sexta-feira, 27 de março de 2026

Um tinteiro arte deco transformado em candeeiro


Adoro candeeiros de todos os tipos, lustres, apliques, candeeiros de mesa e são objectos que se encontram à venda nos mercados de velharias por quase nada. Já ninguém os quer. Os apartamentos modernos têm todos focos nos tectos ou mesmo que sejam velhos, rebaixam os tectos com uma placa de pladur e lá instalam essas luzes desengraçadas. Os que não têm ainda esses focos dirigem-se nas suas viaturas a uma dessas grandes superfícies nos subúrbios, do género IKEA e compram uns globos de pano para o tecto ou coisa qualquer em plástico para a mesinha de cabeceira.


Como já tenho a casa cheia de candeeiros, quando encontro peças engraçadas compro-as para oferecer, como este candeeiro de mesa, em estilo entre arte deco, com uma bonita tulipa em vidro fosco, que foi a minha prenda de anos para a minha sobrinha Maria.

Na base, há dois orifícios que se fecham ou abrem com uma tampinha

Contudo, ainda antes de a oferecer, houve dois pormenores que me chamaram a atenção. Na base, havia dois orifícios que se fechavam ou abriam com uma tampinha, o que não fazia sentido nenhum num candeeiro. Suspeitei então, que originalmente este objecto tenha sido, um tinteiro, ou mais exactamente aquilo que se designava antigamente como escrivaninha, isto é, um suporte, para conter dois recipientes em vidro ou porcelana, um para a tinta e outro ainda para o areeiro e ainda um pequeno orifício para pousar a pluma.


O candeeiro foi originalmente um tinteiro


Fiz então umas quantas pesquisas no Google e encontrei à venda num site checo de velharias uma escrivaninha igual a esta, mas ainda com a função original e marcada MADE IN FRANCE. No centro, há pequena imagem de um barco com uma inscrição onde se lê Ile de Ré. Ré é uma pequena ilha ao largo de La Rochelle, em França. Provavelmente foi um souvenir comprado nalguma lojeca por alguém, que visitou aquela ilha francesa e quem sabe se o candeeiro, que ofereci à Maria, no sítio onde actualmente está o interruptor, teria uma pequena gravura de algum monumento de França, o Sacré Coeur, a Basílica de Lourdes ou o Arco do Triunfo.

Made in France


Mas isso são especulações e o certo é que este candeeiro foi originalmente um tinteiro, fabricado em França talvez nos anos 20 ou 30 do século XX. Depois com o tempo, as canetas de aparo foram caindo em desuso, generalizaram-se as canetas de tinta permanente e finalmente as esferográficas, que dispensavam o reabastecimento manual de tinta e este objecto tornou-se obsoleto e nesse entremeio alguém teve a ideia de o transformar em candeeiro de secretária, electrificando-o e o resultado até foi muito feliz.

Este candeeiro é exemplo de como as objetos ao longo do tempo vão sendo adaptados, transformados, perdem a função original e ganham uma nova.



Ligação consultada:

terça-feira, 24 de março de 2026

Uma terrina Miragaia



Recentemente cometi mais um disparate e comprei esta enorme terrina de Miragaia. Foi barata, mas falta-lhe a tampa, as pegas estão partidas e está toda gatada, mas tenho uma paixão por esta louça decorada com o chamado motivo País. Não aparece muito no mercado, mas sempre que vejo uma com um preço aceitável compro e além desta já tenho outra terrina mais pequena, um covilhete e um prato de sopa. De modo que esta terrina continua uma pequena colecção.

Marca nº 235 do catálogo Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional Soares dos Reis, 2008 


No tardoz esta peça apresenta a marca nº 235 do catálogo Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional Soares dos Reis, 2008 e corresponde ao segundo período de laboração da fábrica, entre 1822 e 1850, em que predomina a cor azul e o já referido motivo País, uma adaptação livre e imaginativa de uma louça inglesa da Herculaneum Pottery, View in the Fort Madura, como já aqui referi em Maio de 2014.

