sábado, 5 de maio de 2012

Algumas considerações acerca da compartimentação interior do Solar de Outeiro Seco

As salas contíguas do corpo nobre do solar dos Montalvões organizam-se segundo a compartimentação do Leal Conselheiro de D. Duarte 
O Solar dos Montalvões de Outeiro Seco é o resultado de várias construções, erguidas ao longo de pelo menos 2 centenas de anos e feitas à medida das necessidades de crescimento da família, do seu desafogo económico e da sua própria fé.

No meu post de 25 de Novembro de 2010, consegui com a ajuda do Humberto, esboçar uma primeira cronologia das várias fases de construção do solar, baseando-me em dados fiáveis, o processo de edificação da capela existente do arquivo Distrital de Braga e as inscrições epigráficas.


Assim, antes de 1738, no tempo o capitão de cavalos José Alvares Ferreira, os corpos Norte, Nascente e Sul já estariam construídos.  Antes de 1761, já estava concluída a fachada nobre a Poente. A capela é erguida entre 1762 e 1784. Pelo meio, em 1782, construiu-se a escada do pátio interior. Finalmente, a construção do último corpo, que liga a capela à cozinha, é feita depois de 1784. Este último núcleo fecha o pátio.

Ao longo deste esforço construtivo de várias gerações de Ferreiras e depois Ferreiras Montalvões, dos quais eu descendo, nota-se que foi seguido o velho modelo já milenar de erguer a casa em torno de um pátio central, tal como os romanos e os árabes o faziam. No fundo, as pessoas estavam a repetir velhas fórmulas arquitecturais, que passavam de geração em geração, sem que os mestres de obra que as aplicavam os proprietários que as ordenavam soubessem de onde provinha este modelo antiquíssimo da casa feita em torno de um pátio.

Um aspecto do tecto da divisão que veio a ser a biblioteca e que correspondia na compartimentação do Leal conselheiro, à Sala ou Aula
Respeitou-se a tendência da casa fechada em torno de si própria, autónoma, quer economicamente, quer até em termos legislativos, pois no portão, que dava acesso ao pátio, existia uma aldraba e antigamente quem pegasse nela, estava de imediato ao abrigo da justiça real. O solar e a propriedade constituiriam provavelmente aquilo que se designava no Antigo regime por Honra, isto é, um domínio em que as funções administrativas, judiciais e financeiras estavam nas mãos de um Senhor.

Relativamente à forma como as divisões se organizavam, a história é mais complicada de reconstituir. Eu só conheci por dentro a casa no século XX, com a divisão tradicional da nossa época, um espaço de sala de jantar, a sala de visitas, a biblioteca, a cozinha, quartos, quartos para os criados, lojas. Etc.

Um pormenor dos tectos em estuque, da Sala de visitas, que correspondia à antecâmara do Leal Conselheiro

Mas, sei através de manuais de história, que esta organização dos espaços foi bem diferente no passado. A sala de jantar por exemplo é uma divisão recente. Num passado mais remoto, qualquer divisão servia para servir refeições, bastava para isso armar um estrado de madeira. Até meados do século XIX, em muitas das casas portuguesas nobres sobrevivia a sala do estrado, onde as senhoras e as criadas de dentro se sentavam no chão, a costurar, a bordar, a ler ou a conversar.

Ora numa casa construída em várias fases ao longo de presumivelmente dois séculos, as funções das divisões foram mudando necessariamente ao longo dos tempos. No entanto, a divisão interior da casa, seguiu fórmulas construtivas muito comuns na arquitectura portuguesa senhorial. Descobri isso por mero acaso, quando conheci outra casa na região, o Solar de Vilartão, do nosso amigo Joaquim Malvar e ao visitar os aposentos nobres da casa, uma sucessão de salas contiguas, encontrei ali qualquer coisa de familiar que me recordou o andar nobre do Solar dos Montalvões e a velha casa, também em Outeiro Seco, de Miguel Álvares Ferreira Montalvão, o meu tio trisavó, que morreu louco.

O fogão da Sala de visitas

O Joaquim Malvar teve a gentileza de me explicar que as 4 salas contiguas, comunicando entre si sem corredor faziam parte de um modelo antiquíssimo e fez até o favor de me indicar obra onde colheu essa informação, que esta semana comprei na feira do livro. Trata-se de Cozinhas, espaço e arquitectura, de Ana Marques Pereira, editada em lisboa, pela Inapa, em 2006. Procurando traçar a história das cozinhas nas casas senhoriais portuguesas, a autora acaba por dar informações úteis sobre a divisão geral dos espaços.

