domingo, 9 de março de 2014

Um candeeiro fora de moda

Comprei este pequeno candeeiro há mais de 25 anos na feira-da-ladra com a minha ex-mulher. Terá custado uns 300 escudos, já não me lembro bem, mas foi o primeiro objecto que comprámos para a nossa casa, um apartamento minúsculo num prédio com cerca de 200 anos, com vista para rua das Escolas-Gerais, onde víamos passar o mítico eléctrico 28 a cada quarto de hora. Foram uns tempos engraçados.

Passávamos a vida a perder e a mudar de empregos, mas tínhamos uma vida com uma certa dose de boémia. Também naquele bairro, cheio de gente alternativa, como diríamos hoje em dia, bastava ir à varanda para conhecer gente curiosa ou encontrar amigos da noite a passar na rua. Confesso que este candeeiro é um pequeno símbolo daquele tempo, que guardo com uma certa nostalgia.

Já ninguém usa estes candeeiros com abat-jours plissados e rematados com passamanaria.
Não é nenhuma antiguidade. Deve ser uma peça dos anos 30, 40 ou até mesmo 50 do século XX. É um objecto fora-de-moda. Já ninguém usa estes candeeiros com abat-jours plissados e rematados com passamanaria. Mas o fora-de-moda traz a obsessão do tempo que passa, a nostalgia mais querida, como escreveu Catherine N’diadye, nesse livrinho delicioso, intitulado A coquetterie ou a paixão do pormenor. Lisboa: Edições 70, 1987.

A luz suave de um abat-jour atenua e suaviza as rugas, as olheiras e as marcas do tempo
Não só o meu passado a luz suavemente matizada deste abat-jour plissado evoca, mas também um tempo que eu não vivi e que só conheço através dos livros, como o período do fin-de-siècle em Paris, mais propriamente o ano de 1898, quando César Ritz inaugurou o célebre e luxuoso hotel com o seu nome na capital francesa. Este empresário hoteleiro de origem suíça mandou electrificar o Ritz, o que era uma absoluta novidade naquele tempo. Mas como a luz eléctrica era demasiado forte e crua, César Ritz mandou colocar abat-jours cor de pêssego sobre os candeeiros eléctricos, de modo a disfarçar e embelezar a tez demasiado pálida e cansada das mulheres mundanas, que frequentavam o restaurante ou hotel. A luz suave de um abat-jour atenua e suaviza as rugas, as olheiras e as marcas do tempo.

Este candeeiro é apenas um objecto fora de moda, ainda não dormiu o suficiente para ter um carácter histórico, nem foi ainda apanhado novamente pela moda, que tende sempre voltar atrás e repescar as coisas do passado. É apenas um objecto sentimental e a sentimentalidade nunca consegue viver o tempo louco e rápido da moda.

22 comentários:

  1. Lindo
    Adoro este género de candeeiro
    O luis como sempre tem as coisas mais bonitas para nos mostrar
    E esse candeeiro ainda por cima tem a história de momentos mais felizes da sua vida com a sua ex esposa
    Quer queira ou não ,conta um pouco do seu passado
    momentos bons e não tão bons,mas que fazem parte da sua vida passada
    De certeza que lhe trazem um pouco de nostalgia da sua vida de homem casado
    Agora ,embora seja " solteiro" de certeza que a sua casa e filhotes e ex esposa ainda são uma familia feliz
    Beijinho,Luis

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    1. Grace

      Obrigado pelas suas palavras simpáticas. Estes pequenos objectos guardam em si toda uma série de memórias, que nos permitem sentir mais confortáveis em casa, ainda que vivamos sós.

      Bjo

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  2. Pode já não estar na moda, mas a
    sua elegância perdura no tempo.
    Também tenho dois candeeiros
    com abat-jour em minha casa, com
    cerca de 50 anos, que todos os
    dias dão o ar da sua graça,
    suavizando a luz do corredor
    durante os serões nocturnos. E tão
    bem que sabe!
    Um abraço,
    Marco Monteiro

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    1. Marco

      É verdade. Só aprendi tarde o valor dos abat-jours na decoração. A luz eléctrica só por si é uma coisa crua, sem graça, que põe à vista não só as nossas olheiras, como as rachas e as mazelas de uma casa antiga. A luz suave dos abat-jours cria todo um clima acolhedor numa casa.

      Um abraço

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  3. Gostei muito. Cada vez me interessam mais estas peças "fora de moda" pelo que representam. E aprendi muito, como sempre... Bom dia!

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  4. Margarida

    Muito obrigado. Este texto andou quase todo à volta do livro "A coquetterie ou a paixão do pormenor. Lisboa: Edições 70, 1987", que é uma pequena preciosidade para explicar o fascínio que os objectos fora-de-moda exercem no ser humano e que está muitas vezes na origem do coleccionismo das velharias, do gosto pelo kitch no vestuário e no prazer de apanhar coisas do lixo para as reciclar.