Marcas Miragaia usadas entre 1822 e 1850. Reprodução da obra Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional Soares dos Reis, 2008


No já referido catálogo, consta uma terrina com as dimensões da minha, mas está completa, com a tampa e as pegas intactas.

Um terrina com as mesmas dimensões da minha, com em bom estado de conservação e com a tampa. Imagem reproduzida de Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional Soares dos Reis, 2008


Além da beleza da decoração azul e branca com flores e da paisagem com o casario de longínqua inspiração na Índia, o que me impressionou também nesta terrina foram as enormes dimensões. Só de comprimento tem 33 cm e ainda 25 cm de largura. Era uma peça destinada a servir à mesa uma família grande. Como tenho também um prato de sopa desta série País, tentei perceber quantos pratos serviria esta terrina, enchendo-a de água, mas como está tão velhinha e maltratada pelos seus quase duzentos anos de existência, começou logo a verter e minha experiência caiu por terra.


Esta terrina está em mau estado, incompleta e como tal não tem e nem nunca terá grande valor comercial, mas eu compro por prazer e pelo valor evocativo. Esta peça recorda-me as refeições de uma casa grande de família, que ainda conheci, servidas numa grande mesa de jantar de nogueira, à beira da qual se sentavam 10 ou 14 pessoas, enfim uma época irremediavelmente perdida.



Bibliografia:

Fábrica de Louça de Miragaia. - Porto : Museu Nacional Soares dos Reis, 2008

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Uma mulher de negócios em Chaves no século XIX


O estabelecimento dos meus quartos avós seria algures nesta rua

Regresso novamente a Chaves, ao bairro burguês da Madalena, onde na década de 30 do século XIX se instalaram como comerciantes os meus quartos avós, Vicente de Morais e Ana Maria da Conceição. No espólio da família, encontrei e inventariei um conjunto de cartas em número significativo, dirigidas a eles, que me permitiram de algum modo, reconstituir a conhecer alguns aspectos da vida destes meus remotos antepassados. Nestas epístolas não se trataram de assuntos do coração ou do espírito, nem de ternas amizades. São essencialmente cartas comerciais dirigidas a um casal de burgueses, que procuravam dirigir o seu negócio em Chaves, numa época em que as comunicações eram muito difíceis e os pagamentos se faziam todos em metal sonante.


Vicente de Morais nasceu a 1 de Janeiro de 1799 e era natural de Samaiões, uma aldeia a Sul de Chaves e a sua mulher veio ao mundo em 12 de Abril de 1808 numa localidade mais a Norte, junto à fronteira com a Galiza, com o sugestivo nome de Argemil da Raia. Os dois casaram na aldeia da noiva no dia 18 de Agosto 1825 e instalaram-se em Chaves pelo menos a partir 1835, onde a 2 de Setembro, já nasceu o primeiro filho, o José, baptizado na repartição de baixo, daquela localidade, que na altura ainda era uma vila.

Pelo menos desde 1838, Vicente de Morais já estava estabelecido como comerciante 


Vicente de Morais já estava estabelecido como comerciante em 1838, data da primeira carta de um fornecedor dirigida a ele, que tenho no espólio, um tal Sebastião José da Silva, de Braga, ao qual o meu quarto avô encomendava sobretudo ferragens, pregos, garfos. Tenho quatro cartas entre 24 de Abril de 1838 e 19 de Maio de 1838 deste negociante de Braga.

Uma dessas cartas deste fornecedor é muito engraçada, pois no destinatário alguém escreveu Sr. Bisente de Moraes, na vila de Xabes, um bom exemplo de como o velho galaico-português estava bem vivo a Norte do Rio Douro, neste século XIX, com a característica troca dos V pelo B e o CH com o mesmo valor fonético do X galego.

