sexta-feira, 10 de março de 2017

Um São Valentim impresso na Parva Roma


Era para ter mostrado no dia 14 de Fevereiro esta estampa, representando S. Valentim, mas como já expliquei muitas vezes neste blog, sou avesso a efemérides. No fundo, gosto de estar sempre contra a maré.

Como toda a gente sabe, o 14 de Fevereiro, dia dos namorados ou de S. Valentim é uma coisa recente na Europa. Não é que o culto a S. Valentim não existisse aqui e ali, umas vezes com a conotação de santo protector dos namorados, outras vezes invocado contra a epilepsia. Mas não era de todo um culto popular, como o de S. Francisco de Assis, S. Catarina de Alexandria ou S. Bárbara. Aliás, até há bem pouco tempo, em Portugal os santos namoradeiros eram sem sombra de dúvida S. António de Lisboa ou S. Gonçalo de Amarante. O 14 de Fevereiro, como dia dos namorados foi uma moda trazida dos Estados Unidos, no final da Segunda Guerra Mundial, pelos soldados americanos e desde então, a par da pastilha elástica, da Coca-Cola e de outros grandes benefícios da civilização moderna, não parou de se difundir por todo o mundo.

 

Na verdade este S. Valentim é uma figura lendária, em que a tradição misturou três pessoas distintas, um padre, que foi decapitado em 273 em Roma, um bispo também decapitado na cidade de italiana de Terni e ainda um outro bispo, Valentim da Récia, também conhecido por S. Valentim de Passau e que viveu mais tarde no século V. Os dois primeiros foram martirizados a 14 de Fevereiro e a tradição popular começou desde muito cedo a junta-los numa única figura. Valentim da Récia ou Rhaetia era comemorado a 7 de Janeiro e o seu culto como personalidade individual parece ter sobrevivido até mais tarde.

Segundo Louis Réau, o especialista em iconografia cristã, a associação de S. Valentim a santo patrono dos namorados fez-se porque a sua festa calhava, no dia 14 de Fevereiro, altura em que os passarinhos começavam a acasalar. Outra tradição que poderá explicar esta característica do santo em causa, mas de que não consegui apurar a fonte conta que S. Valentim casava em segredo os namorados nos tempos das grandes perseguições aos cristãos no século III.


O verso da folha, apresenta uma breve descrição da vida de S. Valentim em Latim
Quanto à minha estampa é uma folhinha solta, com a imagem de um qualquer S. Valentim de na frente e um breve texto no reverso. Comecei por tentar ler a súmula da história do santo em latim, na parte detrás da estampa.

Nela refere-se que se trata de Valentinus Episcopus. Portanto, se foi bispo certamente tratar-se-á de Valentim de Terni ou Valentim da Rethia e podemos excluir o Valentim de Roma. De seguida tentei ler o texto latino, recorrendo ao Google translator, pois o meu conhecimento desta língua é pobrezinho e lá consegui destrinçar que o Valentim aqui retratado lutou contra a heresia de Ario, andou pelo Tirol, e pela Áustria Superior, espalhou a verdade Cristã e morreu na paz do Senhor cerca de 440.

A antiga Rétia é hoje o cantão dos grisões na Suiça, parte da Áustria e Sul da Baviera
 
 
Estes dados coincidem perfeitamente com a vida de S. Valentim da Raethia ou de de Passau. Este Valentim era oriundo do território que é hoje a Bélgica e foi nomeado pelo Papa Leão I (440-461) para evangelizar a antiga província romana da Raethia, hoje o Tirol, parte da Áustria, o cantão dos Grisões na Suiça e algumas regiões do sul da Baviera, cujos habitantes estavam ainda presos aos antigos cultos pagãos ou eram seguidores de uma heresia cristã, o arianismo. Já depois da sua morte, no século VIII o corpo foi transferido para a cidade Bávara de Passau, que fica na fronteira entre a Áustria e a República Checa e por essa razão este Valentim, é também conhecido por Valentim de Passau.


Esta folha foi impressa em Tyrnaviae, actual Trnava na Republica Eslovaca, na imprensa do Colégio da Academia da Sociedade de Jesus, em 1763

Também há mais uma razão, para estar convencido que se trata de uma representação de S. Valentim de Passau, santo invocado na cura dos que sofriam de epilepsia. Esta gravura foi impressa mo ano de 1763, em Trnava, cidade da actual República eslovaca, na imprensa da antiga universidade Jesuítica.

Aspecto de Trnava, conhecida por Parva Roma, isto é, a Pequena Roma. À direita da Igreja pode-se ver as instalações da antiga universidade, que contava com uma oficina tipográfica, particularmente activa e de onde saiu esta folhinha com o S. Valentim
 
Trnava em eslovaco ou Nagyszombat em húngaro, cidade cheia de igrejas e que albergou a primeira universidade da Hungria no século XVII, conhecida como a pequena Roma não fica assim tão longe de Passau e é pois natural que esta folhinha solta se vendesse aos crentes devotos do S. Valentim da Raethia. Como é que esta gravurazinha da Eslováquia chegou a Portugal é uma boa pergunta. Mas o mundo católico romano formava já nesse século XVIII um todo coeso e  e circulavam gravuras e livros por todo o lado onde se obedecia a autoridade do Papa.

