domingo, 21 de abril de 2013

Faiança: distinguir Fervença e Bandeira, a eterna confusão


Recentemente comprei uma caneca atribuída a Fervença, que está a fazer as minhas delícias pelo seu colorido muito popular e ao mesmo tempo a desencadear novamente uma grande confusão na minha cabeça entre o que é Fervença e o que é Bandeira. 

Esta minha nova caneca tem uma particularidade, é enorme, mede cerca de 15 cm de altura e à volta de 10 cm de diâmetro. O Manel e eu fizemos uma experiência com um medidor, enchemo-la de água e ela comporta um litro e ainda mais qualquer coisinha.


Fiquei intrigado com as dimensões desta caneca cilíndrica. Quem beberia tanto vinho ou tanto café com leite? 

Bem sei que antigamente, as pessoas não tinham esta preocupação contemporânea em serem magras, mas em todo caso, beber um litro inteiro de vinho é um exagero!

Presumi também que a caneca não fosse destinada a beber cerveja, pois o hábito de consumir esta bebida só se generalizou em Portugal no século XX, embora é certo que as primeiras fábricas tivessem aparecido na centúria de oitocentos, quando esta peça saiu do forno.

Estive depois a ler o glossário de termos técnicos do Itinerário da Faiança do Porto e Gaia. – Lisboa: IPM, 2001 e descobri que estas canecas cilíndricas de grandes dimensões eram vulgares na época e destinavam-se efectivamente a beber vinho, mas eram passadas de mão em mão, bebendo várias pessoas pelo mesmo recipiente, e por isso eram tão grandes. A caneca é pois testemunho de um costume ainda comum no século XIX, em que toda uma família comia de um único prato de grandes dimensões, usando o garfo ou uma faca para picar e beberia também por única caneca. Pratos ou copos individuais só existiriam nas famílias mais abastadas ou à mesa da fidalguia.

A caneca pertenceu à colecção António Capucho, que para quem não saiba foi um dos grandes coleccionadores de faiança em Portugal e um grande conhecedor de cerâmica. Nos mercados das velharias, ainda se conta que o Senhor identificava a origem das peças pelo peso e pelo toque, tal era sua experiência em lidar com a faiança. A caneca foi atribuída a Fervença pelo próprio António Capucho, conforme se pode comprovar pela etiqueta manuscrita na base, e como tenho o maior respeito pela experiência deste coleccionador, tomarei por ponto assente que é Fervença. Até porque de facto, a caneca apresenta as características atribuídas a Fervença por Artur Sandão, na obra a Faiança portuguesa: séculos XVIII-XIX. Porto: Civilização, 1985, isto é, forte policromia e delicada espessura.
 


A policromia assemelha-se efectivamente a outros pratos Fervença, como aquele mostrado nos Meninos gordos: faiança portuguesa/ Isabel Maria Fernandes. – Porto Civilização, 2005, página 37, em que as flores são feitas com uma máscara e depois pintadas à mão com pinceladas rápidas. Mas também é verdade, que é um Prato Fervença, que se poderia confundir com Bandeira…
 
 
Quanto à delicada espessura, a caneca tem efectivamente paredes finas, tal como uma terrina, com a qual iniciei este post há mais de 3 anos e que me continua a desconcertar, pois sempre que olho para ela mudo de opinião. Umas semanas julgo que é Bandeira, outra convenço-me que é Fervença.
 
 

Objectivamente, o mais próximo que encontrei desta peça foi uma Terrina do Museu Nacional de Soares dos Reis, com uma decoração muito colorida e está identificada como fabrico de Bandeira.
 
Terrina do Museu Nacional de Soares dos Reis
Mas este formato de terrina foi usado por muitas fábricas portuguesas entre finais do XVIII e a primeira metade do XIX. Ainda recentemente descobri uma destas sopeiras com um formato igualzinho à minha, atribuída à Fábrica de Domingos Vandelli, do século XVIII, no catálogo Cerâmica de Coimbra na colecção Pereira de Sampaio. – Coimbra: Câmara Municipal, 2011 e no matriz.net também encontrei mais umas quantas iguais, manufacturadas em várias partes do País.
 
Terrina de fabrico de Coimbra por Vandelli
 
Aliás, já aqui no blog referi que a mesma forma era usada em várias fábricas portuguesas, o que se explica pelo facto de que a Fábrica do Rato em Lisboa ter servido de escola a jovens de todo o País e que quando terminavam a sua aprendizagem, voltavam paras suas terras não só com as técnicas, mas com os próprios moldes das peças.

Enfim, escrevi todo este texto para vos dizer que não tenho certezas absolutas sobre esta caneca e terrina, mas julgo, que pelo menos terão sido fabricadas muito perto uma da outra, na margem esquerda do Douro, talvez em meados do século XIX.
 