Sr. Bisente de Moraes, na vila de Xabes,


O comércio de ferros parece ter sido principal negócio da casa de Vicente de Morais. Tenho mais 4 cartas todas de 1850, de António Xavier Lourenço, também de Baga facturando cargas de ferro de escória de aço.

Através de uma carta de 2 de Julho de 1842 de um Lino da Cunha, sei que o estabelecimento de Vicente De Morais se situava na Rua da Ponte, na Madalena.

Em 2 de Julho de 1842 o estabelecimento de Vicente de Morais já se situava na rua da Ponte


Neste meio tempo a família de Vicente de Morais e Ana Maria da conceição foi crescendo e a 7 de Abril 1839 nasceu a Ana e a 8 de Novembro de 1840 outra menina também chamada Ana. No assento de nascimento desta última criança, os pais residiam no arrabalde em Chaves, expressão que designava na época o actual bairro da Madalena. A 28 de Janeiro de 1844 nasceu a Ermelinda e finalmente a 25 de Abril de 1846, Antónia dos Anjos, minha trisavó. Os padrinhos destas crianças foram sempre José Joaquim Teixeira e sua mulher D. Ana Ramos desta vila. Este José Joaquim Teixeira foi homem importante em Chaves, tendo sido foi vereador na câmara por duas vezes e quem sabe se não terá sido patrocinador do negócio do meu quarto avô.

Vicente de Morais era um homem alfabetizado, encontrei o registo de baptismo de uma criança em Chaves, em que ele assina como Padrinho. Também é verdade que estes burgueses tinham naturalmente que saber ler, escrever e contar para bem governar os seus estabelecimentos. Das quantas cartas que tenho dirigidas a ele, pode-se inferir que seria também homem com bens com alguma importância. Um Lino da Cunha, de Lebução, escreve-lhe em 2 de Abril 1842 acerca de dívidas que tinha com este meu antepassado e igualmente nesta localidade, Vicente de Morais teria um procurador Bernardo Agostinho Cagigal, para tratar dos seus assuntos e em duas cartas de 19 de Março e 1 de Maio de 1850, referiu testemunhas, enviando-lhe autos, que este deveria apresentar a um letrado, referindo-se certamente a um advogado e ontem como hoje, para ter casos na justiça é preciso ter dinheiro.

O meu quarto avô, Vicente de Morais faleceu a 4 de Outubro de 1851, em Chaves. No assento de óbito é dado como merceeiro e não conheço as circunstâncias da sua morte, mas o que é certo, é que não deixou testamento e seguiu-se um processo de inventário obrigatório, de que encontrei referência no Arquivo Distrital de Vila Real, PT/ADVRL/JUD/TJCCHV/C-A/082/2774.

Recibo de quitação Boaventura José de Oliveira,



Quem ficou à frente do negócio foi a viúva, Ana Maria da Conceição, e o primeiro assunto, que resolveu foram as dívidas deixadas pelo defunto marido. Esta Senhora entrou em acordo com os credores, comerciantes em Braga, em que estes prescindiram de requerer os bens do casal no processo de inventário obrigatório para evitar as despesas judiciais, em troca de um pagamento imediato em metal sonante, mas arredondando a dívida para baixo. Assim, em 26 de Maio de 1851, a Boaventura José de Oliveira, a minha antepassada pagou 139$765 réis em vez do total da dívida de 172$263. A quantia no referido metal sonante foi entregue por intermédio de Manuel Joaquim da Silva Bravo, pois esta gente não usava bancos, transferências bancárias ou papel moeda. Alguns dias depois, a 5 de Junho de 1851, idêntico acordo foi estabelecido com António Xavier Lourenço da Costa, também de Braga, em que este aceitou receber em metal sonante 200$000 réis em vez de do total da dívida, 234$155 réis. O pagamento foi também feito em mão por Manuel Joaquim da Silva Bravo.

