terça-feira, 12 de novembro de 2013

Hay un angel en Guadalupe


Estive o fim-de-semana passado, na Estremadura Espanhola, já na fronteira com Castela, numa terra perdida nas montanhas, onde no Século XIV, houve uma aparição da Virgem, que deu lugar a uma das mais importantes devoções marianas de toda a hispanidade, a Virgem de Guadalupe. À volta deste culto construiu-se um mosteiro dos Jerónimos e uma povoação para acolher milhares de peregrinos vindos de Espanha e Portugal e mais tarde da América Latina. Claro, este centro de peregrinação não é tão antigo e nem nunca foi tão importante como Santiago de Compostela, que atraiu romeiros desde os confins da Europa. A Virgen de la Gudalupe permaneceu sempre um fenómeno exclusivamente ibero-americano.


No entanto, sendo uma vila pequena, Guadalupe apresenta um casco histórico muito interessante e o mosteiro tem uma colecção muito rica, de paramentária, bordados oferecidos à Virgem, iluminuras, telas de Rubens, El Greco e sobretudo de Zurbaran, que é um dos meus pintores preferidos. A chatice é que a visita ao mosteiro é guiada, andámos todos a toque de caixa atrás do guia e para vislumbrar as obras foi necessário afastar à cotovelada uma trintena de excursionistas beatas da terceira idade. Quando chegámos à sacristia e estava eu ainda indeciso sobre para qual dos quadros do Zurbaran olhar, já a guia tocava no apito para zarparmos para outra sala. O Manuel disse-me logo que era preferível eu ver os quadros na net.

As tentações de S. Jerónimo de Zurbaran é um dos muitos tesouros que o Mosteiro de Guadalupe guarda

No entanto, o Mosteiro é muito bonito. É daquelas obras de arquitectura que foi sendo acrescentada ao longo de séculos, de forma quase orgânica, mas que manteve uma unidade estilística, quase por acaso, talvez a partir das cores do tijolo e da pedra com que foi sendo construído.

O estilo Mudéjar
Fascinaram-me particularmente as janelas mudéjares do lado poente do edifício. Para os menos familiarizados com a história da arte, mudéjar designa a população islamizada, que ficou em Espanha e em Portugal depois da reconquista cristã. Muitos desses mouros ou mouriscos eram artificies ligados à construção civil, especialistas entre outras coisas no uso do tijolo burro. Os novos senhores cristãos apreciaram a arte destes operários, que levantaram edifícios maravilhosos como o Alhambra em Granada e contrataram estes alvanéis para construir igrejas e mosteiros cristãos, segundo as plantas e modelos vigentes da arquitectura europeia, mas em tijolo e com decorações de evidente sabor mourisco. O resultado desta síntese entre a arte dos trabalhadores mouriscos e a arquitectura cristã é o estilo mudéjar, de que estas janelas de Guadalupe são um óptimo exemplo. Aqui em Portugal, temos uma igreja mudéjar, que quase minguem conhece, Castro de Avelãs, em Bragança e onde se pode admirar a arte de trabalhar o tijolo dos alvanéis mouriscos num edifício tipicamente românico.


À volta do mosteiro cresceu uma povoação, que está bem preservada, em que quase todas as casas tem galerias, destinadas a abrigar os peregrinos das chuvas e permitir o pequeno comércio debaixo dessas arcadas.


Estrategicamente há fontes em pedra por toda a vila, para saciar a sede dos peregrinos e das suas montadas, que chegavam extenuados a Guadalupe depois de terem percorrido um longo caminho através das várias regiões das Espanhas. Uma delas, talvez a mais simples, a fonte del angel encantou-me particularmente pela sua simplicidade.
A fonte del Angel
Por uma estranha associação de ideias e sensações, não consegui deixar de trautear a aquela música do Miguel Bosé, hay un angel en tu mirada, quando olhava para aquele anjo em granito, encimado por uma Cruz.

