louça para Portugal.

Talvez a resposta a estas perguntas se encontre nos arquivos portugueses das alfândegas ou nos registos da propriedade industrial ou em anúncios de velhos almanaques e revistas.


Uma variante da Venetian Scenery da Wood and Brownfield, usada nos pratos de sopa. Foto de http://www.blueandwhite.com/
Aliás, esta ligação a Portugal, parece estar sempre presente em todo este puzzle que aqui descrevi, pois umas décadas mais tarde, a Fábrica de Loiça de Sacavém produzirá também uma louça, com uma decoração veneziana, inspirada directamente nestas Venetian Scenery do C. & J. Shaw e da Wood and Brownfield.


Sacavém produziu também um motivo inspirado na Venetian Scenery da Wood and Brownfield.
Alguns links úteis:

http://www.thepotteries.org/allpotters/902a.htm

http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/c.+%26+j.+shaw

http://artelivrosevelharias.blogspot.pt/2010/10/prato-ingles-com-motivo-braganza.html

http://printedbritishpotteryandporcelain.com/who-made-it/brownfield-sons-maker


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Faiança portuguesa ou o Mestre das Folhagens


Hoje apresento aqui dois grandes pratos de faiança portuguesa, certamente do século XIX e dos quais não sei nada, além de que são bonitos. Não apresentam qualquer marca e também encontrei nada que se lhe assemelhasse nos catálogos de faiança, que tenho lá em casa, de modo a ter uma pista para identificar o seu fabricante ou local de produção. Aliás, estes dois pratos, que pertencem ao meu amigo Manel, são quase paradigmáticos do conhecimento que se tem de uma boa parte da faiança portuguesa do século XIX, quer dizer, há peças fantásticas e muito criativas, mas como não estão marcadas, pouco ou nada se sabe delas e limitamo-nos quase sempre a escrever meia dúzia de impressões, que podem perfeitamente estar completamente erradas, e, é precisamente isso que irei fazer neste post.

Pela boa qualidade da faiança ou talvez por mera intuição, eu diria que estes enormes pratos foram fabricados algures em Gaia ou no Porto.

A decoração com motivos vegetais distribui-se assimetricamente pelas orlas dos pratos. É uma pintura de uma grande simplicidade, com os elementos estilizados de uma elegância despojada, quase japonesa, o que me faz pensar se não serão peças já posteriores a cerca de 1870-1880, quando a moda do japonismo aparece na cerâmica europeia. Contudo, mais a Sul, em Coimbra as oficinas de faiança produziam os modestos pratos ratinhos, que apresentam igualmente decorações assimétricas e por vezes despojadas, mas duvido que esses mestres coimbrões soubessem sequer o que era o Japão. Na prática, fico na dúvida se estes dois pratos são uma visão da natureza profundamente popular, que se encontra na também louça ratinha, ou se são uma interpretação popular de uma moda mais cosmopolita e erudita, como foi o japonismo na arte europeia nos últimos 20 ou 30 anos do século XIX.


Igualmente baseado numa intuição, julgo que estes dois pratos saíram da mesma fábrica e talvez até das mãos do mesmo artífice. Apetece-me fazer como os historiadores da pintura primitiva europeia, que criaram designações poéticas para oficinas de pintores, cujos nomes não conseguiam identificar, como por exemplo os Maîtres à l'œillet ou o Mestre do Retábulo do Paraíso. O artesão que decorou estes dois pratos merecia bem ficar na história da cerâmica como o mestre das folhagens.

Em todo o caso, seja lá qual foi a inspiração que moveu as mãos deste mestre das folhagens, o trabalho que deixou nestes pratos evidencia bem a enorme criatividade da faiança portuguesa do século XIX.
 
 

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

6º Aniversário do velharias do Luís


Nunca fui muito dado a comemorações. Esqueço-me dos aniversários de familiares e de amigos, há muito que deixei de dar jantares e festarolas quando faço anos e embirrava quando me mandavam escrever aquelas redacções sobre a Primavera, o Natal, a Restauração ou o dia da árvore. Funciono sempre melhor com um tema livre, em que espontaneamente qualquer me sai da cabeça uma ideia qualquer.

Apesar de todas essas condicionantes, não podia deixar se passar o aniversário do velharias do Luís. Os blogues são instrumentos úteis e terapêuticos, para quem já chegou à idade madura e não realizou aquilo a que sempre aspirou na juventude. Foi o que aconteceu comigo. À medida que iniciava o blog, descobri que a internet me fornecia um instrumento onde poderia escrever e publicar as minhas ideias, de uma forma livre, sem correcções de superiores hierárquicos e sem a menor preocupação de escrever textos politicamente correctos, mas inócuos de conteúdo. Toda esta liberdade criativa era gratuita e bastava clicar no “enter” para publicar um texto.

De facto, em seis anos de escrita do blog, dei uma reviravolta na minha vida, mudei de emprego, alguns textos foram publicados em livros e revistas, fui convidado para a televisão, fiz amigos novos por todo o país e até no Brasil e sobretudo arranjei uma motivação quotidiana, que é estar sempre a pensar qual será o próximo tema da semana, fazendo para isso pequenas investigações, em livros, revistas, por vezes em arquivos e sobretudo na internet.

O que ocorreu comigo através não é um caso isolado, mas antes um fenómeno sociológico dos dias de hoje. Existe um filme Julie & Julia, proganizado por Meryl Streep, acerca de uma profissional frustrada, que a certa altura da sua vida decide fazer um blog, acerca da única coisa que realmente gosta e se sente competente, a culinária e que acaba por ter um enorme sucesso nos Estados Unidos. É um filme muito divertido que nos ajuda a perceber este fenómeno sociológico e psicológico dos blogs, da autoconfiança que devolvem aos seus autores, destruída por anos de empregos castradores e da liberdade criativa que proporcionam a quem os escreve.

Mas talvez não tivesse prosseguido esta tarefa de escrever no blog com uma periodicidade regular, se à sua volta não se tivesse reunido uma tertúlia de comentadores, gente interessada e curiosa, que vai aqui trocando impressões sobre antiguidades, artes e história, de forma informal como se estivéssemos todos à mesa de um café. Também sei que muitas páginas do blog são consultadas regularmente, por mulheres e homens, que não comentam, nem os conheço, que estão algures por aí, escondidos atrás dos seus monitores e aqui encontram informações úteis sobre gravuras antigas, faianças, porcelanas e ferrachos.

A todos vós envio o meu melhor sorriso.