segunda-feira, 8 de maio de 2017

L'heure bleue, par Guerlain: antiga embalagem de frasco de perfume


Coleccionar velharias significa muitas vezes recolher e catar peças que já conheceram melhores dias, isto é, chávenas que pertenceram a grandes serviços de chá, estojos de jóias vazios, frasquinhos de vidro com tampa em prata de antigas caixas de toilette, entretanto desaparecidas, ou ainda gravuras arrancadas de livros. Há sempre qualquer coisa de tremendamente sentimental no coleccionismo destes objectos tornados inúteis pelo tempo.

Talvez porque estes tesouros sem grande valor comercial sejam tantas vezes tema deste blog, um amigo meu, o Vasco, ofereceu-me uma embalagem antiga, que outrora conteve um frasco de perfume da Guerlain. Julgo que o Vasco estava também curioso em que eu publicasse aqui alguma coisa sobre esta embalagem, como seria o frasco de perfume, que em tempos guardou, bem como o nome da fragrância e alguma da sua história e de facto com as facilidades que hoje a internet nos concede, em 10 minutos de pesquisas consegui identificar o nome do perfume e conhecer alguma coisa da sua criação.
O conjunto completo. Imagem retirada de http://www.proantic.com. Infelizmente tenho apenas a embalagem.
Este perfume foi idealizado em 1911 por Jacques Guerlain, quando passeava com o seu filho nas margens do Sena, naquele momento muitas vezes mágico, que medeia entre o pôr-do-Sol e o crepúsculo, em que a luz de Paris ganha um tom azul único. Esse momento pareceu-lhe tão intenso e especial, que Jacques Guerlain sentiu que só o poderia expressar através de um perfume, e assim nasceu a hora azul, ou em francês l´heure bleue.

O perfume foi lançado um ano depois, em 1912 com um frasco desenhado por Georges Chevalier, feito em cristal de Baccarat num estilo arte nova. Quanto à embalagem, não encontrei informações sobre quem foi o responsável pela sua concepção e à primeira vista parece-nos estranho que não seja em tons de azul. Contudo, penso que há aqui uma associação entre  o nome do perfume, a hora, com os livros de horas, essas manuscritos iluminados, de que as bibliotecas e arquivos franceses possuem os mais belos exemplares do mundo. Com efeito, à semelhança de muitos dos livros de horas, que são calendários de orações iluminados com imagens dos trabalhos agrícolas por cada época do ano, também aqui, em cada face da embalagem se mostram diferentes actividades agrícolas realizadas ao longo do ano. Justifica-se assim a opção pelos tons que imitam o couro das encadernações e o pergaminho das páginas.
 L'heure bleue conheceu um enorme sucesso e tem sido fabricado interruptamente desde 1912 até aos dias de hoje, o que torna difícil datar esta embalagem. Talvez dos anos 30 do século XX ou até mesmo dos anos cinquenta, enfim, quem sabe.

Em todo caso, l'heure bleue é considerado último perfume da Belle Époque, esse período em que o brilho de Paris ofuscava o mundo inteiro. Logo dois anos depois, em 1914, começava a Primeira Guerra Mundial e já nada foi como dantes.

Quanto à minha embalagem, que agora perdeu a utilidade original, de conter o aroma dessa hora mágica de 1911, serve agora para guardar uma velha passamanaria, que comprei já nem sei aonde.



Alguns links:
https://elisadefeydeau.wordpress.com/2012/10/10/lheure-bleue-de-guerlain-a-100-ans/

11 comentários:

  1. Luís
    De novo um post cheio de alma e poesia. Também gosto de pequenos nadas que são, no entanto, plenos de histórias e sentimentos.

    if

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    1. Ivete

      Muito obrigado. Bem sei que a par de belíssimas peças de faiança ou arte sacra, a Ivete é também uma apreciadora destes pequenos nadas em papel ou cartão, mas carregados de um valor sentimental irresistível.

      À volta destas embalagens de perfume poderíamos tecer dúzia de pequenas narrativas. Quantas histórias de paixões não começaram no momento em que alguém se sentava no toucador para se perfumar com o L'heure bleue? Ainda que inconscientemente, colocar um pouco de perfume significa sempre que nos predispomos a agradar.

      Um abraço

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  2. Caro Luís
    Sempre gostei desta sua capacidade de transformar objetos singelos em posts interessantes, sobre temas, em que habitualmente não paramos para pensar. É o caso das embalagens,quase sempre injustamente ignoradas, por quem é presenteado. Exceção para bebés que frequentemente se encantam mais com o invólucro do que com o brinquedo :) Há embalagens lindíssimas e raramente nos detemos a apreciar a arte e a técnica usadas na sua conceção. Eu, por mim, vou guardando algumas, até chegar a um qualquer funesto dia de limpezas em que lá vão umas tantas para a reciclagem.
    Esta embalagem de perfume é um tesouro de bom gosto. Concordo com a sua dedução quanto à opção da cor castanha em detrimento do óbvio azul. Se um livro de horas marca momentos significativos, um perfume também. Ao perfume acrescentemos ainda a qualidade de guardar memórias. Bjs e uma boa semana
    P.S. Vou começar a olhar para velhas embalagens com outros olhos :)


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    1. Maria Paula

      De facto tenho sempre uma certa imaginação para criar uma história para objectos sobre os quais muitas vezes não há nada para dizer. Ando na rua, nos transportes ou no banho, frequentemente a pensar em associações de ideias possíveis para estas velharias, que vou por aqui apresentando. Há que entreter o espírito...