 

11 comentários:

  1. Luís, sabe que este seu post me trouxe muito boa disposição?
    Não há como estas lindas cores garridas da nossa faiança em peças que respiram autenticidade por todos os poros para dar alegria a qualquer amante de velharias!
    A caneca foi uma ótima aquisição e faz muito boa companhia à terrina. Tenho uma em azul e branco decorada a estampilha e esponjados que deve ser do tamanho da sua e até a asa é do mesmo formato. Ainda não foi apresentada à sociedade por não saber o que dizer sobre ela, mas o Luís, mesmo sem certezas, compôs um texto bem interessante!
    Gostei de ler a sua explicação para a capacidade da caneca, que seria para ser usada em coletivo, à roda... e eu acrescentaria em ambiente de taberna ou adega, a ser cheia diretamente dos pipos ou dos tonéis.
    Quanto à origem, acho que já não vale a pena preocuparmo-nos em saber se é Bandeira ou Fervença, até pode ser Sr do Padrão, Sr d'Além, Torrinha... foram tantas as fábricas gaienses no séc. XIX! Mas de Gaia será com certeza! E a proveniência Capucho já é uma mais-valia!
    Parabéns!
    Bjos

    ResponderEliminar
  2. As duas peças são fantásticas e fora do vulgar.
    A terrina pela decoração exuberante, a caneca pelas dimensões, para não falar da decoração.
    Conseguir distinguir a produção destas duas fábricas, talvez só alguém que esteja habituado a lidar, e de uma forma diária, com peças deste calibre e qualidade.
    Eu não consigo distinguir, mas quem sou eu? Um mero amador da cerâmica, dono de meia dúzia de peças de que gosto muito, facto que seguramente não me permite chamar-lhe de coleção, como foi o caso da do António Capucho, que essa sim, é de fazer estarrecer qualquer um, quer pelo número quer pela qualidade.

    No entanto, e duma forma institiva (o instinto não serve de nada para classificações cientificamente rigorosas), olho para a tua terrina e parece-me Fervença, pois segundo li no catálogo dos "Meninos gordos", referindo-se à diferença entre as faianças da Bandeira e Fervença, esta última fábrica primava por produções relativamente leves *, dotadas de decorações mais cuidadas e vidrados mais consistentes (recordo ter lido uma bela dissertação sobre os vidrados, feita pelo comentador J. Saraiva, que explicava que uma razão para as diferentes colorações que estes adquirem deve-se sobretudo ao facto da posição da peça no forno de cozedura, e às temperaturas que atinge - conhecimento relevante, tanto mais que me pareceu baseado na prática diária de alguém que lida com o assunto de forma profissional).

    Observando a tua terrina, são caraterísticas que se lhe podem aplicar. Tem uma decoração muito bem feita e um vidrado de base homogéneo, quase leitoso, de boa qualidade.
    Fico igualmente admirado pelo pouco peso destas peças, talvez devido à conjuntura de paredes mais finas e material mais poroso (poderias pesar as tuas terrina e caneca, e colocar aqui essa informação).

    Quanto à tua caneca, se o Capucho a classificou como Fervença, porque razão iria eu discordar, sendo eu um leigo na matéria e ele um perito, que foi dono de uma coleção de cerâmica fantástica?

    A terrina do Vandelli é de um padrão decorativo vanguardista! Nunca diria que se tratava de uma peça do século XVIII. Quase parece um padrão art-déco.

    Claro que, como nos habituámos no nosso dia-a-dia, e também nas feiras de velharias, dos vendedores da "banha da cobra". Pessoas que rapidamente se darão ao trabalho de "atestar" (porque há gente que, sendo profundamente ignorante - só assim se explica que não tenham dúvidas e raramente se enganem, como o outro - se dá ao arrojo de atestar, como autoridades doutas na matéria!) que se trata de faiança de Darque, da Viúva Lamego (!), de Coimbra, Miragaia, Estremoz ou mesmo Aveiro, senão, quiçá, de Alcobaça (percorrem o país de lés a lés, pelo que, efetivamente, a percentagem de erro da localidade diminui substancialmente, mas a da fábrica continua alta).
    E o mais curioso é que, e referindo-se a peças sem qualquer marca, o dizem duma forma tão perentória e segura que não admite qualquer discussão, como se fosse ponto assente e elas donas da verdade pura e segura!. A verdade começou e, infelizmente, morreu nelas!
    Por outro lado, ainda bem que esta gente é pouco conhecedora, facto que já me permitiu adquirir peças, que me parecem muito interessantes, por preços irrisórios!

    Quanto às tuas peças, os parabéns, pois são deveras bonitas e representantes de um período importante na nossa produção cerâmica.

    * a adicionar àquilo que já referiste no post sobre o peso das peças, retiro da obra citada este excerto: «os autores consideram ser esta fábrica caraterizada por uma grande qualidade - quer quanto à pasta quer quanto ao vidrado e à decoração» ... « a decoração primava pela sua elevada qualidade sendo o desenho livre, feito com traço seguro e fino, de belo efeito sobre a superfície ...»

