sábado, 17 de maio de 2014

Mascarão

 
Sinto sempre um atracção por tudo o que é pequeno, estanho e insólito. Talvez esta atracção pelo pormenor se explique minha profissão, de bibliotecário, que vive de minúcias, ou porque vivi sempre em casas pequenas ou ainda porque possivelmente mantive o gosto que as crianças sentem pelos carrinhos, as casas e os bonecos, isto é, as miniaturas da realidade. Por isso quando vi no chão de uma feira de velharias este objecto estranho, insólito, mas pequeno, fiquei fascinado e senti que aquilo fazia parte do ambiente da minha casa. Contudo pediram-me um preço relativamente alto e deixei-o por lá, mas a fiquei sonhar com ele. Voltei à feira passado um mês e encontrei de novo esta figura, quimérica, assustadora a olhar para mim, mas desta vez regateie um bom bocado e conseguia-a por um bom preço.

Não sabia bem o que era, mas suspeitei que fosse um ornamento de uma fonte. A cavidade semicilíndrica do fundo serviria para se adaptar ao cano da água. A oxidação da liga metálica na qual ela foi feita também me levou a acreditar nessa hipótese. Aliás, poucos dias depois de ter comprado esta peça encontrei à venda, no e-bay, em França uma figuras destas, cortada em semicírculo na parte inferior e que era precisamente um ornamento de fonte.

Rare & Ancien mascaron de fontaine en fonte datant du XIX éme siecle . legere oxydation - patine - reste salissures - usures - usure d'usage .Dimensions (env ) 17,7 cm de Hauteur - 17,3 cm de large - 5,5 cm de diametre d'espace au niveau de la bouche pour le robinet
Mas quis saber mais e fiz algumas pesquisas no google por Mascarão, termo pelo qual na arte são conhecidas estas máscaras, grotescas deformações de rostos humanos com elementos animais e vegetais à mistura e encontrei esta definição na wikipedia francesa, da qual fiz uma adaptação livre, :


Em arquitectura, um mascarão é um ornamento representando geralmente uma figura humana, por vezes assustadora cuja função original era afastar os maus espíritos, impedindo-os de entrar nas casas. Estes ornamentos eram colocados nas pedras de fecho dos arcos das janelas ou das portas e ainda sobre os lintéis. Alguns mascarões eram a aplicados sobre as fontes e das suas bocas jorrava água.

Esta ideia de que os mascarões afastariam os maus espíritos começou na Grécia antiga, onde já eram usados nos edifícios, mas também na cerâmica e em outros objectos do quotidiano e este costume teve origem no mito de Perseu e Medusa.

Esta Medusa era uma senhora de convívio pouco recomendável, cujo olhar era capaz de petrificar quem a fixasse. Perseu foi encarregado de a matar e armou-se com uma espada e um escudo com um espelho, para evitar o mortífero olhar. Depois de ter decapitado a criatura, cujo cabelo era formado por serpentes, ofereceu a cabeça à deusa Atena, com a qual ornamentou o seu escudo, a égide, conseguindo com isso poder um divino acrescido. Houve como que uma transferência de poderes de Medusa para Atena. O que era um poder maléfico tornou-se num poder benigno de protecção.
Perseu e Medusa por Benvenuto Cellini. 1545. Florença
Entre outras coisas este belo mito explica no fundo a função da máscara. Quem coloca uma máscara, ainda que no Carnaval ganha a características da personalidade representada. Da mesma forma, um feiticeiro africano que enverga uma máscara adquire os poderes da divindade que ela representa.

Com a cristianização do mundo antigo toda esta história da Medusa, de Perseu e das máscaras foi morrendo e sendo esquecida e os pensamentos viram-se para Cristo, para a Virgem e para as relíquias dos mártires.

