sexta-feira, 26 de junho de 2020

Uma terrina neo-rocaille da Vista Alegre

 
Herdei esta terrina da minha avó paterna, bem como umas quantas peças avulsas de serviços da Vista Alegre. Estavam no Solar de Outeiro Seco e por isso tem um valor sentimental para mim, já que acabei por receber pouca coisa daquela grande casa. Quando olho para elas, ainda consigo ver a sala de jantar daquela casa, com a sua grande mesa cheia de gente, um louceiro em estilo renascença e uma mesa pequenina onde nós os miúdos comiam. Já quase que nem sei se essa recordação da sala cheia de gente é minha ou se um produto do que eu imaginei durante muitos anos a partir das histórias do meu pai. É pena do que nunca ninguém tenha fotografado ou filmado aquela divisão com o seu recheio original.

Estas peças herdadas são todas elas do 3º quartel do século XIX e apresentam uma decoração com delicadas florinhas, muito típica daquela fábrica de Ílhavo. Aliás foi a partir daí que comecei a comprar muitas peças da Vista Alegre deste período. 

A forma desta terrina é do chamado estilo neo-rocaille, posto em moda por Jacob Petit, em França, por volta de 1830 e que prolongou até cerca de 1880, altura em que os fabricantes de cerâmicas, influenciados pelas artes do Japão começaram a fabricar peças mais simples e despojadas. Se o rococó ou rocaille do século XVIII já era por si um estilo exagerado, o neo-rocaille do século XIX tornou-se então excessivo, tal era a profusão de dourados pintados sobre formas complicadas, mas este era o gosto de uma época, onde os interiores queriam-se carregados de mobília, bibelots, quadros e pesados reposteiros, cheios de berloques.
Serviço de chá neo-rocaille de Jacob Petit. Imagem retirada de https://www.etsy.com/listing/698653575/reserved-jacob-petit-o-old-paris-rococo?show_sold_out_detail=1&ref=nla_listing_details
 
Aliás a moda neorrococó ou neo-rocaille persistiu para lá da simplicidade do japonismo e em pleno século XX, as famílias continuaram a encomendar mobílias em estilo D. José para os quartos de dormir, ou a comprar salvas de prata ao gosto rocaille para exibir na sala de jantar. Aliás, resolvi acompanhar estas fotografias com algumas peças de um faqueiro em estilo D. João V, que a minha avó recebeu como prenda de casamento em 1930, numa época em que já os objectos utilitários modernistas de desenho funcional faziam furor na Europa. Mas, em 1930, as pessoas tradicionais preferiam apostar nos velhos estilos do passado do que comprar cadeiras Barcelona, ou serviços em porcelana desenhadas por artistas da Bauhaus.
 
 

Apesar da forma arrebicada neo-rocaille, esta terrina da Vista Alegre consegue ser uma peça sóbria, mediante o uso de uma decoração muito simples, só com umas rosas e umas folhinhas. Creio que conseguir adaptar as várias modas das artes decorativas com uma certa simplicidade e bom gosto foi uma característica da Vista Alegre ao longo dos tempos.

Esta terrina que é obviamente da Vista Alegre apresenta um borrão no lugar do logótipo da marca, mas parece-me que corresponderá à marca nº 20, usada entre 1870-1880. Tenho também três chávenas da mesma decoração que vieram também do Solar de Outeiro Seco e apresentam o mesmo borrão. Será que essa manchinha azul corresponderia a um código interno, indicando que se tratava de peças de segunda escolha? Enfim, quem sabe.
 
O tardoz
Também no tardoz apresenta um nº 10 inciso. Ainda pensei tratar-se da medida do diâmetro, mas nem a base nem o bojo apresentam 10 cm de diâmetro, quer à largura, quer ao comprimento. Mas na pág. 100 da obra A Fábrica da Vista Alegre : o livro do seu centenário 1824-1924. - Lisboa : Biblioteca Nacional, 1924 encontrei finalmente uma explicação para esses números incisos. Cada oleiro marcava as suas peças com um número gravado com um cunho de madeira. Igualmente há um número pintado, o nº 7, que no meu post de 30 de Março de 2020, demonstrei que não identifica uma decoração. Pela mesma lógica poderá ser o número próprio de cada pintor?

Sei que não estou a trazer muitas novidades sobre a Vista Alegre, mas nestes tempos de incertezas, partilho com todos vós algumas imagens agradáveis.
 
 
 
Alguma bibliografia:

A Fábrica da Vista Alegre : o livro do seu centenário 1824-1924. - Lisboa : Biblioteca Nacional, 1924

Le XIXe siècle français / dir. Stéphane Faniel. - Paris : Librairie Hachette, 1957. - (Connaissance des arts ; 2)

6 comentários:

  1. Respostas
    1. Cara Louca por Porcelana.

      Ainda bem que gostou e muito obrigado pelo seu comentário.