Estas negociações fazem-me pensar que a Ana Maria da Conceição seria uma mulher determinada e de pulso e com efeito a partir desta data é ela a patroa do negócio da loja da Rua da Ponte na Madalena e toda correspondência é dirigida a ela.

Depois de 1851, continuará a dedicar-se a venda de artigos metálicos, que encomendava em Braga, a António José Gomes Duarte, que teria a sua casa, na estrada do Carmo, em São Paio de Merelim, uma localidade próxima da cidade dos arcebispos. Entre 5 de Abril de 1862 e 20 de Fevereiro de 1871 a minha tetravó recebeu 17 cartas, deste senhor, que são na verdade facturas, referentes por exemplo a um costal de pregage sortido, tachas, garfos de vários tamanhos, colheres solteiras ou um milheiro de tacha sueca. Um costal é termo antigo para um saco ou fardo e o milheiro uma unidade de medida, que conteria cerca de mil pregos. A Ana Maria da Conceição conferia todas as facturas, anotando Recebi a fazenda que diz esta factura e ainda Remeti pelo almocreve Sr. Manuel Teixeira no dia 11 de Outubro de 1866 a quantia de 51$845 réis. O transporte das mercadorias era feito por almocreves, que se encarregavam também de receber os pagamentos e de os entregar ao fornecedor em Braga e imagino as dificuldades destas viagens de carroça, de burro ou mula, através das serranias entre aquela cidade e Chaves.

No final da factura há uma nota de Ana Maria da Conceição Remeti pelo almocreve Sr. Manuel Teixeira no dia 11 de Outubro de 1866 a quantia de 51$845 réis.



Mas voltando ao assunto, a minha quarta avó encomendava também em Braga mercearias a José António Faria e no espólio constam 35 cartas entre 1876 e 1878 deste negociante, que são facturas referentes ao bacalhau da Noruega, o principal produto, mas também macarrão, resmas de papel de embrulho, garfos, petróleo, arroz, açúcar branco e ração boa. Mais uma vez estas mercadorias chegavam através dos almocreves, que recebiam também o pagamento.

Carta de José António Faria remetendo dois quintais de bacalhau


Da cidade dos arcebispos, Ana Maria da Conceição mandava vir para o seu estabelecimento chapéus a dois fornecedores distintos, António José Gonçalves e António José da Costa e em 1872 recebeu inúmeros chapéus para meninos, chapéus janotas ou de fivela, todos de vários tamanhos. Nesta década de 70 do século XIX Braga era o grande centro de fabrico de chapéus, que estavam todos concentrados no bairro de São Vítor. Só muito mais tarde é que São João da Madeira se tornou-se a capital do chapéu.

Desta forma comecei aos poucos a aperceber-me que o estabelecimento na Rua da Ponte de Ana Maria da Conceição era um comércio generalista, desses que até há pouco tempo existiam ainda em toda as terras de província, que vendiam de tudo um pouco.

Mas a minha quarta avó encomendava igualmente produtos de Vila Real, como arroz inglês (carta de 1873-08-02), mas também da Régua, como caixas de sabão Roriz, que dessa terra eram também transportados até Chaves numa carroça ou no dorso de uma mula. Nessa terra a Senhora disponha de um intermediário, Pedro Chasse, que se encarrega de organizar o transporte e contratar os almocreves (cartas de 1875).

Mas as fazendas vinham de mais longe ainda, da cidade do Porto, do armazém de mercearia Pinho e Irmão, 17, Rua de São João 21, que abastecia a loja da Ana Maria da Conceição de canela, pimenta, cominhos, mas também de bacalhau e arroz, sacas grossas e cordas de vários feitios (cartas de 1886) ou ainda do Romão Rodrigues de Pinho, Rua do Almada, 44 e 68, e estabelecimento especializado em ferro, aço, carvão, ferragens, pregos para exportação e materiais de construção (carta de 1876-12-18)

Como já referi anteriormente, o transporte destas fazendas era moroso e complicado. O caminho de ferro só chegou à Régua em 1879, a Vila Real em 1906 e a Chaves só em 1921! Havia também portagens para os produtos que entravam e saíam da cidade do Porto e no espólio encontrava-se um desses documentos, uma taxa que a minha antepassa pagou em 6 de Fevereiro 1882 por duas sacas de arroz. Esse imposto designava-se pelo Real de Água.