No renascimento, os escultores, pintores e arquitectos italianos redescobriram a Antiguidade e voltaram a usar nas artes estas máscaras, inspirando-se nas ruínas dos templos e casas antigas, que encontravam por toda a parte na sua pátria e esta voga foi-se difundido por toda a Europa. Aliás o termo mascarão entrou nas línguas europeias por via do italiano, mascherone, que designa um ornamento em forma de máscara que decora uma fachada.

Fontaine dans la cour intérieure de l'Hôtel Cail, rue de Lisbonne, paris. Pierre-Émile Charrier (1865). Foto Wikipedia

Claro, no Renascimento e nos séculos seguintes, os mascarões já tinham perdido praticamente o sentido mágico de protecção, que tinham tido na Grécia ou na Roma antiga e estas figuras, usadas no barroco ou no século XIX na decoração do mobiliário, na arquitectura ou nas fontes, passaram a ter um valor meramente decorativo. No entanto, dada a importância da água na vida humana, talvez muita gente ainda tivesse a superstição, de que colocando estas máscaras nas fontes estariam a proteger um bem tão essencial de ser envenenado ou contaminado pelos maus espíritos.

Este Mascarão está agora na parede da minha sala reformado das suas funções de protector das águas, mas cada vez que olho para ele lembro-me do belo mito de Perseu e Medusa que ele ainda evoca vagamente.
O Mascarão pertencente à Ana Silva, Era uma das pegas de uma daquelas banheiras antigas com os pés em garras e as costas sobrelevadas.
Em suma, estava mais ou menos convencido, que este mascarão tinha sido arrancado de uma fonte, quando uma seguidora deste blog, a Ana Silva, comentou que tinha exactamente uma peça igual, proveniente de uma banheira antiga, daquelas com os pés em garras e costas sobrelevadas. A banheira não tinha tubagem e estes mascarões serviriam de pegas para a transportar de uma divisão para a outra. A Ana ainda se lembra de ver pega colocada nessa banheira, decorada com uma pintura floral de cores vivas, que deve ter sido lindíssima a julgar pelo tom nostálgico da descrição que dela me fez. A banheira estava no primeiro andar de uma casa senhorial, provavelmente dos finais do séc. XVIII, inícios do século XIX, junto ao castelo de Almada. Essa velha casa familiar entretanto ruiu e hoje, no seu lugar está um desses prédios modernos, com que adoramos estragar as nossas cidades.

Não andei muito longe da verdade ao relacionar esta peça com a água, mas foi a Ana Silva que me permitiu desvendar o significado desta peça misteriosa e encontrar a história que ela conta. Certamente o meu mascarão estava também numa casa antiga, cujo recheio foi disperso e nesse momento desapareceram para sempre as histórias e cenas familiares de gente, que viveu há muito tempo.


20 comentários:

  1. Luís não andou longe pois a peça indirectamente tem a ver com água mas não da forma como pensa. Tenho o par de uma igual a essa e sei de onde veio, por isso sei que eram usadas aos pares. Se quiser e se eu conseguir, envio-lhe para o mail a foto da minha. Trata-se de uma asa de banheira daquelas com pés e no caso da minha tinha uma lindíssima pintura no esmalte da banheira, o andar onde se encontrava era da família do avô da minha família e ruiu com tudo de belo que continha e que nunca ninguém apreciou, deram ou me deixaram comprar. Apenas salvei a asa que me acompanha Há mais de 30 anos...
    Abraço,
    Ana Silva

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    1. Cara Ana Silva

      Mas que curioso!!!! Estou em pulgas para ver a fotografia. O meu endereço de e-mail está no perfil e se puder enviar as fotografias muito agradeço.

      A net tem destas coisas. Apresentamos uma peça de um puzzle e outra pessoa noutro ponto qualquer do País tem a outra metade que encaixa na nossa e resolve o mistério.

