quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Os pequenos livros de missa



Como toda a gente sabe o meu gosto pela arte sacra oferecem-me por vezes uma beatice qualquer, um crucifixo, uma estampa devota ou um pequeno missal, como este que vos apresento hoje, dado pela minha amiga e colega Fernanda Bento.

Estes missais luxuosamente encadernados a osso, marfim, madrepérola, marroquim, ou a baquelite eram objectos muito comuns ao longo do século XIX e mesmo no início do XX. Eram normalmente prendas que se ofereciam por ocasião de uma primeira comunhão ou de qualquer outro sacramento. A maioria dos exemplares que chegaram até nós foi impressa em Paris, que na altura era um centro editorial à escala mundial, onde se editavam todo o género de livros, desde os de arte, passando pelos literários e científicos, até aos piedosos e que eram vendidos nas quatro partes do mundo.


Hoje, estes livrinhos luxuosos perderam a sua utilidade e razão de ser, não só porque as pessoas estão cada vez mais descristianizadas, mas sobretudo porque no passado as missas decorriam em latim e estas obras traduziam para português o ritual da Missa.

Anuncio da Gazeta de Lisboa, no 250, Sábado, 22 de Outubro do ano 1814 a um missal coordenado pelo Prior de abrantes


Encontrei na Gazeta de Lisboa, um dos periódicos mais antigos portugueses, um anuncio datado de 1814, a um destes livros de missa, que tal como o meu exemplar também foi coordenado pelo Prior de Abrantes, onde se explica muito a sua função de tradução do ritual católico do latim para as chamadas línguas vulgares. Assim, no número 250, Sábado 22 de Outubro do ano 1814, anunciava-se na Gazeta de Lisboa que o Missal do Prior de Abrantes traz também em portuguez todas as orações comuns que o Sacerdote diz na Missa e todas as Epistolas, Evangelhos, Sequencias, e Prefacios de todas as missas do anno, mesmo para as solemnidades particulares da Igreja de Portugal em todos os bispados do Reino, e oragos das freguesias de Lisboa, Missas de defuntos, etc.
Pequeno Livro da missa e da confissão e outras devoções com edição feita sobre a do prior de Abrantes


Este livrinho, intitulado Pequeno Livro da missa e da confissão e outras devoções com edição feita sobre a do prior de Abrantes, impresso em Paris por Laplace, Sanchez, não apresenta qualquer data, como era vulgar nestes missais e não me perguntem porquê. Como bibliotecário, interrogo-me sempre irritado porque é que houve tantos editores que ao longo dos séculos não dataram os seus livros. Contudo fiz uma pesquisa no catálogo da Bibliotèque Nationale de France, pelo nome do editor e dos 306 resultados, que obtive, pude apurar que o Laplace, Sanchez esteve activo entre 1869 e 1895. Portanto posso presumir com alguma segurança que este pequeno livro de missa foi editado em Paris, entre 1869 e 1895.

Quanto ao Prior de Abrantes, não consegui descobrir nada sobre este Senhor, nem na Biblioteca Nacional de França nem na portuguesa. Pelo anúncio da Gazeta de Lisboa, de 1815, onde já se menciona a sua existência, deve ser sido uma personagem cuja vida deve ter decorrido muito antes dos anos em que foi editado meu livro. 

Ainda sobre este livros de missa, há a referir que as encadernações eram executadas por profissionais diferentes dos editores e impressores, os encadernadores e que as grandes tiragens destes livros de Missa desenvolveram imenso a arte da encadernação, colocando-a ao alcance de um largo grupo de pessoas, fora do meio bibliófilo.


Em suma este livro de missa com uma encadernação em baquelite, representando S. José e o Menino Jesus, impresso em Paris, entre 1869 e 1895 é o testemunho de uma época em que as missas decorriam em latim e havia a necessidade de publicar estes livrinhos com a tradução do ritual católico, para que os crentes pudessem acompanhar e compreender a missa.
 
Algumas informações sobre missais:

http://www.bibliothequedusaulchoir.org/French/catalogues/Labarre/Labarre_Communion.pdf

http://www.bibliothequedusaulchoir.org/French/catalogues/Labarre/Labarre_Missels.pdf

13 comentários:

  1. É verdade. Encontro sempre um certo encanto nestes objectos irremediavelmente fora de moda. Um abraço e boas festas

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  2. Estes livros têm uma encadernação preciosa, e ontem vi um à venda encadernado a tartaruga e ouro, o que o fazia uma peça de eleição e de coleção.
    Claro que o preço era incomportável.
    O que está no interior não é verdadeiramente importante, pois é igual a centenas de outros, no entanto tem o encanto de épocas passadas, onde seria companhia inseparável de devotos.
    Tenho um encadernado com placas de marfim com relevos, mas onde o interior, claro, é vulgar de Lineu!
    Manel

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    1. Manel

      Tens razão. Estas obras valem sobretudo pela sua encadernação. Aliás, como referi no texto do post, a actividade dos encadernadores parisienses teve um enorme desenvolvimento graças às encomendas em grande escala destes livros de missa, destinados a ser oferecidos como prendas preciosas nas primeiras comunhões. Este hábito persistiu até muito tarde, já com as missas a ser em ditas nas línguas nacionais. A minha irmã que fez a sua primeira comunhão em meados dos anos 60 recebeu um destes livros de missa com encadernação em madrepérola da minha avó, editado também nos finais do XIX e que por sua vez já teria sido uma oferta da sua mãe, de uma tia ou de um outro qualquer parente.