No he podido escapar
De ese aquí, de ese allá
Me deje dominar... Poco a poco...poco
(…)
Me sentí castigar
Te dije si... si...
Por tu forma de amar...
Tan salvaje...
Hay un ángel en tu mirada
Inquietante tabú


16 comentários:

  1. Claro que percebo a razão porque as arquiteturas de terra deixaram de ser utilizadas em Portugal, pois exigem mão-de-obra especializada (hoje em extinção), que encarece a obra, são perecíveis (mas dão ruínas fantásticas, ao contrário do horrível ferro, cimento e tijolo), as estruturas possuem condições particulares que não permitem grandes "voos" em termos de aberturas (mas pode-se perfeitamente fazer um casamento de vários materiais para obviar esta situação) e exigem que se proceda a um constante trabalho de manutenção.
    No entanto não há outra forma de arquitetura que seja mais saudável, pois funciona perfeitamente como isolante sonoro e térmico, absorve humidades, tornando o ambiente mais seco, o que ajuda fisicamente pessoas com artrites, por exemplo, ou com problemas do foro respiratório.
    E se se juntar excrementos de alguns animais à pasta com que se constrói (em Moçambique as paredes exteriores das construções artesanais eram/são(?) revestidas com excrementos de boi) estas transformam-se em materiais anti-sépticos, que protegem de fungos e outros micro-organismos causadores de doenças.
    No entanto este material foi abandonado de forma sistemática, apesar de, ainda nos inícios do século XX, ser prática corrente a construção com adobe na região das Beiras e Estremadura, por exemplo - uma das casas da minha família, erigida no primeiro quartel do século XX, era totalmente construída em adobe, e, garanto-vos, o ambiente interior era muito mais agradável que a congénere ao lado, também da família, mas construída com blocos de pedra calcária.
    Não obstante tudo isto, toda esta forma de construção desapareceu, tendo-se mantido, no entanto, e espero eu que com satisfação para os habitantes (o facto de o fazerem há muitos séculos, senão milénios, leva-me a acreditar que assim seja), em vastas regiões de África.
    Dirão que talvez por falta de condições económicas, e não duvidarei desta razão, mas só quando se perdem as coisas se dá conta afinal da sua beleza e das suas fantásticas propriedades.
    Claro que este tipo de arquitetura não está adaptada ao urbanismo das cidades, o que é verdade, mas não é a esta tipologia que me refiro, apesar de dar conta quão tristes são esta casas (mas nada se pode fazer!).

    Quanto ao fabuloso museu do mosteiro de Guadalupe, nada a fazer. Não se consegue ver nem apreciar nada com tranquilidade ou tempo.
    Eu, que sou um admirador incondicional da iluminura, nem sequer consegui apreciar devidamente uma única, da mais de uma centena de livros expostos, cada uma mais bela que a anterior. Ainda por cima, ali funcionou durante séculos uma escola/oficina onde se praticou essa arte. Que frustração para mim!!!!!!
    Tinha sempre alguém a tapar-me a vista, a empurrar-me para a saída e a inevitável guia a berrar que o tempo tinha terminado! FRUSTRANTE!

    Quanto ao urbanismo desta terra é algo de demasiado belo ... temo que se a prefeitura não estabelecer regras rígidas na construção, toda esta beleza se perderá, pois há uma pressão forte e constante neste sentido.
    Manel

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Manel

      Por causa do mosteiro de Castro de Avelãs e da Igreja de S. Facundo em Vinhais, descobri há muitos anos esta arquitectura mudéjar em tijolo e fiquei fascinado. Visitei de seguida Sahagun, em Espanha, o local onde foi martirizado S. Facundo e fonte inspiradora de Castro de Avelãs. Sahagun é uma terra perdida no planalto leonês e que deve ter o maior número de igrejas em tijolo por metro quadrado de toda a Espanha. Muitos desses mosteiros estão arruínados, mas os efeitos decorativos conseguidos com o tijolo burro, um material tão barato, são fascinantes.

      Um abraço

      Eliminar
  2. Luís

    Quando vamos integrados em grupo, vemos um tudo de nada. Estive há cerca de dois anos no Santuário de Guadalupe e gostei imenso do envolvimento, sentindo que tentam preservar o sentido estético, apesar da afluência dos turistas e das lojas de "recuerdos".
    Quando visitei o museu, o que mais me impressionou foram os têxteis, com os paramentos com bordados riquíssimos e cheios de imaginação. Também me senti integrada num rebanho, sempre sob a mira do cajado do guia. A certa altura, numa das vitrines laterais, dei com um Menino Jesus de Malines. A legenda indicava unicamente uma imagem de arte sacra, sem uma uma referência à zona de origem.Santa ignorância!
    if

    ResponderEliminar
  3. Cara If

    Concordo consigo. Raramente se consegue apreciar devidamente um palácio ou museu quando se vai em visita guiada. Já no Palácio de Vila Viçosa também tem que se andar numa correria louca atrás do guia.

    Em Guadalupe também reparei nesse Menino Jesus de Malines e até chamei a atenção da guia para o assunto. Toda essa sala onde está o Menino Jesus, a que eles chamam o museu, está repleta de pintura, escultura e mobiliário de boa qualidade, mas tinhamos que ver tudo a correr. Ver uma sala com Goyas, Zurbarans, El Grecos, Rubens e Pedros de Menas, marfins, escultura e mobiliário em 4 minutos é quase uma dor de alma.