      Um abraço e muito obrigado

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  2. Luís,

    Por esta e outras é que sou fã deste seu blog! Quem nos havia de dizer que a peça por si adquirida fazia parte de uma antiga banheira?
    A net tem esta excelente faceta da partilha de conhecimentos e troca de ideias.
    Essa banheiras com pés eram belíssimas!
    Agora é caso para dizer que o Luís acertou ao lado do porta-aviões! ;)
    Seja com o for, desconhecia o nome e a função de espanta espíritos maléficos atribuída a essas peças, que muitas vezes decoram as fontes antigas, e que são quase sempre parte integrante dos belos cenários, associados a fotos de lindos palacetes, normalmente italianos ou franceses.

    Beijinho

    Alexandra Roldão

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    1. Alexandra.

      Realmente andei bastante perto da mouche, mas falhei. No entanto, fiquei satisfeitíssimo por descobrir a exacta função deste mascarão.

      Também tenho uma paixão por essas banheiras antigas com pés. Até já vi uma a marcar o lugar de estacionamento para a camioneta de um prédio em obras. Só não a levei pois a minha casa de banho é minúscula. Em todo o caso, vou fazer uma pesquisa na net por banheiras antigas.

      Prometo publicar aqui as fotos que a Ana Silva me enviar.

      Um abraço

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  3. Olha que interessante!
    Nada como descobrir algo pelo qual não se esperava.
    Assim acontecesse com muitas peças que tenho e que não lhes sei a proveniência!
    É preciso ter sorte!
    Ainda bem que assim aconteceu. Mais uma peça reconhecida.
    Sabendo eu que no Alentejo é muito frequente encontrar estas caras/máscaras trabalhadas no mármore, como saída de água em fontes (já conhecemos vários exemplos), nada mais normal que dar esta função a peças deste tipo que mostras.
    Podes continuar e fico encantado com esta tua comentadora por te ter dado esta resposta.
    Não é nada comum que algo como isto aconteça, parece-me quase um milagre.
    Só me lembra a situação de um tapete persa incompleto existente num museu, creio que em Portugal, e se descobriu que a porção que falta se encontra num museu dos EUA.
    Há milagres destes.
    Manel

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    1. Manel

      É realmente uma coincidência espantosa que a Ana Silva tenha em casa uma peça igual à minha e que ainda por cima conheça a proveniência, uma casa antiga de família e a utilização original, a pega de uma banheira antiga, que deve ter sido lindíssima, a julgar pela descrição que nos fez.

      Realmente e pensando bem, a cavidade semicilíndrica deste mascarão é feita à medida de uma mão.

      Claro, o comentário da Ana Silva deitou por terra a minha pequena teoria de que este mascarão fez parte de uma fonte. Mas a história, mesmo a de pequenos objectos como este, é uma constante revisão na procura da verdade. E no final estou encantado com esta pequena grande descoberta.

      Um abraço

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    1. Margarida

      Muito obrigado. Realmente esta pequena descoberta teve uma enorme graça.

      Ainda bem que gostou.

      Um abraço

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  5. Nunca imaginaria que estes mascarões pudessem ter uma função tão prosaica como pegas de banheira! Mas valem por si e o seu fica espetacular na parede!
    Afinal, talvez venham na linha de outras peças, as bacias das fontes de parede em faiança, que têm como pegas de cada lado rostos femininos ou de meninos ...
    Foi uma bela descoberta!
    Beijos

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  6. Maria Andrade

    Já a imaginava para sempre afastada deste mundo dos blogs. Sinto sempre falta dos seus comentários.

    Os Mascarões foram usados como ornamento na arquitectura, nas fontes, nas ferragens do mobiliário, na cerâmica e pelos vistos nas banheiras.

    A peça é de facto um espanto e também tive sorte com a fotografia. Curioso que a maioria das peças só ficam bem fotografadas de dia, mas esta só ganhou definição e mistério à noite, com a sala às escuras e uma única iluminação vinda de cima, de um aplique com luzes amarelas.

    Aguardo ainda pela fotografia da Ana Silva para alterar a conclusão do post.