Planta do corpo nobre do Solar dos Montalvões. A compartimentação corresponde á do Leal Conselheiro, de D. Duarte
O modelo de compartimentação de uma residência senhorial foi descrito pela primeira vez por D. Duarte no Leal conselheiro. Existiriam 4 zonas que se iam tornado progressivamente mais intimas:
- Primeiro surgia a sala ou aula, destinada a receber as pessoas e fora e que se situava mais próxima da entrada;
- Seguia-se a câmara de paramentos, ou antecâmara, destinada aos moradores e alguns nobres de maior intimidade;

- Em terceiro, estavam as zonas de maior intimidade, a câmara de dormir, em que os maiores e os mais chegados da casa deveriam ter entrada;

- Por último, encontrava-se a transcâmara ou zona de vestir e do oratório, onde os moradores se retiravam para ler rezar ou meditar.

A sala do Museu, a câmara do morgado, que comunicava com a transcâmara, a capela, espaço de oração
Este esquema em quatro salas corresponde como uma luva aos salões nobre do solar dos Montalvões, conforme se pode ver pela imagem da planta.  A primeira sala, onde se situou mais tarde a biblioteca, era a sala ou aula; a sala de visitas seria a antecâmara, o museu correspondia ao quarto do morgado e finalmente a capela correspondia obviamente a transcâmara.

Não creio que os Álvares Ferreira e os Ferreira Montalvão conhecessem o Leal Conselheiro de D. Duarte, nem seria certamente conhecido do mestre-de-obras que contrataram, mas o modelo estava presente nas suas mentes, ainda que de forma inconsciente, tal como hoje em dia sabemos, que para escrever um texto, temos que obedecer ao modelo, introdução, desenvolvimento e conclusão, ainda que já não saibamos quem pela primeira vez enunciou este esquema teórico.

A Câmara comunicava com o coro da Capela.

As fotografias são do Manel.

16 comentários:

  1. Adorei o texto. Embora as fotos deixem transparecer a grandeza de outrora, é verdadeiramente entristecedor o estado em que se encontra tão magnífico solar. Fiquei com interesse em conhecer melhor esse "Livro Conselheiro", mais um a juntar ao Livro das Fortalezas de D. Duarte que ando há tempos a tentar comprar, edição da Inapa, tal como o que agora adquiriu e que também me deixou curiosa embora confesse que o título poderia não me chamar a atenção, mesmo que o visse.
    Admiro a forma como vai reconstruíndo a história do Solar e como no-la vai transmitindo.
    Boas pesquisas e boas leituras neste resto de fim de semana chuvoso e triste.
    Ana Silva

    ResponderEliminar
  2. Olá,Luis
    Dói o coração a gente ver como ficam as casas onde viveu a familia
    Também vivi em casas enormes,com escadas de caracol e caves,casas com portas secretas,enfim
    ,casas que hoje dificilmente se encontram,e que estão num tal estado de degradação.que quando lá passo,até choro
    Casas onde tinha muita gente(eramos 7 irmãos,pais e criadagem)
    3Irmãos faleceram jovens
    Depois foram os pais
    E a vida mudou...
    Completamente...
    Perdeu-se tudo...enfim
    Parabêns pela sua força e vontade ferrea de recordar o passado
    Eu lhe dou o valor
    Pois tambem passei por casas com historia
    E hoje choro de tristeza pelo tempo que perdi e as coisas que já não voltam
    E aqueles que já partiram
    Um abraço
    Nina

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Luís

      Quando as casas tem raça, tem porte não há nada que as derrube.
      Quando a casa de Vilartão passou para a minha mulher e para mim ela estava num estado de pré-ruína, mas assim mesmo ela impunha-se na sua amesquinhada situação.
      Estas casas muito velhas têm voz,falam e muito,mesmo quando já as quiseram reduzir a nada, as quiseram silenciar.
      É impossível para mim ficar surdo e sem paixão.
      Ver Outeiro Seco ao vivo, como eu já o fiz, é experimentar algo de muito telúrico mas também de arrebatar paixões.
      Para terminar quero deixar sincero agradecimento à soberba escrita e generosa partilha de conhecimentos.
      Fique claro que a Casa de Vilartão é uma casa sua e que a Honrará sempre com a sua visita.

      Abraços
      Ângela e Joaquim

      Eliminar
  3. Ana Silva

    Obrigado pelo comentário.

    O que vê nestas imagens data de 2006. Desde essa data para cá, o edifício degradou-se mais. Mas como diz há ali aí uma grandeza, que vai sobrevivendo à incúria da entidade proprietária da casa.

    abraços

    ResponderEliminar
  4. Cara Nina

    Bem vinda a este blog, que é precisamente dedicado às memórias de antigas casas, objectos e pessoas.

    Abraços

    ResponderEliminar
  5. Caro Joaquim

    Saber que o que escrevo lhe proporciona prazer dá-me uma enorme satisfação e agradeço-lhe imenso a si e à Ângela o convite.

    Este post resultou das nossas conversas durante a visita ao Solar de Vilartão. Foi um dia em que estive sempre de olhos e ouvidos bem abertos a captar tudo o que ouvia e via.