      Um abraço

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  3. O seu presente é magnifico. Sou apreciadora.
    Gostei muito de ler o seu registo deu-me prazer e cortou este dia chuoso e negro.
    Um abraço. :))

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    1. Ana

      Obrigado. Fico muito feliz por lhe ter alegrado o seu dia chuvoso.

      Um abraço

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  4. Luís,

    Também acho muito interessantes estes livrinhos, sobretudo pelas encadernações,como é referido por si e pelo Manel. Cheguei a colecionar um pequeno grupo deles ainda mais pequenos, de capas claras nos mais variados materiais, destinados à comunhão solene. Neste seu invejo sobretudo a sobrevivência do fecho de metal, inexistente ou já danificado em alguns dos meus.
    Gostei muito de ler toda a informação que aqui disponibilizou e apreciei a forma como chegou a uma datação aproximada do seu exemplar. Os que tenho e estão datados são já do séc. XX, nomeadamente o da comunhão da minha mãe, com uma bonita capa dos anos 30.

    Beijos

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    1. Maria Clara

      Estes livrinhos sempre despertaram a minha curiosidade pelas suas bonitas encadernações e pouco ou nada há escrito sobre eles. Se não consegui esclarecer tudo sobre estes livros, pelo menos consegui perceber o seu contexto cultural.

      A Biblioteca Nacional de França tem um esquema de pesquisa muito amigável, que permite executar pesquisas como esta facilmente. Talvez até tenha o melhor motor de busca de todas as bibliotecas que virtualmente conheço. Quanto à datação, claro há sempre uma certa margem de erro, até porque a Biblioteca Nacional de França poderá não ter exactamente todas as edições do Laplace Sanchez, mas em todo o caso creio que 1869 e 1895 serão balizas cronológicas muito prováveis.

      Julgo que em todas as famílias com algum desafogo existem ou já existiram estes pequenos tesouros, passados de geração em geração e essa foi também uma das razões que me levou a escrever sobre esse tema. Certamente que há muita gente que procura saber mais sobre este livros de missa.

      Bjos

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  5. Que presente maravilhoso! É lindo este missal de baquelite preto. Eu tenho alguns, tenho um de marfim ou seria baquelite branca...um forrado de veludo. Esses têm ilustrações e vinhetas lindas.
    Abraços.

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    1. Caro Jorge

      Estes livros de missa, escritos em português e editados em França eram muito populares, quer em Portugal, quer no Brasil. Já vi uns quantos à venda on-line no Brasil e o nosso amigo Amarildo já apresentou um exemplar no seu blogue. Eu também tenho outro livro de missa, que já aqui mostrei, mas também não sei se será osso, ou marfim ou alguma boa imitação. Terei que o mostrar a alguns colegas do museu que entendem de marfins para lhe perguntar a opinião. Um abraço e um bom Natal

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  6. Caro Luís,

    Como sabe, também eu tenho dois desses exemplares, ambos oferecidos por donos de velharias. Aliás, já falámos de um deles, pois foi nele que encontrei o famoso Canivet.
    O seu exemplar é de invejar na medida em que apresenta o fecho completo, assim como a figura de um belíssimo S.José.
    A sua amiga, foi mesmo muito amiga, e é uma rapariga de gostos refinados!

    Beijinho

    Alexandra Roldão

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  7. Caro Luís,

    Como sabe, também eu tenho dois desses exemplares, ambos oferecidos por donos de velharias. Aliás, já falámos de um deles, pois foi nele que encontrei o famoso Canivet.
    O seu exemplar é de invejar na medida em que apresenta o fecho completo, assim como a figura de um belíssimo S.José.
    A sua amiga, foi mesmo muito amiga, e é uma rapariga de gostos refinados!

    Beijinho

    Alexandra Roldão

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    1. Alexandra.

      Eu tomei conhecimento dos canivets através de si. Graças a si passei a estar atento a estes objectos e depois disso, comprei dois para mim e o Manel já seguiu o exemplo. Este livro de missa contem duas imagens piedosas, mas não são nada do outro mundo. Já são coisas dos anos 20 ou 30 do século XX. Em todo o caso, estes livrinhos, bem folheados, revelam tesouros preciosos, com registos do séc. XVIII ou mesmo canivets feitos à mão.

      Bjos e boas entradas

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