    Manel

    ResponderEliminar

  3. Luís ,não há dúvida que este seu blogue é uma verdadeira e constante lição de "bem saber " sobre os mais diversos aspectos da nossa imensa riqueza artística ,desde a arquitectura aos mais simples ,mas não fáceis meanadros de uma caneca ou de um prato .Sabe , essa ideia de ver tal tipo de caneca passar de mão em mão parece que está ainda em mim , nos tempos de miúda quando , lá na minha Beira vivia perto de uma taberna e espreitava , quando apanhava a minha mãe distraída , para ver o que ali se passava... E , como se a sua sabedoria não nos levasse já para outras épocas , vem o nosso amigo Manel completá-la sabiamente .
    Bem hajam
    Um abraço

    ResponderEliminar
  4. Caro Luis

    Uma coisa é certa.......está na sua posse e tendo pertencido a Antonio Capucho, transferiu-se a responsabilidade da sua guarda e posse....Os objectos são isso mesmo....contemplação, conversação e efémera posse....Os objectos simples tornam-se raros e importantes quando conseguem reunir à sua volta um grupo de pessoas cuja linguagem traduz um carinho forte pelos mesmos.Uma caneca abre a porta de uma taberna distante ou de uma adega enegrecida pela distância da nossa recordação.
    Bom trabalho de pesquisa. um abraço
    Vitor Pires

    ResponderEliminar
  5. Maria Andrade

    Tem toda a razão. Há nestas faianças coloridas e populares uma alegria de vida que não nos deixa indiferentes.

    Também concordo com a ideia de colocar esta caneca no cenário de uma taberna. Aliás a Idanhense Sonhadora ainda se lembra em miúda de ver os homens nas tabernas beber da mesma caneca.

    O conhecimento exacto desta produção prolixa de faiança do Porto e Gaia continua a escapar-se-nos entre os dedos. Em todo o caso, estes posts servem sempre para arrumar ideias, mesmo que não se consigam tirar conclusões.

    Beijos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Luís, numa primeira leitura talvez apressada do seu texto, não me apercebi que era para si ponto assente tratar-se de uma peça Fervença. Pareceu-me estar cheio de dúvidas quanto ao fabrico, apesar da atribuição de António Capucho a Fervença. Foi nesse sentido que escrevi o comentário, achando que uma peça destas vale por si, independentemente de ser Bandeira ou Fervença, mas também acho que a experiência desse colecionador nos merece o maior crédito.
      Quanto às restantes fábricas que mencionei, já agora explico que folheei na altura um catálogo de uma exposição integrada no I Seminário Internacional de Cerâmica - Gaia 90 em que aparecem exemplares do séc. XIX desses fabricos com uma paleta de cores semelhante a Bandeira e Fervença, daí podermos deduzir que Gaia apostava neste tipo de colorido. E assim é realmente difícil ter certezas...
      Bjos e bom feriado!

      Eliminar
  6. Manel

    Muito obrigado pelo teu extenso comentário, que completou aqui e acolá informações que só dexei esboçadas.

    Infelizmente não tenho nenhuma balança em casa para pesar as peças, porque acredito que esta poderá ser uma forma de identificar fabricos. Lá terei que comprar uma, que servirá também para os poucos doces que sei fazer. Igualmente deveria indicar as dimensões das peças sistematicamente. Por exemplo, nesta Caneca, além da decoração, bem entendido, as dimensões exageradas é que a individualizam e fazem dela uma peça de excepção.

    Temos que seguir o trabalho já feito por coleccionadores, conservadores de museu e historiadores de arte, evitando atribuições ao sabor do vento. Claro, podemos ter as nossas opiniões, mas estas tem que ser baseadas não só em intuições, mas também no estudo.

    Abraço

    ResponderEliminar
  7. Quina

    As suas recordações serviram para comprovar a existência do hábito de beber pela mesma caneca, que ainda sobrevivia nas tabernas no seu tempo de meninice. Deu uma achega muito útil para este post. Eu já só me lembro dos célebres copos de 3 dl, mas eu vivia em Lisboa. É natural que nas zonas rurais de Castelo Branco esse hábito tivesse sobrevivido até mais tarde.

    Abraços e obrigado

    ResponderEliminar
  8. Caro Vítor

    Ter uma caneca que pertenceu a António Capucho é como ter em casa um pouco da memória de um homem, que formou uma colecção de faiança, que já fez história em Portugal. Nunca o conheci pessoalmente, mas de certa forma, apropriei-me de parte da sua herança cultural.

    Um abraço

    ResponderEliminar
  9. Maria Andrade

    Com efeito, uma atribuição feita pelo António Capucho tem um certo peso, que nos leva a toma-la muito em conta. E de facto, fiz o post usando argumentos para defender que é uma peça da Fábrica de Fervença. Mas, e como a Maria Andrade bem notou, fiquei cheio de dúvidas, quando a comparei com a terrina, que achava que era Bandeira. Enfim, neste post escrevi sobre o que li e as dúvidas que a produção destas fábricas de Gaia sempre nos levantam a todos.

    Bjos

    ResponderEliminar
  10. Conheço um antiquário que reconhece uma peça qualquer pelo manuseamento, quer no toque, quer na temperatura do objecto.É de Borba.

    ResponderEliminar