O Real de Água pago na Alfândega do Porto a 6 de Fevereiro 1882 por duas sacas de arroz



Talvez para contornar essas dificuldades, a minha tetravó contava com um parceiro comercial, como se diria hoje em dia, o seu cunhado, Francisco José de Morais. Deste irmão de Vicente de Morais não encontrei o registo de nascimento. Os meus quintos avós, José de Morais e Antónia da Costa, casados em 25 de Agosto de 1790 tiveram três filhos, o Vicente, nascido a 1 de Janeiro de 1799, o João em 7 de Março de 1802 e a Carlota, 16 e Julho de 1803. Este Francisco José nasceu noutra paróquia, ou era bastardo ou ainda filho de outro casamento.

Guia emitida por Francisco José de Morais a sua Cunhada para pagar 47$065 réis a José Caetano Pereira, 2º sargento da 1ª Companhia de Administração Militar

Mas o que interessa é que este Francisco José de Morais comprava no Porto em seu nome os produtos que minha quarta avó, comercializava na sua loja, como sabão da Saboaria Hespanhola de José Júlio Bouças, Rua do Bom Jardim, 236 (carta de 1872-06-01) ou aço no Romão Rodrigues de Pinho, Rua do Almada, 44 e 68 e fazia chegar as facturas à sua cunhada em Chaves e assegurava os pagamentos aos fornecedores da cidade do Porto, que como era hábito na época, só aceitavam pagamentos em metal sonante. Assim entre 1864-07-28 e 1876-10-30, contei um total de 20 cartas no espólio, que são basicamente umas guias que Francisco José emitia a pessoas da sua confiança, em trânsito entre o Porto e Chaves, para cunhada lhes entregar dinheiro, que posteriormente lhe seria devolvido, certamente destinado ao pagamento dos fornecedores do Porto ou para o reembolsar de adiantamentos que ele próprio teria feito. Talvez estes indivíduos fossem mais de confiança que os almocreves. A maioria deles eram militares, muitos da 1º companhia da administração militar. Aliás, estes conhecimentos no meio castrense fazem-me suspeitar que o Francisco José seria também um militar a cumprir serviço no Porto, mas no Arquivo Histórico do Exército nunca encontrei uma referência inequívoca a este meu tio tetravô. Nesse arquivo constam muitos homens com o nome Francisco José de Morais, alguns do Distrito de Vila Real, mas os dados de filiação, nascimento e datas não batem certo. Mas este meu antepassado sabia de contabilidade e numa das cartas que escreve à sua prezada cunhada (2 de Julho de 1872), apresentou-lhe um mapa de contas, com aspecto muito profissional, revelador de quem sabia muito bem o ofício. Estaria ele na administração militar nalguma secção de contabilidade?


Mapa com o deve e o há de haver elaborado por Francisco José de Morais em 2 de Julho de 1872. Parece ser um documento elaborado por um profissional de contas


Enfim não sei nada deste remoto tio. Quanto à Ana Maria da Conceição, continuou activa à frente do seu estabelecimento até quase ao final dos seus dias. A última carta que lhe é endereçada data de 1886 e a Senhora virá a falecer em 1887.