    Um abraço

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  5. Olá Luís,

    Realmente há peças que nos acompanham quase uma vida inteira, e que marcam momentos cruciais da mesma.
    Não sei se é da tonalidade champanhe, mas esse candeeiro tem um qualquer charme especial.
    Tal como seria de esperar, há 25 anos atrás o Luís já tinha gostos requintados, e pelos vistos a cara metade seguia-lhe as pisadas.
    Devem ter sido muito giros esses seus primeiros tempos de casado, nessa ambiência que descreve, muito ao estilo de Paris nos bairros habitados primordialmente por artistas e boémios.
    Esse candeeiro presenciou todo um conjunto de acontecimentos (melhores ou piores) e consegue fazê-lo recuar no tempo, e recordar momentos vividos na companhia de uma pessoa que foi tão especial para si, e que presumo continue a sê-lo de alguma forma. Afinal de contas, embora separados, ela é a mãe dos seus lindos filhotes!
    Curiosamente, ontem foram-me oferecidas duas peças Vista Alegre, as quais também foram testemunhas da vida de alguém da minha família. São um par de catatuas com carimbo de 1947/68, e são lindas!


    Beijinho


    Alexandra Roldão

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    1. Alexandra

      De factos esses tempos que aqui evoquei foram engraçados e guardo alguma nostalgia deles. Pensei até rematar o post com La Bohème do Aznavour

      La bohème, la bohème
      Ça voulait dire on a vingt ans
      La bohème, la bohème
      Et nous vivions de l'air du temps

      Mas, depois lembrei-me de um livrinho que tinha lido há muitos anos, "A coquetterie ou a paixão do pormenor. Lisboa: Edições 70, 1987" e o texto inflectiu noutro sentido e decidi escrever antes sobre o fascínio que os objectos fora de moda como este candeeiro exercem sobre nós.

      Bjos

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  6. Luís,
    Gostei muito do abat-jour e o pé fica muito bonito dentro dele.
    O seu registo fez-me sorrir. Gosto imenso dessa época que muito bem retratou.
    Boa noite!:))

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    1. Cara Ana

      Muito obrigado.

      O final do século em Paris é um período fascinante. É a época em que a cidade é a capital do mundo e as mundanas e as semi-mundanas enchem os restaurantes, os parques e os teatros e há um Senhor, Marcel Proust, a observar os pormenores deste mundo. A decoração é pesada, mas sempre confortável e nas paredes, nos tectos e nas mesas há candeeiros, apliques e lustres cheios de charme. Recentemente, passou no circuito comercial um filme sobre está época, o Chérie, baseado no romance da Colette, que reconstitui admiravelmente os interiores domésticos.

      Um abraço

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  7. Olá Luis,

    Obrigado por sua visita e seus comentários lá no pobrezinho...

    Só para destoar (mas não menosprezar) de todo este romantismo, penumbra de sentimentos e afetos:

    Tudo bem que talvez esta luminária seja "cafona" segundo algum critério... Mas junto a um barrado de azulejos destes e frente a este painel de relevo clássico, que são sei o que é (mas lindo) penso que até umas luvas furadas ou qualquer coisa assim, seria muito bem apresentada... Mas o pessoal, e Vc muito mais, tem razão em valorizar esta peça "ainda não tão dormida..."

    Postei novamente a imagem de Nossa Senhora que penso ser seiscentista (pelo menos é bem mais velha que nós, né?). Foram as primeiras fotos que tirei. Pena que já tinha preenchido os buracos que iam até os ombros e toda a grande cava na base. Mas não queria vê-la assim.

    Sei que Vc não mexeria tanto nela mas a tenho tb por devoção...

    Um abraço

    Amarildo

    http://velhariasdomaurinho.blogspot.com.br/

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    1. Amarildo

      O painel que se vê ao fundo é um estuque da oficina Baganha na cidade do Porto. É uma casa centenária especializada em trabalhos de decoração a estuque de paredes e tectos. O painel é uma réplica de um modelo antigo desta oficina, que eles ainda executam e vendem na sua loja do Porto.

      Bem, para publicar este post, tirei cerca de umas quarenta fotografias, das quais só aproveitei 4. Queria apanhar não só a beleza da luz do candeeiro, mas também o seu enquadramento com os azulejos e o painel de estuque ao fundo. A ideia é sempre proporcionar aos leitores do blog imagens bonitas, que os façam esquecer da chatice da vida e lhes despertem o gosto pelo antigo.

      Um abraço

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  8. A luz dada por este candeeiro é muito bonita. É tranquila, que, depois de um dia de trabalho, induz ao repouso, e, ainda por cima, tem o condão de atenuar algumas caraterísticas menos boas do rosto de uma pessoa, para quem se preocupa com isto.