    Bjos

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    1. Eu Já tirei diversas fotografias e de facto a que ficou melhor foi naquela mesma noite e só co m um foco, mas ou estou com problemas no cabo da máquina ou nas portas USB do únIco pc que está a funcionar neste momento cá em casa. Estou de baixa pelo que não posso fazê-lo no do trabalho, teremos de ter um pouco de paciência.
      Abraço
      Ana Silva

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    2. Cara Ana Silva

      Não se preocupe. As antiguidades são como as pessoas já muito idosas. Deixaram de ter pressa.

      Um abraço e obrigado pelo cuidado

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  7. Gostei do seu mascarão e da história que desenvolveu à volta dele.
    Em Capri comprei um mascarão em miniatura que vendiam na rua e transformei num pendente. Não pertencia a fontanários, nem a banheiras.
    A minha intuição [ que pode estar errada] diz que estes mascarões terão ido das fontes para as banheiras.
    Um abraço.:))

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    1. Ana

      A sua intituição parece-me acertada. É plausível que os primeiros fabricantes de banheira reproduzissem elementos ornamentais característicos de fontes.

      Um abraço

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  8. Acrescento porque me esqueci: eram usados como acessórios da arquitetura.
    Boa noite!:))

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  9. Mas que bem enquadrado ficou o mascarão com o seu ar de poucos amigos! É uma peça muito interessante. Essas banheiras de pezinhos são lindas, mas desconhecia por completo que tivessem pegas. Seriam as banheiras naquela época , perante situações especiais, transportadas para diferentes divisões? Ou teriam só uma função decorativa?
    Beijos e bom fim de semana

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    1. Maria Paula

      Foi complicado fotografar este mascarão. Os instantâneos que tirei durante o dia ficaram sem graça nenhuma. Só à noite, com uma luz vinda de cima é que consegui captar o ar medonho desta carantonha.

      Também faço as mesmas perguntas da Maria Paula. Será que esta banheira era como as antigas selhas de zinco que podiam ser transportadas de uma divisão para a outra e tinham por isso pegas? Ou será que estas pegas eram meramente ornamentais?

      Era eu muito miúdo e ainda me lembro na casa da minha mãe de uma dessas celhas de zinco na casa-de-banho. Mas era uma peça rústica, comprada certamente numa feira.

      Quando a Ana Silva me escrever enviando-me as imagens vou aproveitar para lhe fazer umas quantas perguntas, até porque a peça dela tem uma história familiar que presumo que seja interessante.

      Bjos

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  10. Olá Luis,

    Paz e Fortuna, seja nos rios ou nas banheiras...

    Pelo título e pela foto logo pensei numa monumental ornamentação de fonte ou coisa assim.
    Mas depois vem a real dimensão, quando se compara com os objetos ao redor.
    Realmente nada neste objeto sugeriria de pronto que fosse uma alça. Já uma boca de fonte...
    Mas banheira tem tudo a ver com fontes e rios. Não andou longe.
    O curioso deste post foi sua leitora ter um par de peças semelhantes e saber seu uso original.
    A última foto, bem trabalhada na sombra e luz, deixa ver uma outra peça que parece fechada. E esta o que seria?

    Um abração.

    Parabéns tb pela qualidade das fotos.
    Vou ver se pego um pouco de jeito para os meus posts.

    Amarildo

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    1. Amarildo

      Desculpe só agora lhe responder.

      A peça que vê ao lado do mascarão é uma coisa em terracota, um fragmento de uma obra maior, que nunca consegui identificar. Parece-me um daqueles grotescos da Renascença ou Século XVII, mas nunca consegui apurar nada de concreto sobre ela. Mas é uma pequena escultura notável, talvez das minhas peças preferidas em casa.

      Terei que ter paciência. Talvez um dia descubra qualquer coisa sobre ela por mero acaso.

      Um abraço

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