Estas quantas cartas de natureza essencialmente comercial que sobreviveram, pois muitas outras terão servido para acender o fogo, proporcionam um quadro do que era o comércio numa vila do extremo Norte de Portugal, Chaves, onde os transportes de mercadorias se faziam no dorso de uma mula ou em cima de uma carroça, conduzidas por almocreves. Estes negociantes não usavam os bancos, que já tinham feito à sua aparição e os pagamentos eram feitos em metal sonante, o que colocava problema logísticos complicados, como confiar que os almocreves recebessem e entregassem as moedas ou em intermediários em trânsito entre Chaves e o Porto. Havia também portagens à entrada das cidades que taxavam as fazendas.

Estas cartas sobreviveram ao tempo escapando ao destino de servirem para acender o fogo


Estas cartas desfazem algumas ideias feitas sobre a condição da mulher no século XIX. Pensamos sempre que as fidalgas bordavam, tocavam piano, falavam francês e as outras, das restantes classes sociais cerziam meias, cuidavam dos filhos e apanhavam pancada dos maridos. Mas estas burguesas eram alfabetizadas, ajudavam os maridos nas lojas e quando estes morriam estavam habilitadas a gerir o negócio com desenvoltura e ainda educar os filhos, como fez esta Ana Maria da Conceição, minha quarta avó.

Genealogia dos Alves e dos Morais


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Uma jarra de faiança portuguesa do séc. XIX



Nos últimos tempos tenho escrito pouco sobre faiança portuguesa e não é porque tenha perdido o entusiasmo pelo assunto. Mas colecionar faiança exige muito espaço, coisa que na minha antiga casa de assoalhada e meia me faltava. Se os pratos e as travessas podem ir para a parede onde há sempre lugar para mais um, jarras, terrinas ou canudos têm que ser expostos em prateleiras e só terrinas em faiança tenho pelo menos uma seis, fora as de porcelana, mas isso é outra história. Também é verdade, que como a faiança portuguesa raramente é marcada, faltam-me elementos para escrever textos com informação significativa sobre as peças.


A jarra não apresenta marca


Mas, o meu amigo Manel ofereceu-me nos anos uma jarra de faiança azul e branca de que gostei tanto, que resolvi apresenta-la aqui, embora não esteja marcada. Desde logo me pareceu uma peça de meados do século XIX e da Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, em Gaia. Com efeito, já folheei tantas vezes a tese de mestrado Laura Cristina Peixoto de Sousa sobre aquela fábrica, que tenho presente na memória, muitas imagens que publicou e tinha quase a certeza de lá ter visto uma jarra igual ou semelhante a esta.

Imagem retirada de A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista. / Laura Cristina Peixoto de Sousa, 2013


Voltei a consultar esta tese, em que autora relaciona os achados das escavações arqueológicas no local da antiga fábrica, mais exatamente num tanque atulhado em 1848, com as peças existente nos museus portugueses. E com efeito, na parte dedicada ao Museu Nacional Soares dos Reis consta uma jarra inventariada com o número 408 Cer CMP/ MNSR muito semelhante a minha, que se atribui à Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, embora não esteja marcada.

Essa mesma jarra já tinha sido reproduzida no catálogo da exposição Céramique du Portugal du XVIe au XXe siècle, de 2004, já então era atribuída aquela fábrica de Gaia e datada do segundo quartel do século XIX.

Imagem retirada de Céramique du Portugal du XVIe au XXe siècle = Cerâmica portuguesa do século XVI ao século XX



A decoração e a forma são muito idênticas à minha, só que jarra do Museu Nacional de Soares dos Reis apresenta umas asas.

Procurei obter mais informações no inventário geral dos museus nacionais portugueses, o Raiz e com efeito encontrei na colecção daquele museu do Porto, mais umas jarras com decoração e formas muito semelhante à minha, mas nas fichas descritivas a informação é escassa e no centro de fabrico consta apenas Vila Nova de Gaia, com uma interrogação.