Em suma este meu Santinho nunca foi invocado pelos namorados no dia 14 de Feveiro. É um S. Valentim da Europa Central, mais sério, invocado na cura contra a epilepsia. Confesso-vos que fiquei alguma com pena, pois teria gostado que esta gravura representasse aquele episódio da Legende Dorée, de Jacques Voragine, em que se conta que S. Valentim de Roma curou a filha do seu carcereiro da cegueira e já imaginava a rapariga, com a visão recuperada, apaixonada, sem conseguir tirar os olhos do belo Valentim.



Alguma bibliografia e ligações consultadas:

Iconographie de l'art chrétien / Louis Réau. - Paris : Presses Universitaires de France, 1955.
La légende dorée / Jacques de Voragine. - Paris : Perrin et Cie., Libraires-Éditeurs, 1910.
https://fr.wikipedia.org/wiki/Valentin_de_Rh%C3%A9tie
A history of the church / Johann Joseph Ignaz von Döllinger
https://en.wikipedia.org/wiki/Trnava

6 comentários:

  1. Olá, Luís, São Valentim não é o santo protetor doas advogados ou estou confundindo com algum outro. Vou ver depois. O dia dos
    namorados aqui é em julho, acho, e não tem santo nenhum relacionado á data. Santo Antonio é o santo ainda fortíssimo no assunto, muita devoção, missas cheias. São Gonçalo também , mas ficou restrito às cidades do interior, pelo menos na Bahia.
    Muito bonito o santinho, uma folha solta que deve ter andado muito até chegar ao lugar certo, a sua casa kkkk.
    São Valentim, uma boa lembrança.
    Li a postagem sobre o prato Copeland, não sabia da história, tenho um na parede aqui de casa. O jarrinho com o menino, muito legal, cafona e engraçado.
    Abraços.

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    1. Jorge

      Talvez o Jorge esteja fazer confusão com S. Nicolau, O Pai Natal, que também é patrono dos advogados.

      Por cá o 14 de Fevereiro, dia de S. Valentim é uma coisa inventada pelos Shopping centres para as pessoas gastarem dinheiro.

      A Festa de Santo António calha a 13 de Junho, época das colheitas, em que desde sempre se faziam festas populares, onde os jovens bailavam e namoravam.

      Também me encantei com esta pequena folha de S. Valentim, impressa na actual república Eslovava e que veio cá parar. Tenho ideia que no passado terá existido um florescente comércio internacional de santinhos no mundo católico.

      Um grande abraço

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    2. Oi, Luís, confundi, ou melhor, troquei são Valentim por são Ivo que é o protetor dos advogados. Nada a ver um santo com o outro.
      O dia dos namorados por aqui se comemora a 12 de junho, um dia antes do dia de santo Antonio que é o santo que promove namoros e casamentos.
      São Valentim não tem grande devoção aqui. pelo que eu saiba, não.
      Lindo o seu santinho. Guarde dentro do seu missal...é de "muito bom senhor" kkk
      Abraços, Luís.

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    3. Jorge

      Ainda nem pensei no destino a dar a esta estampa. Mas se a emoldurar coloco um vidro na parte de trás, para que possa ler também o texto do verso.

      Um abraço

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  2. Perceber a quantidade e variedade de imagens que ainda hoje existem disponíveis é inacreditável.
    Houve tempo que estas imagens deveriam ser raras, circulariam dentro de círculos restritos e privados, e ocupariam um local num sítio de oração intima e pessoal, estando provavelmente disponíveis só as que eram produzidas na época em que eram adquiridas.
    No entanto, os novos valores religiosos e as inúmeras variantes de religiões surgentes deu origem a uma mudança nos hábitos e crenças, quiçá mesmo o seu desaparecimento, o que se traduziu na eliminação desses espaços de oração privada, passando a existir disponíveis esta variedade quase infinita de peças que hoje, às centenas, inundam os mercados, e de todas as origens ou épocas.
    É algo curioso.
    Eu adquiro estas imagens de uma forma completamente descrente, pois o significado religioso para mim é perfeitamente inócuo. Admiro o desenho, a forma como os artistas da época incluíam os atributos, a imaginação que tinham na disposição da própria peça ou então verifico as fontes de inspiração.
    Também de salientar as molduras das cenas, que iam acompanhando os gostos e estilos de cada época, como é o caso dos "rocailles" desta tua.
    É muito curioso
    Manel

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    1. Manel

      Esta estampa é uma coisa modesta, de pequenas dimensões, sem grande valor artístico, mas muito curiosa, pelas histórias que se podem fazer à volta dela.

      Por exemplo esta cidade de Trnava foi a primeira Universidade da Hungria, um centro florescente de saber, que se prolongou até 1777, aquando da transferência da universidade para Buda, actual Budapeste. Embora a língua de cultura desta universidade fosse o latim, foi no seu seio que se promoveu o uso escrito do eslovaco.

      Talvez em alguma igreja desta cidade de Trnava houvesse uma capela dedicada a S. Valentim e objecto de grande devoção e esta estampa seja um testemunho disso. Enfim, ficam no ar uma série de perguntas sobre a circulação destas estampas devotas na Europa do século XVIII.

      Um abraço

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