    Um abraço

    ResponderEliminar
  4. Viva Luis,

    O Mosteiro de Guadalupe é realmente um local impressionante, quer pela riqueza artística, em diversos campos, quer pela sua importância histórica. Não posso deixar de me lembrar, quando se fala deste mosteiro, das chamadas Entrevistas de Guadalupe. O sentido, mas também ponderado, encontro de Filipe II e do nosso D. Sebastião. Tio e sobrinho conhece-se pessoalmente de forma emotiva, mas um e outro procuram tirar proveitos políticos destas "entrevistas". Filipe de Espanha sabia que apoiando o sobrinho poderia ter, ou o melhor dos genros (uma das suas filhas, Isabel Clara Eugénia, ficaria prometida para depois do regresso vitorioso de África), ou o "melhor" dos reinos. O rei de Portugal sabia que com o apoio do poderoso Filipe teria vitória certa sobre o Turco, e assim garantia a segurança do comércio português, o reconhecimento da Santa Sé e claro de toda a Europa. Aqui o único erro de D. Sebastião, foi ter confiado no tio, e sobretudo ter morrido!!!!!

    Proponho uma visita a todos estes locais, com visita guiada especial, para todos os que ficam duas horas de volta de uma vitrine.... É que ninguém nos percebe....

    Abraço
    C.

    ResponderEliminar
  5. Caro C

    Já há muito tempo que não tinha o prazer de ler os seus comentários.

    Fez muito bem em trazer para aqui esse encontro de Guadalupe entre Filipe II e D. Sebastião. Encontrei na net uma descrição muito curiosa das festas dadas por ocasião desse encontro, que é uma transcrição de um texto de Diogo Barbosa de Machado http://roturasdecabanas.wordpress.com/2008/07/31/viaje-del-rey-don-sebastian-de-portugal-a-guadalupe-en-1576/.

    Visitar Guadalupe é também relembrar esse encontro, tão importante no destino dos dois reinos ibéricos.

    Viajamos não só para ver monumentos, ruínas ou obras de arte, mas também para revisitar acontecimentos passados.

    Estas visitas industriais aos museus e palácios são uma chatice. Percebo a razão deste esquema da visita guiada. Provavelmente não tem câmaras de vigilância, nem alarmes, nem dinheiro para contratar um segurança para cada sala, como acontece no Museu Nacional de arte Antiga ou no Louvre ou em outro qualquer bom museu. Por isso, recorrem à visita guiada. Mas, para os amantes das artes é um suplício e não se consegue ver nada como dever ser.

    Um abraço

    ResponderEliminar
  6. Boa.noite Luís,

    Apesar da correria, eu também queria um fim de semana assim. Ou melhor, o que eu queria mesmo era conseguir ir até Paris e visitar os bairros típicos, mas essencialmente perder-me nas ruas do Marché aux Puces.
    Bom, mas colocando novamente os pés no chão:
    - O seu anjo de pedra tem um ar extremamente tosco, devendo ser bem antigo. Inclusive tive alguma dificuldade em descortinar-lhe as asas dado a pedra estar muitos desgastada pelo tempo. As vestes quase aparentam uma cota de malha.
    Apraz-me acrescentar que, a colocação daquela bica de água naquele preciso local veio, a meu ver,desvirtuar a peça.....não a poderiam ter colocada mais em baixo?
    É que visto de repente assemelha-se a um falo, e os anjos não têm sexo.
    Sabe, ao olhar a peça afigurou-se-me que algo estava como que desajustado, ou fora do lugar. Cruz a encimar, e em baixo.......
    Já o MIguel Bosé...pois...esse não há nada desajustado não senhor. Não imagina o que eu, quando adolescente, gostava desse gaiato!
    Enfim, hoje deve estar gordo, anafado. e balofo...


    Uma óptima noite para si, e um abraço sincero


    Alexandra Roldão

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Alexandra.

      Este anjo foi feito um pouco à maneira do Manneken Pis de Bruxelas. O encanto dele está nesse carácter dúbio, pois é suposto os anjos não terem sexo. Por isso, mesmo relacionei-o instintivamente com a música do Miguel Bosé, "Hay un ángel en tu mirada, Inquietante tabú", que é uma canção também cheia de duplos sentidos.

      O Miguel Bosé foi um dos homens mais interessantes de Espanha. Hoje, ganhou corpulência, perdeu a agilidade de bailarino que tinha nesta época, todavia permanece um homem muito interessante.