Jarra da colecção do Museu Nacional Soares dos Reis, inv. 748 Cer CMP/ MNSR


Em suma, é provável que esta jarra tenha saído da Fábrica de Santo António de Vale da Piedade, no segundo quartel do século XIX, mas não é possível ter a certeza. Quem está familiarizado com a faiança portuguesa do século XIX sabe bem que as produções das fábricas do Porto e Gaia eram muitas vezes semelhantes entre si e por consequência esta jarra poderá também ser de outra manufactura dessas duas cidades.




Alguma bibliografia e ligações consultadas:

A Fábrica de Louça de Santo António de Vale de Piedade, em Gaia: arquitetura, espaços e produção semi-industrial oitocentista. / Laura Cristina Peixoto de Sousa, 2013 https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/75570?mode=full

Céramique du Portugal du XVIe au XXe siècle = Cerâmica portuguesa do século XVI ao século XX / coord. científica Roland Blaettler, Paulo Henriques ; textos de Roland Blaettler, João Pedro Monteiro, Alexandre Nobre Pais, Margarida Revelo Pinto e Paulo Henriques . - Lisboa : Museu Nacional do Azulejo, 2004

Raiz, bens culturais on-line

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Dois oveiros da Vista Alegre do século XIX


Apesar de agora viver numa casa relativamente grande, continuo com o hábito de comprar coisas pequenas. Isto deve ter a ver com qualquer coisa profunda da psicologia, talvez com um desejo inconsciente de continuar a rodear-me de pequenas coisas à medida do mundo da minha infância.

A marca nº 17, usada entre 1870-1880


Desta forma, na última feira de Estremoz comprei por um preço muito simpático dois oveiros da Vista Alegre, com a marca nº 17, usada entre 1870-1880. Como o nome indica, estas peças eram usadas para servir ovos, que eram previamente cozidos, mas de forma a deixar as gemas mais ou menos líquidas e eram comidos com o auxílio de uma pequena colher de chá. Creio que aqui em Portugal este hábito de comer assim os ovos nunca esteve muito difundido e os oveiros são uma tipologia, que aparece pouco no mercado de velharias, embora se fossem fabricando. O meu amigo Manel tem um de faiança da fábrica de Viana e na base de dados dos museus nacionais o Raiz encontrei um de Miragaia e ainda um conjunto da Vista Alegre do Palácio Nacional da Ajuda. Estes últimos apresentam exactamente o mesmo formato dos meus, mas claro com uma decoração mais refinada pois estavam ao serviço da casa Real.

A marca nº 17, usada entre 1870-1880


Talvez por serem pouco usados, os oveiros aparecem mencionados aqui e acolá com diferentes designações, como suporte para ovos, ou ainda copo para ovos. Mas António Cota Fevereiro, que estudou os documentos das encomendas da Casa Real à fábrica da Vista Alegre, neles encontrou sempre estas peças designadas como oveiros, que será portanto o termo mais correcto.

Os oveiros são ligeiramente inclinados


Estes dois oveiros apresentam uma característica curiosa, que é visível na fotografia, foram fabricados tortos, com uma inclinação para um dos lados. Já encontrei essa particularidade em chávenas mais antigas da Vista Alegre, que no início tomei como defeito de fabrico, mas creio que terá ver como uma razão funcional, que me escapa, talvez para no momento depois da lavagem, água escorre-se melhor ou para verter melhor o creme da gema ou do chá. Enfim, não sei.

Quanto à decoração com florinhas e alguns apontamentos de dourado foi típica da Vista Alegre durante dezenas de anos. Os mestres desta fábrica inspiraram-se nos modelos da porcelana francesa, mas simplificaram-nos e o resultado é uma pintura delicada, mas sem afectação, nas palavras felizes de Maria de Azevedo Coutinho, em Vista Alegre: porcelanas. – Lisboa: INAPA, 1989.




Ligações consultadas e alguma bibliografia:

A Real Fabrica de Porcelana da Vista Alegre, o rei D. Fernando II e a condessa d’Edla, parte 2 / António Cota Fevereiro



Vista Alegre: porcelanas. – Lisboa: INAPA, 1989.