      Um abraço

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  2. Creio que foi influenciado por ti que também comecei a adquirir algumas peças com este motivo, no entanto, as minhas razões não se prendem com memórias familiares, pois, apesar dos meus pais terem tido efetivamente um serviço de jantar da Vista Alegre, que creio ter aparecido pouco depois do casamento deles, o qual se deu em meados dos anos 40, datado de época anterior, não havia nada desta fábrica, mítica e emblemática, na minha casa de família. Era cara esta porcelana e não creio que os meus antepassados tivessem posses para a adquirir, nem da VA nem outra.
    Tinham faiança rústica, possivelmente produção de Coimbra, Caldas, Aveiro, alguma do Porto (encontrei alguns pratos de Massarelos), outra, em alguma quantidade, da Sacavém, da transição do século, e era uma sorte.
    O modelo desta terrina é quase intemporal, pois até dentro do século XX, se encontram produções da VA com este formato.
    Quanto às florinhas, é que penso serem um exclusivo mais antigo, por serem pintadas à mão, e a fábrica, para ser rentável, passou a produzir serviços de jantar com outros processos de produção mais mecânica e industrial.
    Os serviços da VA que possuo hoje, um deles da transição de finais do XIX para início do XX, e ainda um outro, dos finais do XX (o serviço Índico, uma edição especial para comemorar a Exposição Mundial de 1998), foram produzidos com processos mecânicos.
    Esta tua peça é quase intemporal e muito bonita.
    Manel

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    1. Manel

      Com efeito este modelo de terrina ainda era produzido no início dos anos 80 e é conhecido por Mouzinho e nunca consegui perceber porque razão. Não me parece que seja por causa do Mouzinho da Silveira, que era um jurista, um burocrata. Será que na década de 90 do século XIX houve alguma série dedicada ao Mouzinho de Albuquerque, herói do ultramar e esta formato popularizou-se com esse nome. Mas se houve essa série nunca encontrei nenhuma à venda ou em monografias e catálogos sobre a Vista Alegre. Enfim, há ainda muita coisa por explicar sobre a Vista Alegre.

      Um abraço

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  3. Salve Luis!
    Belíssima terrina! De fato, o gosto pelos estilos consagrados perdurou muito, inclusive no Brasil. Ainda nos anos 50 do século passado se produzia moveis e objetos nos estilos manoelino, luis XIV, XV e XVI, bem como todas sorte de objetos decorativos. Tais produtos tinham um nicho de mercado estabelecido, embora no Brasil desde os anos 30 haver uma forte corrente modernista surgida à partir da semana de arte moderna de 22. Nosso jogo de copa e jantar em estilo Tudor e Luis XV respectivamente são dos anos 40 e 50. Tenho alguma peças em porcelana neo rocaille e são encantadoras, contudo ainda nos falta na coleção peças V. A. espero encontrar alguma em preço módico nos mercados de pulgas pois são, geralmente, muito caras aqui no Brasil. Abraços da fria Pelotas!

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    1. Caro Edwin

      Apesar de nos manuais de história de arte associarem os estilos revivalistas ao século XIX, na verdade estes prolongaram-se pelo século XX fora, sobretudo nas artes decorativas. Lembro-me que a minha avô tinha a casa decorada em estilo D. João V, Renascença ou Século XVII. Ainda nos anos 60, os meus pais encomendaram em Braga as suas mobílias, entalhadas manualmente. Renascença para a sala de Jantar e D. Maria para os quartos.

      Claro, pudemos afirmar que eram pessoas conservadoras, avessas às novidades, mas creio que também houve uma recusa de uma boa parte da sociedade em aceitar a frieza e o ar demasiado industrial do modernismo. Eu próprio quando vejo esses móveis modernistas da Bauhaus, associo-os sempre a hospitais ou escritórios e seria incapaz de os colocar em minha casa sem sentir que estava no interior5 de um banco ou de uma repartição pública. Tenho um ou outro móvel realmente antigo, uma mesa do XVII, uma mesa de cabeceira e uma cómoda lavatório do XIX, mas os restantes são peças do XX ao estilo século XVII. São peças de boa qualidade em madeira maciça e não os trocava por móveis modernistas, nem que estivessem assinados.

      Por cá a Vista Alegre compra-se a muito bom preço, pois os colecionadores tem valorizado mais a faiança portuguesa do que a porcelana da Vista Alegre. O colecionismo obedece a modas e gostos com uma explicação que nem sempre é linear.

      Curioso o seu abraço da fria Pelotas, pois imaginamos sempre o Brasil com um clima tropical e toda a gente em traje de praia em Copacabana ou Ipanema. São estereótipos que construímos sobre o um País gigantesco, muito diferente entre si. Há uns tempos vi uma reportagem num canal brasileiro, onde uma jornalista de S. Paulo ou do Rio de Janeiro, vestida para enfrentar o clima do Polo Norte, estava na cidade mais fria do Brasil, algures no Rio Grande do Sul, onde se previa para a noite uns zero graus!!!

      Um abraço desta cidade de Lisboa onde o Verão finamente começou

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