    Abraços

    ResponderEliminar
  6. Luís, resta esperar que o solar seja vendido a alguém com o gosto e a coragem do Joaquim Malvar e, claro, com um bom pé de meia, para lhe devolver toda a sua antiga glória.
    Nessa altura, estou certa que os seus textos e as plantas e fotos do Manel serão uma ajuda preciosa.
    Beijos

    ResponderEliminar
  7. Maria Andrade

    O Solar pertence à Câmara Municipal de Chaves e duvido que o restaurem, muito menos agora com a tremenda crise em que vivemos.

    Em todo o caso tem razão numa coisa. Todos estes documentos que aqui coloquei sobre Outeiro Seco ficam para a comunidade, para que as pessoas do Concelho de Chaves tenham fontes em que se apoiar para traçar a história de uma casa fidalga transmontana.

    Também tenho sempre a esperança que alguns parentes meus, lendo estas linhas queiram contribuir com fotografias antigas da casa, para que eu possa continuar a erguer esta reconstituição virtual do Solar dos Montalvões de Outeiro Seco, ainda que o faça de uma forma muito lenta e incompleta.

    Abraços

    Abraços

    ResponderEliminar
  8. Podiam ao menos limpar o chão dava outro aspecto.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro Anónimo

      A casa está abandonada...

      Eliminar
  9. Caro Luís
    Gostei deste seu texto e da informação que ele dá sobre as questões arquitetónicas dos solares. É que eu vivi três anos em Terras de Basto,Celorico, região onde os solares são uma constante e quando os via da estrada, admirava-os e divagava sobre as mais variadas questões principalmente relacionadas com o quotidiano e organização destas casas, mas nunca nunca com as questões técnicas.
    Oxalá,o "seu" solar recupere a dignidade perdida.

    A autora do livro Cozinhas, espaço e arquitectura, Ana Marques Pereira tem um blog interessantíssimo que eu sigo. É o "Garfadas on line". Não perca.
    Abraços

    ResponderEliminar
  10. A tentação é grande para responder a alguns comentários, mas a educação não o permite :-(
    Este tipo de planta remonta a muitos milénios antes, aos próprios templos egípcios, que estavam divididos em vários espaços, colocados em sequência simples, e que, na medida que se penetrava no seu interior, o seu acesso era cada vez mais seletivo.
    Neste site:
    http://www.odysseyadventures.ca/articles/egyptian_temples/egyptian_temples-text.htm
    poderás ver aquilo que quero dizer.
    Após a transposição do pilone de entrada vem um pátio colunado, aberto, de acesso reservado a altos oficiais e a representantes selecionados do público em geral.
    Em seguida vinha um espaço coberto, a sala hipóstila, totalmente colunada, pois, segundo a cosmologia egípcia, o céu estava sustentado por colunas.
    Neste espaço só tinham acesso os sacerdotes, e, finalmente, no último espaço, entrava-se no santuário propriamente dito, todo revestido em madeira, de acesso reservado ao faraó e aos mais altos sacerdotes, onde se situava a estátua sagrada do deus, normalmente feita em materiais preciosos. Estes espaços eram cada vez mais baixos na medida em que se penetrava no espaço mais sagrado do santuário.
    Apesar desta planta não se ter reproduzido da mesma forma no templo grego, também ali existia uma subdivisão espacial cuja entrada era igualmente restrita, sendo o santuário (ou cella).
    Mas foi bom ver mais um post sobre Outeiro Seco!
    Manel

    ResponderEliminar
  11. maria Paula

    Também fui espreitar os garfadas on line e gostei, apesar de não perceber nada de culinária. A obra aqui citada é muito interessante, pois revela-nos como eram as cozinhas no século XVII, XVIII ou XIX e tudo com boas fotografias.

    Beijos

    ResponderEliminar
  12. Manel

    Realmente é interessante a sobrevivência de velhas fórmulas arquitectónicas, que sobrevivem ao longo de centúrias e que são repetidas, sem que os encomendadores da obras e os pedreiros saibam a sua origem. Muito obrigado pelo teu contributo. Não fazia a menor ideia que este esquema da casa dividida em 4 salas era tão antigo

    ResponderEliminar
  13. Bom dia Luís,
    Mais um bom texto com informações importantes para perceber mais um pouco da história do Solar dos Montalvões em Outeiro Seco.
    Aos poucos, pelo menos esta parte vai sendo "restaurada/recuperada".
    Um abraço e boa continuação para o execelente trabalho que tens vindo a fazer,
    Berto

    ResponderEliminar
  14. Caro berto

    A colaboração e ajuda que me deste neste trabalho de reunir os fragmentos da memória do Solar de Outeiro Seco foram extraordinários e espero poder continuar a contar com a tua colaboração.

    Abraço amigo

    ResponderEliminar