      Também tenho saudades de Paris. Como cantava o Maurice Chevalier, Paris Sera Toujours Paris.

      bjos

      Eliminar
  7. Luís,
    Aí está um naco de Espanha que ainda não conheço e pelos vistos vale bem a pena!
    Vejo que o Mosteiro está recheado de obras de arte, para além de uma arquitetura cheia de beleza e de história...
    Nós que gostamos de apreciar as coisas à minúcia, com tempo e com calma, ficamos um pouco frustrados com essas visitas guiadas em velocidade de cruzeiro.
    Há dois anos, também por esta altura, andei numa visita de grupo, com guias marcados, por Córdova, Granada e Sevilha e queixo-me do mesmo. Mas mesmo assim valeu muito a pena! Por exemplo em Sevilha acabei por conhecer lugares onde nunca tinha estado, apesar de já ter passado pela cidade mais de uma vez anteriormente. E agora, quando voltar, já os posso revisitar a um ritmo mais compatível...
    Tenha um bom fim de semana.
    Bjs

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Esta parte da Estremadura Espanhola é muito interessante e o ideal é visitar não só Guadalupe, como também Trujillo, que tem a praça maior mais bonita de Espanha, Cáceres, património Mundial da Unesco e o Teatro e museu romanos de Mérida. São terras próximas umas das outras e é um circuito que se pode fazer em 3 dias.

      O mosteiro é muito rico, Uma das coisas que não mencionei foram os azulejos de Talavera, ponta de diamante, que ornamentam uma das partes da igreja.

      Bjos

      Eliminar
  8. Luís,
    Nunca estive em Guadalupe e este seu post fez-me ter vontade de conhecer.
    A fonte é de facto especial: um anjo fonte de vida.
    Quanto à pintura, a arte que mais me toca, todos os pintores que focou me deleitam. Não gosto de andar ao ritmo dos outros, gosto de apreciar as "peças" com o meu tempo.
    Viajar é uma das minhas paixões e com a crise que nos acompanha, entristeço-me porque viajo menos. Gostava de ir a Paris em Janeiro... mas se calhar é mais fácil ir a Guadalupe.
    Obrigada pela partilha.
    Boa boite. :))

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro Luís,

      Para salientar a memória dos laços existentes entre Guadalupe e a história de Portugal, para além da passagem de Dom Sebastião, acrescento que o mosteiro de Nossa Senhora de Guadalupe é também a última morada do Infante Dom Dinis, um dos filhos de Dª Inês de Castro e do Principe Dom Pedro, que depois de percorrer atribuladamente boa parte da Europa, conseguiu, com o apoio régio espanhol estabelecer-se localmente e casar com Dª Isabel de Trastâmara. Uma vida pouco conhecida e estudada, mas na generalidade recordada com grande simpatia.

      Um Abraço,

      Sandro CM

      Eliminar
    2. Cara Ana

      Eu também adoro viajar, mas com esta crise toda, é melhor esquecer. E tenho tantas terras na minha lista de desejos. Gostaria de visitar Nápoles, Pompeia e Herculano, conhecer Istambul, Israel, o Egipto e a Grécia. Mas enfim, a Espanha está aqui ao lado e tem terras fabulosas e pode-se ir lá num fim-de-semana prolongado, além de que a gasolina é mais barata.

      Encantei-me com este anjo. Talvez porque a minha primeira paixão em arte tenha sido a escultura românica, encanto-me sempre por estas peças mais ingénuas e rudes e com um significado ambíguo.

      Um abraço

      Eliminar
    3. Caro Sandro.

      Fez muito bem evocar aqui o Infante D. Dinis. Recordo-medo seu nome, quando se falava na crise dinástica ocorrida depois da morte de D. Fernando. Não me lembrei no entanto disso, quando visitei Guadalupe. Se não teria procurado o seu túmulo. Certamente deverá ter alguma sepultura com algum destaque artístico.

      Um abraço

      Eliminar
  9. Estive há uns dias em Guadalupe pela primeira vez e no salão que antecede o tesouro da santa estão bem visiveis os escudos da coroa portuguesa nas quatro paredes e em relevo assim como o túmulo do Infante D.Dinis que casou com Joana Henriques, filha bastarda de Henrique II e não com Dª Isabel de Trastâmara como o comentador Sandro faz referência atrás.
    Atenciosamente
    Artur

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro Artur

      Muito obrigado pela sua rectificação. De facto o Infante D. Diniz casou com Joana Henriques, filha bastarda de Henrique II.

      Obrigado e um abraço

      Eliminar