      Tenho alma de acumulador nato e interesso-me um pouco por tudo e por conseguinte tenho que ter cautela e não comprar muita tralha, como por exemplo as antigas embalagens de folha de flandres, que adoro, mas infelizmente tenho que as deixar no chão das feiras.

      As embalagens são muitas vezes criação de gráficos, pintores e designers de muita qualidade, veja-se o caso do Mucha.

      Bjos

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  3. Houve um tempo em que também apreciava as embalagens de perfume vazias, e tinha umas quantas dezenas, até que um dia ... achei que era demais e coloquei tudo porta fora.
    Qualquer dia, num futuro mais ou menos longínquo, faria seguramente as delícias de alguém, paciência. Se alguém as aproveitou fez muito bem, se não, estarão algures transformadas em cacos.
    Mas confesso que continuo a ter um certo fraquinho por frascos de perfume.
    A caixa é muito bonita, o frasco em si, nem tanto
    Manel

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    1. Manel

      O teu comentário acerca do frasco, que o achavas pouco interessante fez-me levar a procurar outra imagem e de facto, o frasco quando se encontra cheio é mais bonito porque o líquido tem a cor das antigas encadernações e o rótulo é em tons de pergaminho, em harmonia com a embalagem. Acabei por substituir a fotografia do conjunto frasco e embalagem, por outra retirada do portal francês de antiquários proantic.com.

      Um abraço

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  4. Maravilha de texto, Luís! Os perfumes da Guerlain são usados aqui pelas ricaças tradicionais. É o preferido de Beatriz Segall, a chique atriz brasileira, que diz usá-lo no pé do cabelo, o cangote. Li isto por aí, em alguma entrevista dela. KKKKK
    A caixa é linda e a serventia atual dela - guardar passamanaria - mostra que ela soube se reciclar para não ir para o lixo. Os objetos ficam por aí parecendo que querem ser resgatados. O vidro é uma coisa, é lindo, espetacular!!! Aqui na Bahia tem um cara que coleciona frascos de perfume, sabe tudo sobre o assunto e diz que os frascos são vendidos bem caros.
    Em BH comprei um vidro de um perfume em forma de boca de Dali e, coincidentemente, achei em um brechó aqui de Salvador uma réplica de plástico vazado parecendo ser uma propaganda de loja para o perfume. Até hoje não coloquei as bocas Dali no blog. Outro dia postei um frasquinho de perfume que ganhei, mas sem identificação.
    Perfume é um momento mesmo, uma hora, que pode ser azul, um instante fixado em fragrância.
    Abraços, Luís.

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    1. Jorge

      Aqui em Portugal toda a gente conhece a Beatriz Segall, uma belíssima actriz brasileira, que se especializou nos papéis de bandida. Aliás nas novelas brasileiras as grandes interpretações cabiam sempre às más, como a Joana Fomm ou a Glória Menezes, que remetiam as boazinhas ao anonimato.

      Há muita gente a colecionar frascos de perfume e com razão, pois muito deles foram assinados pelos melhores designers de um determinado período.

      Um perfume é aquele pequeno nada que marca a diferença entre o ser-se especial ou uma pessoa banal. A Chanel dizia sempre "Une femme sans parfum est une femme sans avenir".

      Abraços

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  5. Hoje em dia, todos podem comprar muitas coisas. Coisas que no passado, eram quase impossíveis. E tudo isso é muito bom. Mas perdeu-se muito glamour, as histórias acabaram ocas, pouco se tem o que contar. Chato viver sem histórias, sem detalhes, tais como um passeio pelo rio Sena ser, na verdade, uma viagem ao reino das inspirações perfumadas.

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    1. Os perfumes e as suas embalagens prestam-se a imensas histórias. Em primeiro lugar, muitos deles foram criados em Paris, numa época em que a cidade era o centro do mundo, onde fervilhavam pintores, escritores, modistas, escultores, cortesãs e todos os boémios da Europa. Toda essa essa gente encontrava na cidade luz um ambiente de criatividade, tolerância e bem entendo muita liberdade sexual. Cada uma destas personagem tem por vezes a sua história e é difícil escolher qual delas queremos seguir o traço.

      E depois o perfume é uma coisa tão abstracta, que não se vê, mas que poderá representar uma qualquer hora mágica nas nossas vidas ou no passado de gente que nunca conhecemos.

      Bjos

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    2. Sim, esta época em que Paris era o centro do mundo, foi de muita riqueza, no sentido de criação, inspiração, poesia, arte, até gastronomia. Tenho lido e visto filmes que falam deste momento.
      O perfume é uma viagem, sem tirar os pés de chão, mas que pode nos levar para outras dimensões. Uma vez, eu entrei no elevador e senti o aroma de um perfume (Calandre - Paco Rabanne) que usei na época em que era universitária. Foi um tempo em que os dias eram feitos de muitos acontecimentos e lá estava eu saltando para as lâminas dimensionais que formam e minha história. Viajei sem sair do elevador. Beijinhos.

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