    Os plissados do abat-jour acabam por conferir nuances de iluminação que um tecido simples, ainda que com forro, não dariam. Gosto dos abat-jours com duplo forro

    Há muitos anos atrás comprei, igualmente na feira da ladra, um outro candeeiro, que, não sendo igual a este, não andará muito longe.
    Julgo que, pela forma e materiais, apresenta reminiscências da Arte Nova. Poderia, pois, ser das primeiras décadas do século, e ainda tinha os fios elétricos revestidos a tecido; trazia igualmente um abat-jour em plissado de seda, com o trabalho de plissado já completamente puído e desfeito, aqui e ali - as traças, entre outras fibras naturais, têm um gosto muito especial por esta.
    Lá me armei de toda a paciência, tirei a seda, verifiquei como tinha sido feito o trabalho e voltei a refazê-lo, no mesmo material, agora de forma mais trapalhona, pois não consegui ter o virtuosismo do(a) artista original.
    Não obstante, ficou bonito, e gosto francamente de ter o candeeiro aceso, dá uma luz fantástica!
    Entretanto, e depois da experiência deste, acabei por encher a casa com este tipo de quebra luzes, em plissados, cuja luz ambiente me dá um prazer muito especial.

    As modas são inconsequentes, pois, para além de transitórias, servem para conduzir o gosto de gente insegura, que, por ignorância, preguiça ou outra razão qualquer, nunca conseguiu formar um léxico artístico de base, sólido o suficiente para lhe permitir ser segura nas suas opiniões e gostos.
    Qualquer forma de gosto, desde que assente em bases e conceitos artísticos sólidos, é válido e defensável.
    Seguir o gosto, só porque é moda, é algo que evito cuidadosamente, pois seguir a carneirada não pertence, de forma alguma, a qualquer ambição que tenha como pessoa.
    Quando se gosta, de forma esclarecida, todas as opções são válidas.

    Manel

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    1. Manel

      Já aqui repeti muitas vezes a célebre frase da Chanel "La mode se démode, le style jamais". Quer isto dizer que não interessa acompanhar a moda, que passa a cada momento, mas importa muito mais definir um estilo próprio, que tem muito mais hipóteses de manter a sua frescura durante décadas a fio. E no entanto, nós que compramos velharias adquirimos tantas vezes objectos, que foram o último grito da moda no passado e que hoje só interessam a coleccionadores de bric-à-brac, pois ainda não dormiram tempo suficiente para serem objectos históricos respeitados. O fora-de-moda tem de facto uma carga de nostalgia e sentimentalidade que irresistivelmente nos atrai.

      Um abraço

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  9. O candeeiro pode não ser histórico mas, conhecida, tem uma história. E quantas histórias desconhecidas não terá?

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    1. Cara Ana T.

      Adquirir este objectos fora-de-moda tem de facto uma carga sentimental muito grande. Este candeeiro era destinado talvez a uma mesinha de cabeceira ou para a mesa de um restaurante. Nos anos 30 e 40 era moda colocar nas mesas redondas dos restaurantes um pequeno candeeiro com abat-jour, que servia não tanto para alumiar, mas para dar ambiente. Tenho até uma ideia de uma imagem do filme New York, New York, com a Liza Minelli e o Robert de Niro sentados na mesa de um restaurante, onde há um destes pequenos candeeiros. Enfim, quantas histórias estes objectos nos poderiam contar.

      Um abraço

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  10. Luis!
    Realmente estes pequenos candeeiros são de uma nostalgia que nos remete aos filmes noir de Hollywood dos anos 30 - 50. Carregam um certo ar de romantismo. Realmente são encantadores. Minha esposa e eu os colecionamos. Quando vamos a feirinhas de velharias e antiguidades ele parecem saltar aos olhos e nos implorar para serem adotados.
    Abraços d´além mar
    Edwin J. Pinto Fickel

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    1. Caro Edwin

      Com efeito, estes candeeiros já não se encontram nas casas actuais. A minha imagem deles é quase sempre de filmes antigos ou de filmes de época dos anos 30 e 40.

      Tal como o Edwin apetece-me sempre comprar candeeiros, mesmo que não precise deles para nada.

      Um abraço lisboeta

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  11. Luís , o seu candeeiro pode ainda não ser um objecto histórico ,mas é lindo tal como o seu texto...
    Um abraço

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    1. Cara Quina

      Muito obrigado. Julgo que neste post consegui um texto feliz com boas imagens. Nem sempre o consigo. Ou o texto saí menos inspirado, apesar de boas fotografias, ou então o texto é bom, mas as imagens fracas. Há dias que estamos mais inspirados.

      Um abraço

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  12. Olá Luís! Uns dias sem visitar o blog e fiquei logo desatualizada! Ainda não consegui ver toda a entrevista televisiva, por "grandes" problemas informáticos :( , mas admirei imenso o teu à vontade. Parabéns pelo trabalho de divulgação e sensibilização do valor do passado.
    O candeeiro (lembro-me dele), trouxe-me de volta jantares intermináveis e noitadas de jogatana: de facto, tínhamos todos vinte e tal anos... Bjs,
    Luísa

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    1. Luisa

      Obrigado pelo teu comentário e espero que consigas ver o programa por inteiro. Não que eu tenha dito, grandes novidades, mas porque é sempre engraçado ver os amigos na televisão.

      Este candeeiro é um pequeno símbolo desses tempos, em tínhamos todos vinte e tal anos e de facto sempre que ouço o La bohème comovo-me, porque penso nessa época.

      La bohème, la bohème
      On était jeunes, on était fous
      La bohème, la bohème
      Ça ne veut plus rien dire du tout

      Bjos

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